Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Jesuítas’

A série que inicio hoje toma como pretexto uma objeção recorrente ao dois devastadores artigos anteriores que retirei de um dos livros do relativamente desconhecido neoateu John W. Loftus (se algum dia algum de seus livros vier a ser traduzido e publicado na íntegra por alguma editora brasileira, lembrem-se de que o Rebeldia Metafísica foi quem primeiro divulgou massivamente seu trabalho em língua portuguesa. A propósito, alguém aí tem experiência com compras no exterior? Comprei os três livros do Loftus em março, mas o Why I Became an Atheist foi enviado separadamente dos outros dois. O pacote com os outros dois, The Christian Delusion e The End Of Christianity, chegou direitinho, duas semanas após o pedido, mas o WIBA até hoje não foi entregue! Semana passada entrei em contato com a Amazon, e eles pediram que aguardasse até o dia 16 e, caso o livro não chegue até lá, ao que parece eles estão dispostos ou a me ressarcir ou a envia-lo novamente. Pra piorar, não encontrei o menor sinal do pacote em território brasileiro com o código para rastreamento fornecido).

Mas vamos ao que interessa. Alguns cristãos (assumidos como Ricardo Rocha, e enrustidos como o “Luciano Ayan” _ este último ficou tão abalado com os artigos que, não contente em dar vazão à sua fúria com o automatismo savant que lhe é característico, e frente à apatia da blogosfera cristã subsequente aos dois ataques, criou mais um fake, o Investigador de Ateus, para tomar as dores da maioria cristã ultrajada sem trair suas reais convicções religiosas. Será que ele aposentou o Snowball?) a despeito da poderosa argumentação respaldada por vasta e fidedigna bibliografia, ainda relutam em admitir que (a) o cristianismo não possui mérito algum pela revolução científica do século XVI e (b) o antissemitismo nazista em particular, e a própria doutrina nazista como um todo, radicam parcialmente nas escrituras sagradas judeocristãs e na conflituosa relação que os adeptos destas duas grandes religiões mantiveram ao longo de dois mil anos. De acordo com estes empedernidos cristãos, os artigos de Carrier e Avalos fracassam porque, (a) o cristianismo não é intrinsecamente anticientífico, podendo ser compatibilizado com os valores e a atitude favoráveis ao progresso científico e (b) o Cristianismo Positivo e o antissemitismo nazista foram uma deturpação do cristianismo original e da atitude mantida pelos cristãos para com os judeus ao longo de sua coexistência. A primeira réplica tenta salvar a malograda tese do cristianismo pró-ciência apelando à sua plasticidade camaleônica, observada desde seus primórdios na estonteante diversidade de variedades cristãs concorrentes, ao passo que o segundo recorre ao mesmo fenômeno numa tentativa frustrada de inocentar o cristianismo da parcela de responsabilidade que lhe cabe pelo horror nazista.

Tanto Carrier quanto Avalos anteciparam estas objeções em seus artigos (o que levanta sérias dúvidas sobre se o Ricardo e o Luciano realmente leram os artigos e, caso tenham lido, se os entenderam. Seria o Luciano Ayan, além de idiota savant, um analfabeto funcional?), o primeiro de relance, ao comentar a desculpa esfarrapada apresentada pelos apologistas para explicar porque o Oriente Bizantino não foi palco de nenhuma revolução científica, e o segundo explicitando com um detalhamento maior a lógica do surgimento de novas religiões a partir de dissidências no interior da forma ancestral, e do quão problemático é estabelecer um critério para discernir até que ponto uma nova variante pode ou não ser considerada uma representante genuína da forma da qual surgiu.

A rigor, a série não anula diretamente a objeção. Entretanto, deixarei a cargo dos contendores o trabalho de reflexão após a leitura do parecer de um antropólogo sobre o fênomeno da rica diversidade interna ao cristianismo, que por sua vez é um dos argumentos de suporte do “Teste da Fé do Infiel” (tradução meia boca que arranjei para The Outsider Test Of Faith [OTF]):

1. Pessoas racionais em regiões geográficas distintas ao redor do globo, de maneira esmagadora, adotam e defendem uma vasta diversidade de fés religiosas em decorrência de sua herança educacional e cultural. Esta é a tese da diversidade religiosa.

2. Consequentemente, parece bastante provável que a adesão a uma fé não é meramente uma questão de julgamento racional independente mas na verdade causalmente dependente em larga escala de condições culturais. Esta é a tese da dependência religiosa.

3. Consequentemente, é altamente provável que qualquer fé religiosa adotada seja falsa.

4. De modo que a melhor maneira para se testar a fé religiosa que se adotou é assumindo a perspectiva de alguém que não partilha dela com o mesmo grau de ceticismo utilizado para avaliar outras fés religiosas.  Em poucas palavras, isto resume o OTF.

O OTF é o coração do primeiro livro de John W. Loftus, Why I Became An Atheist, e ao contrário do Boeing 747 de Dawkins, vem desafiando e exasperando os mais talentosos e destacadados teólogos e apologistas cristãos desde que foi proposto.

Subjacente ao argumento como um todo está a incompatibilidade lógica entre as diferentes religiões, explicitada pela primeira vez por David Hume em sua Investigação Acerca do Entendimento Humano. Combinada com a Tese da Dependência Religiosa, tem como um de seus corolários a alta improbabilidade da veracidade de qualquer fé religiosa em particular; como ela enfraquece consideravelmente as reivindicações de autenticidade de qualquer fé religiosa, os que a aceitam são compelidos a posicionar-se ceticamente diante de sua própria fé. Se esta não resistir ao exame cético, a decisão mais racional é abandona-la em favor do agnostiscismo.

A seguir, um resumo não tão resumido assim do primeiro capítulo de The Christian Delusion, As Culturas do Cristianismo, escrito pelo antropólogo David Eller. E eu juro que este é o último post massivamente baseado no The Christian Delusion.

_________________________________________________________________________________________________________________________________

______________________________________________________________________________________________________________________________

Céticos, racionalistas e livre-pensadores contemporâneos há tempos se perguntam por que a religião sobrevive, apesar da fragilidade dos argumentos a seu favor e da superioridade esmagadora dos argumentos contrários. Ironicamente, esta questão também já foi levantada por missionários cristãos confrontados pela dificuldade em converter para o cristianismo membros de outras religiões. O caminho até a resposta passa por um conceito chave da antropologia: a cultura. [O conceito de cultura reduz o cristianismo a um fenômeno cultural como qualquer outro, operando pelos mesmos mecanismos e surtindos os mesmos efeitos.] Muito antes dos livre-pensadores contemporâneos, os missionários deram-se conta de que contra a cultura, a lógica e a evidência são inúteis. Os cristãos absorveram e empregaram com extraordinário sucesso o conceito de cultura; missiologistas desenvolveram à perfeição a arte de penetrar as barreiras culturais (língua, sistemas de valores, instituições), coopta-las e domina-las ou substitui-las por completo. Vejam que fantástico este cartaz de divulgação de um curso de aperfeiçoamento missionário:

Perspectivas sobre o Movimento Cristão Mundial, uma espécie de guia para missionários, dedica vários capítulos a ressaltar a importância crucial da cultura. Charles Kraft, um dos personagens-chave do projeto, descreve a cultura como “o nome que os antropologistas dão aos hábitos e costumes estruturados e aos pressupostos da visão de mundo subjacente pelos quais as pessoas conduzem suas vidas. A cultura (incluindo a visão de mundo) é o modo de vida de uma pessoa, seu projeto de vida, sua maneira de lidar com o ambiente físico, biológico e social em que está inserida. Ela consiste de pressupostos aprendidos e padronizados, conceitos e comportamentos, mais os artefatos resultantes (cultura material)“. Kraft continua enumerando os seguintes atributos mais avançados de uma cultura:

  • Culturas “oferecem um projeto total de vida, lidando com todos os aspectos da vida e fornecendo às pessoas uma maneira de regular suas vidas;
  • Uma cultura “é um legado do passado, aprendida como se fosse absoluta e perfeita“;
  • Culturas “fazem sentido para os que dela fazem parte”;
  • Culturas “é um sistema adaptativo, um mecanismo para fazer frente ao ambiente. Ela provê padrões e estratégias que capacitam as pessoas a se adaptar às condições físicas e sociais a seu redor”;
  • Culturas “tendem a mostrar maior ou menor integração ao longo de sua visão de mundo”;
  • Culturas “são complexas”.
  • Culturas consistem de pressupostos subjacentes a todos os valores, compromissos e comportamentos culturais;
  • Culturas fundamentam e explicam nossa percepção da realidade e nossas respostas a ela;
  • Suas premissas ou pressupostos básicos são transmitidas por sábios anciões, não pela via do raciocínio, mas assumidas como verdadeiras sem provas;
  • Organizamos nossas vidas e experiências de acordo com nossa visão de mundo e raramente a questionamos a menos que nossa experiência desafie algum de seus pressupostos.

Do que foi dito acima seguem-se três consequências relevantes para o trabalho dos missionários cristãos:

  1. O cristianismo, como qualquer religião, é parte de uma cultura. Ele é aprendido, compartilhado e integrado com outros sistemas da cultura, incluindo a economia, a formação de laços de parentesco, e sua organização política.
  2. O cristianismo, como qualquer outra religião, é uma cultura. Como Paul Hiebert frisa no mesmo volume, uma religião nunca é somente um sistema de crenças; oferece sua própria visão de mundo, um vocabulário específico com o qual falar e pensar, e formas institucionais, organizacionais e simbólicas específicas, bem como sentimentos, valores, compromissos e padrões de julgamento e avaliação. É praticamente um projeto de vida.
  3. A evangelização cristã é um tipo de comunicação intercultural e uma mudança cultural. A conversão de uma religião para outra, portanto, nunca é uma mera mudança de crenças; como Kraft nos lembra, “uma mudança cultural significativa é sempre uma questão de mudanças na visão de mundo… qualquer coisa que afete a visão de mundo de uma população afeta a cultura inteira e, naturalmente, a população que opera em termos dessa cultura.”

Autores cristãos antropologicamente esclarecidos reconhecem, a partir do que foi exposto, a pluralidade das formas que o cristianismo pode (deve) assumir para se adaptar a diferentes contextos sem rejeitar todos os aspectos das culturas em que se infiltra e sem perder sua identidade; entretanto, eles detem-se a um passo de concluir que o Cristianismo:

  • é um modo dentre vários outros de regular as vidas humanas;
  • é um legado de seu passado, evoluído ao longo do tempo e transmitido por seus ancestrais, mas considerado absoluto e perfeito;
  • consiste de suas próprias pressuposições e premissas subjacentes às suas normas, valores, compromissos e instituições;
  • fundamenta e comunica uma visão específica da realidade e as possíveis reações a essa visão;
  • Não é alcançado pela via do raciocínio, mas considerado verdadeiro sem qualquer prova; e
  • organiza as vidas e as experiências de seus seguidores – literalmente fornece-lhes os termos em que e pelos quais eles vivem – e raramente é questionado por eles.

Não obstante estarem diretamente envolvidos na produção de dados que conduzem a estas conclusões, os proselitistas ainda pensam que o cristianismo é a verdadeira cultura/visão de mundo.

Os missiologistas descreveram o pilar central da antropologia, o holismo, segundo o qual todos os aspectos da cultura são integrados e interdependentes. A integração é um processo bidirecional; uma das direções é a partir da religião para o resto da cultura, algo que os missionários jesuítas descobriram e aplicaram desde o século XVII:

A pedagogia de ataque jesuítica tencionava antes de mais nada solapar os fundamentos mundivitais dos modos de vida nativos. O mundo-da-vida é a fonte não-questionada do sentido e da ação, e diversas práticas religiosas e espirituais (animismo) estavam entretecidas na vida ordinária… Os jesuítas buscaram expulsar a figura do xamã de seu posto de supremacia no mundo-da-vida através do escárnio, da ridicularização e mostrando-se mais eficazes do que ele, inserindo-se em seu lugar. Esta foi uma estratégia pedagógica brilhante e implacável. Eles recorreram a seus conhecimentos científicos para minar a autoridade do xamã. Eles perfilaram seus próprios recursos mundivitais (a esta altura cada vez mais permeados por formas científicas de conhecimento) para implodir as bases culturais ameríndias e criar uma quinta coluna nativa no Império do Demônio.

Dentre as táticas criadas pelos jesuítas e utilizadas até hoje pelos missionários contemporâneos está o estudo e o domínio das línguas locais para capacita-los a traduzir e adaptar as idéias e doutrinas configuradas numa Europa cristã hierarquizada, patriarcal, tecnológica e obcecada pelo status para o universo mental dos nativos; munidos dos conhecimentos compilados nesta etapa preparatória, os jesuítas (e missionários modernos) deflagram uma campanha em diversas frentes contra as bases da cultura e da vida dos nativos, não descuidando mesmo de assuntos não-religiosos aparentemente secundários, como os papéis de gênero (uma das consequencias da cristianização dos nativos foi o rebaixamento do status relativamente elevado de que gozavam as mulheres na vida tribal).

Outra técnica pedagógica certeira utilizada pelos jesuítas contra os povos nativos foram os ataques verbais e a ridicularização das práticas e crenças tradicionais, intensificada para explicitar a inadequação dos sistemas de sentido dos nativos para lidar com a gradativa erosão de seu modo de vida tradicional promovida pela colonização; a previsão de fenômenos naturais (como eclipses) e a manipulação das emoções pela utilização de recursos visuais e dramáticos eram meios utilizados para aumentar a eficácia do ataque pedagógico. Táticas e mecanismos idênticos foram observados pelos antropólogos na colonização da África no século XIX.

Uma esfera não-religiosa importante a sofrer profundas reformas foi a da economia, particularmente as técnicas de cultivo. Os papéis de gênero tradicionais, em que a horticultura era uma atribuição feminina, foram invertidos, as cercas e arados tornaram-se símbolos de propriedade e força; uma nova moral econômica que estigmatizava o ócio e os primitivos modos de produção (caça e coleta) ajudou a dissolver a visão de mundo tradicional. Outros hábitos mundanos, como a higiene pessoal, a utilização de roupas, o padrão de construção de casas e as práticas da esfera doméstica e também foram alterados à imagem e semelhança dos modelos europeus.

Muitas pessoas, ateus e racionalistas inclusos, ainda pensam que, a menos que estejam vivendo em alguma sociedade primitiva, ou a menos que estejam sendo abertamente espancados pelas “crenças” religiosas alheiras, estão a salvo da influência da religião. Se o que foi exposto acima não os despertou para as múltiplos maneiras mundanas pelas quais a religião se infiltra e impregna os menores e aparentemente mais insignificantes aspectos de suas vidas, elas deveriam refletir cuidadosamente sobre o conselho de Kraft, que assegura a seus leitores que a colonização religiosa não é e não pode ser apenas um ataque frontal contra a “falsa” religião: para o proselitista cultural sagaz, “o cristianismo deve ser dirigido para a visão de mundo de um povo de modo que ele venha a influenciar cada um dos subsistemas do próprio âmago da cultura. Pessoas verdadeiramente convertidas (seja nas Américas ou além mar) precisam manifestar atitudes e comportamentos bíblicos e cristãos em toda sua vida cultural, não apenas em suas práticas religiosas“. Consequentemente, o cristianismo nas sociedades americanas e demais sociedades ocidentais, e outras religiões em outras sociedades, buscam ativa e intencionalmente a mesma direção, criando uma visão de mundo ubíqua e considerada autoevidente que em geral escapa ao questionamento crítico porque deixa de ser percebida. Tanto os Estados Unidos como o mundo ocidental em geral encontram-se saturados de Cristianismo nas esferas macro e micro de suas instituições culturais. Estejam seus habitantes cientes disso ou não – e o efeito é mais traiçoeiro se eles o ignoram – não-cristãos vivendo em sociedades dominadas pelo cristianismo  levam uma vida permeada por premissas e pressupostos cristãos. Cristãos e não-cristãos encontram-se imersos em águas culturais cristãs, e como os peixes eles geralmente consideram autoevidente a água em que nadam.

Os subsistemas mencionados por Kraft incluem todos os aspectos da cultura:

A linguagem: a própria religião é uma linguagem, com um vocabulário próprio e destituído de sentido para os de fora. Considerem por exemplo, termos como “batismo”, “purgatório”, “evangelho”, “anjo”, “demônio”, específicos do cristianismo, e dharma, karma, yuga, samsara e moksha, exclusivos do hinduísmo; ou expressões como “paciência de Jó”, “lobo em pele de cordeiro”, “ovelha perdida”, “filho pródigo”, “atirar a primeira pedra”, todas originariamente bíblicas.

Ocasiões marcantes da vida: as religiões demandam autoridade sobre eventos importantes, como o nascimento, o casamento e a morte; assim como também criam seus próprios eventos, como o batismo.

Hábitos cotidianos: a religião se intromete nos mais prosaicos aspectos da vida ordinária, como a alimentação (prescrições e restrições dietéticas); orações e graças antes, durante a após as refeições, ao acordar e ao dormir; nos nomes das pessoas, geralmente copiados dos de personagens das narrativas religiosas; orientações sobre a aparência em geral, incluindo o uso de barba, os cortes de cabelo, o estilo das roupas; e, como não poderia deixar de ser, a religião faz questão de dar palpites sobre o que as pessoas fazem em quatro paredes, incluindo com quem, quando, como e por que.

Instituições: a religião também deixa suas impressões sobre todas as instituições socialmente significativas: desde a família, passando pelas instituições educacionais e os locais de trabalho, por vezes alcançando as mais altas esferas governamentais. Se não conseguem se infiltrar e ditar as regras dentro das instituições seculares, as religiões podem chegar ao extremo de criar as suas próprias, seja pelo isolamento (como os amish e os mórmons), seja pela tomada violenta do poder (como a revolução iraniana e os talebãs) seja pela criação de seu próprio Estado (como o movimento do Êxodo Cristão nos Estados Unidos).

Tempo: a religião define a noção de tempo para seus membros, estruturando o calendário, os ciclos (semanas com descanso “sabático”), instituindo os feriados e a própria natureza do tempo, linear unidirecional (no caso dos cristãos, o tempo começa com a criação, passa pela Queda e segue inexoravelmente rumo ao Dia do Juízo e à restauração do Paraíso) ou cíclica (no caso dos hindus, por exemplo).

Espaço: a religião coloniza o espaço físico que a abriga, sacralizando os locais que supostamente foram palco de eventos importantes, os cemitérios e os templos; dando nome à ruas, bairros, cidades, etc.; ou adornando temporária (iluminação de Natal) ou permanentemente os locais, sendo o monumental Cristo Redentor o exemplo mais extremo.

Como dito anteriormente, a integração é um processo bidirecional: uma cultura sofre adaptações e é submergida pela religião, mas a religião também se adapta e é reconfigurada pela cultura em que se infiltra. No caso específico do Cristianismo, o resultado inevitável deste processo em duas mãos é a profusão exuberante de cristianismos locais e regionais que muitas vezes não se reconhecem, não se aceitam e as vezes chegam ao extremo de sequer se entenderem entre si.

Elaine Pagels descobriu tal adaptação por parte da religião ao ambiente cultural em que esta busca se estabelecer nos próprios documentos fundadores do cristianismo. Cada um dos quatro evangelhos resulta de seu momento histórico e de um ponto de vista político específicos, tendo sido escritos para alguém e contra alguém; cada um deles foi influenciado pelo inimigo ou rival do dia. Marcos, geralmente considerado o mais antigo dos quatro, “assume uma atitude conciliatória para com os romanos”, mas censura “as lideranças judaicas – o conselho de anciãos, o Sinédrio, bem como os escribas e sacerdotes de Jerusalém que rejeitaram o Messias enviado por Deus”. Este cristianismo é uma disputa entre facções cristãs. Mateus reflete a fundação de uma comunidade e uma identidade cristã distintas, apartada “dos judeus”, ou seja, “da maioria, que rejeitou o evangelho e portanto, perderam seu legado”. Lucas, como “o único autor gentio dentre os evangelistas, dirige-se aos gentios convertidos ao cristianismo que se consideram os verdadeiros herdeiros de Israel”; ao mesmo tempo, ele de certa forma faz as pazes com as autoridades judaicas. Na época de João, historicamente a última versão, uma comunidade cristã exclusiva e bastante coesa emergira, à qual era ordenado que amassem-se uns aos outros ao passo que consideravam seus oponentes judeus verdadeiras crias de Satanás.” Isto para não mencionar os evangelhos não-canônicos de Tomás, Maria Madalena e Filipe, que pintam um quadro ainda mais divergente do homem e sua missão.

Os próximos capítulos da série explorarão em detalhes o fenômeno da diversidade cristã ao longo da história em toda sua atordoante exuberância. A título de conclusão, eis a resposta para o fênomeno que intriga os livre-pensadores contemporâneos: as pessoas não são racionalmente demovidas de suas convicções religiosas porque em primeiro lugar elas não alcançaram estas convicções racionalmente. Elas não foram convencidas por argumentos, mas tiveram suas mentes colonizadas por premissas e pressupostos. Como uma forma de cultura, ela lhes parece autoevidente; compara-la ao uso de óculos ou de muletas não apreende a profundidade do processo de aculturação, já que uma cultura não é como uma prótese corretiva temporária utilizada por um convalescente – é mais como um orgão do corpo.

Eller termina seu capítulo de forma algo incoerente. Após mostrar o papel vital desempenhado pela cultura no aparato cognitivo de uma pessoa, ele justifica seu trabalho dizendo que almeja com a divulgação destes conhecimentos que tão logo as pessoas reconheçam a diversidade, a plasticidade e a relatividade de qualquer religião, elas vejam o quão pouco meritória ela é: que o que deixa de ser autoevidente muitas vezes sequer vale a pena ser considerado.

Eu, particularmente, fiquei mais desalentado do que entusiasmado.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: