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Posts Tagged ‘Comunismo’

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Autor: Theodore Dalrymple (aka Anthony M. Daniels)

Fonte: Anything Goes (Nashville: New English Review Press, 2011), págs. 100-105

[Texto original também disponível aqui: http://www.newenglishreview.org/custpage.cfm?frm=7240&sec_id=7240]

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…o socialismo não é apenas uma questão dos operários ou do chamado quarto Estado, mas é predominantemente a questão do ateísmo, da encarnação atual do ateísmo, a questão da Torre de Babel construída precisamente sem Deus, não para alcançar o céu a partir da terra, mas para fazer o céu descer à terra.

Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov (1880)

Em minha juventude (na qual incluo os primeiros anos de minha vida adulta), li muita filosofia. Eu pegava livros de metafísica com uma excitação que não sou mais capaz de recapturar, e isso me intriga completamente; na verdade, parece-me algo vagamente ridículo. Contudo, ainda não consegui resolver se desperdicei ou não meu tempo. Afinal, eu era um estudante de medicina, não alguém se preparando para ser um intelectual. Duvido que a filosofia tenha me tornado uma pessoa melhor, e duvido ainda mais que tenha me tornado um médico melhor, mas suponho que seja possível que tenha me tornado um escritor melhor, o que definitivamente não é a mesma coisa.

Naqueles dias, a União Soviética avultava-se ameaçadora na imaginação de todos. Ela fazia o papel de rufião na escadaria da civilização ocidental, ou de uma presença ameaçadora no leste. E isso significava que, para qualquer um que desejasse entender o mundo, parecia necessário mergulhar de cabeça no marxismo (na verdade, era mais importante conhecer a história da intelligentsia russa desde a época de Nicolau I do que ler Marx), já que a URSS afirmava ser uma sociedade fundada em princípios marxistas.

Os autores marxistas nunca foram famosos pela clareza ou elegância na exposição de suas ideias. Na verdade, a clareza era um valor por eles desprezado, pois a natureza dialética do mundo seria intrinsecamente difícil de compreender, e portanto de expressar. Para os marxistas, clareza seria sinônimo de simplificação ou, ainda pior, de vulgarização. A clareza seria a serva da falsa consciência que desviava os trabalhadores de seu destino revolucionário.

Do mesmo modo que com a filosofia, não estou certo de que meus esforços para compreender o marxismo tenham sido um completo desperdício de um precioso tempo que eu poderia e deveria ter empregado melhor. De qualquer maneira, quando a União Soviética entrou em colapso, não graças a meus esforços para compreender o marxismo, eu pensei, ‘Bem, pelo menos nunca mais precisarei gastar minhas energias tentando me desvencilhar de contrassensos ideológicos novamente se eu quiser compreender o que estiver se passando.’

Como eu estava errado! Indo direto ao ponto, encontrei-me lendo sobre o Islã, um assunto de grande interesse para os acadêmicos, sem dúvida, pois nada que seja humano deixa de lhes despertar o interesse, e, naturalmente, porque o Islã foi a base de grandes civilizações no passado; mas não (em minha opinião) um assunto digno de estudo por quaisquer verdades internas ou novas que se pudesse esperar que me trouxesse. Não; descobri-me lendo sobre o Islã porque ele repentinamente emergiu como o próximo totalitarismo em potencial.

Durante minhas leituras, descobri-me oscilando como um pêndulo entre considerar o Islã como uma uma ameaça verdadeiramente séria, e não considera-la com seriedade de jeito nenhum. As razões para leva-lo a sério eram que uma ampla parcela da humanidade é muçulmana; que uma minoria violenta e agressiva ganhou proeminência dentro desta população com uma aprovação aparentemente ampla, embora em grande parte passiva, e que as lideranças dos países ocidentais mostravam-se muito fracas e pusilânimes em face deste, ou de qualquer outro, desafio. As razões para não levar o Islã a sério eram que, no mundo contemporâneo, ele é intelectualmente irrisório; que o desequilíbrio na balança de poder entre o resto do mundo e o mundo islâmico parecia estar aumentando em vez de diminuindo; e que por trás de toda balbúrdia sobre a posse exclusiva da verdade única, universal e divinamente predestinada para o homem, se escondia a ansiedade de que todo o edifício do Islã, embora robusto, era extremamente frágil, o que explicava por que a livre investigação é tão limitada nos países islâmicos. Havia uma consciência subliminar – e talvez nem sempre subliminar – de que o livre debate histórico e filosófico poderia rapida e fatalmente solapar o domínio do Islã sobre várias sociedades. O fundamentalismo seria, portanto, uma manifestação de fraqueza, e não de força.

Recentemente, li um dos livros mais conhecidos de Sayyid Qutb, Milestones. Naturalmente, não sendo um falante da língua árabe, eu confiei na acurácia da tradução. Qutb, que em 1966 foi enforcado por Nasser, o nacionalista secularizante, por supostamente planejar a derrubada do governo, foi um dos mais influentes pensadores muçulmanos do século XX. Ele não começou a vida como islamita, mas tornou-se um parcialmente em reação ao breve período em que residiu nos Estados Unidos. Ele ficou aterrorizado pelo que viu como a lassidão moral dessa sociedade (embora sua estadia tenha ocorrido numa época que, em retrospecto, é considerada pelos conservadores morais como um tempo de grande e exemplar renúncia pessoal, pelo menos em comparação com a atmosfera moral de hoje). Ele foi um homem culto, e estava longe de ser ignorante. Ele não negava, por exemplo, a contribuição que a Europa (e a América, que ele considerava como parte da Europa) dera: falando do Renascimento e do passado recente, ele disse:

Esta foi a era durante a qual o gênio da Europa criou suas maravilhosas obras na ciência, na cultura, na lei e na produção material, em virtude das quais a humanidade tem progredido até grandes picos de criatividade e conforto material.

Ele não esperava que o mundo muçulmano se equiparasse ao mundo europeu em prosperidade ou poder a curto prazo, mas isto não o preocupava. Como vários intelectuais de uma sociedade intelectual e materialmente atrasada, pelo menos em comparação com uma mais rica e avançada, ele se consolava com a superioridade espiritual de sua própria sociedade, ao menos em potencial. (Na verdade, ele também era altamente crítico das assim chamadas sociedades muçulmanas, que ele criticava por não serem islâmicas o suficiente e por buscarem o falso deus da ocidentalização.)

Curiosamente, contudo, o pensamento de Qutb guarda vários paralelos com o marxismo. Onde Marx tem a Inevitabilidade Histórica, Qutb tem a Lei Divina. Marx, vocês se lembram, divisava um tempo em que o Estado terá sido superado, e a história, chegado ao fim. Na visão de Marx, o poder político terá se dissolvido, e a exploração do homem pelo homem terá cessado, substituída pela mera administração das coisas. (Que qualquer pessoa minimamente inteligente possa alguma vez ter acreditado em tal coisa me atordoa.) Na visão de Qutb, todo poder político terá se dissolvido, substituído pela obediência espontânea do homem à lei de Deus. Assim como a administração das coisas na utopia de Marx não conferirá poder aos administradores, presumivelmente porque tudo será tão abundante que ninguém se sentirá tentado a se apropriar de uma quantidade de bens maior do que a possuída por seu próximo, na utopia de Qutb ninguém terá que interpretar a lei e obter poder por faze-lo. A lei de Deus será tão evidente quanto as coisas serão abundantes na sociedade sem classes de Marx.

Tanto Marx como Qutb expressam a ideia de que, sob o novo desígnio, o homem se tornará mais humano, menos animal. Pessoalmente, sempre achei este tipo de pensamento um insulto assombrosamente arrogante a todas as pessoas que viveram antes de quem o concebeu: a humanidade realmente precisou esperar por Marx ou Qutb antes de se tornar verdadeiramente humana?

Marx entendeu que a sociedade sem classes não surgiria pela mera pregação do socialismo, como se fosse apenas uma teoria ou exigência ética. Seria necessário violência. De maneira similar, Qutb nega que o mundo se tornará islâmico apenas pela pregação da palavra de Deus. Ele se refere ao período que Maomé passou em Meca, quando o Profeta não recorreu às armas. Isto, ele diz, foi meramente tático; teria sido impossível, em termos práticos, impor seu domínio pela força. Mas ao chegar em Medina, ele não hesitou em lutar contra seus inimigos, incluindo os que pura e simplesmente não aceitaram sua mensagem.

Assim como Marx disse que um confronto final entre o proletariado e a burguesia é inevitável, levando ao triunfo do primeiro e ao subsequente estabelecimento de uma sociedade sem classes, Qutb, por sua vez, pensou que uma guerra decisiva entre os crentes e os infiéis é inevitável, levando à vitória do Islã, que eliminará todos os conflitos religiosos. De quem é a seguinte frase, de Marx ou Qutb:

[existe] uma luta natural entre dois sistemas que não podem coexistir por muito tempo.

É uma frase escrita por Qutb; mas poderia ter sido tirada dos escritos dos milhares de seguidores de Marx, se não do próprio Marx, incluindo Mao Tse-Tung.

A imposição violenta de uma sociedade socialista e de uma sociedade islâmica é justificada da mesma maneira em Marx e em Qutb: se as pessoas fossem realmente livres, ou seja, se não padecessem nem de falsa consciência nem de jahilliyah (ignorância da orientação divina), eles aceitariam o estado socialista ou islâmico não meramente sem hesitar, mas com verdadeiro júbilo, como sendo para seu próprio bem livremente escolhido. A verdadeira liberdade, tanto em Marx como em Qutb, é o reconhecimento da necessidade. Tudo o que impede as pessoas de ver a verdade de suas mensagens é um inimigo da liberdade real (em oposição à mera liberdade aparente).

Há pouquíssimo que seja especificamente espiritual no livro de Qutb: é um manifesto político, não religioso. E como Marx, ele insiste que o Islã não é tanto um conjunto doutrinário, teórico ou factual, como na verdade um método. Sua noção é incrivelmente similar à da práxis marxista, de uma relação dialética entre teoria e prática. Eis o que ele diz sobre a sociedade islâmica vindoura:

Somente quando tal sociedade passa a existir, encara vários problemas práticos e demanda um sistema legal, o Islã inicia a constituição das leis e injunções, regras e regulações.

Assim como Marx, ele afirma reiteradamente que o Islã não é uma doutrina, mas uma unidade entre teoria e prática.

Qutb insiste que o triunfo do Islã é o único meio pelo qual o que ele chama de domínio do homem sobre o homem será abolido, assim como Marx e os marxistas insistem que o triunfo do marxismo é o único modo pelo qual a exploração do homem pelo homem cessará.

Marx acreditou que o homem já viveu num estado de comunismo primitivo que terminou com a divisão do trabalho. Qutb acreditava (de maneira bem menos plausível ou desculpável) que as primeiras gerações após Maomé viveram numa sociedade islâmica perfeitamente funcional. Ele não se perguntou, pelo menos não nesse livro, por que foi, então, que três dos quatro califas, supostamente sob a correta orientação divina, foram brutalmente assassinados. Este é um tipo bastante singular de perfeição, para dizer o mínimo. Mas, assim como a divisão do trabalho  chegou e arruinou o comunismo primitivo, também a filosofia grega e outras inovações vieram e arruinaram a sociedade islâmica perfeita. Por que razão a perfeição soçobraria em virtude de influências externas – poderia a perfeição ser assim tão imperfeita? – é uma questão que Qutb não levantou.

Ao longo de seu livro, sente-se sua fúria. Assim como Marx expressa sua admiração pela obra realizada pela burguesia no passado, Qutb similarmente presta tributo à Europa: mas tanto Marx como Qutb estão repletos de ódio. Obviamente, Qutb afirmou não ser mais do que um humilde instrumento de Deus, expressando o plano de Deus para a humanidade, assim como Marx afirmou ser o mero porta-voz da inevitabilidade histórica. Mas nem tudo o que afirma ser humilde é humildade. O autoconhecimento e o autoexame não fazem parte do programa de Qutb mais do que fazem do de Marx.

O livro de Qutb é obcecado com a obtenção do poder político e social. Há pouquíssimo conteúdo espiritual nele. Ele diz:

É claro, então, que uma comunidade muçulmana não pode ser formada ou continuar a existir até que obtenha poder suficiente para confrontar a sociedade jahili existente.

Somente o triunfo total do Islã (no sentido de Qutb) trará paz ao mundo, assim como todo conflito humano terminará quando o triunfo final do proletariado resultar na sociedade sem classes.

O único aspecto religioso do pensamento de Qutb é sua crença de que o Corão é a palavra não-mediada de Deus, uma crença que ele não justifica, porque não pode justificar. Para ele, a vontade de Deus é indisputavelmente conhecida sem qualquer necessidade de interpretação, e, de fato, ele a conhece. Não é difícil ver, então, que em nome da destruição de toda autoridade política e do domínio do homem sobre o homem em obediência à vontade de Deus, Qutb pense que deve ser um ditador total, e que ele é tão obcecado com o aqui e agora quanto qualquer marxista.

É aquela velha história de sempre. Como Dostoiévski disse, começando com liberdade ilimitada terminamos com o mais completo despotismo.

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Fonte: Gray, John. Cachorros de Palha:  Reflexões sobre humanos e outros animais (Rio de Janeiro: Record, 2007), págs. 113-118.

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Na pior das circunstâncias, a vida humana não é trágica, mas desprovida de sentido. A alma é quebrada, mas a vida persiste. Ao falhar a vontade, a máscara da tragédia cai ao chão. O que permanece é apenas sofrimento. O último sofrimento não pode ser contado. Se os mortos pudessem falar, não os entenderíamos. Somos sábios por nos apegarmos a um arremedo de tragédia: a verdade desvelada apenas nos cegaria.

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Hegel escreveu que a tragédia é a colisão do certo com o certo. É verdade que existe tragédia quando é impossível reconciliar importantes obrigações em choque umas com as outras, pois então o que quer que façamos conterá algum erro. Ainda assim, a tragédia nada tem a ver com moralidade.

Como um gênero reconhecível, a tragédia começa com Homero, mas não nasceu nos cantos que lemos hoje na Ilíada. Ela veio ao mundo com as figuras mascaradas, híbridos de animais e deuses, que celebravam o ciclo da natureza em festivais arcaicos. A tragédia nasceu no coro que cantava a vida e a morte míticas de Dioniso. De acordo com Gimbutas, “um uso litúrgico de participantes mascarados, os thiasotes ou tragoi, levou, em última instância, à sua aparição no palco e ao nascimento da tragédia.”

A tragédia nasce do mito, não da moralidade. Prometeu e Ícaro são heróis trágicos. Ainda assim, nenhum dos mitos nos quais aparecem nada tem a ver com dilemas morais. Nem as maiores tragédias gregas.

Se Eurípedes é o mais trágico dos escritores do teatro grego, não é porque lida com conflitos morais, mas porque entendeu que a razão não pode guiar a vida. Eurípedes rejeitava a crença que, para Sócrates, era a base da filosofia: de que, nas palavras de Dodds, “o erro moral, tal como o intelectual, só pode surgir de um fracasso em usar a razão que possuímos, e que, quando surge, tem que ser curável pelo processo intelectual, tal como ocorre com o erro intelectual.”

Assim como Homero, Eurípedes não compartilhava a fé de que o conhecimento, a bondade e a felicidade são uma e a mesma coisa. Para ambos, a tragédia vinha do embate entre o desejo humano e o destino. Sócrates destruiu essa visão arcaica das coisas. A razão nos capacitava a evitar o desastre ou então mostrava que o desastre não importa. É isso que Nietzsche quis dizer quando escreveu que Sócrates causou “a morte da tragédia”.

A essência da tragédia não é a colisão do certo com o certo. Existe tragédia quando os humanos se recusam a se submeter a circunstâncias que nem a coragem nem a inteligência podem remediar. A tragédia cai sobre aqueles que fizeram suas apostas contrariando todas as chances. A importância de seus objetivos é irrelevante. A vida de um pequeno criminoso pode ser trágica, enquanto a de um estadista mundial pode ser trivial.

Em nosso tempo, cristãos e humanistas juntaram-se para tornar a tragédia impossível. Para os cristãos, as tragédias são apenas bênçãos disfarçadas: o mundo – como diz Dante – é uma divina comédia; existe uma vida depois da vida na qual todas as lágrimas serão secadas. Para os humanistas, podemos almejar por um tempo em que todas as pessoas terão a chance de uma vida feliz; enquanto isso, a tragédia é um lembrete edificante de como podemos crescer no infortúnio. Mas é apenas em sermões ou no palco que os seres humanos são dignificados por extremos de sofrimento.

Varlam Shalamov, que, segundo Gustaw Herling, um sobrevivente do gulag, era “um escritor diante do qual toda a intelligentsia literária do gulag, incluindo Solzhenitsyn, deve curvar a cabeça”, foi preso pela primeira vez em 1929, quando tinha apenas 22 anos e ainda era um estudante de Direito na Universidade de Moscou. Foi condenado a três anos de trabalhos forçados em Solovki, uma ilha que havia sido transformada de um monastério ortodoxo em um campo de concentração soviético. Em 1937 foi preso novamente e condenado a cinco anos em Kolyma, no nordeste da Sibéria. Segundo estimativas conservadoras, cerca de três milhões de pessoas pereceram nesses campos árticos, e um terço ou mais dos prisioneiros morria a cada ano.

Shalamov passou 17 anos em Kolyma. Seu livro Kolyma Tales é escrito num estilo preciso, tchekoviano, sem nenhum tom didático como o encontrado nos trabalhos de Solzhenitsyn. Ainda assim, em ocasionais e lacônicas digressões e nas entrelinhas, existe uma mensagem: “quem quer que pense que pode se comportar de outra forma nunca tocou o verdadeiro fundo da vida; nunca teve que dar seu último suspiro em ‘um mundo sem heróis’.”

Kolyma era um lugar no qual a moralidade havia deixado de existir. Naquilo que Shalamov secamente chamou de “contos de fada literários”, profundos vínculos humanos são forjados sob a pressão da tragédia e da necessidade, mas na verdade nenhum vínculo de amizade ou simpatia era o forte o bastante para sobreviver à vida em Kolyma: “Se a tragédia e a necessidade puseram pessoas juntas e fizeram surgir uma amizade entre elas, então a necessidade não era extrema e a tragédia não era grande”, escreveu Shalamov. Com as vidas drenadas de todo sentido, poderia parecer que os prisioneiros não tivessem nenhuma razão para prosseguir; mas a maior parte estava fraca demais para aproveitar as chances que apareciam, de tempos em tempos, de terminar suas vidas de uma maneira que tivessem escolhido: “Há tempos em que um homem tem que se apressar para não perder a vontade de morrer.” Vencidos pela fome e pelo frio, moviam-se, insensivelmente, na direção de uma morte sem sentido.

Mulheres e crianças num gulag.

Mulheres e crianças submetidas a trabalho forçado num gulag.

Shalamov escreveu: “Existe muita coisa lá que um homem não deve saber, não deve ver; e, se vir, para ele é melhor morrer.” Após seu retorno dos campos, passou o resto de sua vida recusando-se a esquecer o que havia visto. Descrevendo sua viagem de volta a Moscou, escreveu:

Estava como se tivesse acabado de acordar de um sonho que havia durado anos. E, de repente, tive medo, e sentir um suor frio em meu corpo. Estava aterrorizado pela terrível força do homem, seu desejo e sua habilidade de esquecer. Percebi que estava pronto para esquecer tudo, para apagar vinte anos de minha vida. E, quando compreendi isso, conquistei a mim mesmo; soube que não iria permitir que minha memória esquecesse tudo que eu havia visto. E recuperei a calma e caí no sono.

Na pior das circunstâncias, a vida humana não é trágica, mas desprovida de sentido. A alma é quebrada, mas a vida persiste. Ao falhar a vontade, a máscara da tragédia cai ao chão. O que permanece é apenas sofrimento. O último sofrimento não pode ser contado. Se os mortos pudessem falar, não os entenderíamos. Somos sábios por nos apegarmos a um arremedo de tragédia: a verdade desvelada apenas nos cegaria. Como Czeslaw Milosz escreveu:

Nem-Um

Impunemente dá a si mesmo os olhos de um deus

Shalamov foi libertado de Kolyma em 1951, mas proibido de deixar a área. Em 1953 teve permissão de deixar a Sibéria, mas impedido de viver numa cidade grande. Voltou a Moscou em 1956 para descobrir que a esposa o havia deixado e a filha o havia rejeitado. Em seu aniversário de 75 anos, vivendo só, numa casa para idosos, cego, quase surdo e falando com grande dificuldade, ditou para seu único amigo que ocasionalmente o visitava diversos poemas curtos que foram publicados no exterior. Como resultado, foi tirado do asilo e, resistindo o tempo todo – talvez pensando que estivesse sendo levado de volta para Kolyma –, internado num hospital psiquiátrico. Três dias mais tarde, em 17 de janeiro de 1982, morreu “num quarto pequeno, com grades nas janelas, diante de uma porta acolchoada”.

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Estou sinceramente feliz por compartilhar com vocês esta ocasião e me tornar íntimo desta vetusta e muito prestigiosa universidade. Minhas congratulações e meus melhores votos para todos os graduandos de hoje.

O lema de Harvard é “Veritas”. Vários de vocês já descobriram e outros ainda se darão conta no decorrer de suas vidas que a verdade foge de nós se não nos dedicarmos incondicionalmente à sua busca. E mesmo quando ela nos escapa, a ilusão de possui-la persiste e leva-nos a vários equívocos. Ademais, a verdade raramente é agradável; quase invariavelmente ela é amarga, dolorosa e cruel. De fato, há alguma amargura em meu discurso de hoje. Mas desejo salientar que ela vem não de um adversário mas de um aliado.
Três anos atrás, aqui nos Estados Unidos da América, eu disse certas coisas que à época pareceram inaceitáveis. Hoje, entretanto, várias pessoas concordam com o que eu disse então…

Um Mundo Em Estilhaços

 Palestra proferida por Alexander Solzhenitsyn no dia 8 de Junho de 1978 aos alunos da graduação da Universidade de Harvard.

Fonte: http://www.columbia.edu/cu/augustine/arch/solzhenitsyn/harvard1978.html

Tradução: Gilmar Pereira Dos Santos

A fragmentação do mundo contemporâneo é perceptível mesmo de relance. Qualquer de nossos contemporâneos facilmente identifica duas potências mundiais, ambas capazes de se  destruirem mútua e completamente. Entretanto, a compreensão da fratura muitas vezes é limitada a esta concepção política, à ilusão de que o perigo pode ser extinto através de negociações diplomáticas bem sucedidas ou pela obtenção de um poderio bélico equilibrado. A verdade é que a fratura é muito mais profunda e alienante; que as falhas e brechas vão muito além do que se percebe a primeira vista. Estas divisões múltiplas e profundas alimentam o perigo de desastres múltiplos para todos nós, em concordância com a antiga verdade de que um reino —  neste caso, nosso planeta — dividido contra si próprio não pode manter-se firme por muito tempo.

Mundos contemporâneos

Existe o conceito de Terceiro Mundo: de maneira que já possuímos três mundos. Sem sombra de dúvidas, contudo, o número é ainda maior; apenas nos encontramos demasiado distantes para ver com clareza. Qualquer cultura autônoma antiga profundamente enraizada, especialmente se está disseminada numa porção ampla da superfície do planeta, constitui um mundo autônomo, cheio de enigmas e surpresas para o pensamento ocidental. No mínimo, devemos incluir nesta categoria a China, a Índia, o mundo muçulmano e a África, se realmente aceitarmos a visão aproximada das dois últimos como unidades compactas. Por mil anos a Rússia pertenceu a esta categoria, ainda que o pensamento ocidental tenha sistematicamente cometido o erro de negar seu caráter autônomo e portanto nunca a tenha compreendido, da mesma maneira que atualmente o Ocidente não compreende a Rússia aprisionada pelo comunismo. Pode ser que em anos recentes o Japão tenha se tornado gradativamente uma parte distante do Ocidente, não julgarei isto aqui; mas em relação a Israel, por exemplo, parece-me que esta nação destaca-se do mundo ocidental no sentido de que seu sistema político é essencialmente vinculado à religião.

Há relativamente não muito tempo atrás o pequeno novo mundo europeu estava facilmente estabelecendo colônias em toda parte, não apenas sem antecipar qualquer resistência real, como também usualmente desprezando quaisquer possíveis valores na abordagem à vida dos povos conquistados. Em face disso, foi um sucesso esmagador; inexistiram-lhe fronteiras geográficas. A sociedade ocidental se expandiu num triunfo do poder e da independência humanas. E subitamente no século XX veio a descoberta de sua fragilidade e de sua inconsistência. Agora vemos que as conquistas revelaram-se precárias e efêmeras, e isto por sua vez aponta para as deficiências na cosmovisão ocidental que levou a estas conquistas. As relações com as ex-colônias agora se inverteram e o mundo ocidental muitas vezes vai a extremos de servilismo, mas ainda é difícil estimar o valor total da conta que as ex-colônias apresentarão ao Ocidente, e é difícil prever se desfazer-se não apenas de suas últimas colônias, mas de tudo o que possui, será suficiente para saldar a dívida do Ocidente.

Convergência

Mas a cegueira da superioridade continua apesar de tudo e encoraja a crença de que vastas regiões em todos os cantos de nosso planeta deveriam progredir e amadurecer até o estágio dos atuais sistemas ocidentais, que em teoria são os melhores, e na prática os mais atraentes. Existe a crença de que todos aqueles outros mundos estão apenas sendo temporariamente impedidos por governantes perversos ou por crises difíceis ou por sua própria selvageria ou incompreensão de tomar a via da democracia pluralista ocidental e de adotar
o estilo de vida ocidental. Países são julgados pela extensão de seu progresso nesta direção. Entretanto, esta concepção é fruto da incapacidade ocidental de compreender a essência dos outros mundos, do erro de medi-los todos pelo padrão ocidental. O verdadeiro retrato do desenvolvimento de nosso planeta é bastante diferente.

A angústia em relação a nosso mundo dividido deu à luz a teoria da convergência entre os principais países ocidentais e a União Soviética. É uma teoria tranquilizadora que negligencia o fato de que estes mundos absolutamente não estão se desenvolvendo de maneira similar, nem podem ser transformados um no outro sem o uso de violência. Além disso, a convergência inevitavelmente significa igualmente a aceitação das deficiências do outro lado, e isto dificilmente é desejável.

Se hoje eu estivesse me dirigindo a uma audiência em meu país, examinando o padrão global das falhas mundiais eu teria me concentrado nas calamidades orientais. Mas uma vez que meu exílio forçado no Oeste já perdura por quatro anos e como minha audiência é ocidental, penso ser de grande interesse me concentrar em aspectos específicos do Ocidente contemporâneo, tal como os vejo.

Um declínio da coragem […]

pode ser o aspecto mais atordoante que um observador externo notaria no Ocidente atual. O mundo ocidental perdeu sua coragem civil, tanto como um todo quando separadamente, em cada país, cada governo, cada partido político e obviamente nas Nações Unidas. Tal declínio da coragem é particularmente perceptível dentre os grupos dominantes e as elites intelectuais, causando um impressão de perda de coragem aolongo de toda a sociedade. Certamente existem vários indivíduos corajosos mas eles não exercem nenhuma influência determinante na vida pública. Burocratas, políticos e intelectuais mostram-se deprimidos, passivos e perplexos em suas ações e em seus pronunciamentos e mais ainda em reflexões teóricas para explicar quão realista, razoável, bem como intelectualmente e até mesmo moralmente justificado é fundamentar políticas estatais na fraqueza e na covardia. E o declínio da coragem é ironicamente enfatizado por explosões ocasionais de raiva e inflexibilidade da parte dos mesmos burocratas quando lidam com governos e países fracos, desamparados por todos, ou com movimentos incapazes de oferecer qualquer resistência. Mas eles ficam mudos e paralisados quando lidam com governos poderosos e forças ameaçadoras, com agressores e terroristas internacionais.

É necessário assinalar que desde a mais remota antiguidade o declínio da coragem sempre foi considerado o começo do fim?

Bem-Estar

Quando os Estados ocidentais modernos foram criados, o seguinte princípio foi proclamado: os governos destinam-se a servir o homem, e o homem vive para ser livre e perseguir a felicidade. (Veja, por exemplo, a Declaração Americana). Agora, pelo menos durante as décadas recentes o progresso técnico e social tem permitido a realização de tais aspirações: o Estado de Bem-Estar Social. A todo cidadão tem sido assegurada a tão desejada liberdade e os bens materiais em tal quantidade e de tal qualidade de forma a garantir, em teoria, a conquista da felicidade, no sentido moralmente inferior estabelecido durante as mesmas décadas. No processo, entretanto, um detalhe psicológico tem sido negligenciado: o desejo constante de ter ainda mais coisas e uma vida ainda melhor e o grande esforço empreendido em sua obtenção imprime em vários rostos ocidentais a preocupação e até mesmo a depressão, ainda que seja comum ocultar e dissimular tais sentimentos. A competição ativa e acirrada permeia todos os pensamentos humanos sem abrir um caminho para o livre desenvolvimento espiritual. A independência individual de vários tipos de controle estatal foi assegurada; à maioria das pessoas foi garantido o bem-estar numa extensão que seus pais ou avós não poderiam sequer sonhar; tornou-se possível criar os jovens segundo estes ideais, levando-os ao esplendor físico, à felicidade, à posse de bens materiais, dinheiro e ócio, a uma liberdade quase ilimitada de prazer e divertimento. De maneira que quem agora renunciaria a tudo isto, por que e para que alguém arriscaria sua preciosa vida na defesa de valores comuns, e particularmente em tais casos nebulosos quando a segurança da própria nação precise ser defendida num país distante?

Até mesmo a biologia revela que a segurança e o bem-estar extremos banalizados não são vantajosos para um organismo vivo. Hoje, o bem-estar na vida da sociedade ocidental começou a mostrar sua face perniciosa.

Vida Jurídica

A sociedade ocidental proporcionou-se a organização que melhor se adequa a seus própositos, baseada, eu diria, na letra da lei. Os limites dos direitos humanos e da retidão são determinados por um sistema de leis; tais limites são bastante amplos. As pessoas no Ocidente adquiriram uma habilidade considerável em usar, interpretar e manipular a lei, apesar de as leis tenderem a ser muito complicadas para um pessoa mediana compreender sem a ajuda de um especialista. Qualquer conflito é resolvido de acordo com a letra da lei e isto é considerado a solução suprema. Se alguém está certo e autorizado de um ponto de vista jurídico, nada mais é exigido, ninguém pode mencionar que ainda poder-se-ia não estar completamente certo, e apelar ao autocontrole, à renúncia voluntária a tais direitos legais, ao sacrifício e à exposição desinteressada a riscos: tal coisa soaria simplesmente absurda.

Quase nunca o autocontrole voluntário é visto. Todos operam nos limites extremos desse arcabouço legal. Uma indústria petrolífera é inocente quando patenteia uma nova técnica de produção de energia a fim de impedir seu uso. Um fabricante de produtos alimentícios é legalmente inocente quando envenena sua produção para aumentar seu prazo de validade: afinal, as pessoas são livres para não compra-lo.

Eu gastei toda a minha vida sob um regime comunista e quero dizer-lhes que uma sociedade desprovida de qualquer padrão jurídico objetivo é de fato terrível. Mas uma sociedade sem qualquer outra escala de valores que não a jurídica tampouco é digna do homem. Uma sociedade baseada na letra da lei que nunca atinge qualquer ápice beneficia-se escassamente do alto nível do potencial humano. A letra da lei é muito fria e formal para influenciar beneficamente a sociedade. Sempre que a trama da vida é tecida por relações jurídicas, surge uma atmosfera de mediocridade moral que paraliza os mais nobres impulsos humanos.

E será simplesmente impossível manter-se de pé ao longo das provações deste século ameaçador amparados apenas numa estrutura jurídica.

A Direção da Liberdade

Na sociedade ocidental contemporânea, tornou-se patente a diferença entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más. Um estadista que deseje atingir algo importante e altamente construtivo para seu país tem que se mover cautelosamente e até mesmo timidamente; existem centenas de críticos imprudentes e irresponsáveis à sua volta, enquanto o parlamento e a imprensa cuidam de boicota-lo. À medida em que ele avança, ele precisa provar que cada um de seus passos é bem fundamentado e absolutamente indefectível. Na verdade uma pessoa ilustre e particularmente dotada que possua iniciativas incomuns e inesperadas em mente dificilmente tem a chance de se afirmar; desde o começo, dúzias de armadilhas serão colocadas em seu caminho. De forma que a mediocridade triunfa sob o pretexto de restrições impostas pela democracia.

É factível e fácil em qualquer lugar sabotar o poder administrativo e, de fato, ele tem sido drasticamente debilitado em todos os países ocidentais. A defesa dos direitos individuais tem atingido extremos tais que tornam a sociedade como um todo indefesa contra certos indivíduos. È hora, no Ocidente, de defender não tanto os direitos humanos quanto os deveres humanos.

À liberdade destrutiva e irresponsável foi concedido um espaço ilimitado. A sociedade aparenta possuir poucas defesas contra os abismos da decadência humana, tal como, por exemplo, o mal uso da liberdade para a violência moral contra pessoas jovens, a produção de filmes repletos de pornografia, crimes e horrores. Isto é considerado uma parte da liberdade e teoricamente contrabalançado pelo direito das pessoas jovens de não olhar e não aceitar. A vida organizada juridicamente tem assim revelado sua incapacidade de se defender contra os efeitos corrosivos do mal.

E o que deveríamos dizer a respeito dos sombrios domínios da criminalidade como tais? Cenários jurídicos (especialmente nos EUA) são amplos o bastante para encorajar não somente a liberdade individual mas também certos crimes individuais. O acusado pode seguir impune ou obter leniência imerecida com o auxílio de centenas de defensores públicos. Quando um governo começa a combater diligentemente o terrorismo, a opinião pública imediatamente o acusa de violar os direitos civis dos terroristas. Existem vários casos assim.

Tal declive da liberdade na direção do mal surgiu gradualmente mas foi evidentemente gestado a partir de uma concepção humanista benevolente segundo a qual não existe nenhum mal inerente à natureza humana; o mundo pertence à humanidade e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais moralmente condenáveis que devem ser corrigidos. De maneira bastante enigmática, ainda que as melhores condições sociais tenham sido alcançadas no Ocidente, ainda existe criminalidade e consideravelmente mais do que na desregrada e miserável sociedade soviética. (Há um grande número de prisioneiros em nossos campos de concentração que são denominados criminosos, mas a maioria deles nunca cometeu qualquer crime; eles meramente tentaram se defender contra um estado sem lei lançando mão de meios externos a um arcabouço legal).

A Direção da Imprensa

A imprensa, é claro, aprecia a mais ampla liberdade (utilizarei o termo “imprensa” para me referir a todos os canais de mídia). Mas que tipo de uso ela faz desta liberdade?

Aqui mais uma vez, a principal preocupação é não infringir a letra da lei. Não há nenhuma responsabilidade moral pela distorção ou manipulação. Que tipo de responsabilidade tem um jornalista para com seus leitores, ou para com a história? Se eles enganaram a opinião pública ou o governo com informações imprecisas ou conclusões errôneas, temos conhecimento de quaisquer casos de reconhecimento e retificação pública de tais erros pelo mesmo jornalista ou a mesma publicação? Não, isto não acontece, porque prejudicaria as vendas. Uma nação pode ser vítima de erros do tipo, mas o jornalista sempre elude sua responsabilidade. Pode-se admitir com segurança que ele começará a escrever o oposto com autoconfiança renovada.

Porque informação instantânea e confiável deve ser oferecida, torna-se necessário lançar mão de rumores, boatos e suposições para preencher as lacunas, e nenhuma delas jamais será retificada, permanecendo na memória dos leitores. Quantos julgamentos precipitados,imaturos, superficiais e errôneos são pronunciados diariamente, confundindo leitores, sem qualquer confirmação. A imprensa é capaz tanto assumir o papel da opinião pública como de perverte-la. De maneira que podemos ver terroristas celebrados como heróis, ou documentos secretos, relativos à defesa nacional de um país, revelados ao público, ou podemos testemunhar a desavergonhada invasão da privacidade de figuras públicas sob o slogan “a todos é permitido conhecer tudo’. Mas este é um falso slogan, característico de uma falsa era: as pessoas também possuem o direito de não saber, direito este muito mais precioso. O direito de não ter suas almas divinas atulhadas com fofocas, futilidades e conversa fiada. Um pessoa que trabalha e leva um vida significativa não precisa deste fluxoexcessivamente opressivo de informação.

Precipitação e superficialidade são as doenças psíquicas do século XX e aqui mais do que que em qualquer outro lugar esta doença se manifesta na imprensa. Análises aprofundadas de um problema são anátemas para a imprensa. Esta se detém nas fórmulas sensacionalistas.

Tal como está, contudo, a imprensa tornou-se o maior poder dentro das nações ocidentais, mais poderosa do que o legislativo, o executivo e o judiciário. Talvez alguém deseje perguntar: por qual lei ela foi eleita e por quem eles se responsabilizam?  No leste comunista um jornalista é explicitamente apontado como um oficial do estado. Mas quem outorgou aos jornalistas ocidentais seu poder, por quanto tempo e com quais prerrogativas?

Uma outra surpresa ainda encontra-se à espera de alguém vindo do leste, onde a imprensa é rigorosamente unificada: descobre-se gradualmente uma tendência comum de preferências dentro da imprensa ocidental como um todo. É uma moda; há padrões geralmente aceitos de julgamento e podem haver interesses corporativos, sendo o resultado total dos efeitos não a competição mas a homogeinização. Concede-se uma liberdade colossal à imprensa, mas não a seu público, porque os jornais predominantemente acentuam e reforçam as opiniões que não contradizem explicitamente sua própria tendência geral.

Uma tendência no pensamento

Sem qualquer censura, no Ocidente as tendências de pensamento e das idéias em voga são cuidadosamente apartadas das que não estão em voga; nada é proibido, mas o que não está em voga dificilmente encontrará espaço em livros, periódicos ou nas grades curriculares dos colégios e universidades. Juridicamente seus pesquisadores são livres, mas são condicionados pela ortodoxia vigente. Não há violência explícita como no Leste; entretanto, uma seleção ditada pela ortodoxia e pela necessidade de satisfazer padrões de massa frequentemente impedem pessoas com opiniões independentes de contribuirem com a vida pública. Existe uma perigosa tendência à formação de rebanhos, excluindo o desenvolvimento bem sucedido.Na Ámerica, recebi cartas de pessoas muito inteligentes, talvez um professor numa pequena e remota escola que não podia fazer muito pela renovação e salvação de seu país, mas seu país não podia ouvi-lo porque a mídia não estava interessada nele. Isto origina fortes preconceitos em massa, uma cegueira que é mais perigosa em nossa era dinâmica. Há por exemplo, uma interpretação auto-ilusória da situação mundial contemporânea. Ela funciona como um tipo de armadura petrificada envolvendo as mentes das pessoas. Vozes humanas de 17 países da Europa Oriental e da Ásia Oriental não são capazes de rompê-la. Ela será quebrada somente pela alavanca implacável dos acontecimentos.

Mencionei algumas tendências da vida ocidental que surpreendem e chocam um recém-chegado a este mundo. O objetivo e o escopo desta palestra impedem que eu continue tal avaliação, que eu considere a influência destas características ocidentais sobre aspectos importantes da vida de uma nação, tais como a educação tanto elementar quanto avançada em artes e humanidades.

Socialismo

É quase universalmente reconhecido que o Ocidente exibe para o mundo um modo de desenvolvimento econômico bem sucedido, mesmo que nos últimos anos tenha sido fortemente perturbado por uma inflação caótica. Entretanto, várias pessoas que vivem no Ocidente encontram-se insatisfeitas com sua própria sociedade. Elas a desprezam ou a acusam de não estar a altura do grau de maturidade alcançado pela humanidade. Vários destes críticos voltam-se para o socialismo, o que é uma tendência infeliz e perigosa.

Espero que nenhum dos presentes suspeite que eu esteja apresentando minha crítica pessoal do sistema ocidental para oferecer-lhes o socialismo como alternativa. Tendo vivenciado o socialismo aplicado num país onde a alternativa foi efetivada, eu certamente não serei seu porta-voz. O renomado matemático soviético Shafarevich, um mebro da Academia de Ciências SOviética, escreveu um brilhante livro intitulado Socialism; a obra é uma análise profunda mostrando que o socialismo sob qualquer forma ou matiz leva à total destruição do espírito humano e ao nivelamento mortal dos indivíduos humanos. O livro de Shafarevich foi publicado na França quase dois anos atrás e até agora não apareceu ninguém a refuta-lo. Será publicado em breve em inglês nos Estados Unidos.

Não é um modelo

Ma se alguém me perguntasse se eu indicaria o Ocidente contemporâneo como um modelo pára meu país de origem, eu daria uma resposta francamente negativa. Não, eu não recomendaria a sociedade de vocês em seu estado atual como um ideal para a transformação da nossa. Através de um profundo sofrimento nosso país atingiu um desenvolvimento espiritual de tal intensidade que o sistema ocidental em seu estado atual de exaustão espiritual não parece atraente. Mesmo as características de sua vida que eu apenas mencionei são extremamente deprimentes.

Um fato que não pode ser contestado é a fragilização dos seres humanos no Ocidente, enquanto no Leste eles estão se tornando mais fortes e resistentes. Seis décadas para nosso povo e três décadas para o povo da Europa Oriental; durante este período atravessamos um treinamento espiritual que supera largamente a experiência ocidental. A complexidade da vida e seu fardo pesado produziram tipos mais fortes, profundos e interessantes que os produzidos pelo bem-estar ocidental padronizado. Portanto, se nossa sociedade tivesse de ser transformada na de vocês, isso significaria um aprimoramento em certos aspectos, mas também uma mudança para pior em algumas realizações particularmente significativas. É verdade, sem dúvidas, que uma sociedade não pode aguentar-se num abismo de arbitrariedade jurídica, como é o caso em nosso país. Mas também seria aviltante instaurar tal regularidade jurídica mecânica como vocês fizeram. Após o sofrimento de décadas de violência e opressão, a alma humana anseia por coisas mais puras, sublimes e extasiantes que as oferecidas pelos hábitos de vida em alta concentração demográfica introduzidos pela revoltante invasão de publicidade, pelo estupor televisivo e por genêros musicais intoleráveis.

Tudo isto é visível para observadores de todos as sociedades de nosso planeta. É cada vez menos provável que o estilo de vida ocidental venha a se tornar o principal modelo a ser seguido.

Existem alertas significativos que a história dá a uma sociedade ameaçada ou em declínio. Tais são, por exemplo, a decadência da arte, ou a ausência de grandes estadistas. Também há avisos evidentes e manifestos. O centro de sua democracia e de sua cultura é  privada de energia elétrica por apenas algumas horas, e repentinamente multidões de cidadãos americanos começam a promover saques e atos de vandalismo. A camada superficial de civilidade deve ser muito fina, o que indica que o sistema social inteiro é instável e doentio.

Mas a luta por nosso planeta, física e espiritual, uma batalha de proporções cósmicas, não é uma questão vaga sobre o futuro; ela já começou. As forças do mal deflagaram sua ofensiva decisiva, você pode senti-las pressionando, e mesmo assim as telas e publicações estão recheadas de sorrisos caducos e taças tilintando. O que eles estão comemorando?

Miopia

Representantes amplamente conhecidos de sua sociedade, como George Kennan, dizem: não podemos aplicar critérios morais à política. Assim amalgamamos o bem e o mal, o certo e o errado e criamos as condições para o absoluto triunfo  do Mal no mundo. Por outro lado, somente critérios morais podem auxiliar o Ocidente contra a bem planejada estratégia mundial do Comunismo. Não há outros critérios. Consideraçõs práticas e ocasionais de qualquer tipo serão inevitavelmente varridas pela estratégia comunista. Após um certo nível do problema ter sido atingido, o pensamento jurídico induz a paralisia; ele impede uma pessoa de ver a dimensão e o significado dos eventos.

Apesar da abundância de informação, ou talvez em decorrência dela, o Ocidente tem dificuldade em compreender a realidade tal como ela é. Houveram previsões ingênuas da parte de alguns especialistas americanos que acreditaram que Angola se tornaria o Vietnã soviético ou que expedições cubanas à África seriam melhor estancadas se os Estados Unidos dispensassem à Cuba mimos e gentilezas especiais. O conselho dado por Kennan a seu próprio país – dar início ao desarmamento unilateral — pertence à mesma categoria. Se vocês soubessem como os oficiais mais jovens da Antiga Praça de Moscou [Kremlin] gargalharam de seus mágos políticos! Assim como Fidel Castro, eles hostilizam abertamente os Estados Unidos, enviando suas tropas para aventuras distantes em países vizinhos ao de vocês.

Entretanto, o erro mais cruel ocorreu com o fracasso em compreender a Guerra do Vietnã. Algumas pessoas sinceramente desejaram que todas as guerras acabassem o mais rápido possível; outros acreditaram que haveria espaço para a autodeterminação nacional, ou comunista, no Vietnã, ou no Camboja, como vemos hoje com particular clareza. Mas os membros do movimento pacifista americano acabaram sendo envolvidos na traição das nações do Extremo Oriente, num genocídio e no sofrimento imposto hoje a 30 milhões de pessoas que lá vivem. Será que estes pacifistas convictos ouviram os lamentos vindos de lá? Eles compreendem sua responsabilidade hoje? Ou eles preferem não ouvir? A Intelligentsia americana  perdeu sua fibra e como consequencia disso o perigo se aproximou muito mais dos Estados Unidos. Mas não há a menor consciência disso. Seus políticos míopes que assinaram a precipitada capitulação do Vietnã aparentemente deram á Ámerica uma despreocupada pausa para respirar; contudo, um Vietnã centuplicado assoma ameaçador sobre vocês. Aquele pequeno Vietnã foi um alerta e uma ocasião para mobilizar a coragem da nação. Mas se uma America em sua plenitude sofreu uma derrota real contra um pequeno meio-país comunista, como pode o Ocidente permanecer firme no futuro?

Já tive a oportunidade de dizer que no século XX a democracia não venceu qualquer grande guerra sem a ajuda e a proteção de um poderoso aliado continental cuja filosofia e ideologia não foi questionada. Na Segunda Guerra Mundial contra Hitler, em vez de vencer aquela guerra com suas próprias forças, o que certamente teria sido suficiente, a democracia ocidental produziu e cultivou outro inimigo que se provaria ainda pior e mais poderoso, já que Hitler nunca dispôs de tantos recursos e tanto contingente pessoal, tampouco ofereceu quaisquer idéias atraentes, ou possuiu um grande número de adeptos no Ocidente — uma potencial quinta coluna — como a União Soviética. No momento, algumas vozes ocidentais já falaram em obter a proteção de uma terceira potencia contra agressão no próximo conflito mundial, se houver; neste caso o escudo seria a China. Mas eu não desejaria tal desenlace a qualquer país do mundo. Primeiro de tudo, esta é mais uma vez um aliança condenada com o Mal; além disso, ela angariaria algum respeito aos Estados Unidos, mas quando no futuro a China com seus bilhões de habitantes encontrar-se armada com armas americanas, a própria América cairia vítima de um genocídio similar ao perpetrado no Camboja em nossos dias.

Perda de força de vontade

E ainda — nenhuma arma, não importa quão poderosa, pode ajudar o Ocidente até que ele supere sua perda de força de vontade. Num estado de fraqueza psicológica, armas tornam-se um fardo para o lado rendido. Para se defender, deve-se estar pronto para morrer; há poucadisposição como essa numa sociedade erguida sobre o culto do bem-estar material. Nada é deixado, então, além de concessões, tentativas de ganhar tempo e traição. Assim, na constrangedora conferência de Belgrado, diplomatas do ocidente livre, em sua fraqueza renderam-se ao caminho onde membros escravizados dos grupos de vigilância de Helsinque estão sacrificando suas vidas.

O pensamento ocidental tornou-se conservador: a situação do mundo estabilizaria sem qualquer custo, não haveriam mudanças. Este sonho debilitante de um status quo é o sintoma de uma sociedade que chegou ao fim de seu desenvolvimento. Mas deve-se estar cego a fim de não ver que os oceanos não mais pertencem ao Ocidente, enquanto a terra sob seu domínio continua encolhendo. As duas assim chamadas guerras mundiais (elas não foram nem de longe de escala global, não ainda) significaram a autodestruição interna do Ocidente pequeno e progressivo que dessa maneira preparou abriu o caminho para seu próprio fim. A próxima guerra (que não precisa ser atômica e eu não acredito que será) pode muito bem enterrar a civilização ocidental para sempre.

Diante de tal perigo, com tais valores históricos em seu passado, em tal grau de realização da liberdade e de aparente devoção à liberdade, como é possível perder em tal extensão a vontade de se autodefender?

O Humanismo e Suas Consequências

Como foi produzida esta desfavorável relação de forças? Como o Ocidente declinou de sua marcha triunfante para sua atual enfermidade? Houveram guinadas fatais e perdas de direção em seu desenvolvimento? Não parece ser o caso. O Ocidente continuou avançando socialmente em concordância com seus objetivos proclamados, auxiliado pelo brilhante progresso tecnológico. E subitamente ele se encontra no atual estado de debilidade.

Isto quer dizer que a fraqueza deve estar na raiz, na própria base do pensamento humano dos últimos séculos. Refiro-me à visão de mundo ocidental predominante nascida durante a Renascença e que encontrou sua expressão política na época do Iluminismo. Ela tornou-se a base para o governo e para a ciência social e poderia ser definida como humanismo racionalista ou autonomia humanista: é a autoproclamada e reforçada autonomia do homem de qualquer força superior. Também poderia ser chamada antropocentrismo, com o homem visto como o centro de tudo o que existe.

A mudança introduzida pela Renascença obviamente era inevitável de um ponto de vista histórico. A Idade Média chegara a um término natural por exaustão, tornando-se uma repressão despótica intolerável da natureza física do homem em favor da espiritual. Então, contudo, demos as costas para o Espírito e abraçamos tudo o que é material com um anelo excessivo e injustificado. Esta nova maneira de pensar, que nos impôs sua tutela, não admite a existência do mal intrínseco ao homem, tampouco busca qualquer tarefa mais elevada do que a realização da felicidade sobre a terra. Ela baseou a civilização ocidental sobre a perigosa tendência a adorar o homem e suas necessidades materiais. Todas as coisas além do bem-estar físico e do acúmulo de bens materiais, todas as outras exigências e características humanas de natureza mais sutil e elevada, foram deixadas fora do campo de atenção dos sistemas estatais e sociais, como se a vida humana não possuísse qualquer sentido superior. Isso abriu caminho para o mal, do qual em nossos dias há um fluxo constante e desimpedido. A liberdade apenas não resolverá em última instância todos os problemas da vida humana e até mesmo acrescenta uma série de novos problemas.

Entretanto, nas democracias primitivas, bem como na democracia americana à época de seu nascimento, todos os direitos humanos individuais foram reconhecidos porque o homem é uma criatura de Deus. Isto é, a liberdade foi concedida ao indivíduo condicionalmente, presumindo-se sua constante responsabilidade religiosa. Tal foi a herança dos últimos mil anos.

Duzentos ou mesmo cinquenta anos atrás, teria parecido completamente impossível, na América, que a um indivíduo poderia ser concedida liberdade ilimitada simplesmente para a satisfação de seus instintos e caprichos. Subsequentemente, contudo, todas estas limitações foram descartadas em todos os lugares do Ocidente; uma liberação total ocorreu a partir da herança moral de séculos de Cristianismo com suas grandes reservas de piedade e sacrifício. Sistemas estatais tornaram-se cada vez mais e totalmente materialistas. O Ocidente terminou por reforçar verdadeiramente os direitos humanos, as vezes excessivamente, mas o senso de responsabilidade do homem para com Deus e a sociedade turvou-se. Nas últimas décadas o aspecto juridicamente egoísta da abordagem ocidental atingiu sua dimensão final e o mundo acabou numa grave crise espiritual e num impasse político. Todas as glorificadas realizações tecnológicas do Progresso, incluindo a conquista do espaço sideral,não redimem a pobreza moral do século XX, inimaginável mesmo à suas vésperas no final do século XIX.

Uma afinidade inesperada

A medida em que o humanismo em seu desenvolvimento tornou-se mais e mais materialista, ele gradativamente revelou-se suscetível à especulação e manipulação, a princípio pelo socialismo e depois pelo comunismo. De modo que Karl Marx estava autorizado a dizer em 1844 que o “comunismo é um humanismo naturalizado”.

Esta declaração acabou não sendo inteiramente sem sentido. Pode-se de fato ver as mesmas rochas nas fundações tanto de um humanismo desespiritualizado como nas de qualquer tipo de socialismo: materialismo interminável, liberação da religião e da responsabilidade religiosa, que sob os regimes comunistas alcançaram o estágio de ditadura anti-religiosa; foco em estruturas sociais com uma abordagem aparentemente científica. (Isto é característico do Iluminismo Setecentista e do Marxismo). Não por coincidência todas as juras e promessas sem sentido do comunismo são sobre o Homem, com H maiúsculo, e sua felicidade mundana. A primeira vista parece um paralelo grotesco: traços comuns na maneira de pensar e de viver do Ocidente e do Oriente contemporâneos? Mas tal é a lógica do progresso materialista.

A conexão é tal que a vertente de materialismo mais à esquerda, por ser mais consistente, sempre termina sendo a mais forte, mais atraente e vitoriosa. O Humanismo sem sua herança cristã não pode resistir a tal competição. Assistimos a este processo nos últimos séculos e especialmente nas últimas décadas, numa escala mundial, a medida em que a situação torna-se cada vez mais dramática. O liberalismo foi inevitavelmente substituído pelo radicalismo, o radicalismo teve que se render ao socialismo e o socialismo nunca poderia resistir ao comunismo. O regime comunista no Oriente persevera e cresce devido ao apoio entusiástico de um vasto número de intelectuais ocidentais que sentiram uma afinidade e se recusaram a enxergar os crimes do comunismo. Quando não lhes foi mais possível proceder assim, eles tentaram justifica-los. Em nossos países orientais, o comunismo sofreu uma derrota ideológica total; tornou-se nada e menos do que nada. Mas os intelectuais ocidentais ainda o olham com interesse e simpatia, e é exatamente isto que torna tão imensamente difícil para o Ocidente resistir e fazer oposição ao Oriente.

Antes da mudança

Não estou examinando aqui o caso de um desastre bélico global e as mudanças que ele produziria na sociedade. Na medida em que despertamos diariamente sob um sol calmo e sereno, precisamos levar uma vida ordinária. Há, contudo, um desastre em andamento já há um bom tempo. Refiro-me à calamidade de uma consciência humanista desespiritualizada e irreligiosa.

Para tal consciência, o homem é a medida última de tudo o que existe sobre no universo. O homem imperfeito, que nunca está livre de orgulho, auto-interesse, inveja, vaidades, e dúzias de outros defeitos. Estamos agora experimentando as consequências de erros que não foram percebidos no começo da jornada. No trajeto da Renascença até nossos dias enriquecemos nossa experiência, mas perdemos o conceito de uma Entidade Suprema Absoluta que costumava refrear nossas paixões e nossa irresponsabilidade. Depositamos demasiada esperança nas reformas políticas e sociais, apenas para descobrir que fomos privados de nosso bem mais precioso: nossa vida espiritual. No Oriente, ela foi destruída pelos procedimentos e maquinações do partido no poder. No Ocidente, os interesses comerciais tendem a sufoca-la. Esta é a crise real. A cisão no mundo é menos terrível do que a similaridade da doença que assola suas principais regiões.

Se fosse verdade, como o Humanismo declara, que o homem foi feito para ser feliz, ele não teria sido feito para morrer. Uma vez que seu corpo está condenado a morte, sua tarefa na terra evidentemente deve ser de natureza mais espiritual. Não pode ser o gozo desenfreado da vida cotidiana. Não pode ser a mera procura pelas maneiras mais eficazes de obter bens materiais e de desfruta-los ao máximo alegre e irresponsávelmente. Tem que ser o cumprimento de uma obrigação permanente, séria, de modo que a jornada de vida de alguém possa ser uma experiência de crescimento moral, de modo de que alguém possa terminar sua vida como um ser humano melhor do que era quando começou. É imperativo revisar a tábua dos valores humanos típicos. A gravidade de seus erros atuais é assombrosa. Não é possível que a avaliação do desempenho de um presidente reduza-se à questão de quanto alguém lucra ou da disponibilidade ilimitada de gasolina. Somente a autocontenção inspirada e voluntária pode elevar a humanidade acima da corrente mundial do materialismo.

Seria um retrocesso, hoje em dia, apegarmo-nos às fórmulas fossilizadas do Iluminismo. Tal dogmatismo social nos deixa completamente desamparados em face das provações de nossa época.

Mesmo se fôssemos poupados da destruição pela guerra, nossas vidas teriam que mudar se desejássemos salvar a vida da autodestruição. Não podemos mais esquivarmo-nos de revisar as definições fundamentais da vida e da sociedade humanas. É verdade que o homem paira acima de todas as coisas? Não existe nenhum Espírito Superior acima dele? É certo que a vida do homem e as atividades da sociedade sejam orientadas em primeiro lugar pela expansão material? É lícito promover tal expansão em detrimento de nossa integridade espiritual?

Se o mundo não chegou a seu fim, ele se encontra à beira de uma guinada decisiva em sua história, de importância equivalente à transformação pela qual passou entre a Idade Média e a Renascença. Ela exigirá de nós uma verdadeira erupção espiritual; atingiremos opatamar de uma nova visão, um novo estágio de vida no qual nossa natureza física não será anatematizada como na Idade Média, mas, ainda mais importante, nossa essência espiritual não será pisoteada como na era moderna.

Esta ascensão será semelhante à uma escalada para o próximo estágio antropológico. Nenhuma outra alternativa está ao alcance de qualquer um no globo a não ser esta: ir adiante e ascender.

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