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Posts Tagged ‘ética’

por Quentin Smith

A classe dos fenômenos morais inclui os deveres, as leis, os atos, os objetos e as naturezas morais. Um dever moralmente santo ou sagrado é um dever da mais elevada espécie possível; é um dever incondicional, um dever em favor do qual tudo deveria ser sacrificado se necessário. O termo “santo” ou “sagrado” é usado para expressar esta propriedade em afirmações morais como “Proteger os direitos naturais de todos os humanos é nossa obrigação suprema; é nosso dever sagrado”; “A busca da arte é minha vocação e dever sagrados”; “Soldados, é nosso dever sagrado defender a Pátria”. Uma lei moralmente santa é uma que é incondicionalmente imperativa; ela não pode, sob quaisquer circunstâncias, ser violada. Alguém expressa esta propriedade das leis quando fala da “santidade da lei”. Um ato moralmente santo é um ato do mais nobre tipo possível; um exemplo pode ser o sacrifício supremo, sacrificar a própria vida, por algo genuinamente digno desse sacrifício. Sacrificar a própria vida por uma causa moralmente sagrada não é meramente “bom” ou “virtuoso” no sentido ordinário mas pertence a uma ordem de excelência moral diferente e superior. É um ato moralmente impressionante e comove profundamente os que dele tomam conhecimento, tornando a mera “aprovação moral” inadequada. Fica-se sem palavras diante de um ato ético supremo. Um objeto de conduta ética moralmente santo é um objeto da mais elevada espécie possível, algo que deveria ser preservado ou aperfeiçoado em detrimento de outros possíveis bens morais. Atribuições de santidade a objetos de nossa conduta são expressas em expressões como “a santidade da vida humana” e “a sacralidade de nossas instituições nacionais”. Uma pessoa que tem ou desenvolve uma natureza ou caráter moralmente santos é uma pessoa perfeitamente boa; tal pessoa é conduzida exclusivamente por princípios morais e realiza a melhor ação moralmente relevante em cada situação em que se encontra. Tal pureza moral é mais um ideal do que um fato concreto no que se refere a pessoas humanas e tem em Deus sua instanciação perfeita.[7]

A santidade moral, a propriedade de ser um fenômeno moral do tipo mais elevado possível, é uma propriedade distintiva da santidade no sentido de que é tanto uma propriedade completa da santidade e um componente de outra propriedade completa da santidade, qual seja, a santidade religiosa. A fim de ser religiosamente santo, é necessário ser moralmente santo (especificamente, ter um caráter perfeitamente bom), mas não é necessário ser religiosamente santo ou mesmo religiosamente santo por derivação para ser moralmente santo. É importante estabelecer este último ponto, uma vez que alguns podem confundir santidade religiosa derivativa com santidade moral. Certos deveres, atos, etc., relativos aos humanos são santos em virtude de sua relação com Deus e outros são santos num sentido diferente em virtude de sua qualidade moral. Uma peregrinação à Meca ou uma oração são “atos santos” ou “deveres sagrados” num sentido religioso derivativo mas não num sentido moral, ao passo que “defender os direitos naturais dos humanos” ou “preservar o conhecimento para as futuras gerações” é consistentemente considerado um dever sagrado num sentido moral e não-religioso. A ideia de que a santidade moral não é religiosamente derivativa pode enfrentar resistência da parte de alguns, mas há várias instâncias de atribuição de santidade moral que são consistentes com uma visão de mundo ateísta. A crença na “santidade da vida humana” é consistente com a crença em que os humanos não são feitos à imagem de Deus e em que não existe nenhum Deus; esta crença pode ser baseada exclusivamente numa convicção do valor inexcedível da pessoa humana e da posse natural pelos humanos de direitos invioláveis. Diversos poetas e escritores ateus e do século XIX e do começo do século XX acreditaram ser sua devoção à arte uma vocação e um dever sagrados, e acreditaram nisto baseados em sua convicção do valor supremo da arte. Durante o regime nazista, vários alemães fervorosamente patrióticos ser “a Pátria” uma nação secular portadora de uma santidade moral, e acreditaram piamente ser seu “dever sagrado” defender a Pátria contra as forças moralmente inferiores do mundo exterior. Isto não quer dizer que estas crenças morais são necessariamente corretas (pode-se perfeitamente questionar a sacralidade moral da Pátria), mas que elas são consistentes – a propriedade da sacralidade moral é atribuída sem contradição a fenômenos que não são conectados a Deus. O valor moral supremo não é logicamente dependente da existência de uma pessoa suprema.

A decisão sobre quais fenômenos morais são moralmente santos pertence à análise decomposicional da santidade moral. Ser supremo na classe dos fenômenos morais é analisável na supremacia na classe das obrigações ou leis ou ações ou objetos ou naturezas morais, e esta propriedade disjuntiva é por sua vez analisável em tipos específicos de deveres, leis, etc., que são moralmente supremos. A discplina filosófica à qual esta análise da santidade moral pertence é a ética.

Notas.

7. Kant reconheceu um tipo de santidade moral na medida em que definiu um vontade santa como uma vontade em perfeita concordância com a lei moral. Não obstante, ele não reconheceu ou não reconheceu claramente a independência lógica da santidade moral da santidade religiosa, pois sua concepção de uma vontade santa foi desenvolvida dentro do esquema conceitual do teísmo. Veja sua Crítica da Razão Prática.

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por Sam Harris

Afirma-se com frequencia que nossa experiência do livre-arbítrio apresenta um mistério fascinante: por um lado, não podemos compreende-lo em termos científicos; por outro, sentimos que somos os autores de nossos próprios pensamentos e ações. Contudo, penso que este mistério é em si um sintoma de nossa confusão. Não é que o livre-arbítrio seja uma mera ilusão – nossa experiência não está meramente entregando uma visão distorcida da realidade. Antes, estamos equivocados sobre nossa experiência. Não somente não somos tão livres quanto pensamos que somos – não nos sentimos tão livres quanto pensamos que sentimos. Nossa sensação de nossa própria liberdade resulta de não prestarmos a devida atenção a como é ser como nós. No momento em que prestamos atenção, é possível ver que o livre-arbítrio não pode ser encontrado em nenhum lugar, e nossa experiência é perfeitamente compatível com esta verdade. Pensamentos e intenções simplesmente surgem na mente. O que mais eles poderiam fazer? A verdade sobre nós é mais estranha do que muitos imaginam: A ilusão do livre-arbítrio é em si uma ilusão.

O problema não é apenas que o livre-arbítrio não faz nenhum sentido objetivamente (isto é, quando nossos pensamentos e ações são vistos de uma perspectiva de terceira pessoa); ele também não faz sentido subjetivamente. É perfeitamente possível observar isto pela introspecção. Com efeito, realizarei agora um experimento sobre com o livre-arbítrio para que todos vejam: escreverei qualquer coisa que eu quiser no restante deste livro. Seja lá o que for que eu escrever será, é claro, alguma coisa que eu escolhi escrever. Ninguém está me obrigando a fazer isto. Ninguém me delegou um tópico específico ou exigiu que eu utilize palavras específicas. Posso violar as regras da gramática se for do meu agrado. E se eu quiser colocar um coelho nesta frase, eu sou livre para faze-lo.

Mas prestar atenção a meu fluxo de consciência revela que esta noção de liberdade não alcança muito fundo. De onde este coelho veio? Por que eu não coloquei um elefante naquela frase? Eu não sei. É claro que sou livre para mudar “coelho” por “elefante”. Mas se eu fizesse isto, como eu explicaria este ato? É-me impossível conhecer a causa de ambas as escolhas. O ato também é compatível comigo sendo forçado pelas leis da natureza ou carregado pelos ventos do acaso; mas nenhum parece, ou é sentido, como liberdade. Coelho ou elefante: sou livre para decidir que “elefante” é a melhor palavra quando não sinto que é a melhor palavra? Sou livre para mudar de ideia? É claro que não. Isto pode mudar apenas eu.

O que traz minhas deliberações sobre estes temas a um término? Este livro deve terminar uma hora – e agora quero comer algo. Sou livre para resistir a este sentimento? Bem, sim, no sentido de que não estou sob a mira de ninguém me obrigando a comer – mas estou com fome. Posso resistir a este impulso um pouco mais? Sim, é claro – e por um número indeterminado de momentos subsequentes. Mas eu não sei por que faço o esforço nestas circunstâncias e não em outros. E por que meus esforços cessam exatamente quando cessam? Agora sinto que é realmente hora de deixa-los. Estou com fome, sim, mas também me parece que cumpri a tarefa que me propus. Na verdade, não posso pensar em mais nada para dizer sobre o assunto. E onde está a liberdade nisso?

Agradecimentos

Gostaria de agradacer a minha esposa e editora, Annaka Harris, por suas contribuições para o presente livro. Como sempre é o caso, suas intuições e recomendações melhoraram muito o livro. Eu não sei como ela administra a criação de nossa filha, trabalha em seus próprios projetos e ainda tem tempo para editar meus livros – mas ela o faz. Sou extremamente sortudo e grato por te-la ao meu lado.
Jerry Coyne, Galen Strawson e minha mãe também leram um rascunho prévio do manuscrito e forneceram comentários muito úteis.

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por Sam Harris

Muitas pessoas temem que o livre-arbítrio seja uma ilusão necessária – e que sem ele fracassaremos em viver existências criativas e satisfatórias. Esta preocupação não é completamente injustificada. Um estudo revelou que a leitura de um argumento contra a existência do livre-arbítrio tornou os participantes mais prováveis de trapacearem num exame subsequente.[19] Outra descoberta foi que tais participantes tornaram-se menos solícitos e mais agressivos.[20] Certamente é concebível que conhecer (ou enfatizar) certas verdades sobre a mente humana poderia ter consequências psicológicas e/ou culturais desastrosas. Entretanto, eu não estou especialmente precoupado com a degradação da moralidade de meus leitores ao publicar este livro.

Falando por experiência própria, penso que a perda da sensação de livre-arbítrio apenas aprimorou minha ética – aumentando meus sentimentos de compaixão e perdão, e diminuindo minha sensação de mérito próprio pelos frutos de minha própria boa sorte. Tal estado mental é sempre desejável? Provavelmente não. Se eu estivesse dando aulas de defesa pessoal para mulheres, eu consideraria bastante contraproducente enfatizar que todo comportamento humano, incluindo a reação de uma mulher a uma agressão física, é determinado por um estado anterior do universo, e que todos os estupradores são, no fundo, desafortunados – sendo eles próprios vítimas de causas anteriores que não criaram. Há verdades científicas, éticas e práticas apropriadas para cada ocasião – e um injunção como “Apenas acerte os olhos do filho da puta!” certamente tem seu lugar. Não há nenhuma contradição aqui. Nosoos interesses na vida nem sempre são servidos vendo pessoas e coisas como coleções de átomos – mas isto não nega a verdade ou a utilidade da física.

Perder a crença no livre-arbítrio não me tornou um fatalista – na verdade, isso aumentou meu sentimento de liberdade. Meus medos, esperanças e neuroses parecem menos pessoais e permanentes. Não há como dizer o quanto posso mudar no futuro. Da mesma maneira que não se poderia extrair uma conclusão segura e duradoura acerca de si próprio baseado numa indigestão passageira, também não seria necessário faze-lo baseado no modo como alguém tem pensado ou se comportado por grandes intervalos de tempo no passado. Uma mudança criativa dos dados introduzidos no sistema – o aprendizado de novas habilidades, a formação de novas relações, a adoção de novos hábitos de atenção – podem transformar radicalmente a vida de alguém.

Tornar-se consciente das causas de fundo dos pensamentos e sentimentos alheios pode – paradoxalmente – possibilitar um maior controle criativo sobre a própria vida. Uma coisa é discutir com sua esposa porque você está de mau humor; outra é perceber que seu humor e comportamento foram causados por hipoglicemia. Este entendimento revela que você é uma marionete bioquímica, é claro, mas também permite que você assuma o controle de uma de suas cordas: uma porção de alimento pode ser tudo o que sua personalidade precisa. Estarmos ligeiramente atrasados em relação a nossos sentimentos e pensamentos conscientes pode nos permitir conduzir nossas vidas por um caminho mais inteligente (mesmo sabendo, é claro, que em última instância estamos sendo conduzidos).

Notas.

19. K. D. Vohs & J. W. Schooler, 2008. The value of believing in free will: Encouraging a belief in determinism increases cheating. Psychological Science, 19(1): 49–54.

20. R. F. Baumeister, E. J. Masicampo, & C. N. DeWall, 2009. Prosocial benefits of feeling free: Disbelief in free will increases aggression and reduces helpfulness. Personality and Social Psychology Bulletin, 35: 260–268.

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Tradução para o português exclusiva e em primeira mão do mais recente livro de Sam Harris, Free Will:

A crença no livre-arbítrio permeia praticamente tudo o que os seres humanos valorizam. É difícil refletir sobre direito, política, religião, políticas públicas, relações íntimas, moralidade – bem como sobre os sentimentos de remorso ou realização pessoal – sem primeiro imaginar que cada pessoa é a verdadeira fonte de seus pensamentos e suas ações. Todavia, os fatos nos dizem que o livre-arbítrio é uma ilusão.

Neste livro esclarecedor, Sam Harris defende que esta verdade acerca da mente humana não implode a moralidade ou diminui a importância da liberdade política e social, mas ela pode e deveria mudar a maneira como pensamos sobre algumas das questões mais importantes da vida.

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Sam Harris é o autor dos campeões de venda A Morte da Fé, Carta a Uma Nação Cristã, The Moral Landscape, e Lying. A Morte da Fé venceu o 2005 PEN Award na categoria de não-ficção. Sua obra foi publicada em mais de 15 línguas. Sam Harris e sua obra têm sido objeto de discussão em publicações como The New York Times, Scientifican American, Nature, Rolling Stone, Newsweek, Time e várias outra. Seus artigos são publicados no The New York Times, Los Angeles Times, The Times (Londres), The Boston Globe, The Atlantic, Newsweek, Annals of Neurology, entre outros periódicos. Dr. Harris é co-fundador e CEO do Project Reason, uma fundação sem fins lucrativos devotada a disseminar o conhecimento científico e os valores seculares na sociedade. Ele recebeu seu diploma em filosofia pela Stanford University e um PhD em neurociência pela UCLA. Visitem seu website: www.samharris.org

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Índice:

  1. Introdução
  2. As Origens Inconscientes da Vontade
  3. Mudando de Assunto
  4. Causa e Efeito
  5. Escolhas, Esforços, Intenções
  6. Pode A Verdade Ser Ruim Para Nós?
  7. Responsabilidade Moral
  8. Política
  9. Conclusão

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Algumas opiniões de eminentes cientistas sobre o livro :

O livre-arbítrio é uma ilusão tão convincente que as pessoas se recusam terminantemente a acreditar que não o possuímos. Em Livre-Arbítrio, Sam Harris combina psicologia e neurociência para enterrar de uma vez por todas esta ilusão. Como todos os livros de Harris, este não somente o deixará abalado como também o fará pensar profundamente. Leia-o: você não tem escolha.

Jerry A. Coyne, Professor de Ecologia e Evolução na University of Chicado, e autor de Why Evolution Is True

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Neste livro elegante e provocativo, Sam Harris demonstra – com grande irreverência e ferocidade intelectual – que o livre-arbítrio é um conceito intrinsecamente falho e incoerente, mesmo em termos subjetivos. Se estiver correto, o livro provocará uma mudança radical no modo como concebemos a nós próprios como seres humanos.

V.S. Ramachandran, Diretor do Center of Brain and Cognition, UCSD, e autor de The Tell-Tale Brain

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Brilhante e espirituoso – e nunca menos que incisivo – Livre Arbítrio mostra que Sam Harris é capaz de dizer mais em 13 000 palavras do que a maioria das pessoas é capaz de dizer com 100 000.

Oliver Sacks

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Muitos dizem que acreditar que o livre-arbítrio não existe é impossível – ou, se possível, causa de niilismo e desespero. Neste ensaio ousado e pessoal, Harris oferece a si próprio como um exemplo de um coração menos auto-absorvido, e mais moralmente sensível e criativo, porque esta bruxa má específica está morta.

Owen Flanagan, Professor de Filosofia, Duke University, e autor de The Really Hard Problem

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Se você acredita no livre-arbítrio, ou conhece alguém que acredita, aqui está o antídoto perfeito. Neste pequeno livro sagaz, envolvente e extremamente legível, Sam Harris defende que o livre-arbítrio não existe, que estaríamos em melhor situação se sabendo que ele não existe, e que – uma vez que pensemos corretamente sobre o assunto – podemos julgar a partir de nossa própria experiência que ele não existe. Esta é uma discussão deliciosa oferecida por um dos mais perspicazes intelectuais em atividade.

Paul Bloom, Professor de Psicologia, Yale University e autor de How Pleasure Works

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por Richard Carrier

Qualquer tentativa racional de afirmar que o Cristianismo é necessário para a existência de fatos morais termina expondo as falhas fatais do Cristianismo como um sistema moral. Os cristãos são incapazes de estabelecer as premissas básicas necessárias para esse sistema moral: quais comportamentos ou atitudes morais resultam em quais destinos. Isto dissocia a moralidade cristã dos fatos, que é a razão pela qual os cristãos podem inventar praticamente qualquer moralidade que desejem, sendo esta, portanto a razão pela qual tem existido tantas divergências no Cristianismo sobre o que é e o que não é moral. Qualquer um pode alegar que a “moralidade x” tornará nossas vidas melhores a longo prazo. Mas essa alegação somente é racionalmente crível se pudermos comprovar sua veracidade com  evidências reais.

Somente a ciência possui os métodos e as ferramentas para descobrir qual moralidade tornará todas as nossas vidas melhores a longo prazo, na medida em que é uma questão de fato relevante: quais comportamentos tem quais consequências reais, e para quem e quando. Como numa cirurgia ou numa manutenção automotiva ou na engenharia de pontes, somente a ciência pode responder confiavelmente tais questões de causa e efeito. O Cristianismo não é capaz de faze-lo, porque não possui não possui nenhuma evidência para sustentar suas alegações de quais causas tem quais efeitos, e por si não dispõe nenhuma metodologia confiável para coletar essas evidências. Portanto, o Cristianismo deve ou promover a moralidade errada, uma moralidade que na verdade é prejudicial a todos nós a longo prazo, ou nos impedir de descobrir a verdadeira razão pela qual deveríamos todos ser morais, impedindo-nos, portanto, de descobrir as únicas evidências que podem efetivamente inspirar o progresso moral. Ou ambos.

Como a medicina vudu, prescrever o Cristianismo para curar a imoralidade não passa de outra pseudociência não-verificada. Somente a ciência genuína pode descobrir o que realmente cura a imoralidade, assim como somente a ciência pode descobrir o que realmente constitui uma doença em primeiro lugar (por exemplo, descobrir que possessão demoníaca não existe ou que a homossexualidade não é uma doença mas uma condição humana natural e saudável), bem como somente a ciência pode descobrir o que realmente constitui a imoralidade. Portanto, o Cristianismo deveria ser abandonado como fundamento de qualquer sistema moral, e a ciência deveria ser empregada em seu lugar para averiguar qual sistema moral é verdadeiramente melhor para nós.

Consequentemente, demonstrei que se existem quaisquer fatos morais verdadeiros, então a ciência pode descobri-los descobrindo o que realmente conecta qualquer comportamento particular com qualquer resultado particular, e ao descobrirmos qual resultado todos nós realmente desejamos para nós próprios uma vez que sejamos suficientemente informados e raciocinemos coerentemente. Ambos são fatos empiricamente detectáveis cuja dificuldade de averiguação é exatamente a razão pela qual a ciência é mais bem equipada para descobri-los. E não somente demonstrei que os fatos morais são empiricamente detectáveis, como além disso demonstrei que tais fatos morais devem existir necessariamente.

Como o Cristianismo fracassa em conectar suas alegações morais a quaisquer fatos verificáveis, não produz nenhuma concordância sobre quais afirmações morais são verdadeiras, não exerce nenhum efeito significativo em aprimorar moralmente as pessoas, e inibe o progresso e o desenvolvimento moral ao nos afastar de nos empenharmos em descobrir a verdade – ao passo que a ciência por si pode descobrir qualquer verdade na qual não pode haver nenhuma discordância racional – deveríamos todos estar promovendo não o Cristianismo mas a descoberta científica de fatos morais genuínos. Tão logo qualquer um realmente perceba isto, eles abandonarão o Cristianismo como improbável e irrelevante para construir uma sociedade moral. E não mais tendo desempenhando esta função, o Cristianismo será extinto.

[A versão completa da série em formato pdf, incluindo o apêndice abaixo, pode ser baixada aqui.]

Apêndice:

Apresento a seguir todas as provas dedutivas formais das conclusões defendidas nesta série, de modo que você não pode discordar racionalmente a menos que possa rejeitar racionalmente uma de suas premissas; como em caso contrário minhas conclusões necessariamente resultam das premissas, e é irracional discordar de uma conclusão que segue necessariamente de premissas que você não é capaz de rejeitar racionalmente. Chamo a atenção para isso porque meus argumentos são rejeitados por alguns ateus que conheço, mas por nenhuma razão racional que eu possa determinar. Eles fracassam consistentemente em identificar qualquer premissa que podem rejeitar racionalmente nos argumentos formais a seguir. De modo que sua rejeição das conclusõs é simplesmente irracional.

ARGUMENTO 1: SE EXISTE UM SISTEMA MORAL VERDADEIRO, É AQUELE PARA O QUAL POSSUÍMOS UMA RAZÃO SUFICIENTEMENTE MOTIVADORA PARA OBEDECERMOS ACIMA DE TODOS OS OUTROS

Definições:

m = um sistema moral

s = um sistema de imperativos que suplanta todos os outros imperativos

v = aquilo que devemos obedecer acima de todos os outros sistemas imperativos (sejam eles rotulados de morais ou não)

B = aquele que possuímos uma razão suficientemente motivadora para obedecermos acima de todos os outros sistemas imperativos

T = o sistema moral verdadeiro

M = o sistema moral que efetivamente devemos obedecer

Argumento:

1.1 Se existe m, então m é s.

1.2 Se m é s, então m é v.

1.3 v é B.

1.4 Portanto, se existe m, então m é B.

1.5 m é T se e somente se m é M.

1.6 M é B.

1.7 Portanto, m é B, e m é B se e somente se m é M; e m é M se e somente se m é T. (isto é, se 1.4, 1.5 e 1.6, então 1.7)

1.8 Portanto, T é B. (isto é, se 1.6 e 1.7, então 1.8).

1.9 Portanto, se existe m, então existe T. (isto é, se 1.4 e 1.8, então 1.9)

1.10 Portanto, se existe m, então existe T e B é T.

Conclusão: Se existe qualquer sistema moral, então aquele para o qual temos uma razão suficientemente motivadora para obedecermos sobre todos os outros sistemas imperativos é o verdadeiro sistema moral.

ARGUMENTO 2: QUE NÓS (REALMENTE) OBEDECEREMOS IMPERATIVOS HIPOTÉTICOS VERDADEIROS ACIMA DE TODOS OS OUTROS IMPERATIVOS QUANDO RACIONAIS E SUFICIENTEMENTE INFORMADOS

2.1 Por definição, para qualquer indivíduo, desejar uma coisa mais do que outra é preferir essa coisa em detrimento de outra (não importa por qual razão ou de que modo).

2.2 Portanto, para qualquer indivíduo, desejar uma coisa mais do que qualquer outra coisa (isto é, desejar essa coisa acima de tudo) é preferir essa coisa em detrimento de todas as outras coisas.

2.3 Por definição, todo indivíduo racional e suficientemente informado sempre escolherá o que preferir (quando ele de fato puder escolher).

2.4 Portanto, qualquer indivíduo racional e suficientemente informado que prefere uma coisa à outra sempre escolhe essa coisa e não a outra (se ele realmente puder escolher e não lhe for possível escolher ambas).

2.5  Portanto, qualquer indivíduo racional e suficientemente informado que prefere uma coisa a todas as outras sempre escolherá essa coisa (se ele realmente puder escolher).

2.6 Se quando racional e suficientemente informado você deseja X mais do que ~X, e você acredita que X ocorrerá somente se x é feito, então você desejará fazer x mais do que ~x.

2.7 Portanto, se quando racional e suficientemente informado você deseja fazer x mais do que ~x, então, por definição você prefere fazer x a ~x (por 2.1).

2.8 Portanto, se quando racional e suficientemente informado você prefere fazer x a ~x, por definição você sempre escolhe x (quando realmente pode escolher). [por 2.3 e 2.5]

2.9 Portanto, se quando racional e suficientemente informado você quer x (isto é, as consequências de x) mais do que ~x (isto é, as consequências de ~x), então por definição você sempre escolherá x (quando de fato puder escolher).

2.10 Se é sempre o caso que “se quando racional e suficientemente informado você quer x (isto é, as consequências de x) mais do que ~x (isto é, as consequências de ~x), então por definição você escolherá x“, então é sempre o caso que você obedecerá ao imperativo hipotético “se quando racional e suficientemente informado você quer X (isto é, as consequências de x) mais do que ~x (isto é, as consequências de ~x), então você deve escolher x“.

2.11 Portanto, é sempre o caso que você obedecerá ao imperativo hipotético “se quando racional e suficientemente informado você quer x (isto é, as consequências de x) mais do que ~x (isto é, as consequências de ~x), então você deve escolher x“. [por 2.9 e 2.10]

2.12 Portanto, você sempre obedecerá um imperativo hipotético em detrimento de todos os outros imperativos.

ARGUMENTO 3: QUE EXISTE UM SISTEMA MORAL VERDADEIRO PARA QUALQUER INDIVÍDUO (COMPROMETIDO EM SER RACIONAL)

Definições:

L = um indivíduo determinado

D = a condição em que o que qualquer um quer deve ser racionalmente deduzido do máximo de fatos verdadeiros razoavelmente obtíveis sobre suas preferências e sobre o resultado total de cada possível comportamento sob as mesmas circunstâncias.

W = um comportamento cujo resultado L deseja mais do que qualquer outro resultado.

B = aquilo para o que possuímos uma razão suficientemente motivadora para obedecer em detrimento de todos os outros sistemas imperativos (isto é, aquele comportamento que para o qual temos uma razão suficientemente motivadora para adotar em detrimento de todos os outros comportamentos recomendados).

C = um resultado ou conjunto de resultados alcançável que L deseja mais do que qualquer outro resultado alcançável.

Argumento:

3.1. Para qualquer L, se existe W, então se D é alcançado, então W é B.

3.2. Se D é alcançado, então existe C.

3.3. Se existe C, então existe W.

3.4. Portanto, se D é alcançado, então existe W.

3.5. Portanto, se D é alcançado, então B existe  (ou seja, se 3.1 e 3.4, então 3.5)

3.6. Se existe B, então existe T (isto é, se 1.8, então 3.6)

3.7. Portanto, para qualquer L, se D é alcançado, então existe T.

Portanto, para qualquer indivíduo, se o que ele deseja deve ser racionalmente  deduzido do máximo de fatos verdadeiros razoavelmente obtíveis sobre todas as suas preferências e sobre o resultado total de cada comportamento que lhe seja possível sob as mesmas circunstâncias, então existe um sistema moral verdadeiro para esse indivíduo.

ARGUMENTO 4: EXISTE UM SISTEMA MORAL VERDADEIRO PARA PRATICAMENTE TODOS OS SERES HUMANOS

Definições:

CH = o resultado ou conjunto de resultados possíveis que praticamente todos os membros da espécie humana desejariam acima de qualquer outro resultado possível (nas mesmas circunstâncias).

TL = o sistema moral implicado pelo resultado ou conjunto de resultados possíveis que
L deseja acima de qualquer outro resultado possível.

THo sistema moral implicado pelo resultado ou conjunto de resultados possíveis que praticamente todos os membros da espécie humana desejam acima de que qualquer outro resultado possível.

U = um sistema moral aproximadamente universal.

BDa biologia fundamental de difere da do resto da espécie humana no que diz respeito à determinação do que é maximamente desejável quando racional e suficientemente informado.

~BDsomente alguma outra das circunstâncias de L que não a biologia fundamental difere da do resto da espécie humana no que diz respeito à determinação do que é maximamente desejável quando racional e suficientemente informado, ou então nenhuma diferença.

EXCL é incrivelmente excepcional entre os humanos por possuir uma biologia que determina diferentemente o que é maximamente desejável quando racional e suficientemente informado.

VNB = praticamente todos os membros da espécie humana não tem uma biologia que determina diferentemente o que é maximamente desejável quando racional e suficientemente informado.

VNA = o resultado ou conjunto de resultados possível que praticamente qualquer membro da espécie humana deseja acima de que qualquer outro resultado possível.

MVNA = resultados que praticamente qualquer membro da espécie humana deseja acima de qualquer outro resultado possível.

MH = o sistema moral implicado pelo resultado ou conjunto de resultados que praticamente todos os membros da espécie humana desejam acima de qualquer outro resultado possível.

Argumento:

4.1 Se D vigora, então C é ou CH ou ~CH. (e a partir de 3.2, se existe D, então existe C)

4.2 Se C é CH, então TL é TH. (e a partir de 3.7, se L e D, então TL)

4.3 Se TL é TH, então existe U.

4.4 Portanto, se C é CH, então U existe.

4.5 Se C é ~CH, então ou BD ou ~BD.

4.6 Se ~BD, então se D vigora, então C é CH.

4.7 Portanto, se ~BD, então se D vigora, então U existe. (isto é, se 4.4 e 4.6, então 4.7)

4.8 Se BD, então EXC.

4.9 Se EXC, então VNB.

4.10 Se VNB, então se D vigora, então VNA é CH.

4.11 Se VNA é CH, então MVNA é MH.

4.12 Se MVNA é MH, então U existe.

4.13 Portanto, se D vigora, então se BD, então existe U. (isto é, se BD, então EXC; e se EXC, então VNB; e se VNB, então se D vigora, VNA é CH; e se VNA é CH, então MVNA é MH e se MVNA é MH, então existe U; portanto, se BD e D vigoram, então existe U)

4.14 Portanto, ou C é CH ou C é ~CH; se C é CH, então existe U, e se C é ~CH, então ou BD ou ~BD; e se ~BD e D vigoram, então U existe; e se BD e D vigoram, então U existe; portanto, se ~CH e D vigoram, então U existe; portanto, se D e C vigoram, então U existe.

4.15 Portanto, se D vigora, então U existe. (isto é, se 3.2 e 4.14, então 4.15)

Portanto, quando o que qualquer um deseja é racionalmente deduzido do máximo possível de fatos verdadeiros razoavelmente alcançáveis concernentes a todas as suas preferências e do resultado total de cada comportamento que lhe seja possível nas mesmas circunstâncias, existe um sistema moral aproximadamente universal.

ARGUMENTO 5: QUE A CIÊNCIA PODE DESCOBRIR EMPIRICAMENTE O VERDADEIRO SISTEMA MORAL

5.1 Existe T se existe B e D e W (isto é, se 1.8, 3.2, 3.3 e 3.7, então 5.1)

5.2 Portanto, T é plenamente implicado para qualquer L pelos “fatos verdadeiros” acerca de “todas as suas preferências” e do “resultado total” de “cada comportamento que lhe seja possível nas mesmas circunstâncias” e de qual “comportamento cujo resultado ele deseja acima de qualquer outro” até onde “ele possa razoavelmente” conhecer nestas circunstâncias.

5.3 Os “fatos verdadeiros” para qualquer L acerca de “todas as suas preferências” e o “resultado total” de “cada possível comportamento que lhe seja possível nas mesmas circunstâncias” e qual “comportamento cujo resultado ele deseja acima de qualquer outro resultado” (tanto quanto “ele possa razoavelmente” conhecer nestas circunstâncias) são todos fatos empíricos.

5.4 A ciência pode descobrir quaisquer fatos empíricos para os quais ela desenvolva métodos capazes de investiga-los.

5.5 Portanto, se a ciência pode desenvolver os métodos requeridos, então a ciência pode descobrir os “fatos verdadeiros” para qualquer L no que concerne a “todas as suas preferências” e ao “resultado total” de “cada comportamento que lhe seja possível nas mesmas circunstâncias” e qual o “Comportamento cujo resultado ele deseja mais do que qualquer outro resultado” tanto quanto “ele possa razoavelmente” saber nestas circunstâncias.

5.6 A ciência pode desenvolver os métodos requeridos (ao menos até certo ponto).

5.7 Portanto, a ciência pode descobrir T (o sistema moral verdadeiro) pelo menos até certo ponto.

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