Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Debates’

Os teístas repetidamente atribuem aos ateus pouca ou nenhuma consideração pela verdade. Mas o vídeo Atacando William Lane Craig, do qual tomei conhecimento nos comentários ao texto que vocês-sabem-quem escreveu em resposta ao artigo “O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto” constitui uma amostra inestimável do que os teístas entendem por compromisso ético com a verdade; veremos como apologistas evangélicos profissionais como o Dr. Craig utilizam destruição da imagem alheia sem a mínima consideração pela honestidade ou pela mais elementar confirmação dos fatos. A seguir, algumas das mais graves acusações contidas no vídeo são desmentidas. As informações abaixo foram em sua maior parte obtidas aqui e aqui.

1. Título do vídeo: “Atacando William Lane Craig”: este título por si já vale um estudo da trapaça. Na verdade, a maior parte do vídeo consiste de ataques contra o Dr. Avalos. Com efeito, não se ouve uma única citação do Dr. Avalos em que este faz qualquer comentário sobre o Dr. Craig, sendo difícil entender como este vídeo pode ser sobre ataques contra William L. Craig. O título do vídeo deveria ser “Atacando Hector Avalos”.

Os únicos alegados ataques contra o Dr. Craig vem de um assim chamado pentelho que estava na platéia do debate ocorrido em 2004 entre o Dr. Craig e o Dr. Avalos na Iowa State University. Mas o assim chamado pentelho de um modo geral estava certo em suas críticas das táticas de debate de Craig. Ele não tanto “pentelhou” como na verdade listou falácias específicas da parte de Bill Craig. Dr. Craig afirmou não se importar em repreender o Dr. Avalos por suas alegadas táticas condenáveis; assim, por que ele não se referiu à sua própria atitude como “pentelhar”?

2. William Lane Craig afirmou que o Dr. Avalos era chefe do Departamento de Estudos Religiosos da Iowa State University: isto é patentemente falso. Dr. Avalos não é nem nunca foi chefe do Departamento de Estudos Religiosos nem da Iowa State University nem de nenhuma outra instituição. Isso poderia ter sido um equívoco insignificante, mas Craig tenta usar esta fictícia posição de liderança para insinuar que Hector Avalos exerce alguma influência perniciosa indevida sobre seus alunos. Vocês-sabem-quem repetiu esta mentira em seu blog. Além disso, mesmo sendo um errinho bobo, o que isto diz acerca do respeito que o Dr. Craig tem pela verificação elementar dos fatos? O currículo acadêmico do Dr. Avalos pode ser encontrado facilmente através do Google, mas Craig aparentemente nem essa preocupação teve. E só para constar, o nome formal do departamento ao qual o Dr. Avalos pertence é Departamento de Filosofia e Estudos Religiosos.

3. Craig afirmou: “Avalos se apresenta como um ex-evangélico e um ex-pastor. Isto é francamente um exagero quando se olha sua biografia pessoal. Mas é assim que ele gosta de se projetar.” Ou Avalos é um ex-evangélico ou não é. Ou ele é um ex-pastor ou não é. Como é que um fato desses pode ser exagerado? Dr. Craig não nos diz o que foi exagerado. E o que ele tem em mente quando fala em dar uma olhada na biografia pessoal do Dr. Avalos? Avalos não se lembra de ter tido contato com Craig em nenhum momento daquele período de sua vida. Ou seja, Craig mais uma vez lança esta acusação sem nenhum outro fato que a respalde.

4. Craig afirma que basicamente o objetivo do Dr. Avalos é destruir a fé ortodoxa de seus alunos cristãos através de críticas, intimidação e ridicularização (e vocês-sabem-quem repetiu esta acusação em seu blog).

Não foi oferecido a menor prova para esta acusação. Craig (e seu papagaio tupiniquim) nunca assistiram a uma aula do Dr. Avalos, e portanto não podem ter verificado isto por si próprios. Se estão se baseando em depoimentos de outras pessoas, isso não passa de “ouvir dizer”. (A ambos será concedido o benefício da dúvida e não será cogitada a hipótese de que tenham inventado essa história.) Como pode a utilização de boatos para levantar uma acusação tão grave ser uma conduta ética ou profissional?

A verdade é que o Dr. Avalos usa abordagens muito diferentes quando fala sobre estas questões dentro e fora da sala de aula. Com suas turmas, utiliza uma abordagem de várias perspectivas que tem sido muito eficaz. Fora da sala de aula, defende seus pontos de vista com a máxima contundência que seus direitos constitucionais lhe permitem. Eis mais alguns fatos:

A. Avalos recebeu o prêmio de Professor do Ano da Iowa State University em 1996, concorrendo com todos os outros professores da ISU. A premiação foi uma iniciativa de seus alunos cristãos.

B. Embora nenhum professor seja aprovado por 100% de seus alunos, e embora não se possa afirmar que todos se sintam da mesma forma, o Dr. Avalos geralmente é um dos professores mais bem avaliados de seu departamento. Em geral, entre 70 e 80 porcento de seus alunos conferem-lhe a nota máxima nos quesitos avaliados.

Em algumas ocasiões, 100% de seus estudantes deram-lhe a mais alta nota possível, o que seria impensável se Avalos agisse da forma como Craig descreve. E os que o descrevem como intimidador o fazem sobretudo pelo rigor com que Avalos os cobra academicamente, não por qualquer esforço de sua parte em destruir a fé de seus alunos.

Naturalmente, Craig nunca viu estas avaliações feitas pelos estudantes, e portanto é difícil compreender como ele pode ter tão pouca consideração pela mais elementar honestidade antes de fazer uma acusação dessas.

C. Mesmo que o Dr. Avalos não recomende  olhar o Rate My Professor por ser uma amostra pouco representativa e o status dos estudantes ser de difícil de verificação, as avaliações e os comentários lá presentes em geral refletem as pontuações que recebe oficialmente.

D. Avalos jamais recebeu uma queixa formal contra sua docência em seus 19 anos na ISU. Mais de 2000 alunos já passaram por suas disciplinas, a maioria deles cristãos. Portanto, como uma trajetória profissional de 19 anos sem uma única queixa sequer ajuda Craig a montar seu caso? E mesmo se ele encontrasse tais estudantes, suas reclamações teriam que ser investigadas mais acuradamente antes de serem consideradas “fatos”.

5. Craig disse: “Avalos também se comporta de maneira pouco profissional nestes debates, recorrendo a ataques ad hominem… Isto parece diferir de seus comentários após o debate citados na edição de 6 de Fevereiro de 2004 do Jornal da ISU: “Craig disse que apreciou muitíssimo o diálogo com Avalos e não considerou haver qualquer desavença entre eles. ‘Tanto Avalos como eu conduzimo-nos com o tom e o comportamento adequados’, Craig disse.

Portanto, teria Craig dito a verdade, ou ele foi citado erroneamente?

6. Craig disse: “Eu me senti muito desconfortável ao fazer isso porque de certa forma eu o estava atacando por seus métodos, por seu modus operandi, mas julguei que devia faze-lo já que eu era o primeiro a falar e não queria ser vítima de um de seus truques… como o que eu o vi executar contra o professor Shelly num debate anterior…”

Craig está se referindo a um debate a um debate entre Avalos e o Dr. Rubel Shelly ocorrido em 1998. Neste debate, Avalos projetou fotos de alguns manuscritos do Novo Testamento e pediu que seu oponente os identificasse. A razão pela qual Avalos o fez foi que Shelly os havia utilizado como parte das evidências para a confiabilidade do texto do Novo Testamento; mais especificamente, Shelly afirmou que atualmente dispomos de manuscritos “completos” do NT, e citou os manuscritos P66 e P75 como exemplos:

Nos últimos anos, a Bodmer Library of Geneva publicou uma edição completa do Evangelho de João (p66) datada de cerca de 200 d.C. … O texto completo dos evangelhos de Lucas e João, datados entre 175 d.C. e 225 d.C, foram publicado pela Bodmer Library (p75). (Rubel Shelly, Prepare To Answer, 1990, p. 139)

O esperado era que Shelly, como todo bom acadêmico é obrigado a fazer, tivesse no mínimo verificado as fontes originais para confirmar a acurácia desta afirmação. Então Avalos expôs a imagem dos manuscritos na tela diante da platéia e perguntou-lhe se sabia do que se tratava. Ele não sabia. Avalos então perguntou-lhe se eles pareciam completos, mesmo não sabendo do que se tratava. Shelly então disse que eles não pareciam completos. De fato, P75 não está completo, e em alguns pontos encontra-se bastante fragmentário.

Ou seja, o que Avalos fez foi refutar efetivamente a afirmação de Shelly diante da platéia. Agora, alguém pode explicar por que isto se configura como uma “conduta reprovável” em vez da boa e velha expertise em debates?

Na verdade, Shelly se saiu tão mal naquele debate e suas credenciais como estudioso da Bíblia foram tão irrecuperavelmente arruinadas que Craig foi até a Iowa State University em 2004 para “nocautear” Avalos, nas palavras de sua fanbase. Entretanto, como todos podem ver, Avalos ainda está na ativa, a todo vapor.

Além disso, Craig distorceu completamente a questão da disponibilidade dos manuscritos. Fotos e cópias destes manuscritos fazem parte de quase todos os bons livros didáticos sobre crítica textual do NT e também de algumas enciclopédias bíblicas. Isso também significa que você é sem sombra de dúvidas um amador terrivelmente incompetente e mal informado se não sabe nem isso.

Algumas das cópias exibidas por Avalos foram retiradas do livro de Jack Finegan Encountering New Testament Manuscripts: A Working Introduction to Textual Criticism (Grand Rapids, MI: W. B. Eerdmans, 1974). Portanto, não é verdade que você precisa ir a uma câmara climatizada de segurança máxima num museu da Europa ou do Oriente Médio se quiser examinar os manuscritos. As fotos são boas o suficiente para ver se os manuscritos estão ou não completos.

Especificamente sobre este debate entre Avalos e Craig, este último começou muitíssimo bem, mas terminou bastante debilitado. Seu discurso de encerramento foi utilizado para conceder no mínimo duas vezes que ele havia cometido erros em virtude de seus conhecimentos insuficientes do aramaico ao argumentar a favor da ressurreição em seu livro Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus…).

Dr. Craig tentou minimiza-los como “bagatelas”, mas essa minimização é inútil para os que o leram e sabem como pelo menos um de seus argumentos assenta-se sobre o aramaico. Quem ler seu Reasonable Faith (p. 275) verá que ele tenta datar o Evangelho de Marcos por volta da época dos discípulos utilizando a suposta expressão em aramaico da Galiléia em Marcos 16:2 (“no primeiro dia da semana”). Ele então usa a suposta ligação direta com a época dos discípulos para respaldar seu FATO 1 (Jesus foi enterrado e seu FATO 2 (a tumba vazia). O que ele não diz a seus leitores, e do que ele tentou se esquivar no debate, é que ele estava lhes vendendo textos em aramaico não-galileanos de uma época posterior, talvez até mesmo medievais, como textos do aramaico da Galiléia do primeiro século. Obviamente, isso não é nem intelectualmente respeitável nem intelectualmente honesto – para não mencionar o fato de que isso torna uma das evidências que suportam seus FATOS 1 e 2 completamente fraudulenta.

Há outro caso em que Craig distorce uma citação, dessa vez do historiador judeu Flávio Josefo. Vejam a citação que ele ofereceu no debate:

Aprendemos de Josefo que Tiago foi finalmente martirizado por sua fé em Jesus Cristo durante um hiato no governo civil na metade dos anos 60. Fonte: Paul Copan and Ronald K. Tacelli, eds. Jesus’ Resurrection: Fact or Figment? (Downer’s Grove, Illinois: InterVarsity Press 2000) p. 190.

Comparem com o que Josefo realmente escreveu, de acordo com as melhores edições de sua obra:

Ananias pensou que tinha uma oportunidade favorável… e assim convocou os juízes do Sinédrio e trouxe diante deles um home chamado Tiago, o irmão de Jesus que foi chamado o Cristo, e outros. Ele os acusou de ter violado a lei e os entregou para serem apedrejados. Fonte: Josephus, Jewish Antiquities XX.200-201. Edition and Translation of L. H. Feldman (Loeb Classical Library: Cambridge: Harvard University Press, 1965), pp. 106-109.

Craig acrescentou sua própria idéia do que Josefo teria dito. E então usa esta tradição inventada para apoiar seu FATO 4 (a origem da crença dos discípulos). Distorções e deturpações semelhantes permeiam as evidências que respaldam cada um de seus 4 FATOS.

Na verdade, este tipo de falsa erudição é uma das razões pelas quais Dr. Craig não possui uma boa reputação como acadêmico fora de seu estreito círculo de apologistas. Sua função é mais a de confortar os fiéis, mostrar-lhes que é possível acreditar em superstições de pescadores ignorantes que viveram há dois mil anos atrás e ainda assim conseguir dois doutorados, do que converter os infiéis que realmente conhecem bem as fontes primárias.

Também não parece que neste debate Craig se beneficiou de sua alegada especialização em filosofia. Sua suposta refutação do “naturalismo” pareceu bastante inconsistente quando Avalos assinalou que ele age como um perfeito naturalista quando se trata de outras religiões, ou mesmo em relação aos milagres relatados em Mateus 27:52-53. Talvez algum de seus admiradores seja capaz de explicar porque ele não chama as ressurreições em Mateus 27:52-53 de “fatos”, mas chama a ressurreição em Marcos 16:6 de “fato”. Porque o próprio Craig certamente não explicou e nem pode explicar quais são as diferenças.

Se William Lane Craig é o melhor que a comunidade de apologistas cristãos tem a oferecer, este debate contra o Dr. Avalos foi um episódio triste para na  história da apologética. Ele mostrou não somente mais um apologista completamente ineficaz contra um estudioso da Bíblia ateu, como também um apologista praticamente admitindo que seus conhecimentos das fontes primárias e línguas antigas estão abaixo dos padrões mínimos.

_________________________________________________________________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________________________________________________________

A primeira vista pode parecer que estou apenas quebrando minha promessa de não mais citar nem responder aos ataques vindos de vocês-sabem-quem, e de certa forma realmente é o que estou fazendo. Entretanto, meus motivos para faze-lo vão muito além do mero gosto pela contenda (completamente estéril e contraprodutiva em se tratando de vocês-sabem-quem). Acontece que, como sabe a maior parte dos que estão agora lendo isso, em maio último traduzi e publiquei um capítulo do livro The Christian Delusion escrito pelo Dr. Avalos. Uma minoria, se tanto,  viu que o Dr. Avalos em pessoa deixou um comentário agradecendo a tradução, que pode ser visto aqui. Sei que se trata do autêntico Dr. Hector Avalos porque ele também deixou um agradecimento na página do blog no Facebook:

 Ele também compartilhou o link para a tradução no mural de seu perfil:

Agora vem a melhor parte da história. Quem leu o artigo sobre ateísmo e Holocausto se lembra de que os primeiros parágrafos mencionam um capítulo de outro livro do Avalos, Fighting Words, em que ele discute com mais profundidade a relação entre ateísmo e violência no regime stalinista. Pois bem, não sei quanto a vocês, mas eu fiquei muitíssimo interessado neste capítulo; como o Dr. Avalos não se conteve ao expressar sua gratidão pela minha tradução, imaginei que ele provavelmente gostaria de ter outra parcela de seu trabalho divulgada em língua portuguesa, e enviei-lhe um email me apresentando e explicando meus motivos para manter este blog e fazer estas traduções (em parte, o descaso do mercado editorial lusófono para com seu público de céticos, agnósticos e ateus), e perguntando se ele não poderia me enviar o texto do referido capítulo de Fighting Words. Isto foi um pouco constrangedor porque apesar de ler e traduzir razoavelmente bem, minha proficiência deixa muito a desejar na hora de ouvir, falar ou escrever; então antes de mais nada comecei pedindo desculpas por eventuais erros. Ele foi muito compreensivo, gentil e solícito, e sabem qual foi sua resposta a meu pedido? Em vez de me enviar somente o texto do capítulo solicitado ele me presentou com um exemplar inteiro do livro (com uma singela dedicatória na folha de rosto, claro _ For Gilmar, a new friend from Brazil. Dr. Hector Avalos, 14 July, 2012)! Acreditam nisso? Bom, se não acreditam o problema é de vocês; de qualquer maneira, nos próximos dias publicarei a tradução do capítulo sobre ateísmo e violência stalinista. E também, para evitar outras situações tão ou mais embaraçosas do que essa no futuro, começarei um curso de inglês. Não quero que me aconteça o mesmo que aconteceu com William Lane Craig, que foi refutado em público por não dominar a língua original dos textos com os quais trabalha.

Read Full Post »

———————————————————————————————————————————–

Para começar bem 2012, publico agora o primeiro post do Rebeldia Metafísica de minha autoria. Obviamente, peço aos leitores que perdoem o desleixo, a falta de rigor e a informalidade, e que não o julguem em comparação com as publicações anteriores. Peço também que deixem nos comentários suas impressões, sugestões e críticas, construtivas ou destrutivas, estas últimas desde que feitas com elegância e espirituosidade, claro.

E os tranquilizo desde já, comunicando que voltarei à programação normal até a próxima sexa-feira no máximo, com mais traduções de longos artigos escritos por especialistas.

—————————————————————————————————————————————–

O filósofo Ronald de Souza certa vez descreveu, de forma memorável, a teologia filosófica como “um jogo de tênis intelectual sem rede“, e me apronto a reconhecer que até agora tenho admitido sem comentários ou perguntas que a rede do pensamento racional estivesse erguida. Mas podemos abaixá-la, se isto é o que você realmente quer. O saque é seu. Mas seja lá como for o saque, suponha que eu o devolverei grosseiramente assim: “O que você diz significa que Deus é um sanduíche de presunto embrulhado em papel alumínio. Não é um Deus que valha a pena adorar!” Se então você rebater, exigindo uma justificativa lógica para a minha afirmativa de que seu saque tem uma implicação tão ridícula, direi: Ah, você quer a rede quando eu rebato, mas não quando você saca é? Ou a rede fica de pé, ou fica no chão. Se a rede ficar no chão, não há regras e ninguém pode dizer nada, um jogo em que ninguém nem perde, se é que algum dia existiu um jogo assim. Tenho lhe dado o benefício da hipótese de que você não estaria perdendo seu tempo ou o meu jogando com a rede abaixada.

Daniel Dennett, A Perigosa Idéia de Darwin, p. 160

Qualquer ateu, agnóstico ou mesmo um religioso mais liberal que já tenha discutido com religiosos menos esclarecidos sobre as razões para crer ou descrer _ e oportunidades não faltam, haja visto Testemunhas de Jeová nos interrompendo em nossos afazeres matinais, seguidores de Edir Macedo presenteando transeuntes distraídos  com exemplares da Folha Universal, kardecistas recolhendo doações para a campanha do quilo, ou mesmo algum amigo, vizinho ou colega de trabalho ansioso por compartilhar as benesses que sua fé lhe propicia _ sabe que geralmente chega um momento do diálogo em que o religioso meio que levanta a bandeira branca, reconhecendo a fragilidade e a insuficiência de seus argumentos, e retrocede para uma posição fidelista, admitindo que o verdadeiro catalisador de sua conversão foi algum tipo de experiência com forte carga emocional e de uma riqueza existencial transfiguradora.

A situação progride de maneira um pouco diferente quando o interlocutor dispõe de maiores recursos intelectuais. Além de geralmente resistirem por mais tempo ao fogo cruzado, quando por fim se veem acuados em um beco sem saída, os exemplares desta categoria sofisticada de religiosos, numa tentativa desesperada de evitar um completo massacre, acovardam-se sob o que eles acreditam ser um inexpugnável escudo de ceticismo. Deixem-me esclarecer.

Os indivíduos de que falo aqui mostram-se a princípio adeptos do que é conhecido como teologia natural ou racional, uma corrente dentro da teologia que afirma ser possível estabelecer a existência de Deus através da observação do mundo e do uso da razão. Respaldados por dados oriundos das mais diversas áreas do saber _ desde às abstratas e apriorísticas lógica e matemática, passando pelas extremamente bem-sucedidas ciências naturais até às menos incertas e controvertidas ciências humanas _ estes cruzados intelectuais encadeiam premissas em geral bastante questionáveis de forma a obter a conclusão de que existe um ser onipotente, onibenevolente e blá blá blá. Os que não acreditam na existência de tal ser são então desafiados a mostrar porque estes argumentos são falhos e, além disso e independentemente destas refutações, a apresentar argumentos demonstrando que tal ser não existe. É quase desnecessário dizer que ao se engajarem numa disputa deste tipo, ambos os contendores admitem tacitamente que tanto as evidências disponíveis como nossas capacidades cognitivas são suficientes para se alcançar alguma conclusão razoável sobre a questão.

Enquanto o debate se desenvolve favoravelmente para o lado teísta, eles ostentam confiantes e sorridentes as armas da razão carregadas com as evidências c0lhidas no mundo ao nosso redor.  Nenhuma ressalva é dirigida ao nosso horizonte cognitivo. Vejam, eles dizem, como as melhores teorias cosmológicas disponíveis apontam para uma origem ex nihilo do Universo. Observem a probabilidade vastamente evanescente de os valores das constantes das leis cosmológicas que permitem o surgimento de vida inteligente no universo resultarem do mero acaso. Com base nas evidências disponíveis, eles continuam, é seguro concluir que há um criador inteligente do Universo. Se alguém objeta que ainda há muitas incertezas e controvérsias para que se possa estabelecer uma conclusão desse tipo, que futuras investigações podem trazer à tona novas informações que dispensariam um apelo ao sobrenatural, e que é razoável, baseado no vasto histórico de sucesso da ciência, esperar que algo assim aconteça, o objetor com frequência é acusado ou de estar fazendo um apelo à ignorância ou de estar sendo cientificista.

Mas a atitude costuma ser outra quando é o lado ateísta a lançar mão de todas as evidências disponíveis para respaldar seus argumentos. Se dizemos que existe demasiado sofrimento em comparação com a quantidade de coisas boas no mundo, ou sofrimento gratuito, somos constantemente lembrados de que não estamos numa boa situação epistêmica para afirmar que realmente há mais coisas ruins do que coisas boas, ou que o sofrimento existente realmente é gratuito. Se afirmamos que a existência da descrença ou da pluralidade religiosa é incompatível com um Deus que deseja se relacionar pessoal e amorosamente com todos, respondem-nos que Deus pode possuir boas razões que não nos são acessíveis para permitir que uma parcela considerável da humanidade seja mantida na ignorância de sua existência, e que não estamos autorizados a concluir que esse Deus não existe até que demonstremos ser impossível a existência de tais razões. Se dizemos que tudo nos leva a crer que mentes não podem existir sem um suporte material, els nos dizem que é possível que uma mente imaterial exista _ nunca investigamos as esferas metafísicas para que possamos afirmar com segurança que tal coisa, uma mente independente de um corpo material, existe. Se dizemos que a idéia de Deus causar o Universo a partir do nada parece ininteligível e contraintuitiva, ouvimos, ou melhor, lemos, que a idéia não precisa ser inteligível, só precisa ser não-contraditória.

E aqui eu chego ao episódio que me motivou a escrever este texto. Um dos posts mais acessados e apreciados neste blog é o artigo de Quentin Smith Causação e a Impossibilidade Lógica de Uma Causa Divina, um artigo tão importante que recebi uma proposta para submeter sua tradução para publicação em periódicos brasileiros de filosofia. Quem já o leu sabe que ele contém uma refutação até hoje não respondida à menina dos olhos de William Lane Craig, o famigerado Argumento Cosmológico Kalam para a existência de Deus. Neste artigo, Quentin Smith empreendeu uma exaustiva investigação das definições existentes de causalidade, testou a hipótese divina em cada uma delas e demonstrou que a volição divina, o evento mental considerado a causa do princípio de existência do universo, não satisfaz nenhuma destas definições. Absurdos surgem todas as vezes em que se afirma que a vontade de Deus é a causa do princípio de existência do universo e se tenta analisar esta idéia à luz do que já se sabe acerca da causação a partir de outros exemplos incontroversos deste tipo de relação entre eventos. Vale notar que os teístas, provavelmente informados do risco de desmoronamento de seu argumento, geralmente empregam um esboço de definição de causa vago e impreciso, feito sob medida para maquiar a fragilidade deste componente, como pode ser visto aqui.

Além disso, Quentin Smith apresenta ainda uma condição lógica para que um evento seja considerado uma causa de outro que é violada pelas volições de Deus em decorrência de sua onipotência: uma causa não é uma condição logicamente suficiente de seu efeito. Existem várias definições e teorias sobre a causação, mas este é um ponto pacífico entre os proponentes das formulações concorrentes _ com exceção, obviamente, dos que são teístas e adeptos da teologia natural. Ciente desta fonte de divergência, Quentin Smith também discute e mostra porque cada uma das objeções à sua argumentação fracassa.

Ao final, o que Smith demonstra não é exatamente a falta de solidez do Kalam _ ele concede sem discutir as duas premissas e a conclusão de que o Universo tem uma causa _, mas sua inadequação como argumento para a existência de Deus, demonstrando que ele é na verdade um argumento para sua inexistência.

Pois bem, a esta altura o teísta já deveria se dar por vencido, não? Afinal, foi-lhe apresentado (mais) um argumento sólido para a inexistência de Deus. Bem, vejam com seus próprios olhos as reações dos admiradores de William Lane Craig em sua principal comunidade no Orkut (o fórum é fechado para não membros, mas ninguém está perdendo nada. Depois que o Rodrigo foi expulso de lá após um arranca-rabo com um defensor do design inteligente a comunidade praticamente morreu). Clique na imagem para ampliar.

Não vou nem mencionar outras respostas baseadas em compreensões errôneas ou leitura incompleta ou apressada do artigo. Para o ponto que quero discutir aqui só me interessam as que podem ser vistas acima e que se resumem ao seguinte:

O argumento não passa de um apelo à ignorância. O fato de não possuirmos uma definição de causalidade que contemple as esferas metafísicas não implica que tal definição não exista e esteja aguardando por ser descoberta e, portanto, que o estado mental de Deus ao desejar a ocorrência do Big Bang não seja a causa do Big Bang. Nossa situação epistêmica não nos permite concluir isso.

Acredito não estar apresentando nenhum espantalho da posição dos foristas e, se alguém discorda, favor se manifestar.

Colocando de lado o fato de o artigo responder uma objeção bastante similar a esta, vamos à atitude dos foristas revelada por estas respostas e que me tirou do sério. Falo, é claro, do duplo padrão que eles utilizam ao lidar com os argumentos pró-teísmo e pró-ateísmo. Ao construir seus argumentos, teístas usam e abusam de intuições universalmente compartilhadas, exemplos, analogias e generalizações abstraídas do mundo concreto, real e material. A primeira premissa do Kalam (“Tudo o que começa a existir tem uma causa”) é uma exemplo que vem bem a calhar. Entretanto, este mesmo recurso é barrado aos ateus pela imposição do véu de ceticismo acerca do metafísico: não somos capazes de conhecer a totalidade do que existe e portanto não estamos autorizados a extrapolar demasiadamente a partir das evidências materiais _  especialmente se a inexistência de Deus estiver à espreita na cadeia de raciocínios. Cômodo e conveniente, não?

Pode até parecer seguro e confortável refugiar-se atrás de um escudo de ceticismo quando a situação começa a ficar insustentável para o teísta, mas agindo assim ele não demonstra um mínimo de integridade, imparcialidade ou compromisso com a busca da verdade. Porque há de se convir que, se a amostra utilizada pelos ateus para construir sua visão de mundo não é representativa o bastante, na melhor das hipóteses o mesmo se pode dizer da amostra dos teístas _ na verdade esta última sim costuma ser de fato viciada dada a falta de precauções contra os vieses cognitivos operando em seus cérebros.

Uma evidência da existência destes vieses é sua a inocência quanto às consequências de abandonarem sua confiança inicial em nossa capacidade cognitiva e retrocederem à uma posição cética. Em sua urgência de salvaguardarem sua tão sofregamente acalentada visão de mundo, fonte de força e consolo em momentos difícieis, eles não se dão conta de que este ceticismo não fica confinado ao tópico específico em discussão, mas, na medida em que o tema, por se tratar de uma visão de mundo, apóia-se e relaciona-se com todas as subáreas da filosofia, termina por também contamina-las. Tomemos como exemplo a resposta cética ao problema do mal: não estamos em condições de saber se o sofrimento existente é realmente gratuito ou se existe para permitir um bem maior. Mas se esta ignorância nos impede de avaliar negativamente o caráter moral do Criador, também nos impede, por um lado, de avalia-lo positivamente _ o corpo de evidências que serve de base para o julgamento é o mesmo, lembrem-se _ e por outro, levanta dúvidas sobre o status moral de ações humanas indiscutivelmente erradas. Afinal, se as razões usualmente apresentadas para classifica-las como más não são boas o suficiente para Deus, por que o seriam para nós? E a conduta e o caráter moral de Deus não são os padrões contra os quais são medidos os humanos? (Eu tenho certeza que a esta altura algum adestrado está com os dedos coçando pra deixar um comentário gritando “Soberania! Soberania!” ou “A moralidade de Deus não é avaliada pelos padrões humanos“. )

Como se a consequência acima já não fosse ruim o bastante, suspeito que este ceticismo, que a príncipio se insinuou no campo teológico e em seguida atravessou as fronteiras da ética, também ameaça a epistemologia de senso comum, tão cara a nossos outrora intrépidos teólogos naturais, e que funciona como um pressuposto na elaboração de seus argumentos. Por epistemologia de senso comum eu me refiro, grosso modo, a postura que considera alguém justificado em manter crenças prima facie óbvias, a não ser que alguma razão esmagadora para questiona-las seja apresentada. Mais uma vez, a primeira premissa do Kalam é um exemplo deste tipo de crenças, a crença na realidade objetiva do mundo exterior e de outras mentes é outro exemplo, e as intuições de que nos valemos em nossos julgamentos morais é outro. Também se poderia citar aqui, por que não, a descrença prática na existência de algo na ausência de evidências de que este algo existe, como, por exemplo, razões suficientes para que Deus permita a descrença inocente ou a existência de tantos sofrimentos no mundo.

Como se vê, o custo de manter uma posição cética quando acuados por argumentos ateológicos pode ser precisamente a justificação da crença que ela tenta salvaguardar. O poder corrosivo do ceticismo, tal como o de um ácido potente num laboratório, requer cuidados e precauções excepcionais, sob pena de dissolver a própria base argumentativa que se tenta conservar.

Ao abaixar sorrateiramente a rede numa tentativa de facilitar a rebatida da bola sacada pelo ateu, eles terminam por deixar cair tanto a bola quanto a raquete e perder o ponto de vez. Mas não me parece que vocês entraram neste jogo para perder.

Bom, embora ainda faltem algumas considerações sobre o papel desempenhado pelo conceito de causação numa teoria do conhecimento decente, vou encerrar por aqui pois acho que, para um post de estréia e de Ano-Novo, já escrevi demais. Termino com mais uma citação de Dan Dennett:

Você está apreciando a paisagem junto com a pessoa amada em um país estranho, e alguém a mata brutalmente diante de seus olhos. No julgamento você fica sabendo que naquele país os amigos podem ser chamados para testemunhar em defesa do acusado, atestar a fé que tem na inocência dele. Assista ao desfile dos amigos do assassino, de olhos úmidos, obviamente sinceros, proclamando orgulhosos a fé imorredoura na inocência do homem que você viu cometer um ato terrível. O juiz ouve com respeito e atenção, claramente mais emocionado com esta efusão do que por todas as evidências apresentadas pela acusação. Não é um pesadelo? Você estaria disposto a viver em um país assim? Ou aceitaria ser operado por um cirurgião que lhe diz que sempre obedece quando uma vozinha interior o instrui a não respeitar a medicina? Sei que entre pessoas educadas não se contestam opiniões, e quase sempre coopero de forma sincera com este acordo salutar. Mas estamos seriamente tentando chegar a verdade aqui, e se você pensa que esse acordo sobre a fé, comum porém tácito, é algo mais além de uma confusão socialmente útil para evitar o constrangimento mútuo e a vergonha, você já examinou esta questão muito mais profundamente do que qualquer filósofo (pois nenhum deles jamais descobriu uma boa defesa para isso) ou, então, está se iludindo.

A bola agora está em seu campo.

Read Full Post »

Fonte: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/oct/20/richard-dawkins-william-lane-craig

________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Este ‘filósofo’ cristão é um defensor do genocídio. Eu prefiro deixar uma cadeira vazia do que dividir uma tribuna com ele.
________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Não se sinta envergonhado caso nunca tenha ouvido falar de William Lane Craig. Ele desfila por aí ostentando o título de filósofo, mas nenhum dos professores de filosofia que consultei jamais ouviu seu nome. Talvez ele seja um ‘teólogo’. Já há algum tempo Craig tem sido cada vez mais importuno em seus esforços para me persuadir, constranger ou difamar num debate contra ele. Tenho consistentemente recusado os convites, seguindo o espírito, se não a letra, de uma famosa réplica do então presidente da Royal Society: “Isto ficaria muito bem no seu currículo, mas não tão bem assim no meu”.
A última investida persecutória de Craig assumiu a forma de uma série de desafios cada vez mais intimidatórios para confronta-lo em Oxford neste mês de outubro. Mais uma vez tive o prazer de recusar, desencadeando nele e em seus acólitos um frenesi de acusações de covardia através de blogs, twitters, canais do Youtube e fóruns de discussão online. Tudo o que tenho a lhes dizer é que recuso centenas de convites mais respeitáveis todos os anos, e que já debati publicamente com um arcebispo de New York, dois arcebispos de Canterbury, vários bispos e o rabino-chefe, e estou esperando por meu iminente encontro com o atual arcebispo de Canterbury, que sem sombra de dúvidas será muito mais civilizado.
Numa síntese de sua arrogância intimidatória, Craig agora propõe colocar uma cadeira vazia numa tribuna em Oxford na próxima semana para simbolizar minha ausência. A ideia de capitalizar sobre a reputação alheia pela conivência em dividir com outro uma tribuna dificilmente é nova. Mas o que faremos desta tentativa de transformar minha ausência numa proeza da autopromoção? Pelo bem da transparência, eu assinalaria que não é somente Oxford que não irá me ver na noite em que Craig pretende debater comigo in absentia: você também pode me ver não aparecer em Cambridge, Liverpool, Birmingham, Manchester, Edinburgh, Glasgow e, se o tempo permitir, Bristol.
Mas Craig não é apenas uma figura cômica. Ele também possui um lado negro, para usar uma expressão amena. Vários clérigos contemporâneos sabiamente negam os horríveis genocídios ordenados por Deus no Antigo Testamento. Qualquer um que critique a sede de sangue divina é ruidosamente acusado de ignorar desonestamente o contexto histórico, e de fazer uma leitura ingênua e literal do que nunca passou de uma metáfora ou de um mito. Você procuraria bastante até encontrar um pregador moderno disposto a defender a ordem de Deus, em Deuteronômio 20: 13-15, para matar todos os homens de uma cidade conquistada e confiscar as mulheres, crianças e animais como espólio de guerra. E os versículos 16 e 17 são ainda piores:

“Porém, das cidades destas nações, que o SENHOR teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes destrui-las-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o SENHOR teu Deus.”

Você pode dizer que tal incitação ao genocídio jamais poderia ter vindo de um Deus bom e amoroso. Qualquer bispo, vigário ou rabino decentes concordaria. Mas vejam o que Craig tem a dizer. Ele começa afirmando que os cananitas eram pervertidos e pecaminosos e portanto mereciam ser massacrados. Ele então considera a situação das crianças cananitas.

Mas tirar a vida de crianças inocentes? A terrível totalidade da destruição foi incontestavelmente à proibição da assimilação de nações pagãs. No ordenamento da destruição completa dos cananitas, o Senhor falou: ‘Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; Pois fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses'(Deut 7:3-4)[…] Deus sabia que se se permitisse que estas crianças cananitas vivessem, elas poderiam tramar a destruição de Israel. […] Além do mais, se nós acreditarmos, como eu acredito, que a graça de Deus é estendida para aqueles que morreram na infância ou como pequenas crianças, a morte destas crianças era verdadeiramente sua salvação. Nós somos tão apegados à perspectiva naturalista terrena, que nos esquecemos que aqueles que morrem estão felizes por deixar esta terra pela alegria incomparável do paraíso. Então, Deus não faz nada errado ao tomar suas vidas.

Não alegue que eu retirei estas passagens revoltantes do contexto. Que contexto poderia possivelmente justifica-las?

Então o que Deus faz de errado ao comandar a destruição dos cananitas? Não os cananitas adultos, porque eles eram corruptos e mereciam o julgamento. Não as crianças, porque eles herdaram a vida eterna. Então quem é o transgressor? Ironicamente, eu penso que a maior dificuldade de todo este debate é o aparente erro que os soldados hebreus cometeram contra si próprios. Você pode imaginar como seria invadir uma casa e matar uma mulher aterrorizada e seus filhos? O efeito brutal sobre estes soldados hebreus foram perturbadores.

Oh, os pobres soldados. Esperemos que eles tenham recebido apoio psicoterápico após esta experiência traumática. Uma resposta posterior de Craig é – se possível – ainda mais estarrecedora. Referindo-se a seu artigo anterior (acima) ele diz:

Como resultado de uma leitura mais cuidadosa do texto bíblico, cheguei à conclusão de que a ordem que Deus deu a Israel a princípio não era que eles exterminassem os cananitas, mas que os expulsassem da terra.[…] Canaã estava sendo dada a Israel, a quem Deus havia retirado do Egito. Se as tribos cananitas, vendo os exércitos de Israel, tivessem simplesmente escolhido fugir, ninguém teria sido assassinado, afinal. Não havia nenhuma ordem para perseguir e abater as pessoas cananitas. É, portanto, completamente errônea a caracterização da ordem de Deus a Israel como uma ordem para cometer genocídio. Em vez disso era em primeiro lugar uma ordem para expulsar as tribos do território e ocupa-lo. Somente aqueles que permanecessem deveriam ser completamente exterminados. Não havia necessidade de que todos morressem nesta situação.*

Então, aparentemente, eram os próprios cananitas que estavam errados por não fugirem. Certo.

Você apertaria a mão de um homem capaz de escrever coisas como esta? Você compartilharia um palco com ele? Eu não o faria e não o farei. Mesmo se eu já não tivesse um compromisso em Londres no dia em questão, eu orgulhosamente deixaria a cadeira em Oxford eloquentemente vazia.

E se qualquer de meus colegas se encontrar intimidado ou enganado num debate com este deplorável defensor do genocídio, eu o aconselharia a levantar-se, ler em alto e bom tom as palavras de Craig citadas acima, e então deixa-lo falando não somente para uma cadeira vazia mas, esperaria-se, para um auditório se esvaziando rapidamente.

*Nota do Tradutor: Mais uma vez, é impossível resistir ao paralelo entre apologistas cristãos e negadores do Holocausto. Estes últimos, ao menos os que vomitam suas intrujices em português, costumam afirmar que a política de extermínio dos judeus levada a cabo pelo governo nazista era na verdade uma política de reassentamento dos judeus em territórios desabitados. De fato a palavra exterminar também significa, em português, “expulsar alguém de um território”. Mas o termo original alemão traduzido não possui essa acepção. E o termo hebraico original, será que possui?

Leia também:

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: