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Posts Tagged ‘Albert Einstein’

por Quentin Smith

Neste capítulo os aspectos relevantes da teoria do Big Bang são explicados em quatro etapas. Estes aspectos constituirão as quatro premissas científicas do argumento em favor do ateísmo que formularei no próximo capítulo.

(i) A primeira etapa é a apresentação da assim chamada ‘equação de Einstein’, que é o núcleo da Teoria da Relatividade Geral de Einstein.[8] A equação de Einstein diz, em termos simplificados, que a geometria (curvatura) do espaço-tempo é determinada pela distribuição de massa e energia no espaço-tempo. A equação pode ser expressa de forma simplificada como

(curvatura do espaçotempo) = 8*pi*(densidade da matéria)

Esta equação sugere que se a matéria no universo for suficientemente densa, a curvatura do espaço-tempo aumentará tanto que o espaçotempo será reduzido  a praticamente um ponto, como o vértice de um cone. A história de uma partícula ou raio de luz é uma trajetória no espaçotempo, e se o espaçotempo se curvar até ficar praticamente reduzido a um ponto, estas trajetórias no espaçotempo convergirão e se interceptarão neste ponto. Se esta intersecção ocorrer em algum momento no futuro, o ponto de intersecção constituirá o fim do espaçotempo. Se a intersecção ocorreu no passado, de modo que as trajetórias no espaçotempo emerjam de um ponto de intersecção e afastem-se gradualmente umas das outros, o ponto de intersecção pareceria constituir o começo do espaçotempo. Esta possibilidade leva a uma discussão do próximo aspecto relevante da cosmologia do Big Bang.

(ii) A equação de Einstein admite várias soluções e qual solução descreve nosso universo é uma questão empírica. As soluções de Friedmann (primeiro obtidas por Friedmann em 1922 e 1924[9] são as consideradas válidas para nosso universo. H é  a solução que descreve um universo perfeitamente isotrópico (parece o mesmo em todas as direções) e perfeitamente homogêneo (a matéria encontra0se distribuída uniformemente). Se aplicarmos à equação de Einstein uma métrica que descreve um universo perfeitamente isotrópico e homogêneo, as soluções de Friedmann são obtidas, que podem ser expressas numa forma simplificada como

-3*(aceleração da expansão ou desaceleração da contração do universo) = 4*pi*(densidade da matéria)

As soluções de Friedmann nos dizem que se existe matéria uniformemente distribuída pelo universo, então o universo deve estar se expandindo numa taxa decrescente ou se contraindo numa taxa crescente (exceto no instante, se algum houver, em que a expansão para e reverte para uma contração). Para ver isto, observe que o lado direito da equação (simplificada) acima representa a densidade da matéria multiplicada por 4*pi. Se existe matéria no universo, então a densidade da matéria do universo é positiva. Isto implica que o valor para a aceleração da expansão ou para a desaceleração da contração é multiplicado por -3 e o resultado deve ser igual ao número positivo representado pelo lado direito da equação. Se o valor da aceleração da expansão é negativo, isto significa que o universo está se expandindo a uma taxa cada vez menor. Se o valor da desaceleração da contração é negativo, isso significa que o universo está se contraindo a uma taxa cada vez maior. Este resultado é de uma significância crucial, pois implica que se o universo contém matéria uniformemente distribuída então sua existência é temporalmente limitada. Se o universo está se contraindo a uma taxa cada vez maior, então ele não pode se contrair eternamente mas deve eventualmente alcançar um ponto final, quando se curva até ficar reduzido a um ponto e seu raio se torna zero. Se o universo está se expandindo a uma taxa cada vez menor, então ele não pode estar se expandindo eternamente, mas deve ter começado a se expandir em algum momento no passado, quando seu raio começou a crescer a partir de zero.

Consideremos também o caso da expansão, estado em que o universo encontra-se atualmente. Quanto mais recuamos no passado seguindo a trajetória no universo, mais rápida é a taxa de expansão que encontramos. À medida em que a taxa de expansão aumenta, a curvatura do universo  e a densidade da matéria aumentam e o raio do universo diminui, até que se atinge um ponto em que a curvatura do universo é infinita, a densidade da matéria infinita e o raio do universo é zero. Devido a esta curvatura infinita, as trajetórias rumo ao passado das partículas no espaçotempo convergem, tal que cada trajetória no espaçotempo termina em algum ponto no qual outras trajetórias no espaçotempo também terminam. Se as equações de Friedmann descrevem um universo esférico, o universo é finito em extensão e consequentemente todas as trajetórias no espaço tempo no sentido do passado se interceptam em um ponto. Toda a matéria é comprimida neste único ponto, que possui zero dimensões espaciais. Este ponto existe instantaneamente antes de explodir no Big Bang. O ponto instantaneamente existente é uma singularidade, o que significa que é um ponto final do espaçotempo; não existe momento mais antigo do que o instante da singularidade pois a própria singularidade é o primeiro instante do tempo. Por outro lado, se o universo é plano (não-curvo) ou hiperbólico (curvado como uma sela) ele é infinito em extensão, o que implica que as trajetórias no espaço tempo orientadas para o passado terminam numa singularidade espacialmente unidimensional. Apenas um volume finito de espaço pode ser comprimido num ponto; consequentemente, se existe um número infinito de volumes espaciais de qualquer tamanho finito determinado (o que seria o caso se o universo fosse plano ou hiperbólico), então deve haver um número infinito de pontos constitutivos da singularidade. Estes pontos existem instantaneamente (no primeiro instante do tempo) e então explodem num Big Bang infinitamente prolongado.

Entretanto, as soluções de Friedmann para as equações de Einstein por si próprias não mostram que nosso universo começou numa singularidade do Big Bang. Há uma certa incongruência entre suas soluções e as propriedades globais de nosso universo, uma incongruência que pode tornar inaplicável sua previsão de uma singularidade do Big Bang. O enunciado e a resolução deste problema levam a um terceiro aspecto da cosmologia do Big Bang que é pertinente para meu argumento.

(iii) As soluções de Friedmann são baseadas na hipótese de que o universo é perfeitamente isotrópico e homogêneo. Mas esta hipótese é inconsistente com as evidências observacionais, que revelam que o universo consiste de aglomerados ou superaglomerados de galáxias separados por vastas extensões de espaço vazio ou aproximadamente vazio. O universo é isotrópico e homogêneo somente de um ponto de vista estatístico, calculando-se a média ao longo de distâncias de bilhões de anos-luz. (Por exemplo, podemos assumir que diferentes regiões cúbicas do espaço diferem quanto a sua massa por menos de um porcento somente se se considera que estas regiões tenham três bilhões ou mais de anos-luz de diâmetro.) Isto pode sugerir que a previsão de uma singularidade do Big Bang é inaplicável ao universo já que esta previsão é baseada nas hipóteses de perfeitas homogeneidade e isotropia. A hipótese de perfeita isotropia implica que o movimento relativo de qualquer par de partículas é puramente radial e a hipótese de perfeita homogeneidade implica a inexistência de gradientes de pressão. O fato de que nosso universo é imperfeitamente isotrópico e homogêneo implica que as trajetórias espaçotemporais orientadas para o passado de partículas exibem velocidades transversas e aglomerações que produzem agregados de matéria. Isto sugere que as trajetórias divergirão em vez de convergir num único ponto. Isto por sua vez sugere que a atual fase de expansão do universo resulta de um ‘ricochete’ que terminou uma fase de contração anterior do universo. Mas esta sugestão de um universo oscilante foi contestada no final da década de 1960 pelos teoremas da singularidade Hawking-Penrose, [9A] que demonstram que sob certas condições imperfeitamente isotrópicas e homogêneas universos também se originam numa singularidade do Big Bang. Formulados com precisão, os teoremas enunciam que uma singularidade é inevitável dadas as cinco condições a seguir:

a) A Teoria da Relatividade Geral de Einstein é verdadeira em nosso universo.

b) Não existem curvas de natureza temporal fechadas (isto é, viajar no tempo rumo ao próprio passado é impossível e o princípio de causalidade não é violado).

c) A gravidade é sempre uma força de atração.

d) A superfície do espaçotempo não é demasiadamente simétrica; isto é, toda trajetória de uma partícula ou raio de luz no espaçotempo encontra alguma matéria ou curvatura aleatoriamente orientada.

e) Existe algum ponto p tal que todas as trajetórias espaçotemporais orientadas para o passado (ou futuro) partindo de p começam a convergir novamente. Esta condição implica que existe matéria suficiente no universo para concentrar toda trajetória espaçotemporal orientada para o passado ou futuro a partir de algum ponto p.

As soluções para os teoremas Hawking- Penrose mostram, como Hawking observa, que “em geral existirá uma curvatura-singularidade que interceptará qualquer linha do mundo. Portanto, a relatividade geral prevê um começo do tempo.’[10]

(iv) O último aspecto da cosmologia do Big Bang que preciso como premissa em meu argumento em favor do ateísmo é o princípio de ignorância de Hawking, que declara que singularidades são inerentemente caóticas e imprevisíveis. Nas palavras de Hawking,

Uma singularidade é um lugar em que os conceitos clássicos de espaço e tempo, bem como todas as leis conhecidas da física, são inaplicáveis porque são todas formulados num contexto de espaço-tempo clássico. Neste artigo afirma-se que esta inaplicabilidade não é meramente uma consequência de nossa ignorância da teoria correta mas que constitui uma limitação fundamental à nossa habilidade de prever o futuro, uma limitação análoga porém suplementar à limitação imposta pelo princípio da incerteza da mecânica quântica ortodoxa.[11]

Uma das relações de incerteza da mecânica quântica refere-se à posição q e ao momento p de uma partícula. Esta relação declara que (delta p)*(delta q) = h/(4*pi), que implica que se a posição de uma partícula é definidamente previsível então seu momento não o é, e vice versa. O princípio da ignorância é mais forte no sentido de que implica que não se pode definidamente prever nem a posição nem o momento de qualquer partícula emitida por uma singularidade. Na verdade, este princípio implica que nenhum dos valores físicos das partículas emitidas são definidamente previsíveis. De acordo com este princípio, a singularidade do Big Bang “emitiria todas as configurações de partículas com igual probabilidade.”[12]

A imprevisibilidade da singularidade implica que deveríamos esperar um transbordamento caótico de seu “interior”. Esta expectativa está alinhada com a representação feita pelos cosmologistas do Big Bang dos estágios primordiais do universo, pois estes estados são concebidos como maximamente caóticos (envolvendo a mais completa entropia). A singularidade emitiu partículas com microestados aleatórios, e isto resultou num macroestado global de equilíbrio térmico.

A significância do princípio de ignorância pode facilmente passar despercebida. Ele implica que a singularidade do Big Bang possui um comportamento completamente imprevisível no sentido de que nenhuma lei física governa seu comportamento. A imprevisibilidade da singularidade não é simplesmente uma questão epistêmica, significando que ‘nós humanos não somos capazes de prever o que surgirá dali, mesmo que haja uma lei governando a singularidade que, se conhecida, nos habilitaria a fazer previsões precisas.’ William Lane Craig assume que a imprevisibilidade é meramente epistêmica; ele escreve que ‘a imprevisibilidade [é] uma questão epistêmica que pode ou não resultar de indeterminismo ontológico. Pois claramente, seria inteiramente consistente manter o determinismo no nível quântico mesmo se não pudéssemos, mesmo em princípio, prever com precisão tais eventos.’[13] Agora, eu reconheço que há usos legítimos do termo ‘imprevisibilidade’ que são meramente epistêmicos em sentido, mas este não é o sentido em que a palavra é utilizada na formulação do princípio da ignorância de Hawking. A imprevisibilidade que diz respeito ao princípio da ignorância de Hawking é uma imprevisibilidade derivada da ausência de leis, não da incapacidade humana de conhecer as leis. Não há nenhuma lei, nem mesmo uma lei probabilística, governando a singularidade que coloque restrições sobre o que ela pode emitir. Hawking escreve que

Uma singularidade pode ser considerada um local em que há um colapso do conceito clássico de espaço-tempo como uma superfície com uma métrica pseudo-Reimanniana. Porque todas as leis da física são formuladas num contexto de espaço-tempo clássico, todas irão entrar em colapso numa singularidade. Este é um resultado crítico para a física; pois significa que não é possível prever o futuro. Não é possível saber o que surgirá de uma singularidade.[14]

Leis deterministas ou mesmo probabilísticas não podem vigorar em nível quântico no interior da singularidade, pois não há nenhum nível quântico no interior da singularidade; a superfície do espaço-tempo que os processos quânticos pressupõem ruiu. A singularidade é um violento e aterrorizante caldeirão de anarquia. Como Paul Davies observa, ‘qualquer coisa pode surgir de uma singularidade aberta – no caso do Big Bang o universo surgiu. Sua criação representa a suspensão instantânea das leis físicas, o lampejo de anarquia nomológica abrupto e repentino que permitiu que alguma coisa surgisse do nada’.[15] A questão que examinarei é se esta anarquia nomológica primordial é consistente com a hipótese de uma criação divina. Argumentarei contra esta hipótese.

Notas.

7. Quentin Smith, ‘The Anthropic Principle and Many-Worlds Cosmologies,’ The Australasian Journal of Philosophy 63 (1985): 336-348, ‘World Ensemble Explanations’, Pacific Philosophical Quarterly 67 (1986): 73-86, ‘The Uncaused Beginning of the Universe,’ Philosophy of Science 55 (1988), 39-57, ‘A Natural Explanation of the Existence and Laws of Our Universe,’ Australasian Journal of Philosophy 68 (March 1990): 22-43.

8. Veja ‘The Foundation of the General Theory of Relativity’ de Einstein e ‘Cosmological Considerations on the General Theory of Relativity’ em Einstein et al., The Principle of Relativity (London: Dover, 1923). A equação de Einstein expressa

Rab – 1/2*R*gab + lamda*gab = (8*pi*G/c2)*Tab

Rab é o tensor Ricci da métrica gab, R é o escalar Ricci, lambda é a constante cosmológica (provavelmente zero), c é a velocidade da luz e G é a constante gravitacional de Newton.

9. Alexander Friedmann, ‘Uber die Krummung des Raumes,’ Zeitschrif fur Physik 10 (1922), 377-386; uma tradução deste ratigo aparece em A Source Book in Astronomy and Astrophysics: 1900-1975, eds. by K. R. Lang and O. Gingerich (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1979). O segundo artigo de Friedmann sobre modelos com curvatura negativa foi publicado originalmente em Zeitschrift fur Physik 21 (1924), 326. As soluções de Friedmann, com a constante cosmológica omitida, são

-3*(d2a/dt2 = 4*pi*G*(p+3*P/c2)*a
3*(da/dt)2 = 8*pi*G*pa2 – 3*k*c2

Nestas equações, a é o fator escalar representando o raio do universo num dado instante. da/dt é a taxa de variação de a com o tempo; é a taxa em que o universo se expande ou se contrai. d2a/dt2 é a taxa de variação de da/dt; é a aceleração da expansão ou a desaceleração da contração. G é a constante gravitacional de Newton e c a velocidade da luz. P é a pressão da matéria e p sua densidade. k é a constante que assume um dos seguintes valores: zero para um espaço euclidiano plano, -1 para um espaço hiperbólico ou +1 um espaço esférico.

9A. Veja Penrose, ‘Gravitational Collapse and Space-Time Singularities,’ Physical Review Letters 14 (1965), 57-59; S. W. Hawking, ‘Singularities in the Universe,’ Physical Review Letters 17 (1966), 444-445 e ‘The Occurrence of Singularities in Cosmology. III. Causality and Singularities,’ Proceedings of Royal Society of London A, 300 (1967), 187-201; S. W. Hawking e R. Penrose, ‘Singularities in Homogenous World Models,’ Physical Letters 17 (1965), 246-247 e ‘The Singularities of Gravitational Collapse and Cosmology,’ Proceedings of the Royal Society of London A, 314 (1970), 529-548.

10. S. W. Hawking, ‘Theoretical Advances in General Relativity,’ Some Strangeness in the Proportion, ed. H. Woolf (Addison-Wesley, 1980), p. 149.

11. S. W. Hawking, ‘Breakdown of Predictability in Gravitational Collapse,’ Physical Review D, 14 (1976), 2460.

12. Ibid.

13. W. L. Craig, ‘The Caused Beginning of the Universe: A Response to Quentin Smith,’ op. cit., p. 29, n. 2.

14. S. W. Hawking, ibid.

15. P. Davies, The Edge of Infinity (New York: Simon and Schuster, 1981), p. 161.

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Autor: Quentin Smith

Fonte: http://www.infidels.org/library/modern/quentin_smith/bigbang.html [Publicado originalmente em FAITH AND PHILOSOPHY em abril de 1992 (Volume 9, No. 2, págs. 217-237)]

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Resumo: A teoria cosmológica do Big Bang é relevante para o teísmo cristão e para outras perspectivas teístas já que representa o universo começando a existir ex nihilo cerca de 15 bilhões de anos atrás. Esta série trata da questão da racionalidade de se acreditar que Deus criou o Big Bang. Alguns teístas respondem afirmativamente, mas este artigo argumenta que esta crença não é racional. Ao longo da série discute-se a necessidade metafísica das leis naturais, se a lei da causalidade é verdadeira a priori, além de outras questões pertinentes.

  1. Introdução
  2. A Teoria Cosmológica Do Big Bang
  3. Exposição Formal do Argumento
  4. A Questão Da Intervenção Divina
  5. A Questão da Realidade Da Singularidade
  6. A Questão da Simplicidade Relativa das Hipóteses Teísta e Ateísta
  7. A Questão Da Necessidade Metafísica De Um Universo A Partir do Big Bang
  8. A Questão Do Princípio Causal

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Introdução:

O advento da cosmologia do Big Bang no século XX foi um divisor de águas para os teístas. Desde os tempos de Copérnico e Darwin, vários teístas consideraram a ciência hostil à sua visão de mundo, exigindo defesa e retração contínuas da parte do teísmo. Mas a cosmologia do Big Bang reverteu efetivamente esta situação. A ideia central desta cosmologia, que o universo explodiu na existência num ‘big bang’ há aproximadamente  15 bilhões de anos atrás, pareceu feita sob encomenda para uma perspectiva teísta. A cosmologia do Big Bang aparentou oferecer evidências empíricas para a doutrina religiosa da criação ex nihilo. As implicações teístas pareceram tão óbvias e excitantes que até mesmo o Papa Pio XII foi levado a comentar que ‘A verdadeira ciência num grau cada vez maior descobre Deus como se Deus estivesse à espera atrás de cada porta aberta pela ciência.[1] Mas a interpretação teísta do Big Bang recebeu não somente sanção oficial e ampla divulgação na cultura popular como também uma sofisticada articulação filosófica. Richard Swinburne, John Leslie e sobretudo William Lane Craig [2] formularam poderosos argumentos para o teísmo baseados num conhecimento bem embasado dos dados e das ideias cosmológicas.

A reação de ateus e agnósticos a esta formulação foi comparativamente fraca, com efeito, quase imperceptível. Um desconfortável silêncio parece ser a regra quando a questão é levantada entre descrentes ou então o assunto é rapida e epigramaticamente descartado com um comentário no sentido de que ‘a ciência é irrelevante para a religião’. ´Não é difícil descobrir a razão do aparente constragimento dos não-teístas. Anthony Kenny sugere nesta declaração sumária:

Segundo a Teoria do Big Bang, toda a matéria do universo começou a existir num instante particular no passado remoto. Um proponente de uma teoria assim, pelo menos se ele for um teísta, deve acreditar que a matéria do universo veio do nada e por nada. [3]

Esta ideia perturba a muitos pela mesma razão que perturba C. D. Broad:

Devo confessar que tenho uma dificuldade muito grande em imaginar que houve uma primeira fase na história do mundo, isto é, a fase imediatamente anterior na qual não existiu nem matéria, nem mentes, nem qualquer outra coisa… Eu suspeito que minha dificuldade em relação ao primeiro evento ou fase na história do mundo decorre do fato de que, não importa o que eu possa dizer quando tento dificultar as coisas para Hume, não sou capaz de realmente acreditar em qualquer coisa começando a existir sem ser causada (no sentido obsoleto de produzido ou gerado) por alguma outra coisa que existia antes e no momento em que a entidade em questão começou a existir… Eu… acho impossível abrir mão deste princípio; e, com esta confissão de impotência intelectual decorrente de uma idade avançada, abandono este tópico.[4]

Motivados por preocupações como as de Broad, alguns dos poucos não-teístas que se pronunciaram sobre esse tema chegaram ao ponto de negar, sem uma justificação apropriada, pilares centrais da cosmologia do Big Bang. Entre os físicos, o exemplo mais célebre é Fred Hoyle, que rejeitou veementemente a sugestão de um Big Bang que aparentasse implicar um criador e tentou sem sucesso interpretar as evidências para um Big Bang como evidências para uma ‘bolha’ em expansão dentro de um universo imutável e infinitamente velho (refiro-me a sua teoria pós-estado-de-equilíbrio da década de 1970)[5]. Um exemplo deste tratamento em sentido contrário entre filósofos é patenteada por W. H. Newton-Smith. Newton-Smith sentiu-se compelido a sustentar, em franca contradição com os teoremas da singularidade da cosmologia do Big Bang (que implicam que não pode existir nenhum estado mais antigo do universo do que a singularidade do Big Bang) que as evidências de que eventos macroscópicos tem origens causais nos dão ‘motivos para pensar que algum estado anterior do universo levou à produção desta singularidade específica‘.[6]

Parece-me, contudo, que a cosmologia do Big Bang não coloca os não-teístas em tal beco sem saída. As alternativas dos não-teístas não se limitam ao silêncio constrangedor, à confissões de impotência, recusas epigramáticas ou a ‘negação’ pura e simples quando confrontados com as implicações aparentemente radicais da cosmologia do Big Bang. É meu objetivo nesta série mostrar isto estabelecendo uma interpretação ateísta coerente e plausível do Big Bang, uma interpretação que não somente é capaz de equiparar-se à interpretação teísta mas que na verdade é melhor justificada do que a interpretação teísta. Mas meu argumento pretende estabelecer ainda mais do que isso. Em outra ocasião elaborei o caso de que a cosmologia do Big Bang não fornece quaisquer subsídios ao teísmo, mas aqui eu desejo construir o caso mais robusto de que a cosmologia do Big Bang é efetivamente inconsistente com o teísmo. Defenderei que se a cosmologia do Big Bang é verdadeira, então Deus não existe.

A teoria cosmológica que discutirei neste artigo é a assim chamada ‘teoria padrão do Big Bang quente’, baseada nas soluções de Friedmann para as equações da Teoria da Relatividade Geral de Einstein e nos teoremas da singularidade de Hawking-Penrose. Explicarei estas ideias de uma maneira introdutória e não-técnica no próximo capítulo, de modo que os filósofos que não tenham familiaridade com esta teoria possam acompanhar meu argumento. Um ponto que desejo enfatizar logo de início refere-se ao estatuto provisório da teoria do Big Bang. Os cosmólogos acreditam que esta teoria um dia será substituída por uma cosmologia baseada numa teoria quântica da gravidade e, consequentemente, às conclusões teístas ou ateístas derivadas da ‘teoria padrão do Big Bang quente’ deve ser atribuído um estatuto igualmente provisório.

Após minha explicação introdutória da cosmologia do Big Bang no capítulo a seguir, delinearei meu ‘argumento cosmológico a partir do Big Bang para a inexistência de Deus’ no capítulo subsequente. A maior parte da série, compreendendo os 5 capítulos finais, é reservada para responder às objeções contra o argumento delineado no segundo capítulo.

Notas.

1. Veja o Bulletin of the Atomic Scientists 8 (1952), 143-146.

2. Veja Richard Swinburne, The Existence of God (Oxford: Clarendon Press, 1979) e Space and Time, 2nd. ed. (New York: St. Martin’s Press, 1982). Swinburne duvida que a previsão de um primeiro evento pela cosmologia do Big Bang seja provavelmente verdadeira, mas não obstante mostra como esta previsão pode ser teologicamente interpretada.

Veja também John Leslie, ‘Anthropic Principle, World Ensemble, Design’, American Philosophical Quarterly 19 (1982), 141-151, ‘Modern Cosmology and the Creation of Life,’ em E. McMullin (ed.), Evolution and Creation (South Bend: University of Notre Dame Press, 1985), e vários outros artigos. Leslie, é claro, trabalha com uma concepção neoplatônica de Deus, mas seus argumentos são obviamente relevantes para o teísmo clássico.

A mais bem elaborada interpretação teísta da cosmologia do Big Bang é a de William Lane Craig. Veja seu The Kalam Cosmological Argument (New York: Harper and Row, 1979), ‘God, Creation and Mr. Davies,’ British Journal for the Philosophy of Science 37 (1986), 163-175, ‘Barrow and Tipler on the Anthropic Principle vs. Divine Design,’ British Journal for the Philosophy of Science 39 (1988): 389-95; ‘What Place, Then, for a Creator?,’ British Journal for the Philosophy of Science, 41 (1990): 473-91; “The Caused Beginning of the Universe: A Response to Quentin Smith,” (1989).

3. Anthony Kenny, The Five Ways (New York: Schocken Books, 1969), p. 66.

4. C. D. Broad, ‘Kant’s Mathematical Antinomies,’ Proceedings of the Aristotelian Society 40 (1955), 1-22. Esta passagem e a passagem de Kenny foram extraídas das páginas 142 e 141-142, respectivamente, de The Kalam Cosmological Argument, de Craig.

5. Veja Fred Hoyle, Astrophysical Journal 196 (1975), 661.

6. W. H. Newton-Smith, The Structure of Time (London: Routledge and Kegan Paul, 1980), p. 111.

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por Sam Harris

Quando consideramos o comportamento humano, a diferença entre a ação voluntária e premeditada e a ação meramente acidental parece imensamente consequencial. Como veremos, esta distinção pode ser preservada – e com ela, nossas mais importantes preocupações morais e legais – ao mesmo tempo em que a ideia de livre-arbítrio é banida de uma vez por todas.

Certos estados de consciência parecem surgir automaticamente, além da esfera de nossas intenções. Outros parecem autogerados, deliberativos e sujeitos à nossa vontade. Quando ouço o som de um cortador de grama entrando por minha janela, ele meramente se impõe sobre minha consciência: eu não o trouxe à existência, e eu não posso interrompe-lo por vontade própria. Posso tentar colocar o som fora de minha mente concentrando-me em alguma outra coisa – no que estou escrevendo, por exemplo, e este ato de direcionar a atenção é sentido de forma diferente de meramente ouvir um som. Eu o estou fazendo. Dentro de certos limites, parece que escolho no que prestar atenção. O som do cortador de gramas é invasivo, mas posso controlar o holofote de minha atenção no momento seguinte e dirigi-lo para outro alvo. Esta diferença entre estados mentais volitivos e não-volitivos é refletida em nível cerebral – pois eles são governados por sistemas diferentes. E a diferença entre ele deve, em parte, produzir a sensação percebida de que há um self consciente dotado da propriedade do livre-arbítrio.

Isto não quer dizer que a consciência e o pensamento deliberativo não possuem nenhuma finalidade. Na verdade, muito de nosso comportamento depende deles. Eu posso inconscientemente mudar de posição, mas eu não posso inconscientemente decidir que a dor em minhas costas justifica uma visita ao fisioterapeuta. Para fazer esta última ação, devo me tornar consciente da dor e ser conscientemente motivado a fazer algo a respeito dela. Talvez seja possível construir um robô inanimado capaz destes estados – mas no nosso caso, certos comportamentos parecem exigir a presença de pensamento consciente. E sabemos que os sistemas cerebrais que nos permitem refletir sobre nossas experiência são diferentes daqueles envolvidos quando reagimos automaticamente a algum estímulo. Neste sentido, portanto, a consciência não é inconsequencial.[14] E não obstante, todo o processo de tomar consciência da dor em minhas costas, pensar sobre ela e buscar um remédio para ela resulta de processos dos quais sou completamente inconsciente. Sou eu, a pessoa consciente, quem cria minha dor? Não. Ela simplesmente aparece. Sou eu quem crio os pensamentos sobre ela que me levam a considerar a fisioterapia? Não. Também eles simplesmente aparecem. Este processo de deliberação consciente, embora diferente dos reflexos inconscientes, não oferece fundamento algum para a liberdade da vontade.

Como Dan Dennett e vários outros ressaltaram, as pessoas geralmente confundem determinismo com fatalismo. Esta confusão leva as pessoas a perguntarem “Se tudo está determinado, por que eu deveria fazer qualquer coisa? Por que não simplesmente ficar sentado de braços cruzados observando o que acontece?”. Isto é pura confusão. Assistir sentado ao que acontece é em si uma decisão que produzirá suas próprias consequências. Também é algo extremamente difícil de fazer: tente ficar deitado na cama o dia inteiro esperando que algo aconteça; você se descobrirá assaltado pelo impulso de se levantar e fazer algo, impulso cuja resistência demandará esforços cada vez mais hercúleos.

E o fato de que nossas escolhas dependem de causas anteriores não significa que elas não têm importância. Se eu tivesse decidido não escrever este livro, ele não se teria escrito por si próprio. Minha preferência por escrevê-lo foi inquestionavelmente a principal causa para que ele viesse a existir. Decisões, intenções, esforços, objetivos, força de vontade, etc. são estados causais do cérebro, que levam a comportamentos específicos, e comportamentos levam a resultados no mundo. A escolha humana, por conseguinte, é tão importante quanto os entusiastas do livre-arbítrio acreditam. Mas a próxima escolha que você fizer surgirá das brumas das causas anteriores por cuja existência você, a testemunha consciente de sua experiência, não é responsável.

Por conseguinte, embora seja verdadeiro dizer que uma pessoa teria agido de forma diferente se ela tivesse escolhido agir de forma diferente, isto não acarreta o tipo de livre-arbítrio que a maioria das pessoas parece acalentar – porque as “escolhas” de uma pessoa meramente aparecem em sua mente como se aparecessem do nada. Da perspectiva de sua consciência, você não é mais responsável pela próxima coisa em que pensar (e por conseguinte fazer) do que é pelo fato de ter nascido neste mundo.

Digamos que sua vida tenha saído dos trilhos. Você costumava ser bastante motivado, inspirado por suas oportunidades e fisicamente em forma, mas agora você é preguiçoso, se desencoraja com facilidade e está acima do peso. Como você chegou a este ponto? Você pode ser capaz de contar uma história sobre como sua vida se arruinou, mas você não pode verdadeiramente prestar contas de como você deixou isto acontecer. E agora você quer escapar desta tendência decadente e mudar a si próprio através de um ato da vontade.

Você começa lendo livros de auto-ajuda. Você muda sua dieta e entra numa academia. Você decide voltar a estudar. Mas depois de seis meses de esforços, você não está mais próximo de viver a vida que gostaria do que estava antes. Os livros não tiveram o menor impacto sobre você; sua dieta e seu treino físico mostraram-se impossíveis de seguir; e você ficou entediado com a escola e a abandonou. Por que você encontrou tantos obstáculos em si mesmo? Você não faz a menor ideia. Você tentou mudar seus hábitos, mas seus hábitos parecem mais fortes do que você. A maioria de nós sabe como é fracassar desta maneira – e estas experiências não sugerem nem remotamente a existência de tal coisa como a liberdade da vontade.

Mas esta manhã você acordou se sentindo mais resoluto do que nunca. Já chega! Agora você tem uma vontade férrea. Antes de sair da cama você teve a brilhante ideia de criar um website – e a descoberta de que o domínio estava disponível por apenas 10 dólares te encheu de confiança. Você agora é um empreendedor! Você compartilha a ideia com diversas pessoas inteligentes, e elas pensam que não há dúvidas de que ela te tornará rico.

O vento está a seu favor, seus barcos estão carregados, e você está pilotando furiosamente. Você descobre que um de seus amigos é amigo íntimo de Tim Ferriss, o famoso preparador físico e guru do fitness. Ferriss oferece-lhe uma consulta para discutirem sobre a dieta e o programa de treino que você adotou. Este encontro revela-se extremamente útil – e logo depois você descobre em si mesmo uma reserva de disciplina que você não sabia que possuía. AO longo dos quatro meses seguintes você substitui 10 quilos de gordura por 10 quilos de músculos. Seu peso continua o mesmo, mas você está completamente transformado. Seus amigos mal podem acreditar no que você alcançou. Até seus desafetos começam a te pedir conselhos.

Você se sente completamente outro acerca de sua vida, e o papel desempenhado pela disciplina, pela escolha e pelo esforço em sua ressurreição não pode ser negado. Mas como você explica sua capacidade de fazer estes esforços hoje e não há um ano? De onde veio a ideia para um website? Ela simplesmente apareceu em sua mente. Foi você, na qualidade de agente consciente que você sente ser, quem a criou? (Se a resposta for afirmativa, por que não criar a próxima bem agora?) Como você explica o efeito que os conselhos de Tim Ferriss tiveram sobre você? Como você explica sua capacidade de reagir a eles?

Se você prestar atenção em sua vida interior, você verá que a emergência de escolhas, esforços e intenções é um processo fundamentalmente misterioso. Sim, você pode decidir entrar numa dieta – e sabemos bastante sobre as variáveis que te tornarão capazes de segui-la à risca – mas você não pode saber por que você finalmente foi capaz de se disciplinar quando todas as suas tentativas anteriores falharam. Você pode ter uma história para contar sobre porque as coisas foram diferentes desta vez, mas ela não seria nada além de uma descrição post hoc de eventos que você não controlou. Sim, você pode fazer o que quiser – mas você não pode explicar o fato de seus desejos serem efetivos num caso e não em outros (e você certamente não pode escolher seus desejos de antemão). Você quis perder peso por quatro anos. Então você realmente o quis. Qual é a diferença? Seja lá qual for, não é uma diferença criada por você.

Você não está no controle de sua mente – porque você, como um agente consciente, é apenas uma parte de sua mente, vivendo à mercê das outras partes.[15] Você  pode fazer o que decide fazer – mas você não pode decidir o que decidirá fazer. Você pode, é claro, criar um cenário no qual certas decisões são mais prováveis do que outras – você pode, por exemplo, eliminar todos os doces de sua casa, tornando muito improvável que você coma sobremesa após o jantar – mas você não pode saber por que você foi capaz de se submeter a tal cenário hoje quando você não o foi ontem.

Assim, não é que a força de vontade não é importante ou que ela esteja destinada a ser sabotada por nossa biologia. A própria força de vontade é um fenômeno biológico. Você pode mudar sua vida, e a si mesmo, através de esforços conscientes e disciplinados – mas você tem exatamente seja lá qual for a capacidade para o esforço e a disciplina que você tem neste momento, e nem um grão a mais (ou a menos). Ou você tem sorte neste aspecto ou você não tem – e você não pode criar sua própria sorte.

Várias pessoas acreditam que a liberdade humana consiste em nossa habilidade para fazer o que, após refletir, acreditamos que deveríamos fazer – o que muitas vezes significa controlar nossos desejos de curto prazo e nos atermos a nossos objetivos de longo prazo ou ao melhor julgamento. Não há dúvida de que essa é uma habilidade que as pessoas possuem, num grau maior ou menor, e que parece faltar a outros animais, mas que não obstante é uma capacidade de nossas mentes que possui raízes inconscientes.

Você não construiu sua mente. E nos momentos em que você parece construí-la – quando você faz um esforço para mudar a si próprio, para adquirir conhecimento ou para aperfeiçoar alguma habilidade ou talento – as únicas ferramentas à sua disposição são aquelas herdadas dos momentos passados.

Escolhas, esforços, intenções e o raciocínio influenciam nosso comportamento – mas eles próprios são parte da cadeia de causas que precedem o conhecimento consciente e sobre os quais não exercemos nenhum controle último. Minhas escolhas são importantes – e há caminhos que favorecem a tomada de decisões mais sábias – mas eu não posso escolher o que escolher. E se alguma vez parece que eu o faço – por exemplo, após oscilar indeciso entre duas alternativas – eu não escolho escolher o que escolho. Há uma regressão aqui que sempre termina em obscuridade. Eu devo dar um primeiro passo, ou um último, por razões que inescapavelmente permanecerão obscuras.[16]

Várias pessoas acreditam que este problema da regressão é um falso problema. Certos compatibilistas insistem que a liberdade da vontade equivale à ideia de que se poderia ter pensado ou agido de forma diferente. Contudo, dizer que eu poderia ter agido de modo diferente não passa de pensar o pensamento “Eu poderia ter agido de outro modo” após fazer seja lá o que for que eu de fato tenha feito. Esta é uma afirmação vazia.[17] Ela confunde esperança pelo futuro com um relato honesto do passado. O que farei em seguida, e por que, permanece, no fundo, um mistério – mistério este completamente determinado pelo estado anterior do universo e pelas leis da natureza (incluindo as contribuições do acaso). Declarar minha “liberdade” equivale a dizer, “Eu não sei por que eu fiz isso, mas é o tipo de coisa que eu costumo fazer, e não me importo de continuar a fazê-lo.”

Uma das ideias mais revigorantes e originais a surgir do existencialismo (talvez a única) é que somos livres para interpretar e reinterpretar o significado de nossas vidas. Você pode considerar seu primeiro casamento, que terminou em divórcio, como um “fracasso”, ou você pode vê-lo como uma circunstância que causou seu amadurecimento de modos que foram decisivos para sua felicidade futura. Esta liberdade de interpretação requer o livre-arbítrio? Não. Ela apenas sugere que diferentes maneiras de pensar sobre as coisas possuem diferentes consequências. Alguns pensamentos são depressivos e debilitantes; outros nos inspiram. Podemos perseguir qualquer linha de pensamento que desejarmos – mas nossa escolha é o produto de eventos anteriores por cuja existência não somos responsáveis.

Reflita por um momento sobre o contexto em que sua próxima decisão ocorrerá: você não escolheu seus pais ou a época e o local em que nasceu. Você não escolheu seu sexo ou a maioria de suas experiências de vida. Você não teve controle algum sobre seu genoma ou sobre o desenvolvimento de seu cérebro. E agora seu cérebro está fazendo escolhas com base em crenças e preferências que lhe foram marteladas ao longo de sua vida – por seus genes, seu desenvolvimento físico desde o momento em que foi concebido, e as interações que você teve com outras pessoas, eventos e ideias. Onde está a liberdade nisto? Sim, você é livre para fazer o que quiser agora mesmo. Mas de onde vêm seus desejos?

Escrevendo para o The New York Times, o filósofo Eddy Nahmias criticou argumentos do tipo que estou apresentando aqui:

Vários filósofos, eu incluso, entendem o livre-arbítrio como um conjunto de habilidades para imaginar futuros cursos de ação, deliberar sobre as razões para escolhe-los, planejar as ações à luz desta deliberação e controlar as ações face aos desejos concorrentes. Agimos por nosso próprio livre-arbítrio na medida em que temos a oportunidade de exercer essas habilidades, sem pressões irracionais internas ou externas. Somos aproximadamente responsáveis por nossas ações na medida em que possuímos estas habilidades e temos oportunidades de exerce-las.[18]

Não há dúvida de que os seres humanos podem imaginar e planejar o futuro, ponderar desejos concorrentes, etc. – e que a perda destas habilidades nos diminuiria vastamente. Pressões internas e externas de vários tipos podem estar presentes ou ausentes enquanto uma pessoa imagina, planeja e age – e tais pressões determinam nossa sensação de que ela é moralmente responsável por seu comportamento. Entretanto, este fenômeno não tem nada a ver com o livre-arbítrio.

Por exemplo, durante o final de minha adolescência e o começo de minha vida adulta fui um estudante dedicado de artes marciais. Pratiquei incessantemente e dei aulas na universidade. Recentemente, comecei a treinar novamente, após um intervalo de mais de 20 anos. Tanto a interrupção quanto a retomada de meu interesse por artes marciais parece ser a pura expressão da liberdade que Nahmias me atribui. Não estive sob nenhuma “pressão irracional interna ou externa”. Fiz exatamente o que quis fazer. Eu quis parar de treinar, e parei. Eu quis começar novamente, e atualmente treino várias vezes por semana. Tudo isto foi associado a pensamentos conscientes e atos de autocontrole aparente.

Contudo, quando procuro pela causa psicológica de meu comportamento, descubro que ela é completamente misteriosa. Por que parei de treinar 20 anos atrás? Bem, certas coisas se tornaram mais importantes para mim. Mas por que elas se tornaram mais importantes para mim – e por que exatamente naquelas circunstâncias e naquele grau? E por que meu interesse em artes marciais repentinamente ressurgiu após décadas hibernando? Posso ponderar conscientemente os efeitos de certas influências – por exemplo, li recentemente o excelente livro de Rory Miller Meditations on violence. Mas por que eu li este livro? Não faço a mínima ideia. E por que eu o achei convincente? E por que ele foi suficiente para me levar a agir (se, efetivamente, ele foi a causa imediata de meu comportamento)? E por que tanta ação? Agora pratico duas artes marciais e também treino com Miller e outros especialistas em defesa pessoal. Que diabos está acontecendo aqui? Eu posso, é claro, contar uma história sobre porque estou fazendo o que faço – que seria equivalente a dizer-lhes porque eu penso que tanto treinamento é uma boa ideia, porque eu o aprecio, etc. – mas a explicação real para meu comportamento está oculta de mim mesmo. E é perfeitamente óbvio que eu, como testemunha consciente de minha experiência, não sou sua causa profunda.

Após ler os parágrafos anteriores, alguns de você pensarão, “esse livro de Miller parece interessante!” e o comprarão. Alguns não pensarão tal coisa. Dentre os que comprarem o livro, alguns o acharão extremamente útil. A outros sua mensagem pode passar despercebida ao término da leitura. Outros o colocarão na estante e se esquecerão de lê-lo. Onde está a liberdade em qualquer destas possibilidades? Você, como o agente consciente que lê estas palavras, não está em posição de determinar a qual grupo pertence. E se você decidir mudar de grupo – “Eu não ia comprar o livro, mas agora vou, só para te contrariar!” – você também não pode prestar contas desta decisão. Você fará seja lá o que for que fizer, e não faz sentido afirmar que você poderia ter agido de outra forma.

Notas.

14. Para uma discussão recente do papel da consciência na psicologia humana, veja R. F. Baumeister, E. J. Masicampo, & K. D. Vohs, 2011. Do conscious thoughts cause behavior? Annual Review of Psychology, 62: 331–361.

15. Mais uma vez, como Galen Strawson ressalta (comunicação pessoal), mesmo se admitirmos que você é a totalidade de sua mente (consciente e inconsciente), em última instância, você ainda não pode ser responsabilizado por seu caráter.

16. Einstein (acompanhando Schopenhauer) certa vez defendeu o mesmo ponto:

Honestamente, eu não consigo compreender o que as pessoas querem dizer quando falam sobre a liberdade da vontade humana. Eu tenho um sentimento, por exemplo, de que eu quero alguma coisa ou outra, mas que relação isto tem com a liberdade eu definitivamente não posso entender. Sinto que quero acender meu cachimbo e o acendo; mas como posso conectar isto com a ideia de liberdade? O que está por trás do ato de querer acender um cachimbo? Outro ato da vontade? Schopenhauer disse certa vez: Der Mensch kann was er will; er kann aber nicht wollen was er will (O homem pode fazer o que ele quer mas não pode querer o que ele quer). (M. Planck, 1932. Where is science going? New York: W. W. Norton & Company, p. 201.)

17. Jerry Coyne aponta (comunicação pessoal), esta noção de liberdade contrafactual também não é cientificamente testável. Que evidências poderiam ser apresentadas para mostrar que alguém poderia ter agido de forma diferente no passado?

18. http://opinionator.blogs.nytimes.com/2011/11/13/is-neuroscience-the-death-of-free-will/.

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Autor: Mark I. Vuletic

Tradução: Wladimir Costa Cavalcante

[Publicado originalmente no Blog da Divisão Cearense da Liga Humanista Secular]

A primeira versão deste artigo, que terminei de escrever em 1997, simplesmente reunia uma lista de citações de físicos afirmando que certas coisas poderiam realmente surgir do nada através de processos inteiramente naturais, e que todo o universo poderia ser surgido dessa forma. Eu ofereci a lista apenas como uma base de dados, sem nenhuma pretensão de verificar o quão corretas eram as afirmações, ou sua relevância para os debates teológicos  sobre a origem do universo. Mais tarde, estudei a questão mais profundamente, e desenvolvi a linha de argumentação que persegui na primeira nota do meu “Guia de Defesa : Ciência e o Criacionismo.” No entanto, deixei de revisar a primeira versão desse artigo; essa atualização corrige o problema. Aqui, apresento um texto bem direto, e coloquei as citações de suporte no final, acompanhadas por todas as suas referências.

É POSSÍVEL QUE ALGO SURJA DO NADA?

Para a maioria das pessoas, a afirmação de que as coisas não surgem do nada é um truísmo (verdade evidente). No entanto, muitos físicos discordam. Contra essa posição, eles frequentemente citam o que é conhecido, entre outros nomes, como flutuação quântica do vácuo ou partículas virtuais. Elas são pares de partículas/antipartículas que surgem por um brevíssimo intervalo de tempo onde havia apenas espaço vazio – de acordo com o Princípio da Incerteza de Heisenberg.[Q1] [Q2]Elas produzem efeitos mensuráveis, como o Desvio de Lamb e o Efeito Casimir.[Q3] [Q4]Essas partículas não são anomalias; elas são tão comuns que alguns físicos argumentam que se tratamos o espaço vazio como nada, então tal nada simplesmente não existe, pois o espaço nunca está vazio – ele está sempre preenchido com partículas virtuais.[Q5]Em resumo, se agirmos como a maioria das pessoas tratando o espaço vazio como nada, teremos pelo menos um exemplo persuasivo de algo que pode surgir do nada.

O UNIVERSO PODE SURGIR DO NADA?

As partículas virtuais possuem uma vida necessariamente curta porque representam um aumento na energia do universo; o Princípio da Incerteza de Heisenberg abre terreno para partículas virtuais com vidas suficientemente curtas, mas aquelas com vidas mais longas violariam a primeira lei da termodinâmica. Então, alguém poderia pensar que as flutuações quânticas no vácuo não podem ter relevância na origem do universo. Mas pelo contrário, alguns físicos, remontando no mínimo a Tryon (1973), acreditam que todo o universo poderia ser uma massiva flutuação quântica no vácuo.[Q6] O aspecto mais importante do universo que poderia tornar isso possível seria sua energia total em zero. Você deve se perguntar como o universo poderia ter uma energia total de zero. A resposta é que a energia gravitacional é negativa – quando somada com a energia da matéria no universo, o resultado é o cancelamento de ambas.[Q7] [Q8]Nem o Princípio da Incerteza de Heisenberg, nem a Primeira Lei da Termodinâmica impõem qualquer limite à duração temporal de uma flutuação quântica no vácuo cuja energia total é zero; logo, a longevidade do universo não descarta a possibilidade de uma origem por flutuação quântica no vácuo.[Q9] A proposta não é que todo o universo teria se formado em um único instante, mas que uma flutuação quântica no vácuo tenha funcionado como semente para uma expansão local do espaço-tempo, que automaticamente geraria matéria como um efeito colateral.[Q10] [Q11]

Em hipóteses desta espécie, a flutuação quântica no vácuo ocorre no espaço-tempo vazio. Outras hipóteses, mais notavelmente a de Alex Vilenkin, não envolvem um espaço-tempo preexistente, e alicerçam-se sobre o tunelamento quântico e não sobre as flutuações no vácuo.[Q12]

O “NADA” DOS FÍSICOS É REALMENTE O NADA?

Trataremos agora de uma objeção às considerações acima. A objeção é que quando os físicos citados referem-se ao “nada,” estão, na verdade, referindo-se a algo bem diferente da literal ausência de qualquer coisa. Para tentar ser o mais claro possível, irei me referir à ausência de qualquer coisa como o “nada absoluto.” A controvérsia surge por que o “nada” dos físicos não é o nada absoluto. A citação [Q5] pode parecer, a primeira vista, uma exceção. Para mim, essa é uma interpretação errada – Morris está apenas tentando dizer que o espaço nunca está verdadeiramente vazio – mas não precisamos entrar numa disputa exegética aqui, já que é completamente verdadeiro, segundo os modelos de Tryon, que a produção de flutuações no vácuo quântico ocorre em um espaço-tempo pré-existente.
O que mais pode ser dito sobre essa objeção? Duas coisas:
1. Primeiro, o que leva as pessoas a afirmarem que as coisas não surgem do nada é o fato de elas não verem coisas surgindo do espaço vazio em volta delas. Elas igualam o espaço vazio com o nada absoluto. Por isso, mostrar que as partículas podem, e que todo o universo poderia, surgir espontaneamente a partir de espaço vazio, visa atingir a conotação popular de que o universo não poderia ter surgido a partir do nada. Uma vez demonstrado que o universo pode surgir do espaço vazio, não serão muitos os que continuarão seguros de sua intuição metafísica que propõe que o próprio espaço vazio precisa ter surgido de alguma coisa.
2. Segundo, mesmo se considerarmos o espaço vazio alguma coisa, isso não terá peso tomando a hipótese de Vilenkin. Nesse ponto, os críticos objetam que a hipótese de Vilenkin pressupõe a mecânica quântica, e que as leis da mecânica quântica são “alguma coisa.” Essa é uma afirmação estranha, por dois motivos: (a) os críticos parecem querer materializar as leis naturais, que não são “coisas,” mas apenas descrições de como as coisas se comportam. Não fica claro por que alguém consideraria o fato (se for um fato) de o universo surgir de tempos em tempos de uma maneira descritível pela mecânica quântica como sendo esse tipo de “coisa.”(b) Se alguém toma fatos por “coisas”, então o nada absoluto é logicamente impossível: se o nada absoluto existiu, então haveria o fato de o nada ter existido, implicando que ao menos uma coisa (o fato do nada existir) existiu, que por sua vez, contrariaria a hipótese original. Consequentemente, se alguém trata fatos como coisas, então alguns fatos precisam existir; mas, se pelo menos um fato precisa existir, por que esse fato não poderia ser o funcionamento da mecânica quântica?

CONCLUSÃO

Eu não tentei  mostrar que o universo surgiu do nada, ou mesmo analisar todas as questões na cosmologia ou filosofia relacionadas com a ideia de o universo ter sido ou não criado. Tudo que tentei fazer foi mostrar que uma visão ateísta do surgimento ex nihilo do universo, tanto no popular como no técnico entendimento de nihil, é possível. Mesmo esse modesto passo é severamente contestado por muitos teístas, mas a física moderna decisivamente parece endossa-lo.

CITAÇÕES DE SUPORTE

[Q1] Paul Davies:

Em nosso dia-a-dia, a energia é sempre fixa; a lei da conservação de energia é um pilar da física clássica. Mas no microcosmos quântico, energia pode aparecer e desaparecer de lugar nenhum de maneira espontânea e imprevisível. (Davies 1983: 162)

[Q2] Richard Morris:

O princípio da incerteza mostra que partículas podem  passar a existir por breves períodos de tempo mesmo quando não existe energia suficiente para criá-las. Com efeito, elas são criadas por incertezas na energia. Pode-se considerar que elas rapidamente “tomam emprestado” a energia que precisam para sua criação, e então, pouco tempo depois, elas pagam o “débito” e desaparecem novamente. Como essas partículas não possuem uma existência permanente, elas são chamadas de partículas virtuais. (Morris 1990: 24)

[Q3] Paul Davies:

Embora não possamos vê-las, sabemos que essas partículas virtuais estão “realmente lá” no espaço vazio, pois elas deixam traços detectáveis de suas atividades. Um efeito dos fótons virtuais,  por exemplo,  é produzir um minúsculo desvio no nível de energia dos átomos. Eles também causam uma mudança igualmente minúscula no momento magnético dos elétrons. Essas pequenas mas significantes alterações vêm sendo medidas precisamente com uso de técnicas espectroscópicas. (Davies 1994: 32)

[Q4] John Barrow and Joseph Silk:

[Pares de Partículas Virtuais] possuem efeitos calculáveis previsíveis sobre os níveis de energia dos átomos. O efeito esperado é mínimo –  apenas uma mudança de uma parte em um bilhão, mas que vem sendo confirmado por experimentos.

Em 1953 Willis Lamb mediu esse estado excitado da energia de um átomo de hidrogênio. Este fenômeno é agora conhecido como Desvio de Lamb. A diferença na energia prevista para ocorrer devido aos efeitos do vácuo é tão pequena que só pode ser detectada como uma transição na frequência de microondas. A precisão nas medições de microondas é tão grande que Lamb foi capaz de medir o desvio em cinco “Algarismos Significativos“. Ele recebeu o Prêmio Nobel por esse trabalho logo em seguida. Não restam dúvidas de que as partículas virtuais estão realmente lá. (Barrow & Silk 1993: 65-66)

[Q5] Richard Morris:

Na física moderna, não existe tal coisa denominada “nada.” Mesmo no perfeito vácuo,  pares de partículas virtuais estão sendo constantemente criados e destruídos. A existência dessas partículas não é uma ficção matemática. Embora elas não possam ser observadas diretamente, os efeitos que elas produzem são completamente reais. A hipótese de que elas existem nos leva a previsões que têm sido confirmadas em experimentos com um alto grau de precisão. (Morris 1990: 25)

[Q6] Heinz Pagels:

Já que nossas mentes aceitam a mutabilidade da matéria e a nova ideia do vácuo, podemos especular sobre a origem da maior coisa que conhecemos – o universo. Talvez o universo passou a existir a partir do nada  – uma flutuação gigante no vácuo que conhecemos hoje como Big Bang. Notavelmente, as leis da física moderna permitem tal possibilidade. (Pagels 1982: 247)

[Q7] Stephen Hawking:

Existe algo como dez milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões (1 seguido de 85 zeros) de partículas no universo. De onde elas vieram? A resposta é que, pela teoria quântica, partículas podem ser criadas a partir de energia na forma de pares de partículas/antipartículas. Mas isso apenas levanta a questão sobre de onde veio essa energia. A resposta é que o total de energia no universo é exatamente zero. A matéria no universo é feita a partir de energia positiva. No entanto, toda a matéria está atraindo a si mesma pela gravidade. Duas partes da matéria que estão próximas uma da outra possuem  menos energia do que essas mesmas partes separadas por uma longa distância, porque, para separá-las, você tem que gastar energia contra a força gravitacional que as empurra uma contra a outra. Por isso, em certo sentido, o campo gravitacional possui energia negativa. No caso de um universo que é aproximadamente uniforme no espaço, pode-se mostrar que esta energia negativa cancela exatamente a energia positiva representada pela matéria. Logo, a energia total do universo é zero. (Hawking 1988: 129) [obrigado Ross King por esta citação]

[Q8] Paul Davies:

Existe uma possibilidade ainda mais fantástica, que é a criação de matéria a partir de um estado com zero de energia. Essa possibilidade surge porque a energia pode ser tanto positiva como negativa. A energia do movimento ou a energia da massa é sempre positiva, mas a energia da atração, como a que é produzida devido a certos campos gravitacionais ou eletromagnéticos, é negativa. Podem surgir circunstâncias em que a energia positiva que iria criar a massa de novas partículas de matéria é compensada exatamente pela energia negativa da gravidade do eletromagnetismo (sic). Por exemplo, na vizinhança de um núcleo atômico, o campo elétrico é intenso. Se um núcleo contendo 200 prótons puder ser feito (possível, mas difícil), o sistema se torna instável contra a produção espontânea de pares de elétrons-positrons, sem qualquer energia interna. Isso ocorre por que a energia elétrica negativa pode compensar exatamente a energia de suas massas.

No cenário gravitacional a situação é ainda mais bizarra, pois o campo gravitacional é apenas uma deformação no espaço – um espaço curvado. A energia contida em uma deformação no espaço pode ser convertida em partículas de matéria e antimatéria. Isso ocorre, por exemplo, na vizinhança de buracos negros, e foi provavelmente a mais importante fonte de partículas no Big Bang. Por consequência, matéria aparece espontaneamente a partir de espaço vazio. Com isso surge a questão, o Bang primordial possuía energia, ou o universo inteiro estava em um estado cuja energia era zero, com a energia de toda a matéria sendo compensada pela energia negativa da atração gravitacional?

É possível resolvermos a questão através de um simples cálculo. Astrônomos podem medir a massa das galáxias, a distância média entre elas, e a velocidade com que se afastam. Colocando os números em uma fórmula obtemos uma quantidade que muitos físicos interpretam como a energia total do universo. Realmente, a resposta revelar-se-á zero dentro do intervalo de confiança das observações. O razão para esse resultado bem característico vem sendo há tempos um quebra-cabeça para os cosmólogos. Alguns já chegaram a sugerir que deve existir algum princípio cósmico em andamento que requeira que a energia do universo seja exatamente zero. Se for esse o caso, o cosmos pode seguir o caminho de menor resistência, passando a existir sem precisar da entrada de nenhuma energia ou matéria.     (Davies 1983: 31-32)

[Q9] Edward Tryon:

As leis da física não impóem nenhum limite à escala das flutuações quânticas. A duração é, obviamente, restrita a ΔEΔt ~ h, mas  isso apenas implica que o universo tem energia exatamente zero, o que já foi demonstrado como plausível  (Tryon 1973:397)

[Q10] Victor Stenger:

Segundo a relatividade geral, o espaço-tempo pode estar sem matéria ou radiação e ainda conter energia armazenada em sua curvatura . Fortuitamente, flutuações aleatórias no vácuo em um espaço-tempo plano, vazio e inexpressivo podem produzir regiões com uma curvatura positiva ou negativa. Essa é a denominada “espuma de espaço-tempo” e as regiões são denominadas “bolhas de falso vácuo.” Sempre que a curvatura estiver positiva a bolha irá inflar exponencialmente, de acordo com as equações de Einstein. Em 10^-42 segundos a bolha irá se expandir até o tamanho de um próton e terá energia interna suficiente para produzir toda a matéria do universo.

As bolhas começam sem matéria, radiação ou campos e entropia máxima. Elas possuem  energia em sua curvatura, e são por isso denominadas de “falso vácuo.” Enquanto se expandem, a energia interna aumenta exponencialmente. Isso não viola o princípio da conservação de energia já que o falso vácuo possui uma pressão negativa (confie em mim, tudo isso resulta das equações que Einstein escreveu em 1916), o que permite que a bolha em expansão faça esse trabalho sozinha.

Enquanto o universo bolha se expande, um tipo de fricção ocorre, convertendo a energia em partículas. A temperatura então cai e uma série de processos de quebras simétricas ocorrem – semelhante ao que ocorre com um imã posto abaixo da temperatura de Curie, e surgem forças e estruturas de partículas essencialmente aleatórias. A inflação para e o processo segue para o tradicional Big Bang.
As forças e as partículas que aparecem são mais ou menos aleatórias, governadas apenas por princípios de simetria (como os princípios de conservação de energia e de momento ) que não são o produto de um design, mas exatamente o que temos na ausência de um design.

As denominadas “coincidências antrópicas,” pelas quais as partículas e forças parecem ter sido “ajustadas” para a produção de vida baseada em caborno são explicadas pelo fato de a espuma espaço-temporal ter produzido um número infinito de universos, sendo cada um distinto. Nós simplesmente calhamos de estar no lugar onde as forças e partículas prestam-se à produção de carbono e outros átomos com a complexidade necessária para a evolução de organismos vivos e pensantes.
(Stenger 1996)

[Q11] William Kaufmann:

De onde toda a matéria e radiação no universo veio, em primeiro lugar? Pesquisas recentes e intrigantes na física teórica feitas por cientistas como Steven Weinberg de Harvard e Ya B. Zel’dovich em Moscou sugerem que o universo começou como um perfeito vácuo e que todas partículas do mundo material teriam sido criadas pela expansão no espaço…

Pense no universo imediatamente após o Big Bang. O espaço se expande violentamente com um ímpeto explosivo. Ainda, como temos visto, todo o espaço fervilha de pares de partículas e antipartículas virtuais. Normalmente, as partículas e antipartículas não encontram problemas para se unirem novamente em um intervalo de tempo…breve o suficiente para a conservação da massa ser satisfeita de acordo com o princípio da incerteza. No entanto, durante o Big Bang, o espaço se expandiu tão rápido que as partículas foram empurradas para longe de suas antipartículas correspondentes. Privadas da oportunidade de se recombinarem, tais partículas virtuais precisaram se tornar partículas reais em nosso mundo. Mas de onde veio a energia para realizar essa materialização?

Relembre que o Big Bang foi como o centro de um buraco negro. Um vasto suprimento de energia gravitacional foi, por isso, associada com a intensa gravidade dessa singularidade cósmica. Esse recurso ofereceu ampla energia para encher o universo completamente com todos os tipos concebíveis de partículas e antipartículas. Assim, imediatamente após a era de Planck, o universo foi inundado com partículas e antipartículas criadas pela violenta expansão do espaço.
(Kaufmann 1985: 529-532)

[Q12] Martin Bojowald:

A condição de tunelamento proposta por Vilenkin baseia-se em um outro efeito da mecânica quântica, novamente uma consequência das propriedades da Função de Onda. A Função de Onda pode muitas vezes penetrar barreiras com suas caudas, mesmo se estas barreiras não forem tão altas para as partículas clássicas correspondentes…Vilenkin propôs em 1983 que o próprio universo poderia ter emergido de tal processo de tunelamento. Nosso universo seria a cauda de uma Função de Onda pioneira que uma vez teria penetrado a barreira do Big Bang e de sua singularidade. Mas de onde o tunelamento trouxe o universo, e de onde veio o conteúdo da Função de Onda, da qual a cauda de nosso universo é supostamente feita, antes do processo de tunelamento? A resposta de Vilenkin, óbvia e apenas à primeira vista: Do nada …

Dificilmente, pode-se atribuir um significado físico ao tunelamento “do nada” em sentido literal. Independentemente disso, o postulado de Vilenkin faz sentido ao tomarmos a Função de Onda do universo, dotada por uma condição de tunelamento com certas quantias iniciais de perda de volume. (Bojowald 2010: 222)

Referências

Barrow, John D. & Silk, Joseph. 1993. Left Hand of Creation. London: J. M. Dent & Sons.

Bojowald, Martin. 2010. Once Before Time. New York: Alfred A. Knopf.

Davies, Paul. 1983. God and the New Physics. London: J. M. Dent & Sons.

Davies, Paul. 1994. The Last Three Minutes. New York: BasicBooks.

Hawking, Steven. 1988. A Brief History of Time. Toronto: Bantam.
Kaufmann, William J. 1985. Universe: Instructor’s Manual. New York: W.H. Freeman & Co.
Morris, Richard. 1990. The Edges of Science. New York: Prentice Hall.

Pagels, Heinz. 1982. The Cosmic Code. Toronto: Bantam.

Stenger, Victor. 1996. Inflation and creation. URL:<http://www.colorado.edu/philosophy/vstenger/Cosmo/inflat.html.

Tryon, Edward P. 1973. Is the universe a vacuum fluctuation? Nature 246: 396-397.

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