Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Crítica Textual’

por Hector Avalos

Crítica Textual

A Crítica Textual é a disciplina acadêmica que busca reconstruir com a máxima verossimilhança possível a versão original de qualquer obra escrita específica.[28] Tal disciplina, portanto, não se restringe à Bíblia. A maioria das obras famosas da Antiguidade não foi preservada intacta. Ao contrário da maioria das obras da Antiguidade, contudo, a crítica textual da Bíblia acarreta consequências teológicas e morais cruciais para os que acreditam que devem possuir um registro acurado da palavra de Deus para guiar e conduzir suas vidas.[29]

No entanto, nas décadas recentes houve alguns destacados críticos textuais preocupados com a sobrevivência deste campo. Em 1977, Eldon J. Epp, um eminente crítico textual do Novo Testamento e o ocupante do cargo de presidente da Society of Biblical Literature em 2003, escreveu:

As razões para esta recente e acelerada erosão do campo da crítica textual [do Novo Testamento] são obscuras. O fenômeno tornou-se nítido em pouco mais de uma década. Se o desaparecimento de oportunidades para estudos universitários na área são uma causa ou um sintoma de tal erosão não é algo claro, embora não haja dúvidas de que sem estas oportunidades o futuro desta discplina nos EUA não pareça brilhante e haja pouca esperança de sobrevivência.[30]

Os resultados do trabalho dos críticos textuais destroem qualquer alegação de que a Bíblia tenha sido transmitida fielmente a partir de qualquer texto original.[31] Computadores poderosos tem facilitado muito a tarefa de organizar as variações, embora ainda existam grandes problemas com a determinação até mesmo de quantas leituras variantes existem. No entanto, são justamente estes progressos e as novas descobertas que tornam o objetivo geral da crítica textual – se por isto entendemos encontrar o texto original ou fornecer aos fiéis  algum registro intacto da palavra de Deus – completamente obsoleto. A crítica textual, na verdade, ajudou a destruir qualquer noção de que alguma vez existiu uma entidade estável chamada “a Bíblia”.

O fato mais importante a se considerar na tentativa de reconstruir um “original” é que não possuímos o autógrafo de qualquer um dos livros que compõem a Bíblia [isto é, o primeiro manuscrito saído das mãos do próprio autor(a)], e este fato decisivo é reconhecido mesmo pelos mais intransigentes apologistas religiosos. Isto significa que tudo o que temos são cópias dos originais, de modo que geralmente não podemos reconstruir um autógrafo antigo que não mais está disponível – tampouco reconheceríamos o autógrafo mesmo se o encontrássemos. O “texto original” não passa de uma miragem a menos que tenhamos acesso ao processo de transmissão completo, desde a primeira edição até a versão corrente. Tal acesso é algo que não temos, e provavelmente jamais teremos no caso da Bíblia.

Podemos ilustrar o problema de forma bem simples. Imagine que dispomos de seis manuscritos sobreviventes chamados de A, B, C, D, E e F, os quais são relacionados a um original hipotético X. X poderia ser o autógrafo, o texto original saído das mãos do próprio autor, e do qual todas as cópias subsequentes derivam. Talvez possamos concluir plausivelmente que A, B e C derivam da mesma fonte porque seu vocabulário é bastante similar. Por exemplo, apenas esses três compartilham a mesma expressão hipotética (“selo de Deus”), ao contrário de D, E e F, nos quais a expressão “cordeiro de Deus” ocorre nos trechos correspondentes do texto. Assim, podemos concluir razoavelmente que, A, B e C devem ter um antígrafo (isto é, a fonte escrita presumida por trás de qualquer cópia) com as palavras “selo de Deus”. Igualmente, podemos plausivelmente concluir que as cópias D, E e F devem remeter a um antígrafo diferente que possui a expressão “cordeiro de Deus”.

Entretanto, como ambos os antígrafos diferem em pelo menos uma leitura (“cordeiro de Deus” versus “selo de Deus”), seria difícil decidir qual deles seria “o original”. Na verdade, suas variantes nos dizem que eles devem ter sido copiados de um antígrafo ainda mais antigo a partir do qual as cópias subsequentes divergiram. Mesmo se alguém reconstruísse X como a fonte por trás de ambos os presumidos antígrafos, isso não mostra que o manuscrito X é o autógrafo. Por quê? Porque o próprio X poderia ser uma cópia de outro antígrafo que não deriva diretamente do “original”. Como poderíamos saber?

A crítica textual fez contribuições importantes para nossa compreensão da Bíblia. Entretanto, essas contribuições proclamaram o fim da crítica textual. Historicamente, o objetivo principal da crítica textual da Bíblia era reconstruir o texto original. A crítica textual mostrou que isto é impossível. Portanto, neste sentido, a crítica textual chegou ao fim. A crítica textual da Bíblia tornou-se mais do que nunca um passatempo elitista cujos praticantes terão dificuldades em convencer os contribuintes e os dizimistas a continuarem custeando um empreendimento cujos resultados trazem tanta satisfação quanto a resolução de sudokus, mas que em contrapartida beneficiam muito pouco qualquer outra pessoa (além do próprio crítico textual).

Arqueologia Bíblica

A arqueologia bíblica jaz em ruínas, seja literalmente, socialmente ou metaforicamente[32]. A arqueologia bíblica já foi uma área capital e até mesmo glamorosa dentro dos Estudos Bíblicos; no entanto, atualmente até mesmo alguns de seus mais destacados expoentes estão proclamando sua morte. Em 1995, William G. Dever, um decano da arqueologia do antigo Israel, declarou que “a arqueologia bíblica e a sírio-palestina são disciplinas moribundas; e arqueólogos como eu que dedicaram toda uma carreira a esta profissão sentem-se como os últimos exemplares de uma espécie em extinção.[33] Em 2006, Ronald Hendel, um professor de Bíblia Hebraica da University of California em Berkeley, observou que “a Arqueologia Bíblica não mais existe atualmente com o mesmo vigor outrora ostentado.[34]

Para ser justo, Dever e Hendel estão falando da arqueologia “bíblica” no sentido de uma arqueologia orientada para a corroboração da historicidade da Bíblia. O próprio Dever já defendeu a expressão mais abrangente “arqueologia sírio-palestina”, embora atualmente sua terminologia seja mais diversificada. De qualquer maneira, parte do problema reside no fato de que o próprio estudo da história bíblica, que tem estado estreitamente vinculado à arqueologia bíblica, tem estado cada vez mais sob fogo cerrado. Nas palavras de Dever, “se a história real do mundo bíblico deixa de ter importância, então sua arqueologia é claramente irrelevante.[35]

Provavelmente existiu uma entidade chamada “Israel” pelos egípcios na época de Merneptah (cerca de 1210 AEC), mas não é claro se já nesta época “Israel” era uma autodesignação. Localizar geograficamente este grupo ou território nas estepes da Transjordânia é tão plausível quanto situa-lo nas montanhas a oeste do rio Jordão. Se “Israel” via-se como parte de Canaã ou como parte de algum grupo canaanita mais amplo não está claro a essa altura. “Israelita” é uma designação tão apropriada para o povo que habitou o país montanhoso durante a assim chamada Idade do Ferro I quanto “cananita” ou a designação de qualquer outro povo que segundo os textos bíblicos viveu naquelas terras altas.

Também não há provas independentes da existência de reino governado por Salomão, de modo que é assim que temos que deixar essa alegação – inconclusiva. Os portões em Gezer, Hazor e Megido não mencionam nenhum Salomão. Em termos da luz jogada sobre a religião dos “israelitas”, Dever expressou-se corretamente quando escreveu em 1983 que a “a contribuição da arqueologia tanto de apelo ‘bíblico’ como ‘secular’ foi, sob qualquer aspecto básico, escassa e precária para nossa compreensão do verdadeiro culto do antigo Israel.[36]

Dentro da História Deuteronômica, é razoável, baseando-se na corroboração independente fornecida por documentos assírios e babilônicos, acreditar na existência dos seguintes reis:[37]

Reino do Norte (Israel)                                               Reino do Sul (Judá)

Omri (ca. 885–874 BCE)                                                 Hezekiah (725–696 BCE)

Ahab (ca. 874–853 BCE)                                                Manasseh (696–642 BCE)

Jehu (ca. 841–790 BCE)                                                 Jehoiachin (605–562 BCE)

Joash (ca. 805–790 BCE)

Menahem (ca. 740 BCE)

Pekah (ca. 735 BCE)

Hoshea (ca. 730–722 BCE)

Em geral, esta é um resultado pífio para qualquer espécie de “história bíblica” quando comparada à de vários de seus vizinhos no Oriente Próximo.

A arqueologia bíblica ajudou a enterrar a Bíblia, e os arqueólogos sabem disso. Ronald Hendel estava perfeitamente correto quando disse que “a pesquisa arqueológica – contrariando as intenções de muitos de seus profissionais – assegurou a não-historicidade de muito da Bíblia anterior à Era dos Reis.[38] Podemos agora expandir a observação de Hendel e afirmar que não também há muita história para ser encontrada na Era dos Reis.

Assim, a arqueologia bíblica ainda tem alguma importância? Como a arqueologia fracassou em revelar a relevância histórica da Bíblia, a arqueologia bíblica não somente deixou de ser relevante, como na verdade deixou de existir como a conhecíamos. Em vez de revelar a história bíblica, a arqueologia forneceu um argumento fundamental para ir além da própria Bíblia. Se a arqueologia bíblica tem que subordinar-se à teologia para voltar a ser relevante (Nota do Tradutor: como propõe Alvin Plantinga), seus dias como uma área acadêmica secular estão contados. De qualquer maneira, a arqueologia bíblica terminou em ruínas – literalmente, socialmente e metaforicamente.

Notas.

28. Também há outras definições. Emanuel Tov (em Textual Criticism of the Hebrew Bible, 2nd ed. [Minneapolis: Fortress; Assen: Royal Van Gorcum, 2001], 1) diz: “A crítica textual lida com a origem e a natureza de todas as formas de um texto, em nosso caso o texto bíblico.

29. Para os objetivos e agendas da crítica textual de obras da Antiguidade não-bíblicas, veja James E. G. Zetzel, Latin Textual Criticism in Antiquity (New York: Arno Press, 1981); Rudolf Pfeiffer, History of Classical Scholarship from the Beginnings to the End of the Hellenistic Age (1968), e L. D. Reynolds e N. G. Wilson, Scribes&Scholars: A Guide to the Transmission of Greek&Latin Literature, 3ª ed. (1991). Sobre os objetivos e métodos da crítica textual contemporânea: Paul Maas, Textual Criticism (Oxford: Clarendon, 1958).

30. Eldon J. Epp, “New Testament Textual Criticism in America: Requiem for a Discipline,” Journal of Biblical Literature 98 (1979): 97. Este ensaio é uma versão impressa da uma palestra proferida em 1977 no Encontro Anual da Society of Biblical Literature.

31. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 65–108.

32. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 109–84.

33. William G. Dever, “Death of a Discipline,” Biblical Archaeology Review 21, no. 5 (September/October 1995): 50–55, 70; a citação encontra-se na pág. 51. Para um tratamento mais abrangente do término da arqueologia bíblica, veja Thomas W. Davis, Shifting Sands: The Rise and Fall of Biblical Archaeology (New York: Oxford University Press, 2004).

34. Ronald S. Hendel, “Is There a Biblical Archaeology?” Biblical Archaeology Review 32, no. 4 (July/August 2006): 20.

35. Dever, “Death of a Discipline,” 53. Os itálicos são de Dever. Para uma visão mais otimista da arqueologia em áreas não vinculadas à Bíblia ou ao Antigo Israel, veja Brian Fagan, “The Next Fifty Years: Will It Be the Golden Age of Archaeology?” Archaeology 59, no. 5 (Setembro/Outubro 2006): 18–23. Tenha ou não agido intencionalmente, Fagan alude apenas marginalmente à territórios remotamente relacionados à Bíblia (por exemplo, Egito e Mesopotâmia), e não diz nenhuma palavra especificamente sobre a arqueologia bíblica.

36. William G. Dever, “Material Remains and the Cult in Ancient Israel: An Essay in Archaeological Systematics,” in The Word of the Lord Shall Go Forth: Essays in Honor of David Noel Freedman in Celebration of His Sixtieth Birthday, ed. Carol L. Meyers and M. O. Connor (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1983), 571.

37. A lista e as datas aproximadas foram adaptada a partir de Halpern, “Erasing History,” Bible Review 11, no. 6 (1995): 30.

38. Hendel, “Is There a Biblical Archaeology?” 20.

Read Full Post »

Autor: Hector Avalos, PhD [1]

Fonte: The End Of Christianity, págs. 107-129 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2011)

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Sumário:

1. Introdução

2. Traduções

3. Crítica Textual

4. Arqueologia Bíblica

5. O Jesus Não-Histórico

6. Crítica Literária

7. Teologia Bíblica

8. Conclusão

_________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________

endcover

1. Introdução

A única missão dos estudos bíblicos deveria ser colocar um ponto final nos estudos bíblicos como os conhecemos. Esta série explicará porque eu cheguei a tal conclusão. Para nossos propósitos, podemos sumarizar nossa defesa do fim dos estudos bíblicos como os conhecemos com duas premissas principais:

  1. O corpo de conhecimentos relativos à Bíblia acumulados até hoje demonstra que a Bíblia é o produto de culturas cujos valores e crenças sobre a origem, a natureza e o próposito de nosso mundo não mais são considerados relevantes, mesmo pela maioria dos cristãos e judeus.
  2. Paradoxalmente, apesar do reconhecimento de tal irrelevância, a profissão de especialista em estudos bíblicos ainda é centrada em manter, por meio de uma série de disciplinas eruditas cujos métodos e conclusões são muitas vezes filosoficamente inválidas (por exemplo, tradução, crítica textual, arqueologia, história e teologia bíblica), a ilusão de que tais crenças e valores ainda são relevantes.

A primeira premissa reconhece que de fato descobrimos muitas informações novas sobre a Bíblia. Os Manuscritos Do Mar Morto e a vasta quantidade de tesouros arqueológicos do Oriente Próximo antigo encontrados nos últimos 150 anos assentaram a Bíblia firmemente em seu contexto cultural original. Entretanto, são essas mesmas descobertas que mostram que a Bíblia é irrelevante na medida em que é parte de um mundo radicalmente diferente do nosso em sua concepção dos cosmos, do sobrenatural e do senso de moralidade humano.

“Irrelevante”, aqui, refere-se a um conceito ou prática bíblica que não mais é visto como dotado de valor, aplicável e/ou ético. Portanto, ao passo que a maioria dos americanos hoje considera o genocídio condenável, tal não era o caso em vários textos bíblicos. Na verdade, Michael Coogan, um respeitado estudioso da Bíblia, admite que algumas práticas bíblicas são tão objetáveis hoje que as igrejas tentam ocultar partes da Bíblia de seus membros. Nas palavras de Coogan:

Conspicuamente ausentes dos lecionários estão a maior parte ou mesmo a totalidade de livros como Josué, com seu relato do violento extermínio dos habitantes da terra de Canaã por ordem divina, ou Juízes, com suas horripilantes narrativas envolvendo patriarcalismo e agressões sexuais nos capítulos 11 e 19 – para não mencionar o Cântico de Salomão, com seu carregado erotismo, ou o livro de Jó, com seu desafio radical à visão bíblica dominante de um Deus justo e zeloso.[2]

De maneira similar, nossas instituições médicas contemporâneas eliminaram as explicações sobrenaturais para as doenças encontradas na Bíblia, tornando irrelevantes tais explicações. Eis mais alguns exemplos de “descobertas” científicas e eruditas que oferecem evidências adicionais da irrelevância da Bíblia:

  • Embora a ciência contemporânea tenha demonstrado o contrário, alguns autores bíblicos mantinham que o universo foi criado em apenas seis dias[3];
  • Apesar da importância atribuída pelos teólogos às palavras e feitos dos grandes personagens da Bíblia (Abraão, Moisés e Davi), as pesquisas sugerem que estas figuras não são tão “históricas” como se pensava.[4]
  • Não existem evidências independentes da vida ou dos ensinamentos de Jesus no primeiro século EC, o que significa que a maioria dos cristãos contemporâneos nem mesmo estão seguindo os ensinamentos de Jesus.[5]
  • Os autores bíblicos em geral acreditaram que as mulheres eram subordinadas aos homens.[6]

Mesmo quando várias pessoas no mundo atual ainda adotam ideias bíblicas (por exemplo, o criacionismo), isto ocorre em parte porque os estudiosos da Bíblia não são suficientemente eloquentes ao criticar crenças bíblicas obsoletas. Em vez disso, tais especialistas concentram-se na manutenção do valor do texto bíblico na sociedade atual.

Um caso em questão é o artigo de Daniel J. Estes publicado no Bibliotheca Sacra, um conceituado periódico cristão evangélico.[7] Estes também está preocupado com a questão da irrelevância; ele até mesmo desenvolveu uma “escala” para medir a relevância dos ensinamentos bíblicos. Algo próximo à extremidade zero seria considerado obsoleto, ao passo que algo próximo a dez seria considerado uma diretiva que os cristãos ainda devem seguir.

Ele então oferece o exemplo da lei das primícias em Deuteronômio 26:1-11, que ordena aos israelitas irem até um local escolhido por Javé para entregarem ao sacerdote os primeiros frutos de sua estação de colheitas. Estes coloca esta lei próxima do zero na escala (preceitos obsoletos) porque, entre outras coisas, em sua maioria os cristãos de hoje não são agricultores, tampouco reconhecem um lugar central escolhido por Javé.

Estes reconhece que “nenhum destes ítems específicos possui um correspondente exato na identidade e na experiência dos fiéis cristãos hoje… Várias das prescrições legais do Antigo Testamento pertencem a esta categoria, incluindo, por exemplo, a regulamentações dietéticas[8] Quando pressionado a encontrar exemplos de “total continuidade” entre o público bíblico original e o público cristão atual, Estes admite que “exemplos indiscutíveis de continuidade total entre os dois públicos são relativamente raros[9]

John Bright, considerado um dos mais destacados acadêmicos americanos do último século no campo dos estudos bíblicos, refletiu um sentimento parecido em relação aos anos sabáticos e do jubileu em Levítico 25, quando observou que “as regulamentações lá descritas são obviamente de tão pouca aplicação no contexto atual que um pastor pode ser perdoado se disser a si próprio que a passagem não contém absolutamente nenhuma mensagem relevante para seu rebanho.[10] Na verdade, se fôssemos percorrer versículo por versículo, suspeito que ninguém sentiria falta de 99 porcento da Bíblia, na medida em que ela reflete várias práticas, injunções e ideias não mais aplicáveis do que as contidas em Levítico 25.

Nossa segunda premissa principal é que, apesar de reconhecerem esta irrelevância, os acadêmicos especialistas em estudos bíblicos, de maneira paradoxal e corporativista, promovem a ilusão de que a Bíblia é relevante. Almeja-se, com a manutenção desta ilusão, fazer os fiéis pensarem que possuem “A Bíblia” quando tudo o que eles realmente tem é um livro construído por uma elite de estudiosos contemporâneos. De modo que mesmo se 99.9 porcento dos cristãos modernos disserem que a Bíblia é relevante para eles, tal relevância é baseada em sua hipótese ilusória de que as versões contemporâneas de fato refletem a “Bíblia” original em alguma medida.[11] Promover a ilusão da relevância serve para justificar a própria existência da profissão de especialista em estudos bíblicos, e pouco mais do que isso.

Nosso argumento é que não há realmente nada em todo o livro que os cristãos chamam de “Bíblia” que seja minimamente mais relevante do que qualquer outra coisa escrita no mundo antigo. A minha visão dos estudos bíblicos é explicitamente humanista secular. Os estudos bíblicos como os conhecemos deveriam terminar. Deveríamos agora tratar a Bíblia como o documento bárbaro que é, não mais importante do que outras obras literárias que ignoramos diariamente. Os estudos bíblicos deveriam ser utilizados para ajudar a humanidade a romper seu vínculo com a Bíblia e solapar completamente sua autoridade no mundo contemporâneo. Então, a atenção poderia ser dirigido aos milhares de outros textos antigos ainda não traduzidos e não lidos. Um dia, a Bíblia pode até mesmo ser vista como uma das curiosidades de uma trágica era bibliólatra, quando a dependência em relação a um texto acarretou misérias inauditas e representou um obstáculo ao progresso humano. Podemos então estudar a Bíblia como uma lição sobre porque os seres humanos não deveriam jamais privilegiar qualquer livro nesta extensão.

Eu sustento que as principais subdisciplinas dos estudos bíblicos tiveram êxito em demonstrar que a Bíblia é o produto de culturas cujos valores e crenças sobre a origem, a natureza e o propósito de nosso mundo não mais são consideradas relevantes, mesmo pela maioria dos cristãos e judeus. Estas subdisciplinas incluem a tradução, a crítica textual, a história e a arqueologia bíblicas, a crítica literária e a teologia bíblica.

Notas.

1. Esta série foi extraída pelo editor (John W. Loftus) do livro de Hector Avalos The End of Biblical Studies (Amherst, NY: Prometheus Books, 2007), com pequenas edições e o acréscimo de algumas notas de rodapé. Usado com permissão do autor.

2. Michael Coogan, “The Great Gulf between Scholars and the Pew,” in Biblical Studies Alternatively: An Introductory Reader, ed. Susanne Scholz (Upper Saddle River, NJ: Prentice Hall, 2003), 7. Vinte e quatro passagens bíblicas demonstrando este ponto podem ser conferidas em http://sites.google.com/site/thechristiandelusion/Home/the-will-of-god.

3. E que a Terra é plana e o céu é sólido e sustentado por pilares: veja Ed Babinski, “The Cosmology of the Bible,” em The Christian Delusion, ed. John Loftus (Amherst, NY: Prometheus Books, 2010): 109–47.

4. Veja por exemplo: Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts (New York: Basic, 2001); Thomas Thompson, The Historicity of the Patriarchal Narratives: The Quest for the Historical Abraham (Harrisburg, PA: Trinity Press International, 2002); e sumários e fonts em Paul Tobin, “The Bible and Modern Scholarship,” em Loftus, The Christian Delusion, 148–80.

5. Veja por exemplo: Bart Ehrman, Jesus Interrupted: Revealing the Hidden Contradictions in the Bible (and Why We Don’t Know about Them) (New York: HarperOne, 2009); Gerd Ludemann, Jesus After 2000 Years (Amherst, NY: Prometheus Books, 2001); Gerd Theissen e Annette Merz, The Historical Jesus: A Comprehensive Guide (Minneapolis: Fortress, 1996); Robert Funk and Roy Hoover, The Five Gospels: The Search for the Authentic Words of Jesus (New York: Maxwell Macmillan, 1993).

6. Por exemplo: Genesis 3:16; 1 Coríntios 14:33–35; 1 Timóteo 2:8–15.

7. Daniel J. Estes, “Audience Analysis and Validity in Application,” Bibliotheca Sacra 150 (April-June 1993): 219–29.

8. Ibid., 224.

9. Ibid.

10. John Bright, The Authority of the Old Testament (Nashville: Abingdon, 1967), 152. Para uma tentativa desesperada e completamente insatisfatória de defender que as leis do Antigo Testamento ainda são relevantes, veja Joe M. Sprinkle, Biblical Law and Its Relevance: A Christian Understanding and Ethical Application for Today of the Mosaic Regulations (Lanham, MD: University Press of America, 2006).

11. Abstemo-nos de dizer “100 porcento” porque há uma minoria de acadêmicos cristãos cientes de que as Bíblias contemporâneas são construções que guardam pouca semelhança com “o original”.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: