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Os Futuros dos Cristianismos

por David Eller

Algumas pessoas dizem que o teste definitivo para o Cristianismo virá se e quando descobrirmos vida inteligente em outro planeta: supostamente nesta ocasião o Cristianismo será desacreditado de uma vez por todas, já que os humanos não mais serão uma espécie ímpar no universo, a criação especial de seu Deus. Entretanto, as religiões mostraram-se altamente resilientes no passado e continuarão a sê-lo no futuro. Quando os cristãos encontraram-se pela primeira com os nativos ameríndios, eles foram compelidos a um árduo trabalho de reflexão e interpretação a fim de integrar aquelas sociedades na cosmovisão cristã (Seriam eles realmente humanos? Seriam descendentes de Adão e Eva? Teriam almas? Seriam capazes de religião?), mas os cristãos providenciaram o ajuste. Seja lá quando for que finalmente ocorra nosso encontro com extraterrestres, os cristãos serão igualmente engenhosos. Alguns concluirão que somente os humanos são piedosos e qualificados para serem cristãos, ao passo que os ET’s são animais ímpios, até mesmo estúpidos. Outros contemplarão de bom grado a noção de que seu Deus criou também os extraterrestres; alguns chegarão ao ponto de sugerir que Jesus morreu também pelos pecados dos seres do espaço longínquo, ou até mesmo que seu Deus pode ter tido um filho com alguma fêmea alienígena e providenciado a salvação exclusiva de sua espécie. E pelo menos algumas congregações ambiciosas enviarão missionários ao planeta distante, como no romance de ficção científica The Sparrow, de Mary Doria Russell (provavelmente com os mesmos resultados trágicos). Você pode estar certo de que se os nativos do espaço forem dotados de religião e cultura próprias, o Cristianismo hibridizará com elas e produzirá alguns cultos cristãos interplanetários.

Por agora, devemos restringir nossas especulações ao Planeta Terra, onde existem oportunidades e evidências mais do que suficientes para a evolução cristã. O cristianismo apareceu pela primeira vez no mundo como um pequeno movimento religioso no Oriente Médio, rapidamente ultrapassou as fronteiras para tornar-se uma religião de mistérios helenística, então foi perseguida e então transformada numa religião imperial pelo Império Romano, difundiu-se pela Europa e metamorfoseou-se numa religião européia, e subsequentemente foi levada para a América do Norte e todas as partes do mundo, onde assimilou feições locais e compatibilizou-se com estas características locais. Agora o Cristianismo é verdadeiramente uma religião mundial – ou uma associação livre de espécies religiosas com apenas uma vaga semelhança familiar entre elas. Não existe de fato tal coisa como o Cristianismo mas somente cristianismos, e cada vez mais deles, cada vez mais  diferentes uns dos outros e da espécie ancestral, o Movimento de Jesus – a cada dia.

O pior de tudo para os cristãos ocidentais contemporâneos, a globalização do Cristianismo não somente promete mudar o mundo como mudar também o Cristianismo. Atualmente, os vetustos e familiares cristianismos caucasianos/ocidentais estão cedendo espaço a cristianismos não-caucasianos e não ocidentais, que por sua vez estão retroalimentando as seitas e espécies ancestrais que as originaram: como Philip Jenkins coloca, “o Cristianismo como um todo está crescendo e se alterando de maneiras que tendem a passar despercebidas aos observadores ocidentais.”[36] Em 2002, Jenkins estimou que quase a metade da população da África era cristã, e por volta de 2025 mais da metade de todos os cristãos do mundo viverão na África ou na América Latina, com outros 17 porcento na Ásia; isso significaria que os cristãos europeus ou ocidentais, outrora o grupo dominante e os responsáveis pela aparência recente da religião (em todos os sentidos do termo), serão uma minoria distinta. Com efeito, pode ser que já existam mais anglicanos na Nigéria do que na Inglaterra.

Os efeitos desta mudança serão, e em certa medida já são, uma modificação profunda do Cristianismo, algo equivalente ao fim da era dos dinossauros e ao começo da era dos mamíferos. O autor católico Walbert Buhlmann chegou ao ponto de divisar uma nova Reforma, uma “Terceira Igreja” diferente de todos os cristianismos católicos, ortodoxos e protestantes que a antecederam (o que na verdade a tornaria uma quarta igreja, mas quem está contando?). Não somente o centro de gravidade dos cristianismos globais se deslocaria (algum dia pode haver um papa latino, asiático ou africano!), como os conteúdos dos cristianismos locais não-ocidentais são e continuarão a ser diferentes das cômodas variedades ocidentais e impactarão de volta sobre estas cômodas variedades ocidentais. Jenkins prevê:

A revolução ocorrendo na África, Ásia e na América Latina é muito mais completa e abraangente em suas implicações do que qualquer tendência em curso na religião norte-americana, seja católica ou protestante. Há uma tensão crescente entre o que se pode chamar de Reforma Setentrional liberal e a revolução religiosa meridional emergente, que pode ser equiparada à Contra-Reforma, como tornaram-se conhecidas as reformas católicas internas que ocorreram ao mesmo tempo que a Reforma Protestante… De qualquer maneira, não importa a terminologia, uma ruptura parece inevitável.[37]

Esta ruptura será não somente geográfica como também profundamente cultural: devido às tradições religiosas autóctones bem como a seu conservadorismo muita vezes exacerbado, “em escala mundial, o cristianismo está na verdade movendo-se em direção ao sobrenaturalismo e à neoortodoxia, e de diversas maneiras rumo à antiga visão de mundo expressa no Novo Testamento.”[38] Naturalmente, alguns conservadores religiosos americanos e ocidentais podem endossar esta tendência, mas mesmo eles descobrirão que o novo tradicionalismo cristão não é o tradicionalismo cristão de seus avós. Para os cristãos liberais e ortodoxos (e para os não-cristãos, é claro), estes desenvolvimentos são indesejáveis e até mesmo ameaçadores. Por exemplo, o arcebispo anglicano da Nigéria, Peter Jasper Akinola, não somente posicionou-se firmemente em seu país contra a homossexualidade e a ordenação de sacerdotes gays como também pressionou seus correligionários britânicos e americanos para barrar tal conduta, à qual ele tem se referido como “um ataque contra a Igreja de Deus – um ataque satânico contra a Igreja de Deus.”[39]

Quer figuras como Akinola representem ou não o futuro do Cristianismo – ou um futuro local de um cristianismo local – a lição final é a mesma. O Cristianismo não é nem nunca foi uma religião unificada com uma moralidade e um dogma monolíticos. O cristianismo, como todas as outras religiões e todas as outras culturas, é um organismo. Tão logo exemplares de seu primeiro ancestral sejam soltos no mundo, eles absorvem os nutrientes de seus ambientes, adaptam-se às condições locais, sofrem mutações, e hibridizam com outras espécies ao seu redor. As novas espécies resultantes destes acasalamentos se multiplicam, migrando para novos territórios assim como retroalimentando a população ancestral. O resultado final são diversas espécies localmente únicas, com algumas extinções pelo caminho, cada uma delas relacionada estreita ou longinquamente a sua ancestral, mas nenhuma perfeitamente idêntica a ela e nenhuma mais ou menos “verdadeira” do que qualquer outra. O ancestral “original” (o Movimento de Jesus) há muito desapareceu, nunca será revivido, e – assim como ocorre com qualquer árvore evolucionária – não era, em qualquer aspecto, mais autêntico, verdadeiro ou especial do que qualquer de seus descendentes.

Notas.

36. Philip Jenkins, “The Next Christianity,” Atlantic Monthly, October 2002: 54.

37. Ibid.

38. Ibid.

39. Philip Jenkins, “Defender of the Faith,” Atlantic Monthly, November 2003: 46.

(John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2010 )

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