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7. É NECESSÁRIO QUE A CAUSA PRIMEIRA SEJA UMA PESSOA?

por Wes Morriston

Nosso último tópico é o argumento em que Craig afirma que a Causa Primeira do universo deve ser uma pessoa. É um argumento difícil, e Craig o expõe de maneira bem resumida. Em linhas gerais, ele se desenvolve aproximadamente assim:

Nós sabemos que a causa do início do universo (ou seja lá o que o primeiro evento tenha sido) deve ser eterna. Do contrário, seria uma das coisas que começaram a existir, e necessitaria tanto de uma causa como o próprio universo.

Agora, as causas naturais – causas “mecânicas”, como Craig às vezes as denomina[22] – são suficientes para seus efeitos. Elas produzem seus efeitos tão logo certas condições relevantes sejam atendidas. Por isso, se esse tipo de causa não tivesse um começo, seu efeito também não teria um começo. Por exemplo, se a temperatura estiver fria o suficiente e pelo tempo suficiente, qualquer porção de água em volta irá necessariamente congelar. Portanto, se sempre houve água a uma temperatura menor do que 0°, ela sempre teria estado congelada.

A questão é que se uma causa for suficiente para seu efeito, e a causa for eterna, o efeito precisa ser eterno também. E se tivermos esse tipo de causa para o universo, ele também  precisaria ser eterno.

Craig pensa que mostrou que o universo não é eterno. Como então, ele pergunta, o universo poderia ter uma causa eterna? Acabamos de ver que ele não poderia ter uma causa eterna “mecânica”. Mas que outro tipo de causa eterna poderia ser?

Craig pensa que existe um outro tipo familiar de causa que oferece uma resposta para essa questão. Além das causas mecânicas que automaticamente produzem seus efeitos, eles diz que existem as causas pessoais. Os indivíduos  são agentes livres que têm o poder de causar toda sorte de coisas. Mas eles não precisam causa-las necessariamente, sendo plenamente capazes de existir sem produzir os vários efeitos que são capazes de causar.

Suponha, por exemplo, um homem que está sentado. Ele pode, a qualquer momento, decidir levantar-se, mas também pode escolher permanecer sentado. Ele tem o poder para decidir a maneira de agir – cabendo inteiramente a ele determinar quando ou mesmo se vai ou não levantar-se. Se ele decide levantar-se, então ele, sozinho, é a causa de sua decisão. Diferente de uma causa meramente mecânica, este homem pode existir plenamente sem exercer seu poder de produzir os vários efeitos dos quais ele é a causa.

Essa é uma afirmação completamente controversa. Muitos filósofos acreditam que a verdadeira causa da decisão de uma pessoa não é simplesmente a própria pessoa, mas vários outros fatores psicológicos operando dentro da pessoa – como crenças, valores e preferências, sendo estes por sua vez produtos de outras causas. Ao contrário destes filósofos, Craig afirma que uma pessoa – e não alguma outra coisa ocorrendo dentro dela – é a única e exclusiva causa de suas próprias decisões. Numa situação exatamente equivalente, com exatamente os mesmos desejos e crenças presentes, nosso homem sentado poderia decidir tanto manter-se sentado como levantar-se.

Vamos supor, apenas a título de argumentação, que Craig esteja certo sobre isso. Isso implica que existem pelo menos dois tipos radicalmente diferentes de causação no mundo. Por um lado, há as causas mecânicas que não podem deixar de acarretar seus efeitos; por outro lado, temos as causas pessoais que têm o poder de produzir seus efeitos, sendo livres para determinar como, quando ou mesmo se irão exercer esse poder.

Diante deste embasamento teórico, podemos ver por que Craig pensa que a Causa Primeira precisa ser uma pessoa. Como, ele pergunta, a causa do universo pode ser eterna, embora o próprio universo não o seja? Já vimos que uma causa eterna mecânica poderia ter apenas um efeito eterno. Mas o que dizer sobre uma causa eterna pessoal? Craig pensa que uma pessoa eterna pode causar um efeito temporal. Aqui está sua explicação.

… um homem sentado desde sempre pode desejar levantar-se; portanto, um efeito temporal poderia surgir de um agente que sempre existiu. De fato, um agente pode desejar desde sempre criar um efeito temporal, de forma que nenhuma mudança no agente precise ser concebida.[23]

Suponha, então, que a causa do universo seja uma pessoa eterna. Isso não implica que o universo é eterno – já que a causa pessoal do universo pode ter “desejado desde sempre” produzir um universo com um começo no tempo. Craig pensa que essa é a única maneira de explicar por que o universo não é eterno:

A única maneira de termos uma causa eterna e um efeito temporal parece ser com uma causa que é um agente pessoal que livremente escolhe criar um efeito no tempo.[24]

Existem várias questões difíceis aqui. A causação pessoal opera da forma que Craig pensa? Ou ela é sempre analizável em termos de outras coisas ocorrendo dentro da pessoa? A causação pessoal é a única alternativa para a causação mecânica? Ou poderia haver algum outro tipo de “causa eterna” que não necessariamente produziria um efeito eterno? Não aprofundar-me-ei nessas questões aqui, mas existe outra objeção ao argumento de Craig que eu gostaria de desenvolver. E para ver como esta linha de argumentação funciona, precisamos voltar um pouco e olhar mais de perto a maneira pela qual as pessoas estão relacionadas com as ações que elas causam.

Quando uma pessoa se levanta, ela faz seu corpo se mover. Mas ela faz isso produzindo uma outra mudança em si mesma – uma mudança mental. Ela decide que agora é hora de levantar-se – criando a intenção de levantar-se imediatamente – e esta mudança mental causa a mudança na posição do corpo. Embora uma pessoa possa ficar sentada em um banco por um bom tempo sem decidir levantar-se, tão logo é tomada sua decisão de “levantar-se agora”, tal decisão produz seu efeito imediatamente – mais rápido até do que o congelamento da água por uma temperatura abaixo de zero.

Então, como ficaria essa questão envolvendo Deus e a Criação? Aparentemente, Deus deve escolher criar, ou nada irá ocorrer. Essa escolha de Deus é a causa imediata do início do universo. Deus escolhe criar o universo, e o universo passa a existir. Você poderia pensar que a escolha de Deus seja uma mudança mental em Deus. Deus pensa sobre isso, e então decide criar. Mas Craig nega que seja dessa forma.

Com “escolha” não quero dizer que Deus modifique Sua mente. Eu quero dizer que Deus tencionou eternamente criar um mundo no tempo.[25]

Não é difícil de ver por que Craig não quer dizer que “escolher criar” é uma mudança em Deus. O Deus proposto por Craig é onisciente. Ele não pode tomar decisões da forma que você e eu tomamos, porque ele sempre sabe de antemão o que ainda vai fazer. (Você não chega a uma decisão a respeito do que fazer se você já souber o que irá fazer.) Então, naturalmente, Craig conclui que a decisão de Deus é eterna – e que Ele “tencionou desde a eternidade criar um mundo.”

Mas isso cria um problema diferente para a explicação de Craig sobre a criação. Vimos que a decisão de Deus de criar é a causa imediata do universo. Mas agora aprendemos que a decisão de Deus de criar é eterna. Então como, pelos princípios de Craig, poderemos evitar a conclusão de que o universo é tão eterno quanto a decisão de Deus de criá-lo?

Na verdade, Craig também diz, “Deus escolhe eternamente criar um mundo com um início.”[26] Mas é difícil ver como isso é possível. Você irá recordar que o argumento de Craig para mostrar que a Causa Primeira deve ser uma pessoa assume que:

a. Uma causa eterna suficiente precisa ter um efeito eterno.

Mas, presumivelmente, Craig não pensa que Deus precise de qualquer ajuda para iniciar a criação. Então, é natural supor que :

b. A escolha de Deus de criar “um mundo com um início” é suficiente para produzi-lo.

Mas já aprendemos que :

c. A escolha de Deus de criar “um mundo com um início” é eterna.

Dessas três premissas temos que:

d. “Um mundo com um início” é eterno.

Essa conclusão é obviamente absurda. Um “mundo com um início” não pode ser eterno. Então, uma vez que d resulta das premissas a, b e c, uma delas deve ser falsa. Mas qual? A resposta de Craig dá a impressão de que b é falsa.

Estou inclinado a simplesmente negar que a eterna vontade de Deus de criar o universo, adequadamente compreendida, seja suficiente para a existência do universo…[27]

Como isso é possível? Certamente, Craig não acha que Deus falha em realizar o que ele “eternamente escolhe.” Aqui vai sua explicação:

… [N]ão é suficiente explicar a origem do universo citando apenas Deus, sua intenção atemporal de criar o mundo com um início, e seu poder de produzir tal resultado. Deve haver um exercício de Seu poder causal a fim de que o universo seja criado. … [Devemos] diferenciar entre a intenção atemporal de Deus de criar um mundo temporal e o ato divino de criar um mundo temporal.[28]

Craig agora distingue a eterna vontade de Deus de criar um mundo de seu exercício real do poder de fazer o que almeja – Sua eterna intenção de criar de Seu “ato” de cumprir sua intenção. O “ato” de criar o universo é presumivelmente suficiente para a existência do universo, e o universo passa a existir “tão logo” Deus o “empreende”. Mas isso não torna o universo eterno porque o “ato” (ao contrário da intenção original) não é eterno. Já que Deus Se coloca no tempo ao “empreender” a criação do universo, Seu “empreendimento” criativo ocorre no primeiro momento do tempo. Este é, por assim dizer, o primeiro dos eventos que Deus causa.

Mas isto não faz nada além de empurrar o problema para a relação entre a eterna vontade de Deus e o “ato” de executar Sua intenção anterior. Se a vontade de Deus de criar é suficiente para Sua empresa criativa, então, pelos princípios do próprio Craig, o ato deve ser eterno, caso em que, mais uma vez, o universo deve ser eterno. Portanto, Craig tem que negar, não apenas que a eterna vontade de Deus seja suficiente para a existência do universo, como também que ela seja suficiente para Seu empreendimento de criar o universo. Mas isso possui qualquer plausibilidade?

Penso que não. É bastante fácil ver que a vontade de uma pessoa meramente humana é com frequência insuficiente para levá-lo a fazer o que almeja. Existem pelo menos duas razões para isso. Você e eu podemos tencionar fazer alguma coisa mais tarde, mas até a hora escolhida chegar, não faremos qualquer coisa acerca de nossa intenção inicial. Esta tarde, por exemplo, pretendo ir até uma certa loja comprar vitaminas. Eu ainda não fui, pois o momento que escolhi para esta atividade ainda não chegou. Mas até que o momento apropriado chegue, poderei mudar de ideia e não ir. Essa é a segunda razão para afirmar que a vontade de uma pessoa humana é insuficiente para a efetiva realização do que foi tencionado. Seres humanos possuem desejos que são mutáveis e inconstantes. As vezes eles até mesmo padecem de fraqueza da vontade, e fracassam em fazer o que eles ( sinceramente, talvez) almejavam fazer, mesmo nos casos em que o tempo de agir já passou.

É óbvio que nenhuma dessas explicações sobre as lacunas entre a volição e a execução do que foi tencionado aplicam-se ao tipo de Deus em que Craig acredita – um Deus que é onipotente, onisciente e atemporal. Um Ser onipotente não pode padecer de fraqueza da vontade. Um Ser onisciente não pode mudar de idéia. E de um Ser atemporal não faz sentido dizer que ele “procrastine” a efetiva execução de suas intenções. De forma que é difícílimo entender realmente como a eterna vontade de Deus pode não ser suficiente para causar o ato desejado, caso em que também seria suficiente para o início do universo. Dos princípios do próprio Craig, portanto, resulta que o universo é eterno.

8. CONCLUSÃO

Eu tentei mostrar que o argumento kalam não é bem sucedido na tentativa provar a existência de Deus ou a criação ex nihilo. Isso não significa, é claro, que tenho uma teoria melhor sobre a origem do universo a oferecer. A meu ver, simplesmente não sabemos o suficiente para tirar conclusões firmes sobre tais questões. É divertido especular, mas não podemos esperar que qualquer pessoa honesta, racional e bem informada seja obrigada a aceitar nossas respostas. A maioria de nós possui intuições diferentes, ou mesmo conflitantes, a respeito do tempo e da eternidade, causação e agência, sobre a natureza da pessoalidade, e sobre muitas outras questões. É uma ilusão supor que existe uma única e óbvia maneira correta de pensar coerentemente sobre todas essas coisas. E é por isso que a história da filosofia é, e continuará sendo, uma história de disputas, controvérsias…e diversão.[29]

Questões sobre o artigo

1. Craig afirma que Deus “tenciona desde a eternidade” criar o universo no tempo. Ele também alega que uma causa eterna que é suficiente para seu efeito deve produzir um efeito eterno. Por que Morriston acha esta combinação de alegações problemática?

2. A distinção de Craig entre causação “mecânica” e “pessoal” se sustenta? Ou seria a causação pessoal no fundo apenas outro tipo de causação mecânica?

3. Diversos físicos acreditam que existe aleatoriedade genuína no nível das partículas subatômicas. Por exemplo, se você perguntar por que um átomo de urânio desintegrou-se num determinado momento, a resposta é que em qualquer momento específico a probabilidade é de uma em 10^32 de que uma “partícula alfa” irá “escapar” do núcleo desse átomo. E que isso é tudoo que há para dizer. Pode isto oferecer um modelo para a origem do universo diferente do que Craig considera em sua leitura?

Notas.

[22] “The Existence of God and the Beginning of the Universe.”

[23] “The Existence of God and the Beginning of the Universe.”

[24] Ibid.

[25] “Philosophical and Scientific Pointers to Creation ex Nihilo”, 197.

[26] Ibid., 197.

[27] “Must the Beginning of the Universe Have a Personal Cause?: A Rejoinder.

[28] Ibid.

[29] Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer a Barbara Morriston, que leu uma versão preliminar deste artigo e contribuiu com sugestões bastante úteis.

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