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Posts Tagged ‘Antropomorfismo’

por Jaco Gericke

As pessoas que escreveram o Antigo Testamento também cometeram o erro fatal de construir Javé com o que hoje em dia nos parece um perfil psicológico (cognitivo, conativo e afetivo) repugnante.[12]

Antes de mais nada, a mente do deus da Bíblia exibe um compêndio de conhecimentos demonstravelmente errôneos. Quando Javé fala na primeira pessoa nos textos do Antigo Testamento, a divindade é muitas vezes retratada fazendo pronunciamentos que incluem referências a fenômenos históricos, cosmográficos, geográficos, biológicos e de outros tipos que atualmente sabemos não serem factuais. O que denuncia a origem demasiado humana da mente divina é o simples fato de que as idéias que Javé contempla acerca da realidade dificilmente vão além das superstições e concepções errôneas dos sistemas de conhecimento autóctones das pessoas que o adoravam.[13]

De modo que o próprio Javé acredita que o universo foi criado literalmente ao longo de um período de seis dias (Exo. 31:17) e que há um oceano acima das estrelas, por trás do firmamento, de onde vem a chuva que cai sobre a terra (Gen. 1:6; Jó 38:34).[14] Ele também acredita que os continentes da terra flutuam sobre água (Deut. 5:8; Salmos 24:2) e que existe literalmente um lugar subterrâneo onde os mortos vivem como sombras agrupados por suas nacionalidades (Num. 16:23-33; Deut. 32:22; Jó 38:16-17; Isa. 7:11; Ez. 26:19:20; 32:18-32; Amós 9:2). Javé também acredita em criaturas míticas como o Leviatã, o Behemoth, o Rahab, monstros marinhos, dragões voadores, demônios rurais, espíritos noturnos malévolos, etc. (confira em Jó 40–41; Isa. 30:6; Lev. 17:7; Isa. 34:14; Amós 9:3; etc.). Ele assume até mesmo que os pensamentos brotam do coração e as emoções dos rins (Jer. 17:12; etc.)

Javé também acredita na historicidade de Adão, Noé, Abraão, Moisés e Davi, conforme retratados nas tradições bíblicas, no mínimo de acordo com os textos em que ele lhes fala diretamente e nas histórias subsequentes em que seu personagem alude retrospectivamente a eles como se fossem pessoas reais (veja, por exemplo, Ez. 14). Mas se estas pessoas conforme retratadas são ficções (como os estudiosos já estabeleceram), como poderia Javé – falando a personagens fictícios e aludindo a eles como se fossem parte da realidade – não ser ele próprio fictício? Certamente tais crenças factualmente errôneas mantidas por Javé demonstram que este deus não pode existir conforme é retratado.[15] Mesmo se insistirmos que o que encontramos nestes textos são simplesmente as crenças errôneas de humanos e não os próprios pensamentos de um deus, teremos perdido quaisquer fundamentos para acreditar que o personagem Javé possui alguma contraparte extratextual. Em todo caso, quem seria Javé sem Adão, Abraão ou Moisés conforme retratados nos textos?

Mas há mais acerca da mente divina que parece bastante absurdo. Não são somente as crenças de Javé acerca do mundo que as vezes parecem demasiado humanas. A divindade também exibe desejos e necessidades demasiado humanos a cuja satisfação ele se dedica obsessivamente. Assim, poucas pessoas param e questionam porque Deus, também conhecido como Javé, deve ter um povo para governar (Êxodo 19:6; Deut. 4:19; 32:8-9) e se empenha arduamente para manter uma reputação baseada em concepções dos valores da honra e da vergonha  cultivados no Oriente Próximo antigo (Deut. 32:26-27; Mal.1-3). Javé preocupa-se muito em manter seu nome em segredo (Gen. 32; Êxodo 6; Juízes 16; etc.) e, como um membro da nobreza aristocrática, prefere ter sua morada num local bem elevado e distante, acima da sociedade humana, de modo a não ser perturbado pelos mortais (Gen. 11,18; Exodo 24, etc.). Javé precisa limitar seu contato direto e pessoal com a população em geral e, na maior parte das vezes, prefere agir através de mediadores, agentes, mensageiros e exércitos. Ele aprecia e exige ser temido (Êxodo 20:19-20; Jó 38-41). Mais do que qualquer outra coisa, Javé anseia por ser adorado e ser constantemente lembrado do quão grande, poderoso e prodigioso ele é (Isa. 6:2-3; etc.).

Considere este último exemplo: o desejo de Javé de ser adorado. Várias pessoas presumem esta necessidade em Deus mas nunca se incomodam em perguntar por que Deus deseja – ou melhor, exige – ser adorado. Uma coisa é se as criaturas, reverentes a seu criador, irrompem espontaneamente em louvores, “não se eximindo de uma espécie de cômica gratidão pelo prodigioso fato de serem, não importa quão grande desventura as assole” . Outra coisa completamente diferente é se o criador deveria ser concebido como alguém que premeditou a formação de criaturas cujo único e exclusivo propósito é lembra-lo perpetuamente do quão excelente e poderoso e benevolente ele é (Isa. 6). Quero dizer, é realmente verossímil acreditar que a realidade última é uma pessoa tão narcisista e ególatra que precisa prescrever em minuciosos detalhes exatamente como deseja ser adorado? Por que admitimos tão ingenuamente a idéia de um deus tão absorto em si próprio a ponto de ameaçar destruir qualquer um que se desvie minimamente de suas instruções? Veja o grau de detalhamento nos capítulos 25 a 40 do livro do Êxodo em relação à mobília e à construção do tabernáculo e os pormenores dos rituais. Tamanha obsessão controladora pode ser explicada somente postulando por trás dela uma projeção do desejo humano por ordem e controle. Como Don Cupitt observa (aludindo a um comentário de Harold Bloom):

O deus da Bíblia Hebraica é como um meninão sinistro e poderoso , um peralta sublime, endiabrado e custoso. Ele se assemelha a Lear e o superego freudiano em ser um Pai demoníaco e perseguidor, inteiramente desprovido de auto-conhecimento e muito relutante até mesmo em aprender qualquer coisa. Como os personagens humanos com que interage, sua consciência se altera continuamente. Ele manifesta a pura força e energia do Devir. Ele é a Vontade de Poder nietzscheana, abrupta e incontrolável, e não submissa a nada nem a ninguém.[16]

O fato de as alegadas necessidades do próprio Javé assemelharem-se perturbadoramente às necessidades historica e culturalmente condicionadas dos “poderes estabelecidos” conhecidos por seus adoradores é melhor explicado concebendo a mente de Javé representada nos textos particulares como o produto de projeções humanas de autocratas inebriados pelo poder que lhes eram familiares sobre um monarca cósmico imaginário. Como governantes humanos paranóicos exibiam estas características, os antigos raciocinaram que, se o próprio cosmos é uma monarquia com um rei (super)humanóide no trono, ele pode ser tão fútil, despótico e carente de atenção quanto qualquer monarca secular (embora tão hábil quanto na manutenção de sua popularidade por atos ocasionais de caridade e boa vontade quanto suas contrapartes terrestres). Quem correria o risco? Melhor prevenir do que remediar.

De qualquer maneira, sabemos que _ se é que sabemos alguma coisa _ o universo não é um galinheiro cujo posto mais alto na hierarquia das bicadas é ocupado por um rei com o perfil psicológico de um imperador do Oriente Próximo antigo narcisista e bipolar dirigindo todo o espetáculo. Podemos ver claramente o absurdo de se imaginar a existência de um deus cujo perfil psicológico exibe desejos humanos culturalmente relativos e historicamente contingentes. Observe também que nenhuma destas características psicológicas divinas foram compreendidas em seus contextos bíblicos como sendo meras representações metafóricas ou o resultado de uma suposta “adaptação” divina.[17] Tampouco podem estas características serem racionalizadas e completamente explicadas como o produto da representação “antropopática” deliberada e intencional de alguma coisa que na realidade é presumivelmente inefável. Estas maneiras de considera-las surgem apenas quando precisamos reprimir o fato de não mais acreditarmos em Deus, também conhecido como o deus da Bíblia.

Um terceiro e último aspecto da representação da mente de Deus parece igualmente absurdo. Encontramos no perfil psicológico de Javé valores morais que o deus considera serem eterna e universalmente normativos mas que são obviamente tabus culturais locais. Análoga à desconcertante maneira em que o conhecimento de Javé acerca do mundo nunca ultrapassa o de seus redatores de discuros, assim, também, a ética divina parece perturbadoramente similar à moralidade projetada de um povo mergulhado em superstição.

Por exemplo, considere o desejo divino por sacrifícios. Quando você reflete sobre isso, tudo se resume à idéia de um criador que espera que algumas de suas criaturas (humanas) matem e queimem outras criaturas de um certo tipo (animais) a fim de prover o sustento divino (Javé aprecia o cheiro de churrasco, de acordo com Lev. 1:6) e para expiar a culpa (Lev. 1-7). Que tal o fato de que Javé acredita que dar à luz uma garota deixa a mãe impura por um período duas vezes maior do que quando ela dá à luz a um varão (Lev. 12:4-5)? E por que Javé considera moralmente errado a utilização de duas matérias-primas diferentes na confecção de roupas, ou que os campos sejam semeados com duas variedades diferentes de sementes (Lev. 19:19)? Por que Javé acha os processos fisiológicos humanos objetivamente ofensivos, quando ele os criou (Lev. 12)? Por que alguns animais são considerados abominações horrendas, mesmo por seu próprio criador (Lev. 11; Deut. 14)?

O código moral de Javé assemelha-se demais ao que os humanos das antigas culturas do Oriente Próximo já consideravam ser o caso – muito antes que a religião de Javé desse seus primeiros passos. O Javeísmo e seus tabus são retardatários na história das religiões, e muitas das crenças morais contidas em seu sistema de valores podem ser rastreadas em outras religiões pagãs que precedem seu aparecimento em Israel e Judá (a circuncisão e os tabus referentes ao porco já eram práticas estabelecidas no Egito, por exemplo).[18] Assim, “Deus” e os mandamentos divinos tem uma história que entrega o jogo. Vários religiosos fundamentalistas podem não estar muito perturbados por isso porque consideram as leis de culto obsoletas – mesmo que Javé nunca tenha contemplado sua revogação. Tais cristãos estão apenas reprimindo o fato de que eles próprios não mais acreditam em Javé, que entrementes foi atualizado para alguma coisa mais intelectualmente verossímil. Na verdade, toda a teologia cristã não passa de ateísmo javeísta.

(…continua…)

Notas.

12. Para uma discussão mais detalhada e evidências desta projeção polimórfica, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 418–22; veja também o capítulo 6 escrito por Valerie Tarico no livro The End of Christianity, “Why the Biblical God is Hopelessly Human.”

13. Este ponto foi concisamente discutido em Harwood, Mythology’s Last Gods.

14. Para mais exemplos desta ignorância cosmológica exibida no Antigo Testamento (correspondendo exatamente às mesmas crenças coincidentemente mantidas pelas sociedades pagãs ao redor, veja Ed Babinski, “The Cosmology of the Bible,” The Christian Delusion, ed. John Loftus (Amherst, NY: Prometheus Books, 2010): 109–47.

15. Sobre a inexistência destes personagens, veja o capítulo 4 de The End of Christianity, escrito por Hector Avalos, Por Que Os Estudos Bíblicos Devem Terminar, e a discussão e as conclusões dos estudos citados em Paul Tobin, “The Bible and Modern Scholarship,” em Loftus, The Christian Delusion, 148–80.

16. Don Cupitt, After God: The Future of Religion (London: SCM Press, 1997), 45.

17. Para uma introdução à teologia do “ser menos que perfeito” do Antigo Testamento, não obstante uma apresentação demasiado otimista completamente ignorante do lado negro de Javé, veja Terrence E. Fretheim, The Suffering of God: An Old Testament Perspective (OBT 14, Philadelphia: Fortress Press, 1984). Para 24 exemplos desse negligenciado lado negro, veja “The Will of God” no compêndio online The Christian Delusion: http://sites.google.com/site/thechristiandelusion/Home/the-will-of-god.

18. Sobre o quão suspeita é a semelhança entre os códigos legais de Javé no Antigo Testamento e os códigos feitos pelos habitantes humanos das culturas pagãs das vizinhanças quando o Antigo Testamento foi escrito, veja Hector Avalos, “Yahweh Is a Moral Monster,” em Loftus, The Christian Delusion, 209–36.

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por Jaco Gericke, PhD

A maioria dos religiosos pode conceber “Deus” como um ser incorpóreo e espiritual. Mas se isto realmente é o caso, eles não acreditam em Javé conforme retratado em diversos textos bíblicos. De fato muitos não acreditam e não apreciam a verdade expressa na piada popular sugerindo que, no princípio, Deus criou o homem à sua própria imagem e esse homem, em resposta, prontamente retribuiu o favor. A este respeito, os teólogos, tantos os bíblicos como os sistemáticos, tem debatido interminavelmente as possibilidades semânticas de passagens como Genesis 1:26-27 que falam do homem sendo criado “à imagem de Deus”. Eles tem insistido que não é possível que o sentido óbvio e literal destas palavras – que acreditava-se que Deus possuía a aparência de ser humano do sexo masculino porque pensava-se que Deus criara os humanos semelhantes a si próprio (veja Gen. 5:1-3; 9:6) – corresponda à intenção do autor. Malgrado toda a apologética sofisticada, isto é o que Genesis 1 parece estar dizendo, e eu gostaria de considera-lo seriamente.[6]

A maioria das referências a Javé não são simbólicas. Não pode ser negado que existe uma série de referências textuais ao corpo (e aos membros) de Javé que, no contexto das narrativas bíblicas, parecem ter funcionado como descrições não-metafóricas da suposta aparência da divindade. Assim, no livro do Êxodo, encontramos referências literais ao rosto de Javé (Êx. 33:20); às suas costas (Êx. 33:23). às suas mãos e dedos (Êx. 31:18); seus pés (Êx. 24:10-11); e assim por diante. Existem outros textos sugerindo que Javé possuía literalmente um nariz com o qual cheirava os agradáveis aromas dos sacríficios em sua honra (Gen. 8:21; Lev. 1:9, 13, 17; 26:31). Portanto, deve-se reconhecer a presença de algum literalismo nos textos do Antigo Testamento: é necessário que todos levemos a Bíblia a sério. Quando os acadêmicos cristãos tentam minimizar o problema com o conceito de antropomorfismo (isto é, falam como se Javé apenas se manifestasse visualmente em forma humana, mas “em si” não se assemelhasse nada a um humano) é porque eles também reconhecem a absurdidade de tal crença.

Uma justificativa para considerar seriamente a linguagem religiosa do Antigo Testamento pode ser encontrada no reconhecimento de que sobejam elementos não-metafóricos naquelas retratações de Javé que fazem sentido somente se se assume que as limitações de uma condição corpórea exercem sobre ele um efeito restritivo. Assim, ele é flagrado precisando descansar a fim de recobrar suas energias (Gen. 2:1; Ex. 31:17); tendo que viajar para obter informações e averiguar relatos (Gen. 3:8-11; 11:5-7; 18:17); precisando testar as pessoas para discernir suas crenças, intenções e motivos (Gen. 22; Deut. 8:2; Cron. 32:31; etc.); sendo obrigado a agir baseado num medo do potencial humano (Gen. 3:22; 11:5-7); sendo impotente ao ponto de seu povo ser incapaz de derrotar os inimigos porque estes utilizavam carruagens de ferro na batalha (Juízes 1:21) e solicitando assistência em alguns assuntos (Juízes 5:23; 1 Reis 22:20-23; Is. 63:3-5); etc.[7]

Tendo um corpo masculino, acreditava-se que Javé possuía membros masculinos. Isto também engloba órgãos sexuais masculinos (isto é, “loins”, Ezeq. 1:27-28). Textos como Gen. 6:4, em que os deuses mantém intercurso sexual com fêmeas humanas presumem a mesma coisa, assim como a discreta visitação divina à virgem adolescente Maria no Novo Testamento. Evidências oriundas de pesquisas históricas e arqueológicas largamente aceitas sugerem fortemente que uma deusa era adorada no antigo Israel como a consorte de Javé (Asherah).[8] Mas os grupos responsáveis pelo texto final do Antigo Testamento asseguraram-se de eliminar a maior parte dos vestígios dessa crença, resultando num cenário bastante sexista em que o Céu é um mundo habitado somente por indivíduos masculinos. O mais próximo que se chega sobre como Javé se relacionaria com uma deusa é quando Javé chama Israel ou algumas cidades na terra de sua esposa/noiva (como em Ezequiel e Oséias). Observando como ele trata sua esposa, entretanto, descobrimos uma mente demasiado humana propensa ao abuso emocional e à violência doméstica, não obstante quaisquer outros traços de caráter positivos e afetuosos que sejam incluídos na representação de Javé como um marido.[9]

Mas o texto revela ainda outros absurdos concernentes a algo que pode soar como pedantismo, mas é injustificadamente negligenciado em discussões sobre o corpo de Javé; trata-se de Deus como falante de uma língua. Curiosamente aconteceu de Deus ter um nome hebraico, Javé, um fato que intriga pouquíssimos crentes que ainda oram em seu nome sem ficarem perplexos com a importância a isto atribuída, ou com a razão pela qual ele precisaria de um nome (poderia-se apenas chama-lo de “Deus”). Além disso, de acordo com o texto, precisamos levar a sério a hipótese de que na criação dos céus e da terra (por que um deus desejaria criar coisas?), mesmo antes que as línguas semíticas do noroeste evoluíssem (das quais o hebraico é um exemplo), Javé conjurou o mundo à existência através de um dialeto específico do hebraico clássico que evoluiu entre humanos, sobreviveu apenas por um curto período de tempo e numa pequena região, e então desapareceu de todos os lugares exceto o Céu. Mas pense sobre isso: o momento do episódio da criação em que Deus fala pela primeira vez não faz sentido algum. Quando Deus diz “Que haja luz!” em hebraico clássico, não há ninguém para quem o que Deus profere sejam palavras dotadas de significado em vez de apenas um grito não-verbal. Não há nenhuma comunidade de falantes para a qual o que Deus grita equivale a um imperativo, a uma ordem que exige que algo aconteça. Então como Deus sabe o que dizer, e como ele pode estar certo de que o que ele profere são palavras dotadas de sentido e com um poder específico? A existência de convenções sociais estabelecidas na criação é impossível; o que há é apenas nossa própria projeção a fim de descrever como um certo tipo de ação um vislumbre limitado  do comportamento divino, distinguindo-o de espasmos e convulsões desprovidas de significado. A idéia de um usuário de uma língua eternamente consciente de si mesmo como um falante do hebraico clássico não faz absolutamente o menor sentido.[10]

Poucos leitores ao longo das eras captaram este problema, e aqueles que o fizeram rapidamente recorreram a uma reinterpretação filosófico-teológica. Diversas autoridades judaicas medievais sustentaram que o hebraico foi a língua de Deus sem jamais se incomodarem em perguntar por que Deus falaria um dialeto particular do hebraico clássico, historica, cultural e temporalmente específico. Parte desta dilema para a logística da criação pela palavra foi reconhecido em 1851 quando o filologista alemão Jacob Grimm argumentou que se Deus fala uma língua, na verdade qualquer língua que envolva consoantes dentais, Deus deve ter dentes, e uma vez que dentes foram criados não para falar mas para comer, disso se seguiria que ele também come, o que levaria a tantas outras hipóteses inadmissíveis para aqueles teologicamente comprometidos que a idéia foi completamente abandonada.[11]

Não há dúvidas de que esta preocupação seja anacrônica na medida em que Genêsis 1 assume que os seres humanos é que são teomórficos em vez de Deus ser antropomórfico. A última hipótese é certamente ingênua de uma perspectiva evolutiva, e atualmente os estudiosos da Bíblia da corrente predominante não mais leem Gênesis 1 como um documento histórico ou científico, de modo que a questão da credibilidade não é levantada. O que é louvável; mas embora tais preocupações sejam pseudoproblemas devido a erros categoriais na análise do gênero, o problema com não tentar relacionar a linguagem à realidade é que fica-se completamente perdido quando se tenta lidar com a absurda filosofia da linguagem popular  que opera através do mito.

Para diversos filósofos e comentadores da Bíblia, Deus não possui qualquer forma e somente aparece em forma humana. Belo pensamento, mas infelizmente não é isso o que a Bíblia ensina nos textos em que se pressupõe que a forma humanóide de Javé é sua verdadeira forma (por exemplo, Ex. 33:20-23), a forma que presume-se que ele assuma mesmo no Céu. A reinterpretação filosófica cristã disto não passa de uma estratégia de evasão por pessoas que não são capazes de admitir para si próprias que elas, igualmente, não mais acham possível acreditar em “Deus” (também conhecido como Javé), mais do que acreditam em Zeus. Os filósofos gregos fizeram a mesma coisa com os deuses gregos quando começaram a achar suas representações muito rudes. Até onde se pode extrapolar a partir da experiência prévia, os crentes continuarão a proceder assim a perder de vista.

(…continua…)

Notas.

6. Para uma discussão mais abraangente do fundo histórico e semântico por trás destes recentes balbucios gaguejantes sobre as descrições físicas de Deus no Antigo Testamento, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 407–12.

7. Para uma exposição divertida, veja Alexander Waugh, God (London: Headline Books, 2002). Para um levantamento mais detalhado e uma discussão de exemplos de Deus sendo concebido trabalhando com os membros e as limitações de um corpo humano, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 416–18 (projeção antropomórfica).

8. Sobre isto veja, William G. Dever, Did God Have a Wife? Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel (Grand Rapids, MI: William Eerdmans Publishing, 2005).

9. Veja Michael Coogan, God and Sex: What the Bible Really Says (New York: Twelve, 2010), 163–88. [Nota do Editor: no último capítulo deste livro Coogan descreve a vida sexual de Javé, que assim como os outros deuses e deusas daquele período, também tinha uma. Javé provavelmente teve uma consorte cujo nome era Asherah (a “rainha do Céu”, uma contraparte de Javé como “o rei do Céu”). Ela foi cultuada como parte da religião popular daqueles dias, bem como por reis e oficiais. Num fragmento de cerâmica encontrado por arqueólogos, Javé está representado com um grande falo ereto abraçando Asherah! Os “filhos de deus” em Gênesis 6:1-4 eram sua prole. Estes “filhos de deus” tornaram-se problemáticos para os monoteístas posteriores, de modo que eles os reinterpretaram como “Vigilantes” e mais tarde como anjos. Faz sentido. Certo? O que mais você poderia fazer com seres obviamente míticos como estes, e com uma família divina, após rejeitar seu antigo politeísmo e se tornar monoteísta?

A coisa realmente fascinante foi como Javé tratou suas esposas infiéis. Sim, ele era um polígamo. Na mente do profeta isto era uma alegoria, é claro, mas a alegoria deveria ter um significado para as pessoas a quem foi dirigida, caso contrário não faria sentido para elas. Os profetas Oséias, Jeremias e Ezequiel contam-nos sobre suas infidelidades para com seu marido Javé, e o que ele fez como castigo pela traição. Ezequiel 16 e 23 contém “algumas das passagens mais chocantes e sexualmente explícitas da Bíblia”, Coogan nos diz (183). Nesta alegoria, as espoas infiéis da Samaria e Jerusálem são brutalmente punidas por seu divino marido Javé. A certa altura ele as despe diante da multidão. Então vem o alerta do próprio Javé, dizendo que assim procedeu “para que sirva de exemplo à todas as mulheres, e não façam conforme a vossa perversidade” (Ezeq. 23:48).

10. Don Cupitt, Philosophy’s Own Religion (London: SCM Press, 2001), 65.

11. F. Staal, “Noam Chomsky between the Human and Natural Sciences,” Janus Head: Journal of Interdisciplinary Studies in Literature, Continental Philosophy, Phenomenological Psychology, and the Arts (Special Supplemental Issue, Winter 2001): 21, 25–66.

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