Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Argumento da Ressurreição’

Os teístas repetidamente atribuem aos ateus pouca ou nenhuma consideração pela verdade. Mas o vídeo Atacando William Lane Craig, do qual tomei conhecimento nos comentários ao texto que vocês-sabem-quem escreveu em resposta ao artigo “O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto” constitui uma amostra inestimável do que os teístas entendem por compromisso ético com a verdade; veremos como apologistas evangélicos profissionais como o Dr. Craig utilizam destruição da imagem alheia sem a mínima consideração pela honestidade ou pela mais elementar confirmação dos fatos. A seguir, algumas das mais graves acusações contidas no vídeo são desmentidas. As informações abaixo foram em sua maior parte obtidas aqui e aqui.

1. Título do vídeo: “Atacando William Lane Craig”: este título por si já vale um estudo da trapaça. Na verdade, a maior parte do vídeo consiste de ataques contra o Dr. Avalos. Com efeito, não se ouve uma única citação do Dr. Avalos em que este faz qualquer comentário sobre o Dr. Craig, sendo difícil entender como este vídeo pode ser sobre ataques contra William L. Craig. O título do vídeo deveria ser “Atacando Hector Avalos”.

Os únicos alegados ataques contra o Dr. Craig vem de um assim chamado pentelho que estava na platéia do debate ocorrido em 2004 entre o Dr. Craig e o Dr. Avalos na Iowa State University. Mas o assim chamado pentelho de um modo geral estava certo em suas críticas das táticas de debate de Craig. Ele não tanto “pentelhou” como na verdade listou falácias específicas da parte de Bill Craig. Dr. Craig afirmou não se importar em repreender o Dr. Avalos por suas alegadas táticas condenáveis; assim, por que ele não se referiu à sua própria atitude como “pentelhar”?

2. William Lane Craig afirmou que o Dr. Avalos era chefe do Departamento de Estudos Religiosos da Iowa State University: isto é patentemente falso. Dr. Avalos não é nem nunca foi chefe do Departamento de Estudos Religiosos nem da Iowa State University nem de nenhuma outra instituição. Isso poderia ter sido um equívoco insignificante, mas Craig tenta usar esta fictícia posição de liderança para insinuar que Hector Avalos exerce alguma influência perniciosa indevida sobre seus alunos. Vocês-sabem-quem repetiu esta mentira em seu blog. Além disso, mesmo sendo um errinho bobo, o que isto diz acerca do respeito que o Dr. Craig tem pela verificação elementar dos fatos? O currículo acadêmico do Dr. Avalos pode ser encontrado facilmente através do Google, mas Craig aparentemente nem essa preocupação teve. E só para constar, o nome formal do departamento ao qual o Dr. Avalos pertence é Departamento de Filosofia e Estudos Religiosos.

3. Craig afirmou: “Avalos se apresenta como um ex-evangélico e um ex-pastor. Isto é francamente um exagero quando se olha sua biografia pessoal. Mas é assim que ele gosta de se projetar.” Ou Avalos é um ex-evangélico ou não é. Ou ele é um ex-pastor ou não é. Como é que um fato desses pode ser exagerado? Dr. Craig não nos diz o que foi exagerado. E o que ele tem em mente quando fala em dar uma olhada na biografia pessoal do Dr. Avalos? Avalos não se lembra de ter tido contato com Craig em nenhum momento daquele período de sua vida. Ou seja, Craig mais uma vez lança esta acusação sem nenhum outro fato que a respalde.

4. Craig afirma que basicamente o objetivo do Dr. Avalos é destruir a fé ortodoxa de seus alunos cristãos através de críticas, intimidação e ridicularização (e vocês-sabem-quem repetiu esta acusação em seu blog).

Não foi oferecido a menor prova para esta acusação. Craig (e seu papagaio tupiniquim) nunca assistiram a uma aula do Dr. Avalos, e portanto não podem ter verificado isto por si próprios. Se estão se baseando em depoimentos de outras pessoas, isso não passa de “ouvir dizer”. (A ambos será concedido o benefício da dúvida e não será cogitada a hipótese de que tenham inventado essa história.) Como pode a utilização de boatos para levantar uma acusação tão grave ser uma conduta ética ou profissional?

A verdade é que o Dr. Avalos usa abordagens muito diferentes quando fala sobre estas questões dentro e fora da sala de aula. Com suas turmas, utiliza uma abordagem de várias perspectivas que tem sido muito eficaz. Fora da sala de aula, defende seus pontos de vista com a máxima contundência que seus direitos constitucionais lhe permitem. Eis mais alguns fatos:

A. Avalos recebeu o prêmio de Professor do Ano da Iowa State University em 1996, concorrendo com todos os outros professores da ISU. A premiação foi uma iniciativa de seus alunos cristãos.

B. Embora nenhum professor seja aprovado por 100% de seus alunos, e embora não se possa afirmar que todos se sintam da mesma forma, o Dr. Avalos geralmente é um dos professores mais bem avaliados de seu departamento. Em geral, entre 70 e 80 porcento de seus alunos conferem-lhe a nota máxima nos quesitos avaliados.

Em algumas ocasiões, 100% de seus estudantes deram-lhe a mais alta nota possível, o que seria impensável se Avalos agisse da forma como Craig descreve. E os que o descrevem como intimidador o fazem sobretudo pelo rigor com que Avalos os cobra academicamente, não por qualquer esforço de sua parte em destruir a fé de seus alunos.

Naturalmente, Craig nunca viu estas avaliações feitas pelos estudantes, e portanto é difícil compreender como ele pode ter tão pouca consideração pela mais elementar honestidade antes de fazer uma acusação dessas.

C. Mesmo que o Dr. Avalos não recomende  olhar o Rate My Professor por ser uma amostra pouco representativa e o status dos estudantes ser de difícil de verificação, as avaliações e os comentários lá presentes em geral refletem as pontuações que recebe oficialmente.

D. Avalos jamais recebeu uma queixa formal contra sua docência em seus 19 anos na ISU. Mais de 2000 alunos já passaram por suas disciplinas, a maioria deles cristãos. Portanto, como uma trajetória profissional de 19 anos sem uma única queixa sequer ajuda Craig a montar seu caso? E mesmo se ele encontrasse tais estudantes, suas reclamações teriam que ser investigadas mais acuradamente antes de serem consideradas “fatos”.

5. Craig disse: “Avalos também se comporta de maneira pouco profissional nestes debates, recorrendo a ataques ad hominem… Isto parece diferir de seus comentários após o debate citados na edição de 6 de Fevereiro de 2004 do Jornal da ISU: “Craig disse que apreciou muitíssimo o diálogo com Avalos e não considerou haver qualquer desavença entre eles. ‘Tanto Avalos como eu conduzimo-nos com o tom e o comportamento adequados’, Craig disse.

Portanto, teria Craig dito a verdade, ou ele foi citado erroneamente?

6. Craig disse: “Eu me senti muito desconfortável ao fazer isso porque de certa forma eu o estava atacando por seus métodos, por seu modus operandi, mas julguei que devia faze-lo já que eu era o primeiro a falar e não queria ser vítima de um de seus truques… como o que eu o vi executar contra o professor Shelly num debate anterior…”

Craig está se referindo a um debate a um debate entre Avalos e o Dr. Rubel Shelly ocorrido em 1998. Neste debate, Avalos projetou fotos de alguns manuscritos do Novo Testamento e pediu que seu oponente os identificasse. A razão pela qual Avalos o fez foi que Shelly os havia utilizado como parte das evidências para a confiabilidade do texto do Novo Testamento; mais especificamente, Shelly afirmou que atualmente dispomos de manuscritos “completos” do NT, e citou os manuscritos P66 e P75 como exemplos:

Nos últimos anos, a Bodmer Library of Geneva publicou uma edição completa do Evangelho de João (p66) datada de cerca de 200 d.C. … O texto completo dos evangelhos de Lucas e João, datados entre 175 d.C. e 225 d.C, foram publicado pela Bodmer Library (p75). (Rubel Shelly, Prepare To Answer, 1990, p. 139)

O esperado era que Shelly, como todo bom acadêmico é obrigado a fazer, tivesse no mínimo verificado as fontes originais para confirmar a acurácia desta afirmação. Então Avalos expôs a imagem dos manuscritos na tela diante da platéia e perguntou-lhe se sabia do que se tratava. Ele não sabia. Avalos então perguntou-lhe se eles pareciam completos, mesmo não sabendo do que se tratava. Shelly então disse que eles não pareciam completos. De fato, P75 não está completo, e em alguns pontos encontra-se bastante fragmentário.

Ou seja, o que Avalos fez foi refutar efetivamente a afirmação de Shelly diante da platéia. Agora, alguém pode explicar por que isto se configura como uma “conduta reprovável” em vez da boa e velha expertise em debates?

Na verdade, Shelly se saiu tão mal naquele debate e suas credenciais como estudioso da Bíblia foram tão irrecuperavelmente arruinadas que Craig foi até a Iowa State University em 2004 para “nocautear” Avalos, nas palavras de sua fanbase. Entretanto, como todos podem ver, Avalos ainda está na ativa, a todo vapor.

Além disso, Craig distorceu completamente a questão da disponibilidade dos manuscritos. Fotos e cópias destes manuscritos fazem parte de quase todos os bons livros didáticos sobre crítica textual do NT e também de algumas enciclopédias bíblicas. Isso também significa que você é sem sombra de dúvidas um amador terrivelmente incompetente e mal informado se não sabe nem isso.

Algumas das cópias exibidas por Avalos foram retiradas do livro de Jack Finegan Encountering New Testament Manuscripts: A Working Introduction to Textual Criticism (Grand Rapids, MI: W. B. Eerdmans, 1974). Portanto, não é verdade que você precisa ir a uma câmara climatizada de segurança máxima num museu da Europa ou do Oriente Médio se quiser examinar os manuscritos. As fotos são boas o suficiente para ver se os manuscritos estão ou não completos.

Especificamente sobre este debate entre Avalos e Craig, este último começou muitíssimo bem, mas terminou bastante debilitado. Seu discurso de encerramento foi utilizado para conceder no mínimo duas vezes que ele havia cometido erros em virtude de seus conhecimentos insuficientes do aramaico ao argumentar a favor da ressurreição em seu livro Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus…).

Dr. Craig tentou minimiza-los como “bagatelas”, mas essa minimização é inútil para os que o leram e sabem como pelo menos um de seus argumentos assenta-se sobre o aramaico. Quem ler seu Reasonable Faith (p. 275) verá que ele tenta datar o Evangelho de Marcos por volta da época dos discípulos utilizando a suposta expressão em aramaico da Galiléia em Marcos 16:2 (“no primeiro dia da semana”). Ele então usa a suposta ligação direta com a época dos discípulos para respaldar seu FATO 1 (Jesus foi enterrado e seu FATO 2 (a tumba vazia). O que ele não diz a seus leitores, e do que ele tentou se esquivar no debate, é que ele estava lhes vendendo textos em aramaico não-galileanos de uma época posterior, talvez até mesmo medievais, como textos do aramaico da Galiléia do primeiro século. Obviamente, isso não é nem intelectualmente respeitável nem intelectualmente honesto – para não mencionar o fato de que isso torna uma das evidências que suportam seus FATOS 1 e 2 completamente fraudulenta.

Há outro caso em que Craig distorce uma citação, dessa vez do historiador judeu Flávio Josefo. Vejam a citação que ele ofereceu no debate:

Aprendemos de Josefo que Tiago foi finalmente martirizado por sua fé em Jesus Cristo durante um hiato no governo civil na metade dos anos 60. Fonte: Paul Copan and Ronald K. Tacelli, eds. Jesus’ Resurrection: Fact or Figment? (Downer’s Grove, Illinois: InterVarsity Press 2000) p. 190.

Comparem com o que Josefo realmente escreveu, de acordo com as melhores edições de sua obra:

Ananias pensou que tinha uma oportunidade favorável… e assim convocou os juízes do Sinédrio e trouxe diante deles um home chamado Tiago, o irmão de Jesus que foi chamado o Cristo, e outros. Ele os acusou de ter violado a lei e os entregou para serem apedrejados. Fonte: Josephus, Jewish Antiquities XX.200-201. Edition and Translation of L. H. Feldman (Loeb Classical Library: Cambridge: Harvard University Press, 1965), pp. 106-109.

Craig acrescentou sua própria idéia do que Josefo teria dito. E então usa esta tradição inventada para apoiar seu FATO 4 (a origem da crença dos discípulos). Distorções e deturpações semelhantes permeiam as evidências que respaldam cada um de seus 4 FATOS.

Na verdade, este tipo de falsa erudição é uma das razões pelas quais Dr. Craig não possui uma boa reputação como acadêmico fora de seu estreito círculo de apologistas. Sua função é mais a de confortar os fiéis, mostrar-lhes que é possível acreditar em superstições de pescadores ignorantes que viveram há dois mil anos atrás e ainda assim conseguir dois doutorados, do que converter os infiéis que realmente conhecem bem as fontes primárias.

Também não parece que neste debate Craig se beneficiou de sua alegada especialização em filosofia. Sua suposta refutação do “naturalismo” pareceu bastante inconsistente quando Avalos assinalou que ele age como um perfeito naturalista quando se trata de outras religiões, ou mesmo em relação aos milagres relatados em Mateus 27:52-53. Talvez algum de seus admiradores seja capaz de explicar porque ele não chama as ressurreições em Mateus 27:52-53 de “fatos”, mas chama a ressurreição em Marcos 16:6 de “fato”. Porque o próprio Craig certamente não explicou e nem pode explicar quais são as diferenças.

Se William Lane Craig é o melhor que a comunidade de apologistas cristãos tem a oferecer, este debate contra o Dr. Avalos foi um episódio triste para na  história da apologética. Ele mostrou não somente mais um apologista completamente ineficaz contra um estudioso da Bíblia ateu, como também um apologista praticamente admitindo que seus conhecimentos das fontes primárias e línguas antigas estão abaixo dos padrões mínimos.

_________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________

A primeira vista pode parecer que estou apenas quebrando minha promessa de não mais citar nem responder aos ataques vindos de vocês-sabem-quem, e de certa forma realmente é o que estou fazendo. Entretanto, meus motivos para faze-lo vão muito além do mero gosto pela contenda (completamente estéril e contraprodutiva em se tratando de vocês-sabem-quem). Acontece que, como sabe a maior parte dos que estão agora lendo isso, em maio último traduzi e publiquei um capítulo do livro The Christian Delusion escrito pelo Dr. Avalos. Uma minoria, se tanto,  viu que o Dr. Avalos em pessoa deixou um comentário agradecendo a tradução, que pode ser visto aqui. Sei que se trata do autêntico Dr. Hector Avalos porque ele também deixou um agradecimento na página do blog no Facebook:

 Ele também compartilhou o link para a tradução no mural de seu perfil:

Agora vem a melhor parte da história. Quem leu o artigo sobre ateísmo e Holocausto se lembra de que os primeiros parágrafos mencionam um capítulo de outro livro do Avalos, Fighting Words, em que ele discute com mais profundidade a relação entre ateísmo e violência no regime stalinista. Pois bem, não sei quanto a vocês, mas eu fiquei muitíssimo interessado neste capítulo; como o Dr. Avalos não se conteve ao expressar sua gratidão pela minha tradução, imaginei que ele provavelmente gostaria de ter outra parcela de seu trabalho divulgada em língua portuguesa, e enviei-lhe um email me apresentando e explicando meus motivos para manter este blog e fazer estas traduções (em parte, o descaso do mercado editorial lusófono para com seu público de céticos, agnósticos e ateus), e perguntando se ele não poderia me enviar o texto do referido capítulo de Fighting Words. Isto foi um pouco constrangedor porque apesar de ler e traduzir razoavelmente bem, minha proficiência deixa muito a desejar na hora de ouvir, falar ou escrever; então antes de mais nada comecei pedindo desculpas por eventuais erros. Ele foi muito compreensivo, gentil e solícito, e sabem qual foi sua resposta a meu pedido? Em vez de me enviar somente o texto do capítulo solicitado ele me presentou com um exemplar inteiro do livro (com uma singela dedicatória na folha de rosto, claro _ For Gilmar, a new friend from Brazil. Dr. Hector Avalos, 14 July, 2012)! Acreditam nisso? Bom, se não acreditam o problema é de vocês; de qualquer maneira, nos próximos dias publicarei a tradução do capítulo sobre ateísmo e violência stalinista. E também, para evitar outras situações tão ou mais embaraçosas do que essa no futuro, começarei um curso de inglês. Não quero que me aconteça o mesmo que aconteceu com William Lane Craig, que foi refutado em público por não dominar a língua original dos textos com os quais trabalha.

Read Full Post »

por Keith Parsons

Um comentarista recente de minhas postagens sobre o argumento de David Hume contra os milagres alega que o argumento de Hume na seção X de Uma Investigação Sobre O Entendimento Humano é “demonstravelmente falacioso”. Após algumas pitadas de bajulação, ele produziu a pretensa demonstração a seguir, retirada do debate de William Lane Craig com Bart Ehrman:

Quando falamos sobre a probabilidade de algum evento ou hipótese A, essa probabilidade sempre é relativa a um corpo de informações de fundo B. De modo que falamos da probabilidade de A dado B, ou de A em relação a B.

Portanto, a fim de estimarmos a probabilidade da ressurreição, representemos por B nosso conhecimento de fundo  do mundo independentemente de qualquer evidência para a ressurreição. Representemos por E as evidências específicas para a ressurreição de Jesus: a tumba vazia, as aparições post-mortem, e assim por diante. Finalmente, representemos por R a ressurreição de Jesus, Agora, o que desejamos estimar é a probabilidade da ressurreição de Jesus considerando-se nosso conhecimento de fundo do mundo e as evidências específicas neste caso.

B = Conhecimento de Fundo
E = Evidências específicas (tumba vazia, aparições post-mortem, etc.)
R = Ressurreição de Jesus

Pr (R|B&E) = ?

Pr (R|B&E)= Pr (R|B) × Pr (E|B&R)
_________________________________
Pr (R|B) × Pr (E|B&R) + Pr (não-R|B) × Pr (E|B&não-R)

Pr (R|B) é chamada de a probabilidade intrínseca da ressurreição. Ela diz o quão provável a ressurreição é considerando-se nosso conhecimento geral do mundo. Pr(E|B&R) é chamado de poder explanatório da hipótese da ressurreição. Ele nos diz o quão provável a ressurreição torna a evidência da tumba vazia e assim por diante. Estes dois fatores constituem o numerador desta razão. Basicamente, Pr(não-R|B)xPr(E|B&não-R) representa a probabilidade intrínseca e o poder explanatório de todas as alternativas naturalistas à ressurreição de Jesus. A probabilidade da ressurreição ainda poderia ser bastante alta mesmo se apenas a Pr(R|B) for terrivelmente baixa. Hume simplesmente ignora os fatores cruciais da probabilidade das alternativas naturalistas à ressurreição [Pr(não-R|B) × Pr(E|B&não-R)]. Se estas forem suficientemente baixas, elas prevalecerão sobre qualquer improbabilidade intrínseca da hipótese da ressurreição. Bayes tem a forma x/x-y, o que significa que como o poder explanatório da ressurreição converge para 1, e como o poder explanatório das explanações naturalistas convergem para zero, qualquer improbabilidade intrínseca pode ser superada. (Citado do correspondente K-Dog).

Craig realmente demonstrou que o argumento de Hume é falacioso? Duas coisas a serem notadas: primeiro, Hume não emprega o teorema de Bayes na exposição de seu argumento; ele é expresso informalmente, e a estrutura bayesiana foi imposta por intérpretes posteriores. Segundo, Hume não aborda diretamente a ressurreição de Jesus de Nazaré em “Dos Milagres”, embora seu exemplo de um relato hipótetico da ressurreição da rainha Elizabeth I possa ser uma discreta alusão. O argumento de Hume é sobre alegações de milagres em geral e não uma crítica específica da apologética da ressurreição do tipo promovido por Craig.

O argumento de Craig é que a probabilidade das evidências para a ressurreição , considerando-se alternativas naturalistas à ressurreição (isto é, considerando-se que a ressurreição não ocorreu e considerando-se a informação de fundo), pode ser tão baixa a ponto de contrabalançar uma probabilidade extremamente baixa da ressurreição considerando-se somente o conhecimento de fundo. Em outras palavras, Pr(E|~R&B) pode ser tão baixa que mesmo um valor muito baixo para Pr(R|B) pode ser superado e a resultante Pr(R|E&B) pode alcançar um valor bastante alto (considerando-se, como parece razoável, que Pr(E|B&R) não seja muito baixo). A acusação de Craig é que Hume simplesmente ignora essa possibilidade. Esta, presumivelmente, é a demonstração da alegada falácia. Será que Hume realmente ignora tal possibilidade? E mesmo que Hume o tenha feito, estaríamos nós também obrigados a ignora-la? Isto é, será que não poderíamos empregar um argumento neo-humiano contra os milagres que leve em consideração o que ele deixou passar batido?

Mais uma vez, Hume não está abordando especificamente alegações sobre a ressurreição, portanto ridiculariza-lo por não levar em consideração evidências específicas para a ressurreição é uma manifesta desonestidade. Bem, então,  será que Hume considera, em termos gerais, a possibilidade de que evidências testemunhais para um milagre possam existir mesmo se o milagre não ocorreu? Se o expressarmos em termos formais, será que Hume considera quais valores Pr(E|~M&B) pode assumir, onde E representa as evidências para um alegado milagre, M representa o alegado milagre, e B representa op conhecimento de fundo? Bem, não há dúvidas de que ele o faz. Pegando uma passagem sucinta:

Se alguém me diz que viu um homem morto ser trazido de volta a vida, de imediato pondero comigo mesmo se é mais provável que esta pessoa esteja enganando-me ou sendo enganada, ou que o fato que ela relata tenha realmente ocorrido.

Penso que um modo natural de interpretar esta passagem é que Hume está recomendando que consideremos que o testemunho para um milagre pode muito bem existir mesmo se o milagre não ocorreu, isto é, Pr(E|~M&B) pode não ser baixa, porque a testemunha era ou um enganador ou uma vítima de engano. Como podemos ter relatos de milagres mesmo quando os milagres relatados não ocorreram realmente? A pessoa que o relata pode estar enganando ou sendo enganada, e se atribuirmos a cada uma destas probabilidades um valor não muito baixo, então consideraremos que Pr(E|~M&B) não é muito baixa nesse caso.

Em geral, como observei num post anterior, Hume considera que a “velhacaria e a loucura” dos seres humanos é tal que os relatos de milagres são muitas vezes prováveis mesmo onde nenhum milagre ocorreu. Além disso, se esta é a afirmação de Hume, ela é obviamente correta, como, certamente, todos os que não são totalmente crédulos reconhecerão. Nenhuma pessoa racional acredita em mais do que uma pequena fração das miríades de relatos de milagres que infestam as narrativas e registros históricos. Até mesmo alguns estudiosos evangélicos atualmente duvidam de alguns relatos bíblicos de milagres (um deles, Michael Licona, foi recentemente despedido por faze-lo). Obviamente, então, relatos de milagres surgem com bastante frequência mesmo quando nenhum milagre ocorreu.

Não obstante, suponha, a título de argumentação, que Hume não tenha devotado atenção o bastante à possibilidade de que as evidências para um milagre podem ser muito baixas considerando-se que o milagre não ocorreu. Deveríamos nós, pós-humeanos contemporâneos, cometer o mesmo erro? Obviamente não. Podemos simplesmente revisar o argumento de Hume de modo a considerar apropriadamente Pr(E|~M&B). E nós o fazemos. Especificamente, nós podemos e de fato abordamos a probabilidade de que as evidências testemunhais em questão para a ressurreição de Jesus existiriam mesmo se Jesus não houvesse ressuscitado. Nós podemos e de fato julgamos que Pr(E|~R&B) não é terrivelmente baixa —  certamente não baixa o suficiente para contrabalançar a probabilidade de fundo muito baixa, (Pr(R|B), à qual racionalmente subscrevemos.

Portanto, a alegação de que o argumento de Hume contra os milagres comete uma falácia demonstrável acima não possui o menor valor. O argumento demonstra apenas a duradoura tendência dos críticos de Hume a atribuir-lhe um argumento mais fraco do que o que ele realmente formulou.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: