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Posts Tagged ‘Dissonância Cognitiva’

Por toda parte através da sociedade americana você encontra homens repletos de um entusiasmo, quase uma espiritualidade ardente de um tipo que não se encontra na Europa. De tempos em tempos surgem estranhas seitas que se empenham arduamente em abrir caminhos extraordinários até a felicidade eterna. Variedades da loucura religiosa são bastante comuns por lá.[22]

Tem sido frequentemente repetido que os Estados Unidos são uma nação cristã. Seria mais acurado dizer que os Estados Unidos são uma admirável, até mesmo deslumbrante, nação diversificada e criativa quando o assunto é religião. Embora não se possa negar que os Estados Unidos possuem uma profunda camada de influência religiosa em sua cultura, essa camada assumiu várias formas, incluindo várias seitas e denominações, e gerou diversos cristianismos locais novos, quase-cristianismos, e pseudocristianismos.

Desde as primeiras pegadas européias em solo americano, existiram cristianismos múltiplos e muitas vezes mutuamente hostis disputando espaço às cotoveladas. Puritanos (protestantes “fundamentalistas” do século 17) se estabeleceram em Massachusetts e tornaram-se Congregacionalistas, Maryland foi colonizada por católicos, a Virgínia por anglicanos, e a Pensilvânia pelos quacres. Uma vez solto sobre a nova terra, o Cristianismo, à semelhança de qualquer espécie inédita num ambiente, adaptou-se às condições locais e irradiou-se numa pletora de novas espécies e às vezes em novos gêneros inteiros, misturando-se entre si e com a fauna e a flora nativas, dando origem a híbridos sem precedentes.

Os vetores deste novo vírus religioso, que resultou no que é chamado O Primeiro Grande Despertar (por volta de 1720-1750), eram homens de desmesurado entusiasmo, talvez de experiência, como Jonathan Edwards, George Whitefield, James Davenport, Charles Woodmason, Devereux Jarratt e Samuel Morris. Eles foram os primeiros “pilotos de circuito” do Cristianismo, pregadores itinerantes que viajavam de vilarejo em vilarejo, de fazenda em fazenda, de aldeia em aldeia, espalhando o evangelho ao ar livre ou tendas de “avivamento” onde quer que encontrassem público. Eles não somente circularam entre as massas populares, como também entregaram a mensagem num estilo e linguagem que as massas fossem capazes de digerir, com toda a excitação e a crueza que os colonos fronteiriços desejaram: “Estados de transe, convulsões extáticas, discursos automáticos, queda no espírito, júbilo esfuziante e beatitude espiritual foram todas ocorrências bastante comuns.”[23]

Após quase um século de relativa calmaria, o Segundo Grande Despertar irrompeu na metade do século XVIII. Por volta desta época algumas das igrejas outrora inovativas haviam se institucionalizado: o metodismo crescera de pouco mais do que 500 membros para mais de 200 000. As décadas entre 1840 e 1870 então presenciaram outra explosão de entusiasmo e inventividade, produzindo alguns cristianismos exclusivamente americanos.

Um dos primeiros indícios foi a emergência de um movimento de “Cristianismo primitivo”. Em princípios do século 19, Elias Smith clamou por um tipo mais simples e igualitário de Cristianismo, um no qual as massas poderiam interpretar a Bíblia por si próprias; este campo rejeitou qualquer denominação e chamou-se a si próprio simplesmente de “cristãos” ou “discípulos de Cristo”. Barton Stone e Alexander Campbell conduziram outros segmentos do movimento primitivista, e seus membros combinaram-se em 1830 para formar a quinta maior denominação protestante à época.

Um elemento distinto da primeira metade do século 19 foi um tipo de reverência pela natureza conhecido como transcendentalismo. Este foi caracterizado pela atitude americana recorrente, conforme expressa por Ralph Waldo Emerson, de que “a religião deve ter sentimento, deve ser sentimento.”[24] Transcendentalistas como Emerson não somente degradaram como na verdade rejeitaram a “religião” velha, literalista, em favor de uma intuição espiritual fluindo do contato com a natureza; a religião como usualmente exercida era pouco mais do que “um simulacro morto da de nossos ancestrais”.[25]Eles solicitaram aos americanos que literalmente “esquecessem o Cristianismo histórico”. Outra influência importante sobre o pensamento oitocentista foi o “espiritualismo” de figuras como Emanuel Swedenborg, que deu novos rumos ao Cristianismo em obras como The Worship and the Love of God e os oito volumes de Arcana Coelestia. Sua principal afirmação era que a Bíblia cristã não deveria ser considerada um documento histórico literal, mas como uma alegoria ou um código espiritual.

Que os americanos fossem capazes e comprometidos com a invenção de novas formas de Cristianismo era iminentemente claro na proliferação de novos cristianismos em meados do século 19. O mais bem sucedido destes, reivindicando mais de 12 milhões de membros em princípios do século XX, foi o Mormonismo ou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias; este talvez mereça o título de primeiro cristianismo genuinamente americano, já que seus dogmas afirmam que Jesus fez uma aparição e conduziu uma missão em solo americano muito antes que os europeus pisassem pela primeira vez no continente. O Novo Mundo foi palco de uma antiga e florescente civilização judeocristã, de acordo com o Livro de Mórmon, a única escritura mórmon que Joseph Smith descobriu transcrita em placas de ouro reveladas pelo anjo Moroni no Monte Cumorah, ao norte de Nova Iorque, na década de 1820.

Paralelamente ao fervor apocalíptico dessa era (e de várias eras cristãs anteriores e posteriores), um movimento milenarista formou-se ao redor de William Miller na década de 1830, também ao norte de Nova Iorque (uma região em que o entusiasmo cristão é tão comum que foi chamada de “o distrito exaurido”). Várias datas nas décadas de 1830 e 1840 foram anunciadas como o apocalipse, mas nenhum se materializou, o que é lembrado como A Grande Decepção. Alguns milleristas afastaram-se do movimento, mas outros mantiveram-se firmes, adiando a data esperada ou elaborando uma astuta “teologia de portas fechadas” em que o mundo como o conhecemos realmente terminou: embora a terra ainda exista, o céu fechou seus portões e somente aqueles que já se encontravam salvos seriam salvos (ou seja, a porta para o céu foi fechada). Adeptos desta posição foram chamados de adventistas das portas fechadas. Outro rebento mais duradouro do ramo millerista foram os Adventistas do Sétimo Dia, largamente baseados nas revelações pós-milleristas de Ellen White.

As duas últimas tendências do século 19  foram a corrente utópica (comunitarista ou “abandono”) e a corrente “mentalista” ou mente-sobre-a-matéria. A primeira é parte de uma ampla tradição na cultura americana, incluindo esforços não-cristãos como a Comunidade Oneida, muitas vezes com aspirações socialistas genéricas; um exemplo cristão é a Sociedade dos Crentes Unidos, mais conhecida como “Agitadores”, fundada no final do século 18 pela “Mãe Ann” Lee. A sociedade tornou-se uma colônia separatista exigindo a propriedade coletiva, disciplina rígida, o unitarismo, a simplicidade material, a perfeição espiritual e o absoluto celibato. O mentalismo também é uma corrente americana forte, vista até hoje em programas do tipo imagine-se-rico/famoso/popular/bem-sucedido tão díspares como os de Norman Vincent Peale, Deepak Chopra e O Segredo. O melhor exemplo do cristianismo oitocentista é a Igreja do Cristo Cientista (t.c.p. Ciência Cristã) formalmente inaugurada em 1879 por Mary Baker Eddy como um movimento “consciente da saúde” sincretizando religião e ciência em torno da noção de “cura mental” e “medicina espiritual”. O livro que Henry Wood escreveu em 1893, Ideal Suggestion through Mental Photography defendia que nem a saúde nem a doença são processos puramente físicos, mas também psicológicos/espirituais; a recuperação ocorre quando o paciente abre sua mente e seu coração para a “grande luz” de Deus, alcançada através de “meditações” específicas e pensamentos elevados, tais como “Deus está aqui”, “Eu não sou este corpo”, e “Eu serei curado”.

Obviamente, então, o cristianismo ortodoxo jamais deteve o monopólio sobre a mente americana; antes, ele tem partilhado o campo religioso com diversas outras forças (religiosas e de outros tipos) e afetado e sido afetado por estas forças. Além do espiritualismo, do transcendentalismo e do mentalismo da época – todos os quais continuam a exercer influência sobre o cristianismo e a sociedade hoje – o final do século XIX acrescentou influências das religiões orientais e do ocultismo, produzindo oque poderia ser corretamente chamada de a primeira “Nova Era”. Uriah Clark, por exemplo, publicou um guia para procedimentos mediúnicos em 1863 chamado Plain Guide to Spiritualism. Igualmente, se não mais significativamente, os americanos estavam descobrindo as escrituras asiáticas, e as descobertas arqueológicas no Egito e na Mesopotâmia, Índia e América Central e do Sul também forneceram combustível para a criatividade religiosa. Um exemplo foi a Teosofia (do grego “sabedoria dos deuses”). A Sociedade Teosófica foi fundada em 1875-1876 por “Madame” Helena Blavatsky e Henry Olcott. O livri Ísis Sem Véu, publicado por Blavatsky em 1877, elaborou seu sistema oculto recebido dos “mestres elevados” que lhe revelaram o conhecimento. Em 1879 ela e Olcott moveram a Sociedade Teosófica para a Índia, onde ela absorveu mais conteúdos e práticas do hinduísmo (e onde o hinduísmo a absorveu). A ioga e a meditação foram descobertas e transmitidas ao público americano; termos e conceitos hindus, como samadhi e guru foram popularizados. Em 1888 ela compilou seus ensinamentos na “bíblia” da Teosofia, A Doutrina Secreta.

O “boom esotérico” do começo do século XX assumiu várias formas e faces. Algumas de suas principais figuras foram Aleister Crowley, Edgar Cayce e H.P. Lovecraft, e suas realizações incluíram The Aquarian Gospel of Jesus Christ, de Levi H. Dowling, em 1907; a obra em cinco volumes Life and teachings of the masters of Far East, de Baird T. Spalding, em 1924-1925; The philosophy of witchcraft, de Ian Ferguson, em 1928; e a Encyclopedic Outline of Masonic, Hermetic, Qabalistic, and Rosicrucian Symbolical Philosophy de Manly Hall, em 1928. Institucionalmente, em 1915, H. spencer Lewis fundou a Ancient and Mystical Order Rosae Crucis; em 1920 Paul Foster Case introduziu uma ordem mística chamada Builders of the Adytum; e em 1924 Alice Bailey abriu a Arcane School em Nova Iorque. Houve também uma renovação do interesse por doutrinas místicas/gnósticas/mágicas em decorrência do uso feito pela Ku Klux Klan de títulos como Hydra, Gigante, Grande Titã e Ciclope Exaltado, para não mencionar a invenção da religião “wicca”, que pretende-se uma continuação das crenças e práticas pagãs pré-cristãs, mas que é, em larga escala, a criação de Gerald Gardner em obras como A Goddes Arrives (1948), Witchcraft Today (1954) e The Meaning of Witchcraft (1959).

Em reação as estas heresias e outras ameaças como a teoria da evolução e o modernismo, bem como a movimentos de maior inserção dentro do Cristianismo (tais como “o evangelho social”, que buscavam aplicar o pensamento e a energia cristãos a problemas sociais como pobreza, racismo, alcoolismo, trabalho infantil, guerra; ou o “evangelho da prosperidade”, que combina o Cristianismo com o mentalismo Nova Era do tipo imagine-se-mesmo-rico/bonito/popular), emergiu um movimento que se autodenominou “fundamentalismo”. O fundamentalismo não é um fenômeno nem exclusivamente cristão nem exclusivamente moderno, mas em qualquer época e local em que aparece, ele é relativamente autoconsciente e militante acerca da “tradição”, mesmo se ele, ao menos em parte, inventa sua tradição. De qualquer maneira, o fundamentalismo americano surgiu de uma série de documentos publicados em 1910 e 1915 intitulados The Fundamentals: A Testimony to the Truth. Estes escritos levaram a uma organização, a World’s Christian Fundamentals Association, fundada por William B. Riley em 1919. Embora diferissem nos detalhes específicos, este e outros esforços similares concordavam substancialmente em aspectos gerais. Todos invocaram a pureza e a perfeição da escritura, seja antiga ou nova. Cada um considerou não somente um mundo físico como também um espiritual que de alguma maneira “deu errado” (o que é uma tradição razoavelmente antiga no cristianismo americano: um século antes Alexander Campbell escrevera que “a corrente do Cristianismo tornou-se poluída”)[26]. E cada uma considerava-se um autêntico representante do Cristianismo; cada uma concebia-se – e somente a si própria – como a restauração da religião.

Embora a primeira geração de fundamentalistas tenha se desacreditado por atividades estúpidas como o julgamento de Scopes, conhecido como o “julgamento do macaco”, em 1925, o movimento ressurgiu em meados do século XX sob duas formas novas e efetivas: o evangelicalismo e o pentecostalismo. O evangelicalismo, talvez mais bem representado por Billy Graham, é a ala das “boas novas” do cristianismo americano contemporâneo. Um evangélico é um cristão “renascido”, um que fez um compromisso pessoal com Jesus e se tornou um mensageiro do evangelho. O pentecostalismo vai um passo além, salientando os “dons” da fé como falar em línguas, a cura pela imposição das mãos, e o que seria visto em qualquer outra religião como experiências de transe ou possessão. Ambas as tendências foram predominantemente apolíticas nas décadas de 1950 e 1960, um período que também presenciou o fenômeno “Jesus freak” e, de maneira mais ameaçadora para a corrente principal, a ascensão do feminismo, da contracultura hippie e o movimento ateísta. Segundo a maioria dos relatos, a gota d’água foi a legalização do aborto após a decisão do caso Roe vs. Wade em 1973. Por volta desta época, o Cristianismo começou a se tornar mais politicamente mobilizado, assumindo formas como a Maioridade Moral e a Coalizão Cristã e tendo a frente líderes como Jerry Falwell, Pat Robertson e Ralph Reed. Naturalmente, o cristianismo americano nunca foi inteiramente não-político: a essencialmente cristã KKK esteve politicamente ativa por um século e foi revigorada pelas lutas pelos direitos civis das décadas de 1950 e 1960. Mas agora, como Robertson expressamente declarou, os cristãos estão exercendo seu poder político: “Junto com os católicos e os protestantes, temos votos o bastante para dirigir este país. E quando as pessoas disserem, ‘já vimos o bastante!’, nós vamos assumir o controle.”[27]

O fundamentalismo cristão recebe (merecidamente) bastante atenção nos Estados Unidos, mas poucas pessoas provavelmente percebem o quão diverso ele é. Numa extremidade estão os fundamentalistas pacíficos, pessoas que levam sua religião excepcionalmente a sério mas desejam meramente serem deixados em paz, como os amish. No outro extremo estão os “reconstrucionistas” ou “dominacionistas”, pessoas que desejam impor sua denominação do Cristianismo sobre todos os demais. O reconstrucionismo cristão conforme expresso por R. J. Rushdoony e sua organização, a Chalcedon Foundation, buscam instituir a lei veterotestamentária ao ponto de proscrever todas as outras religiões não-cristãs (bem como as outras denominações cristãs; retroceder o status das mulheres ao dos tempos antigos; estabelecer a pena de morte para o adultério, a blasfêmia, a bruxaria, o aborto e a homossexualidade; e eliminar o sistema prisional ( já que a maioria dos criminosos será morta de qualquer maneira). Permeando estes extremos, existem outros grupos mais ou menos fanáticos, desde a Identidade Cristã, que promove uma identidade exclusivamente caucasiana do Cristianismo, até o movimento do Êxodo Cristão, que atingiu o grande público americano e deu início ao processo de criação de sua própria sociedade em alguma região do solo americano.

Por fim, o cristianismo americano nunca foi tímido (não obstante ele tenha sido muitas vezes ambivalente) quanto a apropriar-se do que quer que a cultura popular tivesse a oferecer. Desde que o rádio surgiu, tem existido emissoras de rádio cristãs. O advento da televisão levou ao advento do televangelismo (as pessoas assistem TV mesmo, então por que não oferecer-lhes programação cristã?); os frutos deste trabalho incluem Jimmy Swaggart, Oral Roberts, Jim e Tammy Bakker, Benny Hinn e vários outros. Os cristãos agora dispõem de redes e estações de TV inteiras, como o 700 Club de Robertson, a Eternal World Television Network (EWTN), a Trinity Broadcasting Network e a Daystar Television Network, para citar apenas algumas, cada uma com sua própria página na internet.[28] Estas são acompanhadas por uma quantidade incalculável de outras, incluindo vários sites, blogs, canais do Youtube e similares, privados ou locais. Além de se apropriar dos meios de comunicação de massa da cultura contemporânea, o cristianismo americano inevitavelmente também se apropria de seu conteúdo. O resultado é o rock cristão, o rap cristão, agências de namoro cristãs, filmes cristãos, literatura popular cristã (a série Deixados para trás é apenas um pequeno exemplo), e jogos de computador cristãos (incluindo uma adaptação da série “Deixados para trás”[29]).

Finalmente, o cristianismo americano não pode deixar de se ajustar as demandas de seu eleitorado, oferecendo-lhe o tipo de experiência que ressoa e faz sentido junto a eles – igrejas negras, igrejas hispânicas, igrejas rurais, igrejas suburbanas, igrejas urbanas, e assim por diante. Para executivos americanos de classe média, o fenômeno das “megaigrejas”, inaugurado pela Willow Creek Community Church, confere ao cristianismo o sabor de mais um dia no escritório. O estilo das diversas igrejas ajusta-se às exigências dos “consumidores” de “produtos” religiosos”, e o que os americanos desejam mais do que o sucesso? Assim, o “evangelho da prosperidade” representa talvez o ápice do cristianismo americano: Deus deseja que você seja rico, Deus deseja que você tenha uma casa grande e um carro do ano; na verdade, Deus providenciará para que isso seja pago se você não puder arcar com isso (e esta foi uma das causas da crise do subprime de 2006-2007) .

Como poderia o Cristianismo americano não ser diversificado, sincrético, heterodoxo, kitsch e francamente contraditório, já que os americanos são todas essas coisas? O cristianismo americano é, em última análise, menos cristão do que americano – e os americanos são um povo diversificado, criativo dado a toda sorte de caprichos.

Notas.

22. Alexis de Tocqueville, Democracy in America, trans. George Lawrence (Garden City, NJ: Anchor, 1969), 574.

23. Eugene Taylor, Shadow Culture: Psychology and Spirituality in America (Washington, DC: Counterpoint, 1999), 18.

24. Citado em Martin E. Marty, Pilgrims in Their Own Land: 500 Years of Religion in America (New York: Penguin, 1984), 210.

25. Citado em ibid.

26. Citado em Nathan O. Hatch, The Democratization of American Christianity (New Haven, CT: Yale University Press, 1989), 168. [Nota do editor: Para discussões adicionais da diversificação religiosa (e especificamente cristã) nos Estados Unidos, veja: Roger Finke and Rodney Stark, The Churching of America, 1776–1990: Winners and Losers in Our Religious Economy (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1992); Barry Kosmin and Seymour Lachman, One Nation under God: Religion in Contemporary American Society (New York: Harmony Books, 1993); Stephen Prothero, American Jesus: How the Son of God Became a National Icon (New York: Farrar, Straus, and Giroux, 2003); e J. Gordon Melton et al., Melton’s Encyclopedia of American Religions (Detroit: Gale Cengage Learning, 2009).

27. Citado em Karen Armstrong, The Battle for God (New York: Ballantine, 2000), 310–11.

28. Os sites de internet das redes de comunicação mencionadas são, em ordem, http://www.cbn.com/; http://www.ewtn.com/; http://www.tbn.org/; http://www.daystar.com/.

29. A série de jogos para computador Deixados Para Trás pode ser encontrada em http://www.eternalforces.com.

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Autor: Mark Vuletic

Fonte: http://www.infidels.org/library/modern/mark_vuletic/cataract.html

“Afirmo enfaticamente”, declarou o piedoso Dr. M, “que a existência de sofrimentos horrendos não depõe minimamente contra a existência de um Deus todo-poderoso, onisciente e infinitamente benevolente.”

“Como você explica essa situação?” replicou o cético Dr. X. “Pense em todos os acontecimentos horríveis no mundo que tentamos ao máximo impedir, do assassinato ao câncer. Se qualquer ser humano tivesse o poder de nos livrar destas coisas, mas se recusasse a utilizar este poder, não hesitaríamos em questionar sua moralidade. Se Deus existe, certamente Ele tem o poder exigido, embora claramente fracasse em utiliza-lo. Não teríamos aqui pelo menos alguma razão para pensar que Ele não é perfeitamente bom?”

“Isso não nos oferece nem mesmo a menor pista de uma razão,” Dr. M respondeu.

“Mas como você explica essa situação?”, repetiu Dr. X, franzindo as sobrancelhas.

“Meu caro Dr. X”, dise o Dr. M, “você não percebe que existem certos bens que uma pessoa só pode alcançar se forem precedidos por sofrimentos? Por exemplo, dói um pouco a agulhada de uma vacina, mas é uma dor necessária para uma saúde protegida, correto?”

“Nada a objetar”, disse o Dr. X.

“E a criança sendo imunizada compreende por que a dor é necessária, ou ela apenas teme a dor?”

“Ela apenas teme  dor.”

“Um pai ou mãe amoroso poupará a criança da dor, ou fará o necessário para assegurar a saúde da criança, mesmo ao custo de dor de uma agulhada, a qual a criança não é capaz de entender?”

“Ele protegerá a saúde da criança, é claro.”

“Pense, então,” disse o Dr. M, “sobre nossa relação com Deus. O conhecimento de Deus é infinito, ao passo que o nosso é finito. Somos, por conseguinte, como crianças diante de Deus. Como sabemos, então, que não existe nenhum bem maior do qual Deus está ciente e nós não, que é possível realizar somente através de nosso sofrimento? Como sabemos que o estupro, o assassinato, o câncer e a tortura não são como imunizações administradas por um médico amoroso? O fato de Deus permitir o sofrimento não pode ser considerado uma evidência contrária a sua bondade a menos que pudéssemos corretamente esperar que qualquer propósito grandioso por trás de nosso sofrimento fosse evidente para nós. Mas devido ao abismo infinito entre o nosso conhecimento e o de Deus, nós não deveríamos esperar que tal objetivo nos seja evidente. Assim, quantidade alguma de sofrimento, por maior que seja, poderia possivelmente constituir a menor evidência contra a bondade de Deus.”

“Hmm,” meditou o Dr. X, “Não estou convencido.”

“Isto é uma lástima”, disse o Dr. M “pois o dia do Senhor chegará como um ladrão na noite, e então, é claro, será demasiado tarde para se converter ao Cristianismo.”

Alguns anos se passaram, e então o dia do Senhor chegou, como um ladrão na noite. Dr. M certamente sentiu um grande pesar pelo Dr. X, que ainda não havia aceitado Jesus, e seria lançado nas chamas do Inferno, mas quanto a si próprio, ele aguardou por sua recompensa.

Qual não foi seu susto, então, quando ele postou-se diante do Trono do Julgamento e, em vez de dar-lhe as boas vindas ao paraíso eterno, Deus desceu de seu trono, brandindo um açoite de aspecto cruel e sangrento, e começou a açoitar impiedosamente o Dr. M, vangloriando-se num deleite alucinado. Horas mais tarde, quando o Dr. M jazia praticamente inconsciente no chão, com quase todos os ossos quebrados, a pele em carne viva, Deus deu um chute vigoroso no dr. M, despachando-o para o Lago de Fogo. Dr. M aterrisou próximo ao igualmente espancado Dr. X, que, tentando tirar o melhor de uma situação ruim, esforçava-se para fumar seu cachimbo, que por sinal estava em chamas.

“Bem, olá, Dr. M”, disse o Dr. X. “Veja que situação extraordinária ao nosso redor: seu Deus infinitamente benevolente despejou todos aqui, igualmente cristãos e não-cristãos, após infligir a todos torturas horríveis. O que você pensa Dele agora?”

“Ao contrário,” disse o Dr. M, “nada disso conta minimamente contra a bondade de Deus. Ainda somos finitos, e Ele ainda é infinito. Ainda não temos como saber que não existe nenhum bem grandioso que requer tudo isto.”

Dr. X franziu suas sobrancelhas e respondeu, pensativo, “Hmmm.”

Milhares de anos se passaram no lago de fogo, com violências grotescas e renovadas impingidas diariamente sobre todos os seus habitantes por um Deus sorridente, e Dr. X mais uma vez fez a mesma pergunta ao Dr. M.

“Você acha que as evidências são suficientes agora?”

“Não”, disse o Dr. M. “Isto não serve nem mesmo como a mais diminuta partícula de evidência contra a bondade de Deus. Ainda há uma eternidade de tempo por vir. O tempo que já passou  foi finito. Ainda é perfeitamente possível que exista algum bem grandioso que exige que padeçamos horrivelmente por milhares de anos, e que exige que Deus aja como se estivesse apreciando nos torturar. Não podemos esperar que sejamos capazes entender esta razão, uma vez que nossas mentes são limitadas como as mentes das crianças em comparação com a Dele.”

“Hmmm”, respondeu o Dr. X, soltando baforadas com seu cachimbo.

Centenas de bilhões de eras astronômicas mais tarde, nada havia mudado.

“Bem”, disse o Dr. X, “a lógica ainda é a mesma. Você ainda pensa que não existe nenhuma evidência contra a infinita bondade de Deus?”

“Não”, suspirou Dr. M. “Ele é um escroto sádico tremendamente filho-da-puta.”

“Sim”, disse o Dr. X, “Eu o soube desde o princípio”

Postscript

Se você pensa que estou atacando um espantalho, eu te entendo, mas leia o diálogo entre William Rowe e a equipe de Daniel Howard-Snyder e Michael Bergmann na compilação editada por Michael Peterson Contemporary Debates in Philosophy of Religion (Blackwell, 2001).

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