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Posts Tagged ‘Evolução Biológica’

por Sam Harris

Em termos físicos, sabemos que toda ação humana pode ser reduzida a uma série de eventos impessoais: genes são transcritos, neurotransmissores combinam-se com seus receptores, fibras musculares se contraem, e John Doe puxa o gatilho de sua arma. Mas para nossas noções de senso comum de agência humana e moralidade serem mantidas, parece que nossas ações não podem ser meramente produtos legítimos de nossas biologia, nosso condicionamento, ou qualquer outra coisa que possa levar outros a prevê-las. Consequentemente, alguns cientistas e filósofos esperam que o acaso ou a incerteza quântica possa criar espaço para o livre-arbítrio.

Por exemplo, o biólogo Martin Heisenberg observou que certos processos no cérebro, como a abertura e o fechamento de canais iônicos e o lançamento de vesículas sinápticas, ocorrem aleatoriamente, e por conseguinte não podem ser determinadas por estímulos ambientais. Assim, muitos de nossos comportamentos podem ser considerados verdadeiramente “auto-gerados” – e aí, ele imagina, reside uma base para a liberdade humana. Mas como eventos deste tipo justificam o sentimento do livre-arbítrio? “Autogerado” neste sentido significa apenas que certos eventos se originam no cérebro.

Se minha decisão de tomar uma segunda xícara de café esta manhã foi devida a uma emissão aleatória de neurotransmissores, como poderia a indeterminação do início do evento contar como o livre exercício de minha vontade? Ocorrências ao acaso são por definição aquelas para as quais eu não posso reivindicar nenhuma responsabilidade. E se alguns de meus comportamentos resultam verdadeiramente do acaso, eles deveriam surpreender inclusive a mim. Como armadilhas neurológicas deste tipo me tornariam livre?

Imagine o que sua vida seria se todas as suas ações, intenções, crenças e desejos fossem aleatoriamente “autogeradas” desta maneira. Sua impressão de ter uma mente seria quando muito precária. Você viveria como alguém agitado por um vento interno. Ações, intenções, crenças e desejos podem existir somente num sistema que seja significativamente limitado por padrões de comportamento e pelas leis de estímulo-e-resposta. A possibilidade de raciocinar com outros seres humanos – ou, com efeito, de achar seus comportamentos e discursos compreensíveis – depende da hipótese de que seus pensamentos e ações percorrerão obedientemente os trilhos de uma realidade compartilhada. Isto é igualmente verdadeiro quando se trata de compreender o próprio comportamento. No limite, os eventos mentais “autogerados”  de Heisenberg impediriam definitivamente a existência de qualquer mente.

A indeterminação específica da mecânica quântica não oferece nenhum apoio: se meu cérebro é um computador quântico, também é provável que o cérebro de uma mosca seja um computador quântico. As moscas desfrutam do livre-arbítrio? Em qualquer caso, os efeitos quânticos são improváveis de serem biologicamente salientes. Eles desempenham um papel na evolução porque os raios cósmicos e outras partículas de alta energia causam mutações pontuais no DNA (e o comportamento de tais partículas atravessando o núcleo de uma célula é governado pelas leis da mecânica quântica). A evolução, por conseguinte, parece imprevisível por princípio.[13] Mas poucos neurocientistas veem o cérebro como um computador quântico. E mesmo se fosse, a indeterminação quântica não faz absolutamente nada para tornar o conceito do livre-arbítrio cientificamente inteligível. Face a qualquer independência real de eventos anteriores, a afirmação “Não sei o que deu em mim” pareceria se aplicar a todo e qualquer pensamento ou ação.

Se o determinismo é verdadeiro, o futuro está resolvido – e isto inclui todos os nossos futuros estados mentais e subsequentes comportamentos. E na medida em que a lei de causa e efeito é sujeita ao indeterminismo – seja na mecânica quântica ou em outros domínios – não podemos receber nenhum crédito pelo que acontece. Não existe nenhuma combinação destas verdades que pareça compatível com a noção popular de livre-arbítrio.

Notas.

13. L. Silver, 2006. Challenging nature: The clash of science and spirituality at the new frontiers of life. New York: Ecco, p. 50.

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por Keith Augustine

Uma História Natural do Universo

A partir de dados oriundos de várias ciências construímos um esboço geral do desenvolvimento do universo desde sua origem com o Big Bang até o presente. A cosmologia forneceu alguns dos detalhes do desenvolvimento do universo imediatamente após o Big Bang. Os físicos estão razoavelmente confiantes de que por volta de 15 bilhões de anos atrás o universo se expandiu a partir de uma singularidade 10 bilhões de bilhões de vezes menor do que um núcleo atômico (Ronan 1991, p. 30). Num intervalo de tempo extremamente curto — muito menos do que um segundo — as forças físicas fundamentais do universo encontravam-se unificadas numa superforça única. Em diferentes estágios também ocorridos dentro de um segundo, esta superforça por fim se separou nas quatro forças fundamentais em operação atualmente — a gravidade, a força nuclear forte, a força nuclear fraca e o eletromagnetismo.

A gravidade foi a primeira força a se separar, deixando um remanescente da superforça denominado força da GTU (Grande Teoria Unificada). Quando a força da GTU estava começando a se dividir na força forte e numa remanescente eletrofraca — no que os cosmologistas chamam inflação — um falso vácuo no universo primitivo produziu uma força repulsiva que causou a aceleração a uma taxa assombrosa da expansão do universo (Ronan 1991, p. 32). Simultaneamente, partículas ligeiramente mais abundantes de matéria interagiram com antimatéria, resultando em aniquilações mútuas que deixaram radiação e partículas remanescentes de matéria para trás (Ronan 1991, p. 34). Embora a inflação tenha parado quando a separação das forças nuclear forte e eletrofraca se completou, o universo continuou sua expansão. A força eletrofraca então se separou na força nulcear fraca e no eletromagnetismo, completando a separação das forças. Em três minutos após o Big Bang, prótons e nêutrons poderiam se combinar para formar os núcleos atômicos. 300 000 anos após o Big Bang, o universo resfriou-se o bastante para permitir que os elétrons se combimassem com os núcleos para formar a primeira matéria atômica, basicamente átomos de hidrogênio e hélio (Ronan 1991, p. 34).

A medida em que o universo se expandia sua temperatura decaía continuamente. Cerca de 2 bilhões de anos após o Big Bang, a atração gravitacional atuando sobre uma distribuição heterogênea de matéria causou a aglomeração do hidrogênio e do hélio gasosos em nuvens protogalácticas maiores do que todos os aglomerado de galáxias atuais. Em vários casos, aglomerados individuais de galáxias se condensaram a partir de uma única nuvem protogaláctica. Dentro destas nuvens, regiões de grande densidade se condensaram em protogaláxias. Por volta de 7 bilhões de anos após o Big Bang um grande número de galáxias emergiu (Ronan 1991, p. 38).

Dentro das galáxias, a atração gravitacional causaou o agregamento de nuvens de gás e pó interestelar em discos de matéria com uma convexidade central. O calor gerado pela grande densidade das convexidades centrais resultou na formação de protoestrelas rodeadas por discos de gás e poeira. Quando o material numa convexidade central alcança a temperatura crítica de 10 milhões de graus Kelvin, a fusão começa e uma estrela nasce, eventualmente rodeada por planetas (Ronan 1991, p. 78). As estrelas mais pesadas esgotaram seu combustível mais rapidamente do que as mais leves, fundindo elementos tão pesados quanto o ferro antes de explodirem em supernovas, resultando na formação dos elementos mais pesados do que o ferro. Outras nuvens interestelares, como a que formou nosso sistema solar, conteriam estes elementos mais pesados (Ronan 1991, p. 102).

Aproximadamente 10 bilhões de anos após o Big Bang, cerca de 4,6 bilhões de anos atrás, o Sol foi formado a partir de uma nuvem de gás e poeira interestelar. A medida em que a nebulosa solar ao redor do Sol se resfriou, diferentes substâncias químicas condensaram-se em pequenos grãos a distâncias variadas do Sol. Após cerca de mil anos ests grãos coalesceram num disco giratório de planetóides. Múltiplas colisões no sistema solar primitivo fundiram os planetóides em protoplanetas maiores, que por sua vez fundiram-se em planetas ainda maiores. Cerca de 100 milhões de anos após o aparecimento dos planetóides o sistema solar tornou-se relativamente estável (Ronan 1991, p. 102).

Cerca de 4,5 bilhões de anos atrás a Terra emergiu como um planeta completo. Nesta época planetésimos de tamanho considerável ainda se chocavam contra a superfície da Terra aproximadamente uma vez por mês, impedindo que a luz do sol atingisse a superfície da Terra (Hartmann e Miller 1991, p. 34-35). Numerosos impactos em alta velocidade contra a superfície da Terra primitiva deram origem a um oceano de rochas fundidas que perdurou por milhões de anos. Elementos mais pesados como ferro desceram para o núcleo da Terra enquanto os elementos mais leves ascenderam até a superfície tornando-se parte da crosta terrestre (Hartmann e Miller 1991, p. 36-39). Enquanto a maior parte da atmosfera primitiva rica em hidrogênio escapou para o espaço, uma atmosfera secundária foi produzida quando o dióxido de carbono e o vapor d’água escaparam do interior da Terra através de erupções vulcânicas (Hartmann e Miller 1991, p. 65-66). Devido à diminuição dos impactos, a crosta em resfriamento começou a se solodificar e o vapor d’água a se condensar em forma de chuva, formando os oceanos da Terra por volta de 4,4 bilhões de anos atrás (Hartmann e Miller 1991, p. 67-68).

A maior parte dos biólogos pensa que a vida se originou nos oceanos primordiais da Terra cerca de 4 bilhões de anos atrás (Sagan 1980, p. 30). Segundo o modelo da sopa primordial, descargas elétricas atmosféricas e a luz ultravioleta do sol (prevalente na ausência de uma camada de ozônio) atuaram como fontes de energia que catalisaram a formação de moléculas orgânicas simples na atmosfera, permitindo-lhes recombinarem-se continuamente em moléculas mais  complexas. Como Carl Sagan explica,

Os produtos desta química primitiva dissolveram-se nos oceanos, formando um tipo de sopa ogânica de cuja complexidade gradualmente aumentava, até que um dia, de forma bastante acidental, surgiu uma molécula capaz de fazer cópias imperfeitas de si mesma, utilizando como matéria-prima outras moléculas presentes na sopa (Sagan 1980, p. 30-31).

Como a própria molécula auto-replicante original, as cópias deste replicador também se reproduziram. Enquanto a matéria-prima bruta estava disponível, este processo resultou numa crescente população de moléculas autorreplicantes (Dawkins 1987, p. 129). Os replicadores provavelmente atuaram como modelos: “Componentes menores caíam juntos no molde de tal forma que uma réplica do molde era produzida” (Dawkins 1987, p. 129).

As formas mais simples e primitivas de moléculas autorreplicantes provavelmente utilizaram um processo de replicação que era particularmente propenso a erros (mutações). Qualquer processo de replicação, na verdade, produzirá erros nas reproduções do original (Dawkins 1987, p. 128-129). Isto leva a variações dentro da população de replicadores. Algumas das cópias alteradas podem ter perdido completamente sua capacidade reprodução, outras podem ter se reproduzido de modo menos eficiente do que suas predecessoras, e outras ainda podem ter se reproduzido à mesma taxa que suas predecessoras. Mas ocasionalmente uma cópia alterada de uma molécula autorreplicante será mais eficiente que suas ancestrais em se reproduzir (Dawkins 1987, p. 130). Como ela é mais eficiente em se reproduzir do que os outros replicadores, mais cópias da variante mais eficiente serão produzidas, e inevitavelmente elas se tornarão predominantes em meio à população variada de moléculas autorreplicantes. Quando os materiais brutos são reciclados à medida em que as moléculas se decompõem (o equivalente molecular da morte), os replicadores mais eficientes por fim eliminarão suas predecessoras menos eficientes.

O processo descrito acima é a evolução por seleção natural a nível molecular. Uma vez surgidas nos oceanos as moléculas autorreplicantes, estava montado o cenário para a ulterior evolução e diversificação da vida na Terra: “A medida em que o tempo passava, elas ficavam melhores em se reproduzir. Moléculas com funções especializadas eventualmente se combinavam, dando origem a um tipo de cooperativa molecular — “a primeira célula” (Sagan 1980, p. 31). O mesmo processo, por sua vez, levou ao desenvolvimento de organismo unicelulares e multicelulares mais complexos. Considerando-se qualquer população de organismos que se reproduzem, a ocorrências de mutações aleatórias na prole — ou através de erros no próprio processo de cópia ou em decorrência de fatores externos como radiação ou produtos químicos — levarão à variação entre os indivíduos dentro da população. As alteraçõs genéticas nos descendentes podem  diminuir as chances de sobrevivência e reprodução da prole, podem não ter o menor efeito sobre estas chances, ou podem aumenta-las. Ao longo de sucessivas gerações, as variações adaptativas que aumentam as chances de sobrevivência e reprodução de um organismo se tornarão dominantes na população, terminando por eliminar os organismo menos afortunados. Quando o ambiente muda, os organismos mais bem adaptados ao novo ambiente prosperarão enquanto os mal adaptados diminuirão em número ou serão extintos. Neste sentido, o ambiente seleciona de forma não-aleatória as variações aleatórias numa população de organismos. Quando este processo continua por sucessivas gerações, a seleção natural cumulativa resulta no surgimento acidental de novas espécies e numa mudança de organismos simples para os mais complexos ao longo do tempo.

Os organismos fossilizados mais antigos conhecidos são bactérias unicelulares esféricas e cilíndricas surgidas 3,5 bilhõesde anos atrás (Hartmann e Miller 1991, p. 85). Estas bactérias eram primitivas células procariotas desprovidas de núcleo central e de organelas especializadas, cujo material genético espalhava-se pelo interior da célula. As primeiras procariotas provavelmente fotossintetizaram açúcares pela combinação de dióxido de carbono e água na presença de luz solar (Thompson 1998, p. 38) Aproximadamente 3 bilhões de anos atrás colônias de algas verdes e azuis chamadas estromatólitos surgiram em ambientes aquáticos de pouca profundidade (Hartmann e Miller, 1991, p. 101-102). Por volta de 2,3 bilhões de anos atrás estas plantas microscópicas exauriram boa parte do abundante suprimento de dióxido de carbono da Terra, substituindo-o por subprodutos da fotossíntese — oxigênio (Hartmann e Miller 1991, p. 102). Como o dióxido de carbono era um gás de efeito estufa que impedia o congelamento da superfície da Terra, a perda gradual do dióxido de carbono provavelmente foi responsável pela primeira glaciação global conhecida na história da Terra por volta de 2,3 bilhões de anos atrás (Hartmann e Miller 1991, p. 105).

Por volta de 1,4 bilhões de anos atrás as primeiras células eucarióticas fossilizadas com material genético centralizado num núcleo envolto por uma mebrana apareceram (Thompson 1998, p. 40). Estas eucariotas evoluiriam mais tarde para os animais (Hartmann e Miller 1991, p. 103). Por volta da mesma época as primeiras plantas multicelulares apareceram. Tocas de vermes fossilizadas revelam o surgimento de animais unicelulares um bilhão de anos atrás (Thompson 1998, p. 40). Relógios moleculares também sugerem a primeira aparição de animais multicelulares por volta desta época (Smith e Szathmary 1999, p. 110). A reprodução sexual também pode ter evoluído nesta época, permitindo ao material genético misturar-se de forma mais eficiente e produzindo organismos com mutações que favoreciam uma disseminação mais veloz (Hartmann e Miller 1991, p. 121).

Não foi senão por volta de 700 milhões de anos atrás, cerca de 3 bilhões de anos depois do surgimento da vida na Terra, que grandes animais multicelulares — criaturas de corpo mole incluidno moluscos dotados de conchas semelhantes a corais e organismos similares a águas-vivas, vermes e esponjas — apareceram nos oceanos (Hartmann e Miller 1991, p. 117-119). Vários destes organismos eram animais com a espessura de uma folha que provavelmente respiravam oxigênio por difusão (Smith e Szathmary 1999, p. 110). Como esta fauna ediacarana era desprovida da maquinaria interna para o transporte de gases e nutrientes que encontramos nas espécies posteriores do Cambriano, estes organismos provavelmente não evoluíram nos invertebrados do Cambriano (Leakey e Lewin 1995, p. 22). Eles podem ter sido responsáveis pela primeira possível extinção em massa na história da Terra, quando 75% das espécies unicelulares constituídas por estromatólitos foram extintas. Menos de 100 milhões de anos depois os animais ediacaranos também foram extintos, aparentemente um beco sem saída evolcionário que deixou pouquíssimos descendentes (Leakey e Lewin 1995, p. 23-24).

Na explosão cambriana ocorrida 550 milhões de anos atrás, uma variedade de organismos marinhos dotados de conchas calcárias, como os braquiópodes similares aos mexilhões e os trilobitas similares aos caranguejos, haviam evoluído (Hartmann e Miller 1991, p. 118). Durante este período todos os principais planos corporais encontrados nas criaturas vivas de hoje apareceram dentro de poucos milhões de anos (Leakey e Lewin 1995, p. 16). A alta concentração de oxigênio atmosférico produzida pela fotossíntese a esta altura pode explicar o surgimento tardio de diversos animais multicelulares —  animais maiores não seriam capazes de sobreviver no ambiente pobre em oxigênio da Terra primordial (Leakey e Lewin 1995, p. 21). 500 milhões de anos atrás um evento de extinção em massa cambriano extinguiu 75% das famílias de trilobitas e metade das famílias de esponjas (Thompson 1998, p. 44). 450 milhões de anos atrás, decorridos 90% da história da Terra até hoje, os primeiros peixes — peixes sem mandíbulas com uma carapaça na cabeça — apareceram, enquanto plantas similares a líquens começaram a colonizar a terra firme antes desabitada (Hartmann e Miller 1991, p. 125-126). Estes peixes foram os ancestrais de todos os vertebrados (Thompson 1998, p. 47). Outro evento de extinção em massa — a extinção ordoviciana — ocorreu 440 milhões de anos atrás (Leakey e Lewin 1995, p. 45) Trilobitas, sponjas, braquiópodes e peixes foram dizimados (Thompson 1998, p. 47). Peixes mandibulados, incluindo os tubarões cartilaginosos e peixes ósseos, e as primeiras florestas de plantas sem sementes, apareceram cerca de 400 milhõs de anos atrás (Hartmann e Miller 1991, p. 125-126). Aranhas, milípedes, escorpiões e insetos sem asas apareceram aproximadamente nesta mesma época (Hartmann and Miller 1991, p. 142).

Os primeiros anfíbios evoluíram a partir de peixes de nadadeiras lobadas há aproximadamente 360 milhõs de anos atrás (Hartmann and Miller 1991, p. 143). Por volta desta mesma época ocorreu a extinção em massa devoniana, que dizimou principalmente corais e trilobitas (Thompson 1998, p. 53). Cerca de 300 milhões de anos atrás répteis ovíparos surgiram (Hartmann and Miller 1991, p. 151). A maior extinção em massa conhecida e bem estabelecida (embora talvez menor do que a extinção da faunda ediacarana) — a extinção permiana — ocorreu 225 milhõs de anos atrás (Leakey e Lewin 1995, p. 45). 96% das espécies do Permiano desapareceram (Thompson 1998, p. 60). Répteis com características rudimentares de mamíferos foram dizimados (Leakey e Lewin 1995, p. 45).

Não obstante, mamíferos similares aos roedores surgiram por volta de 220 milhões de anos atrás (Hartmann e Miller 1991, p. 184). A extinção em massa do Triássico ocorreu por volta de 210 milhos de anos atrás (Leakey e Leqin 1995, p. 45). Este evento quase eliminou os anfíbios e os répteis da face da Terra (Thompson 1998, p. 66). Os dinossauros se diversificaram por volta de 200 milhões de anos atrás. Alguns destes dinossauros deram origem aos pássaros (Hartmann and Miller 1991, p. 153-154). Por volta de 65 milhões de anos atrás um evento de extinção em massa no Cretáceo — o impacto de um enorme meteoro com a Terra — varreu da superfície do planeta 75% das espécies então existentes, incluindo os dinossauros, permitindo que pequenos mamíferos ocupassem os nichos então desocupados (Hartmann and Miller 1991, p. 158).

A primeira família abrigando primatas com um polegar opositor e visão estereoscópica — grupos similares aos lêmures — apareceu cerca de 55 milhões de anos atrás. Por volta de 35 milhões de anos atrás, macacos e primatas de grande porte surgiram (Hartmann and Miller 1991, p. 191-192.). Os mais antigos primatas humanóides — os australoptecinos — surgiram por volta de 4 milhões de anos atrás. Cerca de 2,5 milhões de anos atrás, quando os australoptecinos caminhavam eretos e usavam ferramentas de ossos e pedras lascadas, um fabricante de ferramentas mais avançado — o Homo habilis — apareceu. O Homo erectus surgiu cerca de 1,6 milhões de anos atrás e pode ter se extinguido cerca de 300 000 anos atrás. O Homo sapiens apareceu por volta de 350 000 anos atrás (Hartmann e Miller 1991, p. 193). Os humanos modernos — Homo sapiens sapiens — apaareceram por volta de 150 000 anos atrás (Leakey e Lewin 1992, p. 205).

O Naturalismo E Uma Descrição Científica Do Mundo

J. P. Moreland chama uma explicação como essa de “A Grande História” do naturalista (Moreland 1998, p. 40-41). Entretanto, é importante reconhecer que este esboço geral da história do universo não foi desenvolvido por filósofos naturalistas. Antes, foi desenvolvido por cientistas  reunindo  evidências empíricas numa ampla variedade de campos independente de suas disposições filosóficas individuais. De modo que seria menos polêmico e mais acurado descrever esta explicação como a Grande História dos cientistas. Esta explicação científica das origens foi elaborada sobre fundamentos empíricos independentemente de preocupações filosóficas como o valor de verdade do naturalismo. Que esta explicação científica adapte-se tão bem às expectativas do naturalista é uma corroboração empírica significativa para o naturalismo.

Conquanto existam certas questões a serem resolvidas nos detalhes, nenhuma parte deste esboço geral da história do universo exige que admitamos sequer uma probabilidade razoável para a causação sobrenatural. Porque todo evento causado neste esboço geral pode ser adequadamente explicado (no mínimo pelos padrões científicos) inteiramente em termos de causas naturais impessoais, é improvável que os problemas não-resolvidos relativos aos detalhes deste esboço demandarão apelos a causas sobrenaturais. Apesar de uma investigação extensa e abraangente do passado distante, os cientistas não encontraram nenhum indício de causação sobrenatural em qualquer ponto da história do universo. Uma descrição científica bem informada do mundo sugere que os processos que moldaram o desenvolvimento do universo e produziram a diversificação da vida sobre a Terra foram inteiramente naturais.

Que os cientistas sejam capazes de fazer tal asserção com razoável confiança é um reforço empírico extraordinário para o naturalismo. Parece não haver nenhuma brecha para a causação sobrenatural em qualquer ponto de nosso esboço geral da história do universo. Como Richard Dawkins assinala, “um universo com uma presença sobrenatural seria um tipo de universo fundamentalmente e qualitativamente diferente de um sem tal presença. A diferença é, inescapavelmente, uma diferença científica” (Dawkins 1997, p. 399). Se a causação sobrenatural tivesse ocorrido no passado distante, os eventos teriam se desdobrado de modo distinto do sperado se apenas causas naturais estivessem presentes. Quaisquer instâncias detectáveis de causação sobrenatural teriam produzido lacunas em nossa explicação científica nos pontos em que os prováveis candidatos a evento sobrenatural ocorressem. Mas os cientistas tem descoberto apenas evidências para influências causais indiscutivelmente naturais neste amplo esboço. Que parece não haver nenhuma lacuna do tipo em nossa explicação do passado distante — isto é, nenhum evento que exija quaisquer candidatos a um evento sobrenatural — implica que o naturalismo é verdadeiro. Afinal, as descobertas científicas poderiam ter sido diferentes. Nossa explicação da história do universo poderia ter revelado que a vida inteligente e o universo como se afigura hoje surgiram minutos após o Big Bang, por exemplo. Inexistindo qualquer explanação natural plausível para tal complexidade avançada aparecendo imediatamente de uma relativa simplicidade, o naturalismo estaria em sério conflito com o esboço geral da história do universo. Conquanto possamos certamente imaginar histórias de possíveis universos em que seria irracional negar a existência de instâncias genuínas de causação sobrenatural, aparentemente não vivemos num universo deste tipo.

Numa descrição científica do mundo, inteligência e propósito não desempenham papel algum no passado distante. Como Daniel Dennett coloca, “No princípio não haviam motivos; haviam somente causas. Nada tinha um propósito, nada possuía sequer uma função; não havia absolutamente teleologia alguma no mundo… Não havia nada que tivesse interesses.” (Dennett 1991, p. 173). Mas então surgiram moléculas autorreplicantes dotadas do interesse primitivo em replicarem a si próprias. Isto envolvia evitar circunstâncias que inibissem ou impedissem a replicação e buscar circunstâncias que favorecessem a replicação. Com a autopreservação vem os limites entre o eu e o outro, o comportamento intencional que auxilia a sobrevivência, e em última análise a inteligência e a agência (Dennett 1991, p. 173-174). Em nossas melhores explicações científicas, a agência surge acidentalmente apenas através da seleção natural com o aparecimento de organismos superiores como os seres humanos. Um provável candidato a evento sobrenatural, entretanto, seria um evento para o qual não fosse possível encontrar nenhuma causa natural exibindo comportamento intencional ou inteligente. Um evento sobrenatural, portanto, requer a atividade de um agente sobrenatural. Segundo a descrição científica do mundo fundamentada numa variedade de diferentes fontes de evidência empírica, entretanto, a agência não desempenha nenhum papel no universo anterior ao surgimento da vida e então aparece somente em organismos indiscutivelmente naturais.

Se considerarmos seriamente esta explicação científica do passado distante, seremos compelidos a concluir que o surgimento de vida inteligente sobre a Terra foi conduzido por processos naturais inteiramente impessoais, principalmente a seleção natural. As forças responsáveis pela evolução da vida na Terra são a própria antítese do que esperaríamos de uma atuação sobrenatural, como Richard Dawkins deixa claro:

A seleção natural, o processo cego, inconsciente e automático que Darwin descobriu, e que nós agora sabemos ser a explicação para a existência e a forma aparentemente planejada de todos os seres vivos, nãopossui nenhum propósito em mente… Ela não planeja o futuro. Ela não tem visão, nenhuma presciência, absolutamente nenhuma meta (Dawkins 1987, p. 5).

Dentro do mundo natural, a existência de inteligência é um acidente produzido por forças evolucionárias cegas. Nosso esboço geral da história do universo sugere que, até onde podemos dizer, inteligências sobrenaturais não desempenham absolutamente nenhum papel no mundo natural: “O registro fóssil implica tentativa e erro, uma incapacidade de antecipar o futuro, características inconsistentes com um Projetista [inteligente]” (Sagan 1980, p. 29). Embora encontremos uma progressão geral partindo da simplicidade em direção a uma complexidade cada vez maior, este avanço não era inevitável, mas contingente à circunstâncias ambientais aleatórias. Além disso, considerando-se a longa demora entre o Big Bang e a origem da vida sobre a Terra — alguns 11 bilhões de anos — é questionável que a evolução tenha sido guiada por um agente sobrenatural com o intuito de produzir a vida em geral ou a vida inteligente (incluindo os seres humanos) em particular.

A seleção natural não somente diversificou as formas de vida como também resultou na extinção da vasta maioria das espécies que já existiram sobre o planeta Terra. Como Richard Leakey assinala, “99,9 por cento de todas as espécies que já viveram estão extintas… A aderência da vida sobre a Terra é evidentemente mais precária do que nos aprazaria reconhecer” (Leakey e Lewin 1995, p. 197). Os mesmos processos que levam à emergência da vida também abrem caminho à sua extinção, tanto individualmente para organismos específicos como coletivamente para espécies como um todo. Não há dúvidas de que os seres humanos compartilharão o destino de todos os outros organismos e sucumbirão à extinção. De fato, se extrapolarmos o futuro dos seres humanos a partir do curso da evolução humana no passado, é provável que os seres humanos serão extintos dentro dos próximos dez milhões de anos (Hartmann e Miller 1991, p. 232). Embora várias formas de vida provavelmente continuarão  a existir após a extinção da raça humana, toda vida sobre o planeta desaparecerá quando a Terra deixar de ser habitável. E embora possa haver vida inteligente em outro lugar do universo, considerando-se todos os prováveis cenários para o futuro do universo, o universo inteiro um dia se tornará inóspito para a vida. Ao que tudo indica, a longa ausência de senciência desde o princípio do universo  até a emergência de formas superiores de vida será seguida por uma permanente ausência de senciência no universo após a extinção de toda vida. Como Ernest Nagel coloca sucintamente, “a sina humana não passa  de um episódio entre dois oblívios” (Nagel 1960, p. 496). Embora o universo possa parecer à primeira vista projetado para abrigar a vida, o indiscutível ciclo de especiação e extinção mostra que a vida é um fenômeno efêmero e aparentemente não serve à qualquer propósito para quaisquer agentes sobrenaturais.

Quando consideramos que os primeiros primatas humanóides apareceram por volta de 4 milhões de anos atrás, “nós percebemos com um choque que isto representa meros 0.1 porcento da história da Terra… Em outras palavras, a duração da humanidade até agora é tão curta que nossa espécie inteira poderia perder-se no ruído do tempo geológico” (Hartmann e Miller 1991, p. 194). A breve duração da vida humana na escala geológica de tempo faz mais do que ilustrar a insignificância de nossa espécie dentro da história da Terra, para não mencionar na história do universo. Ela também aumenta a probabilidade de encontrarmos prováveis instâncias de causação sobrenatural no passado distante. Se a causação sobrenatural tiver ocorrido dentro da história humana e sua frequencia hoje (seja lá qual for) for representativa de sua frequência no passado, considerando-se o quão breve a história humana é em relação à história da Terra, deveríamos esperar evidências abundantes de causação sobrenatural no passado distante. Que não podemos ver tais evidências aumenta a plausibilidade do naturalismo. Em outras palavras, se não podemos encontrar nenhuma evidência de causação sobrenatural no passado distante, é improvável que instâncias de causação sobrenatural tenham ocorrido ao longo da história humana.

Pode-se reconhecer que não existe nenhuma boa evidência para uma provável causação sobrenatural no passado distante e ainda assim afirmar a existência da causação sobrenatural. Por exemplo, um deísta poderia sustentar que uma divindade sobrenatural causou o Big Bang embora não tenha mais intervido no universo desde sua criação. Conquanto nada em nossa explanação científica do passado distante seja inconsistente com essa possibilidade, não teríamos razão alguma para postular uma causa sobrenatural no começo do universo na ausência de quaisquer instâncias estabelecidas de prováveis candidatos a evento sobrenatural. O Big Bang poderia simplesmente ter sido um evento incausado, por exemplo. Talvez não haja nenhuma boa evidência para o sobrenatural no passado distante porque a causação sobrenatural tenha ocorrido apenas dentro da história humana. Agentes sobrenaturais podem intervir na natureza somente para fazer sua presença conhecida aos seres humanos, sem desempenhar nenhum outro papel ativo no mundo natural. Embora isto seja possível, parece implausível elevar a significância de uma única espécie acima de tudo o mais no universo. Ou talvez a causação sobrenatural tenha ocorrido no passado distante, mas seja absolutamente indetectável considerando-se o tipo de evidências limitadas para tais eventos que está disponível para nós. Para eventos que tenham ocorrido no passado distante podemos discernir somente as mudanças de grande magnitude na história da Terra ao longo de milhões de anos, por exemplo, não eventos que ocorrem numa escala temporal de minutos, horas ou dias. Ainda assim, entretanto, eventos ocorrendo em escalas de tempo menores no passado distante poderiam produzir mudanças detectáveis na história da Terra (considere pelo menos o evento de extinção que varreu os dinossauros da face da Terra).

Explanações similares são consistentes com a ausência de evidência para prováveis candidatos a evento sobrenatural no presente — que tais eventos ocorram mas nós simplesmente não os observamos, por exemplo. Conquanto tudo isso seja possível, um apelo à navalha de Ockham é apropriado aqui. Praticamente todas as formas de sobrenaturalismo que as pessoas efetivamente subscreveram postulam que agentes sobrenaturais possuem um papel significativo em vez de marginal tanto nas origens como nos assuntos humanos. Em todo caso, nosso esboço geral da história do universo estabelece que não dispomos de qualquer evidência incontroversa para instâncias de um provável candidato a evento sobrenatural no passado distante. Ao que parece não existe nenhuma atuação sobrenatural envolvida em qualquer ponto da história do universo.

(…conclui a seguir…)

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