Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Fenômenos Morais’

por Quentin Smith

A classe dos fenômenos morais inclui os deveres, as leis, os atos, os objetos e as naturezas morais. Um dever moralmente santo ou sagrado é um dever da mais elevada espécie possível; é um dever incondicional, um dever em favor do qual tudo deveria ser sacrificado se necessário. O termo “santo” ou “sagrado” é usado para expressar esta propriedade em afirmações morais como “Proteger os direitos naturais de todos os humanos é nossa obrigação suprema; é nosso dever sagrado”; “A busca da arte é minha vocação e dever sagrados”; “Soldados, é nosso dever sagrado defender a Pátria”. Uma lei moralmente santa é uma que é incondicionalmente imperativa; ela não pode, sob quaisquer circunstâncias, ser violada. Alguém expressa esta propriedade das leis quando fala da “santidade da lei”. Um ato moralmente santo é um ato do mais nobre tipo possível; um exemplo pode ser o sacrifício supremo, sacrificar a própria vida, por algo genuinamente digno desse sacrifício. Sacrificar a própria vida por uma causa moralmente sagrada não é meramente “bom” ou “virtuoso” no sentido ordinário mas pertence a uma ordem de excelência moral diferente e superior. É um ato moralmente impressionante e comove profundamente os que dele tomam conhecimento, tornando a mera “aprovação moral” inadequada. Fica-se sem palavras diante de um ato ético supremo. Um objeto de conduta ética moralmente santo é um objeto da mais elevada espécie possível, algo que deveria ser preservado ou aperfeiçoado em detrimento de outros possíveis bens morais. Atribuições de santidade a objetos de nossa conduta são expressas em expressões como “a santidade da vida humana” e “a sacralidade de nossas instituições nacionais”. Uma pessoa que tem ou desenvolve uma natureza ou caráter moralmente santos é uma pessoa perfeitamente boa; tal pessoa é conduzida exclusivamente por princípios morais e realiza a melhor ação moralmente relevante em cada situação em que se encontra. Tal pureza moral é mais um ideal do que um fato concreto no que se refere a pessoas humanas e tem em Deus sua instanciação perfeita.[7]

A santidade moral, a propriedade de ser um fenômeno moral do tipo mais elevado possível, é uma propriedade distintiva da santidade no sentido de que é tanto uma propriedade completa da santidade e um componente de outra propriedade completa da santidade, qual seja, a santidade religiosa. A fim de ser religiosamente santo, é necessário ser moralmente santo (especificamente, ter um caráter perfeitamente bom), mas não é necessário ser religiosamente santo ou mesmo religiosamente santo por derivação para ser moralmente santo. É importante estabelecer este último ponto, uma vez que alguns podem confundir santidade religiosa derivativa com santidade moral. Certos deveres, atos, etc., relativos aos humanos são santos em virtude de sua relação com Deus e outros são santos num sentido diferente em virtude de sua qualidade moral. Uma peregrinação à Meca ou uma oração são “atos santos” ou “deveres sagrados” num sentido religioso derivativo mas não num sentido moral, ao passo que “defender os direitos naturais dos humanos” ou “preservar o conhecimento para as futuras gerações” é consistentemente considerado um dever sagrado num sentido moral e não-religioso. A ideia de que a santidade moral não é religiosamente derivativa pode enfrentar resistência da parte de alguns, mas há várias instâncias de atribuição de santidade moral que são consistentes com uma visão de mundo ateísta. A crença na “santidade da vida humana” é consistente com a crença em que os humanos não são feitos à imagem de Deus e em que não existe nenhum Deus; esta crença pode ser baseada exclusivamente numa convicção do valor inexcedível da pessoa humana e da posse natural pelos humanos de direitos invioláveis. Diversos poetas e escritores ateus e do século XIX e do começo do século XX acreditaram ser sua devoção à arte uma vocação e um dever sagrados, e acreditaram nisto baseados em sua convicção do valor supremo da arte. Durante o regime nazista, vários alemães fervorosamente patrióticos ser “a Pátria” uma nação secular portadora de uma santidade moral, e acreditaram piamente ser seu “dever sagrado” defender a Pátria contra as forças moralmente inferiores do mundo exterior. Isto não quer dizer que estas crenças morais são necessariamente corretas (pode-se perfeitamente questionar a sacralidade moral da Pátria), mas que elas são consistentes – a propriedade da sacralidade moral é atribuída sem contradição a fenômenos que não são conectados a Deus. O valor moral supremo não é logicamente dependente da existência de uma pessoa suprema.

A decisão sobre quais fenômenos morais são moralmente santos pertence à análise decomposicional da santidade moral. Ser supremo na classe dos fenômenos morais é analisável na supremacia na classe das obrigações ou leis ou ações ou objetos ou naturezas morais, e esta propriedade disjuntiva é por sua vez analisável em tipos específicos de deveres, leis, etc., que são moralmente supremos. A discplina filosófica à qual esta análise da santidade moral pertence é a ética.

Notas.

7. Kant reconheceu um tipo de santidade moral na medida em que definiu um vontade santa como uma vontade em perfeita concordância com a lei moral. Não obstante, ele não reconheceu ou não reconheceu claramente a independência lógica da santidade moral da santidade religiosa, pois sua concepção de uma vontade santa foi desenvolvida dentro do esquema conceitual do teísmo. Veja sua Crítica da Razão Prática.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: