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Posts Tagged ‘Intolerância’

O Cristianismo surgiu como um movimento social/revitalicionista exatamente como vários anteriores e posteriores a ele, e seguiu um processo de evolução gradual absolutamente padronizado. Ele nasceu num momento de crise cultural, um momento no qual vieram à luz várias outras reações, muitas vezes bastante similares – a conquista da Palestina pelos romanos, e antes disso a introdução da cultura grega ou helenística. A experiência foi profundamente desnorteante para os antigos judeus; pessoas estrangeiras, um poder estrangeiro, idéias estrangeiras, deuses estrangeiros sobejavam, abundavam. Como em qualquer situação similar, houveram reações distintas e concomitantes. Já no século anterior ao de Jesus, o movimento político-militar dos Macabeus organizou um exército de libertação nacional no ano 160 AEC e reconquistou Jerusalém em 164 (este evento, a propósito, é a origem da tradição do Hanukkah). Mas o sucesso dos macabeus foi efêmero, e sob a autoridade romana uma série de adaptações judaicas apareceram consecutivamente. Os assim chamados saduceus eram os religiosos “conservadores” ou “elitistas” que buscavam preservar o poder sacerdotal tradicional, mesmo se isso significasse colaborar com os romanos. Os fariseus eram comparativamente inovadores que procuravam proteger a religião modificando-a: seu objetivo era “tornar a fé de Israel relevante para as situações cotidianas e para as novas circunstâncias sob o governo romano e os perigos da helenização”. Paralelamente, eles mantiveram algumas doutrinas, tais como a ressurreição final e a existência de anjos, que os judeus mais conservadores declararam ser meras inovações”[7](pontos de vista agora “tradicionais” no Cristianismo). Fora do establishment, outros movimentos independentes irromperam, se espalharam e se extinguiram. Os essênios constituíram um destes movimentos, uma espécie de grupo separatista que retirou-se para o deserto para escapar à odiosa influência alienígena. Outro foi o dos politicamente engajados zelotes que defendiam a revolta armada; ao passo que os sicários promoviam ousados assassinatos diários de oficiais romanos e colaboradores judeus.

Foi neste ambiente que o Cristianismo surgiu pela primeira vez. Ou, mais acuradamente, o que primeiro surgiu não era o “Cristianismo” mas um movimento de revitalização tipicamente irrisório que foi, com justiça, chamado de o Movimento de Jesus; em seu livro The Jesus Movement, Ekkehard e Wolfgang Stegemann definem-no como “a igreja primitiva de Jerusalém e as ‘igrejas da Judéia’ mencionadas pelo apóstolo Paulo.[8] Gerd Theissen, estudioso do Novo Testamento, data o período do Movimento de Jesus aproximadamente entre os anos 30 e 70 da Era Comum[9]

Há vários sentidos em que o “Cristianismo” não apareceu naqueles anos ou por vários anos ainda. O primeiro é que os membros “não tinha intenções de fundar uma nova ‘igreja‘” e em vez disso “permaneceram inteiramente dentro da matriz do Judaísmo.[10] Justo Gonzalez concorda: “Os cristãos primitivos não acreditaram estar fundando uma nova religião. Eles eram judeus, e… a mensagem cristã para os judeus não era que eles deveriam abandonar seu judaísmo. Ao contrário, agora que a Era Messiânica começara, eles deveriam ser judeus melhores[11]. Consequentemente, o Movimento de Jesus preservou a maior parte dos elementos do Judaísmo que herdaram (elementos por sua vez mesclados ao longo de uma história milenar – sobretudo a idéia messiânica), assim como os outros movimentos e profetas que perambulavam pela região, como Judas, Jônatas e Teudas[12].

Os próprios evangelhos são um segundo sentido em que o “cristianismo” fracassou em se materializar nesse período primitivo. O nascimento do Cristianismo foi múltiplo, sendo suas origens narradas em quatro versões diferentes (oficiais) que não são inteiramente compatíveis. Pior ainda, à medida em que as escrituras do movimento gradualmente tomavam forma, vários candidatos tiveram sua inclusão no cânone vetada, tais como os evangelhos “infantis” de João e Tomás; os assim chamados Evangelhos judeo-cristãos dos Hebreus, dos Nazarenos e dos Ebionitas; os evangelhos de Tomás, Pedro, Nicodemo, Maria, Filipe, Judas e Bartolomeu; os evangelhos “gnósticos”; e uma série de outras obras como o Diálogo do Salvador, o Apocalipse de Pedro, o Apócrifo de João, o Evangelho Copta dos Egípcios, e assim por diante. O Novo Testamento (ou Testamentos, pois existem múltiplas versões do cânone oficial em diferentes tradições cristãs) é (são) um exemplo clássico de história sendo escrita, ou construída, pelo vencedor. Pior ainda, Elaine Pagels, vencedora do National Book Award em 1979 por seu livro Os Evangelhos Gnósticos, construiu um caso convincente interpretando cada evangelho canônico como um produto condicionado pelo momento histórico e pela perspectiva de composição particular de cada um de seus autores; cada um deles reflete a política de seu período ao retratar Marcos em conciliação com os romanos, Mateus queixando-se dos fariseus, Lucas (o único evangelista gentio) escrevendo para “os gentios convertidos ao Cristianismo que se consideram os verdadeiros herdeiros de Israel,” e João apartando-se completamente da comunidade judaica corrupta[13].

Um terceiro e último problema – que permanece o problema definidor para o Cristianismo unificado – foi a diversidade de opiniões e atividade nas diversas comunidades cristãs primitivas locais. Esta é a questão das epístolas de Paulo, bem como de suas viagens, pois o movimento desarticulado tomou diferentes rumos em locais diferentes. Paulo batalhou para impor uma certa padronização, uma certa ortodoxia sobre as congregações discrepantes. Isto é especialmente significativo para o futuro do Cristianismo porque Paulo jamais se encontrou com ou ouviu Jesus pessoalmente, e as cartas e os esforços de pregação de Paulo ocorreram antes da composição dos Evangelhos. Ou seja, as epístolas paulinas são efetivamente os mais antigos registros documentais do movimento, portanto de várias maneiras ele moldou o Movimento de Jesus tanto quanto ou até mais do que o próprio Jesus. Talvez mais significativamente, como Theissen nos lembra, Paulo quase nunca cita Jesus porque ele nunca conheceu Jesus e porque as palavras de Jesus ainda não haviam sido registradas[14]. A principal contribuição de Paulo foi a criação do que Robert Wright, num cauteloso artigo publicado recentemente, chamou de “um bom Jesus”, um professor gentil cuja única “doutrina” foi o “amor” – uma concepção oportunista que emergiu “da interação entre as ambições que impulsionavam Paulo e seu ambiente social”[15]. Resumindo, Paulo foi burilando uma mensagem que ressonaria junto a, e incluiria, uma audiência mais ampla, gentis e judeus igualmente, “concedendo ao pragmatismo a primazia sobre o princípio escritural” (exceto pelo fato de que ainda não havia nenhuma escritura!).

Se o primeiro estágio do que veio a ser conhecido como Cristianismo foi o Movimento de Jesus, o estágio seguinte foi a igreja helenística, da qual Paulo foi o maior arquiteto, ele próprio um judeu helenizado (influenciado pela cultura grega). O Movimento de Jesus fracassou completamente na tarefa que originalmente se propôs, de reformar o Judaísmo e efetuar qualquer mudança real na fortuna política e espiritual dos judeus. O Movimento de Jesus basicamente desapareceu em Israel, deslocando-se para centros mais urbanizados e cosmopolitas no Oriente Médio e no Império Romano – e, segundo Gonzalez, sua sobrevivência deve-se parcialmente a sua mudança para estes locais e por não mais ser nem reivindicar ser um fenômeno especificamente judaico. Fora dos limites do paroquial universo do judaísmo, a igreja embrionária deparou-se com três importantes e entrelaçadas fontes de influência. A primeira foi o sistema social romano que praticava explicitamente o sincretismo religioso, tolerando e até mesmo encorajando a incorporação de toda sorte de práticas e idéias religiosas. A segunda foi um universo inteiro já constituído de “cultos de mistérios” bastante semelhantes, vários deles girando ao redor de semideuses que morreram e voltaram à vida como salvadores; não há nada de exclusivo ou de original acerca do tema principal do Cristianismo. A terceira foi a cultura dominante greco-helenística com suas poderosas tradições intelectuais e filosóficas. Foi neste ambiente que o “Cristianismo” evoluiu a partir do simples Movimento de Jesus, e foi para tais pessoas que as rédeas do Cristianismo foram passadas com as inevitáveis, duradouras e já conhecidas consequências.

O Cristianismo somente começou a crescer de verdade quando o Movimento de Jesus entrecruzou com a cultura helenística; o Cristianismo é uma religião no mínimo tão greco-romana quanto judaica. A igreja emergente encontrou dois aliados específicos no mundo helenístico: o sistema filosófico de Platão e a filosofia tardia do Estoicismo. Como Gonzalez apropriadamente observa, o Platonismo já havia questionado o panteão pagão e postulado um “reino superior” de verdade última, bem como uma alma imortal que era superior ao corpo inferior. O estoicismo foi em si uma adaptação do pensamento grego ao caráter fragmentado e urbano da vida contemporânea, sustentando a idéia de uma lei natural universal com a qual os humanos devem se harmonizar e à qual devem se submeter; o sentido da vida era a superação das paixões e o cultivo da “coragem, do discernimento moral, do auto-controle e da justiça”[16]. “Tudo isto vários cristãos primitivos acharam atraente e proveitoso”, e “embora à primeira vista estas tradições filosóficas fossem utilizadas para interpretar a fé aos não-convertidos, elas terminaram por influenciar o modo como os cristãos compreendiam sua própria fé.”[17]

Sob o fascínio exercido pela lei e pela sociedade romana e pela filosofia grega, um problema inevitável surgiu: quais exatamente eram as crenças e práticas da nova religião? Estas questões nunca foram solucionadas, em parte porque não havia necessidade de resolve-las – a igreja sendo relativamente pequena e o fim dos tempos estando supostamente próximo – e parcialmente porque a tradição intelectual de levantar perguntas desse tipo não existiu até que o Cristianismo absorvesse do espírito filosófico grego. Agora veio a primeira grande época de debates e controvérsias cristãs e, previsivelmente, de dissidências. Uma das questões era a relação entre a cultura cristã e as não-cristãs: alguns, como Tertuliano, opunham-se às influências pagãs e ainda assim evidenciavam essas influências envolvendo-se em debates e disputas escritas com descrentes, como na obra do próprio Tertuliano Prescrição Contra os Hereges. Outros, como Justino e Taciano, admiraram e valorizaram a cultura greco-romana vendo nela as raízes da crença judeo-cristã.

Uma outra e ainda mais problemática questão era o sentido e a interpretação exata das crenças cristãs: o próprio Jesus não escreveu nada e proferiu diversas coisas enigmáticas, e Paulo desenvolveu apenas alguns aspectos da doutrina – e mesmo estes apenas em certas direções. Havia muito para resolver e diversas soluções possíveis e disponíveis. Várias destas questões giravam em torno da identidade de Jesus e da leitura correta das (recentemente compiladas e de autoria obviamente humana) escrituras. Uma das mais antigas e mais persistentes visões era o gnosticismo, que afirmava que um grupo de privilegiados (naturalmente, os próprios gnósticos) possuíam um conhecimento esotérico profundo (gnosis é o termo grego para “conhecimento”, geralmente implicando sabedoria ou entedimento profundos) não disponível aos não-iniciados. O próprio gnosticismo era um agregado de movimentos e pontos de vista, mas todos compartilhavam uma noção dualista da matéria em oposição ao espírito e a noção do progresso em direção à pureza espiritual pelo conhecimento secreto (isto é, não escritural). Duas alegações heterodoxas principais do gnosticismo eram que Deus possui uma série de “emanações” ou “filhos”, incluindo uma filha Sofia (sabedoria), e que Jesus, sendo um espírito puro e perfeito, não possui um corpo humano e assim nunca esteve realmente encarnado. A ortodoxia em desenvolvimento sustentava que Jesus era ao mesmo tempo corpo e espírito, homem e Deus.

Esta polêmica acerca da humanidade e da divindade de Jesus foi um dos problemas mais incômodos para os cristãos primitivos e uma fonte de várias, se não da maioria, de suas heresias. Sabelius ensinou no segundo século que Jesus, assim como o Pai e o Espírito Santo, eram três “modos” do único Deus, tornando-o completamente divino e não humano, e se Jesus também não era (e igualmente?) humano, então ele não sofreu e morreu, o que contraria o entendimento ortodoxo da salvação. O docetismo (do termo grego dokesis, “parecer”) insistiu que Jesus apenas pareceu ser humano, mas que seu corpo físico na verdade era uma ilusão; no outro extremo do espectro, o “adocionismo” mantinha que Jesus era um mero homem que foi adotado por Deus, ou na concepção ou no batismo. A heresia de Marcião foi tanto mais radical como mais eficaz, pois ele na verdade concebeu o Deus bíblico Yahweh/Jehovah como um ser imperfeito ou talvez até mesmo malévolo que não era o Pai Supremo; o Deus acima de Yahweh/Jehovah era perfeitamente bom e o pai de Jesus. Por conseguinte, Marcião montou seu próprio cânone (antes que o Novo Testamento “oficial” fosse estabelecido) que incluía apenas o evangelho de Lucas e as epístolas paulinas. O mais alarmante de tudo, Marcião organizou sua própria igreja com sua própria liderança como uma alternativa séria à igreja “católica” nascente.

A lista de heresias primitivas poderia continuar e tem sido bem pesquisada. Montanus ofereceu uma forma de Cristianismo encorajando o dom da profecia e os estados extáticos e, obviamente, colocando as profecias montanistas acima das bíblicas e até mesmo acima da vida e dos ensinamentos de Jesus. Praxeras sustentou uma posição às vezes chamada de patripassianismo, segundo a qual Deus como pai sofreu a crucificação, já que Deus as vezes assume a forma de pai, às vezes a de filho, às vezes a de espírito. Pelágio sugeriu que o pecado original não era uma mácula eterna e indelével da natureza humana (de forma que os humanos poderiam ser bons sem Deus), ao passo que os euquitas ou messalianos defendiam que a essência da trindade era perceptível aos sentidos e que a salvação poderia ser obtida pela oração apenas, sem a igreja ou seus rituais e sacramentos. Dualismo extremos como o maniqueísmo e o mandeísmo opunham a luz (geralmente um princípio esiíritual) às trevas (geralmente o corpo e o mundo material). De qualquer maneira, uma das heresias mais resistentes foi o arianismo, proposto por Ário no começo do quarto século, que afirmou uma forma particularmente estrita de monoteísmo tal que Jesus não poderia ser divino (somente Deus era divino) e que Jesus não existira eternamente com Deus mas havia sido criado recentemente por Deus.

Controvérsias cristológicas deste tipo são irrelevantes, até mesmo ridículas, para não-cristãos, mas estes eram os assuntos que colocavam em risco as almas dos homens na igreja helenística. Estas questões foram supostamente respondidas na terceira geração das espécies cristãs, a igreja imperial. Quando o imperador romano Constantino converteu-se à nova fé e autoproclamou-se seu principal intérprete e mediador, várias destas controvérsias foram alegadamente encerradas por decreto ou maioria de votos. O Concílio de Nicéia em 325, por exemplo, adotou o credo ou profissão de fé que foi considerado normativo – Jesus foi “gerado, não criado” e “de uma substância (o termo técnico é homoousia, para “mesma-substância”)- e qualquer um que continuasse a acreditar que Jesus era “de uma substância diferente” ou que “antes de ser gerado Ele não era” (isto é, que Jesus não existia “no começo” ao lado de Deus) era “anatematizado” pela igreja oficial.

Os doutores da igreja, naturalmente, fracassaram em impedir a evolução do Cristianismo, assim como a própria conversão imperial contribuiu para evoluções posteriores. Uma das razões é que Constantino ilustra como o Cristianismo não tanto substituiu as religiões anteriores como na verdade foi erigido sobre elas: o imperador nunca abandonou sua religião pagã, permanecendo o sumo sacerdote do culto romano e instituindo o primeiro dia da semana, o dia pagão dedicado a honrar o Sol Invicto – ou “Dia do Sol” (“sun-day” em inglês) – como o Sabbath do Cristianismo. A elevação do Cristianismo ao posto de religião oficial pôs termo às perseguições e portanto à subcultura do martírio que floresceu sob a opressão; Tertuliano, entre outros, insistiu que não havia outro meio de alcançar a salvação exceto pelo derramamento do próprio sangue cristão. Uma vez no poder, os cristãos abandonaram a atitude. Outra atitude que perdeu sua razão de ser foi a oposição ao serviço militar: os cristãos primitivos tinha muitas vezes recusado (ou sido proibidos de) servir no exército sob a premissa política de que tal obrigação exigia a veneração do imperador bem como sob a premissa espiritual de que matar era errado. Mas a objeção cristã à guerra foi rapidamente abandonada quando a religião alcançou a primazia política; com efeito, “a prática dos cristãos primitivos foi a tal ponto revertida por volta dos princípios do quinto século que sob Teodósio II aqueles maculados pela prática de rituais pagãos foram excluídos do exército – somente cristãos poderiam servir”[18]. A adesão cristã à guerra alcançou seu clímax nas Cruzadas (“guerras da cruz”) nos séculos 11 e 12, com, literalmente, batalhões de monges-guerreiros como os Cavaleiros Templários causando estragos na Terra Santa porque Deus lo volt – “Deus assim o quis”.

No período imperial da igreja, se a ortodoxia ainda não estava firmemente estabelecida, pelo menos diversos dos modelos que se transformariam na Igreja Católica estavam instituídos: “A adoração cristã começou a ser influenciada pelo protocolo imperial”[19], desde as luxuosas e paramentadas indumentárias clericais até as catedrais ricamente ornamentadas e os rituais complexos. O Cristianismo não somente apropriou-se de formas de domínio político-secular como também contribuiu para a estabilidade deste último: a religião “tornou-se cada vez mais o cimento social do estado totalitário da antiguidade tardia”[20]. Isto incluiu censurar os inimigos do Estado-Igreja, e estes inimigos incluíam não somente impérios rivais e hordas de bárbaros como também hereges que desafiaram a ortodoxia e a unidade do Estado-igreja. O Concílio da Calcedônia (380) tornou a heterodoxia um crime punível pelo Estado (a igreja muitas vezes delegou seu trabalho sujo às autoridades seculares). Subsquentemente, “a intolerância religiosa logo se tornou um princípio cristão”:

No período de 380 a 395, os éditos imperiais privaram todos os hereges e pagãos do direito de exercer sua religião, expulsou-os dos cargos civis, e os sujeitou à severas penalidades, confiscos de propriedades, exílio e, em certos casos, à morte. Por volta de 435, haviam 66 leis contra as heresias cristãs além de várias outras contra os pagãos. O objetivo da perseguição foi converter os hereges e os pagãos, estabelecendo assim a uniformidade.[21]

Mas nem mesmo a execução do bispo Prisciliano da Espanha e outros seis em 385 foi capaz de impedir a continuidade da evolução do Cristianismo.

Quando o império terminou, o mesmo não ocorreu com a igreja imperial; em vez disso, de certa forma ela foi libertada, mas também foi alterada pelo influxo de “bárbaros” e sua ascensão ao poder político real. Várias tribos não-romanas (godos, vândalos, etc.) foram cristianizadas, mas o cristianismo também foi barbarizado: doutrinas de choque como o inferno foram realçadas e enfatizadas para apelar às mentes menos sofisticadas. A Igreja Católica também se autoproclamou uma fazedora de reis, outorgando-se o direito de coroar líderes de Estado como Charlemagne. E o “papado”, sob alguns pontos de vista nada além do episcopado de Roma, terminou por se ver como a encarnação de Jesus na terra, o “vigário de Cristo”, a sede global da autoridade cristã.

Outros bispos, entretanto, não necessariamente viram as coisas dessa forma. Para alguns, cada bispo detinha o mesmo poder que os outros, e as asserções de preeminência foram apenas um acréscimo às divisões entre a igreja Católica ou “Ocidental” ou “Latina” e outras igrejas “orientais”. As igrejas egípcias e etíopes há muito matinham uma identidade local distinta, e a igreja na antiga capital (Constantinopla ou Bizâncio) encontrou-se em atritos crescentes com Roma acerca de várias questões, desde a autoridade papal até o uso de imagens na adoração e o celibato clerical. A Igreja Bizantina (ou Oriental ou Ortodoxa) também conduziu suas próprias atividades missionárias, incluindo territórios na Rússia e na Europa Oriental. Em 1054 a Igreja Romana excomungou a Igreja Bizantina, criando o primeiro cisma permanente ou especiação no Cristianismo europeu. Naturalmente, tanto à época como agora a Igreja Ortodoxa é na verdade uma família de igrejas “nacionais” (Ortodoxa Grega, Ortodoxa Russa, Ortodoxa, Ortodoxa Letã, etc. ), um conjunto permanente de subespécies do Cristianismo.

À medida em que a igreja imperial dava lugar à igreja medieval, não havia nenhuma Igreja mas apenas igrejas. A situação jamais se reverteria como na verdade somente se agravaria, acompanhando o fluxo e o refluxo das seitas, cismas, movimentos e heresias. Dentre os que desafiaram a unidade do cristianismo ocidental podemos citar

  • Peter Waldo e os Waldenses (1100s-1340s);
  • Os Cátaros ou Albigensianos (1000s-1300s) contra os quais a Santa Inquisição foi amplamente dirigida;
  • John Wycliffe e os Lolardos (1300s);
  • Os Irmãos do Espírito Livre (1300s);
  • Jan Huss e os Hussitas (1400s), que empreenderam uma longa e dispendiosa guerra contra a Igreja Católica;
  • Os Huguenotes (1500s);
  • Os Protestantes, sobretudo os Luteranos que seguiram Martinho Lutero (1518) e então os Calvinistas de João Calvino, mais tarde seguidos por George Fox e os Quacres ou Sociedade dos Amigos, o Rei Henrique VIII e os Anglicanos, e vários, vários outros grupos pitorescos como os Faladores, os Niveladores, os Anabatistas, ad infinitum – estes grupos muitas vezes dividindo-se em em subrupos e sub-subgrupos.

(Continua…)

Notas.

7. Justo L. Gonzalez, The Story of Christianity Volume I: The Early Church to the Dawn of the Reformation (New York: HarperOne, 1984), 10.

8. Ekkehard Stegemann and Wolfgang Stegemann, The Jesus Movement: A Social History of Its First Century (Minneapolis: Fortress, 1999), 1.

9. Gerd Theissen, Sociology of Early Palestinian Christianity (Philadelphia: Fortress, 1978), 1.

10. Ibid., 17.

11. Gonzalez, The Story of Christianity, 31.

12. Theissen, Early Palestinian Christianity, 60.

13. Elaine Pagels, The Origin of Satan (New York: Random House, 1995), 89.

14. Theissen, Early Palestinian Christianity, 115.

15. Robert Wright, “One World, Under God,” Atlantic Monthly, April 2009.

16. Gonzalez, The Story of Christianity, 17.

17. Ibid., 16–17.

18. Roland Bainton, Christian Attitudes Toward War and Peace: A Historical Survey and Critical Evaluation (New York: Abingdon, 1960), 88.

19. Gonzalez, The Story of Christianity, 125.

20. Theissen, Early Palestinian Christianity, 119.

21. Leonard W. Levy, Blasphemy: Verbal Of fense against the Sacred, from Moses to Salman Rushdie (New York: Alfred A. Knopf, 1993), 44.

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