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Posts Tagged ‘Dinesh D’Souza’

Título Original: O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto

Autor:  Hector Avalos, PhD

Fonte: The Christian Delusion, págs. 368-395 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2010 )

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Hector Avalos (nascido em Nogales, México, em 8 de Outubro de 1958) é professor de Estudos Religiosos na Iowa University State e autor de diversos livros sobre religião. Ele é ex-pastor pentecostal e ex-criança evangelista.

Ele possui um doutorado em Estudos do Oriente Próximo e da Bíblia Hebraica pela Harvard University (1991), um mestrado em Estudos Teológicos pela Harvard Divinity School (1985) e um bacharelado em Antropologia pela University of Arizona (1982).

Avalos foi admitido na Iowa University no Outono de 1993 após completar seu pós-doutorado (1991-93) nos departamentos de Antropologia e Estudos Religiosos na University of North Carolina em Chapel Hill. Em 1996 Avalos foi eleito Professor do Ano na Iowa State University, onde também foi eleito Melhor Professor no biênio 2003-04. Outros prêmios incluem The Early Achievement in Research and Creative Activity Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996), e the Outstanding Professor Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996).

Avalos é internacionalmente reconhecido por sua ferrenha oposição ao design inteligente e ao movimento neocriacionista, sendo frequentemente associado a Guillermo Gonzalez, um astrofísico defensor do design inteligente a quem foi negada a nomeação para um cargo na Iowa State University em 2007. Avalos corredigiu uma declaração contra o design inteligente em 2005, que por fim foi subscrita por 130 membros da Iowa University State. Esta declaração foi adotada como modelo para outras declarações pela University of Northern Iowa e pela University of Iowa. Ambos Gonzalez e Avalos aparecem no filme Expelled: No Intelligence Allowed (2008).

Avalos é um ateu militante e um defensor da ética humanista secular.

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Em sua réplica às acusações dos autores neoateus de que a religião levou a matanças em larga escala, Dinesh D’Souza, o comentarista conservador, assegura-nos que “o nazismo… foi uma filosofia secular e antirreligiosa que, de modo bastante estranho, compartilhou diversos elementos com o comunismo[1].” Desse modo, D’Souza é capaz de responsabilizar o ateísmo na Alemanha Nazista por 10 milhões de mortes, incluindo as de 6 milhões de judeus. De fato, para D’Souza, os regimes ateístas de Joseph Stalin e Mao Zedong ocupam os dois primeiros lugares no ranking da violência ateísta. De um modo geral, D’Souza afirma que estes três grandes regimes ateístas assassinaram cerca de 100 milhões de pessoas[2].

D’Souza exemplifica à perfeição a categoria dos apologistas cristãos cuja melhor resposta aos genocídios cometidos por autoproclamados cristãos é afirmar que os ateus assassinaram ainda mais. Com efeito, D’Souza calcula que “as mortes causadas por regimes cristãos ao longo de um período de 500 anos equivalem a apenas um porcento das mortes causadas por Stalin, Hitler e Mao num intervalo de poucas décadas”.[3] Bruxas e judeus são alguns dos grupos que D’Souza relutantemente admite que podem ter sido assassinados em decorrência da violência cristã.

Já discuti extensamente a falácia de conceber a violência estalinista em termos de ateísmo[4]. A maior parcela da violência estalinista resultou da coletivização forçada, e documentos publicados recentemente mostram a cumplicidade das autoridades clericais com a agenda estalinista.[5] D’Souza não fornece um único documento ou declaração de Stalin mostrando que ele estava coletivizando ou assassinando por razões ateístas.

Além disso, o comunismo, entendido como um sistema de propriedade coletivizada, é uma noção bíblica já encontrada em Atos 4:32-37. Esse sistema comunista cristão também resultou no assassinato de um casal (Atos 5:1-11) que quebrou sua promessa de renunciar à suas posses. Portanto, o princípio de matar os que não se resignassem à coletivização de suas propriedades é bíblico. A defesa de que o motivo pelo qual Ananias e Safira foram mortos foi simplesmente mentir sobre a entrega de suas posses negligencia a brutalidade do fato de que o valor da vida foi colocado abaixo do valor da renúncia às próprias posses. Pois em vez de apenas bani-los da comunidade, eles foram mortos. Stalin ou Mao provavelmente teriam feito a mesma coisa. Como o comunismo é defendido por alguns autores bíblicos, os assassinatos maoístas e estalinistas não podem ser atribuídos ao ateísmo sem mais nem menos, na medida em que a coletivização forçada pode ser letal tanto em sua forma ateísta como na cristã. (Nota do tradutor: não somente isso, como mesmo intérpretes modernos da doutrina cristã, como o influente apologista inglês C.S. Lewis, reconhecem que no aspecto econômico, uma sociedade construída sob princípios cristãos “seria o que se chama hoje em dia ‘de esquerda'(…) sua vida econômica seria bastante socialista“. Para maiores detalhes vejam o capítulo 3 do terceiro livro de Cristianismo Puro e Simples, Conduta Cristã – Moralidade Social)

Além disso, D’Souza não possui a competência necessária para avaliar as alegações de violência maoísta porque tal tarefa requer um treinamento extensivo na língua e nos documentos chineses para averiguar a acurácia das informações fornecidas pelas fontes inglesas. Como eu também careço de especialização no idioma e na cultura chinesa para avaliar a violência maoísta, não abordarei o maoísmo aqui. O que sabemos é que D’Souza não apresenta uma única citação de Mao ou mesmo de algum documento chinês traduzido para respaldar suas asserções de que Mao assassinou por causa do ateísmo.

Em todo caso, este artigo analisará em grande profundidade o argumento de que as mortes causadas por Hitler deveriam ser atribuídas a algum tipo de ateísmo darwinista, algo enfaticamente defendido por Richard Weikart em seu livro From Darwin to Hitler (2004)[6]. O livro de Weikart é uma das fontes para os pronunciamentos de D’Souza. Na verdade, demonstrarei que:

  • O Holocausto nazista, em vez de resultar de algum tipo de ateísmo darwinista, é efetivamente a mais trágica consequência de uma longa história de racismo e antijudaísmo cristãos.
  • O Nazismo assassinou pessoas por sua etnicidade ou religião seguindo princípios enunciados na Bíblia.

Além disso, mostrarei que diversas alegações de D’Souza apoiam-se em péssimas técnicas de pesquisa histórica e num conhecimento superficial do antijudaísmo cristão.

Princípios Éticos e Números

De acordo com a Convenção das Nações Unidas contra o Genocídio (também chamada de Primeira Convenção de Genebra), o termo genocídio descreve “atos cometidos com o objetivo de destruir, parcial ou totalmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”[7]. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo religioso ou um grupo étnico. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo racial ou um grupo nacional. Todos são igualmente proibidos pelos padrões das Nações Unidas. Isto é importante porque D’Souza muitas vezes tenta atenuar a violência religiosa alegando, geralmente sem respaldo documental, que alguns atos atribuídos à violência religiosa são na verdade casos de violência étnica ou racial.

Ademais, D’Souza muitas vezes deixa inexplicado o que há nos grupos étnicos antagônicos que os torna tão mutuamente hostis. D’Souza falha em ver que a etnicidade pode ser criada e/ou exacerbada por diferenças religiosas. Por exemplo, segundo os relatos bíblicos, a criação da etnia hebreia remonta à ordem para que Abraão desse início à sua própria linhagem separada (Gênesis 12:1-7), embora ele e sua família, a esta altura, não fossem “etnicamente” distintos do resto de sua tribo[8]. Além disso, a linhagem de Abraão diferenciou-se pela adesão ao monoteísmo e pelo adoção de algumas práticas religiosas obrigatórias (por exemplo, a endogamia, a circuncisão) que os apartou de seus vizinhos (veja em Gênesis 17:12, 24:3-4). Um fênomeno similar ocorreu entre cristãos e judeus. O conflito inicial era entre judeus que aceitaram Jesus como o Messias e judeus que não o fizeram (veja em João 5:18, Atos 17:2-5, Gálatas 2:11-16).

Com efeito, tais judeus não diferiam “etnicamente” uns dos outros. Não obstante seja claro que alguns personagens no Novo Testamento (NT) consideravam-se judeus e cristãos, ao fim, os “judeus” passaram a ser os que não aceitaram Jesus como o Cristo, conservando a religião tradicional de seus ancestrais. Mais tarde, a Igreja Católica reforçou a separação da identidade religiosa dos judeus através de leis matrimoniais, restrições profissionais, segregação em guetos e utilização obrigatória de trajes característicos, o que os tornou alvos ainda mais distintos e ainda mais facilmente identificáveis[9]. Todavia, foi algo percebido como um antagonismo judaico à figura de Cristo o que muitas vezes foi apresentado oficialmente como a razão primária para tais ações. Assim, quando o Papa Paulo IV publicou em 1555 sua Cum Nimis Absurdum, que estabeleceu a segregação dos judeus num gueto, sua justificativa introdutória foi que os judeus “por sua própria culpa entregaram-se à eterna servidão”[10]. Portanto, não é possível dissociar religião e etnicidade tão facilmente quando D’Souza tenta fazer.

D’Souza também ressalta mais os números do que o princípio ético de que é errado assassinar grupos de seres humanos em virtude de sua raça, etnicidade, nacionalidade ou religião. Mas se, como D’Souza aparentemente pensa, o genocídio é sempre condenável, então os números não importam tanto quanto o princípio. Se D’Souza não pensa que o genocídio é sempre condenável, então ele não é menos relativista moral do que os ateus, e agora teríamos somente suas razões arbitrárias para justifica-lo.

Portanto, suponhamos que dois grupos genocidas, X e Y, estivessem seguindo o mesmo princípio de assassinar todos os membros de algum grupo que eles escolheram por razões étnicas ou religiosas. Chamaremos as vítimas do grupo X de Alvo 1 e as vítimas do grupo Y de Alvo 2. Contudo, suponhamos também que o Alvo 1 seja uma tribo com apenas 1000 pessoas, enquanto o Alvo 2 seja um grupo religioso composto por um milhão de pessoas. Em forma de tabela:

Agora, a repreensibilidade do princípio do genocídio mudaria se o grupo X assassina apenas mil indivíduos ao passo que o grupo Y assassina um milhão? É claro que não, porque podemos supor razoavelmente que se o Alvo 1 possuísse um milhão de membros, então o Grupo X poderia ter assassinado um milhão de indivíduos.

De modo que um truque de ilusionismo está sendo empregado por D’Souza em seu apelo aos números brutos, na medida em que ele imagina que o Cristianismo é de alguma maneira superior simplesmente porque seus representantes tencionaram eliminar grupos menos populosos. Considere que o próprio D’Souza admite que a caça às bruxas cristã assassinou cerca de 100 000 pessoas na Europa[11]. Mas se o princípio de assassinar bruxas continuasse válido, então 10 milhões de bruxas poderiam ter sido assassinadas houvessem os caçadores de bruxas encontrado e matado esse contingente.

O fato de termos somente 100 000 vítimas da caça às bruxas significa apenas que o grupo alvo foi menor, mas não que o objetivo de extermínio total foi diferente. Assim, devemos julgar a moralidade do genocídio não somente por números absolutos de pessoas assassinadas como também pela parcela do grupo alvo marcada para morrer. Como a meta de extermínio presumida para ambos, Hitler ou para os inquisidores cristãos, é de 100%, a repreensibilidade moral de Hitler e dos inquisidores é a mesma. Seus atos genocidas também seriam igualmente condenados pelo padrão das Nações Unidas.

Portanto, a única coisa que D’Souza conseguiu foi mostrar que o Cristianismo não é moralmente superior em seus princípios de genocídio. Cristãos podem e tem procurado assassinar grupos inteiros de pessoas. É um mero acidente histórico que os saldos dos regimes ateístas sejam maiores em comparação com os regimes cristãos, mesmo se concedermos a tese errônea de que Hitler representou um regime ateísta. Caso contrário, o argumento de D’souza é semelhante a afirmar que a Hitler deveria ser dado o crédito por assassinar apenas 6 milhões de judeus porque este contingente foi o máximo que ele conseguiu arrebanhar.

Nazismo e Antijudaísmo Cristão

Ao contrário da polêmica tese defendida por D’Souza de que o nazismo é uma “filosofia antirreligiosa”, o nazismo na verdade é um capítulo da longa história do antijudaísmo cristão. O nazismo não representa um desvio radical das atitudes dos cristãos tradicionais em relação aos judeus. Isto é reconhecido pelo historiador católico Jose M. Sanchez: “Há poucas dúvidas de que o Holocausto remonta à milenar hostilidade dos cristãos contra os judeus[12].

O fato de que o nazismo é simplesmente uma forma modernizada de antijudaísmo cristão é comprovado pelo quão estreitamente o plano nazista para os judeus se assemelha ao do fundador do Cristianismo Protestante, Martinho Lutero (1483-1546). A fim de compreender esta conexão, apresento um resumo extraído do plano de sete pontos de Lutero, publicado em 1543 em seu tratado, Dos judeus e suas mentiras (Nota do Tradutor: versões digitalizadas de uma tradução deste opúsculo são largamente disponibilizadas em sites antissemitas e neonazistas. Por razões óbvias não colocarei nenhum link aqui demonstrando isso, mas uma busca no Google confirma facilmente o que afirmo):

Primeiro, recomendo atear fogo às suas sinagogas e escolas e cobrir com imundície tudo o que não for reduzido à cinzas, de modo que nenhum homem veja novamente uma pedra ou uma brasa deles.

Isto deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus possa ver que somos cristãos, e não perdoamos ou toleramos tais ofensas e blasfêmias contra seu filho e seus seguidores…

Segundo, eu recomendo que suas casas também sejam destruídas…

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e escritos talmúdicos, em que tais idolatrias, mentiras, blasfêmias e indecências são ensinadas, lhes sejam tomados.

Quarto, eu recomendo que seus rabinos sejam proibidos de ensinar doravante sob pena de perder a vida

Quinto, eu recomendo que o salvo-conduto nas estradas seja abolido completamente para os judeus.

Sexto, eu recomendo que a usura lhes seja proibida, e que todo o seu dinheiro e todas os seus tesouros em ouro e prata sejam confiscados e colocados sob custódia…

Sétimo, recomendo colocar um mangual, um machado, uma enxada, uma pá, uma roca ou um eixo nas mãos de todos os jovens judeus e judias e deixa-los ganhar seu pão com suor de seu rosto, como foi imposto aos filhos de Adão (Gen. 3:19)[13]

Cada um dos ítems no plano de Lutero foi implementado pela política nazista. Por exemplo, durante a Kristallnacht, o horrível surto de violência antijudaica de 1938, os lares, as lojas e as sinagogas judaicas foram incendiados ou saqueados, exatamente como prescrito pelos dois primeiros ítems do plano de Lutero. Além disso, coincidência ou não, os eventos da Kristallnacht desenrolaram-se durante o aniversário de Lutero, no dia 10 de novembro. (Nota do Tradutor: acredito que tenha sido uma irônica coincidência. O pretexto para a Kristallnacht foi o assassinato de um funcionário da embaixada alemã em Paris por um judeu indignado com a situação calamitosa em que sua família se encontrava na fronteira com a Polônia após ser expulsa da Alemanha.) Obras de literatura de autores de ascendência judaica foram queimadas pelos nazistas, exatamente como recomendado no terceiro parágrafo do plano de Lutero. Os rabinos foram proibidos de ensinar, como ordenado pelo quarto ítem de Lutero. As prisões e deportações dos judeus para campos de concentração são consistentes com o quinto conselho de Lutero. Propriedades judaicas, incluindo obras de arte, foram confiscadas pelos nazistas, à semelhança da sexta recomendação de Lutero. O sétimo ponto de Lutero possui uma correspondência com os campos de trabalho forçado, com seu infame slogan Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”).

Os planos são tão parecidos que mesmo Martin H. Bertram, um intelectual luterano e o tradutor do panfleto anti-judaico de Lutero, declara: “É impossível publicar o tratado de Lutero hoje, entretanto, sem notar o quanto suas propostas foram similares às ações do regime nacional-socialista na Alemanha nas décadas de 1930 e 1940[14] E quando se considera a imagem que Hitler tinha de Lutero, o que este representava para ele, tudo o que precisamos é consultar o Mein Kampf: “Ao lado de Frederico, o Grande está Martinho Lutero, assim como Richard Wagner.”[15]

Os cristãos católicos possuem uma história ainda mais longa de antijudaísmo. O décimo-sexto canône do Concílio de Elvira (ca. 306), por exemplo, proibiu o casamento entre judeus e cristãos[16]. De modo que as leis de Nuremberg nazistas, que proibiram o casamento entre alemães e judeus, são uma mera extensão de uma tradição cristã, não uma ruptura radical, como D’Souza quer nos fazer crer. Não obstante o antijudaísmo remontar ao NT, é na Idade Média que começamos a testemunhar alguns dos mais brutais e sistemáticos ataques cristãos contra os judeus[17]. Em parte, a codificação do cânone legal católico foi responsável por uma política mais uniforme em relação aos judeus[18]. E apesar das migalhas de tolerância mostradas esparsamente no cânone legal, a realidade é que os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290 e da França em 1306. Por volta de 1492, como se sabe, a Espanha também expulsou os judeus.

De qualquer maneira, a Primeira Cruzada, que tencionava libertar a Terra Santa do domínio muçulmano, deu origem a uma nova onda de violência sistemática contra os judeus. A primeira cruzada foi proclamada em 1095, e os primeiros contingentes começaram sua viagem em direção ao leste em 1096. Estes contingentes, compostos majoritariamente por leigos, foram responsáveis pela maior parte da violência antijudaica. Hordas de “cruzados” tomaram de assalto cidades como Colônia, Mainz e Worms, e deixaram cerca de 3 mil judeus mortos[19]. Vários dos judeus capturados nestes pogroms recusaram-se a se converter ao Cristianismo. Segundo os relatos judaicos, a seguinte justificativa para o martírio foi proferida:

Depois de tudo, não há dúvidas dos caminhos do Santíssimo, louvado seja… Que nos deu Sua Torá e nos ordenou que permitíssemos que fôssemos mortos e chacinados em testemunho da Unicidade de Seu Santo Nome. Felizes estamos se satisfazemos sua vontade e feliz é aquele que tomba e morre atestando a Unicidade de Seu Nome.[20]

Estes judeus, vitimados pelos cristãos, certamente viram o ódio que lhes era dirigido como enraizado na religião. A defesa de D’Souza de que pelo menos os judeus medievais poderiam ter se convertido, ao contrário da situação na Alemanha Nazista, fracassa pelos padrões das Nações Unidas[21] É proibido exterminar qualquer grupo baseado em sua etnicidade ou religião, de modo que a oportunidade de se converter não faz a menor diferença.

Será que D’Souza pensa que se o número de judeus disponíveis para o abate naquelas cidades alemãs medievais tivesse sido maior, então menos judeus teriam sido mortos? Por um lado, as autoridades clericais de fato denunciaram estes pogroms. Por outro lado, os leigos podem ter agido da maneira como o fizeram por causa de palavras como as do Papa Inocente III, que no dia 9 de Outubro de 1208 expediu ao rei da França Philip II Augustus o seguinte édito a respeito dos hereges e dos judeus:

A fim de que a Santa Cidade de Deus, disposta como uma assustadora frente de batalha, possa prosseguir contra seus mais cruéis inimigos, exterminar [ad exterminandum] os seguidores de heresias abomináveis, que como um verme ou uma úlcera, infectaram a província inteira, formamos guarnições de soldados cristãos a serem convocados juntos…[22]

Observe que, mesmo que nem sempre obedecidas literalmente, a idéia de extermínio de grupos de pessoas (hereges, judeus) já está lá, bem como o uso da linguagem genocida medicalizada (“úlcera… infectaram”) compartilhada com o nazismo[23].

O fato de que Hitler via o que ele estava fazendo como uma continuação da política católica é confirmado por uma conversa que ele teve em 26 de Abril de 1933, com Hermann Wilhelm Berning, bispo de Osnabriick, Alemanha. De acordo com um relatório registrado nos Documentos sobre a Política Externa Alemã:

[Hitler] então trouxe à baila a questão judaica. Justificando sua hostilidade para com os judeus, ele referiu-se à Igreja Católica, que igualmente sempre considerou os judeus como indesejáveis e que em virtude dos perigos morais envolvidos proibiu os cristãos de trabalhar para os judeus. Por estas mesmas razões a Igreja baniu os judeus para o gueto. Ele via os judeus como nada além de inimigos perniciosos do Estado e da Igreja e, por essa razão, quis exclui-los cada vez mais, sobretudo dos cargos públicos e da vida acadêmica[24].

Conforme sumarizado pelo renomado historiador do Holocausto Guenter Lewy, “Hitler simplesmente estava fazendo o que a Igreja havia feito por 1500 anos.”[25] Na verdade, Hitler simplesmente dispunha de tecnologias e logísticas muito superiores para fazer o que os cristãos medievais quiseram fazer aos judeus. Também haviam muito mais judeus vivendo na Alemanha na época de Hitler. Portanto, D’Souza deveria estar contando os acréscimos nas populações-alvo, não apenas as populações como um todo, para avaliar a proporcionalidade da violência ateísta e religiosa.

O Quão Religioso Foi o Antijudaísmo Nazista?

D’Souza levanta a polêmica tese de que o nazismo foi uma “filosofia antirreligiosa”, mas oferece escassas evidências incontestáveis para esta alegação. Se desejamos conhecer motivos, um procedimento razoável é buscar as razões que as pessoas oferecem para o que fazem. Se seguirmos este procedimento, então a seguinte declaração de Hitler no Mein Kampf é bastante relevante:

Por isso hoje acredito que estou agindo em concordância com a vontade do Criador Todo-Poderoso; ao me defender contra o Judeu, estou lutando pela obra do Senhor.[26]

Mas D’Souza descarta a declaração de Hitler como evidência de que Hitler realmente pretendeu dizer o que disse. Em vez disso, D’Souza sugere que uma fonte melhor para os pensamentos de Hitler sobre a religião é Allan Bullock, autor de um livro chamado Hitler e Stalin: Vidas Paralelas, de 1993. Conforme D’Souza expressa em suas palavras: “‘Desde a mais tenra idade’, o historiador Allan Bullock escreve, ‘Hitler não dedicou tempo algum ao catecismo católico, considerando-o uma religião adequada somente para escravos e detestando sua ética.”[28] Esta é claramente uma tática de esquiva, já que D’Souza não explica porque Bullock sabe o que Hitler pensava melhor do que o próprio Hitler. Em geral, é um procedimento de investigação histórica inferior substituir uma fonte primária (isto é, Hitler) por uma fonte secundária (ou seja, Bullock). Além disso, mesmo se Hitler detestasse os ensinamentos católicos, D’Souza confunde ateísmo com anticatolicismo. E a citação acima não é a única em que Hitler invoca Deus, a religião ou o Cristianismo para explicar suas idéias políticas no Mein Kampf. Hitler também declarou: “Pois a vontade de Deus deu aos homens sua forma, sua essência e suas habilidades. Qualquer um que destrua Sua obra está declarando guerra à criação do Senhor, a vontade divina.”[29] No encontro com Berning, Hitler insistiu que “nem uma vida pessoal nem uma nação poderia ser construída sem o Cristianismo.”[30]

Outra tentativa de evitar as implicações óbvias das declarações de Hitler é o apelo de D’Souza ao aspecto propagandístico do Mein Kampf. D’Souza alega que “o próprio Hitler diz no Mein Kampf que suas declarações públicas deveriam ser interpretadas como mera propaganda que não guarda a menor relação com a verdade, sendo antes planejadas para exaltar as massas.”[31] D’Souza não cita um trecho direto de Hitler para esta alegação e apenas nos remete às páginas 177-85 do Mein Kampf, o que mais uma vez reflete um péssimo trabalho de pesquisa histórica. D’Souza parece não notar que esta generalização grosseira sobre o Mein Kampf não guardar “nenhuma relação com a verdade” cria um caso de incoerência autorreferencial. Se a propaganda de Hitler sempre esconde a verdade, então segue-se que o próprio enunciado sobre como ele estava usando a propaganda deve ser falso. E Hitler não acreditou realmente que os judeus são malignos porque o que ele diz no Mein Kampf não possui relação alguma com a verdade? Em vez disso, um procedimento histórico superior é interpretar literalmente os enunciados de um autor sobre suas próprias crenças a menos que o contrário seja provado. Nada do que Hitler disse desmente que ele acreditou estar fazendo a vontade de Deus.

Além disso, D’Souza deixa inexplicado por que Hitler teria pensado que sua retórica antijudaica poderia comover as massas a menos que as massas fossem receptivas a uma mensagem antijudaica. Isto é importante porque as massas das quais D’Souza fala se autoidentificavam majoritariamente como cristãs. Por exemplo, um relatório nazista indica que por volta de 1938, 51,4% dos membros da SS foram identificados como protestantes, 22,7% como católicos, e 25,7% como “crentes em Deus” (Gottglaubigen).[32] Como o antijudaísmo não encontra-se associado às obras do próprio Darwin, trabalhar tendo como pano de fundo uma história de antijudaísmo cristão seria muito mais efetivo no convencimento das massas cristãs.

Cristianismo Positivo

Outro aspecto do nazismo que D’Souza descarta sem muita investigação é a idéia nazista do Cristianismo Positivo. A primeira ocorrência do termo remonta ao ponto 24 do Programa do Partido Nazista de 1924, que diz:

O Partido enquanto tal reflete o ponto de vista de um Cristianismo Positivo não limitado confessionalmente a qualquer denominação específica. Ele combate o espírito materialista judaico.[33]

Mais uma vez, o antijudaísmo foi um de seus principais pilares, o mero resultado de uma longa história de antijudaísmo cristão. Nesse sentido, mais uma vez, o nazismo não é um desvio radical do Cristianismo historicamente ortodoxo.

Quem ler O Mito do Século XX, um tratado sobre o nazismo escrito por Alfred Rosenberg, a quem é atribuída a autoria do Programa do Partido de 1920, entenderá que ele concebia o Cristianismo Positivo como uma restauração dos ensinamentos puros e originais de Cristo.[34] De fato, Rosenberg nos diz que a vida de Cristo é o que deveria ser siginificativo para os alemães.[35] Rosenberg repudiou a idéia do sacrifício de Cristo como uma corrupção judaica, e via Jesus como uma figura cuja verdadeira obra, o amor à própria raça, foi distorcida pela cristandade organizada num amor universal, em vez de um amor restrito ao grupo racial a que se pertence (sobretudo em sua interpretação de Levítico 19:18 e 25:17).

Esta é a razão pela qual Rosenberg o denominou “Cristianismo Positivo” (positive Christentum), que ele contrapôs explicitamente à forma corrupta representada pelo “clero etrusco-asiático” (etrusco-asiatische… Priesterherrschaft), que abraangia o Catolicismo Romano[36]. Assim, para o Cristianismo Positivo, a mera palavra “Cristianismo” muitas vezes significou a forma judaizada e clericalmente organizada vista no Catolicismo Romano, que diferia da originalmente proposta por Jesus. Opor-se ao “Cristianismo”, portanto, não significa opor-se à religião de Cristo ou opor-se à religião.

De fato, Der Mythus é repleto de citações bíblicas. Com algumas das interpretações de Rosenberg da Bíblia decerto até mesmo eruditos judeus poderiam concordar. Por exemplo, ele observa que Levítico 25:17, que declara “Ninguém prejudique o seu próximo”, refere-se ao próximo hebreu, e não a todos os demais[37]. Mas esta interpretação de “teu próximo” é consistente com a interpretação de Harry M. Orlinsky, o grande estudioso do cânone judaico[38]. Rosenberg também pensou que o Evangelho de João foi o que melhor preservou alguns dos ensinamentos de Jesus. Assim ele o comenta: “O Evangelho de João, que ainda é permeado por um espírito aristocrático, combateu a bastardização coletiva, a orientalização e a judaização do Cristianismo”[39]. É no Evangelho de João (8:44) em que o próprio Jesus diz que os judeus são mentirosos filhos do diabo. Esse versículo apareceu bem mais tarde na sinalização de trânsito do regime nazista, ao passo que nenhuma citação de Darwin jamais foi vista nas placas de trânsito nazistas[40]. Este versículo ecoa o título do panfleto de Lutero (Dos judeus e suas mentiras), bem como o longo título que Hitler originalmente propôs para seu livro ([Meus] Quatro anos e meio de luta contra as mentiras… ).

Sim, Rosenberg sincretizou os conceitos cristãos encontrados no NT com mitos germânicos, e mitos de sua própria criação ou adaptação. Mas em que a exegese bíblica e o sincretismo de Rosenberg diferem do que outros autoproclamados cristãos estiveram fazendo ao longo da história? Com efeito, vários estudiosos defendem exatamente que o Cristianismo foi o resultado da combinação de idéias judaicas com outras helenísticas. Ao conceberem a si próprios como restauradores do Cristianismo primitivo, os cristãos positivos não foram menos cristãos do que os primeiros luteranos ou anabatistas. Na verdade, o Cristianismo Positivo possui precursores ilustres dentre os primeiros cristãos que rejeitaram o judaísmo. Estes incluem Marcião (segundo século), o cristão gnóstico que repudiou o Antigo Testamento (AT) por inteiro, e promoveu um cânone consistindo apenas de um Evangelho de Lucas expurgado e algumas das epístolas paulinas. O marcionismo repetiu-se na história cristã, especialmente entre alguns grupos anabatistas e teólogos cristãos (por exemplo, Friedrich Schleiermacher)[41].

Resumindo, se usamos a mesma lógica utilizada por vários teólogos cristãos que reinterpretam radicalmente a Bíblia Hebraica para a prática cristã, poderíamos também argumentar que o Cristianismo Positivo não representa tanto um movimento anticristão quanto representa uma reinterpretação do Cristianismo, um fenômeno constante na história cristã. É por isso que atualmente existem cerca de 25 mil grupos cristãos, alguns dos quais acreditam em coisas radicalmente opostas. Dizer que os marcionitas, os luteranos ou os cristãos positivos não são realmente cristãos é fazer um julgamento teológico mais do que um julgamento histórico.

O que há de tão negativo acerca do Cristianismo Positivo?

Não somente D’Souza exibe uma lastimável compreensão errônea  do Cristianismo Positivo, como as principais objeções que ele lança contra ele são extremamente superficiais. Para D’Souza, o Cristianismo Positivo não pode contar como Cristianismo porque ele “obviamente foi uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional, e como tal foi condenado pelo Papa Pio XI na época”[42]. Este último caso é suficiente para mostrar os preconceitos teológicos de D’Souza, já que ele assume que o que quer que o Papa Pio XI condene deve representar um falso cristianismo. E naturalmente, a alegação de que um Cristo ariano é uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional é uma grande novidade para qualquer um familiarizado com a longa história da arte cristã, onde Cristo é rotineiramente pintado como um branco europeu. De acordo com Epiphanies Monachus (oitavo ou nono século), um monge grego de Constantinopla, Jesus “tinha seis pés de altura, longos e dourados cabelos, e não muito volumosos…”[43]. Então, como um Cristo ariano nazista pode ser uma ruptura radical?[44]

D’Souza também deixa de dizer a seus leitores que antes do Papa Pio XI se distanciar do nazismo em sua famosa encíclica de 1937 (Mit Brennender Sorge/ “Com Ardente Pesar”), esse mesmo Papa assinou, “na época”, em 1933, um pacto com os nazistas, que Hitler inclusive apreciou como um inestimável auxílio para levar adiante sua “batalha contra a judiaria internacional (‘der kampf gegen das internationale judentum‘)”[45]. E observem como D’Souza não questiona se o Papa Pio XI teve motivos políticos em vez de sublimes motivos humanitários para sua reprovação aos nazistas em 1937. D’Souza não indaga se Pio XI realmente pretendeu dizer o que ele disse, como faz quando Hitler afirma estar acatando a vontade de Deus.

No entanto, quando se lê essa encíclica de 1937, o Papa Pio XI admite fazer acordos com a Alemanha Nazista:

Quando, em 1933, consentimos, venerável Brethren, em abrir negociações por um pacto, que o governo do Reich propôs como base de um programa de muitos anos de colaboração… Estávamos propensos pela vontade, como nos é próprio, de assegurar à Alemanha a liberdade da missão beneficente da Igreja e a salvação das almas sob seus cuidados, bem como pelo desejo sincero de prestar ao povo alemão um serviço essencial para seu desenvolvimento pacífico e prosperidade. Assim, apesar de várias e graves dúvidas e inquietações, decidimos então não recusar nosso assentimento pois foi nosso desejo poupar os devotos da Alemanha, na medida em que fosse humanamente possível, dos julgamentos e dificuldades que eles teriam que enfrentar, dadas as circunstâncias, houvessem as negociações malogrado[46]

Por que isso não se qualificaria como uma manobra política, já que almeja proteger os interesses de um grupo distinto (católicos)? Por que não podemos  também dizer que a hierarquia do Vaticano não pretendeu dizer o que disse em 1937? E será que nenhum dos conselheiros do Papa estava familiarizado com o Mein Kampf, que fora publicado aproximadamente uma década antes de 1933?

Na verdade, Diego Von Bergen, o embaixador do Reich na Santa Sé, relatou que enquanto o Papa estava dizendo uma coisa, Eugenio Pacelli, o cardeal secretário do Vaticano e o homem que se tornaria o Papa Pio XII, prometeu que “relações normais e amistosas… seriam reestabelecidas o mais cedo possível” entre o Vaticano e os nazistas após essa encíclica[47]. De fato, por volta de 1939, o arcebispo Cesare Orsenigo, o núncio para Berlim, estava atarefado  abrindo uma recepção de gala para o quinquagésimo aniversário de Hitler[48]. Isso encerra a questão do suposto repúdio da Igreja Católica ao regime nazista.

Caso contrário, tudo depende de se alguém considera a missão da Igreja Católica como digna de tal compromisso, e isso é um julgamento teológico. Se Hitler acreditava ser a vontade de Deus que ele matasse os judeus, não há como averiguar se a inspiração para essa tarefa foi menos divina do que a que levou o Papa Inocente III a manifestar seu desejo de exterminar os judeus e outros hereges na Idade Média. Caso contrário, D’Souza precisa explicar por que o Papa Inocente III estaria certo em dizer que Deus realmente quis que ele exterminasse os judeus ou os hereges na Idade Média, mas este não seria o propósito de Deus para a vida de Hitler no século XX.

O Quão Antirreligioso Foi Hitler?

Equivocar-se sobre a diferença entre o Cristianismo Positivo e o resto do Cristianismo é o que tem levado D’Souza e outros a transformar quaisquer das supostas concepções anticristãs de Hitler em concepções antirreligiosas. Há um problema lógico, obviamente, com a afirmação de que ser anticristão ou ser anticatólico significa ser antirreligioso. A religião abraange muito mais do que o Cristianismo ou o Catolicismo.

Mais substancialmente, pois são uma parcela significativa da evidência em que se baseia, D’Souza apela às Conversações Íntimas de Hitler, que supostamente registram os mais recônditos pensamentos do Führer. Entretanto, a confiabilidade desta fonte para determinar as opiniões de Hitler é bastante questionável. Existem quatro versões principais das Conversaçõs Íntimas, aqui nomeadas de acordo com os principais editores ou tradutores e os anos de publicação: (1) Henry Picker (alemã, 1951, 1963, 1976); (2) Francis Genoud (apenas tradução francesa, 1952); (3) H. R. Trevor-Roper (inglesa 1953, 1973, 2000); e (4) Werner Jochmann (alemã, 1980). Estes registros geralmente são organizado internamente pela data em que Hitler manteve a conversa.

Os problemas com as Conversações Íntimas foram minuciosamente estudados por Richard Carrier[49]. Do meu ponto de vista, na qualidade de historiador acadêmico, existem pelo menos três problemas com a utilização desta fonte; (1) não existem originais autógrafos, do próprio punho de Hitler, desta fonte. Não temos fitas de áudio para verificar as transcrições. O que temos são cópias célebres que muitas vezes foram filtradas através de Martin Borman, auxiliar de Hitler. O fato de estas versões concordarem suficientemente para sugerir uma fonte comum não necessariamente prova que esta fonte comum tenha sido o próprio Hitler. (2) As versões às vezes são discrepantes. Algumas passagens estão ausentes na edição de Trevor Roper em relação à edição de Picker. De modo que é difícil dizer o que vem de Hitler e o que vem dos editores. (3) Trevor-Roper autenticou os Diários de Hitler, apesar de estes mais tarde terem sido desmascarados como uma fraude[50]. Genoud também é um personagem de reputação duvidosa que pode ter estado envolvido em outras falsificações. E como Carrier tem mostrado, ambas as edições de Genoud e Trevor-Roper muitas vezes traduzem com erros grotescos o original alemão.

Além disso, o principal mediador em todas as versões conhecidas das Conversações Íntimas é o secretário pessoal de Hitler, Martin Bormann, conhecido por seus pontos de vista anticristãos[51]. De modo que às vezes podemos estar lendo os pensamentos de Bormann em vez de os de Hitler[52].

Também sabemos, a partir de outras fontes, que Hitler discordou de Bormann e também discordou de suas próprias opiniões expressas nas Conversações Íntimas. Por exemplo, Albert Speer, que foi o arquiteto pessoal de Hitler, disse:

Mesmo após 1942 Hitler prosseguiu sustentando que considerava a Igreja indispensável na vida política. Numa dessas conversas à hora do chá, ele afirmou que ficaria feliz se algum dia um eclesiástico renomado se revelasse adequado para liderar uma das igrejas – ou, se possível, ambas, a católica e a protestante, reunidas.[53]

Speer também relata casos em que Hitler censurou ações anticristãs cometidas por seus subordinados[54].

Assim, se utilizarmos somente as fontes mais confiáveis, D’Souza definitivamente não demonstra seu caso. D’Souza não cita uma única passagem do Mein Kampf, uma fonte incontestavelmente atribuída a Hitler, em que este diz que seus motivos foram ateístas. Todavia, podemos encontrar uma série de passagens do Mein Kampf em que Hitler, não menos do que Martinho Lutero, reivindica estar realizando a vontade de Deus.

Mas mesmo se considerarmos as Conversações Intímas uma fonte confiável, a antirreligiosidade de Hitler não é tão evidente quanto D’Souza afirma porque D’Souza confunde anticristianismo com ateísmo. Das citações que D’Souza fornece, a única que melhor contribuiria para seu caso é: “através do campesinato seremos capazes de destruir o Cristianismo.” Mas D’Souza não fornece o número da página das Conversações Íntimas, e sua nota de rodapé correspondente apenas remete a “Conversações Íntimas de Hitler (New York: Enigma Books, 2000)”, que é uma edição associada a Hugh Trevor-Report[56]. Na melhor das hipóteses, o que temos aqui é um trabalho de documentação bastante desleixado, e nos leva a indagar se D’Souza está mesmo lendo as Conversações Íntimas em primeira mão.

Além disso, D’Souza não revela a frase completa, que na verdade encontra-se nos Pronunciamentos de Hitler, um livro historicamente desacreditado da autoria de Hermann Rauschning: “Mas é através do campesinato que realmente seremos capazes de destruir o Cristianismo porque existe entre eles uma verdadeira religião enraizada no sangue e na natureza.” Assim, em sua versão integral, o alegado objetivo de Hitler é uma religião melhor (“verdadeira religião”), não religião nenhuma.

Houvesse D’Souza lido as diversas versões das Conversações Íntimas cuidadosamente, ele também teria encontrado muita coisa que contradiz sua afirmação de que Hitler foi antirreligioso. Por exemplo, numa conversa referida a 14 de Outubro de 1941 (edição de Trevor Roper) Hitler comenta:

Um homem educado preserva o sentido para os mistérios da natureza e ajoelha-se diante do desconhecido. Um homem inculto, por outro lado, corre o risco de sucumbir ao ateísmo (que é um retorno à animalidade)… [58]

Hitler acrescenta:

Pode-se perguntar se o desaparecimento do Cristianismo acarretaria o desaparecimento da crença em Deus. Isso não seria desejável. A idéia de uma divindade confere à maioria dos homens a oportunidade de concretizar o sentimento que eles possuem da existência de realidades sobrenaturais. Por que deveríamos destruir este maravilhoso poder  que eles possuem de encarnar o sentimento para o divino que há em seu interior?[59]

Assim, mesmo aqui Hitler distingue entre não acreditar no Cristianismo e não acreditar em Deus. Na verdade, no original alemão das Conversações Íntimas, Hitler manifesta sua esperança de vida eterna no paraíso e seu real desprezo por aqueles que escarnecem da providência divina, declarando em vez disso que ele pensa ser possível que Deus o tenha escolhido, e que é nossa crença num Criador que nos distingue dos animais.[60]

E é nas Conversações Íntimas que Hitler distingue claramente os ensinamentos originais de Cristo da forma corrupta que se tornou conhecida como “Cristianismo”. Ele diz (em 21 de Outubro de 1941) que:

Originalmente, o Cristianismo era meramente uma encarnação do Bolchevismo, o destruidor. Não obstante, o Galileu, que mais tarde foi chamado o Cristo, pretendeu algo bastante diferente. Ele deve ser considerado como um líder popular que assumiu Sua posição contra a judiaria.[61]

Em qualquer caso, as ações de Hitler contra quaisquer igrejas não são necessariamente mais anticristãs ou antirreligiosas do que a destruição pelos protestantes de igrejas católicas, ou a destruição pelos católicos dos templos protestantes. Por exemplo, o Rei Henrique VIII (1491-1547), que deu ínicio à Reforma Inglesa, não via a si próprio como anticristão ou antirreligioso quando demoliu os monastérios católicos. Reis cristãos muitas vezes mataram clérigos e perseguiram igrejas que discordavam deles[62]. O que estamos vendo no nazismo é uma guerra sectária ou uma guerra intrarreligiosa, que não deveria ser confundida com antirreligiosidade[63].

O Quão Darwinista foi o Nazismo?

Apesar das esmagadoras evidências apontando que o nazismo é uma continuação do antijudaísmo cristão, D’Souza nos assegura que por trás do nazismo o que realmente está é o darwinismo. Para suas evidências, D’Souza nos remete ao trabalho de Richard Weikart, como a seguir:

Se o nazismo representou a culminância de qualquer coisa, foi da ideologia do final do século 19 e início do século 20 do darwinismo social. Como o historiador Richard Weikart documenta, ambos Hitler e Himmler eram admiradores de Darwin e em várias ocasiões falaram de seu papel como o de descobridor de uma “lei da natureza” que garantiria “a eliminação dos incapazes”. Weikart… conclui que embora o darwinismo não seja uma explicação intelectual “suficiente” para o nazismo, é uma explicação necessária. Sem o darwinismo o nazismo não poderia ter existido.[64]

Como nos casos anteriores, D’Souza aparenta não possuir o treinamento requerido para avaliar e julgar as alegações de Weikart. Já ofereci uma série de longas críticas a Weikart, mas aqui eu resumirei alguns dos problemas com a utilização do livro de Weikart[65].

Primeiro, a própria noção de que o darwinismo foi necessário para o nazismo é desmentida pelo plano de Lutero para os judeus de 1543. Por volta de 1543 era possível levar a cabo com êxito um programa que até os especialistas na obra de Lutero reconhecem ser semelhante ao nazismo, e não havia Darwin algum então. Weikart se esquece completamente de Lutero, e raramente menciona a longa história de antijudaísmo cristão que certamente seria mais importante do que o darwinismo. A maioria dos alemães não era tão familiarizada com as obras de Darwin como eram com a Bíblia ou com as tradições antijudaicas de personagens da história alemã como Lutero.

D’Souza nunca oferece qualquer citação direta para mostrar que Hitler foi um admirador de Darwin. Na verdade, D’Souza aparenta ignorar as exatas visões de Weikart sobre as referências de Hitler a Darwin. Weikart foi citado como dizendo:

É verdade que Hitler quase nunca mencionou o nome de Darwin (a única menção direta a Darwin que fui capaz de encontrar é um relato por um colega Wagener).[66]

No entanto, mesmo o “quase nunca” é enganoso porque Weikart reconhece que a única referência direta a Darwin por Hitler definitivamente não vem de Hitler. Hitler, contudo, menciona e aplaude Lutero no Mein Kampf. Isso por si só nos diz que Hitler atribuiu a Lutero importância suficiente para menciona-lo algumas vezes, ao passo que Darwin não recebeu nenhuma menção.

Além disso, D’Souza e Weikart também ignoram evidências de que o darwinismo foi especificamente banido na Alemanha Nazista, pelo menos em 1935. As evidências derivam desta diretriz numa lista de livros banidos na Alemanha Nazista compilados numa exposição da biblioteca da Universidade do Arizona: “Obras de natureza social e filosófica cujos conteúdos lidam com o Iluminismo científico do Monismo e do Darwinismo primitivo (Häckel)”.[67]

O Darwinismo de Weikart

Um problema decisivo com a tese de Weikart é que ele começa com esta definição demasiado restritiva de “Darwinismo”:

Ao utilizar o termo darwinismo neste estudo, refiro-me à teoria da evolução pela seleção natural como exposta por Darwin em A Origem das Espécies.[68]

É intrigante a razão pela qual Weikart restringe sua definição de darwinismo apenas ao que é encontrado em A origem das espécies (1859), sobretudo porque esse livro não diz absolutamente nada sobre evolução humana ou conflitos raciais. Consequentemente, Weikart precisa empreender uma redefinição contínua de “darwinismo” de forma a incluir outras obras de Darwin e quaisquer outras deturpações do darwinismo que ele for capaz de encontrar. Esta falha de Weikart é ainda mais importante porque ele já criticou outros historiadores reconhecidos por não aderirem às definições que propuseram inicialmente. Por exemplo, numa resenha de um livro escrito por Annette Wittkau-Horgby, Weikart comenta, “Wittkau-Horgby, portanto, não adere à definição de materialismo com que começa…”[69] Para evitar constantemente mover o objetivo definicional proposto para o darwinismo, Weikart poderia te-lo definido de modo mais amplo, e dito “… como exposto por Darwin em suas obras”. Uma vez que, para Weikart, interpretações errôneas das teorias de Darwin ainda contam como “darwinismo”, então ele realmente deveria dizer: “…conforme exposto por Darwin em seus livros e em diversas interpretações de sua obra, sejam esta interpretações corretas ou errôneas.”

A disposição de Weikart em subsumir distorções e deturpações do darwinismo sob o rótulo “darwinismo”, entretanto, não é consistentemente aplicada a outras obras que os nazistas desvirtuaram. Por exemplo, em sua resenha do livro de Richard Steigmann Gall “The Holy Reich“, Weikart comenta: “Vários alemães panteístas utilizaram terminologia religiosa – até mesmo cristã – mas eles muitas vezes a redefiniram.”[70] Assim, quando os escritores nazistas utilizam terminologia panteísta, então eles contam como panteístas, mas quando utilizam terminologia cristã, então eles não são realmente cristãos, mas panteístas. Ao se redefinir o vocabulário cristão, não mais se pode responder pelo Cristianismo, mas redefinir o darwinismo ainda estigmatiza alguém como darwinista. Esta inconsistência lógica é tendenciosa e serve para desviar a responsabilidade do Cristianismo.

Tudo isto é importante porque nenhuma das obras de Darwin, e sobretudo A Origem das Espécies, aborda o antijudaísmo. O antijudaísmo é um componente essencial do nazismo, compartilhado não com as obras de Darwin, mas com o Cristianismo primitivo (por exemplo, João 8:44, Apocalipse 2:9-10). Mais uma vez, mesmo se Darwin possuísse uma agenda antijudaica, a maioria dos alemães não estaria tão familiarizada com as obras de Darwin quanto estavam com a Bíblia.

Racialização dos Judeus

D’Souza afirma que os judeus medievais pelo menos poderiam ter se convertido ao Cristianismo ao passo que a eugenia darwinista dos nazistas racializou os judeus até um ponto em que estes não mais poderiam alterar sua identidade. Como já discuti, isto realmente não faz a menor diferença para a repreensibilidade moral do genocídio baseado na religião ou na etnicidade. Mas a idéia de que os judeus eram uma categoria racial, não somente uma categoria religiosa, já possuía uma longa história no Cristianismo muito antes do surgimento de Darwin.

Considere a idéia hitlerista da “pureza do sangue” (Reinhaltung des blutes). Esta noção não teve início com Darwin, nem sequer foi discutida como tal por Darwin em A origem das espécies. Em vez disso, a terminologia específica de Hitler corresponde muito de perto à terminologia católica espanhola (limpieza de sangre/”limpeza ou pureza do sangue”) aplicada contra os judeus na Espanha. Em particular, Juan Martinez Siliceo, o arcebispo de Toledo, propôs em 1547 uma legislação baseada muito especificamente sobre esta noção de limpieza de sangre.[72] Normas decretadas em Toledo em 1449 também se concentraram na pureza do sangue como um meio para discriminar os judeus que haviam se convertido mas não eram espanhóis  “de sangue”.

Como até mesmo os estudiosos judeus observaram, diversos personagens bíblicos podem ser interpretados como defensoras de práticas eugênicas séculos antes que o termo fosse inventado. O rabino Max Reichler, um dos autores de Eugenia judaica e outros ensaios, nos diz:

Certamente a eugenia como ciência dificilmente poderia ter existido entre os antigos judeus; mas diversas regras eugênicas de fato foram incorporadas na vasta coleção de leis bíblicas e rabínicas. Na verdade existem indícios inequívocos de um esforço consciente para utilizar todas as influências capazes de aumentar as qualidades inatas das raças judaicas e resguardar contra quaisquer práticas que poderiam conspurcar a pureza da raça ou “prejudicar as qualidades raciais das futuras gerações” seja física, mental ou moralmente… O próprio fundador da raça judaica, o patriarca Abraão, reconheceu a importância de certas qualidades hereditárias, e insistiu que a esposa de seu “único filho amado” não deveria vir “das filhas dos cananitas”, mas da semente de uma linhagem superior.[73]

D’Souza não fornece nada realmente comparável, além de uma referência secundária a Weikart, mostrando que o A origem das espécies de Darwin contenha quaisquer noções de pureza do sangue ou eugenia ainda mais próximas disto. Como as coisas estão, D’Souza aparenta estar confundindo seleção natural, o principal conceito por trás de A Origem das Espécies, com a seleção artifical que foi um componente essencial do nazismo.

Se olharmos para as justificativas racialistas do próprio Hitler, descobriremos que ele invoca a Bíblia, não o A Origem das Espécies, para respalda-lo. Um exemplo é esta passagem do Mein Kampf  a respeito da miscigenação:

… é uma daquelas a respeito do que é dito com tão grandiosa e terrível justiça que os pecados dos pais são vingados até a décima geração… O pecado contra o sangue e a profanação da raça são o pecado original neste mundo…[74].

Mas de onde Hitler tirou a idéia de que a profanação do sangue é um pecado que macula até a décima geração? Não a vemos em nenhuma das obras de Darwin. Mas no livro de Esdras, capítulo 9, versículos 1-2 e 12, lemos:

Acabadas, pois, estas coisas, chegaram-se a mim os príncipes, dizendo: O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, seguindo as abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios, e dos amorreus.  Porque tomaram das suas filhas para si e para seus filhos, e assim se misturou a linhagem santa com os povos dessas terras; e até os príncipes e magistrados foram os primeiros nesta transgressão. (…) Agora, pois, vossas filhas não dareis a seus filhos, e suas filhas não tomareis para vossos filhos, e nunca procurareis a sua paz e o seu bem; para que sejais fortes, e comais o bem da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos para sempre. (Ênfase do autor)

Observe que o objetivo da endogamia é “para que sejais fortes”, o que exemplifica a concepção clássica de eugenia de aprimorar algumas características desejadas através da procriação adequada. Por conseguinte, o Mein Kampf sugere que é a Bíblia, não o A Origem das Espécies, que parece ser a influência mais direta sobre Hitler.

Conflitos raciais são uma parte do Cristianismo

Weikart rotula como particularmente darwiniana a noção da história como uma luta racial. Weikart tem utilizado repetidamente a seguinte citação de A Descendência do Homem para respaldar esta tese controversa:

Em algum período futuro, não tão distante que não possa ser medido por séculos, as raças civilizadas do homem irão certamente exterminar e substituir as raças selvagens pelo mundo afora.[76]

Mas esta passagem está descontextualizada. O contexto apropriado é um lamento por esta extinção – não um endosso dela. Este lamento é ainda mais evidente quando se lê o que vem em seguida, onde Darwin observa que, de fato, “”os selvagens não eram tão afetados pelas nações invasoras clássicas” até que as civilizações modernas (não as raças modernas) as usurpassem, uma vez que nas eras clássicas “não há esse tipo de queixa entre os escritores clássicos a respeito de uma possível destruição dos valores dos bárbaros”[77]. Consequentemente, Darwin acreditava que tecnologias e culturas superiores, não sangue inferior, eram os responsáveis pelo extermínio das “raças selvagens”.

E a concepção da história como uma luta entre raças é um componente muito importante da história cristã. Já em 1853, e alguns anos antes da publicação de A Origem das Espécies, George Fitzhugh, o advogado americano pró-escravidão, havia articulado a noção de conflito racial numa matriz de sobrevivência dos mais aptos quando disse:

Os membros do Congresso do Partido Jovem Americano, orgulhem-se do fato de que a raça anglo-saxã está manifestamente destinada a devorar as outras raças, assim como o capim-açu destrói e toma o lugar de outras plantas rasteiras.[78]

E ao contrário da afirmação de Weikart de que a orientação espiritual do judeocristianismo resistiu a tais idéias racialistas, Robert Knox, o famoso escritor racialista escocês, declarou:

Agora, esteja a Terra superpopulada ou não, uma coisa é certa, os fortes sempre irão se apoderar das terras e das propriedades dos fracos. Estou convicto de que esta conduta não é, em absoluto, incompatível com a mais elevada moral e mesmo com o sentimento cristão.[79]

Com efeito, John Campbell, um escritor cristão favorável à escravidão, viu a luta racial como um componente essencial da história da humanidade, e ele cita Knox em seu ensaio de 1851, “Negro-Mania“:

O antagonismo das raças opera por si próprio  em toda situação em que duas raças são colocadas em colisão, seja pela extinção rápida ou lenta da raça mais frágil e inferior (…) Knox nos mostrou que em todos os lugares o sangue branco atropela e extermina as raças mais escuras.” O Saxão (ele observa) não se associará com qualquer raça escura, tampouco lhe permitirá manter qualquer acre de terra no país que vier a ocupar … Não há nada que negue o fato de que o Saxão – chame-lhe pelo nome que desejar – possui o mais perfeito horror por seus irmãos mais escuros”.[80]

Em geral, Weikart parece beatificamente ignorante da abundância de literatura racialista cristã pré-nazista que mostraria que o nazismo aboslutamente não representa nenhuma ruptura da história cristã.

Conclusão

D’Souza fracassa de maneira espetacular em seus esforços para pintar o nazismo como uma “filosofia antirreligiosa” responsável por dez milhões de mortes. Primeiro, D’Souza não fornece quase nenhuma documentação para suas alegações, e o que ele de fato oferece vem em sua maior parte de fontes secundárias. Ele aparentemente é incapaz de ler fontes alemãs primárias na língua original. Ele também confunde quaisquer esforços contra o Cristianismo organizado com antirreligiosidade. Mas mesmo nas Conversações Íntimas, uma fonte questionável utilizada por D’Souza, Hitler deixa claro que ser contra o Cristianismo não é o mesmo que ser contra a crença em Deus.

A prestidigitação numérica de D’Souza simplesmente oculta o fato de que tanto a moralidade teísta quanto a não-teísta podem resultar em genocídios. Quaisquer diferenças no número de mortes é mais um acidente histórico do que uma diferença num princípio que pode justificar o assassinato de grupos baseado na etnicidade, na raça, na nacionalidade ou na religião. Pelos padrões das Nações Unidas, os genocídios cometidos pelos cristãos são tão reprováveis quanto os cometidos pelos maoístas ou pelos estalinistas porque todos eles dedicaram-se igualmente ao extermínio de 100% de seus respectivos grupos alvo.

Mas o mais significativo problema com o argumento de D’Souza é sua conveniente amnésia acerca da longa história do antijudaísmo cristão que precede em séculos o nascimento de Darwin ou Hitler. O clamor pelo extermínio dos hereges e judeus na França pelo Papa Inocente III na Idade Média não precisou do darwinismo. E o criminoso plano de sete pontos de Lutero, que é praticamente idêntico ao do nazismo, demonstra além de qualquer dúvida que o darwinismo certamente não foi “necessário” para se chegar à ideologia nazista (veja o quadro abaixo). O nazismo, na verdade, foi muitíssimo facilitado por  uma longa tradição de antijudaísmo cristão.

UMA COMPARAÇÃO DAS POLÍTICAS ANTIJUDAICAS DE HITLER E AS POLÍTICAS DEFENDIDAS EM NAS OBRAS DE MARTINHO LUTERO E CHARLES DARWIN

Notas.

1. Dinesh D’Souza, A Verdade sobre o Cristianismo, pág. 215. (Thomas Nelson Brasil – Rio de Janeiro – 2008).

2. D’Souza, A verdade, p. 215. D’Souza está respondendo especificamente aos argumentos de Sam Harris, A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão (Companhia das Letras, 2009); Daniel Dennett, Quebrando o Encanto – A religião como um fenômeno natural (Ed. Globo, 2007); e Richard Dawkins, Deus, um delírio (companhia das Letras, 2007).

3. D’Souza, A verdade, p. 214.

4. Hector Avalos, Fighting Words: The Origins of Religious Violence (Amherst, NY: Prometheus Books, 2005), pp. 325-34.

5. Vejam sobretudo Tatiana A. Chuinachenko, Church and State in Soviet Russia. Russian Orthodoxy from World War II to the Krushchev Years, trans. Edward E. Roslof (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2002).

6. Richard Weikart, From Darwin to Hitler Evolutionary Ethics Eugenics, and Racism in Germany (New York: PalgraveMacmillan, 2004).

7. Um sumário das convenções da Nações Unidas sobre Direitos Humanos pode ser lido em: http://www.hrweb.org/legal/undocs.html#CAG.

8. Para discussões recentes sobre teorias da etnicidade, veja Richard H. Thompson, Theories of Ethnicity: A Critical Appraisal (New York: Greenwood Press, 1989). Para o antigo Israel, veja Kenton Sparks, Ethnicity and Identity in Ancient Israel – Prolegomena to the Study of Ethnic Sentiments and Their Expression in the Hebrew Bible (Winona Lake: IN: Eisenbrauns, 1998).

9. Veja também, Solomon Grayzel, The Church and the Jews in the XIIIth Century (New York: Hermon Press, 1966); Kenneth R. Stow, Catholic Thought and Papal Jewry Policy, 1555-1593 (New York: Jewish Theological Seminary of America, 1977).

10. Stow, Catholic Thought, p. 295; Latin (p. 291): quos propia culpa perpetua servituta submisit.

11. D’Souza, A verdade, p. 208.

12. Jose M. Sanchez, Pius XII and the Holocaust- Understanding the Controversy (Washington, DC: Catholic University of America Press, 2002), p. 70.

13. Martinho Lutero, “Dos judeus e suas mentiras,” trad. Martin H. Bertram in Luther’s Works: The Christian in Society IV, ed. Franklin Sherman (Philadelphia, PA: Fortress Press, 1971), pp. 268-72.

14. Martinho Lutero, “Dos judeus,” p. 268 n. 173. Veja também William Montgomery McGovern, From Luther to Hitler: The History of Fascist Nazi Political Philosophy (Cambridge, MA: Houghton Mifflin, 1941).

15. Adolf Hitler, Mein Kampf, trad. Ralph Manheirn (Boston: Houghton Mifflin, 1971), p. 213; German (p. 232): Neben Friedrich der Grossen stehen bier Martin Luther sowohl als wie Richard Wagner. Utilizamos a edição alemã Adolf Hitler, Mein Kampf (Munchen: Muller, 1938). Doravante, esta fonte será referida como “Alemã (nº da pág.).”

16. Sobre o Concílio de Elvira, veja Louis H. Feldman, Jew and Gentile in the Ancient World- Attitudes and Interactions from Alexander to Justinian (Princeton: Princeton University Press, 1993), pp. 373, 380, 398.

17. Para um ponto de vista de um erudito católico sobre este período, especialmente à luz do Vaticano II, veja Edward A. Synan, The Pope and the Jews in the Middle Ages (New York: Macmillan, 1965).

18. John Y. B. Hood, Aquinas and the Jews (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1995), p. 25.

19. Veja Robert Chazan, In the Year 1096 The First Crusade and the Jews (Philadelphia, PA: Jewish Publication Society, 1996), p. 129.

20. Shlomo Eidelberg, The Jews and the Crusaders: The Hebrew Chronicles of the First and Second Crusades (Madison: University of Wisconsin Press, 1977), p. 31.

21. D’Souza, A verdade, p. 218.

22. Grayzel, The Church and the Jews, p. 133; Texto latino na p. 132. Inocente (Grayzel, The Church and the Jews, pp. 92-93) paradoxalmente também endossa a idéia agostiniana de manter alguns judeus vivos como um símbolo da descrença, ele também acreditou que “não se deveria destruir os judeus completamente” (em latim: ne deleveris omnino Judeos). Sobre esta idéia posterior, veja Jeremy Cohen, Living Letters of the Law: Ideas of the Jew in Medieval Christianity (Berkeley: University of California Press, 1999).

23. Para este aspecto do nazismo, vejam Gotz Aly, Peter Chroust, e Christian Pross, Cleansing the Fatherland Nazi Medicine and Racial Hygiene, trans. Belinda Cooper (Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 1994).

24. Paul R. Sweet, ed., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos arquivos do Ministério do Exterior alemão (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series C, vol. 1, p. 347.

25. Guenter Lewy, The Catholic Church and Nazi Germany (New York: De Capo Press, 2000), p. 51.

26. Hitler, Mein Kampf, p. 65 / Alemã (p. 70): So glaube ich heute im Sinne des allmachtigen Schopfers zu handeln: Indem ich mich des ,juden erwehre, kampfe ich fur day Werk des herrn.

27. D’Souza, A verdade, p. 217.

28. Ibid.

29. Hitler, Mein Kampf, p. 562 / alemã (p. 630): Denn Gottes WillegabdenMen- sehen einst ihre Gestalt, ihr Wesen and ihre Fahigkeiten. Wer sein Wert zerstort sagt damit der Schopfung des hernn, dem gattlichen Wollen, den kampf an.

30. Sweet, Documents on German Foreign Policy, series C, vol. 1, p. 347.

31. D’Souza, A verdade, p. 217.

32. Richard Steigmann-Gall, The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity, 1919-1945 (Cambridge: Cambridge University Press, 2003), p. 221. Para um estudo da  receptividade ao antijudaísmo pelas populações alemãs, veja Daniel Goldhagen, Hitler’s Willing Executioners.- Ordinary Germans and the Holocaust (New York: Little, Brown, 1996).

33. Alfred Rosenberg, Das Parteiprogramm: Wesen, Grundsatze and Ziele der NSDAP (Munich: Zentralverlag der NSDAP, 1922 [25th edition, 1943]), p. 13: Die Partei als solche vertritt den Standpunkt eines positiven Christentums, ohne rich konfessionell an ein bestimmtes Bekenntnis zu binden. Sic bekampft den judisch-materialistischen Geist… .

34. Alfred Rosenberg, Der Mythus des 20, Jahrhunderts: Ewe Wertung der seeliseh- geistigen Gestaltentkampfe unserer Zeit, (‘Munchen: Hoheneichen Verlag, 1938). Steigmann-Gall (The Holy Reich, pp. 92-93) defende que o livro de Rosenberg não recebeu muita atenção dentro do Partido Nazista. Entretanto, Albert Speer (Inside the Third Reich, trad. Richard e Clara Winston [New York: Macmillan, 1970], p. 115), o arquiteto pessoal de Hitler, diz que  “o público considerava o livro como o texto de referência para a ideologia do partido”.

35. Rosenberg, Der Mythus, p. 74.

36. Ibid., p. 78: Das positive Christentum gegenuber dem negativum der auf der etrusco-asiatische Vorstellung zuruckgehende Priesterherrschaft and des Hexenwahns.

37. Alfred Rosenberg, Race and Race History and Other Essays, ed. Robert Pois e trad. Jonathon Cape (New York: Harper & Row, 1970), p. 180.

38. Veja Harry M. Orlinsky, “Nationalism-Universalism and Internationalism in Ancient Israel,” in Translating and Understanding the Old Testament Essays in Honor of Herbert Gordon May, eds. Harry Thomas Frank and William L. Reed (Nashville, TN: Abingdon, 1970), pp. 206-36, especially pp. 210-11.

39. Rosenberg, Der Mythus, p. 75. My translation of the German: Gegen these gesamte Verbastardierung, Verointalisierung and Verjudung des Christentums wehrte rich bereits day durchaus noch aristokratischen Geist atmende johannes evangelium. A edição de Robert Pois (Race and Race History and Other Essays, p. 70) traduziu johannes evangelium como “ensinamentos evangélicos de São João,” que obscurece as referências mais específicas ao livro que chamamos de Evangelho de João.

40. Para imagens de sinais de trânsito nazistas com este versículo, veja Robert P. Ericksen e Susannah Heschel, Betrayal – German Churches and the Holocaust (Minneapolis, MN: Fortress Press, 1999), fig. 6.

41. Para uma história do cânone e do marcionismo entre os anabatistas, veja meu artigo “The Letter Killeth: A Plea for Decanonizing Violent Biblical Texts,” Journal of Religion, Conflict, and Peace 1, no. 1 (Outono 2007): http://www.plowshares project.org/journal/php/article.php?issu_list_id=8&article_list_id=22.

42. D’Souza, A verdade, p. 217.

43. Frederic W. Farrar, The Life of Christ as Represented in Art (London: Adam and Charles Black, 1901), p. 84.

44. Veja também, Susannah Heschel, An Aryan Jesus. Christian Theologians and the Bible in Nazi Germany (Princeton: Princeton University Press, 2008).

45. Minha citação vem das minutas de uma reunião do governo nazista ocorrida em 14 de Julho de 1933. Minha fonte é Walther Hofer, ed., Der Nationalsozialismus.• Dokumente 1933-1945 (Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag, 1976), p. 130.

46. Mit Brennender Sorge, disponível em http://www.newadvent.org/library/docs_pi11mb.htm.

47. Telegrama de Diego von Bergen para Eugenio Pacelli conforme preservado em Raymond James Sontag et al., eds., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos Archives of the German Foreign Ministry (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series D, vol. 1, p. 991.

48. Veja Richard Phayer, The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965 (Bloomington: Indiana University Press, 2000), p. 45.

49. Veja Richard Carrier, “Hitler’s Table Talk: Troubling Finds,” German Studies Review 26, no. 3 (2003): 561-76.

50. Para uma história dos Diários de Hitler, veja Charles Hamilton, The Hitler Diaries: Fakes That Fooled the World (Louisville: University Press of Kentucky, 1991) e Robert Harris, Selling Hitler (New York: Pantheon Books, 1986).

51. Steigmann-Gall, The Holy Reich, pp. 243-60.

52. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 573.

53. Speer, Inside the Third Reich, p. 113.

54. Ibid., p. 114.

55. D’Souza, A verdade, p. 218.

56. Ibid., p. 327 n. 12.

57. Hermann Rauschning, ed., Hitler Speaks: A Series of Conversations with Adolf Hitler on His Real Aims (London: Thornton Butterworth, 1939; Reprint: Whitefish, MT: Kessinger, 2007), p. 63. Sobre a confiabilidade desta fonte, veja SteigmannGall, The Holy Reich, pp. 28-29.

58. H. R. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, 1941-1944: His Private Conversations (London: Phoenix Press, 2000), p. 59.

59. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 61.

60. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” págs. 566-72 (todas as quatro declarações aparecem na entrada datada da tarde de 27 de Fevereiro de 1942, no original alemão).

61. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 76. Hitler rotineiramente igualou “bolchevismo” e “judaísmo”. Ele também acreditava que Jesus foi um ariano cuja mensagem verdadeira foi corrompida pelo judeu Paulo (Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 572).

62. Veja também, Peter A. Dykema and Heiko Oberman, eds., Anticlericalism in Late Medieval and Early Modern Europe (Leiden: Brill, 1993), que também discute vários conflitos entre protestantes e católicos.

63. Diego von Bergen, o embaixador alemão no Vaticano, relatou especificamente que o Papa temia que “uma ‘terceira’ fé está sendo organizada e encorajada” em adição ao catolicismo e às fés evangélicas (Documentos sobre a política externa alemã, série D, vol. 1, p. 988). Isto mostra que o Vaticano via a religião nazista como uma fé concorrente, e não como “ateísmo”, um termo que ocasionalmente também aplicado a fés concorrentes.

64. D’Souza, A verdade, p. 219; Richard Weikart, From Darwin to Hitler. Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany (New York: Palgrave, 2004).

65. Para minha críticas a Weikart, veja “Avalos contra Weikart: Part I: General Problems with Dr. Weikart’s Methods“; e “Avalos Contra Weikart: Part II: Weikart’s Seven Darwinian Aspects of Nazism“. See also Sander Gliboff, H. G. Bromm, Ernst Haeckel, and the Origins of German Darwinism: A Study in Translation and Transformation (Cambridge, MA: MIT Press, 2008).

66. Denise O’Leary, “Post-Details: Expelling the Outrage: Hitler and Darwinism“(accessado em 3 Julho de 2009).

67. “Guidelines from Die Bucherei,” 2:6, 1935, p. 279.

68. Weikart, From Darwin to Hitler, p. 9.

69. Richard Weikart, “Review of Annette Wittkau-Horgby, Materialismus: Enstehung and Wirkung in den Wissen.rchaften des 19. Jahrhunderts (Gottingen: Vande- hoek and Ruprecht, 1998),” German Studies Review 24, no. 3 (October 2001): 610.

70. Richard Weikart, “Review of Richard Steigmann-Gall’s The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity,” German Studies Review 27, no. 1 (February 2004): 175.

71. Veja Mein Kampf, p. 312: “manter seu sangue puro” / versão alemã (p. 342): Rein- haltung seines Blutes.

72. Veja também, Linda Martz, “Pure Blood Statutes in Sixteenth-Century Toledo: Implementation as Opposed to Adoption,” Sefarad 61, no. 1 (1994): 91-94; Albert Sicroff, Los estatutos de limpieza de sangre.: Controversial entre los siglos xvy xvii (Madrid: Taurus, 1985); Henry Kamen, The Spanish Inquisition.A Historical Revision (London: Weidenfeld and Nicolson, 1997), sobretudo págs. 242-54; Henry Kamen, Philip of Spain (New Haven, CT: Yale University Press, 1997), pp. 33-34.

73. Max Reichler, Jewish Eugenics and Other Essays (New York: Bloch, 1916), pp. 7-8.

74. Hitler, Mein Kampf, p. 249.

75. Ibid., p. 286.

76. Weikart, From Darwin to Hider, p. 186.

77. Charles Darwin, A origem do Homem e a Seleção Sexual, (Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2004 [1874]), p. 135 (contexto: págs. 125-143). Veja também Patrick Brantlinger, Dark Vanishings: Discourse on the Extinction of Primitive Races 1800-1930 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 2003).

78. George Fitzhugh, “Sociology for the South or the Failure of Free Society,” em Antebellum Writings of George Fitzhugh and Hinton Rowan Helper on Slavery, ed. Harvey Wish (New York: Capricorn Books, 1960 [reprint of 1854 edition]), p. 61.

79. Robert Knox, The Races of Men (Philadelphia, PA: Lea & Blanchard, 1850), pp. 38-39.

80. John Campbell, “Negro-Mania,” in E. N. Elliott, Cotton Is King and ProSlavery Arguments: Comprising the Writings of Hammond, Harper Christy, Stringfellow, Hodge, Bledsoe, and Cartwright, on This Important Subject (Augusta, GA: Pritchard, Abbott and Loomis, 1860), p. 520.

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Título Original: O Cristianismo Não Foi Responsável Pela Ciência Moderna

Fonte: The Christian Delusion, págs. 396-419 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2010 )

Autor: Richard Carrier, PhD

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Richard Carrier é um autor e conferencista de renome mundial. Como historiador profissional, filósofo em atividade e um defensor destacado do movimento de livres-pensadores norte-americano, o Dr. Carrier já participou de eventos e programas televisivos em todo o país defendendo sólidos métodos de investigação histórica e a visão de mundo ética do naturalismo secular. Seus livros e artigos também tem recebido atenção internacional. Ele possui um título de Ph.D. em História Antiga pela Columbia University, especializando-se na história intelectual greco-romana, particularmente filosofia antiga, religião e ciência, com enfâse nas origens do Cristianimso e nos usos e progressos da ciência no Império Romano. Ele é mais conhecido como o autor de Sense and Goodness without God (Sentido e Bondade sem Deus), Not The Impossible Faith (Não A Fé Impossível) e Why I Am Not A Christian (Por que não sou Cristão), e um dos principais colaboradores em The Empty Tomb (A Tumba Vazia), The Christian Delusion (Cristianismo, um Delírio), The End of Christianity (O Fim do Cristianismo) e Sources of The Jesus Tradition (Fontes da Tradição de Jesus), bem como redator e editor-chefe (atualmente emérito) da Secular Web, e por seu volumoso trabalho em história e filosofia, online e impresso. Seu mais recente livro é Proving History: Baye’s Theorem and the Quest for the Historical Jesus. Atualmente, ele trabalha em seus próximos livros, On the Historicity of Jesus Christ, The Scientist in the Early Roman Empire, e Science Education in the Early Roman Empire. De sua autoria, você também pode ler aqui no Rebeldia Metafísica o artigo O Fim da Aposta de Pascal: Por Que A Descrença É A Aposta Mais Segura. Para saber mais a respeito da vida e da obra de Richard Carrier, visite sua página pessoal na internet.

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Conforme demonstrado por uma nova geração de historiadores, sociólogos e filósofos da ciência, a religião bíblica não foi o inimigo da ciência mas antes a matriz intelectual que a possibilitou, em primeiro lugar. Sem os insights fundamentais que o Cristianismo encontrou celebrados na Bíblia e disseminados através da Europa, a ciência jamais teria se desenvolvido… As evidências são incontestáveis: foi a teologia racional tanto da Idade Média Católica como da Reforma Protestante – inspirada pelas verdades implícitas e explícitas reveladas na Bíblia Judaica – que abriram caminho e conduziram às descobertas da ciência moderna.[1]

A crença na racionalidade de Deus não apenas levou ao método indutivo como também à conclusão de que o universo é governado racionalmente por leis passíveis de serem descobertas. Este pressuposto é de importância crucial para a pesquisa científica porque, num mundo pagão ou politeísta, que concebia seus deuses muitas vezes engajados em comportamentos irracionais e emocionalmente arbitrários, atuando num mundo não-racional, qualquer investigação sistemática de tal mundo pareceria fútil e sem sentido. Somente num arcabouço teórico cristão, que postula “a existência de um Deus único, o Criador e regente do universo, [que] funciona de modo ordenado e padronizadamente previsível”, é possível que a ciência exista e opere.[2]

Estas duas citações descrevem sucintamente uma nova ilusão esgueirando-se pelos saguões da academia conservadora: a crença em que o Cristianismo não somente causou a ciência moderna, como também foi, inclusive, necessário para seu surgimento. No estágio em que a fábula se encontra, não somente o Cristianismo nunca esteve em conflito com a ciência e jamais obstruiu-lhe de maneira alguma seu livre curso, como na verdade foi o salvador da ciência, a única visão de mundo capaz de possibilitar sua existência. E esta é a razão pela qual a Revolução Científica eclodiu somente em um lugar: numa sociedade completamente cristã.

Isto é não somente falso em todos os detalhes concebíveis como tão escandalosamente falso, que qualquer um, mesmo um estudioso das mais modestas competências e responsabilidades acadêmicas, deveria estar ciente de sua falsidade. Donde se depreende que os proponentes desta visão, todos os quais reivindicam o título de pesquisadores acadêmicos, devem ou ser constragedoramente incompetentes, ou patologicamente desonestos, ou iludidos além de qualquer esperança de recuperação. Que tantos acadêmicos sejam a tal ponto incompetentes parece improvável. Que eles estejam todos mentindo, mais ainda. Naturalmente, todos já vimos a tática política conservadora de repetir uma mentira tantas vezes, em tantos lugares, com tamanha convicção, e a partir de fontes tão variadas, que todo mundo começa a dar-lhe crédito. Esta pode ser uma destas mentiras. Ou estes intelectuais podem realmente ser tão tresloucadamente incompetentes. Mas estou disposto a conceder-lhes o benefício da dúvida. A ilusão parece-me uma explicação mais provável para o fato tantas pessoas estarem a repetir uma alegação tão demonstravelmente falsa sem jamais serem corrigidas por seus pares.

Uma objeção óbvia a esta alegação delirante é que ela viola um dos mais elementares princípios da causalidade: quando uma causa está presente, seus efeitos são vistos. O Cristianismo dominou completamente todo o mundo ocidental do quinto ao décimo quinto séculos da Era Comum, e ainda assim no decorrer destes mil anos não houve Revolução Científica alguma. Uma causa que fracassa em produzir seus efeitos previsíveis apesar de estar atuando continuamente por mil anos é usualmente considerada refutada, não confirmada. Desculpas esfarrapadas serão apresentadas, alegações de impedimentos, mas nenhuma Revolução Científica tampouco ocorreu na metade oriental do mundo cristão, que não possui nenhuma das escusas do Ocidente. O Oriente nunca foi invadido por bárbaros e permaneceu próspero e desenvolvido por cinco séculos. De qualquer forma, tais pretextos são geralmente negados – a nova moda é insistir que mesmo a Idade Média Ocidental foi caracterizada por um espírito de inovação e um vigor econômico e intelectual inigualáveis. Mas mesmo se você rejeitar isso e aceitar que o Ocidente foi refreado, por que a Revolução Científica  nunca aconteceu no Império Bizantino, tão cristão quanto, e em todos os demais aspectos mais bem sucedido? Aqueles confrontados por este questionamento geralmente reagem denegrindo os bizantinos como sendo de alguma maneira o “tipo errado” de cristãos[3]. Mas uma vez que você enverede por este caminho, a noção de que o Cristianismo é a solução cai fora do quadro. Agora você precisa de um tipo especial de Cristianismo, que evidentemente não é uma consequência inevitável do Evangelho Cristão original. De qualquer maneira, o fato permanece, seja no Oriente ou no Ocidente, tão logo os cristãos dominaram a cultura, nenhuma Revolução Científica sucedeu. Foi necessário esperar mais um milênio.

Portanto, logo de saída, alguma coisa está errada. Talvez você seja capaz de desembaraçar-se desta dificuldade. Não obstante, algumas afirmações associadas a esta nova ilusão são de uma falsidade gritante. Dinesh D’Souza , num livro cuja edição brasileira recebeu o irônico título de “A Verdade Sobre o Cristianismo“, declara com uma convicção inabalável que, de todas as religiões antigas, “somente” o Cristianismo “foi, desde seus primórdios, baseado na razão”, e consequentemente “não existem teólogos” na história de qualquer outra religião[4]. Embora não haja dúvidas de que mesmo um estudante aplicado do ensino médio  saiba que o gregos pagãos inventaram a razão, no sentido exato em que D’Souza emprega o termo, desenvolvendo as ciências formais da lógica, filosofia, matemática e retórica. E não obstante qualquer leitor atento da Bíblia saiba que o Cristianismo foi desde seus primórdios baseado nas escrituras, na inspiração e na revelação, não na “razão”[5]. Se quiser saber como é uma religião realmente baseada na razão, basta olhar as teologias formais dos filósofos greco-romanos. Sim, os pagãos inventaram, também, a teologia[6].

Mas os fatos não são os únicos obstáculos obstruindo a disseminação do boato de que a ciência precisou do Cristianismo. O uso de uma lógica franciscana é outro.

Falácias Comuns

A maioria dos argumentos apresentados para sustentar esta conclusão assentam-se numa série de falácias comuns. Que nenhum esforço seja feito para detecta-las ou evita-las é outro índício de ilusão.

Toda a noção começa com uma mera falácia de correlação: apenas porque a ciência moderna surgiu somente numa cultura cristã ocidental, não se segue que uma cultura cristã ocidental foi sua causa (ou, ainda mais absurdo, que tal cultura tenha sido a única capaz de de produzi-la). Isto é tão falacioso quanto assumir que porque os inventores da geometria formal eram politeístas, o politeísmo foi a causa da invenção da geometria formal, ou, ainda mais absurdo, que somente os politeístas poderiam te-la inventado. Nenhuma destas afirmações possui a menor plausibilidade. O fato de a geometria formal ter sido inventada numa época e local em que a religião dominante era politeísta não passa de um mero acidente histórico. Na maioria dos aspectos o mesmo vale para o Cristianismo e a Revolução Científica.

Nunca levado em consideração, por exemplo, é o fato de no início do segundo milênio qualquer motivo, para ser respeitável em tal matriz cultural demasiado estreita e paranóica, precisava ser articulado em termos amigáveis ao Cristianismo — na verdade, se possível, como se satisfizesse o Cristianismo. Pois qualquer coisa aparentando mesmo remotamente ser anticristã era condenada e seus defensores punidos — socialmente certamente, fisicamente às vezes. Esta não era uma época em que você poderia desfrutar da liberdade de ser um herege ou um ateu, muito menos um pagão ou um apóstata, sem encarar repercussões que poderiam encerrar sua carreira, sua liberdade ou até mesmo sua vida. Tal atmosfera compeliu todos a encontrar maneiras criativas de vender quaisquer novas idéias como perfeitamente cristãs, até mesmo bíblicas, independentemente de seu real motivo ou inspiração. De maneira que a descoberta de argumentos bíblicos ou cristãos para a adoção de novas idéias neste período não confirma que o Cristianismo ou a Bíblia foram a causa destas idéias, mas antes apenas revela a estratégia de marketing exigida para vende-los naquela época.

Outra falácia é a fusão de causas necessárias, suficientes e contribuintes. É possível montar um bom caso para defender que o raciocínio científico foi na verdade um subproduto da teologia pagã primitiva[7]. Mas mesmo assim, ninguém concluiria a partir disso que o paganismo foi necessário. Eu seria capaz de apontar diversos aspectos da religião pagã que contribuíram para o surgimento da ciência, (sua confiança na razão e nas evidências em detrimento da autoridade institucional e escritural, seu interesse devotado na natureza e nas estrelas), mas disso não segue que somente o paganismo possua estes atributos. Sequer pode-se afirmar com segurança que eles sejam todos necessários. O paganismo greco-romano poderia ter sido uma causa suficiente ou apenas contribuinte da ciência antiga, mas dificilmente foi uma causa necessária; e ele pode ter provido valores que ajudaram a ciência a se desenvolver, mas dos quais a ciência poderia ter prescindido, ou que outras visões de mundo poderiam igualmente ter encorajado. Assim como, também, o Cristianismo.

Finalmente, com demasiada frequência os promotores desta nova ilusão repetidamente confundem razão (entendida como o uso da lógica para se alcançar a consistência) com raciocínio científico (a testagem de previsões a partir de suas hipóteses contra as evidências, utilizando um método que investiga e controla agressivamente erros empíricos e falácias, e a coleta e o registro de fatos reais sobre o mundo pela observação e confirmação deles). Ou eles confundem “ciência” entendida como métodos, pesquisas e progresso científicos, com “ciência” no sentido de transmissão e utilização da ciência anterior na prática profissional (como fazem os médicos, astrônomos e engenheiros) sem nenhum esforço significativo para aprimora-la (além de revisões de escritório ou a diminuição da margem de erro das mensurações). Muito frequentemente evidências de um serão aliciadas como evidências da outra. Mas isto é uma falácia de equívoco. A “ciência” pode persistir sem a ciência, e de fato indiscutivelmente sobreviveu no Cristianismo medieval, assim como a razão poderia ser louvada e buscada ao passo que o raciocínio científico dificilmente seria visto, como também foi nitidamente o caso ao longo da maior parte da Idade Média.

Fantasias Históricas

Um argumento bem construído poderia talvez evitar estas falácias. Mas neste caso você tem que encarar os fatos de frente. E ninguém o faz. A noção de que a ciência precisou do Cristianismo possui diversos autores, mas sua formulação mais plenamente desvairada parece ter se originado de um  físico católico devoto, o padre Stanley  “A atitude da Igreja para com a Ciência foi muito benéfica” Jaki[8]. Ela então se infiltrou na mentalidade conservadora cristã, e é muitas vezes representada como o novo consenso na história da ciência (embora não o seja)[9]. Rodney Stark é provavelmente seu melhor representante [Nota do Tradutor: Outro de seus representantes mais conhecido do público brasileiro é Thomas Woods Jr., autor da obra-prima da desinformação e distorção histórica Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental). Ele sumariza os argumentos de Jaki mais sucinta e inteligivelmente do que o próprio Jaki, e ao contrário da maioria, Stark pelo menos tenta citar suas fontes. De modo que examinarei sua versão do argumento[10]. Stark já foi criticado alhures[11]. Mas não ainda por um especialista em ciência antiga e Cristianismo.

Fantasia Histórica Número 1: “Nenhuma Ciência Real Existiu Na Antiguidade

Rodney Stark é um excelente sociológo mas um historiador fajuto. Ele não possui nenhum treinamento formal no exercício da profissão de historiador, ou em história antiga em particular. Na verdade, nenhum dos defensores desta teoria possui. Mas é desnecessário citar a falta de credenciais. A incompetência de Stark é exposta de maneira decisiva numa única sentença: “O conhecimento grego estagnou em virtude de sua própria lógica interna. Após Platão e Aristóteles, pouquíssimo aconteceu além de alguns progressos da geometria”[12]. Que a Universidade de Princeton tenha publicado um livro contendo esta sentença permanece uma das coisas mais aterradoras com que me deparei em minha carreira (e pode não ser uma mera coincidência que Stark tenha publicado seu livro seguinte pela Random House).

A verdade é que os gregos e os romanos alcançaram progressos contínuos e formidáveis na ciência e na matemática após Aristóteles. A geração de Aristóteles marcou apenas o começo da história da ciência antiga – quase todas as descobertas espetaculares dos antigos ocorreram após esta geração. E eles descobriram um bocado[13]. De modo que numa única sentença Stark passou uma borracha em toda a história da ciência antiga. Contudo, seu argumento por inteiro está assentado nesta sentença. Tivesse ele feito o que qualquer pesquisador acadêmico é obrigado a fazer, e averiguado de fato a historiografia corrente sobre a ciência antiga, ele saberia que esta premissa chave, e consequentemente o argumento assentado por inteiro sobre ela, é de uma estupidez atordoante. Já no tempo de Aristóteles, em meados do 4º século AEC, existiram vários cientistas importantes, de Hipócrates e Eudózio a Calístrato, Arquitas e Aristoxenos, os quais Stark demonstra ignorar por completo. Mas depois disso, até o fim do segundo século da Era Comum, sou capaz de verificar os nomes de mais de cem cientistas que publicaram suas obras, cujas obras em sua maioria não foram preservadas pelos cristãos medievais[14]. Stark não exibe o menor conhecimento de qualquer deles, ou – nem mesmo daqueles cujas obras foram preservadas.

Eis uma pequena amostra…

Aristóteles realizou inúmeras experiências de dissecação e vivissecção na anatomia e fisiologia animal e produziu a maior coleção científica de obras zoológicas até então. Imediatamente após isso, seu sucessor Teofrasto ampliou seu trabalho à botânica e à fisiologia das plantas, e também produziu as primeiras obras científicas em pirologia, mineralogia e outras áreas. Seu sucessor, Estratão de Lâmpsaco, extendeu seu método experimental à engenharia e à física, período em que diversas das teorias físicas de Aristóteles foram modificadas ou abandonadas. No terceiro século AEC um instituto de pesquisa foi instaurado em Alexandria, no Egito, onde Tecíbio e Filo completaram os primeiros trabalhos científicos de que se tem notícia sobre pneumática (o estudo do comportamento do ar e da água); Erastótenes inventou a ciência da cartografia e foi um dos primeiros cientistas na história a medir o diâmetro da Terra (com uma margem de erro de apenas 15 por cento!) e a analisar o efeito da lua sobre as marés; e Herófilo e seu pupilo Erasístrato deram origem à neurofisiologia, estabelecendo a partir de experimentos detalhados que a mente é uma função do cérebro e que funções mentais específicas são controloadas por regiões específicas do cérebro, e eles distinguiram os nervos motores dos nervos sensoriais e os mapearam ao longo do corpo. De um modo geral, seus estudos do corpo humano e de seus ossos, músculos e órgãos, foram tão minuciosos e abraangentes que até hoje fazemos uso de sua terminologia anatômica.

Na Sicília, seu colega Arquimedes estava ocupadíssimo aprimorando a mecânica e a hidrostática, e descobrindo, descrevendo ou explicando as primeiras leis matemáticas da física. Não muito depois disso, Aristarco começou a medir as distâncias entre a lua, o sol e os planetas (com valores gradativamente refinados nos séculos eguintes), e propôs a primeira teoria heliocêntrica. Em Rodes um século depois, Hiparco descobriu e mediu a precessão celestial (a rotação do Zodíaco ao longo de um período de 25800 anos), observou a primeira supernova, estabeleceu os primeiros mapas celestes detalhados, fez numerosos avanços na teoria planetária, e desenvolveu o primeiro sistema científico de previsão de eclipses solares e lunares. Seleuco da Babilônia descobriu o efeito do sol sobre as marés, não apenas o da lua, desenvolvendo a primeira teoria matemática lunissolar das marés. Então, nos primeiros anos do Império Romano, as realizações da ciência antiga atingiram seu clímax, produzindo obras não superadas até a Revolução Científica: Dioscórides na botânica, mineralogia e farmacologia; Hero na mecânica, pneumática e robótica teatral; Ptolomeu na astronomia, cartografia, ótica e harmonia, e Galeno na anatomia, fisiologia e medicina. Para nomear apenas alguns. Muitos mais houveram cujas obras estão agora perdidas, avançando áreas tão diversas como a apiologia e a oceanografia, passando pela hidrostática e a vulcanologia.

Nenhum deles esteve enclausurado por qualquer “matriz teórica fossilizada inalterável” recebida de Aristóteles[15]; ao contrário, todos os pressupostos de sua física foram livremente debatidos e revisados. Os heliocentristas debateram com os geocentristas estáticos e dinâmicos; teorias da inércia, da pressão e da gravitação universal competiram com as teorias aristotélicas dos lugares naturais, teorias dos raios óticos competiram com teorias corpusculares da luz, e assim por diante[16]. Por volta do período romano, a conclusão de Aristóteles de que os cometas eram um fenômeno atmosférico perdeu terreno para a concepção correta de que eles eram corpos planetares descrevendo órbitas exageradamente excêntricas; Hiparco desenvolveu uma teoria cada vez mais verossímil da balística e refutou a crença de Aristóteles de que os céus nunca mudam; Herófilo refutou a teoria aristotélica de que a alma residia no coração, com experimentos acurados provando que todos os pensamentos e sensações aconteciam no cérebro – uma conclusão reforçada por Galeno com um estudo detalhado do sistema vocal, demonstrando que o cérebro controla a fala humana; Hero refutou experimentalmente a tese de Aristóteles de que o vácuo era impossível, e provou que o vento era ar em movimento, que o ar aquecido se expande e ascende, e que o ar frio se contrai e desce; e Ptolomeu abandonou a suposição de Aristóteles de que as órbitas planetárias precisavam ser concentricamente circulares e suas velocidades constantes. Até mesmo a teoria de Aristóteles de uma divisão fundamental entre os domínios celestial e sublunar foi largamente desafiada e rejeitada diversas vezes pelos naturalistas subsequentes, junto com quase todos os outros aspectos duvidosos de sua física original.

Os mais importantes progressos na lógica também ocorreram após Aristóteles[17], assim como nos conceitos matemáticos e físicos, a tal ponto que quase tudo cuja autoria é creditada aos intelectuais da Idade Média na verdade já havia sido concebido na Antiguidade. Por exemplo, o que conhecemos atualmente por Navalha de Ockham já era uma heurística metodológica padronizada[18]. Mesmo os “alguns progressos na geometria” esnobados por Stark incluem cônicas avançadas, trigonometria plana e esférica, e os rudimentos do cálculo. Eles ainda foram além da geometria, desenvolvendo a análise combinatória e um forma primitiva de álgebra multivariada. Todavia, os cristãos medievais mostraram tamanho desinteresse nestas realizações matemáticas que alguns de seus registros foram escassamente preservados, enquanto outros foram literalmente apagados dos livros para ceder espaço a hinos de louvor a Deus[19]. Na verdade, sob o domínio cristão quase todas as realizações científicas dos antigos foram esquecidas no Ocidente e ignoradas no Oriente, ou sobreviveram apenas em caricaturas simplistas. Os poucos livros que foram copiados o suficiente para sobreviver o foram, sob qualquer ponto de vista, rara ou escassamente copiados, muitas vezes não compreendidos, e nunca aprimorados substancialmente por aproximadamente mil anos.

Como resultado, por vários séculos os cristãos sequer souberam que cientistas posteriores a Aristóteles expandiram significativamente o método experimental e começaram a confirmar as leis matemáticas da física, que foram preditivamente bem sucedidas, tecnologicamente úteis e completamente mecânicas. As primeiras leis matemáticas corretas provavelmente antecederam Arquimedes, mas seus tratados sobre a estática e a hidrostática são os registros mais antigos que possuímos delas. A esta altura, os cientistas sabiam que as alavancas obedeciam à lei D1W1=D2W2 (expressa geometricamente), e que os objetos flutuam não porque (como Aristóteles supusera) possuíam uma “natureza flutuativa”, eles flutuam porque suas densidades são menores do que a da água circundante, de modo que a água mais pesada empurra para cima o objeto flutuante, com uma força cujo valor resulta exatamente da diferença matemática entre suas densidades, e que mesmo os objetos que afundam tornam-se mais leves, por uma diferença exatamente igual ao peso da água deslocada pelo corpo – que, incidentalmente, refutou a noção de Aristóteles de que a leveza de um objeto era imutavelmente inata. No período romano, as leis corretas da reflexão também foram conhecidas, assim como sua explicação teórica correta (Hero provou que eles resultavam de um princípio de menor esforço), e as leis da refração foram exploradas e aperfeiçoadas com experimentos detalhados. Ptolomeu mediu experimentalmente a diferença entre os índices de refração de materiais como vidro, água e ar, descobriu que o ângulo de refração aumenta com o ângulo de incidência numa relação de proporção direta, e tentou descobrir uma lei matemática da refração. Medições precisas desempenharam um papel até mesmo na fisiologia, permitindo a Galeno provar a teoria correta da função renal (e explicar o sistema renal por inteiro) com uma série de experimentos controlados[20].

Hutchinson define a ciência moderna como uma “ênfase na observação e experimentação diretas, medições precisas, e a formulação de leis da natureza”, e vimos que os pagãos antigos possuíam todos estes elementos[21]. Stark define a ciência moderna como “um método empregado em esforços ordenados para formular explicações da natureza, sempre sujeitas a modificações e correções através de observações sistemáticas” tais que “é possível deduzir a partir das explicações resultantes algumas previsões e proibições bem definidas sobre o que será observado”[22]. Isso, também, descreve acuradamente a ciência antiga. Os cientistas da antiguidade desenvolveram e aprimoraram continuamente seus métodos – até o fim: Galeno, Hero e Ptolomeu todos tiveram muito a dizer sobre métodos e seus aperfeiçoamentos. Seus esforços também foram ordenados. O Almagesto de Ptolomeu mostra que os astrônomos compartilharam observações e criaram registros para seus futuros colegas, os livros de Galeno mostram repetidamente médicos cooperando em pesquisas anatômicas e cientistas de todas as áreas debatendo, conferenciando e aconselhando-se mutuamente, e existiram associações científicas formais, incluindo o Museu de Alexandria. E todos eles almejaram produzir explicações da natureza, muitas vezes corrigindo suas teorias com observações sistemáticas e experimentos controlados, e deduzindo a partir de suas teorias previsões exatas do que iria ou não acontecer. A teoria planetária de Ptolomeu era capaz de prever a posição de Marte com uma precisão assombrosa com uma antecipação de 20 anos, e sua lei da refração era quase tão precisa quanto. A teoria de Galeno dos sistemas renal e vocal previu corretamente os efeitos de doenças e lesões específicas, assim como o comportamento normal dos próprios órgãos. Hero foi capaz de prever os benefícios mecânicos exatos de diversas máquinas e o comportamento geral do ar, água e do vapor na presença ou ausência de pressão ou calor. Menelau foi capaz de prever as densidades específicas de diferentes fluidos e sólidos e seus comportamentos em diferentes meios de suspensão. Eu poderia continuar por várias páginas. Todos foram empíricos, todos associaram teoria e prática, e todos testaram pelo menos algumas de suas teorias contra os dados observados. Não obstante, Stark ainda sustenta, com plena convicção, que “enfim, todas as suas realizações foram filosofias não-empíricas, até mesmo anti-empíricas, especulativas, coleções de fatos não-teóricos, e tecnologias e invenções esporádicas – jamais… ciência verdadeira”[23]. Como espero ter deixado perfeitamente claro a esta altura, esta sentença não contém o menor vestígio de qualquer coisa remotamente verdadeira.

Fantasia Histórica Número II: “Os Pagãos Possuíam Um Bloqueio Mental

Sendo o primeiro fato de Stark tão constrangedoramente falso, surpreende que ele não tenha sido banido e escorraçado da comunidade acadêmica. Mas a coisa fica ainda pior: ele enuncia confiantemente razões pelas quais seu primeiro fato é verdadeiro, não obstante seu primeiro fato não ser verdadeiro, refutando, assim, seu segundo – já que se essas causas são obtidas, elas claramente não produzem o efeito previsto. Como, também, quaisquer outras “causas” que outros defensores aleguem para esta estagnação fictícia da ciência antiga.

Todas estas “explicações” equivalem à alegação de que os pagãos sofreram de diversos bloqueios mentais dos quais somente o Cristianismo poderia liberta-los. Stark apresenta três exemplos populares:

Primeiro, suas concepções do divino eram inadequadas para permitir-lhes imaginar um Criador consciente [portanto eles não poderiam conceber leis físicas]. Segundo, eles concebiam o universo não apenas eterno e incriado, mas também encerrado em ciclos intermináveis de progresso e decadência [portanto eles não poderiam imaginar o progresso científico]. Terceiro, condicionados por suas concepções religiosas, eles transformaram objetos inanimados em criaturas vivas dotadas de crenças, desejos, emoções e intenções – desta maneira abortando a busca por teorias físicas.[24]

Mesmo se estas alegações fossem verdadeiras, a teoria de Stark já estaria refutada, pois, como acabamos de ver, a ciência floresceu apesar delas, e Stark defende a tese de que estes três fatos certamente teriam-na obstruído. Como eles não o fizeram, o Cristianismo não pode reivindicar nenhuma vantagem por te-los abandonado. Todavia, da forma como Stark os descreve, estas alegações nem chegam a ser verdadeiras, nem faz qualquer sentido lógico apresenta-los como barreiras à ciência, para começar. Na verdade, eu defendo que eles são tão falsos quanto ilógicos, embora declarados com tamanha convicção, que Stark só pode ser desonesto, incompetente ou iludido. Pois até mesmo a mais rudimentar análise e verificação dos fatos teria destruído todos.

Teologia Pagã

A teologia pagã supostamente é um obstáculo, mas Stark não apresenta uma defesa convincente desta idéia. Ele afirma que certos aspectos da teologia platônica impediram a ciência[25]. Mas como todos os cientistas antigos eram filosoficamente ecléticos com fortes simpatias pelo naturalismo estóico e epicurista, e pelo aristotelismo, corrente antiplatônica desde sua fundação, não era nem mesmo possível que o platonismo impedisse o curso da ciência antiga, mesmo se este abrigasse quaisquer vieses anticientíficos[26].

Mais genericamente, a teologia pagã supostamente impediu a concepção de um universo inteligível governado por leis naturais. Consequentemente, de acordo com Stanley Jaki, apenas o Cristianismo poderia originar a ciência, pois:

A investigação científica encontrou um solo fértil apenas quando esta fé num Criador pessoal e racional impregnou verdadeiramente toda uma cultura, começando com os séculos da Alta Idade Média… [propiciando] a certeza na racionalidade do universo, confiança no progresso, e apreciação do método quantitativo, todos ingredientes indispensáveis da pesquisa científica[27].

Naturalmente, como vimos, a “pesquisa científica” já havia encontrado um terreno fértil na antiguidade pagã. Mas todo o resto aqui também é falso. Os cientistas da Antiguidade já confiavam na racionalidade do universo (como logo veremos), já tinham fé no progresso (como veremos em seguida), e já valorizavam o método quantitativo (como vimos há pouco). Portanto, a alegação de Jaki de que somente o Cristianismo poderia inspirar estas coisas é flagrantemente falsa.

Como outros defensores recentes deste novo delírio, Stark enfatiza o ângulo da “racionalidade do universo”: a menos que você acredite num Criador racional, que criou todas as coisas a partir do nada, você não terá qualquer razão para acreditar que o universo é racional ou se comporta segundo padrões naturais detectáveis. Mas isto é não somente uma falsidade, como um completo absurdo. D’Souza insiste que “o pressuposto” de que “o universo é racional é praticamente impossível de ser provado” e portanto exige uma justificação teológica[28]. Mas que o universo é racional é um fato observado. Então ele não precisa ser provado. Tal crença não demanda nenhuma fé ou teologia porque está assentada por inteiro em evidências. Os pagãos reagiram a esta observação de duas maneiras: exatamente como os cristãos tardios o fizeram, ou exatamente como os ateus contemporâneos o fazem. Nenhuma delas representou qualquer obstáculo à ciência.

Aqueles que não acreditavam no design inteligente tiveram que explicar de onde toda esta ordenação e consistência observada se originou, o que os compeliu à investigação científica, exatamente para descobrir as causas reais. De modo que céticos e panteístas da Antiguidade, como Estratão, Erasístrato, Epicuro ou Asclepiades procuraram explicações na inevitável interação de leis e forças naturais. Eles não utilizaram nossa “lei” metafórica mas outras em seu lugar, como a “necessidade natural” e a “natureza intrínseca” das coisas, mas estas expressões eram equivalentes: objetos flutuam na água, por exemplo, devido à inevitável interação de forças intrínsecas segundo um padrão identificável. Deus algum foi necessário. Nenhuma crença na Criação exigida. Tudo é apenas o resultado de causas naturais. De modo que mesmo o ateísmo não representaria impedimento algum à ciência. Muito pelo contrário, como não há nenhuma outra maneira de os ateus explicarem o que veem, esta postura na verdade acarreta a ciência.

E muito provavelmente, se você não era um ateu, você era um criacionista. A maioria dos intelectuais politeístas acreditava num Criador que ordenara o Cosmos de maneira inteligente, que esta ordenação poderia ser descoberta pela mente humana, e que tal descoberta honraria a Deus. Cientistas como Galeno e Ptolomeu, portanto, foram motivados se engajar na investigação científica por sua piedade religiosa, exatamente como Stark afirma que os cristãos o foram, e exatamente pelas mesmas razões. Em seu monumental Sobre os usos das partes, um atlas de anatomia humana em vários volumes que permanece um das defesas mais empiricamente persuasivas do design inteligente jamais escrita, Galeno enuncia suas motivaçõess pagãs para conduzir toda a pesquisa aplicada meticulosa e exaustiva documentada pelo livro: “Componho este sagrado discurso como um verdadeiro hino em louvor de nosso Criador. E considero que estou realmente mostrando a Ele reverência não quando Lhe ofereço” incontáveis e dispendiosos sacríficos “mas quando eu próprio primeiro aprendo a conhecer Sua sabedoria, poder e bondade e então faço-os conhecidos aos outros”[29]. A maioria dos filósofos concorda. Sêneca afirmou que a investigação científica era um empreendimento piedoso superior aos mistérios sagrados da religião pagã, e Cícero afirmou que Deus realmente nos projetou para buscar o conhecimento científico[30]. Podemos encontrar vários outros exemplos de pagãos declarando motivações teológicas para a investigação científica[31]. De modo que quando D’Souza alega que um “impulso” religioso para buscar a ciência “partiu originalmente do Cristianismo”, podemos ver que isto é uma manifesta falsidade[32] A teologia pagã proporcionou motivação abundante, assim como o ateísmo ou o panteísmo.

Teoria Cíclica do Tempo

A alegação de Stark de que qualquer um que acredite que o mundo está enclausurado em “ciclos intermináveis de progresso e decadência” não pode formar um conceito de “progresso” é ilógica: quem acredita em ciclos de progresso e decadência, obviamente acredita no progresso. Você precisa estar à beira da loucura para não notar uma contradição tão óbvia. Não obstante, Stark insiste irracionalmente que os gregos “rejeitaram a idéia de progresso em favor de um ciclo interminável do ser.”[33] Isto é não somente ilógico como falso.

A crença no progresso científico é tão bem evidenciada na literatura antiga, que surpreende alguém ter tido a audácia de afirmar o contrário[34]. Como Stark foi capaz de afirmar o oposto? Por não ter verificado o estado corrente do conhecimento sobre o tema, ou mesmo suas próprias evidências. Para respaldar esta alegação tudo o que Stark oferece são diversas citações irrelevantes que fracassam em absoluto em demonstrar qualquer conexão entre as teorias do tempo antigas e a crença no progresso. De fato, a noção antiga de ciclos eternos poderia ser baseada numa crença no progresso: presumiu-se a eternidade do universo (na ausência de quaisquer evidências em contrário), mas observou-se que a sociedade não havia alcançado um estágio de perfeição em todas as artes e ciências, mas o teria se estivesse progredindo por um tempo infinito; portanto catástrofes periódicas devem destruir as civilizações e todos os registros de suas realizações, obrigando os homens a recomeçar do zero. Aristóteles acreditou que resquícios de sabedoria oralmente transmitidos sobreviveriam a cada catástrofe, mas todos os registros escritos e conhecimentos avançados teriam se perdido, caso contrário ainda estaríamos de posse deles[35]. Acreditar nisto de maneira alguma implica acreditar que existe qualquer outro término para o progresso além da destruição de sua civilização inteira – ou, naturalmente, do mundo inteiro, cujo fim os cristãos acreditaram ser tão iminente que já deveríamos ter perguntado há mais tempo por que eles, os cristãos, acreditariam no progresso, já que essa idéia lhes teria parecido fútil[36]. Os pagãos pelo menos esperavam vários milhares de anos, até mesmo dezenas de milhares, em que continuar seu progresso.

Consequentemente é notável que o único texto citado por Stark que realmente parece relevante, na verdade diz exatamente o oposto do que ele afirma. Nisto ele pode ter sido enganado por Jaki (que justificativa Jaki teria me escapa por completo), mas penso que o fracasso de Stark em verificar o original é um sintoma ou de incompetência ou de ilusão[37]. Quando Aristóteles diz que todas as coisas “foram reinventadas diversas vezes ao longo do curso das eras, ou antes vezes sem conta,” Stark não somente alega que ele está se referindo à tecnologia, mas que Aristóteles quis dizer “o desenvolvimento tecnológico de sua época havia alcançado seu ápice, impedindo qualquer progresso ulterior”, e (suponho que estas palavras destinam-se a nos fazer inferir que) assim como na tecnologia, igualmente na ciência[38]. Mas aqui está a citação real em seu contexto original:

Parece que não há nenhuma descoberta nova ou recente  entre os filósofos políticos de que o estado deve ser dividido por classes e… ter refeições públicas… De modo que devemos supor que estas e outras coisas foram descobertas inúmeras vezes, por um longo período, ou antes vezes incontáveis. Pois parece que as necessidades da vida ensinam os homens o que é proveitoso em e por si mesmo, enquanto é razoável esperar um aprimoramento e um progresso cada vez maior das coisas estabelecidas no princípio… Portanto, deve-se confiar no que já foi apropriadamente descoberto, mas também ir em busca do que permanece por ser descoberto.[39]

Observem: Aristóteles refere-se exclusivamente à organização política, não à tecnologia, nem a qualquer conhecimento científico de qualquer tipo. Na verdade, ele refere-se exclusivamente a duas invenções políticas em particular: o desenvolvimento de um sistema de classes e de refeições públicas, ambas as quais ele remete às civilizações remotas em Creta, Itália e Egito. Ele conclui apenas que estas (e certamente “outras coisas”) devem ter sido inventadas em todos os lugares porque ele as vê por toda parte, até onde o registro histórico permite. E não há nada sobre a impossibilidade de aprimora-las. Antes, quando ele diz que tais coisas foram inventadas inúmeras vezes, tudo o que Aristóteles quer dizer é que a necessidade é a mãe da invenção, e portanto onde quer que alguma necessidade surja, podemos esperar encontrar homens inventando o que for necessário para supera-las. Aristóteles imediatamente acrescenta que ainda existem muitas coisas a serem descobertas e que deveríamos procurar por elas – exatamente o oposto do que Stark afirma.

De maneira similar, quando Aristóteles diz que “é razoável supor que cada arte e filosofia foi desenvolvida tanto quanto possível e então perdida novamente, inúmeras vezes”, ele não quer dizer que o progresso havia terminado em sua própria época, nem mesmo que terminaria em breve, mas que em cada ciclo as artes progridem o máximo que podem antes que alguma catástrofe global nos arremesse em outra Idade das Trevas, e precisemos recomeçar do zero[40]. Como nenhuma catástrofe do tipo estava no horizonte temporal de Aristóteles, não há indícios de que ele tenha acreditado que sua sociedade havia alcançado o estágio máximo do progresso – ao contrário, como vimos na Política, ele claramente acreditou que ainda havia muito a ser realizado, e até mesmo declarou ser nossa obrigação busca-las. Aristóteles também manifesta sua fé no progresso futuro do conhecimento humano em vários outros contextos[41]. Não existe absolutamente evidência alguma, em Aristóteles ou qualquer outro pagão posterior a ele, de uma crença em ciclos eternos impactando a confiança de qualquer pessoa no valor e na possibilidade do progresso científico. Pelo contrário, dispomos de uma vasta quantidade de evidências de que vários pagãos, especialmente os cientistas, não somente acreditaram em tal progresso, como também trabalharam por ele.

Animismo Pagão

Também nos foi dito que o animismo pagão impediu a ciência. Como Stark coloca, “se objetos minerais são animados, envereda-se por um caminho errado ao tentar explicar os fenômenos naturais – as causas do movimento dos objetos, por exemplo, serão atribuídas a motivos, não a forças naturais”[42]. Isto é completamente falso. Nem Aristóteles nem qualquer outro cientista posterior a ele jamais procurou explicar muitos fenômenos desta maneira, exceto quando obrigatório (como no estudo dos comportamentos humano e animal) e quando os cristãos o fizeram (como na procura pela finalidade e pelo projeto divinos na natureza).

Mais uma vez flagramos Stark deixando de ler suas próprias fontes, e confiando cegamente em Jaki (que não tem tal desculpa). Ambos insinuam que Aristóteles (e todos os pagãos que lhe sucederam) acreditaram que os objetos caíam ao chão “devido a seu amor intrínseco pelo centro do mundo”[43]. Mas em seu livro Sobre os céus Aristóteles argumenta especificamente contra esta explicação. Em vez disso, ele diz que os planetas ou objetos em queda moveriam-se em virtude de tendências inatas fixas – em nossas palavras, por se comportarem em concordância com as leis naturais[44]. Um forte indício de fraude, incompetência ou insanidade mental ocorre quando você afirma que suas fontes dizem exatamente o contrário do que elas realmente dizem, e então baseia sua teoria espalhafatosa por inteiro nesse lapso extraordinário. Houvesse Stark verificado superficialmente as explicações do movimento, ou de qualquer outro comportamento dos objetos inanimados, em Aristóteles ou em qualquer outro filósofo pagão posterior, e teria encontrado o exato oposto do que alega.

Mesmo D’Souza sabe o suficiente para admitir que foram os pagãos, começando pelos pré-socráticos, que deram origem à idéia de “um universo que opera segundo regras detectáveis de causa e efeito” e portanto “substituíram a idéia de um ‘universo encantado’ pela de um cosmos ‘desencantado’ acessível à razão humana desamparada”[45]. D’Souza então afirma que “sua influência foi efêmera”, mas isto é uma falsidade. Longe de ter sido efêmera, ela tornou-se o paradigma entre os filósofos greco-romanos, impulsionando o progresso científico por cinco séculos. Todos os cientistas da Antiguidade procuraram explicar todas as coisas como uma interação de causas naturais, formulando leis matemáticas, explicações mecânicas, e teorias de forças e propriedades naturais fixas. Nenhum procurou explicar qualquer coisa em termos de desejos arbitrários dos objetos físicos. Mesmo a noção de que os deuses governam ativamente o mundo, tornando-o assim caprichoso e imprevisível, foi abandonada em favor de um ordem racional consistente previsível, passível de ser estudada, compreendida e modelada.

Embora inúmeros indivíduos pertencentes à massa iletrada retivessem as antigas concepções animistas, isto era ridicularizado pelos intelectuais pagãos. O Aetna, por exemplo, um poema épico romano sobre a vulcanologia, afirma que tal animismo ignorante deve ser rejeitado em favor de explicações mecânicas, e então continua descrevendo explicações mecânicas para a atividade vulcânica[46]. Médicos cientistas, de Erasistrato a Galeno, procuraram explicar toda a fisiologia humana em termos de princípios ou mecanismos físicos[47]. Astrônomos, de Posidônio a Ptolomeu, sem dúvida eram capazes de conceber um modelo mecânico para o sistema solar[48]. O comportamento do ar, da água, do clima e de tudo o mais era explicado de maneira similar[49]. Mesmo quando explicações “redutivamente” mecânicas eram rejeitadas, elas não eram substituídas por outras animistas, mas por teorias físicas de forças naturais intrínsecas –  que muitas vezes poderiam ser corretas, como a teoria da filtragem renal de Galeno, que sustentava que o rim não é uma mera peneira mas contém forças de atração habilmente engendradas que naturalmente selecionam as toxinas para expulsa-las do sangue, uma conclusão que ele provou por experimentação[50]. E longe de atribuir o movimento planetário a desejos caprichosos, Ptolomeu os atribuiu à forças naturais intrínsecas em concordância com leis matemáticas – desenvolvendo, por exemplo, uma lei de “ângulos iguais em tempos iguais” que implicava que os planetas variavam suas velocidades de uma maneira que claramente inspirou a segunda lei de Kepler das áreas iguais em tempo iguais[51]. Embora Ptolomeu suspeitasse que a força que impulsiona os planetas pudesse ser “almas planetárias”, estas eram tão fixas e previsíveis quanto as almas planetárias de Kepler, sendo tão desprovidas de mentes quanto o magnetismo ou qualquer outra força física[52].

Portanto, a polêmica tese de Stark de que após Aristóteles os cientistas antigos estiveram explicando todo o universo em termos de motivos animistas é pura fantasia. Isso nunca aconteceu. Tampouco existe qualquer fundamento para acreditar que isto ocorreu. E uma crença que não somente carece de qualquer fundamento evidencial como também encontra-se refutada por todas as evidências disponíveis existentes, certamente é indistinguivel de um delírio.

A Divisão Mental-Manual

Embora Stark não a invoque, outra premissa comum é que os pagãos não tiveram ciência porque havia uma divisão aguda entre os pensadores educados e os que trabalhavam com suas mãos – em virtude de (é o que nos dizem) algum tipo de desprezo aristocrático contra se sujar. Como os antigos muito claramente possuíram ciência, já sabemos que esta teoria é falsa. Mas não somente a conexão causal está demonstravelmente ausente, como também a alegada causa.

As evidências são abundantemente claras: todos os cientistas antigos foram não somente teóricos soberbamente educados como também exímios artesãos engajados em seus próprios experimentos práticos; eles até mesmo fabricaram seus próprios instrumentos. Todas as obras de Ptolomeu e Hero estão repletas de descrições dos aparelhos e instrumentos que eles construíram, e de instruções para fabrica-los, muitos dos quais tinham de ser fabricados com extraordinária precisão. Todas as obras de Galeno estão repletas com descrições de suas dissecações, cirurgias e vivissecções pessoalmente executadas, bem como de reiterada enfâse na importância dos médicos desenvolverem e manterem sua destreza manual, e conduzir pessoalmente dissecações e vivissecções em vez de incumbi-las a outros, e até mesmo prepararem seus próprios medicamentos. O anatomista da Renascença Vesalius opos-se ferozmente à divisão entre os cirurgiões como trabalhadores braçais e os médicos como os rapazes “dos livros e teorias”, mas na Antiguidade tal divisão nunca existiu, como Galeno atesta e insiste reiteradamente[53]. Hero igualmente sustentou que os médicos e engenheiros precisavam tanto de lições teóricas como de habilidades manuais, especialmente na metalurgia, construção civil, carpintaria e pintura[54]. De modo que se qualquer divisão alguma vez ocorreu, só pode ter sido sob o domínio cristã.

Uma das provas mais decisivas disso é a recuperação arqueológica do computador astronômico mais antigo do mundo, uma máquina construída pelos cientistas gregos não muito depois do ano 100 EC que afundou num navio próximo à ilha de Antiquitera algumas décadas depois. Lançando mão de engrenagens epicíclicas meticulosa e soberbamente confeccionadas, a máquina calculava o dia e o ano em diversos calendários, as posições dos planetas no Zodíaco, bem como a do sol e da lua, e as fases da lua, e previa eclipses solares e lunares, com mais de dois séculos de antecedência, informados por um sistema de ponteiros e mostradores[55]. Este computador é magnificamente fabricado, além de empregar teorias matemáticas e astronômicas avançadas, demonstrando conclusivamente que os pagãos não imaginaram nenhum conflito entre teoria e aprendizado, e entre artesanato e trabalho braçal. Ao contrário, eles os unificaram plenamente. Os cristãos simplesmente não se interessaram em preservar este conhecimento.

Conclusão

Num sentido coloquial, uma ilusão é qualquer crença não somente falsa, mas cuja falsidade é facilmente demonstrável por uma verificação corriqueira dos fatos, embora seja mantida com uma convicção desproporcional às evidências. Nesse sentido, esta nova idéia de que o Cristianismo foi não somente responsável como necessário para o surgimento e o florescimento da ciência moderna é com certeza uma ilusão. Uma ilusão se torna patológica quando esta crença é mantida com a mais absoluta convicção mesmo diante de evidências persuasivas que a contrariam. E nesse sentido, eu penso que as pessoas impassíveis diante das evidências apresentadas neste artigo estão não somente iludidas, como também completamente fora de seu juízo.

Nenhuma das premissas invocadas para sustentar esta ilusão é verdadeira. Todas distorcem os sentidos dos fatos ou dos textos, muitas vezes com uma obviedade escandalosa. Tampouco são os argumentos que empregam estas premissas  logicamente sólidos. Mas ainda mais pertubardor, toda esta fantasia ignora quais são, realmente, os valores necessários para o progresso científico: eleger a curiosidade como uma virtude moral, conceder ao empirismo o estatuto de autoridade suprema em todas as disputas de fato, e valorizar a busca do progresso. Diversos cientistas pagãos promoveram todos estes três valores tão vigorosa e persistentemente que produziram avanços contínuos nas descobertas e nos métodos científicos. O Cristianismo, ao contrário, por um longo período jamais estimou estes valores, e em várias situações os denunciou e reprimiu. Nunca houve na Bíblia ou na mentalidade do Cristianismo original qualquer coisa com tendência a favorece-los. Somente com uma dose cavalar de engenhosidade, e contrariando uma resistência igualmente cavalar, alguns cristãos eventualmente lograram êxito em encontrar uma maneira de reintegrar estes valores pagãos numa cultura completamente cristianizada, e mesmo assim somente após séculos de um desisnteresse quase total[56].

Não obstante, como todas as boas ilusões, esta erigiu-se sobre um núcleo de verdade.

Os pagãos armaram o cenário para o término da ciência antiga – mas não por qualquer das razões alegadas atualmente pelos cristãos. Pelo fracasso em desenvolver um governo constitucional estável e eficaz, o Império Romano foi condenado ao colapso sob o peso de guerras civis constantes e de uma política econômica desastrosa; e no terceiro século da Era Comum foi exatamente isto o que aconteceu. A sociedade pagã respondeu a este colapso abandonando os valores científicos de seu passado e refugiando-se cada vez mais em modos místicos e fantasiosos de compreender o mundo e suas maravilhas. O Cristianismo já foi uma visão de mundo deste tipo, e sua popularidade crescente atingiu o ápice exatamente nessa época[57]. Como era previsível, porém, quando o Cristianismo tomou o poder, ele não restaurou aqueles valores científicos; em vez disso, selou o destino da ciência encerrando todo progresso científico significativo por quase mil anos. Isso não foi feito através da repressão ou da perseguição da ciência, mas simplesmente ao não se promover seu progresso e promovendo em seu lugar uma desconfiança profunda e duradoura contra os próprios valores necessários para produzi-la.

Outrossim, a ciência moderna de fato desenvolveu-se num ambiente cristão, pelas mãos de cientistas que realmente foram cristãos, e é possível compatibilizar o Cristianismo com a ciência e os valores científicos. O Cristianismo precisou apenas se adaptar para adotar aqueles antigos valores pagãos que outrora impulsionaram o progresso científico. E foram os cristãos que se adaptaram, inventando habilidosamente argumentos em favor da mudança, porque somente argumentos em concordância com a Bíblia e a Teologia cristã teriam sido bem sucedidos em persuadir seus pares. Mas este foi um desenvolvimento apesar dos valores e ideais do Cristianismo original, retornando o mundo ao ponto em que os pagãos, não os cristãos, o haviam deixado há mil anos, no alvorecer do terceiro século. Somente então o mundo cristão assumiu aquela antiga ciência pagã e seus valores centrais mais uma vez. E somente então uma nova onde de progresso e inovações floresceu. Não houvesse o Cristianismo interrompido o progresso intelectual da humanidade e suspendido o progresso da ciência por mil anos, a Revolução Científica poderia ter ocorrido mil anos atrás, e nossa ciência e tecnologia hoje estariam mil anos a frente. Esta é uma verdade dolorosa que alguns cristãos recusam-se terminantemente a ouvir ou aceitar. De modo que eles refugiam-se na ilusão de que isso não é verdade, que o Cristianismo, ao contrário, foi tão maravilhoso que não somente causou a ciência moderna, como também foi essencial a ela. Porém, como os fatos demonstram, isto absolutamente não é verdade.

Notas.

1. Robert Hutchinson, “As origens Bíblicas da Ciência Moderna,” in O Guia Politicamente Incorreto da Bíblia (Washington, DC: Regnery, 2007), p. 139.

2. Alvin Schmidt, “Ciência: Suas Conexões Cristãs” in Sob a Influência: Como o Cristianismo Transformou a Civilização (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2001), p. 221.

3. Não estou brincando: Lynn White Jr., “O que acelerou o progresso tecnológico na Idade Média Ocidental?” in Scientific Change, ed. A. C. Crombie (New York: Basic Books, 1963): pp. 272-91; Edward Grant, Science and Religion, 400 B.C. to A.D. 1550 (Westport, CT: Greenwood Press, 2004), pp. 225-30. Grant também alega que as guerras constantes impediram a ciência bizantina, mas o Ocidente cristão e os gregos antigos também estiveram guerreando continuamente, e numa nação próspera (como Bizâncio) a guerra pode na verdade fazer a ciência avançar em vez de obstrui-la: Tracey Rihll, The Catapult A History (Yardley, PA: Westholme, 2007).

4. Dinesh D’Souza, “Cristianismo e Razão: As Raízes Teológicas da Ciência” in A Verdade sobre o Cristianismo, págs. 105-112. (Thomas Nelson Brasil – Rio de Janeiro – 2008).

5. Sobre a espistemologia original do Cristianismo: Richard Carrier, Not the Impossible Faith: Why Christianity Didn’tNeed a Miracle to Succeed (Raleigh, NC: Lulu, 2009): pp. 329-68, 385-406.

6. Teologia como uma ciência racional na Antiguidade: Aristóteles, Metafísica 6.1 (1026a); Sexto Empírico, Contra os Professores 9.12-194 (= Contra os Físicos 1.12-194 = Contra os Dogmáticos 3.12-194); e John Dillon, Alcinous: The Handbook of Platonism (Oxford: Clarendon, 1993): pp. 57-60, 86-89.

7. Convincentemente defendido em David Sedley, Criacionismo e seus críticos na Antiguidade (Berkeley: University of California Press, 2007).

8. Mais conspicuamente em Stanley Jaki, Ciência e Criação (New York: Science History, 1974), A estrada da ciência e os caminhos para Deus (Chicago: University of Chicago Press, 1978) e O Salvador da Ciência (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2000).

9. Exemplos proeminentes: Nancy Pearcey e Charles Thaxton, “A nova história da Ciência” in A alma da ciência (Wheaton, IL: Crossway Books, 1994), pp. 15-56; Thomas Woods, “A Igreja e a Ciência,” Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (Editora Quadrante, 2011), pp. 67-114; Schmidt, Sob a influência, pp. 218-47; D’Souza, A verdade sobre o Cristianismo, pp. 83-99; Hutchinson, Guia Politicamente Incorreto, pp. 138-56; e Stark (veja a próxima nota).

10. Rodney Stark, “A Obra de Deus: As origens religiosas da ciência” em Para a Glória de Deus (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2003), pp. 121-99; and “Bençãos da Teologia Racional” em A Vitória da Razão (New York: Random House, 2005), pp. 3-32.

11. Andrew Bernstein, “A Tragédia da Teologia: Como a Religião Causou e Prolongou a Idade Média: Uma crítica do livro de Rodney Stark ‘A vitória da Razão”‘ Objective Standard 1, no. 4 (Winter 2006-2007): 11-37; Joseph Lucas e Donald Yerxa, eds., “A vitória da razão: um debate,” Historically Speaking 7, no. 4 (Março/Abril 2006): 2-18.

12. Stark, Vitória da Razão, p. 20.

13. As evidências para tudo isto (e o que vem a seguir) será sumarizada em Richard Carrier, The Scientist in the Early Roman Empire (prestes a ser publicado), mas já é coletivamente demonstrada em: Lucio Russo, The Forgotten Revolution, 2nd ed. (New York: Springer, 2003); Tracey Rihll, Greek Science (New York: Oxford University Press, 1999); G. E. R. Lloyd, Greek Science after Aristotle (New York: W. W. Norton, 1973); Paul Keyser e Georgia Irby-Massie, eds., The Biographical Encyclopedia of Ancient Natural Scientists (New York: Routledge, 2009); e toda a série Routledge Sciences of Antiquity.

Para o período romano especificamente: Andrew Barker, Scientific Method in Ptolemy: Harmonics (New York: Cambridge University Press, 2000); A. M. Smith, Ptolemy and the Foundations of Ancient Mathematical Optics (Philadelphia, PA: American Philosophical Society, 1999); J. L. Berggren, Ptolemy:s Geography (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2000); G.J. Toomer, Ptolemy’.r Almagest (New York: Springer-Verlag, 1984); Karin Tybjerg, “Hero of Alexandria’s Mechanical Treatises,” in Physik/Mechanik, ed. Astrid Schurmann (Stuttgart: Franz Steiner, 2005), pp. 204-26; Bennet Woodcroft, ed., The Pneumatics of Hero of Alexandria (London: Taylor, Walton and Maberly, 1851); A. G. Drachmann, The Mechanical Technology of Greek and Roman Antiquity (Madison: University of Wisconsin Press, 1963); Rudolph Siegel, Galen on Psychology, Psychopathology, and Function and Diseases of the Nervous System: An Analysis of His Doctrines Observations and Experiments (New York: Karger, 1973), Galen on Sense Perception: His Doctrines Observations and Experiments on Vision, Hearing, Smell, Taste, Touch and Pain, and Their Historical Sources (New York: Karger, 1970), Galena System of Physiology and Medicine- An Analysis of His Doctrines and Observations on Bloodflow, Respiration, Tumors and Internal Diseases (New York: Karger, 1968).

14. Para uma pequena lista de cientistas conhecidos: Richard Carrier, “Attitudes Toward the Natural Philosopher in the Early Roman Empire (100 BC to 313 AD),” PhD diss., Columbia University, 2008, pp. 562-73 (pre-Aristotle: pp. 558-61). Para uma lista completa, veja Keyser and Irby-Massie, Biographical Encyclopedia. As perdas mais excruciantes são todos os tratados científicos sobre o movimento e a gravidade após Aristóteles: Sobre o Movimento de Estrato, Sobre os objetos derrubados por seu peso de Hiparco e Sobre o Equilíbrio de Ptolomeu, para nomear apenas aqueles de que temos notícia.

15. Como Jaki alega em Estrada da Ciência, p. 22.

16. Como revelado em Sobre a face que aparece no orbe lunar de Plutarco (_ Moralia 920b-945d; reproduzido em vol. 406 da Loeb Classical Library, Plutarch:r Moralia, vol. 12).

17. Vejam Russo, Forgotten Revolution, pp. 218-24 and John Kieffer, Galen” Institutio Logica (Baltimore: Johns Hopkins Press, 1964).

18. Descrito por Ptolomeu em Hipóteses Planetárias 2.6 e no Almagesto 13.2.

19. Por exemplo: Reviel Netz o William Noel, The Archimedes Codex (Philadelphia, PA: Da Capo Press, 2007).

20. Archimedes, On the Equilibrium of Planes and On Floating Bodies; Hero, On Mirrors; Ptolemy, Optics; Galen, On the Natural Faculties.

21. Hutchinson, Politically Incorrect, p. 140.

22. Stark, Victory of Reason, p. 12.

23. Stark, For the Glory, p. 152.

24. Ibid.

25. Stark, Victory of Reason, pp. 18-19, and For the Glory, pp. 152-53.

26. Veja John Dillon and A. A. Long, eds., The Question of `Eclecticism” (Berkeley: University of California Press, 1988); H. B. Gottschalk, “Aristotelian Philosophy in the Roman World,” Aufstieg and Niedergang der romischen Welt 2.36.2 (1987): 1079-1174 [cf. pp. 1164-71]; R. J. Hankinson, “Galen’s Philosophical Eclecticism,” Auf tieg and Niedergang der romischen Welt 2.36.5 (1992): 3505-22; Pamela Huby and Gordon Neal, eds., The Criterion of Truth (Liverpool: Liverpool University Press, 1989); e Tybjerg, “Hero,” pp. 214-15. Exemplos explícitos incluem: Galeno, Sobre as paixões e os erros da alma 1.8 e 2.6-7; Seneca, Epístolas Morais 33; Celsus, Sobre a medicina págs. 45-47.

27. Jaki, Science and Creation, p. viii.

28. D’Souza, A verdade, p. 92.

29. Galen, Sobre os usos das partes 3.10 (também 17.1).

30. Seneca, Natural Questions 7.2 e Cicero, Sobre os limites do Bem e do Mal 5.18.(48)-5.21.(60).

31. Veja Carrier, “Attitudes,” pp. 353-74, 396-98 (que serão reproduzidas em Carrier, Scientist).

32. D’Souza, A verdade, p. 99.

33. Stark, Victory of Reason, pp. 18, 19.

34. Amplamente comprovado em: Ludwig Edelstein, The Idea of Progress in Classical Antiquity (Baltimore, MD: Johns Hopkins Press, 1967) e Antoinette Novara, Les idees romaines sur le progres d’apres ley ecrivains de la Republique, 2 vols. (Paris: Les Belles Lettres, 1982). Faço acréscimos consideráveis às evidências de Edelstein e Novara em Carrier, “Attitudes,” pp. 249-342 (que serão reproduzidas em Carrier, Scientist). Os cientistas antigos foram especialmente otimistas: Edelstein, Idea of Progress, pp. 142-48; Tybjerg, “Hero,” p. 211; Serafina Cuomo, Ancient Mathematics (London: Routledge, 2001), pp. 183-85; Ingrid Rowland e Thomas Howe, Vitruvius (Cambridge: Cambridge University Press, 1999), pp. 16-17; R.J. Hankinson, “Galen’s Concept of Scientific Progress,” Aufstieg and Niedergang der romischen Welt 2.37.2 (1994): 1776-89 and Galen: On the Therapeutic Method (Oxford: Clarendon Press, 1991), p. 86; e Mary Beagon, Roman Nature (Oxford: Clarendon Press, 1992), pp. 56-63,183-90.

35. Esta é a idéia por trás das observações de Aristóteles em Sobre os céus 1.3 (270b) e Metereologia 1.3 (339b).

36. Muitos esperaram que tudo fosse destruído em questão de anos: Hebreus 1:10-2:5, 10:36-37; 1 Coríntos 1:28, 6:13, 7:29-31; 1 Tessalonicensess 4:15; 2 Pedro 3:5-13; 1 João 2:15-18; e obviamente Marcos 13 e Mateus 24; e assim por diante desde o começo (veja Bernard McGinn et al., The Continuum History of Apocalypticism [New York: Continuum, 2003] and Jonathan Kirsch, A History of the End of the World [San Francisco: Harper, 2006]).

37. Stark está simplesmente macaqueando Jaki, Road of Science, p. 24, ou Science and Creation, pp. 113-14. Jaki possui a tendência de relatar falsamente o que suas fontes dizem; por exemplo, ao contrário do que Jaki afirma em Savior, p. 93, nem Plutarco nem Ptolomeu apresentaram quaisquer objeções religiosas ao heliocentrismo- em nenhuma das passagens citadas eles aprovam tais coisas.

38. Stark, Victory of Reason, p. 19. A tecnologia antiga na verdade progrediu imensamente após Aristóteles: John Oleson, ed., The Oxford Handbook of Engineering and Technology in the Classical World (Oxford: Oxford University Press, 2008); Orjan Wikander, ed., Handbook of Ancient Water Technology (Leiden: Brill, 2000); Kevin Greene, “Technological Innovation and Economic Progress in the Ancient World,” Economic History Review 53, no. 1 (Fevereiro de 2000): 29-59; M.J. T. Lewis, Millstone and Hammen The Origins of Water Power (Hull: University of Hull, 1997); and Rihll, Catapult.

39. Aristóteles, Política 7.10 (1329b).

40. Aristóteles, Metafísica 12.8 (1074b).

41. Veja Edelstein, Idea of Progress, pp. 19-29 para diversos exemplos, incluindo: Aristóteles, Refutações Sofísticas 3.34 (183b-184b), Política 2.8 (1268b-1269a), Ética a Nicômaco 1.7 (1098a), Metafísica 13.1 (1076a), Sobre os Céus 2.5 (287b-288a), e Sobre a geração dos animais 3.10 (760b).

42. Stark, For the Glory, p. 154.

43. Stark, Victory of Reason, p. 20, citando Jaki, Science and Creation, p. 105.

44. Aristóteles, Sobre os céus 1.8 (276a-278a), 2.1 (283b-284a), 3.2 (300a-302a), e o livro 4 inteiro (307b-313b), e Física 8.1 (250b-252b). Aristóteles, Metafísica 12.7 (1072b3) de fato diz que o amor e a vontade de Deus sustenta todas as tendências naturais em seus arranjos imutáveis (sustentando consequentemente as leis da natureza), mas nisso os cristãos também creem.

45. D’Souza, A verdade, p. 93.

46. Veja P. B. Paisley e D. R. Oldroyd, “Science in the Silver Age,” Centaurus 23, no. 1 (1979): 1-20 [cf. pp. 2-6]; F. R. D. Goodyear, “The `Aetna,”‘ Auf tieg and Niedergangderromischen Welt2.32.1 (1984): 344-63 [cf. pp. 346-47].

47. Russo, Forgotten Revolution, pp. 146-51; Vivian Nutton, Ancient Medicine (London: Routledge, 2004), pp. 134-36; Sylvia Berryman, “Galen and the Mechanical Philosophy,” Apeiron: A,journal for Ancient Philosophy and Science 35, no. 3 (September 2002): 235-53; Heinrich von Staden, “Body and Machine,” Alexandria and Alexandrianism (Malibu, CA: J. Paul Getty Museum, 1996), pp. 85-106. Exemplos: Galen, On the Natural Faculties 3.15 and On the Uses of the Parts 1.2-4, 1.19, 7.14, 14.5.

48. Por exemplo: Cicero, Sobre a Natureza dos Deuses 2.88.(34-35); Vitruvius, Sobre a Arquitetura 9.1.2, 10.1.4; e Lucrécio, Sobre a Natureza das Coisas 5.96; para Ptolomeu: Liba Taub, Ptolomeu’s Universe (Chicago: Open Court, 1993).

49. Veja Liba Taub, Ancient Meteorology (London: Routledge, 2003), pp. 141-61; e para exemplos: a Pneumática e a Mecânica de Hero e, de Arquimedes, Sobre os corpos flutuantes.

50. Veja Galeno, Sobre as faculdades naturais.

51. Ptolomeu, Hipóteses Planetárias 2.6 e Almagesto 9.5.

52. Veja Andrea Murschel, “The Structure and Function of Ptolemy’s Physical Hypotheses of Planetary Motion,” Journal for the History of Astronomy 26 (1995): 33-61; on Kepler’s “soul” theory: Eric Aiton, “How Kepler Discovered the Elliptical Orbit,” The Mathematical Gazette 59, no. 410 (December 1975): 255-57 [pp. 250-260]; sobre todo o programa de Ptolomeu de procurar leis naturais: Alexander Jones, “Ptolemy’s Mathematical Models and Their Meaning,” in Mathematics and the His- torian:r Craft, eds. Glen van Brummelen and Michael Kinyon (New York: Springer, 2005), pp. 23-42.

53. Veja o prefácio a Vesalius, Sobre a fábrica do corpo humano (1543). Agricola similarmente precisou devotar o primeiro capítulo inteiro de seu livro Sobre a Mineração (1556) à defender-se contra seus pares que rejeitaram seus estudos como base.

54. Numa citação perdida em Pappus, Mathematical Collection 8.1. Para mais evidências de cientistas como artesãos e a ausência de qualquer divisão entre trabalhos manuais e intelectuais, veja Carrier, “Attitudes,” pp. 425-79 (que serão reproduzidas em Carrier, Scientist).

55. Por uma explicação completa, veja Jo Marchant, Decifrando os céus (Cambridge, MA: Da Capo Press, 2009).

56. Sobre a hostilidade dos cristãos primitivos à curiosidade, o destronamento do empirismo e o desinteresse no progresso científico (e uma eventual revivescência destas idéias mil anos mais tarde), veja Neil Kenny, The Uses of Curiosity in Early Modern France and Germany (New York: Oxford University Press, 2004) e Curiosity in Early Modern Europe (Wiesbaden: Harrassowitz, 1998); Peter Harrison, The Bible, Protestantism, and the Rise of Natural Science (Cambridge: Cambridge University Press, 1998) e “Curiosity: Forbidden Knowledge, and the Reformation of Natural Philosophy in Early Modern England,” Isis 92, no. 2 (June 2001): 265-90; Lorraine Daston, Wonders and the Order of Nature, 1150-1750 (New York: Zone Books, 1998); William Eamon, Science and the Secrets of Nature (Princeton: Princeton University Press, 1996); Lloyd, Greek Science, pp. 167-71; and Marshall Clagett, Greek Science in Antiquity (Salem, NH: Ayer, 1955), pp. 118-82. Mais evidências serão sumarizadas em Carrier, Scientist.

57. Para um resumo da produção acadêmica sobre este colapso do terceiro século (e o fato de o Cristianismo não ter tido qualquer sucesso digno de nota antes disso), veja Carrier, Not the Impossible Faith, pp. 407-47 (esp. pp. 435-40 e p. 447 n. 32), que foi reforçado por Ramsay MacMullen, Christianizing the Roman Empire AD 100-400 (New Haven, CT: Yale University Press, 1984) e Christianity and Paganism em the Fourth to Eighth Centuries (New Haven, CT: Yale University Press, 1997); and Robin Lane Fox, Pagans and Christians (New York: Knopf, 1987).

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