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Posts Tagged ‘História Bíblica’

por Hector Avalos

Os estudos bíblicos como os conhecemos deveriam terminar. Os profissionais deste campo são unânimes em afirmar que a Bíblia é o produto de outra época e outra cultura cujas normas, práticas e concepções do mundo eram radicalmente diferentes das nossas. E no entanto, estes mesmos especialistas paradoxalmente mantém o público leigo sob a ilusão de que a Bíblia importa ou deveria importar. Argumentamos que, seja esta sua intenção ou não, sua validação da Bíblia como um texto para o mundo contemporâneo serve sobretudo para justificar seus próprios empregos e a relevância de sua profissão no mundo atual.

Vimos como as traduções ocultam em vez de patentearem os conceitos mais degradantes e alienígenas dos autores bíblicos. Vimos como os críticos textuais, mesmo sabendo que o texto original é provavelmente irrecuperável, não anunciam para a maioria das comunidades cristãs que suas Bíblias são na melhor das hipóteses construtos que não podem ser remontados  além do segundo século da Era Comum para o Novo Testamento e do terceiro século AEC para a Bíblia Hebraica. Em nosso olhar sobre a história e a arqueologia bíblica, aprendemos que a “história bíblica” foi não tanto apagada como na verdade exposta como, antes de qualquer coisa, ausente. O alegado mérito artístico superior da Bíblia também foi desmascarado pelo que é – outro dispositivo apologético bibliolátrico.

Por que precisamos que um livro antigo que endossa tudo, do genocídio à escravidão, seja a autoridade suprema sobre nossa moralidade pública ou privada? Por que precisamos de qualquer texto antigo, afinal, independente de qual moralidade ele esposa? “A Bíblia” é sobretudo um construto dos últimos dois mil anos da história da humanidade. Seres humanos modernos existiram por dezenas de milhares de anos sem a Bíblia, e não parece que estavam em pior situação por isso. Existem sociedades secularizadas contemporâneas na Europa que parecem se dar muito bem sem a Bíblia.

De meu ponto de vista, existem apenas três alternativas genuínas para o que atualmente conhecemos como estudos bíblicos:

  1. Eliminar os estudos bíblicos completamente do mundo atual.
  2. Manter os estudos bíblicos como são, mas admitir que são um empreendimento religionista.
  3. Manter os estudos bíblicos, mas redefinir seu propósito de modo que sejam encarregados de eliminar completamente a influência da Bíblia no mundo atual.

Eu não defendo a primeira opção, pelo menos não por ora, porque acredito que a Bíblia deveria ser estudada, no mínimo como uma lição sobre por que os seres humanos não deveriam privilegiar tais livros novamente. Minha objeção é contra o propósito religionista e bibliólatra pelo qual é estudada. A segunda opção é na verdade o que é encontrado na maioria dos seminários, mas devemos dar ampla publicidade ao fato de que estudiosos em todo o mundo acadêmico estão fazendo a mesma coisa, embora não estejam sendo muito francos e honestos sobre isso.

Eu prefiro a terceira opção. O único objetivo dos estudos bíblicos, sob esta opção, seria ajudar as pessoas a se moverem rumo a uma sociedade pós-escritural. Pode soar paternalístico “ajudar as pessoas”, mas não mais do que quando os tradutores escondem a verdade ou quando os acadêmicos não divulgam agressivamente a verdade por medo de transtornar os fiéis. Tudo na educação é em alguma medida paternalista, já que uma elite docente está lá para fornecer informações que o público leigo não possui. A terceira opção também é a mais lógica, considerando-se a descoberta do caráter alienígena da Bíblia.

A minha opção também é a menos autointeressada porque não teria meu próprio emprego como objetivo último, e permitiria a milhares de outros textos aos quais ainda não foi concedido voz falarem também sobre a sabedoria possível, a beleza e as lições que eles possam conter. Com efeito, milhares de textos mesopotâmicos jazem intraduzidos. De modo que mesmo aqueles que acreditam na importância da literatura deveriam advogar para que mais luz seja jogada sobre os textos antigos ainda não lidos.

O que eu busco é a liberação da própria ideia de que qualquer texto sagrado deva ser uma autoridade para a existência humana atual. A abolição da dependência humana de textos sagrados é imperativa quando esses textos sagrados colocam em risco a existência da civilização humana em sua configuração atual. Portanto, a abolição total da autoridade bíblica torna-se uma obrigação moral e uma chave para a sobrevivência deste mundo. A letra pode matar. Esta é a razão pela qual a única missão dos estudos bíblicos deveria ser encerrar os estudos bíblicos como os conhecemos.

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por Hector Avalos

Crítica Textual

A Crítica Textual é a disciplina acadêmica que busca reconstruir com a máxima verossimilhança possível a versão original de qualquer obra escrita específica.[28] Tal disciplina, portanto, não se restringe à Bíblia. A maioria das obras famosas da Antiguidade não foi preservada intacta. Ao contrário da maioria das obras da Antiguidade, contudo, a crítica textual da Bíblia acarreta consequências teológicas e morais cruciais para os que acreditam que devem possuir um registro acurado da palavra de Deus para guiar e conduzir suas vidas.[29]

No entanto, nas décadas recentes houve alguns destacados críticos textuais preocupados com a sobrevivência deste campo. Em 1977, Eldon J. Epp, um eminente crítico textual do Novo Testamento e o ocupante do cargo de presidente da Society of Biblical Literature em 2003, escreveu:

As razões para esta recente e acelerada erosão do campo da crítica textual [do Novo Testamento] são obscuras. O fenômeno tornou-se nítido em pouco mais de uma década. Se o desaparecimento de oportunidades para estudos universitários na área são uma causa ou um sintoma de tal erosão não é algo claro, embora não haja dúvidas de que sem estas oportunidades o futuro desta discplina nos EUA não pareça brilhante e haja pouca esperança de sobrevivência.[30]

Os resultados do trabalho dos críticos textuais destroem qualquer alegação de que a Bíblia tenha sido transmitida fielmente a partir de qualquer texto original.[31] Computadores poderosos tem facilitado muito a tarefa de organizar as variações, embora ainda existam grandes problemas com a determinação até mesmo de quantas leituras variantes existem. No entanto, são justamente estes progressos e as novas descobertas que tornam o objetivo geral da crítica textual – se por isto entendemos encontrar o texto original ou fornecer aos fiéis  algum registro intacto da palavra de Deus – completamente obsoleto. A crítica textual, na verdade, ajudou a destruir qualquer noção de que alguma vez existiu uma entidade estável chamada “a Bíblia”.

O fato mais importante a se considerar na tentativa de reconstruir um “original” é que não possuímos o autógrafo de qualquer um dos livros que compõem a Bíblia [isto é, o primeiro manuscrito saído das mãos do próprio autor(a)], e este fato decisivo é reconhecido mesmo pelos mais intransigentes apologistas religiosos. Isto significa que tudo o que temos são cópias dos originais, de modo que geralmente não podemos reconstruir um autógrafo antigo que não mais está disponível – tampouco reconheceríamos o autógrafo mesmo se o encontrássemos. O “texto original” não passa de uma miragem a menos que tenhamos acesso ao processo de transmissão completo, desde a primeira edição até a versão corrente. Tal acesso é algo que não temos, e provavelmente jamais teremos no caso da Bíblia.

Podemos ilustrar o problema de forma bem simples. Imagine que dispomos de seis manuscritos sobreviventes chamados de A, B, C, D, E e F, os quais são relacionados a um original hipotético X. X poderia ser o autógrafo, o texto original saído das mãos do próprio autor, e do qual todas as cópias subsequentes derivam. Talvez possamos concluir plausivelmente que A, B e C derivam da mesma fonte porque seu vocabulário é bastante similar. Por exemplo, apenas esses três compartilham a mesma expressão hipotética (“selo de Deus”), ao contrário de D, E e F, nos quais a expressão “cordeiro de Deus” ocorre nos trechos correspondentes do texto. Assim, podemos concluir razoavelmente que, A, B e C devem ter um antígrafo (isto é, a fonte escrita presumida por trás de qualquer cópia) com as palavras “selo de Deus”. Igualmente, podemos plausivelmente concluir que as cópias D, E e F devem remeter a um antígrafo diferente que possui a expressão “cordeiro de Deus”.

Entretanto, como ambos os antígrafos diferem em pelo menos uma leitura (“cordeiro de Deus” versus “selo de Deus”), seria difícil decidir qual deles seria “o original”. Na verdade, suas variantes nos dizem que eles devem ter sido copiados de um antígrafo ainda mais antigo a partir do qual as cópias subsequentes divergiram. Mesmo se alguém reconstruísse X como a fonte por trás de ambos os presumidos antígrafos, isso não mostra que o manuscrito X é o autógrafo. Por quê? Porque o próprio X poderia ser uma cópia de outro antígrafo que não deriva diretamente do “original”. Como poderíamos saber?

A crítica textual fez contribuições importantes para nossa compreensão da Bíblia. Entretanto, essas contribuições proclamaram o fim da crítica textual. Historicamente, o objetivo principal da crítica textual da Bíblia era reconstruir o texto original. A crítica textual mostrou que isto é impossível. Portanto, neste sentido, a crítica textual chegou ao fim. A crítica textual da Bíblia tornou-se mais do que nunca um passatempo elitista cujos praticantes terão dificuldades em convencer os contribuintes e os dizimistas a continuarem custeando um empreendimento cujos resultados trazem tanta satisfação quanto a resolução de sudokus, mas que em contrapartida beneficiam muito pouco qualquer outra pessoa (além do próprio crítico textual).

Arqueologia Bíblica

A arqueologia bíblica jaz em ruínas, seja literalmente, socialmente ou metaforicamente[32]. A arqueologia bíblica já foi uma área capital e até mesmo glamorosa dentro dos Estudos Bíblicos; no entanto, atualmente até mesmo alguns de seus mais destacados expoentes estão proclamando sua morte. Em 1995, William G. Dever, um decano da arqueologia do antigo Israel, declarou que “a arqueologia bíblica e a sírio-palestina são disciplinas moribundas; e arqueólogos como eu que dedicaram toda uma carreira a esta profissão sentem-se como os últimos exemplares de uma espécie em extinção.[33] Em 2006, Ronald Hendel, um professor de Bíblia Hebraica da University of California em Berkeley, observou que “a Arqueologia Bíblica não mais existe atualmente com o mesmo vigor outrora ostentado.[34]

Para ser justo, Dever e Hendel estão falando da arqueologia “bíblica” no sentido de uma arqueologia orientada para a corroboração da historicidade da Bíblia. O próprio Dever já defendeu a expressão mais abrangente “arqueologia sírio-palestina”, embora atualmente sua terminologia seja mais diversificada. De qualquer maneira, parte do problema reside no fato de que o próprio estudo da história bíblica, que tem estado estreitamente vinculado à arqueologia bíblica, tem estado cada vez mais sob fogo cerrado. Nas palavras de Dever, “se a história real do mundo bíblico deixa de ter importância, então sua arqueologia é claramente irrelevante.[35]

Provavelmente existiu uma entidade chamada “Israel” pelos egípcios na época de Merneptah (cerca de 1210 AEC), mas não é claro se já nesta época “Israel” era uma autodesignação. Localizar geograficamente este grupo ou território nas estepes da Transjordânia é tão plausível quanto situa-lo nas montanhas a oeste do rio Jordão. Se “Israel” via-se como parte de Canaã ou como parte de algum grupo canaanita mais amplo não está claro a essa altura. “Israelita” é uma designação tão apropriada para o povo que habitou o país montanhoso durante a assim chamada Idade do Ferro I quanto “cananita” ou a designação de qualquer outro povo que segundo os textos bíblicos viveu naquelas terras altas.

Também não há provas independentes da existência de reino governado por Salomão, de modo que é assim que temos que deixar essa alegação – inconclusiva. Os portões em Gezer, Hazor e Megido não mencionam nenhum Salomão. Em termos da luz jogada sobre a religião dos “israelitas”, Dever expressou-se corretamente quando escreveu em 1983 que a “a contribuição da arqueologia tanto de apelo ‘bíblico’ como ‘secular’ foi, sob qualquer aspecto básico, escassa e precária para nossa compreensão do verdadeiro culto do antigo Israel.[36]

Dentro da História Deuteronômica, é razoável, baseando-se na corroboração independente fornecida por documentos assírios e babilônicos, acreditar na existência dos seguintes reis:[37]

Reino do Norte (Israel)                                               Reino do Sul (Judá)

Omri (ca. 885–874 BCE)                                                 Hezekiah (725–696 BCE)

Ahab (ca. 874–853 BCE)                                                Manasseh (696–642 BCE)

Jehu (ca. 841–790 BCE)                                                 Jehoiachin (605–562 BCE)

Joash (ca. 805–790 BCE)

Menahem (ca. 740 BCE)

Pekah (ca. 735 BCE)

Hoshea (ca. 730–722 BCE)

Em geral, esta é um resultado pífio para qualquer espécie de “história bíblica” quando comparada à de vários de seus vizinhos no Oriente Próximo.

A arqueologia bíblica ajudou a enterrar a Bíblia, e os arqueólogos sabem disso. Ronald Hendel estava perfeitamente correto quando disse que “a pesquisa arqueológica – contrariando as intenções de muitos de seus profissionais – assegurou a não-historicidade de muito da Bíblia anterior à Era dos Reis.[38] Podemos agora expandir a observação de Hendel e afirmar que não também há muita história para ser encontrada na Era dos Reis.

Assim, a arqueologia bíblica ainda tem alguma importância? Como a arqueologia fracassou em revelar a relevância histórica da Bíblia, a arqueologia bíblica não somente deixou de ser relevante, como na verdade deixou de existir como a conhecíamos. Em vez de revelar a história bíblica, a arqueologia forneceu um argumento fundamental para ir além da própria Bíblia. Se a arqueologia bíblica tem que subordinar-se à teologia para voltar a ser relevante (Nota do Tradutor: como propõe Alvin Plantinga), seus dias como uma área acadêmica secular estão contados. De qualquer maneira, a arqueologia bíblica terminou em ruínas – literalmente, socialmente e metaforicamente.

Notas.

28. Também há outras definições. Emanuel Tov (em Textual Criticism of the Hebrew Bible, 2nd ed. [Minneapolis: Fortress; Assen: Royal Van Gorcum, 2001], 1) diz: “A crítica textual lida com a origem e a natureza de todas as formas de um texto, em nosso caso o texto bíblico.

29. Para os objetivos e agendas da crítica textual de obras da Antiguidade não-bíblicas, veja James E. G. Zetzel, Latin Textual Criticism in Antiquity (New York: Arno Press, 1981); Rudolf Pfeiffer, History of Classical Scholarship from the Beginnings to the End of the Hellenistic Age (1968), e L. D. Reynolds e N. G. Wilson, Scribes&Scholars: A Guide to the Transmission of Greek&Latin Literature, 3ª ed. (1991). Sobre os objetivos e métodos da crítica textual contemporânea: Paul Maas, Textual Criticism (Oxford: Clarendon, 1958).

30. Eldon J. Epp, “New Testament Textual Criticism in America: Requiem for a Discipline,” Journal of Biblical Literature 98 (1979): 97. Este ensaio é uma versão impressa da uma palestra proferida em 1977 no Encontro Anual da Society of Biblical Literature.

31. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 65–108.

32. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 109–84.

33. William G. Dever, “Death of a Discipline,” Biblical Archaeology Review 21, no. 5 (September/October 1995): 50–55, 70; a citação encontra-se na pág. 51. Para um tratamento mais abrangente do término da arqueologia bíblica, veja Thomas W. Davis, Shifting Sands: The Rise and Fall of Biblical Archaeology (New York: Oxford University Press, 2004).

34. Ronald S. Hendel, “Is There a Biblical Archaeology?” Biblical Archaeology Review 32, no. 4 (July/August 2006): 20.

35. Dever, “Death of a Discipline,” 53. Os itálicos são de Dever. Para uma visão mais otimista da arqueologia em áreas não vinculadas à Bíblia ou ao Antigo Israel, veja Brian Fagan, “The Next Fifty Years: Will It Be the Golden Age of Archaeology?” Archaeology 59, no. 5 (Setembro/Outubro 2006): 18–23. Tenha ou não agido intencionalmente, Fagan alude apenas marginalmente à territórios remotamente relacionados à Bíblia (por exemplo, Egito e Mesopotâmia), e não diz nenhuma palavra especificamente sobre a arqueologia bíblica.

36. William G. Dever, “Material Remains and the Cult in Ancient Israel: An Essay in Archaeological Systematics,” in The Word of the Lord Shall Go Forth: Essays in Honor of David Noel Freedman in Celebration of His Sixtieth Birthday, ed. Carol L. Meyers and M. O. Connor (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1983), 571.

37. A lista e as datas aproximadas foram adaptada a partir de Halpern, “Erasing History,” Bible Review 11, no. 6 (1995): 30.

38. Hendel, “Is There a Biblical Archaeology?” 20.

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