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Posts Tagged ‘Islamismo’

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Autor: Theodore Dalrymple (aka Anthony M. Daniels)

Fonte: Anything Goes (Nashville: New English Review Press, 2011), págs. 100-105

[Texto original também disponível aqui: http://www.newenglishreview.org/custpage.cfm?frm=7240&sec_id=7240]

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…o socialismo não é apenas uma questão dos operários ou do chamado quarto Estado, mas é predominantemente a questão do ateísmo, da encarnação atual do ateísmo, a questão da Torre de Babel construída precisamente sem Deus, não para alcançar o céu a partir da terra, mas para fazer o céu descer à terra.

Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov (1880)

Em minha juventude (na qual incluo os primeiros anos de minha vida adulta), li muita filosofia. Eu pegava livros de metafísica com uma excitação que não sou mais capaz de recapturar, e isso me intriga completamente; na verdade, parece-me algo vagamente ridículo. Contudo, ainda não consegui resolver se desperdicei ou não meu tempo. Afinal, eu era um estudante de medicina, não alguém se preparando para ser um intelectual. Duvido que a filosofia tenha me tornado uma pessoa melhor, e duvido ainda mais que tenha me tornado um médico melhor, mas suponho que seja possível que tenha me tornado um escritor melhor, o que definitivamente não é a mesma coisa.

Naqueles dias, a União Soviética avultava-se ameaçadora na imaginação de todos. Ela fazia o papel de rufião na escadaria da civilização ocidental, ou de uma presença ameaçadora no leste. E isso significava que, para qualquer um que desejasse entender o mundo, parecia necessário mergulhar de cabeça no marxismo (na verdade, era mais importante conhecer a história da intelligentsia russa desde a época de Nicolau I do que ler Marx), já que a URSS afirmava ser uma sociedade fundada em princípios marxistas.

Os autores marxistas nunca foram famosos pela clareza ou elegância na exposição de suas ideias. Na verdade, a clareza era um valor por eles desprezado, pois a natureza dialética do mundo seria intrinsecamente difícil de compreender, e portanto de expressar. Para os marxistas, clareza seria sinônimo de simplificação ou, ainda pior, de vulgarização. A clareza seria a serva da falsa consciência que desviava os trabalhadores de seu destino revolucionário.

Do mesmo modo que com a filosofia, não estou certo de que meus esforços para compreender o marxismo tenham sido um completo desperdício de um precioso tempo que eu poderia e deveria ter empregado melhor. De qualquer maneira, quando a União Soviética entrou em colapso, não graças a meus esforços para compreender o marxismo, eu pensei, ‘Bem, pelo menos nunca mais precisarei gastar minhas energias tentando me desvencilhar de contrassensos ideológicos novamente se eu quiser compreender o que estiver se passando.’

Como eu estava errado! Indo direto ao ponto, encontrei-me lendo sobre o Islã, um assunto de grande interesse para os acadêmicos, sem dúvida, pois nada que seja humano deixa de lhes despertar o interesse, e, naturalmente, porque o Islã foi a base de grandes civilizações no passado; mas não (em minha opinião) um assunto digno de estudo por quaisquer verdades internas ou novas que se pudesse esperar que me trouxesse. Não; descobri-me lendo sobre o Islã porque ele repentinamente emergiu como o próximo totalitarismo em potencial.

Durante minhas leituras, descobri-me oscilando como um pêndulo entre considerar o Islã como uma uma ameaça verdadeiramente séria, e não considera-la com seriedade de jeito nenhum. As razões para leva-lo a sério eram que uma ampla parcela da humanidade é muçulmana; que uma minoria violenta e agressiva ganhou proeminência dentro desta população com uma aprovação aparentemente ampla, embora em grande parte passiva, e que as lideranças dos países ocidentais mostravam-se muito fracas e pusilânimes em face deste, ou de qualquer outro, desafio. As razões para não levar o Islã a sério eram que, no mundo contemporâneo, ele é intelectualmente irrisório; que o desequilíbrio na balança de poder entre o resto do mundo e o mundo islâmico parecia estar aumentando em vez de diminuindo; e que por trás de toda balbúrdia sobre a posse exclusiva da verdade única, universal e divinamente predestinada para o homem, se escondia a ansiedade de que todo o edifício do Islã, embora robusto, era extremamente frágil, o que explicava por que a livre investigação é tão limitada nos países islâmicos. Havia uma consciência subliminar – e talvez nem sempre subliminar – de que o livre debate histórico e filosófico poderia rapida e fatalmente solapar o domínio do Islã sobre várias sociedades. O fundamentalismo seria, portanto, uma manifestação de fraqueza, e não de força.

Recentemente, li um dos livros mais conhecidos de Sayyid Qutb, Milestones. Naturalmente, não sendo um falante da língua árabe, eu confiei na acurácia da tradução. Qutb, que em 1966 foi enforcado por Nasser, o nacionalista secularizante, por supostamente planejar a derrubada do governo, foi um dos mais influentes pensadores muçulmanos do século XX. Ele não começou a vida como islamita, mas tornou-se um parcialmente em reação ao breve período em que residiu nos Estados Unidos. Ele ficou aterrorizado pelo que viu como a lassidão moral dessa sociedade (embora sua estadia tenha ocorrido numa época que, em retrospecto, é considerada pelos conservadores morais como um tempo de grande e exemplar renúncia pessoal, pelo menos em comparação com a atmosfera moral de hoje). Ele foi um homem culto, e estava longe de ser ignorante. Ele não negava, por exemplo, a contribuição que a Europa (e a América, que ele considerava como parte da Europa) dera: falando do Renascimento e do passado recente, ele disse:

Esta foi a era durante a qual o gênio da Europa criou suas maravilhosas obras na ciência, na cultura, na lei e na produção material, em virtude das quais a humanidade tem progredido até grandes picos de criatividade e conforto material.

Ele não esperava que o mundo muçulmano se equiparasse ao mundo europeu em prosperidade ou poder a curto prazo, mas isto não o preocupava. Como vários intelectuais de uma sociedade intelectual e materialmente atrasada, pelo menos em comparação com uma mais rica e avançada, ele se consolava com a superioridade espiritual de sua própria sociedade, ao menos em potencial. (Na verdade, ele também era altamente crítico das assim chamadas sociedades muçulmanas, que ele criticava por não serem islâmicas o suficiente e por buscarem o falso deus da ocidentalização.)

Curiosamente, contudo, o pensamento de Qutb guarda vários paralelos com o marxismo. Onde Marx tem a Inevitabilidade Histórica, Qutb tem a Lei Divina. Marx, vocês se lembram, divisava um tempo em que o Estado terá sido superado, e a história, chegado ao fim. Na visão de Marx, o poder político terá se dissolvido, e a exploração do homem pelo homem terá cessado, substituída pela mera administração das coisas. (Que qualquer pessoa minimamente inteligente possa alguma vez ter acreditado em tal coisa me atordoa.) Na visão de Qutb, todo poder político terá se dissolvido, substituído pela obediência espontânea do homem à lei de Deus. Assim como a administração das coisas na utopia de Marx não conferirá poder aos administradores, presumivelmente porque tudo será tão abundante que ninguém se sentirá tentado a se apropriar de uma quantidade de bens maior do que a possuída por seu próximo, na utopia de Qutb ninguém terá que interpretar a lei e obter poder por faze-lo. A lei de Deus será tão evidente quanto as coisas serão abundantes na sociedade sem classes de Marx.

Tanto Marx como Qutb expressam a ideia de que, sob o novo desígnio, o homem se tornará mais humano, menos animal. Pessoalmente, sempre achei este tipo de pensamento um insulto assombrosamente arrogante a todas as pessoas que viveram antes de quem o concebeu: a humanidade realmente precisou esperar por Marx ou Qutb antes de se tornar verdadeiramente humana?

Marx entendeu que a sociedade sem classes não surgiria pela mera pregação do socialismo, como se fosse apenas uma teoria ou exigência ética. Seria necessário violência. De maneira similar, Qutb nega que o mundo se tornará islâmico apenas pela pregação da palavra de Deus. Ele se refere ao período que Maomé passou em Meca, quando o Profeta não recorreu às armas. Isto, ele diz, foi meramente tático; teria sido impossível, em termos práticos, impor seu domínio pela força. Mas ao chegar em Medina, ele não hesitou em lutar contra seus inimigos, incluindo os que pura e simplesmente não aceitaram sua mensagem.

Assim como Marx disse que um confronto final entre o proletariado e a burguesia é inevitável, levando ao triunfo do primeiro e ao subsequente estabelecimento de uma sociedade sem classes, Qutb, por sua vez, pensou que uma guerra decisiva entre os crentes e os infiéis é inevitável, levando à vitória do Islã, que eliminará todos os conflitos religiosos. De quem é a seguinte frase, de Marx ou Qutb:

[existe] uma luta natural entre dois sistemas que não podem coexistir por muito tempo.

É uma frase escrita por Qutb; mas poderia ter sido tirada dos escritos dos milhares de seguidores de Marx, se não do próprio Marx, incluindo Mao Tse-Tung.

A imposição violenta de uma sociedade socialista e de uma sociedade islâmica é justificada da mesma maneira em Marx e em Qutb: se as pessoas fossem realmente livres, ou seja, se não padecessem nem de falsa consciência nem de jahilliyah (ignorância da orientação divina), eles aceitariam o estado socialista ou islâmico não meramente sem hesitar, mas com verdadeiro júbilo, como sendo para seu próprio bem livremente escolhido. A verdadeira liberdade, tanto em Marx como em Qutb, é o reconhecimento da necessidade. Tudo o que impede as pessoas de ver a verdade de suas mensagens é um inimigo da liberdade real (em oposição à mera liberdade aparente).

Há pouquíssimo que seja especificamente espiritual no livro de Qutb: é um manifesto político, não religioso. E como Marx, ele insiste que o Islã não é tanto um conjunto doutrinário, teórico ou factual, como na verdade um método. Sua noção é incrivelmente similar à da práxis marxista, de uma relação dialética entre teoria e prática. Eis o que ele diz sobre a sociedade islâmica vindoura:

Somente quando tal sociedade passa a existir, encara vários problemas práticos e demanda um sistema legal, o Islã inicia a constituição das leis e injunções, regras e regulações.

Assim como Marx, ele afirma reiteradamente que o Islã não é uma doutrina, mas uma unidade entre teoria e prática.

Qutb insiste que o triunfo do Islã é o único meio pelo qual o que ele chama de domínio do homem sobre o homem será abolido, assim como Marx e os marxistas insistem que o triunfo do marxismo é o único modo pelo qual a exploração do homem pelo homem cessará.

Marx acreditou que o homem já viveu num estado de comunismo primitivo que terminou com a divisão do trabalho. Qutb acreditava (de maneira bem menos plausível ou desculpável) que as primeiras gerações após Maomé viveram numa sociedade islâmica perfeitamente funcional. Ele não se perguntou, pelo menos não nesse livro, por que foi, então, que três dos quatro califas, supostamente sob a correta orientação divina, foram brutalmente assassinados. Este é um tipo bastante singular de perfeição, para dizer o mínimo. Mas, assim como a divisão do trabalho  chegou e arruinou o comunismo primitivo, também a filosofia grega e outras inovações vieram e arruinaram a sociedade islâmica perfeita. Por que razão a perfeição soçobraria em virtude de influências externas – poderia a perfeição ser assim tão imperfeita? – é uma questão que Qutb não levantou.

Ao longo de seu livro, sente-se sua fúria. Assim como Marx expressa sua admiração pela obra realizada pela burguesia no passado, Qutb similarmente presta tributo à Europa: mas tanto Marx como Qutb estão repletos de ódio. Obviamente, Qutb afirmou não ser mais do que um humilde instrumento de Deus, expressando o plano de Deus para a humanidade, assim como Marx afirmou ser o mero porta-voz da inevitabilidade histórica. Mas nem tudo o que afirma ser humilde é humildade. O autoconhecimento e o autoexame não fazem parte do programa de Qutb mais do que fazem do de Marx.

O livro de Qutb é obcecado com a obtenção do poder político e social. Há pouquíssimo conteúdo espiritual nele. Ele diz:

É claro, então, que uma comunidade muçulmana não pode ser formada ou continuar a existir até que obtenha poder suficiente para confrontar a sociedade jahili existente.

Somente o triunfo total do Islã (no sentido de Qutb) trará paz ao mundo, assim como todo conflito humano terminará quando o triunfo final do proletariado resultar na sociedade sem classes.

O único aspecto religioso do pensamento de Qutb é sua crença de que o Corão é a palavra não-mediada de Deus, uma crença que ele não justifica, porque não pode justificar. Para ele, a vontade de Deus é indisputavelmente conhecida sem qualquer necessidade de interpretação, e, de fato, ele a conhece. Não é difícil ver, então, que em nome da destruição de toda autoridade política e do domínio do homem sobre o homem em obediência à vontade de Deus, Qutb pense que deve ser um ditador total, e que ele é tão obcecado com o aqui e agora quanto qualquer marxista.

É aquela velha história de sempre. Como Dostoiévski disse, começando com liberdade ilimitada terminamos com o mais completo despotismo.

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por Luiz Felipe Pondé

Publicado originalmente na Folha de São Paulo de 13 de Agosto de 2012

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Antropólogos de boutique deveriam pegar um avião e ir para algumas regiões da África

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Hoje em dia gostamos de inventar termos “científicos”. Um deles é “sensibilidade cultural”, e o usamos para criticar formas de “intolerância cultural” (ou insensibilidade cultural), ou seja, tratar mal pessoas com hábitos diferentes dos nossos ou negar o direito de se praticar coisas estranhas para nossa cultura. A forma mais radical de criticar esta intolerância é dizer que “todo outro é lindo”.

Gosto mais da expressão “tolerância” quando era inocentemente aplicada a casas de mulheres que fazem sexo em troca de dinheiro, as chamadas “casas de tolerância”. Tenho saudade do uso da palavra “tolerância” neste sentido. Hoje em dia, a expressão “tolerância” é comumente utilizada por fanáticos que querem afirmar que tudo que vem do “outro” é lindo e maravilhoso.

Polêmicas ao redor do uso do véu islâmico têm sacudido a Europa. Até a Olimpíada em Londres não escapa disso. Recusar o direito de se usar o véu (ou similares) seria falta de sensibilidade cultural ou falta de tolerância cultural.

A verdade é que esse negócio de tolerância ou sensibilidade cultural com o outro (da qual partilho) é invenção de ocidental rico. E às vezes, temo, a moçada que gosta de falar disso fica tomando vinho em suas casas em segurança e nada sabem do mundo em chamas por aí. “Outros” são triturados por muitos dos “outros” que teimamos em achar lindo. Só que estes “outros” triturados são invisíveis para olhos acostumados às vítimas “profissionais” da nossa época. A indústria das vítimas oficiais não assimila esses miseráveis de fato em suas campanhas de conscientização chique.

Esses defensores da sensibilidade cultural, antropólogos de boutique, deveriam pegar um avião, sair de Paris, Londres, Nova York e São Paulo, e viajar um pouco. Quem sabe ir para algumas regiões da África, como Sahel (área semiárida no continente), Mali ou norte da Nigéria, dominadas por salafistas muçulmanos fanáticos, e defender a sensibilidade cultural por lá. Queria ver como esses inteligentinhos iriam se virar com esses salafistas que não estão nem aí para suas modinhas culturais.

No Mali, domingo 29 de julho, salafistas pegaram um casal que teve um filho fora do casamento, enterraram os dois até o pescoço e mataram a pedradas. Eles já têm espancado cristãos, destruído seus mausoléus e também destruído locais históricos do próprio islamismo que para eles não seja o “islamismo correto”. Qualquer um que não obedeça sua versão da “sharia”, a lei islâmica, é castigado fisicamente.

Sabe-se muito bem que no Egito, cristãos coptas são espancados há muito tempo e não têm os mesmos direitos civis que os muçulmanos. Por que os inteligentinhos de plantão da sensibilidade cultural não montam uma agência especial de direitos humanos para os cristãos? Que tal propor um jogo de futebol entre muçulmanos e cristãos no Egito para ensinar a “sensibilidade cultural” à maioria muçulmana lá?

Recentemente ouvi relatos antropológicos interessantes acerca de um país importante do golfo Pérsico. País que já ocupou várias vezes a mídia internacional em destaque.

Lá, mulheres estrangeiras (filipinas, paquistanesas) que buscam trabalho são constantemente violentadas por seus patrões e espancadas pelas suas patroas. Muitas vezes mortas. Todo mundo sabe (o país é minúsculo), mas não importa, porque a população local tem mais direitos dos que os estrangeiros.

Quer um exemplo: você pode trabalhar lá a vida inteira e nunca terá direito de comprar uma propriedade para você. Seu passaporte fica retido na mão do seu empregador, e se ele não quiser te dar quando você pedir, se você não achar alguém da população natural local que interceda a seu favor, você poderá não conseguir sair do país. Se você bater num carro de um cidadão natural do país, você nunca terá razão.

Todo mundo sabe que em países desta região, tocar num muçulmano é considerado ilegal. Você poderá ser preso ou deportado se alguém reportar que você tocou um dos seres “sagrados” naturais da terra. Experimente converter um deles. Cadeia na certa. Que insensibilidade cultural, não?

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