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Posts Tagged ‘Diversidade Religiosa’

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Autor: Theodore Dalrymple (aka Anthony M. Daniels)

Fonte: Anything Goes (Nashville: New English Review Press, 2011), págs. 100-105

[Texto original também disponível aqui: http://www.newenglishreview.org/custpage.cfm?frm=7240&sec_id=7240]

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…o socialismo não é apenas uma questão dos operários ou do chamado quarto Estado, mas é predominantemente a questão do ateísmo, da encarnação atual do ateísmo, a questão da Torre de Babel construída precisamente sem Deus, não para alcançar o céu a partir da terra, mas para fazer o céu descer à terra.

Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov (1880)

Em minha juventude (na qual incluo os primeiros anos de minha vida adulta), li muita filosofia. Eu pegava livros de metafísica com uma excitação que não sou mais capaz de recapturar, e isso me intriga completamente; na verdade, parece-me algo vagamente ridículo. Contudo, ainda não consegui resolver se desperdicei ou não meu tempo. Afinal, eu era um estudante de medicina, não alguém se preparando para ser um intelectual. Duvido que a filosofia tenha me tornado uma pessoa melhor, e duvido ainda mais que tenha me tornado um médico melhor, mas suponho que seja possível que tenha me tornado um escritor melhor, o que definitivamente não é a mesma coisa.

Naqueles dias, a União Soviética avultava-se ameaçadora na imaginação de todos. Ela fazia o papel de rufião na escadaria da civilização ocidental, ou de uma presença ameaçadora no leste. E isso significava que, para qualquer um que desejasse entender o mundo, parecia necessário mergulhar de cabeça no marxismo (na verdade, era mais importante conhecer a história da intelligentsia russa desde a época de Nicolau I do que ler Marx), já que a URSS afirmava ser uma sociedade fundada em princípios marxistas.

Os autores marxistas nunca foram famosos pela clareza ou elegância na exposição de suas ideias. Na verdade, a clareza era um valor por eles desprezado, pois a natureza dialética do mundo seria intrinsecamente difícil de compreender, e portanto de expressar. Para os marxistas, clareza seria sinônimo de simplificação ou, ainda pior, de vulgarização. A clareza seria a serva da falsa consciência que desviava os trabalhadores de seu destino revolucionário.

Do mesmo modo que com a filosofia, não estou certo de que meus esforços para compreender o marxismo tenham sido um completo desperdício de um precioso tempo que eu poderia e deveria ter empregado melhor. De qualquer maneira, quando a União Soviética entrou em colapso, não graças a meus esforços para compreender o marxismo, eu pensei, ‘Bem, pelo menos nunca mais precisarei gastar minhas energias tentando me desvencilhar de contrassensos ideológicos novamente se eu quiser compreender o que estiver se passando.’

Como eu estava errado! Indo direto ao ponto, encontrei-me lendo sobre o Islã, um assunto de grande interesse para os acadêmicos, sem dúvida, pois nada que seja humano deixa de lhes despertar o interesse, e, naturalmente, porque o Islã foi a base de grandes civilizações no passado; mas não (em minha opinião) um assunto digno de estudo por quaisquer verdades internas ou novas que se pudesse esperar que me trouxesse. Não; descobri-me lendo sobre o Islã porque ele repentinamente emergiu como o próximo totalitarismo em potencial.

Durante minhas leituras, descobri-me oscilando como um pêndulo entre considerar o Islã como uma uma ameaça verdadeiramente séria, e não considera-la com seriedade de jeito nenhum. As razões para leva-lo a sério eram que uma ampla parcela da humanidade é muçulmana; que uma minoria violenta e agressiva ganhou proeminência dentro desta população com uma aprovação aparentemente ampla, embora em grande parte passiva, e que as lideranças dos países ocidentais mostravam-se muito fracas e pusilânimes em face deste, ou de qualquer outro, desafio. As razões para não levar o Islã a sério eram que, no mundo contemporâneo, ele é intelectualmente irrisório; que o desequilíbrio na balança de poder entre o resto do mundo e o mundo islâmico parecia estar aumentando em vez de diminuindo; e que por trás de toda balbúrdia sobre a posse exclusiva da verdade única, universal e divinamente predestinada para o homem, se escondia a ansiedade de que todo o edifício do Islã, embora robusto, era extremamente frágil, o que explicava por que a livre investigação é tão limitada nos países islâmicos. Havia uma consciência subliminar – e talvez nem sempre subliminar – de que o livre debate histórico e filosófico poderia rapida e fatalmente solapar o domínio do Islã sobre várias sociedades. O fundamentalismo seria, portanto, uma manifestação de fraqueza, e não de força.

Recentemente, li um dos livros mais conhecidos de Sayyid Qutb, Milestones. Naturalmente, não sendo um falante da língua árabe, eu confiei na acurácia da tradução. Qutb, que em 1966 foi enforcado por Nasser, o nacionalista secularizante, por supostamente planejar a derrubada do governo, foi um dos mais influentes pensadores muçulmanos do século XX. Ele não começou a vida como islamita, mas tornou-se um parcialmente em reação ao breve período em que residiu nos Estados Unidos. Ele ficou aterrorizado pelo que viu como a lassidão moral dessa sociedade (embora sua estadia tenha ocorrido numa época que, em retrospecto, é considerada pelos conservadores morais como um tempo de grande e exemplar renúncia pessoal, pelo menos em comparação com a atmosfera moral de hoje). Ele foi um homem culto, e estava longe de ser ignorante. Ele não negava, por exemplo, a contribuição que a Europa (e a América, que ele considerava como parte da Europa) dera: falando do Renascimento e do passado recente, ele disse:

Esta foi a era durante a qual o gênio da Europa criou suas maravilhosas obras na ciência, na cultura, na lei e na produção material, em virtude das quais a humanidade tem progredido até grandes picos de criatividade e conforto material.

Ele não esperava que o mundo muçulmano se equiparasse ao mundo europeu em prosperidade ou poder a curto prazo, mas isto não o preocupava. Como vários intelectuais de uma sociedade intelectual e materialmente atrasada, pelo menos em comparação com uma mais rica e avançada, ele se consolava com a superioridade espiritual de sua própria sociedade, ao menos em potencial. (Na verdade, ele também era altamente crítico das assim chamadas sociedades muçulmanas, que ele criticava por não serem islâmicas o suficiente e por buscarem o falso deus da ocidentalização.)

Curiosamente, contudo, o pensamento de Qutb guarda vários paralelos com o marxismo. Onde Marx tem a Inevitabilidade Histórica, Qutb tem a Lei Divina. Marx, vocês se lembram, divisava um tempo em que o Estado terá sido superado, e a história, chegado ao fim. Na visão de Marx, o poder político terá se dissolvido, e a exploração do homem pelo homem terá cessado, substituída pela mera administração das coisas. (Que qualquer pessoa minimamente inteligente possa alguma vez ter acreditado em tal coisa me atordoa.) Na visão de Qutb, todo poder político terá se dissolvido, substituído pela obediência espontânea do homem à lei de Deus. Assim como a administração das coisas na utopia de Marx não conferirá poder aos administradores, presumivelmente porque tudo será tão abundante que ninguém se sentirá tentado a se apropriar de uma quantidade de bens maior do que a possuída por seu próximo, na utopia de Qutb ninguém terá que interpretar a lei e obter poder por faze-lo. A lei de Deus será tão evidente quanto as coisas serão abundantes na sociedade sem classes de Marx.

Tanto Marx como Qutb expressam a ideia de que, sob o novo desígnio, o homem se tornará mais humano, menos animal. Pessoalmente, sempre achei este tipo de pensamento um insulto assombrosamente arrogante a todas as pessoas que viveram antes de quem o concebeu: a humanidade realmente precisou esperar por Marx ou Qutb antes de se tornar verdadeiramente humana?

Marx entendeu que a sociedade sem classes não surgiria pela mera pregação do socialismo, como se fosse apenas uma teoria ou exigência ética. Seria necessário violência. De maneira similar, Qutb nega que o mundo se tornará islâmico apenas pela pregação da palavra de Deus. Ele se refere ao período que Maomé passou em Meca, quando o Profeta não recorreu às armas. Isto, ele diz, foi meramente tático; teria sido impossível, em termos práticos, impor seu domínio pela força. Mas ao chegar em Medina, ele não hesitou em lutar contra seus inimigos, incluindo os que pura e simplesmente não aceitaram sua mensagem.

Assim como Marx disse que um confronto final entre o proletariado e a burguesia é inevitável, levando ao triunfo do primeiro e ao subsequente estabelecimento de uma sociedade sem classes, Qutb, por sua vez, pensou que uma guerra decisiva entre os crentes e os infiéis é inevitável, levando à vitória do Islã, que eliminará todos os conflitos religiosos. De quem é a seguinte frase, de Marx ou Qutb:

[existe] uma luta natural entre dois sistemas que não podem coexistir por muito tempo.

É uma frase escrita por Qutb; mas poderia ter sido tirada dos escritos dos milhares de seguidores de Marx, se não do próprio Marx, incluindo Mao Tse-Tung.

A imposição violenta de uma sociedade socialista e de uma sociedade islâmica é justificada da mesma maneira em Marx e em Qutb: se as pessoas fossem realmente livres, ou seja, se não padecessem nem de falsa consciência nem de jahilliyah (ignorância da orientação divina), eles aceitariam o estado socialista ou islâmico não meramente sem hesitar, mas com verdadeiro júbilo, como sendo para seu próprio bem livremente escolhido. A verdadeira liberdade, tanto em Marx como em Qutb, é o reconhecimento da necessidade. Tudo o que impede as pessoas de ver a verdade de suas mensagens é um inimigo da liberdade real (em oposição à mera liberdade aparente).

Há pouquíssimo que seja especificamente espiritual no livro de Qutb: é um manifesto político, não religioso. E como Marx, ele insiste que o Islã não é tanto um conjunto doutrinário, teórico ou factual, como na verdade um método. Sua noção é incrivelmente similar à da práxis marxista, de uma relação dialética entre teoria e prática. Eis o que ele diz sobre a sociedade islâmica vindoura:

Somente quando tal sociedade passa a existir, encara vários problemas práticos e demanda um sistema legal, o Islã inicia a constituição das leis e injunções, regras e regulações.

Assim como Marx, ele afirma reiteradamente que o Islã não é uma doutrina, mas uma unidade entre teoria e prática.

Qutb insiste que o triunfo do Islã é o único meio pelo qual o que ele chama de domínio do homem sobre o homem será abolido, assim como Marx e os marxistas insistem que o triunfo do marxismo é o único modo pelo qual a exploração do homem pelo homem cessará.

Marx acreditou que o homem já viveu num estado de comunismo primitivo que terminou com a divisão do trabalho. Qutb acreditava (de maneira bem menos plausível ou desculpável) que as primeiras gerações após Maomé viveram numa sociedade islâmica perfeitamente funcional. Ele não se perguntou, pelo menos não nesse livro, por que foi, então, que três dos quatro califas, supostamente sob a correta orientação divina, foram brutalmente assassinados. Este é um tipo bastante singular de perfeição, para dizer o mínimo. Mas, assim como a divisão do trabalho  chegou e arruinou o comunismo primitivo, também a filosofia grega e outras inovações vieram e arruinaram a sociedade islâmica perfeita. Por que razão a perfeição soçobraria em virtude de influências externas – poderia a perfeição ser assim tão imperfeita? – é uma questão que Qutb não levantou.

Ao longo de seu livro, sente-se sua fúria. Assim como Marx expressa sua admiração pela obra realizada pela burguesia no passado, Qutb similarmente presta tributo à Europa: mas tanto Marx como Qutb estão repletos de ódio. Obviamente, Qutb afirmou não ser mais do que um humilde instrumento de Deus, expressando o plano de Deus para a humanidade, assim como Marx afirmou ser o mero porta-voz da inevitabilidade histórica. Mas nem tudo o que afirma ser humilde é humildade. O autoconhecimento e o autoexame não fazem parte do programa de Qutb mais do que fazem do de Marx.

O livro de Qutb é obcecado com a obtenção do poder político e social. Há pouquíssimo conteúdo espiritual nele. Ele diz:

É claro, então, que uma comunidade muçulmana não pode ser formada ou continuar a existir até que obtenha poder suficiente para confrontar a sociedade jahili existente.

Somente o triunfo total do Islã (no sentido de Qutb) trará paz ao mundo, assim como todo conflito humano terminará quando o triunfo final do proletariado resultar na sociedade sem classes.

O único aspecto religioso do pensamento de Qutb é sua crença de que o Corão é a palavra não-mediada de Deus, uma crença que ele não justifica, porque não pode justificar. Para ele, a vontade de Deus é indisputavelmente conhecida sem qualquer necessidade de interpretação, e, de fato, ele a conhece. Não é difícil ver, então, que em nome da destruição de toda autoridade política e do domínio do homem sobre o homem em obediência à vontade de Deus, Qutb pense que deve ser um ditador total, e que ele é tão obcecado com o aqui e agora quanto qualquer marxista.

É aquela velha história de sempre. Como Dostoiévski disse, começando com liberdade ilimitada terminamos com o mais completo despotismo.

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Nos comentários do post “Mais uma refutação ao poderoso OTF…“, um dos discípulos do profeta apocaliptista travestido de ateu conservador Luciano Ayan  (ele jura que é operado, mas vai até a lua e volta espumando de ódio toda vez que alguém acerta uma pancada contundente em suas intimidades religiosas) fez uma “contribuição de altíssimo nível“, expondo a todos um suposto debate que um suposto John W. Loftus supostamente teria perdido. Desde então Luciano Ayan vem fazendo anúncios bombásticos de uma vindoura refutação humilhante ao OTF, como pode ser visto nos dois screenshots abaixo (coloquei as fontes nas legendas, mas é altamente provável que ele adultere seus posts ao ver sua alegria de pobre abortada e me acuse de te-lo fraudado):

 O motivo dessa hybris pode ser visto nesta arena virtual aqui. Thrasymachus, o desafiante, não faz nada além de reciclar objeções que alguns apologistas já haviam levantado anteriormente, e às quais o autêntico Loftus já havia respondido _ vejam os comentários deste post do blog do Thrasymachus. Observem também como o próprio Thrasymachus, no terceiro round do debate, em vez de comemorar a vitória suspeitosamente fácil, preferiu considerar altamente provável que o perfil que aceitara seu desafio na verdade pertencia a um fake, suspeita que ele já aventara no começo do segundo round ao solicitar que o outro debatedor lhe enviasse alguma confirmação de que era o autêntico Loftus.

O cristão enrustido, naturalmente predisposto a se agarrar à literalmente qualquer bobagem que alguém fale ou escreva em defesa de sua fé e numa atitude típica de pessoas iludidas, levou em consideração só o que lhe era favorável e ignorou o que era de fato relevante. Se fosse o cético full-blown que se jacta de ser a cada duas linhas de seus posts, teria se poupado mais esse constrangimento. V.V., obrigado por propiciar mais essa oportunidade de expor ao ridículo o macho-alfa dos conservopatas.

Quanto à objeção levantada pelo Thrasymachus contra o OTF, trata-se da famigerada e abusada falácia genética, que consiste em afirmar que uma crença é falsa em virtude do modo como foi adquirida. É a quinta das objeções respondidas abaixo. Além disso, observem que o OTF é um argumento indutivo, probabilístico, não um argumento dedutivo. Ele deixa em aberto a possibilidade de que alguma fé religiosa seja verdadeira apesar de adquirida por um processo não confiável de formação de crenças.

Quanto ao Luciano Ayan, este é o último post em que esse infeliz ou algum de seus textos é mencionado aqui no Rebeldia Metafísica. Continuar a faze-lo seria desmerecer o excelente trabalho de desconstrução da equipe do Blog do Mensalão (recomendo a leitura dos seguintes textos: O que é Controle de Frame, Sou ateu parte 1B: Jeremias e Marcelo Rizzo, Uma “breve” biografia de Luciano Ayan). Como meu presente pessoal de despedida, deixo a ele este link  e uma canção que decerto lhe serão úteis no estágio terminal em que se encontra:

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Um: Os crentes religiosos objetarão em uníssono que o OTF não mostra que sua religião particular é falsa simplesmente por ser um fato sociológico incontestável que acreditamos baseados em acidentes históricos e geográficos. William Lane Craig indaga, “Como a mera presença de visões de mundo incompatíveis com o Cristianismo mostra que alegações distintivamente cristãs não são verdadeiras? Logicamente, a existência de reivindicações de verdade múltiplas e incompatíveis implica apenas que todas elas não podem ser (objetivamente) verdadeiras;  mas seria obviamente falacioso inferir que nenhuma delas é (objetivamente) verdadeira.” Ele está certo sobre isso, assim como os muçulmanos e os mórmons que podem dizer a mesma coisa em relação a suas respectivas fés. Afinal, alguém pode estar certo por nenhuma outra razão além da sorte de nascer na época e no lugar certo.

Mas como você justifica racionalmente tal sorte? Foi por isto que desenvolvi o desafio do teste do infiel em primeiro lugar, para testar as fés religiosas contra tal sorte. Se o teste entre fés religiosas é baseado inteiramente na sorte, então quais são as chances, baseado apenas na sorte, que a seita específica do Cristianismo à qual alguém adere seja a correta?

Dois: Objeta-se que existem minorias ínfimas de pessoas que escolheram ser teístas cristãos que nasceram e cresceram em países muçulmanos e que as pessoas podem escapar de sua fé culturalmente adotada. Isto é verdade. Mas estas são as exceções. Os teístas cristãos respondem me pedindo para explicar as exceções. Estou pedindo que eles expliquem a regra. Por que crenças religiosas específicas predominam em áreas geográficas específicas? Por que isso ocorre?

Quando se trata destes convertidos, minha opinião é que a maioria deles não ponderou objetivamente as evidências quando fez seus compromissos religiosos iniciais. Eles mudaram sua maneira de pensar sobretudo devido à influência e à credibilidade do evangelizador e/ou da natureza fantástica e assombrosa do próprio relato religioso. Eles não dispunham de nenhum método inicial para realmente investigar a fé professada. Que evangelista falaria de maneira nua e crua sobre o lado negro da Bíblia e da Igreja enquanto prega as Boas Novas? Nenhum que eu conheça. Que evangelista apresenta um panorama dos inumeráveis problemas que os acadêmicos cristãos como vocês próprios da platéia enfrentam em encontros como este? Nenhum que eu conheça. Que evangelizador dá a um convertido em potencial uma cópia de um livro como o meu junto com uma cópia de um livro de apologética cristã e pede-lhe que leia os dois antes de tomar uma decisão? Mais uma vez, nenhum que eu conheça.

Três: Objeta-se que a mera discordância de pessoas racionais acerca de um tema não justifica o ceticismo acerca de uma afirmação específica. Ao contrário, penso que isso não somente pode justificar como de fato justifica o ceticismo. O grau de ceticismo justificado depende dos critérios que mencionei antes. Pessoas racionais não apostam contra a gravidade, por exemplo, porque há evidências para ela que foram aprendidas à parte do que lhes foi ensinado para acreditarem numa região geográfica distinta. Ela pode testa-la pessoalmente. Sustento que as crenças religiosas estão numa categoria diferente da dos resultados de experimentos científicos reprodutíveis, e que esta afirmação é tanto óbvia quanto incontroversa. De qualquer maneira, o ceticismo é melhor expresso num continuum. Algumas alegações de crença justificarão um ceticismo maior do que outras. Afirmo que crenças religiosas provavelmente justificam o mais elevado grau de ceticismo considerando-se os fatos sociológicos. Correndo o risco de ofender os religiosos aqui, as crenças religiosas, como crenças em elfos na Islândia, em trolls na Noruega e no poder das bruxas na África, devem ser submetidas ao mais elevado grau de ceticismo considerando-se tanto a natureza extraordinária destas afirmações e como algumas destas crenças são adotadas em primeiro lugar.

Quatro: Alguém pode objetar que meu argumento se auto-destrói. Elas indagarão: “Minhas condições culturais ‘determinam’ esmagadoramente minha pressuposição cética? Se for o caso, então, como Alvin Plantinga pergunta, seriam minhas crenças igualmente ‘produzidas por um processo de produção de crenças não-confiável’? Se não, então por que razão eu penso que posso transcender a cultura mas um teísta cristão não pode transcender sua cultura?” Em resposta, penso ser extremamente difícil transcender nossa cultura porque, como mencionei antes, elas nos dota com os próprios olhos com os quais vemos. Mas precisamente porque sabemos a partir de estudos psicológicos e antropológicos que isto é o que a cultura faz por e para nós, é possível transcender a cultura em que fomos criados.

[Exemplo] Sabemos que as pessoas não percebem sensorialmente a realidade como ela realmente é. O que vemos é filtrado por nossos olhos. O que ouvimos é filtrado por nossos ouvidos. Vemos e ouvimos apenas uma quantidade muito limitada dos dados do mundo. Mas se víssemos e ouvíssemos o espectro sônico e eletromagnético inteiro nós basicamente veríamos e ouviriamos ruído branco. Sabemos disso mesmo não sendo capazes de realmente ver ou ouvir o ruído branco por nós mesmos. Também sabemos que o chão sobre o qual caminhamos move-se como um enxame de abelhas no nível microscópico. Assim, é o conhecimento científico sobre o mundo que nos leva a sermos céticos sobre o que vemos e ouvimos.

O mesmo pode ser dito quando se trata de estudos psicológicos e antropológicos mostrando que deveríamos ser céticos em relação ao que somos levados a acreditar, apesar de sermos incapazes de realmente ver qualquer coisa acerca de nossas crenças sobre as quais deveríamos ser céticos. E o OTF é sem dúvidas um teste que podemos propor para examinar nossas crenças culturalmente adotadas.

A verdade é que meu argumento definitivamente não se autodestrói. Ele sugere que deveríamos duvidar do que acreditamos. Não é autodestrutivo dizer quais são as chances de que estejamos errados. Afinal, estamos falando sobre as probabilidades aqui. O filósofo agnóstico J.L. Schellenberg lida come este mesmo tipo de críticas nestes termos: “agora, esta objeção pode ser sólida se meus argumentos de fato forem aplicáveis a si próprios, e não é preciso muito para vermos que tal não é o caso.” Pois existe uma diferença colossal entre defender um sistema de crenças religiosas como o único e exclusivo sistema correto, e negar que um sistema de crenças religiosas seja justificado. Sua afirmação é que os adeptos de qualquer sistema de crenças religiosas dado “não foram bem-sucedidos em montar seu caso; ele nos compele a continuar a investigação… porque o ceticismo sempre é uma posição de último recurso em contextos de busca da verdade.”

Cinco: ao afirmar que fés religiosas são adotadas esmagadoramente por “acidentes de nascimento”, terei cometido a falácia genética, uma falácia informal de irrelevância? Esta falácia é cometida sempre que se argumenta que uma crença é falsa devido ao modo como se originou.

Eu não considero a falácia genética tão significativa quanto as pessoas pensam que é, especialmente em contextos religiosos. Se alguém acredita de maneira paranóica que a CIA o está espionando e descobrimos que a gênese (ou origem) de sua crença remonta ao consumo de uma droga alucinógena como o LSD, então possuímos evidências realmente boas para sermos céticos em relação a sua crença paranóica, apesar de não termos realmente demonstrado a falsidade de sua crença de qualquer outro modo, e apesar de ao procedermos assim alguém poder nos acusar de cometer a falácia genética. Portanto, de maneira similar, se podemos determinar que as origens das formas mais primitivas de Cristianismo foram criadas puramente por seres humanos antigos supersticiosos, possuímos boas bases para sermos céticos. Mas ainda mais importante para o caso, se todas as nossas crenças são completamente determinadas por nosso ambiente então esse é o caso independente do fato de que ao argumentar em defesa disso comete-se a falácia genética.

Todavia, não há nenhuma falácia genética aqui, a menos que ao explicar como os fiéis primeiro adotam sua fé eu em seguida concluísse que tal fé é falsa. Não estou afirmando que essas fés são falsas em virtude de como os crentes originalmente as adotam. Estou apenas defendendo que os crentes deveriam ser céticos a respeito de suas fés religiosas culturalmente adotadas em virtude de como eles primeiro vieram a adota-las.

Seis: Uma última objeção pergunta se isto tudo não seria circular. Teria eu meramente escolhido um sistema de crenças metafísicas diferentes baseado em fatores culturais diferentes? Eu nego que isto seja verdade, pois tenho fundamentos iniciais muito bons para começar com o ceticismo baseado em fatos sociológicos, antropológicos e psicológicos. Os procedimentos metodológicos são aqueles testes que utilizamos para investigar alguma coisa. Como procedemos ao investigar alguma coisa é uma questão separada que deve ser justificada em seus próprios termos, e eu tenho feito isto aqui. Uma pessoa não pode dizer que devo ser tão cético acerca do Teste Da Fé do Infiel quanto sou acerca das conclusões a que cheguei quando apliquei o teste, já que justifiquei o teste a partir dos fatos. Deve-se primeiro discutir o teste do infiel em seus próprios termos.

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Veja, por exemplo, os eventos para diálogo inter-religioso. A discussão não pode durar mais do que meia hora, e logo deverão servir os drinks e os croquettes, porque mais do que meia hora implicaria começar a falar a sério sobre as diferenças entre as religiões (as religiões não querem todas a mesma coisa, isso é conversa “de mulherzinha”). Imagine cristãos e judeus conversando sobre suas religiões. Cristãos assumem que Jesus foi o Messias que os judeus esperavam (e também que ele é Deus), e, portanto, os judeus teriam perdido o bonde da história ao não reconhecer Jesus como Messias. Por sua vez, os judeus pensam que os cristãos pegaram o bonde errado ao assumir que Jesus foi o Messias. Logo, conflito. Melhor tomar drinks e comer croquettes.

Luiz Felipe Pondé, Guia Politicamente Incorreto da História da Filosofia – Ensaio de Ironia, Leya, 2012, p. 59-60.

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