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Posts Tagged ‘Apologética’

Autor: Keith Parsons

Fonte: Why I Am Not A Christian

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Talvez o mais respeitado, certamente o mais lido, apologista cristão seja C.S. Lewis. Lembro-me de ouvir vinte anos atrás que seus livros venderam mais de 50 milhões de cópias. A esta altura a cifra já deve estar próxima de 100 milhões. Uma das virtudes de Lewis como apologista do Cristianismo é sua intransigência em defender mesmo os itens mais impopulares e difíceis de sua doutrina. Aqui você não encontra nenhuma versão pop café-com-leite do Cristianismo, secularizada e liberalizada, mas a religião tradicional apresentada sem concessões.

Com respeito às exigências cristãs relativas à moralidade sexual ele é admiravelmente franco e sucinto:

A castidade é a menos popular das virtudes cristãs. Porém, não existe escapatória. A regra cristã é clara: “Ou o casamento, com fidelidade absoluta ao cônjuge, ou a abstinência total”.

Lewis reconhece que esta regra está em conflito com nossos sentimentos sexuais, mas ele pensa que são nossos sentimentos sexuais que estão errados, não a regra (mais sobre isso adiante).

Mas exatamente por que é errado, sob quaisquer circunstâncias, manter relações sexuais fora de um casamento (heterossexual) estável e completamente fiel? O mais perto que Lewis chega de oferecer uma resposta é isto:

A ideia cristã de casamento se baseia nas palavras de Cristo de que o homem e a mulher devem ser considerados um único organismo – tal é o sentido que as palavras “uma só carne” teriam numa língua moderna. Os cristãos acreditam que, quando disse isso, ele não estava expressando um sentimento, mas afirmando um fato — da mesma forma que expressa um fato quem diz que o trinco e a chave são um único mecanismo, ou que o violino e o arco formam um único instrumento musical. O inventor da máquina humana queria nos dizer que as duas metades desta, o macho e a fêmea, foram feitas para combinar-se aos pares, não simplesmente na esfera sexual, mas em todas as esferas. A monstruosidade da relação sexual fora do casamento é que, cedendo a ela, tenta-se isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que deveriam acompanhá-la para compor a união total. A atitude cristã não toma como errada a existência de prazer no sexo, como não considera errado o prazer que temos quando nos alimentamos. O erro está em querer isolar esse prazer e tentar buscá-lo por si mesmo, da mesma maneira que não se deve buscar os prazeres do paladar sem engolir e digerir a comida, apenas mastigando-a e cuspindo-a.

Além de aparentemente implicar que mascar chicletes é um pecado, há uma série de coisas intrigantes nesta passagem. Para um autor celebrado por sua lucidez, aqui a clareza de Lewis deixa muito a desejar. O que significa dizer (mais do que metaforicamente) que o marido e a esposa são “uma só carne” ou que o macho e a fêmea são um “único mecanismo” projetado para constituir uma “união total”? Quão total esta união total deve ser? Absolutamente total? Nesse caso, a expressão soa como a definição de casamento de Ambrose Bierce: “O estado ou condição de uma comunidade consistindo de um senhor, uma senhora e dois escravos, perfazendo uma totalidade de dois”. E o que dizer sobre os que não se casam ou não podem se casar? Devem eles conceber a si próprios como de alguma forma incompletos, menos do que pessoas inteiras?

Interpretando as palavras de Lewis caridosamente, penso que ele quis dizer que no ideal cristão de casamento, os cônjuges compartilham não somente uma cama mas todas as obrigações e responsabilidades acarretadas pela construção de um lar e de uma família. Eles compartilham o trabalho, a disciplina e a criação dos filhos, a administração das finanças, o planejamento do futuro e todos os outros mil e um detalhes práticos que constituem uma vida doméstica. Eles compartilham não somente a fantasia de um idílio à luz da lua, como também a realidade da luz do dia, das louças sujas e das trocas de fraldas.

Agora, eu considero admirável o casamento assim descrito. Mais ainda, eu considero o adultério algo bastante censurável sob quase todas as circunstâncias. Chamemos de “solteiras” duas pessoas se elas não são casadas uma com a outra ou com qualquer outra pessoa. Por que, em toda e qualquer circunstância, é sempre ruim (mais do que isso, uma “monstruosidade”) que duas pessoas nessas condições mantenham relações sexuais? A resposta dada por Lewis é que o sexo foi “planejado” para integrar a “união total” e não ser desfrutado isolado de todos os compromissos e responsabilidades que fazem parte de um casamento.

“Projetado” como ou por quem? Projetado por Deus? Se era isso que Lewis tinha em mente, trata-se clara e completamente de uma petição de princípio se dirigido a descrentes. Quando pessoas tão inteligentes quanto Lewis incorrem em petição de princípio de maneira tão gritante, algo engraçado está ocorrendo. Geralmente tais pessoas nutrem sentimentos tão fortes por suas concepções que pensam que a verdade será evidente tão logo seja claramente articulada. Dificilmente lhes ocorre que alguém realmente pode ter intuições completamente diferentes.

Minha intuição é que, em geral, não há absolutamente nada de errado com o sexo responsável e mutuamente respeitoso entre dois adultos solteiros. De Santo Agostinho a C.S. Lewis, a visão cristã tem sido a de que o sexo é condenável a menos que seja motivado por ou incorporado a algum propósito “elevado” (por exemplo, procriar ou atingir a “união total”). Do modo como vejo as coisas, o prazer sexual não precisa estar incluído em nada mais ou justificado por qualquer objetivo ou propósito “elevado”; ele é bom per se. Naturalmente, existem diversas considerações prudenciais sobre quando, onde ou com quem é sábio ter sexo, mas dizer que uma ação é precipitada não é o mesmo que dizer que é errada.

Exercendo a caridade mais uma vez, farei uma interpretação naturalista da conversa de Lewis sobre projeto. Considerarei a hipótese de que Lewis tenha pretendido dizer que o sexo entre pessoas não casadas é, em algum sentido, antinatural. É uma tentativa de separar em partes o que por natureza é uma unidade orgânica. O organismo humano é “projetado” (pela evolução, digamos) para manter relações sexuais somente com um cônjuge vitalício.

É difícil ver como Lewis poderia defender esta tese. Alguns animais de fato mantém relacionamentos monogâmicos estáveis e aparentemente desejam somente seus parceiros. Não há dúvidas de que se os seres humanos fossem geneticamente programados deste modo, seria antinatural manter relações sexuais com qualquer outro indivíduo que não o próprio cônjuge. Mas os humanos definitivamente não parecem ser configurados assim. Homens e mulheres são muitas vezes, aparentemente espontânea e “naturalmente” (seja lá o que isto signifique em relação aos seres humanos), sexualmente atraídos por pessoas com as quais elas não desejariam passar o resto de suas vidas. Seria tal desejo antinatural?

Como mencionado acima, Lewis pensa que nossos sentimentos sexuais correntes são deturpados e antinaturais. A prova que ele oferece é que alguns homens gostam de assistir a espetáculos de striptease. Ele argumenta por analogia que certamente alguma coisa estaria errada se uma plateia fosse ao delírio à medida que uma bandeja de comida lentamente revelasse conter uma costeleta de carneiro. Penso que o ponto implicado é que seria uma bizarrice apreciar a tentadora visão de um alimento suculento sem que fosse permitida a imediata satisfação do apetite assim despertado.

O máximo que isso prova é que o apetite sexual não é exatamente como a fome por comida. A excitação sexual pode ser prazerosa em si mesma, mesmo se não for imediatamente satisfeita. Para os que não são herdeiros ideológicos de Santo Agostinho, é difícil ver qualquer perversidade nisso. Na verdade, parece-me que o sapato está no pé errado, isto é, que seria antinatural que um homem heterossexual saudável não fosse prazerosamente excitado por um striptease (tenho certeza que Lewis atribuiria esta declaração à minha própria depravação).

Ademais, embora espirituosa, a analogia não funciona. Várias pessoas gostam de assistir a preparação de alimentos em programas de culinária e de olhar fotos de alimentos em revistas. Se não há nada de errado com isto, então, utilizando a própria analogia de Lewis, não há nada de errado em assistir a um striptease ou em admirar o pôster central da Playboy. (De qualquer maneira, tenho certeza que Lewis ainda reprovaria isso).

Permitam-me enfatizar que eu não desprezo o casamento. Pelo contrário, penso que um casamento no qual os cônjuges partilham as alegrias e os fardos da vida, conforme descrito acima, é completamente admirável. Mas não é para todos. Algumas pessoas, em virtude das mais variadas circunstâncias, não podem ter casamentos tradicionais. Outras, por razões perfeitamente boas, ao menos durante algum período de suas vidas adultas, escolhem não se casar. Isto significa que tais pessoas devem se abster do sexo enquanto não se casarem, ou não puderem se casar? Insistir nisso exigiria uma boa dose de justificação que, até onde sei, não foi fornecida por Lewis ou por qualquer outro apologista.

Do modo como vejo a questão, o essencial a ser dito é isto: se dois adultos solteiros responsáveis decidem fazer sexo, esta decisão simplesmente não diz respeito a mais ninguém – nem a C.S. Lewis, nem ao Papa, nem ao arcebispo de São Paulo, ao Silas Malafaia, ao Pastor Valdomiro, ao bispo Edir Macedo, à bispa Sônia ou a Deus. Preocupar-se com o que é da conta dos vizinhos tem sido uma das principais ocupações dos cristãos, apesar das salutares admoestações do fundador de sua religião sobre remover a viga do próprio olho antes de falar sobre o cisco no olho do próximo.

Concluo com uma citação do clássico artigo de Bertrand Russell Casamento e Moralidade:

A noção cristã de que o sexo fora do casamento é imoral foi… baseada na ideia de que todo intercurso sexual, mesmo dentro do casamento, é algo a ser deplorado. Uma visão deste tipo, em franco conflito com os fatos biológicos, pode ser considerada pelas pessoas sãs apenas como uma aberração mórbida. O fato de ela ter sido incorporada na ética cristã tornou o Cristianismo, ao longo de toda sua história, uma força geradora de toda sorte de desordens mentais e de concepções doentias da vida. (Russell, 1929, p. 48)

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Título Original: Poderia Deus Existir Se Javé Não Existe?[1]

Autor: Jaco Gericke, Ph.D.

Fonte: The End Of Christianity, págs. 131-154, (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2011)

Uma dupla de estudantes irreverentes certa vez censurou o Dr. Fausto de Marlowe: “Fausto! Mergulhe nos abismos do que você professa!” Vários cristãos evangélicos dedicaram-se ao estudo da apologética ou dos estudos bíblicos exatamente com esse espírito – e acabaram por não professar mais nada! Seus relatos são muitas vezes assustadoramente similares embora sempre fascinantes!
Jaco Gericke é um de tais intrépidos exploradores. Primeiro ele leu o material “inofensivo”, então passou aos livros que lhe avisaram para não ler, e então a todas as outras coisas! Atualmente Gericke trabalha na Faculdade de Ciências Humanas da North-West University na África do Sul. Ele ostenta o título de Doutor em Línguas Semíticas e um Ph.D. em Antigo Testamento, com uma especialização em Filosofia da Religião. Já publicou dezenas de artigos e ministrou diversas conferências. De sua autoria o Rebeldia Metafísica já publicou Fundamentalismo Sobre Pernas de Pau: Uma Resposta À Epistemologia Reformada de Alvin Plantinga.

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A refutação histórica como refutação definitiva._Outrora buscava-se demonstrar que não existe Deus – hoje mostra-se como pôde surgir a crença de que existe Deus e de que modo essa crença adquiriu peso e importância: com isso torna-se supérflua a prova de que não existe Deus. – Quando, outrora, eram refutadas as “provas da existência de Deus” apresentadas, sempre restava a dúvida de que talvez fossem achadas provas melhores do que aquelas que vinham de ser refutadas: naquele tempo os ateus não sabiam limpar completamente a mesa.

_ Friedrich Nietzsche, Aurora[2]

Introdução

Até hoje, vários filósofos da religião ateus ainda tendem a tentar refutar a alegada realidade do Deus cristão patenteando os problemas lógicos com os atributos divinos ou tentando argumentar, por uma via científica ou filosófica, que “Deus” como a Causa Primeira ou Projetista Cósmico ou Providência Benevolente não existe ou não pode existir. Isto é perfeitamente válido e louvável; contudo, esta abordagem muitas vezes negligencia o fato de que os apologistas jamais deixarão de reinterpretar adaptativamente o conceito de “Deus”, nem de propor teorias do erro para explicar porque eles parecem irracionais enquanto outros permanecem céticos, tampouco  abandonarão o trabalho emocionalmente gratificante de conferir às suas especulações pseudocientíficas e hipóteses ad hoc uma fachada intelectualmente respeitável. Isto significa que qualquer refutação ostenta um valor de eficácia apenas relativo, na melhor das hipóteses quando atinge o deus dos filósofos.

Da maneira como vejo as coisas, existe uma maneira muito mais devastadora de mostrar porque o que a maioria das pessoas denomina “Deus” não existe e não pode existir. Ela implica uma consideração séria da Bíblia (mais séria do que a dos fundamentalistas) da parte dos filósofos da religião. Ela envolve escancarar o fato de que as luxuosas vestimentas confeccionadas nos ateliês da filosofia da religião cristã não cobrem imperador algum; para isso, examinaremos de perto o imperador despido da história reprimida da religião israelita da qual aquela filosofia se originou. Então deixaremos que o senso comum termine o trabalho – a maioria das pessoas pode somar dois e dois sem que seja preciso que alguém lhes sopre a resposta. O fruto da árvore do conhecimento sempre conscientiza quem o come  de sua própria nudez; e é uma passagem só de ida para fora do paraíso dos tolos.

Quem é “Deus”?

O que o mundo ocidental tem em mente quando se refere de maneira vaga e instintiva a “Deus” não é nenhuma realidade última, inefável e intocável além dos limites das faculdades racionais humanas que um dia irá surpreender os descrentes, desvelando sua cegueira cognitiva. Em vez disso, a entidade a que a maioria dos leitores se refere quando falam de “Deus” é na verdade uma versão misteriosamente anônima e aprimorada do que na verdade costumava ser uma divindade tribal jovem, bastante específica e singularmente híbrida do Oriente Médio chamada Javé. O truque foi feito quando o vocábulo “Deus” se perdeu na tradução – na Bíblia a palavra “Deus” pode, no hebraico do Antigo Testamento, ser tanto um nome pessoal como um termo genérico. Uma dignidade conceitual ilusória é criada nas traduções da Bíblia para o português nas passagens em que a palavra hebraica “deus” num sentido amplo é capitalizada, mesmo quando ela não funciona como um nome pessoal mas como o nome de uma espécie ou uma categoria natural (ou seja, um deus). Naturalmente, os tradutores fazem isso apenas quando o termo é usado para o “deus de Israel”, que num piscar de olhos torna-se o “Deus de Israel”.

Desde Tomás de Aquino, o monoteísmo filosófico não mais considera Deus incluído num gênero, apesar dos pressupostos bíblicos em contrário, assegurando-nos que estamos lidando com um tipo específico de deus entre outros. Muitas vezes os outros deuses também se perdem na tradução quando o termo plural hebraico para a divindade é traduzido como “poderosos”, “anjos”, “seres celestiais”, e assim por diante. Várias pessoas não sabem que a expressão “os filhos de Deus/os deuses” em Gêneis 6:1-4 significa apenas “deuses do sexo masculino” (assim como a expressão “filhas do homem” significa apenas “fêmeas humanas”). Referências às “assembléias divinas” como aquelas em 1 Reis 22:19-22, Salmo 82 e Isaías 6:14 também pressupõem a realidade de outros “deuses”. Apenas mais tarde na história da religião israelita esses “deuses” foram rebaixados a “mensageiros” semidivinos. Embora mesmo a palavra “anjo” seja enganadora já que esses seres não tem nada a ver com a imagem que os cristãos popularmente a eles associam. Na Bíblia hebraica eles são serviçais semidivinos masculinos violentos, humanóides ou animalescos (querubins, serafins). Eles também devem ser distinguidos dos seres divinos na assembléia divina de Javé (e só para constar, não existem mulheres ou bebês cupidos angelicais fofinhos no Antigo Testamento, exceto por uma única referência a mulheres numa passagem tardia em Zacarias).

Honestamente falando, vários textos do Antigo Testamento não presumem o politeísmo; entretanto, vários outros presumem a monolatria em vez do monoteísmo – isto é, a crença em que apenas um deus deve ser adorado, não que apenas um deus existe. As pessoas que leem as Bíblias traduzidas raramente percebem isso, mas não é necessário conhecer a língua hebraica para reconhecer a monolatria implícita. Considere por exemplo os Dez Mandamentos. Se a existência de outros deuses não fosse presumida, os leitores nunca se incomodariam em perguntar porque Javé foi chamado um deus (e não alguma outra coisa) em primeiro lugar, ou de quem se supunha que estivesse ciumento, como o primeiro mandamento subentende. Como é possível – e aqui estamos falando de um deus – sentir ciúmes de algo que não existe?

Não estou negando a presença de crenças monoteístas no Antigo Testamento, mas as crenças de um autor bíblico a este respeito muitas vezes contradizem as de outro. As traduções obscurecem este fato, e abaixo ofereço traduções literais do hebraico, que vocês podem confrontar com as versões tradicionais em suas cabeceiras:

“Sobre todos os deuses do Egito eu executarei julgamentos: eu sou Javé” (Êxodo 12:12)

“Quando Elyon deu às nações sua herança, quando separou os filhos dos homens, ele estabeleceu os limites das pessoas de acordo com o número dos filhos de El. Mas a parcela de Javé é seu povo; Jacó é a parte de sua herança (Deut. 32:8-9

“Não possuirás o que Chemosh seu deus te deu para possuir? E tudo o que Javé nosso deus tenha desapropriado diante de nós, nós possuiremos.” (Juí. 11:24)

“Deus está no concílio dos deuses, ele julga em meio aos deuses; eu próprio dissera, vocês são todos deuses, e vocês são filhos do mais alto (deus)” Salmo 82

“Pois quem se iguala a Javé desntre os filhos dos deuses” Salmo 89:7

“Pois Javé é um grande deus e um grande rei sobre todos os deuses” Salmo 95:3

“Todos os deuses prostraram-se diante dele.” Salmo 97:7

“Então ele agirá, com o auxílio de um deus estrangeiro” Dan. 11:39

Estes textos fazem sentido somente sob a hipótese de que (ao contrário de outros textos) assumem a existência de outros deuses. Não há crédito algum para Javé se ele está lutando contra, reinando sobre, ciumento de, julgando, ou se é superior a, outras entidades que não existem. Naturalmente, várias reinterpretações destas passagens estão disponíveis na literatura apologética, mas estas são motivadas pelo dogma mais do que pela necessidade de aceitar a Bíblia em seus próprios termos.

No Antigo Testamento como um todo, não somente Javé como também outros deuses nacionais são chamados de deuses. Espíritos dos mortos, mensageiros ou conselheiros celestiais, reis, e até mesmo demônios também podem ser chamados de “deus” (veja 1 Sam. 28; Deut. 32, Salmos 45; etc.) Acrescente à capitalização do termo genérico o fato de que o nome pessoal altamente específico do hebraico(!) para este deus – Javé (YHWH) – é reciclado com o termo genérico “Senhor” (seguindo a tradição judaica), e você evita completamente o escândalo da peculiaridade. “O Senhor seu Deus” soa algo mais respeitável e intimidador do que “Javé seu deus”. De modo que o que muitas vezes não recebe a devida atenção no debate sobre a existência de “Deus”, se por “Deus” compreende-se qualquer coisa minimamente relacionada ao teísmo bíblico, é o fato de que a entidade em sua configuração atual é na verdade o produto de uma evolução conceitual complexa, começando com concepções variáveis do deus Javé até chegar a “Deus”, um “Frankenstein” híbrido ao qual pode-se conferir alguma estatura filosoficamente respeitável.

E daí? Bem, esta pequena amostra de informação é mais ateologicamente potente e filosoficamente significativa do que parece à primeira vista. Pois ela significa que, ao tentar provar que “Deus” não existe, na medida em que “Deus” é de alguma forma relacionado à entidade adorada nas variantes biblicamente derivadas modernas (ou pós-modernas) do teísmo  (não importa o quão sofisticadas), a única coisa necessária é mostrar que as representações de Javé na antiga religião israelita não correspondem a qualquer realidade última externa ao texto. Não é diferente de tentar provar que Zeus não existe. Nem mesmo os cristãos podem faze-lo, mas você pode demonstrar que a crença em Zeus é absurda assinalando a natureza ridiculamente supersticiosa das representações da entidade em questão (ou seja, sua aparência humana, sua mente menos do que cientificamente informada, e seu mundo divino inexistente) expondo assim suas origens artificiais. Bem, o mesmo pode ser feito com “Deus”, também conhecido como Javé.

(…continua…)

Notas.

1. Esta série é uma versão revisada e bastante abreviada de um argumento contra a existência de Javé presente em minha tese de doutorado (Jaco Gericke, YHWH Realmente Existe? Uma Reconstrução Filosófico-Crítica do Caso Contra o Realismo na Teologia do Antigo Testamento [Tese de PhD, Pretoria, África do Sul: Universidade de Pretoria, 2003]), e uma levantamento bibliográfico completo deste argumento e suas evidências foi publicado em J.W. Gericke, “Yahwism and Projection: An A/theological Perspective on Polymorphism in the Old Testament”, Scriptura 96 (2007): 407-42. Os mesmos resultados e outros mais são corroborados pelo trabalho de Thom Stark, The Human Faces of God: What Scripture Reveals When It Gets God Wrong (And Why Inerrancy Tries to Hide It) (Wipf&Stock Publishers, 2011).

2. Friedrich Nietzsche, Aurora,São Paulo: Companhia das Letras, 2004, trad. Paulo César de Souza, pág. 71.

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