Autor: André Comte-Sponville
Fonte: O Espírito do Ateísmo, págs 113-116
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Meu quinto argumento para justificar meu ateísmo concerne menos ao mundo do que aos humanos: quanto mais os conheço, menos posso crer em Deus. Digamos que não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral, e de mim mesmo em particular, para imaginar que um Deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo. É mediocridade demais por toda parte. Pequenez demais. Nulidade [dénéantise] demais, como dizia Montaigne. Vanidade demais, como ele também diz (“De todas as vanidades, a mais vã é o homem”). Que belo resultado para um ser onipotente! Você me dirá que Deus talvez tenha feito coisa melhor em outros domínios… Admitamos. Mas será essa uma razão para se contentar com tão pouco neste? O que você diria de um artista que, a pretexto de ter feito algumas obras primas, pretendesse lhe vender os seus refugos? Pode ser que isso não seja raro em nossos artistas, mas não é aceitável num Ser supostamente onipotente e infinitamente bom… Enfim, a idéia de que Deus tenha podido consentir em criar tamanha mediocridade – o ser humano – me parece, mais uma vez, de uma plausibilidade baixíssima.
“Deus criou o homem à sua imagem”, lemos no Gênesis. Isso nos faz duvidar do original. Parece-me muito mais concebível, muito mais sugestivo, muito mais verossímil que o homem descenda do macaco. Darwin, mestre de misericórdia.
Devemos por isso dar razão aos misantropos? De jeito nenhum! O homem não é entranhadamente mau. Ele é entranhadamente medíocre, mas não tem culpa disso. Ele faz o que pode com o que tem ou o que é, e ele não é grande coisa, e não pode muito. É o que nos deve tornar indulgentes em relação a ele, às vezes até mesmo admirativos. O materialismo, dizia La Mettrie, é o antídoto da misantropia: é porque os homens são animais que não vale a pena odia-los, nem tampouco despreza-los. Como cópias de Deus, seríamos ridículos ou inquietantes. Como animais produzidos pela natureza, não somos de todo desprovidos de qualidades e méritos. Partimos de tão baixo! Quem poderia adivinhar, cem mil anos atrás, que aquelas espécies de grandes símios iriam à Lua, gerariam Michelângelo e Mozart, Shakespeare e Einstein, que inventariam os direitos humanos e até os direitos dos animais? Nós lutamos, por exemplo, para proteger as baleias e os elefantes. Temos razão. Mas imaginem que a humanidade se torne, isso talvez venha a acontecer, uma espécie em extinção: baleias ou elefantes não levantariam a nadadeira ou a tromba para nos preservar. A ecologia é própria do homem (sim, apesar da poluição, ou antes, por causa dela), e os direitos dos animais, inclusive, só existem para os humanos. Isso diz muito sobre nossa espécie.
Religião do homem? Claro que não. Que péssimo deus ele daria! O humanismo não é uma religião, é uma moral (a qual inclui também nossos deveres para com as outras espécies animais). O homem não é nosso Deus; ele é nosso próximo. A humanidade não é nossa Igreja, mas nossa exigência. Trata-se, repitamos com Montaigne, de “fazer bem o homem”", e nunca se para de fazê-lo! Humanismo sem ilusões, e de salvaguarda. Devemos perdoar os homens – e nós mesmos – por serem apenas o que são. Nem anjos, nem bestas, como diz Montaigne antes de Pascal, nem escravos nem super-homens: “Eles querem se pôr fora de si e escapar do homem. É loucura: em vez de se transformar em anjos, eles se transformam em bestas; em vez de se elevar, eles se rebaixam. Esses humores transcendentes me assustam, tal como os lugares altos e inacessíveis.” A lucidez basta, e é melhor.
Finitude do homem: exceção do homem. O mesmo homo sapiens, que não seria mais do que uma imitação grotesca de Deus, é o mais extraordinário, de longe, de todos os animais: ele tem um cérebro espantosamente complexo e eficiente; é capaz de amor, de revolta de criação; inventou as ciências e as artes, a moral e o direito, a religião e a irreligião, a filosofia e o humor, a gastronomia e o erotismo… Não é pouco! O que ele fez de melhor, nenhum animal teria feito. O que ele fez de pior, também não. Isso diz bastante sobre sua singularidade. Daí a imagina-lo criado por um Deus… Como? Toda essa mesquinharia, todo esse narcisismo, todo esse egoísmo, todas essas pequenas rivalidades, esses pequenos ódios, esses pequenos rancores, essas pequenas invejas, esses pequenos divertimentos, essas pequenas satisfações de conforto ou de amor-próprio, essas pequenas covardias, essas pequenas ou grandes ignomínias – seria necessário um Deus para explicar isso? Coitado! Como ele deve se chatear, se existir, se é que não se envergonha! Veja nossos principais canais de televisão, basta ver somente um dia, e – diante de tanta bsteira, violência vulgaridade – pergunte-se simplesmente: como é que um Ser onipotente e onisciente poderia querer isto? Você vai me dizer que não é Deus que faz os programas. Sem dúvida. Mas ele é que teria criado a humanidade, a qual dá ibope aos programas… Como, diante de tamanha mediocridade das criaturas, ainda crer na infinita perfeição de um Criador?
Estou carregando nas tintas? Não muito, parece-me. Estou simplificando, tenho de faze-lo, estou abreviando, digamos que, para ir mais depressa, examino apenas um lado da questão. Sei que também existem (e, às vezes, está na televisão) obras-primas, gênios, heróis; enfim, dentre alguns verdadeiros canalhas, uma larga maioria de gente de bem. Mas esses dois lados da humanidade, sombra e luz, grandeza e miséria, em se tratando de nosso debate, não tem a mesma pertinência, nem a mesma força. A miséria do homem, como diz Pascal, me parece muito mais incompatível com sua origem divina do que sua grandeza com sua origem natural! O fato de sermos capazes de amor e de coragem, de inteligência e de compaixão, isso a seleção natural pode bastar para explicar: são vantagens seletivas, que tornam a transmissão de nossos genes mais provável. Mas que sejamos a tal ponto capazes de ódio, de violência e de mesquinharia, isso (que o darwinismo explica sem dificuldade) me parece exceder os recursos de qualquer teologia. É inútil explicar que não sou exceção. Quando mais eu me conheço, menos posso crer em nossa origem divina. E, quanto mais conheço os outros, menos a coisa se arranja… Crer em Deus, escrevi em algum lugar, é pecado de orgulho. Seria atribuir a nós mesmos uma causa muito grande para um efeito tão pequeno. O ateísmo, ao contrário, é uma forma de humildade. Somos filhos da terra (humus, de onde vem “humildade”), e dá para sentir essa filiação… Mais vale assumi-la e inventar o céu que corresponda a ela.
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