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A defesa do livre arbítrio refutada e a inexistência de Deus demonstrada

Autor: Raymond D. Bradley

2007

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Índice

1. A refutação lógica do Deus teísta das “terras lá embaixo”(*)

     1.1  A tentativa de refutação da demonstração lógica de Alvin Plantinga

     1.2 Plantinga refutado e Deus falseado: uma prévia

2. Apresentação formal de Plantinga de sua Defesa do Livre-Arbítrio

3. Primeira falha formal: um non sequitur relacionado com a consistência entre (3) e (1)

4. Falhas adicionais relacionadas às condições conjuntas de consistência e implicação

      4.1 Um Non Sequitur relativo à condição de implicação

   4.2 Contando a história completa a fim de satisfazer a condição de implicação

     4.3 Dois Non Sequiturs envolvendo a condição de consistência

     4.4 O cenário de Russell: uma refutação por analogia lógica

5. A definição leibniziana de Plantinga de Onipotência

    5.1 Consequencias lógicas da definição

    5.2 Porque Leibniz não erra

  5.3 Uma ambiguidade fatal a respeito do escopo da depravação transmundial.

    5.4 Foi tudo “culpa de Deus”

 5.5 A distinção entre modalidades absolutas e modalidades consequenciais

     5.6 O ardil de Plantinga

     5.7 A trapalhada modal de Plantinga

     5.8 Interlúdio sobre a prevalência da Trapalhada Modal

     5.9 De volta para a Trapalhada Modal de Plantinga

     5.10 Veredicto provisório

6. Dia do Julgamento: Deus Todo-Poderoso e Onisciente, Não Moralmente Perfeito

     6.1 O julgamento do Cão Todo-Poderoso e Onisciente

     6.2 O julgamento de Deus Todo-Poderoso e Onisciente

7. Veredicto Final: O triunfo da Lógica e Moralidade “das terras lá embaixo”

     7.1 O fracasso, e a irrelevância, da Defesa do Livre-Arbítrio

     7.2  O Mal e a Responsabilidade de Comando de Deus por sua ocorrência

     7.3 Uma prova formal de que se o mal existe então o Deus teísta não existe

     7.4 Conclusão


1. A refutação lógica do Deus teísta das “terras lá embaixo”

Há mais de meio século atrás, John L. Mackie lançou a acusação[1]. Reelaborando vigorosamente um problema que tem atormentado os teístas ao menos desde O livro de Jó, ele argumentou em 1955 que a proposição

(1) Deus é onisciente, onipotente e perfeitamente bom.

não pode ser logicamente compatibilizada com a proposição

(2) O mal existe.

e que, como (2) é uma verdade inegável, segue-se que (1) é falsa. Dois outros filósofos “das terras lá embaixo” vieram em seguida. H.J. McCloskey publicou outro caso sólido em 1960[2]. Então, em 1967, eu publiquei “A proof of atheism” utilizando um argumento que deixava de lado a idéia de livre arbítrio.[3]

1.1  A tentativa de refutação da demonstração lógica de Alvin Plantinga

Entra em cena Alvin Plantinga, principal apologista do Deus teísta. Primeiro em God and other minds (1967), depois em The nature of necessity (1974), Plantinga enunciou sua assim chamada Defesa do Livre-Arbítrio. Ele afirmou ser a sua Defesa um tipo de prova de consistência que prevaleceria eternamente sobre quaisquer outras futuras tentativas de demonstrar a inexistência de Deus. Não somente, em sua opinião, é “extremamente difícil” para qualquer um produzir uma proposição ou um conjunto de proposições cuja conjunção com (1) e (2) produza uma contradição formal. Ele acredita ter demonstrado ser impossível. O mito da inexpugnabilidade de sua refutação tem crescido por três décadas, inclusive entre vários filósofos de inclinação ateísta.

Proponho dar um fim a esta lenda.

1.2 Plantinga refutado e Deus falseado: uma prévia

Nas seções 2 a 5, mostrarei que a Defesa do Livre Arbítrio de Plantinga não contém, como diria Hume, “nada além de sofismas e ilusões”.
Em vista disso, é a perfeita bondade de Deus, em vez de sua onisciência ou onipotência, que é comprometida pela presença do mal no universo que ele supostamente criou. Assim, é fácil e natural, mesmo para os filosoficamente ignorantes, raciocinar que

(a) sendo onisciente, Deus teria conhecido nos mínimos detalhes todos os males (tanto os naturais como os morais) que assolariam o mundo que ele planejou criar, incluindo todas as maldades que suas criaturas provocariam;
(b) sendo onipotente, não era necessário que Deus criasse este mundo, mas que poderia ter escolhido criar um mundo que não contivesse qualquer mal; e
(c) em virtude de seu fracasso em exercer esta opção, Deus deveria ser responsabilizado por todo o mal existente no mundo que criou.

Conclusão:

Como o mal existe, um Deus onipotente e onisciente que também seja perfeitamente bom não existe.

Plantinga, entretanto, ignora as cláusulas (a) e (c), e mira somente a cláusula (b), que envolve a onipotência divina. Ele esboça um cenário segundo o qual Deus fez o melhor que pode para criar um mundo sem o mal mas teve seus planos frustrados pelo abuso da liberdade por parte de suas criaturas. “Dadas estas condições”, ele argumenta, Deus não poderia ter criado um mundo livre de males. Isto “apesar” de sua onipotência. É verdade, males morais e naturais existem. Mas dependem de nós, e de Satanás, respectivamente. Não dependem de Deus. Assim Plantinga alega.

Mas a Defesa de Plantinga, eu mostrarei, é um fracasso. Seu argumento não possui somente uma falha formal. Ele se torna plausível somente em virtude de seu bem ocultado fracasso em sustentar sua própria definição de onipotência. Seu cenário mostra que Deus “não poderia” ter criado um mundo sem o mal apenas no sentido de que sua incapacidade para faze-lo é uma consequencia de seus próprios planos precipitados para sua criação. Ele não mostra que ele não poderia ter criado tal mundo houvesse ele disponibilizado a si próprio a plenitude dos recursos de sua onipotência. O discurso de Plantinga em oposição a isso envolve uma confusão a respeito das noções modais de possibilidade e impossibilidade.

Tendo aberto uma brecha crucial na lógica da Defesa do Livre Arbítrio de Plantinga, eu então — nas seções 6 e 7 — apresentarei uma nova versão da Refutação das “terras lá embaixo” concentrando-me mais uma vez nas cláusulas (a) e (c): aquelas que lidam com a onisciência e a bondade moral, respectivamente.

Desta maneira, produzirei uma proposição do tipo que Plantinga pensa que é “extremamente difícil de encontrar”: isto é, uma proposição cuja conjunção com (1) e (2) produz uma contradição explícita. É uma proposição tão fundamental à lei e a moral internacional que permitir qualquer exceção a ela absolveria vários dos maiores criminosos da história humana da responsabilidade pelos males cometidos sob seu comando. Deus não pode ser mais absolvido do que eles podem. É uma proposição a partir da qual, em conjunção com o fato indiscutível da existência do mal, podemos deduzir que — independentemente de possuirmos ou não livre-arbítrio — qualquer ser que seja ao mesmo tempo onipotente e onisciente seria responsabilizado por todo o mal que existe. Consequentemente, a partir da existência do mal, junto com a suposta onipotência e onisciência de Deus, podemos deduzir que o Deus teísta não é o ser moralmente perfeito que os teístas definem. Ipso facto, seu Deus não existe.

2. Apresentação formal de Plantinga de sua Defesa do Livre-Arbítrio

Plantinga apresenta sua Defesa de maneira mais persuasiva no capítulo IX de sua obra The Nature of Necessity[4]. Anunciando-a como “A Defesa do Livre-Arbítrio Triunfante”, Plantinga escreve:

‘Colocado formalmente, lembre-se, o projeto do Defensor do Livre-Arbítrio era mostrar que

(1) Deus é onisciente, onipotente e perfeitamente bom.

é consistente com

(2) O mal existe.

fazendo uso da verdade de que um par de proposições p e q são conjuntamente consistentes se existe uma proposição r cuja conjunção com p é consistente com e implica q. Vimos que

[(3)][5] Toda essência padece de depravação transmundial.

é consistente com a onipotência de Deus. Mas então ela é claramente consistente com (1). Então podemos usa-la para mostrar que  (1) é consistente com (2). Considere a conjunção de (1), (3) e

[(4)] Deus efetiva um mundo contendo o bem moral.

Esta conjunção é evidentemente consistente. Mas ela implica

(2) O mal existe.

Portanto (1) é consistente com (2); a Defesa do Livre-Arbítrio é bem sucedida.’

Quer que eu repita? Para o que pretende passar por uma rigorosa prova de consistência formal, isto só pode ser uma piada. Até um calouro num curso de lógica estaria justificado em descreve-la como “uma fanfarronice bombástica”, para usar a injustificada descrição que Plantinga faz do livro de Richard Dawkins “Deus, um Delírio”[6].

Mas o que há de errado com o argumento? Não há nada de errado com a estratégia global de tentar encontrar uma proposição (ou um conjunto de proposições) r cuja conjunção com uma proposição p é consistente com e implica q. Esta é, de fato, uma maneira de provar que p é consistente com q. O problema reside não na estratégia, mas na execução.

Os critérios impostos a qualquer argumento que pretenda ser sólido, especialmente um que supõe-se constituir uma prova formal, são bastante rigorosos. Primeiro, ele deve ser formalmente válido: a conclusão deve seguir-se logicamente das premissas como enunciadas sem depender de premissas que tenham sido ocultadas, subentendidas, simplesmente por terem sido consideradas intuitivamente óbvias[7]. Segundo, suas premissas devem ser verdadeiras. E terceiro, não deve conter qualquer falácia informal de ambiguidade na qual um único e mesmo termo é utilizado com diferentes significados.

A pretensa prova de consistência de Plantinga fracassa em cada um destes três critérios.

3. Primeira falha formal: um non sequitur relacionado com a consistência entre (3) e (1)

Primeiro, Plantinga alega que a proposição (3) (que toda essência padece de depravação transmundial é consistente com a onipotência de Deus e então vai em frente afirmando que “Mas então ela é claramente consistente com (1).”

Mesmo que não seja. Pois considere o que (1) declara. Ela expressa que Deus é não somente onipotente como também onisciente e perfeitamente bom. É verdade que a simples conjunção de (3) com a afirmação de que Deus é onipotente não gera nenhuma contradição formal. Mas isso não significa que (3) seja também consistente com a onisciência e a perfeita bondade de Deus[8]. Este é um raciocínio desleixado, obviamente inválido.

4. Falhas adicionais relacionadas às condições conjuntas de consistência e implicação

Segundo, ele afirma que a conjunção de (1), (3) e (4) satisfaz duas condições: ela tanto implica (2) como é “evidentemente consistente”. Isto porque, em sua opinião, a conjunção de (3) e (4) desempenha o papel de r no esquema de prova que ele está seguindo.

4.1 Um Non Sequitur relativo à condição de implicação

Considere a primeira destas duas condições: aquela da implicação da existência do mal. Formalmente, a conjunção de (1), (3) e (4) fica muito aquém de implicar (2). Afinal, é uma regra de ouro lógica que numa prova formal você não pode obter mais em sua conclusão do que colocou explicitamente em suas premissas[9]. Não se pode, portanto, derivar formalmente a existência do mal a partir de premissas que nem sequer mencionam o mal. Precisamos de uma descrição explícita de como o mal entra em cena. Somente quando as premissas faltantes são trazidas à luz podemos determinar se, quando acrescidas como orações adicionais à conjunção de (1), (3) e (4), temos uma proposição ou um conjunto de proposições que desempenham o papel de r por satisfazer ambas as condições de implicação e consistência.
Lembre-se que Plantinga está atuando como advogado de defesa de Deus. É fácil para ele contar uma história favorável a Deus que parecerá consistente se ele se limitar à consistência de um subconjunto restrito das proposições envolvidas na história. Mas como ficaria a situação lógica se ele fosse obrigado a contar a história inteira; se ele fosse, por assim dizer, dizer a verdade, toda a verdade, e nada além da verdade? Precisamos ouvir a história inteira, especialmente a parte que supostamente satisfaz a condição de implicação, a fim de avaliar se o caso da defesa se articula e encaixa como Plantinga afirma.

4.2 Contando a história completa a fim de satisfazer a condição de implicação

Comecemos, provisoriamente, com a proposição que Plantinga descreve como sendo “o coração da Defesa do Livre-Arbítrio”, a saber,

(5) Deus não poderia ter criado um universo contendo o bem moral (ou tanto bem quanto este contém) sem criar um contendo o mal moral. (p.167)

Isto ajuda a preencher as lacunas em seu argumento já que, se tomada em conjunto com

(4) Deus efetiva um mundo contendo o bem moral.

ela de fato implica

(2) O mal existe.

Então agora sabemos como o mal entrou em cena. Ele existe porque Deus criou um mundo que o contém.

Mas como Plantinga obtém (5)? Seu apelo a

(3) Toda essência sofre de depravação transmundial.

conta uma parte da história. Só uma parte. E a parte que desempenha não é aquela que Plantinga lhe atribui em sua apresentação formal. Plantinga afirma que a partir de (1), (3) e (4), tomadas em conjunto, alguém pode formalmente derivar (2). Mas isto está claramente errado já que, mais uma vez, não há menção explícita ao mal em nenhuma delas. Então, pela regra de ouro lógica que invoquei antes, esta inferência é injustificada. São as premissas (5) e (4) que implicam (2). A premissa (3) realmente cumpre um papel no argumento de Plantinga. Mas que aparece antes, por assim dizer, como uma das premissas que ele precisa para fundamentar (5). Então precisamos voltar um pouco mais para ver como ele obtém (5).

As premissas necessárias encontram-se espalhadas ao longo de sua apresentação informal. Expo-las-ei em suas palavras e as numerarei de (6) a (10).

Comecemos com a história da base lógica de Deus para criar o tipo de mundo no qual nos encontramos.

(6) “Deus achou que era bom criar pessoas livres” (p. 170) [porque] [um] mundo contendo criaturas que as vezes são significativamente livres (e [que] realizam livremente mais boas ações do que más ações) é mais valioso, tudo o mais sendo igual, do que um mundo que não contenha absolutamente nenhuma criatura livre.” (p. 166)

Plantinga não fornece nenhum argumento para (6). Ele aparentemente pensa que isto expressa uma verdade óbvia sobre quais mundos possíveis seriam mais valiosos tanto para Deus quanto para nós. Mesmo que no esquema de coisas de Deus, a existência de criaturas significativamente livres que podem abusar de seu livre-arbítrio ocupe um lugar elevado em sua hierarquia de prioridades; mais elevado que sua saúde e felicidade, por exemplo. Plantinga vai ainda mais longe ao declarar que “o preço pela criação de um mundo no qual tais pessoas produzem o bem moral é criar um no qual elas também produzem o mal moral (p. 186f).” Aqui não há menção ao fato de que somos nós, e não Deus, quem pagamos o preço. Não há escrúpulos morais nesta cobrança. Uma antecipação despreocupada da fria observação de Madeleine Albright, “Nós achamos que o preço vale a pena”, quando confrontada com o fato de que as sanções impostas ao Iraque durante a década de 90 causaram a morte de mais de meio milhão de crianças[10].

Plantinga guarnece sua Defesa com uma generalidade que de outro modo lhe faltaria quando acrescenta que as criaturas livres que Deus tinha em mente não se limitavam aos humanos. Como ele coloca, “possivelmente o mal natural é resultado da atividade livre de uma série de pessoas não-humanas (p. 192).” Este movimento habilita Plantinga a tratar tanto o mal natural quanto o moral como “casos especiais do que podemos chamar mal amplamente moral– mal resultante das ações livres de seres pessoais, humanos ou não”(p.192). O tipo de seres pessoais não-humanos que ele tem em mente são aqueles aos quais Santo Agostinho atribuiu o mal natural, a saber, “Satanás e suas coortes”. As hordas satânicas figuram com destaque no ramo da teologia cristã ortodoxa conhecido como demonologia. Mas presumivelmente Plantinga não excluiria os coros angelicais de sua lista de pessoas significativamente livres.

Todas as criaturas de Deus, de acordo com Plantinga, são significativamente livres, onde “liberdade significativa” deve ser interpretado em termos contracausais. Sob esta interpretação, o livre-arbítrio é incompatível com qualquer tipo de causalidade, natural ou sobrenatural:

Se uma pessoa S é significativamente livre em relação a uma dada ação, então ela é livre para realizar essa ação e livre para se abster de realiza-la; leis causais e condições antecedentes não determinam que ela realize ou não tal ação. (p. 165f)

E, destacando Deus em particular, ele escreve

se sou livre em relação a uma ação A, então Deus não determina indireta ou causalmente que seja o caso ou que eu realize tal ação ou que eu me abstenha de realiza-la; Ele nem a causa através das leis que estabeleceu, nem por intervenção direta, nem por nenhuma outra maneira. (p. 171)

Sou livre em relação a uma ação A se eu faço com que A ocorra e ninguém nem nada faz com que eu faça que A ocorra. Este tipo de livre-arbítrio é comumente chamado “livre-arbítrio libertário”. Supõe-se que seja o tipo de liberdade que fundamenta a responsabiliade moral: como não possui antecedentes causais, permite atribuições de responsabilidade para todo mal serem feitas contra nós —  não Deus — por qualquer coisa que realizemos livremente. Ou assim Plantinga afirma.

A próxima premissa de Plantinga é

(7) Deus, com efeito, criou criaturas significativamente livres. (p. 167)

Isto ele também considera mera questão de fato.

Depois vem

(8) Como cada pessoa é a instanciação de uma essência, ele pode criar pessoas significativamnte livres somente instanciando alguma essência criatural. (p.188)

Dada a concepção metafísica de Plantinga, segundo a qual uma pessoa em potencial (a “essência” pessoal) é uma entidade abstrata, ele pode plausivelmente argumentar que (8) segue de (7).

É a partir deste ponto que (3) assume sua função no esquema geral de prova de Plantinga. Referindo-se às essências mencionadas em (8), ele nos diz

(3) Toda essência sofre de depravação transmundial. (p. 189)

Entretanto, há uma ambiguidade crítica e decisiva em (3). Pretenderá ele que compreendamos esta premissa como verdadeira em todos os mundos possíveis, isto é, como aplicável a todas as possíveis essências criaturais? Ou pretenderá ele que a compreendamos como verdadeira somente no mundo real, o mundo que Deus escolheu criar? Em cada interpretação, como veremos, a premissa (3) origina problemas formidáveis para a Defesa de Plantinga. Esta premissa tira a solidez do argumento.

Mas continuemos com a exposição. Tudo o que Plantinga precisa agora é mais uma premissa, a saber,

(9) Se todas estas essências padecem de depravação transmundial, então não importa quais essências Deus tenha instanciado, as pessoas resultantes (humanas ou não-humanas), se livres em relação às ações moralmente significativas, sempre realizariam ao menos algumas ações moralmente erradas. (p. 189)

da qual ele obtém sua generalização

(10) Se todas as essências criaturais padecem de depravação transmundial, então estava além do poder de Deus criar um mundo contendo o bem moral mas nenhum mal moral. (p. 189)

Considerando-se a definição de Plantinga de “depravação transmundial”, supõe-se tanto (9) quanto (10) são derivadas da conjunção de (7), (8) e (3).

Nenhuma das proposições (6) a (10) figura na apresentação de sua prova formal. Mas agora que as temos em mãos fica claro como devemos proceder para preencher a lacuna levando à já citada

(5) Deus não poderia ter criado um universo contendo o bem moral (ou tanto bem quanto este contém) sem criar o mal moral. (p. 167)

Pois (5) deriva claramente de (3) e (10). E, como observado anteriormente, de (5) junto com

(4) Deus efetiva um mundo contendo o bem moral.

podemos de fato concluir formalmente que

(2) O mal existe.

Plantinga havia afirmado poder deduzir (2) a partir de (3) e (4) apenas. Ele estava errado. Podemos deduzir (2) da conjunção de (3) e (4) somente se expandirmos esta conjunção  de forma a incluir também as proposições (5) a  (10).

Lembre-se, entretanto, que existe uma segunda condição que também deve ser satisfeita para esta conjunção expandida desempenhar o papel de r na prova de consistência de Plantinga. Ela deve não somente  implicar (2); ela deve ser consistente com (1).

4.3 Dois Non Sequiturs envolvendo a condição de consistência

O problema é que, uma vez que tenhamos contado a história inteira de forma a satisfazer a condição de implicação, não fica nem um pouco claro que a conjunção expandida de (1) e (3) a (10) é consistente.

Em primeiro lugar, não é evidente que todas as proposições na conjunção de (3) a (10) sejam consistentes mesmo com a onipotência divina. Não é difícil enxergar o problema. O próprio Plantinga define a onipotência de Deus como a ausência de quaisquer limites não-lógicos ao poder de Deus, significando que o poder de Deus para agir ou se abster é restringido somente pelas leis da lógica. Então considere a premissa

(5) Deus não poderia ter criado um universo contendo o bem moral (ou tanto bem quanto este contém) sem criar o mal moral. (p. 167)

Esta, lembre-se, é uma das orações na conjunção expandida, a conjunção que supõe-se não apenas implicar (2) como também ser consistente com a onipotência divina. Ainda que (5) assevere que Deus é incapaz de algo logicamente possível. Em face disso, esta não é uma proposição consistente com a onipotência. Pois quais são as leis lógicas que impedem Deus de criar um mundo moralmente perfeito?

Segundo, mesmo se nos fizermos de cegos e supormos, a título de argumentação, que (5) é consistente com a onipotência divina, o argumento de Plantinga ainda ficaria longe de demonstrar que a conjunção expandida completa é consistente também com a onisciência e a suprema bondade de Deus. Mais uma vez sua Defesa, tal como apresentada, envolve um non sequitur. Ele afirmou anteriormente que porque (3) é consistente com a onipotência divina, também é consistente com todos os atributos listados em (1). A fim de que a condição de consistência seja satisfeita, ele teria que dizer o mesmo sobre (5).

4.4 O cenário de Russell: uma refutação por analogia lógica

Considere o que eu chamo de “o cenário de Russell”. Em seu ensaio “A adoração de um homem livre”, Bertrand Russell imagina Mefistófeles contando a história da criação da seguinte forma:

Os louvores intermináveis dos coros angelicais começaram a ficar cansativos; pois, afinal, não seria Ele, de fato, merecedor destes louvores? Não lhes proporcionara alegria sem fim? Não seria muito mais divertido receber louvores imerecidos, ser adorado por seres que ele torturara? Ele sorriu em seu íntimo, e resolveu que o grande drama deveria ser representado.[11]

Simplesmente adicione a premissa de que tortura gratuita é uma ação moralmente condenável e o cenário de Russell por si próprio autoriza-nos formalmente a derivar a verdade de (2), a existência do mal, e assim satisfazer a condição de implicação. Lembre-se, então, que Plantinga disse que (3) — a proposição de que toda essência padece de depravação transmundial —  é “consistente com a onipotência de Deus”, e seguiu para a próxima frase, afirmando que “Mas então isto é claramente consistente com (1)”, isto é, com a proposição de que Deus também é onisciente e perfeitamente bom. Se a consistência de uma proposição p qualquer com a onipotência de Deus basta também para estabelecer sua consistência com sua onisciência e perfeita bondade, então a consistência do cenário de Russell com a onipotência de Deus, tomada em conjunto com o fato de que implica o mal, também bastaria para estabelecer sua consistência com sua onisciência e suprema bondade. Ainda que o Deus do cenário de Russell seja claramente perverso, não bondoso.

O que saiu errado aqui? A resposta, como eu disse antes e como o cenário de Russell demonstra brilhantemente, é que da consistência de alguma proposição ou conjunto de proposições p com a onipotência de Deus não se segue que p é consistente com a constelação completa de atributos divinos enunciados em (1).

5. A definição leibniziana de Plantinga de Onipotência

Para compreender exatamente o que está se passando consideremos o conceito de onipotência mais cuidadosamente. Plantinga define a onipotência da seguinte maneira:

o teísta afirma que Deus é onipotente — o que significa, grosso modo, que inexistem limites não-lógicos para seu poder. (p.167)

As implicações da definição de Plantinga deveriam ser óbvias. Ela de fato concede a existência de limites lógicos ao poder de Deus. É logicamente impossível para ele tornar falsa uma proposição necessariamente verdadeira. Mas esta é toda a limitação que a lógica impõe ao poder de Deus. Visto que proposições contingentes não são nem necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas, i.e., são tanto possivelmente verdadeiras como possivelmente falsas, não há limites lógicos à capacidade de Deus para tornar qualquer proposição contingente verdadeira ou falsa através da efetivação do estado de coisas que a tornaria verdadeira ou falsa, conforme o caso.

E uma vez que (por definição) inexistem quaisquer limites não-lógicos, segue-se que nos domínios da contingência, o poder de Deus para escolher quais estados de coisas efetivar ou se abster de efetivar é absoluto. Se Deus escolhe colocar certos limites não-lógicos a sua onipotência — ao escolher criar apenas um tipo específico de mundo ou ao delegar alguns de seus poderes a outros seres, por exemplo — isto é totalmente com ele, não temos nada a ver com isso. Mas ele então não pode alegar, nem Plantinga simplesmente afirmar a seu favor, que ele não poderia realmente ter agido de outra maneira no sentido absoluto a ele atribuído pela definição de onipotência.

5.1 Consequencias lógicas da definição

Não deveria haver discussão sobre isso. Da definição de onipotência segue-se que no sentido absoluto de “pode”, Deus pode efetivar qualquer estado de coisas contingente que escolher. Os críticos “das terras lá embaixo” de Plantinga tem apenas que acrescentar que como não existem contradições envolvidas na concepção de um mundo no qual  é contingentemente o caso de que existem criaturas significativamente livres que sempre fazem o que é certo, segue-se que, no sentido relevante para a onipotência de “poderia”, Deus poderia ter criado justamente tal mundo em vez do mundo contendo o mal no qual nos encontramos. Esta é razão pela qual Mackie, por exemplo, declara

(11) Deus poderia ter efetivado mundos nos quais pessoas significativamente livres sempre fazem o que é certo.

e deduz, contradizendo a premissa (5) de Plantinga,

(12) Deus poderia ter efetivado um mundo possível no qual o mal não existe.

Se Mackie está certo sobre (11) e (12), Plantinga está errado sobre (5), o “coração” de sua Defesa do Livre-Arbítrio.

Tanto Leibniz quanto Mackie sustentaram que existem vários mundos possíveis nos quais o mal não existe. Como o próprio Plantinga observa, Leibniz portanto raciocinou que como Deus é perfeitamente bom e teria criado o melhor mundo que fosse capaz de criar, o mundo real no qual vivemos deve ser o melhor dos mundos possíveis apesar do mal que contém, enquanto Mackie raciocinou que como o mundo real claramente não é tão bom quanto um no qual o mal não existe de maneira nenhuma, Deus não pode ser o suprassumo da bondade que seus adoradores fazem-no ser.

5.2 Porque Leibniz não erra

Plantinga, entretanto, afirma que tanto Leibniz quanto Mackie cometeram um erro. Mackie, ele admite, está “certo em sustentar que existem vários mundos possíveis contendo o bem moral mas não o mal moral” (p. 184). Mas então, ele diz, não se segue que Deus poderia ter efetivado qualquer destes mundos. Supor o contrário, ele afirma, é cometer o que ele chama de “o lapso de Leibniz” (p. 184).

Em sua visão tanto Leibniz quanto Mackie negligenciaram o fato de que sob certas condições era impossível para Deus criar um mundo no qual existe o bem mas não o mal. Após especificar estas condições, ele declara

Sob estas condições Deus poderia ter criado um mundo que não contivesse o mal moral somente criando um mundo sem pessoas significativamente livres (p. 189).

Bem, quais são estas condições, aquelas que supostamente tornam (5) verdadeira? Aquelas que cumprem esta tarefa em seu argumento vem a ser aquelas enunciadas nas premissas (6), (7), (3) e(4). Ainda que todas estas sejam condições não-lógicas, condições que são impostas a Deus não pela lógica mas por si próprio[12].

Consideremo-las.

A premissa (6) nos diz que Deus achou que um mundo contendo criaturas significativamente livres seria melhor, “tudo o mais sendo igual”, que um mundo sem  criaturas livres. Mas nenhuma consideração lógica o obriga a pensar assim. Logicamente falando ele poderia ter chegado a uma conclusão diferente, especialmente a luz do fato de que, em virtude de sua onisciência, ele sabia que a cláusula ceteris paribus não seria satisfeita. Não há equivalência moral entre, de um lado, um mundo no qual somos acossados por todos os males conhecidos pela humanidade, e, por outro lado, um mundo “paradisíaco” isento de toda e qualquer forma de mal. A maioria das vítimas de sua escolha voluntariamente abririam mão dos supostos benefícios do livre-arbítrio libertário a fim de evitar as condições infernais que prevalecem em parte considerável do mundo*. Embora existam mundos possíveis nos quais (6) é verdadeira, também existem alguns nos quais é falsa. Deus não estava sob nenhuma limitação lógica para torna-la verdadeira. A premissa (6) meramente fala sobre condições não-lógicas que Deus impôs a si próprio.

Similarmente com a premissa (7), a declaração de que Deus realmente criou criaturas significativamente livres. Claramente (7) poderia ter sido falsa. Caso contrário Deus não teria tido a escolha que (6) considera possível. Então, se Deus fez o que (7) diz que fez, só pode ser porque ele livremente escolheu torna-la verdadeira apesar de conhecer as consequências de sua escolha.

5.3 Uma ambiguidade fatal a respeito do escopo da depravação transmundial.

E sobre a premissa (3), a afirmação de que todas as criaturas de Deus padecem de depravação transmundial? Não poderia Deus ter efetivado algum outro tipo de criaturas? A resposta de Plantinga é curiosa: “Talvez. Mas, mais uma vez, talvez não.” (p. 187)

Mas o que Plantinga quer dizer com “talvez”? Está ele dizendo que é logicamente possível que Deus poderia ter efetivado criaturas cujas essências não fossem depravadas? É o que parece. Mais adiante, quando ele discute seu candidato favorito a alguém padecendo de depravação transmundial, Curley Smith, o prefeito hipotético de Boston, ele escreve

Observe que a depravação transmundial é uma propriedade acidental daquelas essências e pessoas por ela afligidas. Pois suponha que Curley sofra de depravação transmundial; igualmente sua essência. Existe um mundo, entretanto, no qual Smith é significativamente livre mas sempre faz o que é certo. Se esse mundo fosse real, então é claro que nem Curley nem sua essência teriam sofrido de depravação transmundial.” (p. 188)

Aqui Plantinga está implicitamente reconhecendo que sua própria premissa (3), a tese da depravação transmundial, é uma proposição contingente, tanto possivelmente verdadeira quanto possivelmente falsa. Ou seja, ele está admitindo que existem de fato algumas pessoas como Curley que, em pelo menos um mundo imaginário, sempre fazem o que é certo porque possuem essências santas. Como ele diz, ” Se esse mundo fosse real, então é claro que nem Curley nem sua essência teriam sofrido de depravação transmundial.” Mas isto quer dizer que (3) não impõe, afinal, nenhuma limitação lógica sobre a onipotência divina. Então voltamos à estaca zero: por que não poderia Deus ter efetivado tal mundo? Por que Plantinga diz que “talvez” Deus poderia tê-lo feito?

A discussão de Plantinga sobre a depravação transmundial é assombrosa por seu descaramento e falaciosidade. Em certo ponto ele diz, sem medo de ser contradito por seus críticos,

É possível que toda essência criatural padeça de depravação transmundial. (p. 188)

Não há problemas com isso já que aqui ele está apenas afirmando que existe ao menos um mundo possível no qual (3) é verdadeira[13].

Mas então, sem aviso, ele alterna para a suposição de que o mundo possível a respeito do qual está falando é o mundo real, e escreve

Se esta possibilidade fosse real, então Deus não poderia ter criado qualquer dos mundos possíveis que incluem a existência e a liberdade apenas das pessoas que de fato existem, e também contem o bem moral mas nenhum mal moral. (p. 186, enfâse minha) [14]

Aqui ele nos convida a partilhar de sua suposição de que o mundo possível no qual (3) é verdadeira é o mundo real, o mundo possível que contém pessoas reais. Entretanto, se o alcance e a extensão do significado de “toda” em (3) é considerado apenas em referencia às essências que são instanciadas no mundo real, então (3) é verdadeira somente porque Deus escolheu assim fazê-la, não porque foi logicamente obrigado a fazê-la assim[15].

Se, por outro lado, a âmbito de “toda” abraange as essências em todos os mundos possíveis, então (3) não é nem verdadeira nem possivelmente verdadeira. Não é verdadeira já que existem mundos possíveis nos quais as essências criaturais não sofrem de depravação transmundial. Pior ainda, (3) não é nem possivelmente verdadeira já que exclui a possibilidade lógica de essências santas e angelicais. Mackie salientou em (12) que é logicamente possível que existam mundos nos quais pessoas significativamente livres sempre fazem o que é correto. E Plantinga concordou. Portanto, se (3) for tomada num sentido que nega tal possibilidade lógica, (3) seria necessariamente falsa.

O equívoco de Plantinga em relação ao escopo de “toda” em (3) entrega o jogo. Pois a questão era por que Deus escolheria efetivar um mundo contendo criaturas depravadas quando havia uma alternativa melhor. Dizer que a melhor alternativa é o mundo real por Deus efetivado não é resposta. Pois o mundo real é real somente porque Deus o escolheu no conjunto de todos os mundos possíveis como aquele que seria implementado. A disputa entre Mackie e Plantinga é sobre quais mundos Deus poderia ter criado, não qual mundo ele de fato criou. A universalidade da depravação transmundial no mundo real não mostra que Deus achou logicamente impossível efetivar um mundo possível livre de tal depravação. Dada sua onipotência, Deus poderia ter criado um mundo contendo o bem moral mas não o mal moral. Desta forma, as premissas de Plantinga (6) a (8) poderiam muito bem ser verdadeiras sem que fosse verdade que o mal existe. É sua premissa (3) que origina o problema. Um problema para Plantinga, isto é, não para Leibniz ou Mackie.

Meu ponto pode ser apresentado na forma de um dilema. Se o escopo do quantificador universal “toda”, como ocorre em (3), abraange as essências criaturais em todos os mundos possíveis, então (3) negaria a possibilidade lógica de mundos nos quais humanos como Curley são isentos de depravação transmundial. Ainda que o próprio Plantinga admita que tais mundos são de fato logicamente possíveis. Portanto, uma vez que qualquer coisa que seja logicamente possível é necessariamente possível, negar que tal mundo seja possível seria afirmar algo necessariamente falso. E se a premissa (3) fosse falsa (sem falar em necessariamente falsa) então o argumento de Plantinga estaria em má situação, desprovido de solidez. Mas se, por outro lado, o escopo de “toda” abarca somente as essencias criaturais que existem no mundo real, então (3) deixa em aberto a possibilidade de Deus efetivar um mundo povoado de criaturas como o virtuoso Curley. Mas nesse caso a alegação contrária de Plantinga, em (5), de que é possível que Deus não poderia ter criado um mundo contendo o bem moral mas sem o mal moral, é falsa e seu argumento mais uma vez se mostra defeituoso. Sob qualquer interpretação que se faça de (3), o argumento de Plantinga soçobra.

5.4 Foi tudo “culpa de Deus”

Em qualquer caso, Deus não estava sob qualquer coação lógica para instanciar quaisquer essências como (4) pressupõe. Por definição, sua onipotência é limitada somente pela lógica, não por suas próprias escolhas, como que tipo de mundo criar ou criar ou não criar um mundo, afinal. Plantinga efetivamente reconhece isto quando nos diz

Obviamente cabe a Deus, em absoluto, decidir criar ou não criaturas livres; mas se ele intenciona produzir o bem moral, então ele deve criar criaturas significativamente livres de cuja cooperação ele deve depender. (p. 190, ênfase minha)

E ele continua com a concordância explícita de que ao faze-lo Deus está se colocando sob limitações outras que não aquelas ditadas  pela lógica:

Assim o poder de um Deus onipotente é limitado pela liberdade que ele confere a suas criaturas. (p. 190)

Confere sem o nosso consentimento ou aprovação, é claro(**).

5.5 A distinção entre modalidades absolutas e modalidades consequenciais

A esta altura deveria estar claro que a expressão “não poderia”, como ocorre em (5), não significa nada mais do que (5) ser uma consequencia lógica das autoimpostas, e portanto não-lógicas, condições especificadas em (3), (4), (6) e (7) em particular. Devemos distinguir, portanto, entre dois sentidos assaz diferentes de expressões modais como “poderia” e “não poderia”, “possível” e “impossível”, e seus cognatos. No sentido absoluto da palavra, a onipotência de Deus consiste na inexistência de limites não-lógicos a seus poderes. No sentido absoluto da expressão “não poderia”, tal como ocorre em (5), (5) é não somente falsa como necessariamente falsa já que não há limites não-lógicos à capacidade de Deus criar um mundo com o bem moral mas sem o mal moral. O único sentido no qual (5) é verdadeira é aquele no qual a expressão “não poderia” é usado no que chamarei sentido consequencialista, aquele no qual sua incapacidade de criar um mundo sem o mal é uma consequencia de seu cerceamento de seus poderes absolutos por se colocar sob certas limitações não-lógicas.

Mas há um problema aqui. Na interpretação consequencial, o argumento de Plantinga nõ faz o que quer que seja para lidar com a objeção “das terras lá embaixo” de que se Deus houvesse disponibilizado a si próprio os poderes absolutos que, por definição, sua onipotência lhe confere, ele “poderia” ter criado um mundo contendo o bem moral mas sem o mal moral. Ser consequencialmente impossivel é compatível com ser absolutamente possivel. Logo, o argumento de Plantinga, que trabalha com o  sentido consequencial, não faz nada para refutar o argumento de Mackie, que trabalha com o sentido absoluto.

5.6 O ardil de Plantinga

Com o objetivo de sustentar a acusação de que Leibniz cometeu um deslize, Plantinga teve que lançar mão do que chamo de o ardil de Plantinga: aquele da ambiguidade das noções de possibilidade e impossibilidade[16]. Ele quer que leiamos “não poderia” como ocorre em (5) em seu sentido consequencial de modo a tornar (5) consistente com a onipotência de Deus — como tem que ser a fim de que sua estratégia de prova seja bem sucedida. Ao mesmo tempo, ele quer que leiamos esta expressão como ocorre em (5) em seu sentido absoluto de maneira a tornar (5) contrária a uma das implicações da onipotência divina — como tem que ser para que sua estratégia de denegação da refutação “das terras lá embaixo” pareça exitosa. Mas ele não pode ter as duas coisas ao mesmo tempo. Nenhuma proposição pode ser tanto consistente com e ao mesmo tempo contrária a outra. Sua Defesa do Livre-Arbítrio é uma fraude lógica perpetrada contra os desavisados por meio de um ilusionismo semântico(***). Não foi Leibniz cuja lógica falhou. Foi Plantinga. Ele não se fixou à definição de onipotência à qual explicitamente subscreveu.

5.7 A trapalhada modal de Plantinga

Será o ardil de Plantinga um caso de dissimulação deliberada — o tipo de atitude esperada de um dedicadíssimo advogado de defesa? Arremedando Plantinga, alguém pode dizer, “talvez. Mas, mais uma vez, talvez não.” Talvez sua astúcia costumeira o tenha abandonado. Talvez Plantinga simplesmente tenha sido incapaz de perceber a distinção entre os usos absolutos e consequenciais de termos modais como “possível”, “impossível” e seus cognatos: expressões como “pode”, “poderia”, “não pode” e “não poderia”. Talvez ele deva ser visto cerrando fileiras com incontáveis outros metafísicos que cometeram uma falácia tão endêmica que merece ser chamada “A” Trapalhada Modal.

5.8 Interlúdio sobre a prevalência da Trapalhada Modal

Um caso em questão refere-se a todos aqueles que supõem que a verdade necessária do enunciado “O futuro será o que será” compromete-nos a  acreditar que o futuro deve ser o que vai ser e é-nos impossível desviar o futuro de seu curso predeterminado. Eles supõem que a lógica em si mesma compromete-nos com o fatalismo.

Analisando, seu raciocínio se desenvolve da seguinte maneira. Considere a proposição

(13) Se P então P.

onde P é uma proposição contingente como a de Aristóteles “Uma batalha ocorrerá na baía de Salamina.” Como (13) é uma verdade lógica, e portanto necessariamente verdadeira, também é verdadeiro que

(14) É necessário que se P então P.

Em (14) a propriedade modal de ser necessariamente verdadeira é atribuída a (13), e a expressão “necessário” está sendo usada em seu sentido absoluto significando que não há condições lógicas possíveis sob as quais (13) seja falsa. Agora (14) permite-se ser expressa  por sentenças como

(15) “Se P então é necessário que P.”

e sua equivalente sintática

(16) “Se P então é impossível que não-P.”

Mas em (15) e (16) temos uma potencial fonte de confusão lógica. Por um lado, podemos pensar em cada uma delas como meramente expressando (14) em outras palavras. E nesse caso nada remotamente fatalístico parece seguir-se da verdade necessária da qual principiamos. Mas, por outro lado, podemos equivocadamente pensar em (15) e (16) como atribuindo necessidade ou impossibilidade absoluta à cláusula consequencial ou à sua negação, respectivamente.

Essa é a falácia cometida por vários metafísicos quando discutem o problema dos futuros contingentes de Aristóteles. Aristóteles levantou a questão de saber se, se é verdade que uma batalha marítima vai ocorrer na baía de Salamina, segue-se que tal batalha marítima deve ocorrer, e não pode senão ocorrer. Responder “sim” pareceria comprometer-se com a afirmação de que a verdade lógica de (13), como expressa em (14), implica que o futuro é predeterminado e que não há nada que alguém possa fazer sobre isso. É supor, como coloquei certa vez, que o determinismo lógico — a verdade lógica de (13) — implica o fatalismo lógico[17]. Mas, é claro, a lógica sozinha não decreta que a proposição P, como ocorre na oração consequente de (15) e (16) é em si mesma “necessariamente verdadeira” ou que sua negação, não-P, é “não possivelmente verdadeira” ou “impossível”. Estas expressões modais, como ocorrem nas consequentes de (15) e (16), não deveriam ser entendidas em seu sentido absoluto, mas num sentido consequencial. Pois a proposição P, lembre-se, é uma proposição contingente e portanto não necessariamente verdadeira e não tal que sua negação seja impossível. Quer dizer, porque P — por hipótese — é contingente, ela poderia ser falsa (onde “poderia” é para ser compreendida no sentido absoluto.) Supor que P não pode ser falsa baseado nas lamentavelmente expressas sentenças (15) e (16) é confundir os usos consequenciais destas expressões modais com seus usos absolutos. É incorrer na Trapalhada Modal. Tudo o que segue-se da, é implicado pela, verdade da proposição de que uma batalha ocorrerá é que ela ocorrerá, não que ela deve ocorrer ou que sua não-ocorrência é “impossível”.

Uma falácia modal paralela infecta o pensamento daqueles que supõem que a doutrina do fatalismo teológico ou predestinação resulta da doutrina da onisciência divina. A doutrina da onisciência declara que para qualquer proposição verdadeira P Deus sabe “desde toda a eternidade” que P. Agora considere qualquer proposição no formato

(17) Deus sabe que P.

onde P é uma (supostamente) proposição contingente verdadeira tal como “Judas trairá Jesus”. Então, como Deus sabendo P ser verdade implica a verdade de P, ambas as seguintes proposições serão verdadeiras:

(18) Se Deus sabe que P, então P.

e

(19) Necessariamente se Deus sabe que P, então P.

Agora considere as sentenças

(20) “Se Deus sabe que P então necessariamente P”.

e

(21 “Se Deus sabe que P então é impossível que não-P”.

Podemos interpretar as sentenças (20) e (21) inofensivamente como expressando nada mais que (19). E quando as interpretamos assim elas não trazem consigo nenhuma insinuação da idéia de que Deus de alguma maneira predeterminou a traição de Judas. Podemos ainda interpretar estas mesmas sentenças como apoiando a doutrina da predestinação.

Assim, alguns teólogos pensaram que presciência de Deus de eventos futuros, tais como a suposta traição de Jesus por Judas, exige a ocorrência desses eventos e torna sua não-ocorrência impossível. Eles pensaram que a presciência de Deus do que Judas faria tornou Judas um peão no plano de Deus para a salvação. De maneira mais geral, eles concluem, a presciência divina do futuro torna o futuro inevitável; sua presciência determina não somente o futuro de Judas como também predetermina o futuro de todos nós. Ainda que seja fácil ver que esta exposição da relação entre presciência e predestinação compreende erroneamente a lógica da situação[18]. Similar ao argumento do fatalismo lógico, este argumento da preordenação incorre traiçoeiramente na Trapalhada Modal: o erro de supor que a oração consequente por si só é necessária (como em (20)) ou sua negação impossível (como em (21)) quando, por uma questão de lógica, cada uma delas é contingente.

5.9 De volta para a Trapalhada Modal de Plantinga

Em termos gerais, o que estou chamando “A Trapalhada Modal” é a atribuição ao consequente Q de uma proposição necessariamente verdadeira que possua a forma “Se P (o antecedente) então Q (o consequente)” de uma propriedade modal que o termo não possui. Em contextos lógicos, ela surge quando uma sentença no formato “Se P então necessariamente Q” is taken a atribuir necessidade ao consequente quando este não é necessário mas contingente e portanto possivelmente falso; ou novamente quando uma sentença no formato “Se P então é impossível que não-Q” é considerada atribuindo impossibilidade à negação do consequente quando a negação do consequente não é impossível mas contingente e portanto possivelmente verdadeira[19]. O consequente irá, é claro, ser consequencialmente necessário no sentido de ser uma consequencia necessariamente lógica das premissas antecedentes das quais é derivado; e a negação desse consequente será, correspondentemente, consequentemente impossível. Mas disso não resulta que o consequente é absolutamente necessário ou que sua negação seja absolutamente impossível. Supor que isto sucede é incorrer na Trapalhada Modal e violar o que tem sido apropriadamente chamado de “O Princípio da Imutabilidade do Status Modal”: em particular, o princípio metalógico de que nenhuma proposição contingente jamais “se torna” necessária ou impossível somente em virtude de aparecer na conclusão de um argumento válido[20].

Por agora deveria estar claro que a Defesa do Livre-Arbítrio de Plantinga está encurralada pela Trapalhada Modal. Ela possui a forma geral de um argumento a partir de

(22) Necessariamente, se Deus efetiva um mundo no qual as proposições (3) até (10) são verdadeiras, então o mal existe.

para

(23) Se Deus efetiva um mundo no qual as proposições (3) até (10) são verdadeiras, então é impossível que o mal não exista.

Para os propósitos de sua Defesa, Plantinga deseja que concluamos que a impossibilidade da não-ocorrência do mal, conforme asseverada no consequente de (23), é absoluta. Mas tudo que ele mostrou foi que a ocorrência do mal é uma consequencia lógica dos atos de Deus.

5.10 Veredicto provisório

Um breve resumo: Leibniz não cometeu nenhum deslize; tampouco Mackie. Ou Plantinga permitiu-se deliberadamente um ardil ou caiu vítima da Trapalhada Modal.

Mesmo quando caridosamente reconstruído, o máximo que o argumento de Plantinga demonstra é que Deus não poderia ter agido de outra maneira no sentido de que que ele é incapaz de evadir-se das consequencias lógicas das condições não-lógicas impostas a si por si próprio ao exercer plenamente sua própria liberdade de escolha.

Mas isso não absolve Deus da responsabilidade pelas consequencias de suas escolhas.

Com o colapso da da defesa o “ele não poderia ter feito diferente” de Plantinga, a questão da culpabilidade de Deus fica acentuadamente clara. O que dizer de um Deus hipotético que injustificadamente inflige às suas vítimas cada mal conhecido pela humanidade quando poderia ter escolhido outra alternativa? Que dizer de um Deus que se encaixa perfeitamente no cenário de Russell?

6. Dia do Julgamento: Deus Todo-Poderoso e Onisciente, Não Moralmente Perfeito

COm o objetivo de orientar nossas intuições, contarei uma parabóla sobre outro personagem fictício: o análogo terreno de Deus, o Cão (em inglês Dog, trocadilho com God=Deus).

6.1 O julgamento do Cão Todo-Poderoso e Onisciente

“Cuidado com o Cão”, disseram os vizinhos. Eles se referiam ao Cão Todo-Poderoso e Onisciente.

O Cão, veja você, era um criador de cães que reinou supremo numa ilha que ele próprio construiu. Apesar de seu nome, ele não era realmente todo-poderoso. Não no sentido no qual Deus era todo-poderoso, pelo menos. Seus poderes eram limitados não somente pelas leis da lógica, mas também pelas da natureza. Dentro destes limites, entretanto, ele era capaz de fazer qualquer coisa fisicamnte possível. E ele tampouco era onisciente. Mas ele entendia o bastante das leis da natureza e suas aplicações para ser capaz de prever, sem falhas, o que o futuro seria.

Um dia o Cão teve uma idéia. Ele criou uma ninhada de cães à sua imagem e semelhança e concedeu-lhes o valioso dom da liberdade. Pois, como seu advogado de defesa disse, quando o Cão foi levado a julgamento por flagrante e brutal violência contra os animais, o Cão achou melhor, “tudo o mais sendo igual”, povoar sua ilha com cães livres em vez de com cães sem absolutamente nenhuma liberdade.

Agora, o Cão tinha uma escolha. A única forma pela qual ele poderia criar sua prole selecionada de cães era gestar alguns embriões congelados (o correlato terreno das essência abstratas de Plantinga) que estavam estocados em sua câmara criogênica. Alguns destes, eles sabia, eram embriões de uma linhagem dócil que, se gestados, jamais se comportariam mal. Por outro lado, alguns outros embriões eram de uma linhagem de cães selvagens cuja efetivação, ele sabia de antemão, levaria aos mais horríveis resultados imagináveis. Super pitbulls, era o que eles eram. E entre eles um super pitbull gigantesco, Satanás, um cão que mataria e mutilaria incontáveis cães menores e infecta-los-ia com sua própria disposição malévola.

Qual linhagem o Cão escolheria? Por alguma razão inexplicada, o Cão escolheu gestar a linhagem selvagem e deixa-los significativamente livres, desacorrentados, sem focinheiras e sem adestramento. o resultado era previsível. Ele de fato sabia o que aconteceria. Satanás e seus comparsas tornaram a vida dos cães menos poderosos e das outras criaturas das ilha um verdadeiro inferno. E nestas condições, estes cães frágeis fizeram aos outros o que outros lhes haviam feito. Fome e sofrimentos, assassinatos e massacres prevaleceram por todo o mundo do Cão. Todavia o cão nada fez para intervir. Como o Deus do capítulo 1:13 do Gênesis, o Cão Todo-poderoso olhou para tudo o que havia feito, e viu que era bom. Como o Deus do cenário de Russell, ele desfrutou da adoração que seus cães lhe devotavam apesar de seus sofrimentos. Como Madeleine Albright, ele achou o preço justo.

Lembre-se, o advogado do cão — o parceiro mirim de Plantinga — apresentou uma defesa. Lendo o resumo que Plantinga preparou ( sua exposição preliminar da Defesa do Livre-Arbítrio), e substituindo somente duas palavras (Deus por Cão e criaturas por pitbulls), ele argumentou da seguinte maneira no tribunal:

Um mundo contendo pitbulls significativamente livres é mais valioso, tudo o mais sendo igual, do que um mundo que não contenha absolutamente nenhum pitbull livre. Agoa o Cão poderia criar pitbulls livres, mas ele não poderia causa-los ou determina-los a fazer somente o que é certo. Pois se Ele o fizesse, então suas criaturas não seriam significativamente livres em absoluto; eles não fariam o que é certo livremente. Para criar pitbulls capazes de fazer o bem, ele teve que cria-los também capazes para o mal; e ele não poderia deixar estes pitbulls livres para realizar o mal e ao mesmo tempo impedi-los de faze-lo. O Cão de fato criou pitbulls significativamente livres; mas alguns deles agiram mal ao exercer sua liberdade; esta é a fonte e a origem do mal. O fato destes pitbulls livres as vezes realizarem atos errados, entretanto, não tem nenhum valor contra a onipotência ou a bondade do Cão; pois ele poderia ter evitado a ocorrência destes males somente extirpando a possibilidade do bem. (p. 167 com as substituições indicadas)

O advogado finalizou o caso a favor da defesa dizendo que “sob estas condições”, e “apesar” de sua quase-onipotência, o Cão Todo-Poderoso “não poderia” ter efetivado uma ilha na qual nenhum pitbull jamais se comportasse mal[21]. Risos abafados foram ouvidos no tribunal.

As falhas na defesa do Cão eram patentes. O promotor argumentou que o Cão, sabendo o que faria desde o início, era culpado de crime doloso psicopático quando escolheu gestar os embriões de pitbulls; culpado de imprudência ao deixar os pitbulls livres; culpado de negligência quando se eximiu de intervir; e culpado de torpeza moral quando se omitiu de prestar ajuda imediata aos animais que sofreram como consequencia de seus atos anteriores. O Cão era livre para agir de maneira diferente em qualquer das situações acima. É verdade, o Cão ele próprio não mordeu, mutilou ou assassinou ninguém. Ele não foi a causa direta destes males. Mas ele era responsável por eles, não obstante.

Juiz e júri concordaram. O cão foi considerado culpado, sentenciado e preso.

Enquanto tudo isso se passava, outro caso prosseguia, com outro acusado em julgamento.

6.2 O julgamento de Deus Todo-Poderoso e Onisciente

“Cuidado com Deus”, seus acusadores vinham dizendo há muito tempo. Eles se referiam ao Deus Todo-Poderoso e Onisciente, o Deus da fé teísta.

Além das acusações pelas quais sua contraparte humana fora considerada culpada, ele enfrentava as acusações mais graves de haver cometido crimes contra a humanidade, crimes de guerra, e de usar as forças da natureza — doenças e desastres naturais — como suas armas de destruição em massa. Na verdade, cada calamidade e cada crime, cada pecado e cada delinquencia, fora jogada a seus pés como Criador e Comandante Supremo do Universo: o Autor e Executor deliberado de tudo o que ocorrera de errado.

Mark Twain fez a acusação nos idos de 1909. Referindo-se a “Desastres, Doenças e todo o resto” como “O Grande Exército do Criador” e ao próprio Deus como seu Comandante-Em-Chefe, ele argumentou

Os cristãos começam com este enunciado direto, esta definida, inflexível e intransigente proposição: Deus é Onisciente e Onipotente.
Sendo este o caso, nada pode acontecer sem que Deus saiba antecipadamente que vai acontecer; nada acontece sem sua permissão; nada pode acontecer que ele não possa escolher impedir. Isto está claro e definido o bastante, não está? Isto torna o Criador responsável por tudo o que acontece, não torna?[22]

Um tribunal da Corte Criminal Internacional especialmente convocado estava ouvindo o caso em favor de Deus, e Plantinga era o advogado-chefe da defesa. Plantinga apresentou sua cuidadosamente preparada Defesa do Livre-Arbítrio — uma reciclagem da clássica Defesa da Necessidade ou “coerção das circunstâncias”. Mas os juízes e os membros dojúri perceberam que as únicas condições limitando as ações de Deus eram condições autoimpostas, circunstâncias implicadas por seus próprios planos para a criação. Adotando uma distinção verbal que os acólitos de Plantinga usaram posteriormente ao comentar o caso, eles notaram que a inviabilidade de Deus agir de outra maneira não implicava a impossibilidade lógica de uma linha diferente de ação.

Eles ficaram pasmos com a miopia moral de alguém que expunha uma defesa que, se aceita, absolveria Hitler de todos os seus crimes em razão do fato de ele próprio nunca haver disparado um tiro contra um judeu ou acionado as alavancas que liberavam gás nas câmaras de Auschwitz. O livre-arbítrio dos subordinados de Hitler, eles notaram, não era o elo final na cadeia de responsabilidade pelos fatos ocorridos(****); o livre-arbítrio de nada valia para absolver Hitler como o a pessoa que planejara e dera início a todas as operações com pleno conhecimento de seus resultados e consequencias. Iria o advogado de defesa, eles perguntaram, apresentar o mesmo argumento a favor de outros monstros morais da história humana, homens que produziram sofrimentos numa escala inimaginável: homens como Genghis Khan, Stalin e Pol Pot, e outros como George W. Bush e o mítico Moisés, ambos os quais alegaram sanção divina para seus crimes? Estaria ele sugerindo que os juízes adotassem dois pesos e duas medidas, aplicando ao Deus Todo-Poderoso e Onisciente padrões mais brandos do que aqueles aplicados a seus frágeis e ignorantes subordinados?

Eles lembraram o advogado de defesa que o acusado estava sendo julgado de acordo com os princípios morais concernentes à Responsabilidade de Comando como reconhecida por Ping Fa por volta de 500 a.C., princípios que foram finalmente consagrados nas Convenções de Haia de 1907, as Convenções de Genebra de 1948, e na Carta de Genebra de 1950 (Princípios III e VI que explicitamente atribuem responsabilidade a Chefes de Estado que tenham planejado e iniciado crimes contra a humanidade). E, citando o artigo 7 (3) da Corte Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia que o fato de um subordinado haver cometido crimes

não isenta, atenua ou desobriga seu superior da responsabilidade criminal se ele sabia ou possuía razões para saber que o subordinado estava para cometer ou havia cometido tais atos e o superior falhara em tomar as medidas razoáveis necessárias para impedir tais atos[23].

Este princípio, eles observaram, é um caso particular da verdade moral mais ampla:

Se uma pessoa sabe que um ato ou conjunto de circunstâncias moralmente condenável ocorrerá ou continuará a ocorrer a não ser que ela o impeça de ocorrer, e essa pessoa é capaz de impedir sua ocorrência, então esta pessoa é moralmente culpável pela ocorrência do ato ou conjunto de circunstâncias.

Em virtude de sua onipotência e onisciência, Deus foi considerado imputável antes, durante e após a ocorrência de todos os males.

Os juízes consideraram Deus culpado em todos os aspectos: crime doloso, negligência e torpeza moral bem como da acusação principal de crimes contra a humanidade.

Antes de anunciar a sentença, eles perguntara, ao acusado, Deus Todo-Poderoso e Onisciente — outrora conhecido com o “Bom” Senhor — se ele tinha algo a dizer. Mas, como seu filho diante de Pilates, ele permaneceu praticamente mudo.

A sentença foi proferida e executada. Ele foi transportado para o cemitério dos deuses, para lá se desvanecer, envolto pelas brumas do esquecimento, no olvido final que todos os deuses merecem.

E todas as pessoas sábias e de boa vontade disseram “Amem”.

7. Veredicto Final: O triunfo da Lógica e Moralidade “das terras lá embaixo”

Deus está morto, anunciou Nietzsche, fazendo uma concessão à fábula de que Deus alguma vez esteve vivo. Tenho me divertido com esta mesma ficção; mas somente com o objetivo de demonstrar que, dados o conceito teísta de Deus e a inegável existência do mal, ele nunca viveu.

7.1 O fracasso, e a irrelevância, da Defesa do Livre-Arbítrio

A defesa de Plantinga do Deus teísta é uma fraude lógica e moral. A fraude lógica tem a ver com o que Deus “poderia” ter feito quando elaborava seus planos para o mundo. A fraude moral tem a ver com o abuso por parte de Deus de seu próprio livre-arbítrio ao por em prática aqueles planos. O fato, se fosse um fato, de que os subordinados de Deus também abusaram de seu livre-arbítrio — não importa como “livre-arbítrio” seja interpretado — não é nada além de uma distração paralela. Mesmo se as conexões causais entre os atos criativos de Deus e os nossos estivessem quebradas da maneira prevista pela concepção contracausal de Plantinga, a responsabilidade última e final de Deus pelo mal não seria eliminada.

7.2  O Mal e a Responsabilidade de Comando de Deus por sua ocorrência

Plantinga pediu, mesmo que não desejasse realmente, por uma prova de que Deus não existe se o mal existe. Ele desafiou qualquer um a produzir uma proposição cuja conjunção com a indiscutívelmente verdadeira proposição

(2) O mal acontece.

demonstraria logicamente a falsidade da proposição

(1) Se Deus existe, então ele é onipotente, onisciente e totalmente bom.

Pedi e recebereis, escreveu o evangelista.

O Princípio de Responsabilidade de Comando, como reconhecido no Direito Internacional, trata exclusivamente do tipo de cenário que Plantinga desenvolveu na defesa de Deus, aquele no qual ele afirma que a responsabilidade exclusiva pelos males morais e naturais deveria ser atribuída às criaturas (humanas e diabólicas) subordinadas a Deus e não ao Comandante-em-chefe que planejou e executou a situação na qual tais criaturas se encontram.

A título de contraste, o Princípio Generalizado de Responsabilidade de Comando enuncia condições suficientes (como expressas em (3) abaixo) para considerar qualquer pessoa moralmente culpável e criminalmente responsável pela ocorrência de males, quer esses males tenham sido provocados por essa pessoa ou por seus subordinados ou por qualquer outro agente, e quer ou não qualquer dos subordinados à pessoa em questão tenha provocado esses males por sua livre e espontânea vontade. Ele se aplica não somente ao cenário de Plantinga no qual tanto males naturais como doenças e desastres são atribuíveis à atividade de subordinados não-humanos como Satanás, como também se aplica ao cenário bíblico no qual os males naturais são atribuíveis ao próprio Deus, isto é, são, como tão apropriadamente os descrevemos, “atos de Deus.”

O Princípio Generalizado de Responsabilidade de Comando, isto é, (3),  eu diria, é uma verdade moral inatacável, indiscutível e inexpugnável;  qual qualquer exceção, seja neste ou em qualquer outro mundo possível, seria moralmente exorbitante e solaparia a própria moralidade. Portanto, se quaisquer verdades morais são candidatas ao status de verdades necessárias, esta é uma delas.

7.3 Uma prova formal de que se o mal existe então o Deus teísta não existe

Aqui está, então, uma refutação lógica de (1) dada a verdade da proposição (2). O Princípio Generalizado de Responsabilidade de Comando figura como a proposição (3).

(1) Se Deus existe ele é onisciente, onipotente e perfeitamente bom.
[Hipótese de que o Deus teísta existe]

(2) O mal ocorre.
[Declaração do fato indiscutível do mal]

(3) Se alguém não impede a ocorrência do mal apesar de possuir pleno conhecimento prévio de que irá ocorrer caso ele(a) não faça nada para impedi-lo e apesar de possuir poder ilimitado para preveni-lo, então esta pessoa é moralmente culpável por sua ocorrência.
[Princípio Generalizado de Responsabilidade de Comando]

(4) Em virtude de sua onisciência, Deus sabia antecipadamente que o mal ocorreria a menos que ele o impedisse ou evitasse.
[A partir de (1) pela definição de onisciência]

(5) Em virtude sua onipotência, Deus possuía a capacidade de impedir ou evitar a ocorrência do mal.
[A partir de (1) pela definição de onipotência em termos de ausência de limites não-lógicos ao poder de Deus]

(6) Deus não impediu a ocorrência do mal.
[A partir de (2) por dupla negação]

(7) Deus possuía a capacidade de impedir a ocorrência do mal e sabia que este ocorreria se ele não o impedisse.
[A partir de (4) e (5) por conjunção]

(8) Deus é moralmente culpável pela ocorrência do mal.
[A partir da conjunção de (3),(6) e (7) por modus ponens]

(9) Deus não é perfeitamente bom.
[A partir de 8 pela definição de “perfeitamente bom”]

(10) Deus não existe.
[A partir de 1 e 9 por modus tollens]

7.4 Conclusão

Supunha-se que o Deus teísta fosse moralmente perfeito bem como onipotente e onisciente. Mas a partir do fato indiscutivel de que o mal existe no mundo supostamente trazido à existência por Deus, resulta — pela indiscutível, inatacável e inexcetuável verdade moral expressa no Princípio Generalizado de Responsabilidade de Comando — que ele não pode possuir simultaneamente todas as três propriedades. Ipso facto, tal Deus nem agora nem nunca jamais existiu. É a lógica da nova refutação “das terras lá embaixo”, não a da Defesa do Livre-Arbítrio de Plantinga, que triunfa.

Notas do Autor

1. John L. Mackie, “Evil and Omnipotence,” Mind, 64 (1955). His central thesis–that God could have created persons who always freely choose the good–is elaborated at length in Chapter 9 of his The Miracle of Theism, Oxford at the Clarendon Press, 1982.

2. H. J. McCloskey, “God and Evil,” Philosophical Quarterly, 10 (1960).

3. R. D. Bradley, “A Proof of Atheism,” Sophia, Vol. VI, No. 1, April 1967, pp. 39-45. Meu próprio argumento para a inconsistência lógica era mais próximo ao de Hume que ao de Mackie. Eu simplesmente tomei como um fato dado que o assunto tinha pouco a ver com o exercício de nosso próprio livre-arbítrio (qualquer que seja sua interpretação) e muito a ver com o exercício irrestrito por parte de Deus de seu próprio livre-arbítrio–isto é, muito a ver com aquilo a que agora me refiro como sua Responsabilidade de Comando.

4. Alvin Plantinga, The Nature of Necessity, Oxford at the Clarendon Press, 1974, p. 167.

5. Para o bem da simplicidade, alterei as referencias numericas da maioria das proposições que aparecem na apresentação de Plantinga. Assim, o que no original aparece como “(31)” se torna “(3)”; “(32)” se torna “(4)”; e assim por diante.

6. http://www.apologia.com.br/?p=53

7. Sua validade deveria ser evidente mesmo para alguém que não entenda o significado das premissas.

8. Observe além disso que mesmo se (3) fosse consistente com Deus possuir cada uma destas outras propriedades separadamente, ainda assim não se seguiria que (3) é consistente com Deus possuir todas as três propriedades conjuntamente.

9. Obviamente, é um fato lógico que de qualquer conclusão C alguém pode, em virtude da regra lógica conhecida como “adição”, deduzir validamente C ou X, onde a conclusão expandida pode conter qualquer conceito desejado. Mas deduzir a disjunção C ou X não é a mesma coisa que deduzir somente C. É a este último tipo de dedução que minha regra de ouro se aplica.

10. 10 de maio de 1996, in 60 Minutes.

11. Bertrand Russell, “A Free Man’s Worship,” Mysticism and Logic, Doubleday Anchor Books, 1957, p. 44.

12. As outras premissas, (8), (9) e (10), ou são aquelas que Plantinga considera necessariamente verdadeiras (como é o caso de (8)) ou são enunciados de conexões inferenciais entre as outras premissas.

13. Presumo aqui que quando Plantinga diz que (3) é possivelmente verdadeira, ele não está usando o termo possivelmente em seu sentido puramente epistêmico, i.e., aquele em que significa algo como “por tudo que sei até agora”. Caso contrário, ele seria ainda culpado de outro tipo de ambiguidade com relação ao significado de “possivelmente”.

14. Veja também “Pois suponha que todas as pessoas que existem em alpha (sua denominação para o mundo real) padeçam de depravação transmundial.” (p. 187)

15. Vale a pena observar que na página 188 Plantinga escreve “é possível que toda essência criatural padeça de depravação transmundial” e acrescente numa nota de rodapé, a qualificação “isto é, toda essência criatural implica ser criada por Deus.” Obviamente essencias criaturais dotadas da propriedade de terem sido criadas por Deus são apenas aquelas pessoas que existem no mundo real.

16. Para uma minuciosa discussão deste e de outros usos problemáticos de expressões modais veja Bradley and Swartz, Possible Worlds: an Introduction to Logic and its Philosophy, Indiana, Hackett Publishing Company, and Oxford, Basil Blackwell Publisher, 1979, pp. 328-332. Lá distinguimos entre os usos absolutos e relativos de expressões modais. Aqui, por razões de clareza, escolhi traçar a distinção entre usos absolutos e consequenciais.

17. “Must the Future be What it is Going to Be?,” Mind 68; republicado em The Philosophy of Time, ed. Richard M. Gale, 1967; New York, Anchor Books.

18. Há um fundamento melhor visto que dizer que Deus determina o que o futuro nos reserva por ter nossos destinos “escritos no livro da vida” desde “a fundação do mundo” é o que lhe confere a presciência de nossos futuros.

19. Vale a pena notar que uma falácia modal similar pode ocorrer em raciocínios envolvendo usos não-lógicos de termos modais, por exemplo, seus usos para expressar modalidades causais (conceitos modais envolvendo leis causais em vez de lógicas). Exemplo: a inferencia inválida de “Por uma questão de necessidade (causal), se um foguete não atingir a velocidade de fuga ele cairá de volta ao solo” para “Se um foguete não atinge a velocidade de fuga então é (causalmente) impossível que ele não caia de volta ao solo.”

20. Estou em dívida com meu amigo e colaborador filosófico (como coautor de Possible Worlds) por fornecer esta memorável formulação do princípio metalógico de violação do qual se origina o que anteriormente chamamos de “A Falácia Modal”.

21. O fato da Defesa de Plantinga ser tão facilmente parodiável diz algo sobre o qual superficial e vazia ela realmente é.

22. Mark Twain, Letters from the Earth, Fawcett Crest Book (7th printing New York, 1968), p. 33. Twain continua de maneira fulminante:

Então, tendo assim responsabilizado o Criador por todos os sofrimentos e doenças e misérias listadas acima, e que ele poderia ter impedido, o privilegiado cristão candidamente o chama Nosso Pai… O que vocÊ acha da mente humana? Quero dizer, caso você pense que existe uma mente humana.

23. Protocolo adicional 1 de 1977 para a convenção de Genebra de 1949, artigo 86 (2).

Notas do Tradutor

* “Down Under” no original; é um coloquialismo referindo-se à Austrália. É um termo utilizado majoritariamente pelos australianos, norte-americanos e europeus a fim de atribuir um apelido engraçado ao país que possui todo o seu território no sul do Hemisfério Sul, normalmente usando o termo “The Land Down Under”, ou “As Terras Lá Embaixo”.

** Duas citações vieram-me à mente ao ler este apontamento de Bradley. Da primeira não me lembro nem as palavras exatas nem a fonte, que acredito ser a parábola “O grande Inquisidor” de Dostoievski; a frase é algo mais ou menos assim: “Não há nada que um povo busque mais tão logo se veja livre da opressão e da tirania do que um novo líder para conduzi-lo”. A segunda eu retiro do capítulo de “Ascensão e Queda do Terceiro Reich” que descreve a vida sob a ditadura nazista, mais especificamente a situação da classe operária, que apoiou entusiasticamente as políticas trabalhistas implantadas nos primeiros anos do governo de Hitler: “No passado, para tantos, para cerca de seis milhões de homens e suas famílias, tais liberdades democráticas na Alemanha haviam sido ofuscadas pela liberdade de morrer de fome.”

*** “Fast and loose” no original, um jogo, mostrado no vídeo abaixo, cujo nome em português não consegui descobrir.

**** “Buck-stop”  no original, uma expressão popularizada pelo presidente norte-americano Harry Truman, referindo-se ao fato de que cabia ao presidente a tomada de todas as decisões e a responsabilidade última por suas consequências.

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