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Posts Tagged ‘Jorge Luis Borges’

[Atualizado em 06 de Abril de 2012]

Argumentum Ornithologicum

Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo, talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém conseguiu fazer a conta. Neste caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etcétera. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.

Jorge Luis Borges, O Fazedor, 1960.

Até a manhã de ontem eu acreditava estar razoavelmente bem informado acerca das diversas categorias de argumentos para a existência de Deus. A página de Contra-Apologética reúne postagens com críticas a pelo menos uma versão de cada categoria (cosmológicos, ontológicos, teleológicos, axiológicos, a partir de  relatos de milagres e até os menos conhecidos transcendentais). Qual não foi minha surpresa, então, quando, na primeira aula do curso de Lógica, a título de exercício, o professor pediu à turma que analisasse e expressasse formalmente o argumento que o grande escritor argentino de literatura fantástico-filosófica Jorge Luis Borges criou inspirando-se no argumentum ontologicum de Santo Anselmo. A estrutura formal do argumento é a seguinte:

 p->q (Se Deus existe, o número de pássaros que vi é definido)

~p->~q (Se Deus não existe, o número de pássaros que vi é indefinido)

~(~q) (Esse número inteiro é inconcebível, o que, segundo o professor, deve ser lido como “não há mundo possível em que este número seja indefinido”. Na verdade ele não usou vocabulário modal, mas foi o que depreendi de sua explicação.)

______portanto,

p (Deus existe).

Segundo o professor, este conto, embora num primeiro momento esteja sendo utilizado apenas como pretexto para o estudo da estrutura formal de argumentos,  pode ser um ponto de partida para uma rica discussão abraangendo diversas grandes temas da filosofia (se bem que, para pessoas infectadas pelo vírus filosófico, qualquer coisa é ponto de partida para longas e ricas discussões), e sugeriu que façamos releituras dele à medida em que formos progredindo no curso. Num primeiro momento ninguém descobriu o problema com o argumento. E o professor deixou bem claro que não vai mostrar qual é. Professores de filosofia são cruéis.

Quando eu descobrir como refutar este argumento atualizarei o post. Até lá, os teístas possuirão mais um quebra-cabeças lógico com que exasperar os ateus. Divirtam-se!

Atualização: ao fim da aula sobre determinação de validade de argumentos através do método das tabelas de verdade completas, o professor de Lógica retomou a interpretação generosa que fez do argumento de Borges e nos contou como refuta-lo. Segundo ele, há duas possibilidades. Uma, bastante radical, é contestar o cenário de um acesso privilegiado exclusivo que cada um tem aos conteúdos de sua própria mente, pressuposto que segundo o professor Wittgenstein destruiu em seu Tractatus Logicus-Philosophicus. Uma outra possibilidade mais à mão é aquela apontada pelo Rodrigo Amaral: mostrar a ambiguidade do termo “definido” nas premissas do argumento. Na primeira premissa, Se Deus existe, o número de pássaros que vi é definido, o termo definido é utilizado num sentido epistemológico, o que é confirmado pela frase do conto (poema?) “…porque Deus sabe quantos pássaros vi.” Já na terceira premissa, indefinido é uma qualificação ontológica do número, portanto tem um sentido diferente do que ocorre na primeira premissa. Assim sendo, a estrutura formal do argumento possui três, não apenas duas variáveis, e, se montarmos a tabela de verdade para este argumento com três variáveis proposicionais, em uma de suas linhas as premissas serão verdadeiras e a conclusão falsa, o que o torna inválido. Ergo, a existência de Deus não está demonstrada!

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