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O FRACASSO DA MORALIDADE CRISTÃ

por Richard Carrier

A afirmação de que as pessoas só podem ser motivadas a serem morais por ameaças ou promessas de inferno ou paraíso (ou por qualquer outra alegação inverificável) na verdade implode a moralidade. Com efeito, de um modo triplo. Primeiro, ela permite que sistemas morais falsos proliferem e sejam adotados como verdadeiros, vinculando essas moralidades falsas às mesmas promessas e ameaças. É exatamente isso o que observamos. Supostamente, apenas um sistema moral pode ser verdadeiro, embora centenas de sistemas morais estejam vinculados exatamente à estas mesmas promessas.[12] Assim, por uma questão estatística, estas mesmas promessas são utilizadas muito mais para amparar falsas moralidades do que moralidades verdadeiras. E isso, segundo as regras de mensuração do êxito e do fracasso, é o pior desempenho que qualquer método poderia almejar. Portanto, o Cristianismo é maximamente fracassado na promoção da verdadeira moralidade. Somente se pudermos verificar a conexão entre uma moralidade e seus efeitos prometidos seremos capazes de descobrir a verdadeira moralidade. O Cristianismo não oferece nenhum meio confiável de fazer isso.

Segundo, exatamente porque a veracidade destas promessas não pode ser confirmada, elas não podem proporcionar nenhuma motivação real para ninguém. E mais uma vez as evidências mostram que de fato elas não o fazem, já que os crentes são tão imorais quanto os descrentes. Não há nenhuma prova de que o aperfeiçoamento  pessoal promovido pelo Cristianismo seja superior ao de qualquer outra filosofia humana e racional: vinculando a moralidade a promessas inverificáveis, o progresso moral se torna impossível, porque as pessoas não estão aprendendo as verdadeiras razões pelas quais deveriam ser morais, mas em vez disso elas acomodam-se às razões erradas para serem morais – nunca aprendendo a verdade, porque nunca procuram por ela, porque elas pensam equivocadamente que já a possuem (e  a maioria dos filósofos seculares caíram exatamente na mesma armadilha). Desse modo, o Cristianismo se torna mais eficaz em promover e sustentar várias formas de imoralidade do que de moralidade. A malignidade do Nazismo é o exemplo mais notório, que Hector Avalos demonstrou além de qualquer dúvida razoável ser um produto do Cristianismo.[13] Mas a América possui seu próprio pesadelo a assombrar-lhe a consciência, o apoio cristão ao sistema escravagista americano por mais de duzentos anos.

Pior ainda, as formas ingênuas de motivação moral cristã – ameaças vazias de tormentos no inferno e o suborno do paraíso – atrofiam o amadurecimento moral, assegurando que os crentes permaneçam emocionalmente infantis sem jamais alcançar o desenvolvimento cognitivo moral de verdadeiros adultos. Os psicólogos estabeleceram que adultos morais são morais não em virtude de ameaças vazias ou subornos (esse estágio do desenvolvimento moral é típico de crianças, não de adultos), mas porque elas se importam com o efeito que seu comportamento tem sobre si próprios e sobre os outros, encontrando sua recompensa (e sua punição) exatamente nessa realização. Em outras palavras, adultos maduros são bons porque são boas pessoas.[14] E assim sendo, elas não precisam de religião para convence-las a serem boas. Ser boas pessoas é o que elas já desejam ser. Em contraste, o Cristianismo ingênuo é um veículo perfeito para manipular massas de pessoas rumo a qualquer fim perverso para o qual um propósito cristão possa ser concebido. O Holocausto, a Inquisição, a escravidão anterior à Guerra Civil Americana e o genocídio dos índios americanos são os exemplos mais notórios. Mas a guerra (de qualquer tipo) é o exemplo mais comum, assim como (atualmente) o uso do Cristianismo para voltar o povo americano contra a ajuda aos pobres e torna-los favoráveis à promoção de políticas libertinas dos ricos (uma deturpação mais flagrante dos ensinamentos de Cristo dificilmente pode ser concebida, embora seja bem sucedida mesmo assim).[15]

Portanto, o Cristianismo fracassa como um fundamento para os valores morais, tanto na teoria como na prática.[16] Que tantos filósofos seculares tenham incorrido exatamente nos mesmos erros apenas prova meu ponto de que devemos parar de cometer esses erros e em vez disso atentarmos para os verdadeiros fatos do mundo. A verdadeira moralidade deve ser fundamentada em fatos empiricamente verificáveis. E a ciência por si só fornece o mais confiável método para determinar fatos empiricamente verificáveis.

Notas.

12. Isto é inerentemente óbvio para qualquer observador esclarecido do Cristianismo moderno (e de sua história), bem como de todas as outras religiões (que empregam exatamente as mesmas promessas e ameaças para fundamentar suas próprias moralidades), mas no caso do Cristianismo isto é suficientemente provado por diversos capítulos de The Christian Delusion combinados: David Eller, “The Cultures of Christianities,” 25–46, e “Christianity Does Not Provide the Basis for Morality,” 347–67; John Loftus, “What We’ve Got Here Is a Failure to Communicate,” 181–206; e Hector Avalos, “Yahweh Is a Moral Monster,” 209–36 (veja Richard Carrier, “The Will of God” em http://sites.google.com/site/thechristiandelusion/Home/the-will-of-god).

13. Hector Avalos, O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto.

14. Veja, por exemplo: Monika Keller, Wolfgang Edelstein, Christine Schmid, Fuxi Fang, Ge Fang, ““Reasoning about Responsibilities and Obligations in Close Relationships: A Comparison across Two Cultures,” Developmental Psychology 34, no. 4 (1998): 731–41; Nancy Eisenberg, Klaus Boehnke, Petra Schuler, Rainer K. Silbereisen, “The Development of Prosocial Behavior and Cognitions in German Children,” Journal of Cross-Cultural Psychology 16, no. 1 (Março de 1985): 69–82; e fontes e discussões em Sinnott-Armstrong, Moral Psychology, 3:297–370. Que teorias morais centradas no inferno na verdade se correlacionam com disfunções sociais, veja Gary Jensen, “Religious Cosmologies and Homicide Rates among Nations: A Closer Look,” Journal of Religion and Society 8 (2006): http://moses.creighton.edu/JRS/2006/2006–7.html.

15. Isto é satirizado de maneira irreverente porém acurada em “The Gospel Of Supply Side Jesus” em Al Franken, Lies and the Lying Liars Who Tell Them: A Fair and Balanced Look at the Right (New York: Dutton, 2003), 313–23 (cf. 213–16).  Alguns cristãos devotos proeminentes (incluindo católicos e evangélicos) documentaram os mesmos fatos com pesar: Ronald Sider, The Scandal of the Evangelical Conscience (Grand Rapids, MI: Baker, 2005); Garry Wills, What Jesus Meant (New York: Viking, 2006); Gregory Boyd, The Myth of a Christian Nation (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2007); e Robin Meyers, Why the Christian Right Is Wrong (San Francisco: Jossey-Bass, 2008).

16. Outros aspectos em que o Cristianismo prejudica o progresso moral incluem suas doutrinas centrais de que o seres humanos são inerentemente pecaminosos e portanto incapazes de sua própria reforma moral (portanto nada que eles façam por si próprios irá torna-los pessoas melhores) e que através de uma mera confissão de fé eles serão perdoados de todos os crimes não importa quais sejam (negando assim todos os incentivos morais que o Cristianismo supostamente forneceu em primeiro lugar): veja Evan Fales, “Satanic Verses: Moral Chaos in Holy Writ,” em Divine Evil? The Moral Character of the God of Abraham, ed. Michael Bergmann, Michael Murray, e Michael Rea (Oxford: Oxford University Press, 2011).

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Título Original: O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto

Autor:  Hector Avalos, PhD

Fonte: The Christian Delusion, págs. 368-395 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2010 )

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Hector Avalos (nascido em Nogales, México, em 8 de Outubro de 1958) é professor de Estudos Religiosos na Iowa University State e autor de diversos livros sobre religião. Ele é ex-pastor pentecostal e ex-criança evangelista.

Ele possui um doutorado em Estudos do Oriente Próximo e da Bíblia Hebraica pela Harvard University (1991), um mestrado em Estudos Teológicos pela Harvard Divinity School (1985) e um bacharelado em Antropologia pela University of Arizona (1982).

Avalos foi admitido na Iowa University no Outono de 1993 após completar seu pós-doutorado (1991-93) nos departamentos de Antropologia e Estudos Religiosos na University of North Carolina em Chapel Hill. Em 1996 Avalos foi eleito Professor do Ano na Iowa State University, onde também foi eleito Melhor Professor no biênio 2003-04. Outros prêmios incluem The Early Achievement in Research and Creative Activity Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996), e the Outstanding Professor Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996).

Avalos é internacionalmente reconhecido por sua ferrenha oposição ao design inteligente e ao movimento neocriacionista, sendo frequentemente associado a Guillermo Gonzalez, um astrofísico defensor do design inteligente a quem foi negada a nomeação para um cargo na Iowa State University em 2007. Avalos corredigiu uma declaração contra o design inteligente em 2005, que por fim foi subscrita por 130 membros da Iowa University State. Esta declaração foi adotada como modelo para outras declarações pela University of Northern Iowa e pela University of Iowa. Ambos Gonzalez e Avalos aparecem no filme Expelled: No Intelligence Allowed (2008).

Avalos é um ateu militante e um defensor da ética humanista secular.

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Em sua réplica às acusações dos autores neoateus de que a religião levou a matanças em larga escala, Dinesh D’Souza, o comentarista conservador, assegura-nos que “o nazismo… foi uma filosofia secular e antirreligiosa que, de modo bastante estranho, compartilhou diversos elementos com o comunismo[1].” Desse modo, D’Souza é capaz de responsabilizar o ateísmo na Alemanha Nazista por 10 milhões de mortes, incluindo as de 6 milhões de judeus. De fato, para D’Souza, os regimes ateístas de Joseph Stalin e Mao Zedong ocupam os dois primeiros lugares no ranking da violência ateísta. De um modo geral, D’Souza afirma que estes três grandes regimes ateístas assassinaram cerca de 100 milhões de pessoas[2].

D’Souza exemplifica à perfeição a categoria dos apologistas cristãos cuja melhor resposta aos genocídios cometidos por autoproclamados cristãos é afirmar que os ateus assassinaram ainda mais. Com efeito, D’Souza calcula que “as mortes causadas por regimes cristãos ao longo de um período de 500 anos equivalem a apenas um porcento das mortes causadas por Stalin, Hitler e Mao num intervalo de poucas décadas”.[3] Bruxas e judeus são alguns dos grupos que D’Souza relutantemente admite que podem ter sido assassinados em decorrência da violência cristã.

Já discuti extensamente a falácia de conceber a violência estalinista em termos de ateísmo[4]. A maior parcela da violência estalinista resultou da coletivização forçada, e documentos publicados recentemente mostram a cumplicidade das autoridades clericais com a agenda estalinista.[5] D’Souza não fornece um único documento ou declaração de Stalin mostrando que ele estava coletivizando ou assassinando por razões ateístas.

Além disso, o comunismo, entendido como um sistema de propriedade coletivizada, é uma noção bíblica já encontrada em Atos 4:32-37. Esse sistema comunista cristão também resultou no assassinato de um casal (Atos 5:1-11) que quebrou sua promessa de renunciar à suas posses. Portanto, o princípio de matar os que não se resignassem à coletivização de suas propriedades é bíblico. A defesa de que o motivo pelo qual Ananias e Safira foram mortos foi simplesmente mentir sobre a entrega de suas posses negligencia a brutalidade do fato de que o valor da vida foi colocado abaixo do valor da renúncia às próprias posses. Pois em vez de apenas bani-los da comunidade, eles foram mortos. Stalin ou Mao provavelmente teriam feito a mesma coisa. Como o comunismo é defendido por alguns autores bíblicos, os assassinatos maoístas e estalinistas não podem ser atribuídos ao ateísmo sem mais nem menos, na medida em que a coletivização forçada pode ser letal tanto em sua forma ateísta como na cristã. (Nota do tradutor: não somente isso, como mesmo intérpretes modernos da doutrina cristã, como o influente apologista inglês C.S. Lewis, reconhecem que no aspecto econômico, uma sociedade construída sob princípios cristãos “seria o que se chama hoje em dia ‘de esquerda'(…) sua vida econômica seria bastante socialista“. Para maiores detalhes vejam o capítulo 3 do terceiro livro de Cristianismo Puro e Simples, Conduta Cristã – Moralidade Social)

Além disso, D’Souza não possui a competência necessária para avaliar as alegações de violência maoísta porque tal tarefa requer um treinamento extensivo na língua e nos documentos chineses para averiguar a acurácia das informações fornecidas pelas fontes inglesas. Como eu também careço de especialização no idioma e na cultura chinesa para avaliar a violência maoísta, não abordarei o maoísmo aqui. O que sabemos é que D’Souza não apresenta uma única citação de Mao ou mesmo de algum documento chinês traduzido para respaldar suas asserções de que Mao assassinou por causa do ateísmo.

Em todo caso, este artigo analisará em grande profundidade o argumento de que as mortes causadas por Hitler deveriam ser atribuídas a algum tipo de ateísmo darwinista, algo enfaticamente defendido por Richard Weikart em seu livro From Darwin to Hitler (2004)[6]. O livro de Weikart é uma das fontes para os pronunciamentos de D’Souza. Na verdade, demonstrarei que:

  • O Holocausto nazista, em vez de resultar de algum tipo de ateísmo darwinista, é efetivamente a mais trágica consequência de uma longa história de racismo e antijudaísmo cristãos.
  • O Nazismo assassinou pessoas por sua etnicidade ou religião seguindo princípios enunciados na Bíblia.

Além disso, mostrarei que diversas alegações de D’Souza apoiam-se em péssimas técnicas de pesquisa histórica e num conhecimento superficial do antijudaísmo cristão.

Princípios Éticos e Números

De acordo com a Convenção das Nações Unidas contra o Genocídio (também chamada de Primeira Convenção de Genebra), o termo genocídio descreve “atos cometidos com o objetivo de destruir, parcial ou totalmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”[7]. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo religioso ou um grupo étnico. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo racial ou um grupo nacional. Todos são igualmente proibidos pelos padrões das Nações Unidas. Isto é importante porque D’Souza muitas vezes tenta atenuar a violência religiosa alegando, geralmente sem respaldo documental, que alguns atos atribuídos à violência religiosa são na verdade casos de violência étnica ou racial.

Ademais, D’Souza muitas vezes deixa inexplicado o que há nos grupos étnicos antagônicos que os torna tão mutuamente hostis. D’Souza falha em ver que a etnicidade pode ser criada e/ou exacerbada por diferenças religiosas. Por exemplo, segundo os relatos bíblicos, a criação da etnia hebreia remonta à ordem para que Abraão desse início à sua própria linhagem separada (Gênesis 12:1-7), embora ele e sua família, a esta altura, não fossem “etnicamente” distintos do resto de sua tribo[8]. Além disso, a linhagem de Abraão diferenciou-se pela adesão ao monoteísmo e pelo adoção de algumas práticas religiosas obrigatórias (por exemplo, a endogamia, a circuncisão) que os apartou de seus vizinhos (veja em Gênesis 17:12, 24:3-4). Um fênomeno similar ocorreu entre cristãos e judeus. O conflito inicial era entre judeus que aceitaram Jesus como o Messias e judeus que não o fizeram (veja em João 5:18, Atos 17:2-5, Gálatas 2:11-16).

Com efeito, tais judeus não diferiam “etnicamente” uns dos outros. Não obstante seja claro que alguns personagens no Novo Testamento (NT) consideravam-se judeus e cristãos, ao fim, os “judeus” passaram a ser os que não aceitaram Jesus como o Cristo, conservando a religião tradicional de seus ancestrais. Mais tarde, a Igreja Católica reforçou a separação da identidade religiosa dos judeus através de leis matrimoniais, restrições profissionais, segregação em guetos e utilização obrigatória de trajes característicos, o que os tornou alvos ainda mais distintos e ainda mais facilmente identificáveis[9]. Todavia, foi algo percebido como um antagonismo judaico à figura de Cristo o que muitas vezes foi apresentado oficialmente como a razão primária para tais ações. Assim, quando o Papa Paulo IV publicou em 1555 sua Cum Nimis Absurdum, que estabeleceu a segregação dos judeus num gueto, sua justificativa introdutória foi que os judeus “por sua própria culpa entregaram-se à eterna servidão”[10]. Portanto, não é possível dissociar religião e etnicidade tão facilmente quando D’Souza tenta fazer.

D’Souza também ressalta mais os números do que o princípio ético de que é errado assassinar grupos de seres humanos em virtude de sua raça, etnicidade, nacionalidade ou religião. Mas se, como D’Souza aparentemente pensa, o genocídio é sempre condenável, então os números não importam tanto quanto o princípio. Se D’Souza não pensa que o genocídio é sempre condenável, então ele não é menos relativista moral do que os ateus, e agora teríamos somente suas razões arbitrárias para justifica-lo.

Portanto, suponhamos que dois grupos genocidas, X e Y, estivessem seguindo o mesmo princípio de assassinar todos os membros de algum grupo que eles escolheram por razões étnicas ou religiosas. Chamaremos as vítimas do grupo X de Alvo 1 e as vítimas do grupo Y de Alvo 2. Contudo, suponhamos também que o Alvo 1 seja uma tribo com apenas 1000 pessoas, enquanto o Alvo 2 seja um grupo religioso composto por um milhão de pessoas. Em forma de tabela:

Agora, a repreensibilidade do princípio do genocídio mudaria se o grupo X assassina apenas mil indivíduos ao passo que o grupo Y assassina um milhão? É claro que não, porque podemos supor razoavelmente que se o Alvo 1 possuísse um milhão de membros, então o Grupo X poderia ter assassinado um milhão de indivíduos.

De modo que um truque de ilusionismo está sendo empregado por D’Souza em seu apelo aos números brutos, na medida em que ele imagina que o Cristianismo é de alguma maneira superior simplesmente porque seus representantes tencionaram eliminar grupos menos populosos. Considere que o próprio D’Souza admite que a caça às bruxas cristã assassinou cerca de 100 000 pessoas na Europa[11]. Mas se o princípio de assassinar bruxas continuasse válido, então 10 milhões de bruxas poderiam ter sido assassinadas houvessem os caçadores de bruxas encontrado e matado esse contingente.

O fato de termos somente 100 000 vítimas da caça às bruxas significa apenas que o grupo alvo foi menor, mas não que o objetivo de extermínio total foi diferente. Assim, devemos julgar a moralidade do genocídio não somente por números absolutos de pessoas assassinadas como também pela parcela do grupo alvo marcada para morrer. Como a meta de extermínio presumida para ambos, Hitler ou para os inquisidores cristãos, é de 100%, a repreensibilidade moral de Hitler e dos inquisidores é a mesma. Seus atos genocidas também seriam igualmente condenados pelo padrão das Nações Unidas.

Portanto, a única coisa que D’Souza conseguiu foi mostrar que o Cristianismo não é moralmente superior em seus princípios de genocídio. Cristãos podem e tem procurado assassinar grupos inteiros de pessoas. É um mero acidente histórico que os saldos dos regimes ateístas sejam maiores em comparação com os regimes cristãos, mesmo se concedermos a tese errônea de que Hitler representou um regime ateísta. Caso contrário, o argumento de D’souza é semelhante a afirmar que a Hitler deveria ser dado o crédito por assassinar apenas 6 milhões de judeus porque este contingente foi o máximo que ele conseguiu arrebanhar.

Nazismo e Antijudaísmo Cristão

Ao contrário da polêmica tese defendida por D’Souza de que o nazismo é uma “filosofia antirreligiosa”, o nazismo na verdade é um capítulo da longa história do antijudaísmo cristão. O nazismo não representa um desvio radical das atitudes dos cristãos tradicionais em relação aos judeus. Isto é reconhecido pelo historiador católico Jose M. Sanchez: “Há poucas dúvidas de que o Holocausto remonta à milenar hostilidade dos cristãos contra os judeus[12].

O fato de que o nazismo é simplesmente uma forma modernizada de antijudaísmo cristão é comprovado pelo quão estreitamente o plano nazista para os judeus se assemelha ao do fundador do Cristianismo Protestante, Martinho Lutero (1483-1546). A fim de compreender esta conexão, apresento um resumo extraído do plano de sete pontos de Lutero, publicado em 1543 em seu tratado, Dos judeus e suas mentiras (Nota do Tradutor: versões digitalizadas de uma tradução deste opúsculo são largamente disponibilizadas em sites antissemitas e neonazistas. Por razões óbvias não colocarei nenhum link aqui demonstrando isso, mas uma busca no Google confirma facilmente o que afirmo):

Primeiro, recomendo atear fogo às suas sinagogas e escolas e cobrir com imundície tudo o que não for reduzido à cinzas, de modo que nenhum homem veja novamente uma pedra ou uma brasa deles.

Isto deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus possa ver que somos cristãos, e não perdoamos ou toleramos tais ofensas e blasfêmias contra seu filho e seus seguidores…

Segundo, eu recomendo que suas casas também sejam destruídas…

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e escritos talmúdicos, em que tais idolatrias, mentiras, blasfêmias e indecências são ensinadas, lhes sejam tomados.

Quarto, eu recomendo que seus rabinos sejam proibidos de ensinar doravante sob pena de perder a vida

Quinto, eu recomendo que o salvo-conduto nas estradas seja abolido completamente para os judeus.

Sexto, eu recomendo que a usura lhes seja proibida, e que todo o seu dinheiro e todas os seus tesouros em ouro e prata sejam confiscados e colocados sob custódia…

Sétimo, recomendo colocar um mangual, um machado, uma enxada, uma pá, uma roca ou um eixo nas mãos de todos os jovens judeus e judias e deixa-los ganhar seu pão com suor de seu rosto, como foi imposto aos filhos de Adão (Gen. 3:19)[13]

Cada um dos ítems no plano de Lutero foi implementado pela política nazista. Por exemplo, durante a Kristallnacht, o horrível surto de violência antijudaica de 1938, os lares, as lojas e as sinagogas judaicas foram incendiados ou saqueados, exatamente como prescrito pelos dois primeiros ítems do plano de Lutero. Além disso, coincidência ou não, os eventos da Kristallnacht desenrolaram-se durante o aniversário de Lutero, no dia 10 de novembro. (Nota do Tradutor: acredito que tenha sido uma irônica coincidência. O pretexto para a Kristallnacht foi o assassinato de um funcionário da embaixada alemã em Paris por um judeu indignado com a situação calamitosa em que sua família se encontrava na fronteira com a Polônia após ser expulsa da Alemanha.) Obras de literatura de autores de ascendência judaica foram queimadas pelos nazistas, exatamente como recomendado no terceiro parágrafo do plano de Lutero. Os rabinos foram proibidos de ensinar, como ordenado pelo quarto ítem de Lutero. As prisões e deportações dos judeus para campos de concentração são consistentes com o quinto conselho de Lutero. Propriedades judaicas, incluindo obras de arte, foram confiscadas pelos nazistas, à semelhança da sexta recomendação de Lutero. O sétimo ponto de Lutero possui uma correspondência com os campos de trabalho forçado, com seu infame slogan Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”).

Os planos são tão parecidos que mesmo Martin H. Bertram, um intelectual luterano e o tradutor do panfleto anti-judaico de Lutero, declara: “É impossível publicar o tratado de Lutero hoje, entretanto, sem notar o quanto suas propostas foram similares às ações do regime nacional-socialista na Alemanha nas décadas de 1930 e 1940[14] E quando se considera a imagem que Hitler tinha de Lutero, o que este representava para ele, tudo o que precisamos é consultar o Mein Kampf: “Ao lado de Frederico, o Grande está Martinho Lutero, assim como Richard Wagner.”[15]

Os cristãos católicos possuem uma história ainda mais longa de antijudaísmo. O décimo-sexto canône do Concílio de Elvira (ca. 306), por exemplo, proibiu o casamento entre judeus e cristãos[16]. De modo que as leis de Nuremberg nazistas, que proibiram o casamento entre alemães e judeus, são uma mera extensão de uma tradição cristã, não uma ruptura radical, como D’Souza quer nos fazer crer. Não obstante o antijudaísmo remontar ao NT, é na Idade Média que começamos a testemunhar alguns dos mais brutais e sistemáticos ataques cristãos contra os judeus[17]. Em parte, a codificação do cânone legal católico foi responsável por uma política mais uniforme em relação aos judeus[18]. E apesar das migalhas de tolerância mostradas esparsamente no cânone legal, a realidade é que os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290 e da França em 1306. Por volta de 1492, como se sabe, a Espanha também expulsou os judeus.

De qualquer maneira, a Primeira Cruzada, que tencionava libertar a Terra Santa do domínio muçulmano, deu origem a uma nova onda de violência sistemática contra os judeus. A primeira cruzada foi proclamada em 1095, e os primeiros contingentes começaram sua viagem em direção ao leste em 1096. Estes contingentes, compostos majoritariamente por leigos, foram responsáveis pela maior parte da violência antijudaica. Hordas de “cruzados” tomaram de assalto cidades como Colônia, Mainz e Worms, e deixaram cerca de 3 mil judeus mortos[19]. Vários dos judeus capturados nestes pogroms recusaram-se a se converter ao Cristianismo. Segundo os relatos judaicos, a seguinte justificativa para o martírio foi proferida:

Depois de tudo, não há dúvidas dos caminhos do Santíssimo, louvado seja… Que nos deu Sua Torá e nos ordenou que permitíssemos que fôssemos mortos e chacinados em testemunho da Unicidade de Seu Santo Nome. Felizes estamos se satisfazemos sua vontade e feliz é aquele que tomba e morre atestando a Unicidade de Seu Nome.[20]

Estes judeus, vitimados pelos cristãos, certamente viram o ódio que lhes era dirigido como enraizado na religião. A defesa de D’Souza de que pelo menos os judeus medievais poderiam ter se convertido, ao contrário da situação na Alemanha Nazista, fracassa pelos padrões das Nações Unidas[21] É proibido exterminar qualquer grupo baseado em sua etnicidade ou religião, de modo que a oportunidade de se converter não faz a menor diferença.

Será que D’Souza pensa que se o número de judeus disponíveis para o abate naquelas cidades alemãs medievais tivesse sido maior, então menos judeus teriam sido mortos? Por um lado, as autoridades clericais de fato denunciaram estes pogroms. Por outro lado, os leigos podem ter agido da maneira como o fizeram por causa de palavras como as do Papa Inocente III, que no dia 9 de Outubro de 1208 expediu ao rei da França Philip II Augustus o seguinte édito a respeito dos hereges e dos judeus:

A fim de que a Santa Cidade de Deus, disposta como uma assustadora frente de batalha, possa prosseguir contra seus mais cruéis inimigos, exterminar [ad exterminandum] os seguidores de heresias abomináveis, que como um verme ou uma úlcera, infectaram a província inteira, formamos guarnições de soldados cristãos a serem convocados juntos…[22]

Observe que, mesmo que nem sempre obedecidas literalmente, a idéia de extermínio de grupos de pessoas (hereges, judeus) já está lá, bem como o uso da linguagem genocida medicalizada (“úlcera… infectaram”) compartilhada com o nazismo[23].

O fato de que Hitler via o que ele estava fazendo como uma continuação da política católica é confirmado por uma conversa que ele teve em 26 de Abril de 1933, com Hermann Wilhelm Berning, bispo de Osnabriick, Alemanha. De acordo com um relatório registrado nos Documentos sobre a Política Externa Alemã:

[Hitler] então trouxe à baila a questão judaica. Justificando sua hostilidade para com os judeus, ele referiu-se à Igreja Católica, que igualmente sempre considerou os judeus como indesejáveis e que em virtude dos perigos morais envolvidos proibiu os cristãos de trabalhar para os judeus. Por estas mesmas razões a Igreja baniu os judeus para o gueto. Ele via os judeus como nada além de inimigos perniciosos do Estado e da Igreja e, por essa razão, quis exclui-los cada vez mais, sobretudo dos cargos públicos e da vida acadêmica[24].

Conforme sumarizado pelo renomado historiador do Holocausto Guenter Lewy, “Hitler simplesmente estava fazendo o que a Igreja havia feito por 1500 anos.”[25] Na verdade, Hitler simplesmente dispunha de tecnologias e logísticas muito superiores para fazer o que os cristãos medievais quiseram fazer aos judeus. Também haviam muito mais judeus vivendo na Alemanha na época de Hitler. Portanto, D’Souza deveria estar contando os acréscimos nas populações-alvo, não apenas as populações como um todo, para avaliar a proporcionalidade da violência ateísta e religiosa.

O Quão Religioso Foi o Antijudaísmo Nazista?

D’Souza levanta a polêmica tese de que o nazismo foi uma “filosofia antirreligiosa”, mas oferece escassas evidências incontestáveis para esta alegação. Se desejamos conhecer motivos, um procedimento razoável é buscar as razões que as pessoas oferecem para o que fazem. Se seguirmos este procedimento, então a seguinte declaração de Hitler no Mein Kampf é bastante relevante:

Por isso hoje acredito que estou agindo em concordância com a vontade do Criador Todo-Poderoso; ao me defender contra o Judeu, estou lutando pela obra do Senhor.[26]

Mas D’Souza descarta a declaração de Hitler como evidência de que Hitler realmente pretendeu dizer o que disse. Em vez disso, D’Souza sugere que uma fonte melhor para os pensamentos de Hitler sobre a religião é Allan Bullock, autor de um livro chamado Hitler e Stalin: Vidas Paralelas, de 1993. Conforme D’Souza expressa em suas palavras: “‘Desde a mais tenra idade’, o historiador Allan Bullock escreve, ‘Hitler não dedicou tempo algum ao catecismo católico, considerando-o uma religião adequada somente para escravos e detestando sua ética.”[28] Esta é claramente uma tática de esquiva, já que D’Souza não explica porque Bullock sabe o que Hitler pensava melhor do que o próprio Hitler. Em geral, é um procedimento de investigação histórica inferior substituir uma fonte primária (isto é, Hitler) por uma fonte secundária (ou seja, Bullock). Além disso, mesmo se Hitler detestasse os ensinamentos católicos, D’Souza confunde ateísmo com anticatolicismo. E a citação acima não é a única em que Hitler invoca Deus, a religião ou o Cristianismo para explicar suas idéias políticas no Mein Kampf. Hitler também declarou: “Pois a vontade de Deus deu aos homens sua forma, sua essência e suas habilidades. Qualquer um que destrua Sua obra está declarando guerra à criação do Senhor, a vontade divina.”[29] No encontro com Berning, Hitler insistiu que “nem uma vida pessoal nem uma nação poderia ser construída sem o Cristianismo.”[30]

Outra tentativa de evitar as implicações óbvias das declarações de Hitler é o apelo de D’Souza ao aspecto propagandístico do Mein Kampf. D’Souza alega que “o próprio Hitler diz no Mein Kampf que suas declarações públicas deveriam ser interpretadas como mera propaganda que não guarda a menor relação com a verdade, sendo antes planejadas para exaltar as massas.”[31] D’Souza não cita um trecho direto de Hitler para esta alegação e apenas nos remete às páginas 177-85 do Mein Kampf, o que mais uma vez reflete um péssimo trabalho de pesquisa histórica. D’Souza parece não notar que esta generalização grosseira sobre o Mein Kampf não guardar “nenhuma relação com a verdade” cria um caso de incoerência autorreferencial. Se a propaganda de Hitler sempre esconde a verdade, então segue-se que o próprio enunciado sobre como ele estava usando a propaganda deve ser falso. E Hitler não acreditou realmente que os judeus são malignos porque o que ele diz no Mein Kampf não possui relação alguma com a verdade? Em vez disso, um procedimento histórico superior é interpretar literalmente os enunciados de um autor sobre suas próprias crenças a menos que o contrário seja provado. Nada do que Hitler disse desmente que ele acreditou estar fazendo a vontade de Deus.

Além disso, D’Souza deixa inexplicado por que Hitler teria pensado que sua retórica antijudaica poderia comover as massas a menos que as massas fossem receptivas a uma mensagem antijudaica. Isto é importante porque as massas das quais D’Souza fala se autoidentificavam majoritariamente como cristãs. Por exemplo, um relatório nazista indica que por volta de 1938, 51,4% dos membros da SS foram identificados como protestantes, 22,7% como católicos, e 25,7% como “crentes em Deus” (Gottglaubigen).[32] Como o antijudaísmo não encontra-se associado às obras do próprio Darwin, trabalhar tendo como pano de fundo uma história de antijudaísmo cristão seria muito mais efetivo no convencimento das massas cristãs.

Cristianismo Positivo

Outro aspecto do nazismo que D’Souza descarta sem muita investigação é a idéia nazista do Cristianismo Positivo. A primeira ocorrência do termo remonta ao ponto 24 do Programa do Partido Nazista de 1924, que diz:

O Partido enquanto tal reflete o ponto de vista de um Cristianismo Positivo não limitado confessionalmente a qualquer denominação específica. Ele combate o espírito materialista judaico.[33]

Mais uma vez, o antijudaísmo foi um de seus principais pilares, o mero resultado de uma longa história de antijudaísmo cristão. Nesse sentido, mais uma vez, o nazismo não é um desvio radical do Cristianismo historicamente ortodoxo.

Quem ler O Mito do Século XX, um tratado sobre o nazismo escrito por Alfred Rosenberg, a quem é atribuída a autoria do Programa do Partido de 1920, entenderá que ele concebia o Cristianismo Positivo como uma restauração dos ensinamentos puros e originais de Cristo.[34] De fato, Rosenberg nos diz que a vida de Cristo é o que deveria ser siginificativo para os alemães.[35] Rosenberg repudiou a idéia do sacrifício de Cristo como uma corrupção judaica, e via Jesus como uma figura cuja verdadeira obra, o amor à própria raça, foi distorcida pela cristandade organizada num amor universal, em vez de um amor restrito ao grupo racial a que se pertence (sobretudo em sua interpretação de Levítico 19:18 e 25:17).

Esta é a razão pela qual Rosenberg o denominou “Cristianismo Positivo” (positive Christentum), que ele contrapôs explicitamente à forma corrupta representada pelo “clero etrusco-asiático” (etrusco-asiatische… Priesterherrschaft), que abraangia o Catolicismo Romano[36]. Assim, para o Cristianismo Positivo, a mera palavra “Cristianismo” muitas vezes significou a forma judaizada e clericalmente organizada vista no Catolicismo Romano, que diferia da originalmente proposta por Jesus. Opor-se ao “Cristianismo”, portanto, não significa opor-se à religião de Cristo ou opor-se à religião.

De fato, Der Mythus é repleto de citações bíblicas. Com algumas das interpretações de Rosenberg da Bíblia decerto até mesmo eruditos judeus poderiam concordar. Por exemplo, ele observa que Levítico 25:17, que declara “Ninguém prejudique o seu próximo”, refere-se ao próximo hebreu, e não a todos os demais[37]. Mas esta interpretação de “teu próximo” é consistente com a interpretação de Harry M. Orlinsky, o grande estudioso do cânone judaico[38]. Rosenberg também pensou que o Evangelho de João foi o que melhor preservou alguns dos ensinamentos de Jesus. Assim ele o comenta: “O Evangelho de João, que ainda é permeado por um espírito aristocrático, combateu a bastardização coletiva, a orientalização e a judaização do Cristianismo”[39]. É no Evangelho de João (8:44) em que o próprio Jesus diz que os judeus são mentirosos filhos do diabo. Esse versículo apareceu bem mais tarde na sinalização de trânsito do regime nazista, ao passo que nenhuma citação de Darwin jamais foi vista nas placas de trânsito nazistas[40]. Este versículo ecoa o título do panfleto de Lutero (Dos judeus e suas mentiras), bem como o longo título que Hitler originalmente propôs para seu livro ([Meus] Quatro anos e meio de luta contra as mentiras… ).

Sim, Rosenberg sincretizou os conceitos cristãos encontrados no NT com mitos germânicos, e mitos de sua própria criação ou adaptação. Mas em que a exegese bíblica e o sincretismo de Rosenberg diferem do que outros autoproclamados cristãos estiveram fazendo ao longo da história? Com efeito, vários estudiosos defendem exatamente que o Cristianismo foi o resultado da combinação de idéias judaicas com outras helenísticas. Ao conceberem a si próprios como restauradores do Cristianismo primitivo, os cristãos positivos não foram menos cristãos do que os primeiros luteranos ou anabatistas. Na verdade, o Cristianismo Positivo possui precursores ilustres dentre os primeiros cristãos que rejeitaram o judaísmo. Estes incluem Marcião (segundo século), o cristão gnóstico que repudiou o Antigo Testamento (AT) por inteiro, e promoveu um cânone consistindo apenas de um Evangelho de Lucas expurgado e algumas das epístolas paulinas. O marcionismo repetiu-se na história cristã, especialmente entre alguns grupos anabatistas e teólogos cristãos (por exemplo, Friedrich Schleiermacher)[41].

Resumindo, se usamos a mesma lógica utilizada por vários teólogos cristãos que reinterpretam radicalmente a Bíblia Hebraica para a prática cristã, poderíamos também argumentar que o Cristianismo Positivo não representa tanto um movimento anticristão quanto representa uma reinterpretação do Cristianismo, um fenômeno constante na história cristã. É por isso que atualmente existem cerca de 25 mil grupos cristãos, alguns dos quais acreditam em coisas radicalmente opostas. Dizer que os marcionitas, os luteranos ou os cristãos positivos não são realmente cristãos é fazer um julgamento teológico mais do que um julgamento histórico.

O que há de tão negativo acerca do Cristianismo Positivo?

Não somente D’Souza exibe uma lastimável compreensão errônea  do Cristianismo Positivo, como as principais objeções que ele lança contra ele são extremamente superficiais. Para D’Souza, o Cristianismo Positivo não pode contar como Cristianismo porque ele “obviamente foi uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional, e como tal foi condenado pelo Papa Pio XI na época”[42]. Este último caso é suficiente para mostrar os preconceitos teológicos de D’Souza, já que ele assume que o que quer que o Papa Pio XI condene deve representar um falso cristianismo. E naturalmente, a alegação de que um Cristo ariano é uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional é uma grande novidade para qualquer um familiarizado com a longa história da arte cristã, onde Cristo é rotineiramente pintado como um branco europeu. De acordo com Epiphanies Monachus (oitavo ou nono século), um monge grego de Constantinopla, Jesus “tinha seis pés de altura, longos e dourados cabelos, e não muito volumosos…”[43]. Então, como um Cristo ariano nazista pode ser uma ruptura radical?[44]

D’Souza também deixa de dizer a seus leitores que antes do Papa Pio XI se distanciar do nazismo em sua famosa encíclica de 1937 (Mit Brennender Sorge/ “Com Ardente Pesar”), esse mesmo Papa assinou, “na época”, em 1933, um pacto com os nazistas, que Hitler inclusive apreciou como um inestimável auxílio para levar adiante sua “batalha contra a judiaria internacional (‘der kampf gegen das internationale judentum‘)”[45]. E observem como D’Souza não questiona se o Papa Pio XI teve motivos políticos em vez de sublimes motivos humanitários para sua reprovação aos nazistas em 1937. D’Souza não indaga se Pio XI realmente pretendeu dizer o que ele disse, como faz quando Hitler afirma estar acatando a vontade de Deus.

No entanto, quando se lê essa encíclica de 1937, o Papa Pio XI admite fazer acordos com a Alemanha Nazista:

Quando, em 1933, consentimos, venerável Brethren, em abrir negociações por um pacto, que o governo do Reich propôs como base de um programa de muitos anos de colaboração… Estávamos propensos pela vontade, como nos é próprio, de assegurar à Alemanha a liberdade da missão beneficente da Igreja e a salvação das almas sob seus cuidados, bem como pelo desejo sincero de prestar ao povo alemão um serviço essencial para seu desenvolvimento pacífico e prosperidade. Assim, apesar de várias e graves dúvidas e inquietações, decidimos então não recusar nosso assentimento pois foi nosso desejo poupar os devotos da Alemanha, na medida em que fosse humanamente possível, dos julgamentos e dificuldades que eles teriam que enfrentar, dadas as circunstâncias, houvessem as negociações malogrado[46]

Por que isso não se qualificaria como uma manobra política, já que almeja proteger os interesses de um grupo distinto (católicos)? Por que não podemos  também dizer que a hierarquia do Vaticano não pretendeu dizer o que disse em 1937? E será que nenhum dos conselheiros do Papa estava familiarizado com o Mein Kampf, que fora publicado aproximadamente uma década antes de 1933?

Na verdade, Diego Von Bergen, o embaixador do Reich na Santa Sé, relatou que enquanto o Papa estava dizendo uma coisa, Eugenio Pacelli, o cardeal secretário do Vaticano e o homem que se tornaria o Papa Pio XII, prometeu que “relações normais e amistosas… seriam reestabelecidas o mais cedo possível” entre o Vaticano e os nazistas após essa encíclica[47]. De fato, por volta de 1939, o arcebispo Cesare Orsenigo, o núncio para Berlim, estava atarefado  abrindo uma recepção de gala para o quinquagésimo aniversário de Hitler[48]. Isso encerra a questão do suposto repúdio da Igreja Católica ao regime nazista.

Caso contrário, tudo depende de se alguém considera a missão da Igreja Católica como digna de tal compromisso, e isso é um julgamento teológico. Se Hitler acreditava ser a vontade de Deus que ele matasse os judeus, não há como averiguar se a inspiração para essa tarefa foi menos divina do que a que levou o Papa Inocente III a manifestar seu desejo de exterminar os judeus e outros hereges na Idade Média. Caso contrário, D’Souza precisa explicar por que o Papa Inocente III estaria certo em dizer que Deus realmente quis que ele exterminasse os judeus ou os hereges na Idade Média, mas este não seria o propósito de Deus para a vida de Hitler no século XX.

O Quão Antirreligioso Foi Hitler?

Equivocar-se sobre a diferença entre o Cristianismo Positivo e o resto do Cristianismo é o que tem levado D’Souza e outros a transformar quaisquer das supostas concepções anticristãs de Hitler em concepções antirreligiosas. Há um problema lógico, obviamente, com a afirmação de que ser anticristão ou ser anticatólico significa ser antirreligioso. A religião abraange muito mais do que o Cristianismo ou o Catolicismo.

Mais substancialmente, pois são uma parcela significativa da evidência em que se baseia, D’Souza apela às Conversações Íntimas de Hitler, que supostamente registram os mais recônditos pensamentos do Führer. Entretanto, a confiabilidade desta fonte para determinar as opiniões de Hitler é bastante questionável. Existem quatro versões principais das Conversaçõs Íntimas, aqui nomeadas de acordo com os principais editores ou tradutores e os anos de publicação: (1) Henry Picker (alemã, 1951, 1963, 1976); (2) Francis Genoud (apenas tradução francesa, 1952); (3) H. R. Trevor-Roper (inglesa 1953, 1973, 2000); e (4) Werner Jochmann (alemã, 1980). Estes registros geralmente são organizado internamente pela data em que Hitler manteve a conversa.

Os problemas com as Conversações Íntimas foram minuciosamente estudados por Richard Carrier[49]. Do meu ponto de vista, na qualidade de historiador acadêmico, existem pelo menos três problemas com a utilização desta fonte; (1) não existem originais autógrafos, do próprio punho de Hitler, desta fonte. Não temos fitas de áudio para verificar as transcrições. O que temos são cópias célebres que muitas vezes foram filtradas através de Martin Borman, auxiliar de Hitler. O fato de estas versões concordarem suficientemente para sugerir uma fonte comum não necessariamente prova que esta fonte comum tenha sido o próprio Hitler. (2) As versões às vezes são discrepantes. Algumas passagens estão ausentes na edição de Trevor Roper em relação à edição de Picker. De modo que é difícil dizer o que vem de Hitler e o que vem dos editores. (3) Trevor-Roper autenticou os Diários de Hitler, apesar de estes mais tarde terem sido desmascarados como uma fraude[50]. Genoud também é um personagem de reputação duvidosa que pode ter estado envolvido em outras falsificações. E como Carrier tem mostrado, ambas as edições de Genoud e Trevor-Roper muitas vezes traduzem com erros grotescos o original alemão.

Além disso, o principal mediador em todas as versões conhecidas das Conversações Íntimas é o secretário pessoal de Hitler, Martin Bormann, conhecido por seus pontos de vista anticristãos[51]. De modo que às vezes podemos estar lendo os pensamentos de Bormann em vez de os de Hitler[52].

Também sabemos, a partir de outras fontes, que Hitler discordou de Bormann e também discordou de suas próprias opiniões expressas nas Conversações Íntimas. Por exemplo, Albert Speer, que foi o arquiteto pessoal de Hitler, disse:

Mesmo após 1942 Hitler prosseguiu sustentando que considerava a Igreja indispensável na vida política. Numa dessas conversas à hora do chá, ele afirmou que ficaria feliz se algum dia um eclesiástico renomado se revelasse adequado para liderar uma das igrejas – ou, se possível, ambas, a católica e a protestante, reunidas.[53]

Speer também relata casos em que Hitler censurou ações anticristãs cometidas por seus subordinados[54].

Assim, se utilizarmos somente as fontes mais confiáveis, D’Souza definitivamente não demonstra seu caso. D’Souza não cita uma única passagem do Mein Kampf, uma fonte incontestavelmente atribuída a Hitler, em que este diz que seus motivos foram ateístas. Todavia, podemos encontrar uma série de passagens do Mein Kampf em que Hitler, não menos do que Martinho Lutero, reivindica estar realizando a vontade de Deus.

Mas mesmo se considerarmos as Conversações Intímas uma fonte confiável, a antirreligiosidade de Hitler não é tão evidente quanto D’Souza afirma porque D’Souza confunde anticristianismo com ateísmo. Das citações que D’Souza fornece, a única que melhor contribuiria para seu caso é: “através do campesinato seremos capazes de destruir o Cristianismo.” Mas D’Souza não fornece o número da página das Conversações Íntimas, e sua nota de rodapé correspondente apenas remete a “Conversações Íntimas de Hitler (New York: Enigma Books, 2000)”, que é uma edição associada a Hugh Trevor-Report[56]. Na melhor das hipóteses, o que temos aqui é um trabalho de documentação bastante desleixado, e nos leva a indagar se D’Souza está mesmo lendo as Conversações Íntimas em primeira mão.

Além disso, D’Souza não revela a frase completa, que na verdade encontra-se nos Pronunciamentos de Hitler, um livro historicamente desacreditado da autoria de Hermann Rauschning: “Mas é através do campesinato que realmente seremos capazes de destruir o Cristianismo porque existe entre eles uma verdadeira religião enraizada no sangue e na natureza.” Assim, em sua versão integral, o alegado objetivo de Hitler é uma religião melhor (“verdadeira religião”), não religião nenhuma.

Houvesse D’Souza lido as diversas versões das Conversações Íntimas cuidadosamente, ele também teria encontrado muita coisa que contradiz sua afirmação de que Hitler foi antirreligioso. Por exemplo, numa conversa referida a 14 de Outubro de 1941 (edição de Trevor Roper) Hitler comenta:

Um homem educado preserva o sentido para os mistérios da natureza e ajoelha-se diante do desconhecido. Um homem inculto, por outro lado, corre o risco de sucumbir ao ateísmo (que é um retorno à animalidade)… [58]

Hitler acrescenta:

Pode-se perguntar se o desaparecimento do Cristianismo acarretaria o desaparecimento da crença em Deus. Isso não seria desejável. A idéia de uma divindade confere à maioria dos homens a oportunidade de concretizar o sentimento que eles possuem da existência de realidades sobrenaturais. Por que deveríamos destruir este maravilhoso poder  que eles possuem de encarnar o sentimento para o divino que há em seu interior?[59]

Assim, mesmo aqui Hitler distingue entre não acreditar no Cristianismo e não acreditar em Deus. Na verdade, no original alemão das Conversações Íntimas, Hitler manifesta sua esperança de vida eterna no paraíso e seu real desprezo por aqueles que escarnecem da providência divina, declarando em vez disso que ele pensa ser possível que Deus o tenha escolhido, e que é nossa crença num Criador que nos distingue dos animais.[60]

E é nas Conversações Íntimas que Hitler distingue claramente os ensinamentos originais de Cristo da forma corrupta que se tornou conhecida como “Cristianismo”. Ele diz (em 21 de Outubro de 1941) que:

Originalmente, o Cristianismo era meramente uma encarnação do Bolchevismo, o destruidor. Não obstante, o Galileu, que mais tarde foi chamado o Cristo, pretendeu algo bastante diferente. Ele deve ser considerado como um líder popular que assumiu Sua posição contra a judiaria.[61]

Em qualquer caso, as ações de Hitler contra quaisquer igrejas não são necessariamente mais anticristãs ou antirreligiosas do que a destruição pelos protestantes de igrejas católicas, ou a destruição pelos católicos dos templos protestantes. Por exemplo, o Rei Henrique VIII (1491-1547), que deu ínicio à Reforma Inglesa, não via a si próprio como anticristão ou antirreligioso quando demoliu os monastérios católicos. Reis cristãos muitas vezes mataram clérigos e perseguiram igrejas que discordavam deles[62]. O que estamos vendo no nazismo é uma guerra sectária ou uma guerra intrarreligiosa, que não deveria ser confundida com antirreligiosidade[63].

O Quão Darwinista foi o Nazismo?

Apesar das esmagadoras evidências apontando que o nazismo é uma continuação do antijudaísmo cristão, D’Souza nos assegura que por trás do nazismo o que realmente está é o darwinismo. Para suas evidências, D’Souza nos remete ao trabalho de Richard Weikart, como a seguir:

Se o nazismo representou a culminância de qualquer coisa, foi da ideologia do final do século 19 e início do século 20 do darwinismo social. Como o historiador Richard Weikart documenta, ambos Hitler e Himmler eram admiradores de Darwin e em várias ocasiões falaram de seu papel como o de descobridor de uma “lei da natureza” que garantiria “a eliminação dos incapazes”. Weikart… conclui que embora o darwinismo não seja uma explicação intelectual “suficiente” para o nazismo, é uma explicação necessária. Sem o darwinismo o nazismo não poderia ter existido.[64]

Como nos casos anteriores, D’Souza aparenta não possuir o treinamento requerido para avaliar e julgar as alegações de Weikart. Já ofereci uma série de longas críticas a Weikart, mas aqui eu resumirei alguns dos problemas com a utilização do livro de Weikart[65].

Primeiro, a própria noção de que o darwinismo foi necessário para o nazismo é desmentida pelo plano de Lutero para os judeus de 1543. Por volta de 1543 era possível levar a cabo com êxito um programa que até os especialistas na obra de Lutero reconhecem ser semelhante ao nazismo, e não havia Darwin algum então. Weikart se esquece completamente de Lutero, e raramente menciona a longa história de antijudaísmo cristão que certamente seria mais importante do que o darwinismo. A maioria dos alemães não era tão familiarizada com as obras de Darwin como eram com a Bíblia ou com as tradições antijudaicas de personagens da história alemã como Lutero.

D’Souza nunca oferece qualquer citação direta para mostrar que Hitler foi um admirador de Darwin. Na verdade, D’Souza aparenta ignorar as exatas visões de Weikart sobre as referências de Hitler a Darwin. Weikart foi citado como dizendo:

É verdade que Hitler quase nunca mencionou o nome de Darwin (a única menção direta a Darwin que fui capaz de encontrar é um relato por um colega Wagener).[66]

No entanto, mesmo o “quase nunca” é enganoso porque Weikart reconhece que a única referência direta a Darwin por Hitler definitivamente não vem de Hitler. Hitler, contudo, menciona e aplaude Lutero no Mein Kampf. Isso por si só nos diz que Hitler atribuiu a Lutero importância suficiente para menciona-lo algumas vezes, ao passo que Darwin não recebeu nenhuma menção.

Além disso, D’Souza e Weikart também ignoram evidências de que o darwinismo foi especificamente banido na Alemanha Nazista, pelo menos em 1935. As evidências derivam desta diretriz numa lista de livros banidos na Alemanha Nazista compilados numa exposição da biblioteca da Universidade do Arizona: “Obras de natureza social e filosófica cujos conteúdos lidam com o Iluminismo científico do Monismo e do Darwinismo primitivo (Häckel)”.[67]

O Darwinismo de Weikart

Um problema decisivo com a tese de Weikart é que ele começa com esta definição demasiado restritiva de “Darwinismo”:

Ao utilizar o termo darwinismo neste estudo, refiro-me à teoria da evolução pela seleção natural como exposta por Darwin em A Origem das Espécies.[68]

É intrigante a razão pela qual Weikart restringe sua definição de darwinismo apenas ao que é encontrado em A origem das espécies (1859), sobretudo porque esse livro não diz absolutamente nada sobre evolução humana ou conflitos raciais. Consequentemente, Weikart precisa empreender uma redefinição contínua de “darwinismo” de forma a incluir outras obras de Darwin e quaisquer outras deturpações do darwinismo que ele for capaz de encontrar. Esta falha de Weikart é ainda mais importante porque ele já criticou outros historiadores reconhecidos por não aderirem às definições que propuseram inicialmente. Por exemplo, numa resenha de um livro escrito por Annette Wittkau-Horgby, Weikart comenta, “Wittkau-Horgby, portanto, não adere à definição de materialismo com que começa…”[69] Para evitar constantemente mover o objetivo definicional proposto para o darwinismo, Weikart poderia te-lo definido de modo mais amplo, e dito “… como exposto por Darwin em suas obras”. Uma vez que, para Weikart, interpretações errôneas das teorias de Darwin ainda contam como “darwinismo”, então ele realmente deveria dizer: “…conforme exposto por Darwin em seus livros e em diversas interpretações de sua obra, sejam esta interpretações corretas ou errôneas.”

A disposição de Weikart em subsumir distorções e deturpações do darwinismo sob o rótulo “darwinismo”, entretanto, não é consistentemente aplicada a outras obras que os nazistas desvirtuaram. Por exemplo, em sua resenha do livro de Richard Steigmann Gall “The Holy Reich“, Weikart comenta: “Vários alemães panteístas utilizaram terminologia religiosa – até mesmo cristã – mas eles muitas vezes a redefiniram.”[70] Assim, quando os escritores nazistas utilizam terminologia panteísta, então eles contam como panteístas, mas quando utilizam terminologia cristã, então eles não são realmente cristãos, mas panteístas. Ao se redefinir o vocabulário cristão, não mais se pode responder pelo Cristianismo, mas redefinir o darwinismo ainda estigmatiza alguém como darwinista. Esta inconsistência lógica é tendenciosa e serve para desviar a responsabilidade do Cristianismo.

Tudo isto é importante porque nenhuma das obras de Darwin, e sobretudo A Origem das Espécies, aborda o antijudaísmo. O antijudaísmo é um componente essencial do nazismo, compartilhado não com as obras de Darwin, mas com o Cristianismo primitivo (por exemplo, João 8:44, Apocalipse 2:9-10). Mais uma vez, mesmo se Darwin possuísse uma agenda antijudaica, a maioria dos alemães não estaria tão familiarizada com as obras de Darwin quanto estavam com a Bíblia.

Racialização dos Judeus

D’Souza afirma que os judeus medievais pelo menos poderiam ter se convertido ao Cristianismo ao passo que a eugenia darwinista dos nazistas racializou os judeus até um ponto em que estes não mais poderiam alterar sua identidade. Como já discuti, isto realmente não faz a menor diferença para a repreensibilidade moral do genocídio baseado na religião ou na etnicidade. Mas a idéia de que os judeus eram uma categoria racial, não somente uma categoria religiosa, já possuía uma longa história no Cristianismo muito antes do surgimento de Darwin.

Considere a idéia hitlerista da “pureza do sangue” (Reinhaltung des blutes). Esta noção não teve início com Darwin, nem sequer foi discutida como tal por Darwin em A origem das espécies. Em vez disso, a terminologia específica de Hitler corresponde muito de perto à terminologia católica espanhola (limpieza de sangre/”limpeza ou pureza do sangue”) aplicada contra os judeus na Espanha. Em particular, Juan Martinez Siliceo, o arcebispo de Toledo, propôs em 1547 uma legislação baseada muito especificamente sobre esta noção de limpieza de sangre.[72] Normas decretadas em Toledo em 1449 também se concentraram na pureza do sangue como um meio para discriminar os judeus que haviam se convertido mas não eram espanhóis  “de sangue”.

Como até mesmo os estudiosos judeus observaram, diversos personagens bíblicos podem ser interpretados como defensoras de práticas eugênicas séculos antes que o termo fosse inventado. O rabino Max Reichler, um dos autores de Eugenia judaica e outros ensaios, nos diz:

Certamente a eugenia como ciência dificilmente poderia ter existido entre os antigos judeus; mas diversas regras eugênicas de fato foram incorporadas na vasta coleção de leis bíblicas e rabínicas. Na verdade existem indícios inequívocos de um esforço consciente para utilizar todas as influências capazes de aumentar as qualidades inatas das raças judaicas e resguardar contra quaisquer práticas que poderiam conspurcar a pureza da raça ou “prejudicar as qualidades raciais das futuras gerações” seja física, mental ou moralmente… O próprio fundador da raça judaica, o patriarca Abraão, reconheceu a importância de certas qualidades hereditárias, e insistiu que a esposa de seu “único filho amado” não deveria vir “das filhas dos cananitas”, mas da semente de uma linhagem superior.[73]

D’Souza não fornece nada realmente comparável, além de uma referência secundária a Weikart, mostrando que o A origem das espécies de Darwin contenha quaisquer noções de pureza do sangue ou eugenia ainda mais próximas disto. Como as coisas estão, D’Souza aparenta estar confundindo seleção natural, o principal conceito por trás de A Origem das Espécies, com a seleção artifical que foi um componente essencial do nazismo.

Se olharmos para as justificativas racialistas do próprio Hitler, descobriremos que ele invoca a Bíblia, não o A Origem das Espécies, para respalda-lo. Um exemplo é esta passagem do Mein Kampf  a respeito da miscigenação:

… é uma daquelas a respeito do que é dito com tão grandiosa e terrível justiça que os pecados dos pais são vingados até a décima geração… O pecado contra o sangue e a profanação da raça são o pecado original neste mundo…[74].

Mas de onde Hitler tirou a idéia de que a profanação do sangue é um pecado que macula até a décima geração? Não a vemos em nenhuma das obras de Darwin. Mas no livro de Esdras, capítulo 9, versículos 1-2 e 12, lemos:

Acabadas, pois, estas coisas, chegaram-se a mim os príncipes, dizendo: O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, seguindo as abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios, e dos amorreus.  Porque tomaram das suas filhas para si e para seus filhos, e assim se misturou a linhagem santa com os povos dessas terras; e até os príncipes e magistrados foram os primeiros nesta transgressão. (…) Agora, pois, vossas filhas não dareis a seus filhos, e suas filhas não tomareis para vossos filhos, e nunca procurareis a sua paz e o seu bem; para que sejais fortes, e comais o bem da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos para sempre. (Ênfase do autor)

Observe que o objetivo da endogamia é “para que sejais fortes”, o que exemplifica a concepção clássica de eugenia de aprimorar algumas características desejadas através da procriação adequada. Por conseguinte, o Mein Kampf sugere que é a Bíblia, não o A Origem das Espécies, que parece ser a influência mais direta sobre Hitler.

Conflitos raciais são uma parte do Cristianismo

Weikart rotula como particularmente darwiniana a noção da história como uma luta racial. Weikart tem utilizado repetidamente a seguinte citação de A Descendência do Homem para respaldar esta tese controversa:

Em algum período futuro, não tão distante que não possa ser medido por séculos, as raças civilizadas do homem irão certamente exterminar e substituir as raças selvagens pelo mundo afora.[76]

Mas esta passagem está descontextualizada. O contexto apropriado é um lamento por esta extinção – não um endosso dela. Este lamento é ainda mais evidente quando se lê o que vem em seguida, onde Darwin observa que, de fato, “”os selvagens não eram tão afetados pelas nações invasoras clássicas” até que as civilizações modernas (não as raças modernas) as usurpassem, uma vez que nas eras clássicas “não há esse tipo de queixa entre os escritores clássicos a respeito de uma possível destruição dos valores dos bárbaros”[77]. Consequentemente, Darwin acreditava que tecnologias e culturas superiores, não sangue inferior, eram os responsáveis pelo extermínio das “raças selvagens”.

E a concepção da história como uma luta entre raças é um componente muito importante da história cristã. Já em 1853, e alguns anos antes da publicação de A Origem das Espécies, George Fitzhugh, o advogado americano pró-escravidão, havia articulado a noção de conflito racial numa matriz de sobrevivência dos mais aptos quando disse:

Os membros do Congresso do Partido Jovem Americano, orgulhem-se do fato de que a raça anglo-saxã está manifestamente destinada a devorar as outras raças, assim como o capim-açu destrói e toma o lugar de outras plantas rasteiras.[78]

E ao contrário da afirmação de Weikart de que a orientação espiritual do judeocristianismo resistiu a tais idéias racialistas, Robert Knox, o famoso escritor racialista escocês, declarou:

Agora, esteja a Terra superpopulada ou não, uma coisa é certa, os fortes sempre irão se apoderar das terras e das propriedades dos fracos. Estou convicto de que esta conduta não é, em absoluto, incompatível com a mais elevada moral e mesmo com o sentimento cristão.[79]

Com efeito, John Campbell, um escritor cristão favorável à escravidão, viu a luta racial como um componente essencial da história da humanidade, e ele cita Knox em seu ensaio de 1851, “Negro-Mania“:

O antagonismo das raças opera por si próprio  em toda situação em que duas raças são colocadas em colisão, seja pela extinção rápida ou lenta da raça mais frágil e inferior (…) Knox nos mostrou que em todos os lugares o sangue branco atropela e extermina as raças mais escuras.” O Saxão (ele observa) não se associará com qualquer raça escura, tampouco lhe permitirá manter qualquer acre de terra no país que vier a ocupar … Não há nada que negue o fato de que o Saxão – chame-lhe pelo nome que desejar – possui o mais perfeito horror por seus irmãos mais escuros”.[80]

Em geral, Weikart parece beatificamente ignorante da abundância de literatura racialista cristã pré-nazista que mostraria que o nazismo aboslutamente não representa nenhuma ruptura da história cristã.

Conclusão

D’Souza fracassa de maneira espetacular em seus esforços para pintar o nazismo como uma “filosofia antirreligiosa” responsável por dez milhões de mortes. Primeiro, D’Souza não fornece quase nenhuma documentação para suas alegações, e o que ele de fato oferece vem em sua maior parte de fontes secundárias. Ele aparentemente é incapaz de ler fontes alemãs primárias na língua original. Ele também confunde quaisquer esforços contra o Cristianismo organizado com antirreligiosidade. Mas mesmo nas Conversações Íntimas, uma fonte questionável utilizada por D’Souza, Hitler deixa claro que ser contra o Cristianismo não é o mesmo que ser contra a crença em Deus.

A prestidigitação numérica de D’Souza simplesmente oculta o fato de que tanto a moralidade teísta quanto a não-teísta podem resultar em genocídios. Quaisquer diferenças no número de mortes é mais um acidente histórico do que uma diferença num princípio que pode justificar o assassinato de grupos baseado na etnicidade, na raça, na nacionalidade ou na religião. Pelos padrões das Nações Unidas, os genocídios cometidos pelos cristãos são tão reprováveis quanto os cometidos pelos maoístas ou pelos estalinistas porque todos eles dedicaram-se igualmente ao extermínio de 100% de seus respectivos grupos alvo.

Mas o mais significativo problema com o argumento de D’Souza é sua conveniente amnésia acerca da longa história do antijudaísmo cristão que precede em séculos o nascimento de Darwin ou Hitler. O clamor pelo extermínio dos hereges e judeus na França pelo Papa Inocente III na Idade Média não precisou do darwinismo. E o criminoso plano de sete pontos de Lutero, que é praticamente idêntico ao do nazismo, demonstra além de qualquer dúvida que o darwinismo certamente não foi “necessário” para se chegar à ideologia nazista (veja o quadro abaixo). O nazismo, na verdade, foi muitíssimo facilitado por  uma longa tradição de antijudaísmo cristão.

UMA COMPARAÇÃO DAS POLÍTICAS ANTIJUDAICAS DE HITLER E AS POLÍTICAS DEFENDIDAS EM NAS OBRAS DE MARTINHO LUTERO E CHARLES DARWIN

Notas.

1. Dinesh D’Souza, A Verdade sobre o Cristianismo, pág. 215. (Thomas Nelson Brasil – Rio de Janeiro – 2008).

2. D’Souza, A verdade, p. 215. D’Souza está respondendo especificamente aos argumentos de Sam Harris, A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão (Companhia das Letras, 2009); Daniel Dennett, Quebrando o Encanto – A religião como um fenômeno natural (Ed. Globo, 2007); e Richard Dawkins, Deus, um delírio (companhia das Letras, 2007).

3. D’Souza, A verdade, p. 214.

4. Hector Avalos, Fighting Words: The Origins of Religious Violence (Amherst, NY: Prometheus Books, 2005), pp. 325-34.

5. Vejam sobretudo Tatiana A. Chuinachenko, Church and State in Soviet Russia. Russian Orthodoxy from World War II to the Krushchev Years, trans. Edward E. Roslof (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2002).

6. Richard Weikart, From Darwin to Hitler Evolutionary Ethics Eugenics, and Racism in Germany (New York: PalgraveMacmillan, 2004).

7. Um sumário das convenções da Nações Unidas sobre Direitos Humanos pode ser lido em: http://www.hrweb.org/legal/undocs.html#CAG.

8. Para discussões recentes sobre teorias da etnicidade, veja Richard H. Thompson, Theories of Ethnicity: A Critical Appraisal (New York: Greenwood Press, 1989). Para o antigo Israel, veja Kenton Sparks, Ethnicity and Identity in Ancient Israel – Prolegomena to the Study of Ethnic Sentiments and Their Expression in the Hebrew Bible (Winona Lake: IN: Eisenbrauns, 1998).

9. Veja também, Solomon Grayzel, The Church and the Jews in the XIIIth Century (New York: Hermon Press, 1966); Kenneth R. Stow, Catholic Thought and Papal Jewry Policy, 1555-1593 (New York: Jewish Theological Seminary of America, 1977).

10. Stow, Catholic Thought, p. 295; Latin (p. 291): quos propia culpa perpetua servituta submisit.

11. D’Souza, A verdade, p. 208.

12. Jose M. Sanchez, Pius XII and the Holocaust- Understanding the Controversy (Washington, DC: Catholic University of America Press, 2002), p. 70.

13. Martinho Lutero, “Dos judeus e suas mentiras,” trad. Martin H. Bertram in Luther’s Works: The Christian in Society IV, ed. Franklin Sherman (Philadelphia, PA: Fortress Press, 1971), pp. 268-72.

14. Martinho Lutero, “Dos judeus,” p. 268 n. 173. Veja também William Montgomery McGovern, From Luther to Hitler: The History of Fascist Nazi Political Philosophy (Cambridge, MA: Houghton Mifflin, 1941).

15. Adolf Hitler, Mein Kampf, trad. Ralph Manheirn (Boston: Houghton Mifflin, 1971), p. 213; German (p. 232): Neben Friedrich der Grossen stehen bier Martin Luther sowohl als wie Richard Wagner. Utilizamos a edição alemã Adolf Hitler, Mein Kampf (Munchen: Muller, 1938). Doravante, esta fonte será referida como “Alemã (nº da pág.).”

16. Sobre o Concílio de Elvira, veja Louis H. Feldman, Jew and Gentile in the Ancient World- Attitudes and Interactions from Alexander to Justinian (Princeton: Princeton University Press, 1993), pp. 373, 380, 398.

17. Para um ponto de vista de um erudito católico sobre este período, especialmente à luz do Vaticano II, veja Edward A. Synan, The Pope and the Jews in the Middle Ages (New York: Macmillan, 1965).

18. John Y. B. Hood, Aquinas and the Jews (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1995), p. 25.

19. Veja Robert Chazan, In the Year 1096 The First Crusade and the Jews (Philadelphia, PA: Jewish Publication Society, 1996), p. 129.

20. Shlomo Eidelberg, The Jews and the Crusaders: The Hebrew Chronicles of the First and Second Crusades (Madison: University of Wisconsin Press, 1977), p. 31.

21. D’Souza, A verdade, p. 218.

22. Grayzel, The Church and the Jews, p. 133; Texto latino na p. 132. Inocente (Grayzel, The Church and the Jews, pp. 92-93) paradoxalmente também endossa a idéia agostiniana de manter alguns judeus vivos como um símbolo da descrença, ele também acreditou que “não se deveria destruir os judeus completamente” (em latim: ne deleveris omnino Judeos). Sobre esta idéia posterior, veja Jeremy Cohen, Living Letters of the Law: Ideas of the Jew in Medieval Christianity (Berkeley: University of California Press, 1999).

23. Para este aspecto do nazismo, vejam Gotz Aly, Peter Chroust, e Christian Pross, Cleansing the Fatherland Nazi Medicine and Racial Hygiene, trans. Belinda Cooper (Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 1994).

24. Paul R. Sweet, ed., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos arquivos do Ministério do Exterior alemão (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series C, vol. 1, p. 347.

25. Guenter Lewy, The Catholic Church and Nazi Germany (New York: De Capo Press, 2000), p. 51.

26. Hitler, Mein Kampf, p. 65 / Alemã (p. 70): So glaube ich heute im Sinne des allmachtigen Schopfers zu handeln: Indem ich mich des ,juden erwehre, kampfe ich fur day Werk des herrn.

27. D’Souza, A verdade, p. 217.

28. Ibid.

29. Hitler, Mein Kampf, p. 562 / alemã (p. 630): Denn Gottes WillegabdenMen- sehen einst ihre Gestalt, ihr Wesen and ihre Fahigkeiten. Wer sein Wert zerstort sagt damit der Schopfung des hernn, dem gattlichen Wollen, den kampf an.

30. Sweet, Documents on German Foreign Policy, series C, vol. 1, p. 347.

31. D’Souza, A verdade, p. 217.

32. Richard Steigmann-Gall, The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity, 1919-1945 (Cambridge: Cambridge University Press, 2003), p. 221. Para um estudo da  receptividade ao antijudaísmo pelas populações alemãs, veja Daniel Goldhagen, Hitler’s Willing Executioners.- Ordinary Germans and the Holocaust (New York: Little, Brown, 1996).

33. Alfred Rosenberg, Das Parteiprogramm: Wesen, Grundsatze and Ziele der NSDAP (Munich: Zentralverlag der NSDAP, 1922 [25th edition, 1943]), p. 13: Die Partei als solche vertritt den Standpunkt eines positiven Christentums, ohne rich konfessionell an ein bestimmtes Bekenntnis zu binden. Sic bekampft den judisch-materialistischen Geist… .

34. Alfred Rosenberg, Der Mythus des 20, Jahrhunderts: Ewe Wertung der seeliseh- geistigen Gestaltentkampfe unserer Zeit, (‘Munchen: Hoheneichen Verlag, 1938). Steigmann-Gall (The Holy Reich, pp. 92-93) defende que o livro de Rosenberg não recebeu muita atenção dentro do Partido Nazista. Entretanto, Albert Speer (Inside the Third Reich, trad. Richard e Clara Winston [New York: Macmillan, 1970], p. 115), o arquiteto pessoal de Hitler, diz que  “o público considerava o livro como o texto de referência para a ideologia do partido”.

35. Rosenberg, Der Mythus, p. 74.

36. Ibid., p. 78: Das positive Christentum gegenuber dem negativum der auf der etrusco-asiatische Vorstellung zuruckgehende Priesterherrschaft and des Hexenwahns.

37. Alfred Rosenberg, Race and Race History and Other Essays, ed. Robert Pois e trad. Jonathon Cape (New York: Harper & Row, 1970), p. 180.

38. Veja Harry M. Orlinsky, “Nationalism-Universalism and Internationalism in Ancient Israel,” in Translating and Understanding the Old Testament Essays in Honor of Herbert Gordon May, eds. Harry Thomas Frank and William L. Reed (Nashville, TN: Abingdon, 1970), pp. 206-36, especially pp. 210-11.

39. Rosenberg, Der Mythus, p. 75. My translation of the German: Gegen these gesamte Verbastardierung, Verointalisierung and Verjudung des Christentums wehrte rich bereits day durchaus noch aristokratischen Geist atmende johannes evangelium. A edição de Robert Pois (Race and Race History and Other Essays, p. 70) traduziu johannes evangelium como “ensinamentos evangélicos de São João,” que obscurece as referências mais específicas ao livro que chamamos de Evangelho de João.

40. Para imagens de sinais de trânsito nazistas com este versículo, veja Robert P. Ericksen e Susannah Heschel, Betrayal – German Churches and the Holocaust (Minneapolis, MN: Fortress Press, 1999), fig. 6.

41. Para uma história do cânone e do marcionismo entre os anabatistas, veja meu artigo “The Letter Killeth: A Plea for Decanonizing Violent Biblical Texts,” Journal of Religion, Conflict, and Peace 1, no. 1 (Outono 2007): http://www.plowshares project.org/journal/php/article.php?issu_list_id=8&article_list_id=22.

42. D’Souza, A verdade, p. 217.

43. Frederic W. Farrar, The Life of Christ as Represented in Art (London: Adam and Charles Black, 1901), p. 84.

44. Veja também, Susannah Heschel, An Aryan Jesus. Christian Theologians and the Bible in Nazi Germany (Princeton: Princeton University Press, 2008).

45. Minha citação vem das minutas de uma reunião do governo nazista ocorrida em 14 de Julho de 1933. Minha fonte é Walther Hofer, ed., Der Nationalsozialismus.• Dokumente 1933-1945 (Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag, 1976), p. 130.

46. Mit Brennender Sorge, disponível em http://www.newadvent.org/library/docs_pi11mb.htm.

47. Telegrama de Diego von Bergen para Eugenio Pacelli conforme preservado em Raymond James Sontag et al., eds., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos Archives of the German Foreign Ministry (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series D, vol. 1, p. 991.

48. Veja Richard Phayer, The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965 (Bloomington: Indiana University Press, 2000), p. 45.

49. Veja Richard Carrier, “Hitler’s Table Talk: Troubling Finds,” German Studies Review 26, no. 3 (2003): 561-76.

50. Para uma história dos Diários de Hitler, veja Charles Hamilton, The Hitler Diaries: Fakes That Fooled the World (Louisville: University Press of Kentucky, 1991) e Robert Harris, Selling Hitler (New York: Pantheon Books, 1986).

51. Steigmann-Gall, The Holy Reich, pp. 243-60.

52. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 573.

53. Speer, Inside the Third Reich, p. 113.

54. Ibid., p. 114.

55. D’Souza, A verdade, p. 218.

56. Ibid., p. 327 n. 12.

57. Hermann Rauschning, ed., Hitler Speaks: A Series of Conversations with Adolf Hitler on His Real Aims (London: Thornton Butterworth, 1939; Reprint: Whitefish, MT: Kessinger, 2007), p. 63. Sobre a confiabilidade desta fonte, veja SteigmannGall, The Holy Reich, pp. 28-29.

58. H. R. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, 1941-1944: His Private Conversations (London: Phoenix Press, 2000), p. 59.

59. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 61.

60. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” págs. 566-72 (todas as quatro declarações aparecem na entrada datada da tarde de 27 de Fevereiro de 1942, no original alemão).

61. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 76. Hitler rotineiramente igualou “bolchevismo” e “judaísmo”. Ele também acreditava que Jesus foi um ariano cuja mensagem verdadeira foi corrompida pelo judeu Paulo (Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 572).

62. Veja também, Peter A. Dykema and Heiko Oberman, eds., Anticlericalism in Late Medieval and Early Modern Europe (Leiden: Brill, 1993), que também discute vários conflitos entre protestantes e católicos.

63. Diego von Bergen, o embaixador alemão no Vaticano, relatou especificamente que o Papa temia que “uma ‘terceira’ fé está sendo organizada e encorajada” em adição ao catolicismo e às fés evangélicas (Documentos sobre a política externa alemã, série D, vol. 1, p. 988). Isto mostra que o Vaticano via a religião nazista como uma fé concorrente, e não como “ateísmo”, um termo que ocasionalmente também aplicado a fés concorrentes.

64. D’Souza, A verdade, p. 219; Richard Weikart, From Darwin to Hitler. Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany (New York: Palgrave, 2004).

65. Para minha críticas a Weikart, veja “Avalos contra Weikart: Part I: General Problems with Dr. Weikart’s Methods“; e “Avalos Contra Weikart: Part II: Weikart’s Seven Darwinian Aspects of Nazism“. See also Sander Gliboff, H. G. Bromm, Ernst Haeckel, and the Origins of German Darwinism: A Study in Translation and Transformation (Cambridge, MA: MIT Press, 2008).

66. Denise O’Leary, “Post-Details: Expelling the Outrage: Hitler and Darwinism“(accessado em 3 Julho de 2009).

67. “Guidelines from Die Bucherei,” 2:6, 1935, p. 279.

68. Weikart, From Darwin to Hitler, p. 9.

69. Richard Weikart, “Review of Annette Wittkau-Horgby, Materialismus: Enstehung and Wirkung in den Wissen.rchaften des 19. Jahrhunderts (Gottingen: Vande- hoek and Ruprecht, 1998),” German Studies Review 24, no. 3 (October 2001): 610.

70. Richard Weikart, “Review of Richard Steigmann-Gall’s The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity,” German Studies Review 27, no. 1 (February 2004): 175.

71. Veja Mein Kampf, p. 312: “manter seu sangue puro” / versão alemã (p. 342): Rein- haltung seines Blutes.

72. Veja também, Linda Martz, “Pure Blood Statutes in Sixteenth-Century Toledo: Implementation as Opposed to Adoption,” Sefarad 61, no. 1 (1994): 91-94; Albert Sicroff, Los estatutos de limpieza de sangre.: Controversial entre los siglos xvy xvii (Madrid: Taurus, 1985); Henry Kamen, The Spanish Inquisition.A Historical Revision (London: Weidenfeld and Nicolson, 1997), sobretudo págs. 242-54; Henry Kamen, Philip of Spain (New Haven, CT: Yale University Press, 1997), pp. 33-34.

73. Max Reichler, Jewish Eugenics and Other Essays (New York: Bloch, 1916), pp. 7-8.

74. Hitler, Mein Kampf, p. 249.

75. Ibid., p. 286.

76. Weikart, From Darwin to Hider, p. 186.

77. Charles Darwin, A origem do Homem e a Seleção Sexual, (Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2004 [1874]), p. 135 (contexto: págs. 125-143). Veja também Patrick Brantlinger, Dark Vanishings: Discourse on the Extinction of Primitive Races 1800-1930 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 2003).

78. George Fitzhugh, “Sociology for the South or the Failure of Free Society,” em Antebellum Writings of George Fitzhugh and Hinton Rowan Helper on Slavery, ed. Harvey Wish (New York: Capricorn Books, 1960 [reprint of 1854 edition]), p. 61.

79. Robert Knox, The Races of Men (Philadelphia, PA: Lea & Blanchard, 1850), pp. 38-39.

80. John Campbell, “Negro-Mania,” in E. N. Elliott, Cotton Is King and ProSlavery Arguments: Comprising the Writings of Hammond, Harper Christy, Stringfellow, Hodge, Bledsoe, and Cartwright, on This Important Subject (Augusta, GA: Pritchard, Abbott and Loomis, 1860), p. 520.

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Autor: Brian Vroman

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Em 2008, o mundo ficou escandalizado ao saber dos crimes horríveis de Josef Fritzl de Amstetten, na Áustria. Em 1984, Fritzl atraiu a filha adolescente, Elisabeth, a quem ele já havia violentado sexualmente em ocasiões anteriores, ao porão da casa da família. O que Elisabeth não sabia era que seu pai havia convertido o porão em um calabouço, no qual Elisabeth seria mantida cativa pelos próximos 24 anos.

Durante este período, Fritzl violentou sua filha em inúmeras ocasiões, e Elizabeth deu à luz sete crianças: uma morreu ainda bebê e foi incinerada por Fritz, três foram criadas por Fritzl e sua esposa, as outras três permaneceram no calabouço com Elizabeth, sem terem visto a luz do sol até o dia em que a filha mais velha de Elizabeth, Kerstin, foi levada a um hospital local para tratamento médico, o que levou à descoberta das perversidades de Fritzl.

Por que isto aconteceu? Um secularista diria que Josef Fritzl era um homem vil e repugnante, e que usou sua autoridade como chefe de família para atingir um dos mais insidiosos objetivos. O fato de alguns humanos serem capazes de comportamento tão sórdido  é uma interessante e importante questão de um ponto de vista biológico e antropológico, mas os eventos trágicos não precisam ser investidos de qualquer significado cósmico.

Mas como poderia um apologista cristão como William Lane Craig explicar a situação de Elisabeth Fritzl e seus filhos? Se Deus, conforme a concepção teísta clássica, é sumamente bom, onisciente e onipotente, por que isto aconteceu? Craig possui somente duas opções de resposta. Ou ele pode dizer que o sofrimento da família Fritzl foi absurdo, o que é problemático, já que, se não havia uma razão necessária para sua ocorrência, não existe uma razão necessária para que Deus tenha permitido que acontecesse; ou ele pode dizer que Deus possui algum objetivo para o sofrimento dos Fritzl _  um objetivo que, presumivelmente, seres humanos são incapazes de discernir, pois os caminhos do Senhor são misteriosos. Na verdade, Craig está habituado a explicar as tragédias desta última forma.

Em seu livro “Deus? Um debate entre um ateu e um cristão”, publicado em 2004 em co-autoria com Walter Sinnot-Armstrong (que defendeu a posição ateísta), Craig escreveu:

“Pode muito bem ser o caso de que os males naturais e morais fazem parte dos meios que Deus usa para atrair as pessoas para Seu Reino … Estima-se que 20 milhões de chineses perderam a vida durante a Revolução Cultural de Mao. Cristãos permaneceram firmes no que foi provavelmente a mais abraangente e severa perseguição que a Igreja já experimentou. A perseguição purificou e autoctonizou a Igreja. Desde 1977, o crescimento da Igreja na China não tem paralelos na história. Os pesquisadores estimaram que havia entre 30 e 75 milhões de  cristãos em 1990. [Craig não indica como estes dados foram compilados embora em suas notas de rodapé haja referências a Patrick Johnstone e Operation World. De qualquer forma, a ampla margem de erro destes números é um indício contra sua confiabilidade]. Mao Zedong involuntariamente se tornou o maior evangelista da história.”[1]

Esta alegação, é óbvio, levanta uma importante questão: se o objetivo de Deus era expandir a comunidade cristã na China, poderia ele, em sua onipotência, ter atingido tal finalidade sem as mortes de tantos milhões?

Mas Craig tem uma resposta. No debate com Sinnott-Armstrong, ele escreveu:

 “Nós, como filósofos, somos chamados, não apenas para expressar nossos sentimentos sobre determinado tema, mas para refletir rigorosa e desapaixonadamente sobre o tema. E apesar do inegável impacto emocional do problema do sofrimento, eu estou convencido de que como um problema estritamente racional, intelectual, o problema do mal não constitui uma refutação da existência de Deus. Assim, será útil distinguir entre o problema intelectual do sofrimento e o problema emocional do sofrimento. O problema intelectual diz respeito a como explicar racionalmente a co-existência de Deus e do sofrimento. O problema emocional diz respeito a como suprimir a repugnância emocional que as pessoas dirigem a um Deus que permitiria tal sofrimento. O problema intelectual encontra-se na província do filósofo, o problema emocional compete ao psicoterapeuta.”[2]

Sob uma leitura o mais indulgente possível, a definição de Craig do que ele chama de “problema emocional do mal” aparentemente implica que qualquer pessoa  revoltada com a idéia de que Deus tem de permitir o assassinato brutal de 20 milhões de chineses para alcançar seus objetivos simplesmente precisa de terapia.

Isto é bastante irônico, considerando que Craig frequentemente afirma que Deus é o fundamento de valores morais objetivos. Em um debate com Michael Tooley da University of Colorado at Boulder em 1994, Craig declara de maneira inequívoca: “Deus proporciona a melhor explicação para a existência de valores morais objetivos no mundo. Se Deus não existe, então valores morais objetivos não existem.[3]” Ele ainda diz que “os comandos de Deus não são arbitrários, mas enraizados em sua própria natureza moral. De maneira que tais comandos fluem necessariamente de sua própria natureza…”[4]

Alguém mais gostaria de perguntar ao Dr. Craig: a morte de 20 milhões de chineses diz algo sobre a natureza de Deus? Ficamos com a impressão de que tal Deus é limitado ou cruel.

Craig faz comentários similares sobre a situação em El Salvador. Aqui, passo a pena a Michael Martin:

“De acordo com Craig, sofrimento intenso provoca a aceitação de Deus. Isso explica porque Deus permite que as pessoas sofram. A alegação de Craig é baseada em exemplos de nações contemporâneas, tais como El Salvador, onde, segundo Craig, sofrimento intenso correlaciona-se com o crescimento no cristianismo evangélico.

No entanto, dificilmente isto constitui evidência adequada para a sua afirmação factual generalizada. Em primeiro lugar a amostra de Craig é muito pequena. Para se ter alguma confiança na sua hipótese alguém teria que examinar muitos casos históricos de intenso sofrimento em diferentes períodos históricos e em diferentes culturas e ver se a correlação postulada se mantém. A amostragem teria que incluir, por exemplo,  o sofrimento durante a Peste na Idade Média, o sofrimento infligido sobre os índios americanos pelos colonizadores brancos e pelo Governo dos EUA, e o sofrimento dos judeus durante o Holocausto. Nestes casos, é difícil ver como as hipóteses de Craig poderiam ser confirmadas ou até mesmo o que a confirmação significaria.” [5]

A distinção que Craig faz entre o problema intelectual e o emocional é gravemente defeituosa. A razão para isso é que emoções podem possuir conteúdo cognitivo. Para ilustrar este ponto, imagine que sou convidado a avaliar a vermelhidão de um objeto, mas sou completamente daltônico. Em tal caso, simplesmente não possuo a competência para avaliar corretamente. De maneira similar, para chegar a uma estimativa do significado do sofrimento, devo ter acesso a um tipo particular de dados. Neste caso, não são os dados derivados da ação de fótons sobre os cones e bastonetes de meus olhos, mas o tipo de compreensão empática que nunca pode ser entendido pela razão fria sozinha, desprovida de conteúdo emocional.

O papel das emoções na tomada de decisões confiáveis foi reconhecido até mesmo nos tribunais. Em seu livro Poetic Justice, Martha Nussbaum elucida o papel do que ela chama de “espectador judicioso.” Em seu capítulo intitulado “Emoções racionais”, Nussbaum cita um caso, Woodson v. North Carolina, “[que] havia estabelecido a importância da… emoção simpática de forma eloqüente, insistindo na ligação entre a simpatia e ser tratado como uma pessoa única, com uma história existencial própria.” [6]

Nussbaum, em seguida, cita o acórdão do caso, que envolveu uma potencial sentença de morte, e declara:

“Um processo que não atribui nenhum significado a aspectos relevantes do caráter e aos antecedentes do réu ou às circunstâncias do delito, exclui da consideração, ao fixar a pena de morte definitiva, a possibilidade de atuação de fatores compassivos ou atenuantes decorrentes das diversas fragilidades da humanidade. Ele trata todas as pessoas condenadas por um determinado delito não como seres humanos individuais, mas como elementos de uma massa sem rosto indiferenciada, sujeitos 

à imposição cega da pena de morte.” [7]

Como podemos ver, há boas razões retóricas para Craig fazer essa distinção, porque inúmeros casos de sofrimento humano _ o caso de Josef Fritzl é apenas um exemplo _ são realmente terríveis, e se a sabedoria do coração está autorizada a trabalhar combinada com o conhecimento do cérebro, alguém certamente irá encontrar tais ocorrências desprovidas de qualquer significado global, e terminará concluindo que não há justificação para elas. O próprio Craig escreve: “É importante manter esta distinção [entre os problemas intelectuais e emocionais do mal] clara porque a solução para o problema intelectual tende a parecer árida, insensível e desconfortável para quem está passando por sofrimento.” [8 ]

De fato. Craig nos vê à humanidade como “membros de uma massa anônima e indiferenciada”.


E, de fato, o sofrimento de milhões de pessoas é difícil de compreender. Se podemos ficar aturdidos com o sofrimento de alguém _  digamos, o sofrimento de uma criança inocente _ o problema do sofrimento realmente se instalou em nosso íntimo.

Fiódor Dostoiévski provoca este efeito de forma bastante eficaz em seu grande romance Os irmãos Karamazov, e vários dos adversários que debateram com Craig usaram o romance de Dostoiévski como exemplo; o próprio Craig declarou que, em Dostoiévski “o problema do mal é apresentado … poderosamente.” [9 ] No décimo capítulo do livro, o ateu Ivan discute a existência do mal com seu pio irmão caçula, Aliocha. Ivan relata histórias de abusos horríveis, talvez tão medonhos como o caso de Josef Fritzl. Por exemplo, ele narra o conto sombrio de:

“Uma pobre menina de cinco anos [que foi submetida por seus pais educados] à todas as possíveis torturas. Eles bateram nela, açoitaram-na, chutaram-na, sem saber por quê, até que todo o seu corpo não fosse nada além de contusões; finalmente, atingiram o ápice da sutileza: no frio congelante, eles a trancaram por toda a noite na casinha, porque ela não iria “pedir para se levantar … [Para se aliviar …] no meio da noite (como se uma criança de cinco anos dormindo seu sono angelical pudesse ter aprendido a perguntar naquela idade) _  por isso eles lambuzaram seu rosto com suas fezes e fizeram ingerir seus os excrementos, e foi sua mãe, sua mãe, que o fez! E essa mãe pôde dormir enquanto
sua pobre filhinha gemia a noite toda naquele lugar vil! Você consegue entender que uma pequena criatura, que nem sequer compreende o que lhe está sendo feito, em um lugar vil, no escuro e no frio, bata no seu peito pequeno e tenso com suas mãozinhas e derrame lágrimas angustiadas, suaves, mansas para ‘querido Deus’ para protegê-la, você pode entender tal absurdo?”  [10]

Aliocha, é claro, foi incapaz de responder à pergunta. Mas e Craig? No debate com Tooley, Craig disse:

Nós não estamos em uma boa posição para avaliar a probabilidade de que essa premissa [que Deus não possui razões moralmente suficientes para permitir o mal] seja verdadeira. Tome uma analogia da teoria do caos. Na teoria do caos, os cientistas nos dizem que, mesmo a vibração das asas de uma borboleta pode desencadear processos que poriam em movimento causas que produziriam um furacão sobre o Oceano Atlântico. E, no entanto olhando para aquela palpitante borboleta em um galho, é impossível, em princípio, predizer o resultado desse evento. Do mesmo modo, um mal no mundo, digamos, uma criança morrendo de câncer ou o assassinato brutal de um homem, poderia desencadear uma cascata de efeitos na história tal que que a razão moralmente suficiente pela qual Deus o permitiu pode não surgir até que séculos tenham se passado, ou em outro país.”  [11]

Então a menina trancada no depósito, ou, no caso, Elisabeth Fritzl, trancada em seu calabouço e estuprada repetidas vezes pelo próprio pai, tais eventos podem produzir um bem de magnitude suficiente para justificar estas atrocidades? Deixando de lado sua frieza e insensibilidade (e isso nos lembra novamente por Craig tenta separar o intelectual do emocional no problema do mal), esses argumentos não fazem sentido quando estamos falando de um Deus onipotente. Pois, se o bater de asas de uma borboleta pode iniciar um furacão _ um vínculo causal que, embora misterioso para o homem, deve ser clara e evidente para Deus _  não pode a Divindade alcançar seus propósitos através de outros meios que não o horrível abuso de crianças? Craig chega muito perto de dizer que o sofrimento de tipo descrito acima é necessário. Mas não coloca esta afirmação uma limitação à onipotência divina?

Em seu livro Fé Racional: Verdade Cristã e Apologética, Craig afirma que “se Deus não existe, então a nossa vida não é qualitativamente diferente da de um cão.” Mas que tipo de ser consentiria em tratar um cão da forma descrita acima?

No mesmo livro, em uma seção sobre o valor da vida, Craig escreve:

“O horror de um mundo desprovido de valor [Craig afirma que deve ser o caso se não há Deus] atingiu-me com nova intensidade há alguns anos, quando assisti a um documentário de televisão da BBC chamado “A colheita”. Tratava-se do reencontro de sobreviventes do Holocausto em Jerusalém, onde redescobriram amizades perdidas e compartilharam suas experiências. Uma mulher prisioneira, enfermeira, contou como fizeram dela a ginecologista de Auschwitz. Ela observou que as mulheres grávidas eram agrupadas por soldados sob a direção do Dr. Mengele e abrigadas nos mesmos barracões. Algum tempo se passou, e ela notou que não via mais nenhuma daquelas mulheres. Ela fez perguntas. “Onde estão as mulheres grávidas que foram colocadas naqueles barracões?” “Você não ouviu?” veio a resposta. “O Dr. Mengele as usou para vivisseção”.

Craig continua:

“Outra mulher contou como Mengele tinha ligado seus seios para que não pudesse amamentar seu bebê. O médico queria saber quanto tempo um bebê sobreviveria sem alimento. Desesperada, essa pobre mulher tentou manter seu bebê vivo dando-lhe pedaços de pão molhados no café, mas sem sucesso. A cada dia ele perdia peso, fato que era ansiosamente monitorado pelo Dr. Mengele. Então uma enfermeira veio em segredo dizer a essa mulher e lhe disse: “Eu tenho um jeito de você sair daqui, mas você não pode levar seu bebê com você. Eu trouxe uma injeção de morfina que você pode dar ao seu filho para acabar com sua vida. ” Quando a mulher protestou, a enfermeira foi insistente: “Veja, seu bebê vai morrer de qualquer jeito. Pelo menos, salve você mesma.” E assim aquela mãe tirou a vida de seu próprio bebê. O Dr. Mengele ficou furioso quando soube disto porque perdera sua cobaia, e procurou entre os cadáveres até achar o corpinho descartado do bebê para que ele pudesse realizar uma última pesagem.” [12]

Tal horror quase desafia nossa capacidade de descrição. E mais uma vez, Craig é forçado a dizer que isso aconteceu com um propósito ou sem propósito. Ele quer dizer que Deus é capaz de produzir um bem maior até mesmo através de um tão indizível mal. Mas, novamente, nós simplesmente perguntamos: se Deus é onipotente, ele não poderia ter produzido o seu propósito oculto de alguma outra forma?

Craig frequentemente afirma que o propósito da vida humana não é a felicidade neste mundo, mas “conhecimento de Deus, que acabará por produzir verdadeira e duradoura felicidade.”

Ele continua: “.. O que isto significa é que muitos males que ocorrem nesta vida podem ser completamente inúteis no que diz respeito à produção de felicidade humana. Mas eles podem não ser inúteis no que diz respeito à produção do conhecimento sobre Deus.”  [13]

Aqui, somos novamente lembrados por Dostoiévski:

“Você consegue entender por que esse absurdo é necessário e foi criado? Sem isso, dizem eles, o homem não poderia mesmo ter vivido na Terra, pois ele não teria conhecido o bem e o mal [nem teria conhecido a Deus, presumivelmente]. Quem quer conhecer estes malditos bem e mal a tal preço? Um mundo inteiro de conhecimentos não vale a pena pelas lágrimas que aquela criança derramou para seu “querido Papai do Céu”. Eu não estou falando sobre o sofrimento de adultos, eles comeram a maçã e para o inferno com eles, deixe que o diabo os leve a todos, mas estes pequeninos!” [14]

Na verdade, a idéia de que Deus iria exigir o sofrimento de uma menina a fim de promover o conhecimento de si mesmo é um absurdo, e esse Deus não seria o ser benevolente no qual Craig afirma acreditar.

Em um debate de 1998 com Craig, o professor Edwin Curley, discutindo o exemplo de Dostoiévski, apontou outro problema. Se alguém argumentar que menina de Dostoiévski teve de sofrer (ela é um personagem fictício, mas muito possivelmente baseado em uma pessoa real, e, em qualquer caso, poderíamos facilmente substitui-la por Elisabeth Fritzl), a fim de produzir um bem maior, um problema de justiça surge. Concedendo para fins da discussão que a liberdade humana é um bem maior que justifica uma grande quantidade de sofrimento, Professor Curley declarou:

“Para que o pai tenha a oportunidade de demonstrar a bondade moral, Deus deve dar-lhe a oportunidade de escolher o mal. Você não pode ter a oportunidade de um sem a do outro. E a oportunidade de o pai demonstrar a bondade moral é um bem tão grande que compensa o fato de que ele escolhe mal.
Mas note quem obtém o bem aqui. É o pai. E notem quem sofre o mal. É a menina. Admitamos, para efeito de argumentação, que o benefício compensa o custo. A liberdade é um bem muito grande. Ainda faz alguma diferença quem paga o custo. A liberdade pode ser um grande bem, mesmo um bem tão grande que compensaria o sofrimento realmente horrível. Mas a justiça requer alguma atenção, não apenas para o montante líquido do bem, após a subtração do mal, mas também à maneira como os bens e os males são distribuídos. Algumas distribuições simplesmente não são justas.” [15]

Presumivelmente, Craig não se impressiona com isso. Em um debate com o Dr. Kai Nielsen, Craig disse: “o sofrimento humano inocente provê uma ocasião para aprofundar a dependência e confiança em Deus, tanto da parte de quem padece ou, talvez, daqueles que o rodeiam.”  [16]

O que Craig diz aqui apresenta um grande problema. Com efeito, ele argumenta que a menina de Dostoiévski ou Elisabeth Fritzl tiveram de sofrer para desencadear uma decisão livre em alguém para a versão de Craig do Deus cristão.

Mas isso se conforma a qualquer teoria da justiça? Certamente, podemos perguntar: Deveria Elisabeth Fritzl ter sido confinada em um calabouço por mais de duas décadas? Deveria ela ter sido estuprada por seu pai para aproximar alguma pessoa desconhecida de Deus? Será que a mãe que sobreviveu ao Holocausto, mas que teve que matar seu próprio filho realmente deveria suportar tal angústia para trazer alguém para a posição de Craig? De todas as teodicéias, esta parece ser a mais egoísta e a mais abominável.

Craig afirma com frequencia que o sofrimento é bom para o sofredor, _ essencialmente, que a dor constrói o caráter (isto é, por vezes referido como a teodicéia do aprimoramento espiritual). Por exemplo, ele escreve:

“O fato é que em muitos casos, nós permitimos que a dor e o sofrimento ocorram na vida de uma pessoa, a fim de trazer algum bem maior, ou porque temos alguma razão suficiente para permiti-lo [é claro, nós não somos onipotentes]. Todo pai sabe disso. Chega um ponto em que um pai não pode mais proteger uma criança de cada percalço, e há outros momentos em que a disciplina deve ser infligida sobre a criança, a fim de ensiná-lo a se tornar um adulto responsável. Da mesma forma, Deus pode permitir algum sofrimento em nossas vidas a fim de nos construir ou para nos testar, ou para construir e testar os outros, ou a atingir algum outro fim primário.” [17]

Embora seja verdade que alguma medida de dor pode, no contexto adequado, levar à melhoria _ pense nos membros de um time de futebol suportando dor durante o treinamento no acampamento que depois irá ajudá-los para a ganhar um campeonato _  existem outras formas de dor e sofrimento que, aparentemente, não levam a nada de bom. Alguém estaria sendo pouco mais do que insensível se sugerisse que de alguma forma Elisabeth Fritzl _  ou sua mãe, no caso _  estaria em melhor situação em seu calvário.

Em outra parte, Craig argumenta:

“Se o livre-arbítrio libertário é possível, não é necessariamente verdade que um Deus onipotente pode criar qualquer mundo possível que deseje … Deus ser onipotente não significa que ele pode fazer impossibilidades lógicas, como fazer um quadrado redondo ou fazer alguém escolher livremente fazer alguma coisa. Pois se alguém leva uma pessoa a fazer uma escolha específica, então a escolha já não é livre no sentido libertário. Assim, se Deus concede às pessoas a liberdade genuína de escolher como querem, então é-lhe impossível garantir quais serão suas escolhas livre. Tudo o que ele pode fazer é criar as circunstâncias em que uma pessoa é capaz de fazer uma escolha livre e, em seguida, por assim dizer, recuar e deixar a pessoa fazer essa escolha. Agora, isso implica que existem mundos que são possíveis em si mesmos, mas que Deus é incapaz de criar … Suponha-se, então, que, em cada mundo possível, onde Deus cria criaturas livres algumas dessas criaturas livremente optam por fazer o mal. Nesse caso, são as próprias criaturas que trazem o mal, e Deus não pode fazer nada para impedi-las, além de se recusar a criar qualquer de tais mundos. Assim, é possível que todo mundo possível para Deus, que contém criaturas livres é um mundo com o pecado e o mal. “ [18]

(Note-se que, na mesma obra, Craig, seguindo Alvin Plantinga, afirma que “males naturais” _ terremotos, tsunamis, e similares _ poderiam ser o resultado de atividade demoníaca. Na medida em que tal superstição grosseira mereça ser levada a sério, vale a pena apontar que, se esse argumento está a ser proposto, há pelo menos alguma necessidade de provar a existência dos demônios; mais adiante no texto Craig admite que a idéia de males naturais serem causados por demônios é “ridícula”). [19]

No entanto, uma questão importante tem sido levantada pelo apóstata e historiador do cristianismo Bart Ehrman. Ehrman pergunta se os cristãos pensam que terão livre-arbítrio no céu. Esta é uma questão de fundamental importância. Pois, se o cristão responder “sim”, então é possível para Deus criar um reino em que os humanos têm livre-arbítrio, e mesmo assim eles iriam escolher o bem em todas as ocasiões. Por outro lado, se os seres humanos não mais terão livre-arbítrio no paraíso, então, aparentemente,  Deus não se importa tanto com o livre-arbítrio em primeiro lugar.[20] Assim, o argumento de Craig segundo o qual Deus tem de criar um mundo que inclui o mal e o sofrimento, se ele também deve criar um mundo de criaturas livres, é exposto como infundado.

No que diz respeito ao livre-arbítrio, uma objeção final me vem à mente. Às vezes os seres humanos fazem escolhas livres com a melhor das intenções, mas com resultados trágicos. Craig pode argumentar que a felicidade humana não é o propósito da vida, mas certamente um Deus benevolente teria alguma consideração pela felicidade humana. Considere, então, o número de mulheres nas décadas anteriores que tomaram a droga talidomida como tratamento para as náuseas da gravidez. A droga foi administrada com a melhor das intenções, mas os resultados incluíram defeitos congênitos chocantes. Aqui, ao que parece, Deus poderia ter fornecido informações úteis e oportunas que teriam evitado muito sofrimento, sem violar o livre-arbítrio. Mais uma vez, Craig provavelmente afirmaria que pode haver algum propósito desconhecido para que isso aconteça _ uma teodiceia, ao que parece, deve se alicerçar em outra _  mas em última análise, tudo o que podemos fazer é supor, pois tal proposição não pode, de forma alguma, ser testada ou demonstrada.

Assim, a partir do que foi exposto acima, podemos concluir que as tentativas do Dr. Craig para explicar o mal e o sofrimento humano em conjunto com a existência do Deus do teísmo tradicional estão muito aquém do meramente satisfatório.

[1] Craig, William L. and Walter Sinnott-Armstrong. God? A Debate Between a Christian and an Atheist. Oxford and New York: Oxford University Press, 2004, 121.

[2] Ibid, 112.

[3] Tooley, Michael. “Debate on the Existence of God.” http://spot.colorado.edu/~tooley/Debate%20with%20Craig.html (accessed 3/25/2010).

[4] Ibid.

[5] Martin, Michael. “Human Suffering and the Existence of God.” 1997. http//www.infidels.org/library/modern/michael_martin/suffering.html (accessed 4/3/2010).

[6] Nussbaum, Martha. Poetic Justice: The Literary Imagination and Public Life. Boston: Beacon Press Books, 1995.

[7] Ibid.

[8] Craig, William L and J.P. Moreland. Philosophical Foundations for a Christian Worldview. Downers Grove, Illinois: Intervaristy Press, 2003.

[9] Ibid, 551.

[10] Dostoevsky, Fyodor. The Brothers Karamazov. Richard Pevear and Larissa Volokhonsky. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1990, 242.

[11] Tooley, Michael. “Debate on the Existence of God.”

[12] Craig, William L. Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics. 2 ed. Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1994, 66-67.

[13] Tooley, Michael. “Debate on the Existence of God.”

[14] Dostoevsky, Fyodor. The Brother’s Karamazov, 242.

[15] Craig, William L. “The Craig-Curley Debate: The Existence of the Christian God.” http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/craig-curley01.html (accessed 3/29/2010).

[16] Craig, William L. “The Craig-Nielsen Debate: God, Morality and Evil.” http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/craig-nielsen.html (accessed 3/27/2010).

[17] Craig, William L. and J.P. Moreland. Philosophical Foundations, 539-540.

[18] Ibid, 539.

[19] Ibid, 539-541.

[20] Ehrman, Bart D. God’s Problem,: How the Bible Fails to Answer Our Most Important Question—Why We Suffer. New York: Harper Collins, 2008.

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