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Posts Tagged ‘Neoateísmo’

[Mais uma homenagem tardia ao recém-falecido Christopher Hitchens. Publicado originalmente no jornal O Estado de Minas do dia 24 de Dezembro de 2011.]

Dia 15, em Houston, EUA, morreu aos 62 anos um dos maiores polemistas do século, o inglês Christopher Hitchens. O cara era uma boca tão perigosa e genial que metia medo em todo espectro ideológico, da esquerda à direita. Não satisfeito em desagradar os homens, escolheu o mais poderoso dos inimigos, Deus, e se tornou a principal voz do ateísmo contemporâneo. Se hoje muita gente confessa que não acredita em Deus com naturalidade e até orgulho, deve isso a Hitchens, mesmo que não saiba. Se outros ateístas, como Richard Dawkins, trabalham no campo dos argumentos científicos (muito mais fáceis e compreensíveis mesmo aos crentes que sabem que Adão e Eva é uma historinha para crianças), Hitchens pegou na veia: além de não existir, Deus atrapalha.

Deus não é grande, seu livro de maior sucesso de público, no entanto, está longe de ser o melhor ou mais importante. Christopher Hitchens foi um jornalista atuante, que publicava nas principais revistas e jornais do mundo sobre política, literatura, guerras, religião, arte e tudo que merecesse sua inteligência atenta. Seu modelo foi George Orwell, sobre quem escreveu um estudo primoroso (A vitória de Orwell). Como Orwell, não alimentava a menor sedução pelo poder. Se havia poder, ele era contra. E tê-lo contra não era pouca coisa. Além de um estilista do jornalismo político, era bom ao vivo: falava como poucos, jorrando argumentos e informações como uma metralhadora. Outro de seus modelos foi Thomas Paine, sobre quem também escreveu. O estilo panfletário, a defesa da liberdade e da Justiça os unia.

Sua relação com a religião partia de um ponto de vista filosófico e político. Não podia aceitar verdades reveladas e menos ainda a opressão decorrente dessa fantasia. Para quem acredita que mesmo sem ideologia é possível aprovar atitudes éticas da religião, ele contra-atacava pesado. Desancou com madre Teresa de Calcutá, para ele uma pessoa de má fé, que alimentava a desigualdade sob a capa da caridade que diminuía o outro e estabelecia um poder perigoso em nome do pretenso humanismo. Quem gosta tanto de pobreza, no fundo, alimenta um desejo de que ela se perpetue. Pode ser injusto, mas não é ingênuo. Além disso, via na madre tudo que de mais reacionário a igreja produziu, inclusive a repressão sexual. Ele pegava pesado.

Para ele, a religião é a mãe de todos os vícios privados e boa parte da tirania pública registrada pela história dos dois lados do mundo. Por isso, talvez seja pouco defini-lo como ateu, era mesmo antirreligioso. Seu empenho não era defender uma posição entre outras (ateus, agnósticos e crentes, todos valendo o mesmo cacife), mas mostrar que a fé é um atraso de vida (e de conhecimento), regressivo, conservador, elitista e injusto. Se Bento XVI defende que sua religião é a única, Christopher garante que só a vida secular merece respeito. Em matéria de deuses, não escapava um, de Abrãao a Maomé. A situação ficava ainda pior quando a religião se misturava com política, de onde partia seu ódio ao que chamava de islamofascismo.

O jornalista era exagerado em tudo. Bebia muito e fumava, inclusive em serviço, como se viu em vários debates. Não fugia da raia. Sabia quanto valia e tinha fome de verdade. Digladiou com muita gente de peso, de várias confissões religiosas e ideologias políticas. Seu debate com Fernando Gabeira na Flip, em Paraty, virou folclore, como exemplo de um massacre intelectual. Em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, o próprio Gabeira diz guardar boas lembranças da ocasião, mesmo reconhecendo a dureza das palavras de seu contendor.

Intelectual público

Em sua militância, Hitchens fez reviver o papel do intelectual público, sem vinculação acadêmica exclusiva ou mesmo empresarial. Escrevia o que pensava, se unia a projetos coletivos para deixá-los adiante. O que valia era a causa. No cenário defeso das universidades e dos grandes veículos de comunicação ele foi um tipo tão temerário como necessário, espécie de reserva do jornalismo de combate. Não trabalhava para os patrões, mas para a sociedade por meio dos leitores. Para gente como ele, informação não é Twitter, mas texto trabalhado com inteligência. Para cumprir sua tarefa buscou se aproximar das grandes cabeças do seu tempo. Esteve ao lado de Chomsky, Tariq Ali e Edward Said. Quando julgou necessário, se afastou deles para ficar mais perto de si mesmo.

Sua labilidade ideológica também foi alvo de críticas. Trotskista na juventude, bandeou-se para a defesa do ideário liberal na maturidade. Como um ex-fumante viciado, sentia-se açodado a criticar tudo que vinha da esquerda. Tinha particular nojo pelo relativismo que quer convencer que toda cultura merece respeito, independentemente do que pratica com seus membros. Para um humanista liberal como ele, havia princípios de civilização que não eram negociáveis. Hitchens não era eurocentrista, mas não aceitava populismos salvacionistas rasteiros. Na juventude chegou a achar que o modelo cubano servia para sociedades pobres e afundadas em ditaduras. Mudou de ideia e nunca mais compactuou com qualquer tipo de ditadura.

Seu testamento é o livro Hitch-22, em que se desnuda com franqueza. Fala da família, das experiências homossexuais da juventude, da aproximação com o trotskismo e de sua longa jornada pelo mundo para conhecer, interpretar e interferir nos rumos da história política de seu tempo. Um livro escrito com talento de memorialista, cheio de som e fúria. O estilo mimetiza a personalidade do autor, com muitas referências culturais e capacidade de convencimento. É um testamento político único de uma inteligência destemida. Em determinado momento do livro, escreve: “É uma senhora tarefa combater os absolutistas e os relativistas ao mesmo tempo: sustentar que não há solução totalitária enquanto se insiste em que sim, nós também temos convicções inabaláveis e estamos dispostos a lutar por elas”. Em seguida renega o marxismo e se filia aos racionalistas. Puro Hitchens.

Quem quiser conhecer um pouco do pensamento de Hitchens tem alguns livros traduzidos para começar. Além da autobiografia, Hitch-22, e do livro sobre religião, Deus não é grande, estão nas livrarias A Vitória de Orwell, Cartas a um jovem contestador e Amor, pobreza e guerra. Além das ideias e do calor da defesa, há o estilista da polêmica, um homem que escrevia tão bem que é capaz de agradar até quem discorda dele. E o melhor, uma pessoa capaz de julgar os outros com intransigência, mas sujeito a reviravoltas e enganos históricos, como o apoio à invasão do Iraque.
Quando descobriu que estava com câncer diminuiu o ritmo de trabalho e as viagens, mas não parece ter amenizado a energia intelectual. Foi ativo até o fim, o que é um consolo para quem não acredita em outra vida. Sugou da única existência que concebia tudo que ela podia dar. Essa vitória, não tem Deus que tire dele. Morreu como Christopher Hitchens, nem mais nem menos.

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Nota do Editor: Nada que já não tenha sido dito antes, mas que não custa nada reiterar.

[Em sua última entrevista, Hitchens debate com Richard Dawkins temas que ocuparam sua trajetória, como a relação entre igreja e estado, o ensino da religião e os riscos do totalitarismo.]

Da “New statesman”

Como estudioso de George Orwell, você deve ter uma visão particular da Coreia do Norte, de Josef Stálin e da União Soviética e se irritar com o refrão constante: “Stálin foi um ateu”.
Não sabemos se foi. Hitler, com certeza, não foi. De qualquer modo, o ateísmo não supõe nenhuma espécie particular de posição política.

As pessoas que fizeram o trabalho sujo de Hitler foram quase todas religiosas.
Lamento dizer que a relação da SS com a Igreja Católica é algo que a igreja ainda precisa enfrentar.
Se você está escrevendo sobre a história dos anos 1930 e a ascensão do totalitarismo, pode, se quiser, tirar a palavra “fascista” em relação à Itália, Portugal, Espanha, Tchecoslováquia e Áustria e substituí-la por “partido católico de extrema direita”.
Quase todos os regimes foram instalados com a ajuda do Vaticano. Isso não é negado. Em muitos casos os entendimentos com a Santa Sé persistiram após o fim da Segunda Guerra e se estenderam a regimes comparáveis na Argentina e outros países.

Mas houve sacerdotes que fizeram coisas boas.
Não muitos, ou saberíamos seus nomes. Do mesmo modo como os nazistas pensavam ser uma raça separada, queriam sua religião própria.
Eles desencavaram os deuses nórdicos, mitos e lendas extraordinários de todo tipo saídos das sagas antigas. Queriam controlar as igrejas. Estavam dispostos a fechar um acordo com elas.
A Igreja concordou em dissolver seu partido político, e Hitler ganhou o controle da educação alemã; foi um ótimo acordo. As comemorações do aniversário dele eram ordenadas desde o púlpito.
Não há dúvida, os nazistas queriam o controle -e estavam dispostos a entrar em choque com as igrejas para conseguir isso.
As pessoas juravam por Deus que jamais desrespeitariam o juramento feito ao Führer. Isso não é nem secular, o que dirá ateu.

Agradecia-se a Hitler nas orações antes das refeições.
Creio que sim.
Você mencionou a Coreia do Norte. Ela é um Estado teocrático, em todos os sentidos. É quase sobrenatural, na medida em que os nascimentos na família (governista) Kim são vistos como sendo misteriosos e acompanhados por acontecimentos fora do comum. É uma “necrocracia” ou uma “mausoleucracia”, mas não seria possível dizer que seja um Estado secular, o que dirá um Estado ateu.
As tentativas de fundar religiões novas deveriam atrair nosso desdém, tanto quanto o atraem as alianças com as religiões velhas.
Tudo o que se afirma é que não é possível dizer Hitler tenha sido nitidamente cristão: “Talvez, se ele tivesse continuado, teria se descristianizado um pouco mais”. Isso é tudo baboseira absoluta. É falho como história e é falho como propaganda política.

E é falho como lógica, porque não existe conexão entre ateísmo e atos hediondos; por outro lado, essa ligação pode facilmente ser traçada no caso da religião, como vemos com o islã moderno.
Na medida em que a adoração a Stálin e o “Kim Il-sungismo” são novas religiões, nós, como todos os ateus, as repudiamos absolutamente.

Acusam você de ser do contra, que é uma descrição que vocês mesmo já fez de si.
Na realidade, não fiz. Eu a rejeitei. Mas a penduraram em meu pescoço e não tenho como me livrar dela.

Sempre desconfiei da dimensão política esquerda-direita.
Para mim ela já se rompeu.

Mas é espantoso como o contínuo esquerda-direita ainda exerce influência. Se você sabe o que alguém pensa sobre a pena de morte ou o aborto, sabe o que ela pensa sobre tudo. Você é uma exceção à regra.
Tenho uma coerência, que é ser contra o totalitário -o de esquerda e o de direita. O totalitário é o inimigo: aquele que é absoluto, que quer o controle do que acontece na sua cabeça, não apenas sobre suas ações e os impostos que você paga. E as origens disso são teocráticas, obviamente.
O começo disso é a ideia de que existe um líder supremo, ou papa infalível, ou rabino-chefe capaz de receber e expressar o pensamento divino e então nos dizer o que fazer.
Há formas seculares disso, com gurus e ditadores; essencialmente, é a mesma coisa.
Alguns pensadores -acima de todos, Orwell – compreenderam que, infelizmente, os humanos possuem uma forte tendência inata a adorarem, a se tornarem abjetos.
Portanto não estamos apenas combatendo ditadores. Estamos criticando os outros humanos por tentarem usar atalhos, simplificar suas vidas, rendendo-se e dizendo: “Se você me oferecer a felicidade suprema, é claro que abrirei mão de parte de minha liberdade mental em troca disso”. Afirmamos que essa é uma barganha falsa: você não receberá nada, tolo.

A parte de você que foi, ou é, da esquerda radical sempre é contra ditadores totalitários.
Sim. Fui trotskista; para nós, o movimento socialista só poderia ser reavivado se fosse purgado do stalinismo. Considerávamos o stalinismo uma teocracia.

Uma das minhas principais queixas quanto à religião é o modo como rotulam uma criança como “católica” ou “muçulmana”. De tanto reclamar disso, estou até chato.
Nunca tenha medo de ser acusado de chato, ou de excessivamente rigoroso. Não há mal no excesso de rigor. O rigor é o mínimo que você deve empregar como arma. Se você continuar a insistir em algo, o pior que podem dizer é que você é tedioso.

Hoje mesmo recebi um texto de conselhos, de um site do governo britânico, intitulado “As Responsabilidades dos Pais” ou algo assim. Uma das responsabilidades era “determinar a religião do filho”. Literalmente, determinar. Mas quando me queixo a esse respeito me dizem que ninguém rotula as crianças.
O governo, sim. A meu ver, isso vem de uma política imperial britânica, que, por sua vez, veio de impérios otomanos e anteriores: você classifica seus novos súditos segundo a fé deles.
Você pode ser um cidadão otomano, mas é um cidadão otomano judeu ou cristão armênio. E algumas dessas religiões dizem às crianças que as crianças de outras religiões vão para o inferno. Acho que não podemos proibir isso, nem podemos descrevê-lo como “discurso de ódio” -embora eu tenha minhas dúvidas-mas deveria causar alguma desaprovação.

Eu chamaria isso é abuso infantil mental.
Como libertário, não tenho como dizer que as pessoas não deveriam educar seus filhos segundo seus direitos, por exemplo. Mas a criança possui direitos, e a sociedade, também. Não permitimos a mutilação genital feminina, e acho que não deveríamos tolerar a masculina.
Mas seria muito difícil afirmar que você não tem o direito de dizer a seu filho que ele tem sorte e que ingressou para a única fé verdadeira. Não vejo como deter isso. Acho apenas que o resto da sociedade deveria olhar para isso com um pouco de desaprovação, coisa que não acontece.

Há uma tendência entre liberais de achar que a religião deveria estar fora de discussão.
Ou até mesmo de achar que existe um racismo antirreligioso, algo que, a meu ver, é uma limitação terrível.

Você acha que os EUA correm o risco de virar uma teocracia?
Não. As pessoas em quem pensamos quando falamos disso -os evangélicos protestantes extremos, que querem realmente uma América comandada por Deus e acreditam que ela foi fundada segundo princípios fundamentalistas protestantes- talvez sejam a ameaça mais superestimada no país.

Que bom.
Eles já foram derrotados em toda parte. Por que isso?
Na década de 1920, tiveram uma sequência de vitórias. Proibiram a venda, manufatura, distribuição e consumo de álcool. Incluíram isso na Constituição. Mais ou menos conseguiram proibir a imigração vinda de países de maioria não branca, não protestante. Eles nunca se recuperaram dessas vitórias.
Nunca se recuperarão do fracasso da Lei Seca. Ou do julgamento Scopes [de 1925, envolvendo o ensino da teoria da evolução nas escolas]. Cada vez que tentaram introduzir o ensino do criacionismo, os conselhos de ensino, pais ou tribunais derrotaram as tentativas, e na maioria dos casos graças ao trabalho de pessoas como você, que mostraram que é bobagem.

Isso é muito animador.
O que me preocupa um pouco mais é a natureza reacionária e extrema do papado neste momento. Por outro lado, parece que o papa não consegue muita fidelidade junto à congregação americana, que desobedece à Igreja abertamente com relação aos anticoncepcionais, o divórcio, o casamento gay, em grau extraordinário e que eu não teria previsto.
Ela está até mesmo se mantendo firme com relação ao aborto, que, em minha opinião, é uma questão moral muito forte e não deveria ser decidida levianamente.
A única ameaça religiosa real nos EUA é a mesma que, lamento dizer, existe em muitos outros países: uma ameaça externa. É o jihadismo, parcialmente cultivado no próprio país; mas em parte o jihadismo americano é fraco e se desacredita sozinho.

Chega a preocupar você a ideia de que, se vencermos e destruirmos o cristianismo, por assim dizer, o vazio poderia ser preenchido pelo islã?
Não. É engraçado, mas não me preocupo com a possibilidade de vencermos. O único que podemos fazer é nos assegurarmos de que as pessoas saibam que existe uma alternativa muito mais maravilhosa, interessante e bela. Não, não acredito que a Europa se encheria de muçulmanos à medida que se esvaziasse de cristãos. O cristianismo derrotou a si mesmo na medida em que se tornou uma coisa cultural. Não há realmente cristãos crentes, como havia gerações atrás.

Na Europa isso é verdade, certamente. Mas e nos EUA?
Acho que há uma tendência que vem de longa data, no mundo desenvolvido e em grandes áreas fora dele, de as pessoas enxergarem as virtudes da separação entre igreja e Estado, porque já experimentaram a alternativa.
A cada vez que algo como uma jihad ou movimento de sharia tomou conta de qualquer país -é verdade que isso só foi possível em casos muito primitivos-, o país é uma ruína ainda em brasa, com produtividade zero.

Analisando a religiosidade nos países do mundo e nos diferentes Estados dos EUA, constata-se que a religiosidade tende a estar correlacionada à pobreza e a vários outros índices de carência social.
Sim, é também disso que ela se alimenta. Mas não quero ser condescendente em relação a isso. Conheço muitas pessoas altamente instruídas, muito prósperas e muito reflexivas que creem. Não é inédito que pessoas tenham a ilusão de serem Deus ou o Filho sagrado. É uma ilusão comum, mas, novamente, acho que não precisamos condescender.
Rick Perry [pré-candidato republicano à Presidência dos EUA] declarou certa vez: “Não apenas creio que Jesus seja meu salvador pessoal, como creio que os que não acreditam nele vão para o castigo eterno”. Ele foi contestado em relação a essa última parte e respondeu: “Não tenho o direito de modificar a doutrina. Não posso dizer que ela vale para mim, e não para outros.”

Frequentemente me perguntam por que os EUA, uma nação de base secular, é tão mais religiosa que países europeus ocidentais que têm uma religião oficial, como os da Escandinávia ou o Reino Unido.
[Alexis] de Tocqueville acertou na mosca. Se você quer uma igreja nos EUA, tem de erguê-la com o suor de sua fronte, e muitos já o fizeram. É por isso que são tão ligados a elas. Os judeus -mas não todos-, surpreendentemente, abandonaram sua religião pouco tempo depois de chegar do Leste Europeu.

Então a maioria dos judeus abandonou sua religião?
Nos Estados Unidos, cada vez mais. Quando as pessoas vieram para escapar da perseguição religiosa e não quiseram reproduzir a perseguição, essa era uma memória muito forte.
Os judeus se secularizaram muito rapidamente quando vieram. Os judeus americanos, como coletivo, devem constituir a força mais secular do planeta, hoje. Isto é, se considerarmos que formam um coletivo, o que não parece ser realmente o caso.
Embora não sejam religiosos, muitas vezes ainda observam o shabat e esse tipo de coisa.
Isso só pode ser algo cultural. Eu celebro o Pessach todo ano. Às vezes até faço um seder [jantar em comemoração à páscoa judaica], porque quero que minha filha saiba que vem de outra tradição, de modo muito distante.
Se ela encontrasse seu bisavô, isso explicaria, porque ele fala iídiche. É cultural, mas o seder do Pessach é também o fórum socrático. É dialético. É acompanhado por vinho. Tem todos os elementos de uma discussão muito boa. E há o destino manifesto.
As pessoas sentem que os EUA são um lugar de sorte. É um país que fica entre dois oceanos, repleto de minerais, de beleza, de riqueza. Para muitas pessoas, realmente parece providencial.

A terra prometida.
Tudo isso e mais o desejo de outro jardim do Éden. Alguns utópicos seculares vieram para cá com a mesma ideia. Thomas Paine e outros todos pensaram na América como o maravilhoso recomeço para a espécie.

Mas isso tudo foi secular.
Muito foi, mas é impossível fugir da liturgia: ela é poderosa demais. Você acaba dizendo coisas como “terra prometida”, e isso pode ser usado para fins sinistros.
Mas, em muitos casos, é uma crença benigna. Trata-se só de dizer: “Devemos compartilhar nossa boa sorte”. A razão pela qual a maioria de meus amigos não é crente não tem a ver especialmente com terem participado de discussões como as que você e eu temos tido, mas com o fato de que a religião obrigatória na escola os tornou indiferentes à religião.

Ficaram entediados.
Ficaram fartos. Eles pegavam da religião, de vez em quando, aquilo de que precisavam: se precisassem se casar, sabiam aonde ir. É claro que alguns deles são religiosos, outros gostam da música, mas, de modo geral, os britânicos são benignamente indiferentes à religião.

E o fato de haver uma igreja estabelecida aumenta esse efeito. As igrejas não deveriam ser isentas de impostos, como são. Não automaticamente, de todo modo.
Com certeza, não deveriam. Se a Igreja pede que seja dado tempo igual a especulações criacionistas ou pseudocriacionistas… Qualquer igreja que ensina isso em sua escola e recebe dinheiro federal da iniciativa religiosa deveria, por lei, também ensinar o darwinismo e conhecimentos alternativos, para que se ensine o debate. Acho que elas não querem isso.

A religião comparativa seria uma das melhores armas, desconfio.
Hoje a coisa ficou tão insípida em partes dos Estados Unidos que muitas crianças crescem sem qualquer conhecimento de qualquer religião de qualquer tipo. Isso porque seus pais não lhes transmitem esse conhecimento; eles deixam a cargo das escolas, e as escolas têm medo de mexer com isso. Eu gostaria que as crianças soubessem de que trata a religião, senão algum guru ou alguma seita pode fazer a cabeça delas.

Elas são vulneráveis. Eu também gostaria que elas conhecessem a Bíblia, por razões literárias.
Precisamente. Uma parte enorme da literatura inglesa seria de difícil compreensão se as pessoas não conhecessem a Bíblia.

Você teria algo a dizer sobre o Natal?
Sim. Não poderia deixar de haver um feriado no solstício do inverno. A religião dominante não poderia deixar de tomar conta dessa festa, e isso teria acontecido mesmo sem Charles Dickens e todos os outros.

A árvore de Natal vem do príncipe Albert [consorte da rainha Vitória da Inglaterra]; os pastores e os três reis magos são todos invenções.
Cirênio não era governador da Síria, tudo isso. Cada vez mais, o Natal vem se secularizando. E essa mania de desejar “boas festas” é algo de que também não gosto.

É horrível, não? “Boas festas”
Prefiro nossas frases sobre o cosmos.

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Autor: Philip Kitcher

Department of Philosophy, Columbia University

717 Philosophy Hall, 150
Amsterdam Ave MC, 4971 NewYork, 10027, USA.

psk16@columbia.edu

Publicado originalmente em: Journal of Applied Philosophy, Militant Modern atheism

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Resumo: O ateísmo militante contemporâneo, que tem Richard Dawkins como seu mais eloquente representante, oferece uma crítica necessária e efetiva das formas fundamentalistas de religião e de seu papel na vida política, tanto num âmbito nacional quanto internacional. Por se apresentar também como um ataque mais global à religião (tout court),  o movimento tem provocado uma reação severa da parte de acadêmicos que consideram sua concepção de religião tanto vazia quanto estreita. Meu objetivo é examinar este debate, identificando os acertos e os lapsos de ambos os lados.

Dois conceitos distintos de religião estão em jogo. Para Dawkins e seus aliados (mais notavelmente Dan Dennett) religiões são baseadas em doutrinas, proposições sobre entidades sobrenaturais, eventos e processos nos quais o fiel acredita. Suas crenças determinam sua ações, que eles fundamentam ou racionalizam em referência às doutrinas. Dawkins e Dennett concebem a aceitação das doutrinas como resultado de uma falha cognitiva – estas seriam ilusões a serem dissipadas ou encantamentos a serem quebrados.

Em contraste, acadêmicos religiosos que criticam os ateístas militantes muitas vezes entendem a religião como instituições centradas em práticas sociais que enriquecem e dão significado às vidas humanas. Na medida em que existem doutrinas que os ateus podem submeter à avaliação epistêmica, estas devem ser vistas como peças de sustentação temporárias que são, em princípio, dispensáveis.

Eu afirmo que o ateísmo militante atual é incompleto (e provavelmente contraproducente) na medida em que falha  em se encarregar sistematicamente dos papéis que a religião desempenha nas vidas dos seres humanos. Deve-se reconhecer, todavia, a importância de tornar claro para o público a falsidade literal das doutrinas nas quais os fundamentalistas acreditam. O desafio agora é desenvolver uma versão bem-articulada e convincente  do humanismo secular. Vencer este desafio é, au afirmo, um dos problemas centrais da filosofia atual.

1.
Numa época em que a violência é perpetrada em nome de obrigações religiosas, quando vários grupos de pessoas buscam interferir nas vidas privadas de outras pessoas porque estas última alegadamente estariam violando mandamentos divinos, e quando descobertas importantes sobre o mundo em que vivemos são questionadas, ou mesmo negadas, por serem supostamente incompatíveis com os conteúdos de mensagens autênticas da divindade, é fácil pensar que as coisas já foram longe demais. O respeito polido por superstições excêntricas sobre seres misteriosos e suas proezas incompreensíveis pode ser apropriado na medida em que as pessoas equivocadas que a elas aderem não busquem converter, coagir ou eliminar os que não partilham de suas crenças; contudo, quando crentes ignorantes invadem a esfera pública, é importante que não lhes concedamos a seriedade que exigem. Além disso, o respeito não deveria ser extendido às deformações que os fiéis impingem às mentes dos jovens: assim como as crianças merecem ser protegidas contra pais que se recusam a permitir que eles recebam cuidados médicos, elas também tem o direito de ser protegidas contra formas de educação religiosa que irão infectar e corromper sua capacidade de pensar com clareza e coerência. Não mais habitamos as arcádias de Waugh e Wodehouse, nas quais crentes fanáticos e seus oponentes agressivos que perguntavam onde Caim encontrara um esposa eram figuras igualmente cômicas. Por causa das crenças religiosas, nosso mundo é um lugar opressivo e perigoso, e chegou a hora daqueles que valorizam a razão, a justiça, a tolerância e a compaixão fazerem algo a respeito.

O ateísmo militante atual, cujo manifesto apenas resumi, é uma reação eminentemente compreensível a determinados aspectos da vida pública talvez mais evidentes nos Estados Unidos e em partes do mundo muçulmano. Ninguém pode negar que as obras de alguns dos que articularam os temas principais deste manifesto, particularmente Richard Dawkins e Daniel Dennett, contém argumentos sólidos e insights genuínos[1]. Apesar de vários argumentos e conclusões estarem presentes nas obras de escritores antigos – em d’Holbach, Hume e Russell, por exemplo – é importante expo-los mais uma vez, expo-los eloquentemente, no contexto das condições humanas atuais e à luz do conhecimento corrente[2].

Até agora a resposta militante aos perigos e opressões tão facilmente rastreáveis ao zelo religioso suscitou uma reação adicional. Os livros dos ‘quatro cavaleiros’, dos quais Dawkins e Dennett são dois, que veem a si próprios como cavalgando em defesa de um  mundo sitiado por um nonsense ameaçador, receberam críticas duras, algumas violentas, de resenhistas que consideram o conceito de religião e do papel por esta desempenhado na vida humana adotado pelos autores desonesto e deturpado[3]. Os críticos não querem se alinhar aos movimentos religiosos que provocaram a atual onda de ateísmo militante. Eles também lamentam a existência de formas de religião grosseiras e intolerantes. Sua acusação é que os autoproclamados cavaleiros estão combatendo o fanatismo primitivo com doses de fanatismo igualmente primitivo, de modo que deformações de uma instituição humana valiosa – a religião –  são confundidas com o original saudável. O ateísmo militante atual, assim compreendido, é ele próprio aparentado ao fundamentalismo a que se opõe: intelectualmente simplório, agressivamente intolerante e perigosamente polarizante. Ao restringir as alternativas e propor uma escolha difícil, é provável que leve pessoas com concepções religiosas razoáveis a percebe-lo como uma ameaça às suas próprias práticas, e assim a cerrarem fileiras com os fanáticos.

Os ateístas militantes atuais tem respondido à estas acusações.  Eles podem assinalar, razoavelmente, que a mais proeminente, e provavelmente a mais prevalente, forma de religião contemporânea não corresponde às idéias sutis acalentadas por seus críticos, mas às doutrinas mais grosseiras que eles atacam diretamente. Eles podem desafiar os que acreditam numa ‘religião racional’ a especificar mais claramente quais compromissos tais tipos de religião implicam – a declarar em público o que foi abandonado, e a assumirem a responsabilidade pela declaração. Eles podem exigir que os que professam uma religiosidade mais esclarecida não mais acobertem fanáticos que sustentam uma visão simplista dos textos religiosos que compartilham com os sofisticados.

Até aqui apenas apresentei as linhas gerais de um importante debate contemporâneo. Na qualidade de humanista secular, que compartilha várias das conclusões a que chegaram os ateus militantes atuais, mas que também concorda com os críticos que alternativas valiosas estão sendo excluídas da discussão, eu tentarei, no restante deste artigo, trabalhar em cima das questões envolvidas. Será útil começar devagar.

2.

Várias discussões contemporâneas sobre a religião, especialmente as que se concentram nos três monoteísmos abraâmicos, distinguem formas fundamentalistas de religião de outras mais sofisticadas. Fundamentalistas são tipicamente concebidos como pessoas que insistem na leitura dos textos sagrados como verdades literais. Seus co-religionários mais argutos distinguem-se pela disposição em reconhecer que parcelas significativas das Escrituras devem ser lidas como metáforas ou alegorias, e num caso extremo supõem que o cânone inteiro seja interpretado conotativamente. Os debates então concentram-se na possibilidade de se defender a veracidade literal de qualquer sentença importante nos textos pertinentes; discute-se se a adesão ao que pode ser mantido como verdade literal pode ser considerado religião em qualquer sentido, e, em caso afirmativo, se esse tipo de religião é de fato representativo dos movimentos religiosos contemporâneos. Os ateus militantes atuais provavelmente reconhecerão que algumas passagens secundárias da Bíblia podem ser consideradas literalmente verdadeiras – ‘Jesus chorou’, por exemplo –  mas eles sublinham repetidamente que leituras metafóricas ou alegóricas são estranhas às práticas dos fiéis ao redor do globo. Goste-se ou não, diversos graus de fundamentalismo são onipresentes, e estes são os alvos apropriados da crítica.

Quero rejeitar esta maneira de construir o debate por duas razões principais. Primeiro, a noção de fundamentalismo que ela introduz não é obviamente coerente. Talvez existam algumas sentenças nos célebres textos escriturais cujo significado seja suficientemente claro, preciso e limitado a ponto de permitir que se fale numa leitura literal: supor, por exemplo, que ‘Jesus chorou’ é verdadeira em virtude do fato de que uma figura histórica particular verteu lágrimas. Em relação à maior parte da Bíblia e do Alcorão, contudo, a situação é bastante diferente. O que significaria interpretar a descrição que Paulo faz de nossa condição, quando diz que ‘vemos obscuramente através de um vidro’? (A popularidade dos óculos de sol no Oriente Próximo antigo?) Qual é o sentido literal das referências no Gênesis a ‘dias’ numa época em que as estrelas e planetas ainda estavam sendo formados? Exatamente quais formas de combate e resistência o Alcorão prescreve aos fiéis? Historiadores da religião tem evidenciado a gama de estratégias de interpretação que foram populares em diferentes períodos, e tem afirmado consistentemente que a idéia das Escrituras como um texto científico, planejado para satisfazer os padrões de clareza e precisão que orientam os esforços dos cientistas é – pouco surpreendentemente – algo que começou a emergir somente com o florescimento da ciência moderna, a partir do século XVII. Como outros leitores, os fundamentalistas estão atolados até o pescoço no ramo da interpretação textual, dedicado em princípio a um empreendimento de resposta às Escrituras como se estas obras fossem destinadas a um ideal de definitibilidade que usualmente lhes parece estranho, perseguindo na prática linhas de interpretação que foram descartadas por figuras importantes em sua tradição religiosa particular e que geralmente envolvem compromissos políticos e sociais tendenciosos.

A segunda, e mais profunda razão, para não construir a discussão da maneira usual reside no fato de que este debate gravita ao redor da veracidade das afirmações encontradas em documentos particulares. À primeira vista, essa pode parecer uma suposição completamente benigna. Afinal, as religiões não se distinguem umas das outras por seus vários credos? Definir ‘religião’ é notoriamente difícil, mas uma estratégia atraente é dizer que a religião consiste de um conjunto de doutrinas sobre categorias especiais de entidades (entidades ‘transcendentes’, diferentes em substância dos constituintes vulgares da natureza), que religiões individuais são distinguíveis por suas diferentes doutrinas, e que estar comprometido com uma religião em particular é acreditar nas doutrinas constituintes dessa religião. Chamemos a isto modelo baseado na crença da religião.

Tal como está, o modelo baseado na crença pode parecer inadequado, no sentido de que mais do que a crença é exigido dos crentes religiosos. Além das crenças há as emoções, aspirações, desejos e ações: cristãos devotos amam a Deus e a seus semelhantes, aspiram a viver em harmonia com os mandamentos divinos, desejam que o Espírito Santo desça sobre eles e sobre os outros, trabalham pelo alívio do sofrimento e pela disseminação da palavra do Evangelho. Os que meramente acreditam, se é que existe qualquer pessoa assim, não participam plenamente da vida religiosa. Existe um jeito simples de corrigir o modelo baseado na crença para que este englobe esta avaliação, qual seja, declarar que a crença é um aspecto básico e fundamental. Os outros estados psicológicos dos crentes religiosos derivam de suas crenças. Ao acreditar nas doutrinas em que acreditam, incluindo a afirmação de que textos específicos são confiáveis e manifestam a vontade divina, as pessoas agem de maneiras distintas, adotam regras de conduta peculiares, traçam seus planos e objetivos, e, na medida em que possuem força de vontade, expressam o que elas valorizam em suas ações. Uma emenda amigável ao modelo baseado na crença reconhece que os crentes religiosos possuem estados psicológicos distintivos de diversos tipos diferentes (emoções, intenções, etc.) mas consideram ser a crença na doutrina a base fundamental a partir da qual os outros estados religiosos emergem.

Esta é uma maneira plausível de se pensar sobre a religião e a vida religiosa, pelo menos no mundo moderno, e talvez especialmente naquelas regiões do globo em que movimentos que se autodenominam ‘fundamentalistas’ predominam. Este, contudo, de maneira alguma é o único conceito de religião que podemos formular. Uma abordagem alternativa à religião pode começar com outros elementos do complexo de estados e processos psicológicos e sociológicos, encontrados na vida religiosa, selecionando alguns destes estados e processos como básicos, e compreendendo as doutrinas distintivas como subprodutos, introduzidos como meios para se alcançar os objetivos balizados pelas atitudes fundamentais.

Esta formulação é tanto vaga quanto genérica. Minha intenção é introduzir uma versão particular que exemplifique as possibilidades que meramente sugeri, e começarei com uma proposta esquemática para enfatizar o fato de que minha concepção específica não é em absoluto a única alternativa ao modelo baseado na crença.

Começarei com o conceito de orientação. A orientação de uma pessoa identifica objetivos específicos como valiosos, não somente em relação a sua própria vida mas além do âmbito dessa vida. Ela contém um forte desejo de trabalhar rumo a estas metas, e comumente, a fazê-lo em conjunto com outros que as partilham. Estes desejos amparam compromissos com a elaboração de planos para promover os objetivos e com a implementação prática destes planos, mesmo que esta exija sacrifícios e perdas pessoais consideráveis. Uma orientação, então, é um complexo de estados psicológicos – estados valorativos, desejos, intenções, emoções, e compromissos – um complexo que pode ou não incluir crenças factuais, e que incorpora o senso pessoal do que é mais significativo e valioso em sua própria vida e nas vidas de outras pessoas.

Pessoas religiosas cujas vidas psicológicas se encaixam no modelo baseado na crença possuem algo similar a uma orientação, mas em seu caso o complexo de estados que dirige sua conduta se origina a partir de crenças específicas a respeito de alguma entidade transcendental. Elas comumente supõem que os textos tradicionais contém doutrinas que expressam a vontade deste ser, e, consequentemente, os objetivos específicos que esse lhes estabeleceu. Estou interessado em considerar formas de vida religiosa para os quais a orientação é o aspecto básico e primário. Pessoas que participam de tais formas de vida tem opiniões independentes sobre o que é valioso, opiniões que elas utilizam para avaliar os comandos de qualquer divindade putativa; elas concordam com a afirmação de Kant de que alguma fonte de valor independente é requerida se ‘o Santo de Israel’ deve ser julgado bom[4]. Uma pessoa cuja orientação é básica professará crenças utilizando sentenças que outros empregam para fazer alegações sobre a existência e o caráter de seres transcendentais (chamemos a estas de sentenças doutrinais), e pode até mesmo compartilhar algumas crenças com os fundamentalistas. Para as pessoas religiosas nas quais estou interessado, entretanto, tais crenças são adotadas em virtude da orientação básica – elas são consequencias da adesão a valores e objetivos específicos.

Pessoas seculares podem perfeitamente possuir uma orientação no sentido que apresentei. No caso delas, a posse de sua orientação particular não origina nem crenças em seres transcendentais nem em quaisquer profissões que utilizem sentenças doutrinais. Além disso, as pessoas seculares, à semelhança de seus parentes religiosos, também podem refletir e endossar incondicionalmente as orientações que possuem. Digamos que uma orientação seja reflexivamente estável quando sobrevive ao escrutínio minucioso da vida de alguém e das vidas de outras pessoas; quando ela pode ser mantida como uma escolha respeitável para nortear uma existência efêmera. O modelo baseado na orientação se adequa a uma vida humana quando a pessoa em questão possui uma orientação e quando esta orientação é reflexivamente estável. Este modelo pode ser aplicado a pessoas seculares e a pessoas que se consideram religiosas. As últimas distinguem-se pelo fato de que suas orientações levam-nas a formas particulares de comportamento – a participar em cerimônias particulares, a proferir sentenças doutrinais, e algumas vezes (talvez muitas vezes) a formar crenças cujos conteúdos elas expressam com tais sentenças. Quando estas pessoas falam de sua fé, porém, elas não tem a intenção de classificar suas crenças e profissões de crenças como estados psicológicos que não alcançam o status de conhecimento pela falta de evidências, mas, em vez disso, desejam enfatizar o compromisso primário feito em suas orientações. A fé é antes de mais nada uma questão de devoção incondicional a valores e objetivos particulares.

No âmbito em que o modelo baseado na orientação é aplicável, eu quero distinguir quatro tipos, três do quais são fáceis de avaliar. Os seculares são aqueles cuja orientação não origina quaisquer crenças sobre entidades transcendentes nem impele a participar em quaisquer profissões e cerimônias associadas a tais crenças. Os miticamente autoconscientes são pessoas cujas orientações levam-nas a proferir sentenças doutrinais e a participar em profissões e cerimônias nas quais essas declarações encontram guarida, mas que repudiam explicitamente qualquer interpretação destas declarações que implique doutrinas substantivas sobre entidades transcendentais. Assim, os cristãos miticamente autoconscientes podem se descrever como orientados pelos valores da igualdade e solidariedade humanas expressos em determinadas passagens dos Evangelhos (por exemplo, no Sermão da Montanha), se envolverem com outros membros de uma comunidade cristã para promover estes valores, ao passo que rejeitam explicitamente qualquer  interpretação do Novo Testamento que admita por hipótese um ser pessoal de cuja vontade esses valores derivem, e que em qualquer sentido seja o criador, mantenedor ou supervisor do universo. Seus credos professionais são expressões de um compromisso com valores fundamentais e uma suposição de que, seja lá quais forem os detalhes da história do cosmos, estes valores são algo em cuja promoção os seres humanos devem se engajar.

Os doutrinariamente-confusos vão um passo além. Eles sustentam certas crenças que admitem implicar a existência de seres transcendentais, e eles consideram estas crenças uma importante fonte de inspiração exatamente porque os seres pertinentes exemplificam os valores fundamentais. Na medida em que estes seres são vistos como especialmente poderosos, eles podem até mesmo ser vistos como garantias da possibilidade de se realizar esses valores. Um cristão que acredita que Jesus foi a encarnação de um ser que criou o cosmos pode ver a si próprio como participante de uma campanha para alcançar objetivos importantes – a disseminação das relações afetuosas entre seres humanos – cujo êxito final é assegurado. A crença assim funciona como uma descrição de aspectos do universo e como uma promessa inspiradora. Se pressionados a defender sua crença em afirmações particulares sobre o transcendente, as pessoas doutrinariamente-confusas não apelarão às evidências em primeiro lugar; em vez disso, sugerirão que é legítimo formar tais crenças por causa do papel positivo que elas desempenham na promoção dos valores mais importantes.

Tanto os miticamente autoconscientes quando os doutrinariamente-confusos são claros a respeito do que estão fazendo quando proferem declarações religiosas. Entre eles encontram-se personagens cujas idéias sobre como interpretar sentenças doutrinais são bem menos definidas. Eles não estão preparados para dizer, ao lado dos miticamente autoconscientes, que não existe nenhuma interpretação defensável dessas sentenças sob a qual elas implicam a existência de entidades transcendentais. Por outro lado, elas não estão dispostas a oferecer qualquer interpretação precisa e bem definida que providenciaria um conteúdo ao qual elas subscreveriam. Várias delas estão propensas a se refugiar numa linguagem ressonante e opaca, metafórica e poética, e a negar que sejam capazes de fazer qualquer coisa melhor para explicar as crenças que professam. Alguma coisa importante aconteceu, eles pensam, no Monte Sinai, ou no deserto ao redor de Meca, mas eles rejeitam a idéia de que o que ocorreu tenha sido qualquer enontro entre uma figura histórica – Moisés,num caso, Maomé, no outro – e uma pessoa grandiosa e impressionante com uma longa barba branca ou um indivíduo algo menor com asas e uma presença reluzente. Se pressionadas, elas admitirão que podem _ ou talvez não _ apenas esboçar vagamente os contornos de algo capaz de compromete-las com a existência de entidades transcendentais. Sua falta de exatidão exaspera os ateus militantes atuais, que não encontram valor nas frases ressonantes que impregnam as discussões teológicas, mas os crentes afirmarão que a linguagem denotativa atinge seus limites aqui, que assim como a grande poesia, a linguagem religiosa de alguma maneira funciona de uma maneira que não pode ser apreendida pelos tipos de discurso preferidos por seus oponentes. Podemos pensar nos personagens deste tipo como os doutrinariamente-indefinidos.

A esta altura, já posso expor alguns dos pontos que tentarei defender no resto deste artigo. Primeiro, o ateísmo militante atual está totalmente correto em seu ataque aos tipos de vida religiosa que se enquadram no modelo baseado na crença. Por outro lado, todas as três abordagens não-seculares que se ajustam ao modelo baseado na orientação são defensáveis. No caso dos miticamente autoconscientes isso dificilmente surpreende, e os ateus militantes atuais aplaudem quando aqueles que continuam a pensar sobre si próprios como religiosos rejeitam energicamente entidades ‘sobrenaturais’ – os militantes pensam, contudo, que o que sobra dificilmente merece o nome de religião. Mais problemáticos, a primeira vista, são os casos dos doutrinariamente confusos e dos doutrinariamente indefinidos. Eu aventarei que a indefinitibilidade doutrinária pode ser uma expressão razoável de modéstia epistêmica, e que mesmo a confusão doutrinária pode ser justificada quando é a única maneira de preservar, no ambiente sociocultural disponível, uma orientação reflexivamente estável. O ateísmo militante atual tende a negligenciar este ponto por estar firmemente acorrentado ao modelo baseado na crença, e assim presume – erroneamente – que a correção da crença sobre os ocupantes do cosmos pode ser automaticamente articulada numa visão satisfatória do que é valioso na vida de alguém. Talvez isso seja verdadeiro para uma minoria privilegiada, mas não o é para a maioria menos afortunada.

Mesmo assim, dois pontos importantes emergem da campanha militante ateísta. O primeiro é que atitudes religiosas defensáveis não podem estar maculadas por elementos do modelo baseado na crença:  isso ocorreria, por exemplo, se as crenças justificadas apelando-se à promoção de valores fossem então utilizadas como bases para a anexação de objetivos adicionais, vistos como expressões da vontade divina. Para que o modelo baseado na orientação seja aplicável, considerações de valor devem ser primárias, e o crente não pode defender, primeiro, que o compromisso com uma divindade seja legítimo porque expressa uma orientação direcionada a coisas que são de valor fundamental, e, segundo, que o compromisso traga a reboque uma miríade de novos deveres e proibições fundamentadas em mandamentos divinos. O segundo ponto é que qualquer abordagem liberal à formação de orientações deve reconhecer a importância de oferecer às pessoas uma escolha genuína – permitir-lhes encontrar e perseguir ‘seu próprio bem à sua própria maneira’ (segundo a famosa máxima de J.S. Mill) – e ressaltar a tese, expressa vigorosamente por Dawkins, de que as crianças não devem ser automaticamente assimiladas às práticas religiosas de seus pais[5].

3.

Para compreender porque as pessoas religiosas que se ajustam ao modelo baseado na crença são vulneráveis à crítica cogente, é necessário apenas observar que elas possuem apenas duas opções para defender a legitimidade de suas crenças. A primeira é afirmar que possuem fundamentos para pensar que as doutrinas que esposam são verdadeiras, e neste caso a disputa entre elas e seus críticos torna-se uma questão de evidências. A segunda é supor que tais fundamentos coercivos não existem, que as idéias sobre entidades transcendentes são adotadas sob pretextos que ficam aquém – até mesmo muito aquém – dos padrões de evidências normalmente considerados obrigatórios; neste caso existem preocupações éticas  sobre como crenças adquiridas através do que alguns chamarão de “saltos de fé” – e outros descrevem como “conclusões precipitadas” – podem servir como fontes de valores, objetivos e ações nas formas que o modelo baseado na crença  hipoteticamente admite.

Conquanto os ateus militantes atuais as vezes debrucem-se sobre as “provas” oferecidas na teologia pré-moderna, estas excursões são completamente irrelevantes para a exploração de qualquer evidência possível que ampare as declarações doutrinais. Que alguém alguma vez as tenha considerado como rotas potenciais que levem do ateísmo ou agnosticismo para o teísmo á duvidoso, e parece óbvio que os que construíram os argumentos mais ou menos intrincados fizeram-no em tentativas para elaborar idéias sobre a divindade de cuja existência eles já estavam convictos. Pessoas que se ajustam ao modelo baseado na crença recebem as doutrinas que defendem das tradições sociais em que estão inseridos e em decorrência das experiências (as ‘experiências religiosas’) pelas quais passam. Será que estes processos, isolados ou combinados, oferecem qualquer justificativa para a crença doutrinal?

Um sentimento da presença da divindade (ou de outros tipos de seres) é bastante comum através do espectro das religiões mundiais. Muito comum, na verdade, para desempenhar qualquer papel comprobatório sério. Uma vez que você interprete a amplamente disseminada tendência das pessoas de chegarem a afirmações assaz diferentes baseadas nas experiências que lhes parecem tanto intensas quanto misteriosas, e ver que estas experiências são categorizadas em termos que derivam das religiões com as quais estas pessoas estão familiarizadas – e às quais elas muitas vezes subscrevem – fica claro o que está ocorrendo. Pessoas religiosas e seculares experienciam igualmente coisas que não são capazes explicar em termos seculares de uso comum, e a vezes lançam mão de categorias que tornam a experiência inteligível. Nenhuma destas assimilações é confiável, pois nenhuma pode reivindicar ser privilegiada descartar como errôneas as interpretações rivais. Tampouco será confiável aplicar alguma categoria mínima, pois essa também será uma possibilidade dentre várias. Considerando-se a variedade fabulosa na frequência com que experiências religiosas ocorrem – as estatísticas sugerem que existem ‘epidemias’ de tais experiências – e considerando-se também as correlações entre experiências religiosas e vários outros fatores nocivos à cognição (ingestão de drogas, transtornos psicológicos, momentos de arrebatamento adolescente), confiar nos veredictos destas experiências, imaginando que elas sejam rotas para o transcendente independentes o bastante do respaldo dado pelas tradições religiosas parece completamente injustificado. Dewey oferece sábios conselhos sobre estes assuntos:

… quando isso [uma experiência religiosa] ocorre, seja lá por quais causas ou meios, existe uma perspectiva religiosa e uma função. Como eu disse antes, o aparato intelectual ou doutrinário e os acréscimos institucionais advindos são, num sentido estrito, secundários às qualidades intrínsecas de tais experiências.[6]

Em outras palavras, devemos valorizar as maneiras pelas quais algumas experiências que não compreendemos plenamente reorientam vidas humanas, inspirando possibilidades para promover valores importantes, sem nos atormentarmos para identificair causas misteriosas. Proceder assim é organizar a vida segundo o modelo baseado na orientação.

Pessoas religiosas que exemplificam o modelo baseado na crença são, portanto, evidencialmente dependentes das tradições às quais pertecem. Isso não é, porém, negar-lhes a possibilidade de conhecimento, uma vez que todos nós dependemos de outros acerca de praticamente tudo o que sabemos. O problema é que a simetria encontrada no apelo à experiência religiosa, a utilização de episódios fenomenologicamente similares para respaldar conclusões radicalmente incompatíveis, é preservada quando nos voltamos para a fundamentação da crença na tradição religiosa. Os ameríndios que estão convictos da existência de espíritos ancestrais, os aborígines australianos que falam confiantes sobre a Alcheringa, baseiam suas profissões religiosas em idéias sobre o passado similares às que fundamentam as doutrinas do judeus, cristãos e muçulmanos. Certa vez, há muito tempo atrás, houve uma revelação, e ela foi transmitida, integralmente, de geração em geração até o presente. Não há uma maneira razoável de quebrar a simetria, de declarar que um – ou alguns – destes alegados processos de revelação e transmissão acurada é autêntico, e os outros são exemplos lamentáveis de confusão primitiva. Além disso, quando os pesquisadores investigam o processo pelo qual as doutrinas das principais religiões do mundo se desenvolveram, e as maneiras pelas quais essas religiões recrutam novos adeptos, torna-se evidente que elas são moldadas por forças que normalmente vemos como improváveis de conduzir em direção da verdade. Ninguém que reconheça as considerações políticas que figuraram na construção dos mais celebrados textos religiosos do mundo pode considerar estas escrituras como indicadores confiáveis de eventos passados. Ninguém que reflita sobre o que os sociológos dizem sobre as maneiras pelas quais as pessoas são atraídas por religiões específicas irá supor que a disseminação de um credo tenha muito a ver com sua veracidade.

Significativamente mais pode ser dito sobre as dificuldades do modelo baseado na crença para sustentar a idéia de conhecimento religioso, mas voltar-me-ei agora para a abordagem alternativa que concebe a crença religiosa como injustificada pela pelas evidências. É fácil para os oponentes formular esta abordagem como a suposição de que a fé intervém para preencher a lacuna entre as evidências inadequadas e a crença confiante, mas isto é introduzir uma noção de fé consideravelmente diferente do conceito valorizado por várias pessoas religiosas. Devotos de algum dos monoteísmos abraâmicos cujas vidas são estruturadas pelo modelo baseado na orientação consideram sua fé uma forma de compromisso: elas principiam identificando-se com objetivos específicos e com uma comunidade que se empenha arduamente por estes objetivos, e a identificação inicial é percebida como o ato de fé. Abraão pode simbolizar para eles o paradigma deste tipo de compromisso, como o ‘cavaleiro da fé’, não porque ele pisoteie as evidências para concluir que um ser transcendente específico existe – o que seria absurdo, considerando-se seus supostos encontros pessoais com este ser – mas por sua disposição para confiar em seu Deus, mesmo quando este lhe fazia exigências intrigantes e moralmente repulsivas. Sob as versões das explicações orientacionais que defenderei, esse tipo de confiança não é legítima, pois os compromissos admissíveis são restringidos por prescrições éticas (não deve haver nenhuma ‘suspensão teológica da ética’), mas o exemplo serve como uma retificação útil de visões da fé que a removem do âmbito pragmático e a tratam como crença sem evidências suficientes.

Qualquer pessoa religiosa que imagine que a crença em entidades transcendentes pode ser legitimada sem evidências suficientes defronta-se com o desafio de explicar como as doutrinas religiosas figuram na orientação da conduta. Uma resposta possível é negar que elas desempenhem qualquer papel que seja. Elas são colocadas em algum compartimento selado na psicologia do crente, permanentemente indisponível para qualquer tomada de decisão prática. Seja ou não minimamente coerente este alegado insulamento da religião, isto é, seja ou não adequado dizer que indivíduos cujas mentes tenham sido estruturadas desta maneira acreditam nas doutrinas que lhes são atribuídas, tenho fortes dúvidas de que qualquer pessoa real satisfaça estas condições. Se, todavia, a barreira entre a crença doutrinal e a tomada de decisões for permeável, a presença destas crenças é eticamente suspeita. De alguém cujas decisões afetam as vidas de outras pessoas é eticamente exigido que baseie-se única e exclusivamente nas proposições melhor respaldadas pelas evidências. De maneira que a menos que a crença doutrinal seja mais bem respaldada pelas evidências que as rivais pertinentes, será errado utiliza-las no planejamento da conduta própria ou alheia. Uma vez que a lacuna evidencial entre a crença em entidades transcendentes e os fatos disponíveis para os crentes religiosos é comumente abissal, é extremamente difícil divisar como eles poderiam se esquivar da acusação de irresponsabilidade ética.

Mais uma vez, existem complicações a serem devidamente esquadrinhadas, mas meu principal interesse repousa em mostrar que quando a questão é enquadrada numa determinada perspectiva, concebida em termos do modelo baseado na crença, os ateus militantes contemporâneos podem construir uma causa poderosa. Frequentemente, eles falham em apresentar esta causa, desse modo instigando respostas religiosas que refutam formas inferiores de criticismo. Todavia, se os alvos forem as formas de vida religiosa que se ajustam ao modelo baseado na crença, os céticos podem se concentrar sobre os fundamentos da crença e apresentar um dilema devastador.

4.

Dentre os ateus militantes contemporâneos, Dennett vislumbra mais claramente que as controvérsias concentram-se nos processos subjacentes à crença religiosa. Seus esforços para articular o tema são particularmente instrutivos por revelarem como o foco excessivo no modelo baseado na crença pode cegar os críticos para as possibilidades que emergem dos modos alternativos de se pensar sobre a vida religiosa. Dennett oferece uma psicologia evolutiva especulativa, que conjetura benefícios seletivos em estruturas cognitivas que predispuseram nossos ancestrais a gravitar em torno de certas explicações para fenômenos intrigantes, em particular, a postular agentes invisíveis como causas. As religiões do mundo são desafortunados subprodutos de uma tendência psicológica que serviu muito bem a nossos antepassados. Com o desenvolvimento da ciência moderna, as pessoas tiveram acesso a respostas melhores para os enigmas, de maneira que agora podemos nos libertar de crenças imperfeitas que acarretaram todos os tipos de consequências práticas perniciosas. Podemos ‘quebrar o encanto’, resistindo auto-conscientemente a padrões de pensamento que, como nossas tendências à física popular, predispõem-nos à formação de crenças falsas.

Dawkins não elabora este tema com o detalhamento e a cautela exibidas por Dennett, mas ambos compartilham uma concepção similar – portanto ‘Deus, um delírio’. A perspectiva comum é dominada por conceitos oriundos dos domínios do conhecimento e da crença, configurados pelo modelo baseado na crença. Dentro desta moldura, as conclusões que os ateístas militantes contemporâneos derivam podem parecer inevitáveis. Crenças verdadeiras são uma coisa boa para as pessoas, encantos e delírios são ruins; consequentemente você auxilia aqueles cujas doutrinas você ataca, propiciando-lhes (ou empurrando goela abaixo?) um estado cognitivo melhor; eles farão decisões melhores como resultado de seu esclarecimento; eles serão reabilitados pelo tratamento desagradável que você lhes ministra.

Para ver como e por que é possível escapar deste cenário, é útil começar com a psicologia evolutiva que Dennett oferece[7]. Suas especulações podem ser contrastadas com conjeturas diferentes, com hipóteses que não concebem a emergência da vida religiosa em termos de defeitos cognitivos. Sob a explicação de Dennett, a prevalência da religião nas sociedades humanas deriva de uma disposição psicológica predominante, outrora adaptativa, para pensar de maneiras que produzem mitos. Outra possibilidade seria imaginar que as religiões desempenharam um papel nas vidas sociais de nossos ancestrais paleolíticos, que elas favoreceram a submissão às normas dos grupos pequenos, que elas fomentaram vários tipos de solidariedade, bem como conferiram sentido e direção a vidas individuais. Estas idéias sobre os benefícios psicológicos e sociais estão de acordo com as evidências antropológicas acerca do status das divindades como ‘guardiães da moralidade’, e também com algumas outras características que os sociologistas identificam quando estudam como as pessoas são atraídas por religiões específicas. Seria errado, entretanto, afirmar que minha alternativa é significativamente mais bem embasada que a de Dennett: ambas são especulativas. O ponto importante, para os propóositos presentes, reside em suas explicações contrastantes para a prevalência das religiões. Onde Dennett identifica um lamentável bug cognitivo, eu aponto necessidades individuais e sociais, algumas delas ainda importantes para as pessoas, que as religiões satisfazem: sociedades que fracassaram em desenvolver religiões foram menos eficientes em satisfazer estas necessidades, e, em consequencia, foram menos prováveis de transmitir suas formas de cultura aos grupos descendentes.

Se você partir da idéia de que a predominância da religião nas sociedades humanas deve ser explicada por uma deficiência cognitiva, você tenderá a ver sua campanha pela erradicação dos mitos em termos de um retorno à sanidade intelectual. Por mais difícil que lhes possa ser abandonar suas religiões, as pessoas estarão melhores quando repudiarem as falsas crenças que as mantém cativas. Ao contrário, se você imagina que os fatores sociais que apontei desempenharam um papel nada trivial na disseminação das religiões do mundo, você ficará curioso acerca da existência de necessidades sociais e psicológicas que o abandono puro e simples da religião deixará insatisfeitas. Você pode até mesmo começar a duvidar de que o tônico revigorante que os ateus contemporâneos imaginam estar ministrando é _ tudo considerado _ uma coisa boa.

Minha apresentação do modelo baseado na orientação é um veículo para explorar estas controvérsias. Orientações são de suma importância nas vidas humanas, e as pessoas que não podem alcançar um conjunto reflexivamente estável de valores e aspirações sentem-se devidamente incompletas. Pessoas seculares podem perfeitamnte possuir uma orientação, como já reconheci, mas é uma falácia pensar que qualquer pessoa religiosa que no momento presente ajusta-se ao modelo baseado na orientação pode atingir uma orientação cognitivamente superior pela rejeição das crenças que os ateus militantes contemporâneos identificam como falsas. Os ganhos cognitivos podem simplesmente ser insuficientes para cobrir outras formas de prejuízos sociais e psicológicos.

Reconhecer isto não é ser condescendente com as pessoas religiosas, não é pensar que lhes falta inteligência, maturidade ou coragem para confrontar diretamente verdades árduas. Antes, é avaliar as dificuldades impostas pelos meios sociais contemporâneos para a plena satisfação das orientações fora da vida religiosa. As reflexões de Dawkins sobre sua própria orientação revelam as maneiras pelas quais questões humanamente importantes podem não ser contempladas por este ponto de vista.

Há mais que apenas grandiosidade nessa visão da vida, por mais nua e fria que ela possa parecer de sob o cobertor reconfortante da ignorância. Há uma revigoração profunda a ser sentida ao receber de frente o vento forte e agudo da compreensão: os “ventos que sopram pelas vias estreladas”, de Yeats.[8]

As verdades da evolução, junto com muitas outras verdades científicas, são tão belas, fascinantes e envolventes que é realmente trágico  morrer tendo perdido tudo isso![9]

Mas não poderíamos também ensinar a ciência como algo que possa ser lido prazerosamente, como aprendemos a ouvir música em vez de nos entediarmos com exercícios manuais a fim de tocar?[10]

Há muito com o que se concordar nestas passagens, mas elas seduzem os leitores – e Dawkins e Dennett também, eu suspeito – a pensar que qualquer um pode orientar uma vida significativa, uma que resista e sobreviva a uma sondagem reflexiva, baseada na contemplação do cosmos como revelado pela ciência.

A soberba reflexão de Aristóteles sobre a boa vida em sua obra Ética a Nicômaco  termina com uma imagem do tipo, que celebra a vida de contemplação esclarecida. Ainda que, nos livros anteriores, Aristóteles tenha abordado outros aspectos que várias pessoas consideram essenciais ao mérito das vidas que levam: atividades, contribuições à vida social, conduta virtuosa, amizade, e por aí vai. Seria muita presunção de minha parte sondar as orientaçõs de Dawkins e Dennett em quaisquer detalhes, mas tenho certza de que alguns destes fatores alternativos também lhes são caros. Eles pertencem a uma comunidade de acadêmicos renomados, e a uma subcomunidade engajada no que eles consideram ser um objetivo extremament importante, que é disseminar os valores e ideais do Iluminismo o mais amplamente possível, e tenho fortes suspeitas de que suas filiações a estas comunidades e o sentimento de estarem contribuindo pelo que fazem é um componente integrante de suas satisfatórias e bem-sucedidas orientações. Eles provavelmente estão em posição melhor para articular suas aspirações e valores, mas desconfio bastante de que qualquer explicação completa da consciência que tem do sentido de suas vidas não consistiria apenas dos deleites passivos derivados da compreensão de vários fenômenos naturais.

Mesmo em sociedades prósperas nas quais os cidadãos apresentam um nível de escolaridade relativamente alto, a vasta maioria nunca será capaz de se reconhecer como participantes importantes de qualquer empreendimento coletivo de vulto que contribua para o conhecimento e o esclarecimento. Para um número massivo de pessoas, pelejas diárias para lidar com as ameaças a seu bem-estar físico deixam poucas oportunidades para atividades contemplativas. Não obstante algumas instituições às vezes lhes proporcionarem orientações satisfatórias, habilitanto-os a educar seus filhos com amor e dedicação, auxiliando-as a criar um mundo menos hostil e mais justo para seu pequenos círculo social. Algumas destas instituições são, obviamente, igrejas, mesquitas e sinagogas.

Tudo o mais sendo igual, é preferível para estas pessoas ser miticamente autoconscientes, desfrutar dos benefícios cognitivos apontados pelos ateus militantes contemporâneos, enquanto também utilizam o arcabouço oferecido por uma tradição religiosa para orientar suas ações, junto com outras pessoas, rumo a objetivos dignos. Mas as coisas nem sempre são iguais. Sob algumas circunstâncias, a única maneira psicologica e socialmente disponível para suster uma vida que possua em qualquer sentido objetivos respeitáveis a serem perseguidos, ou qualquer capacidade para trabalhar com outras pessoas para a realização desses objetivos, envolve participar em tradições que nublam, perturbam as mensagens que Dawkins e Dennett desejam transmitir. Pensadores seculares podem lamentar esse fato, mas deveriam ver isto como um estímulo, não para quebrar encantos ou desfazer ilusões custe o que custar, mas para trabalharem numa versão intelectualmente articulada e socialmente realizada do humanismo secular que permitirá satisfazer as orientações das inúmeras pessoas cujas oportunidades são atualmente limitadas.

Dentro dos meios sociais nos quais as pessoas contemporâneas crescem, pode-se esperar que a confusão doutrinária seja um fenômeno persistente, não porque os argumentos dirigidos contra as doutrinas sejam incompletos ou porque as pessoas que dependem da crença em entidades transcendentes sejam muito estúpidas ou inflexíveis, mas porque o secularismo esclarecido ainda não logrou êxito em encontrar sucedâneos para as instituições e idéias que as tradições religiosas tem burilado ao longo de séculos ou milênios. Até que estes substitutos estejam disponíveis em larga escala, será preciso respeitar e tolerar os doutrinariamente confusos. Desnecessário dizer, teria sido melhor se sua religião evoluísse para um estado de autoconsciência mítica, mas os custos para eles – e as vezes para causas sociais importantes – acarretados pela simples remoção de crenças falsas superam os benefícios. Somente aqueles que abordam estas questões com a convicção de que estes temas são, do começo ao fim, puramente epistêmicos, que imaginam que o modelo baseado na crença corresponde a todas as formas de vidas religiosas, que pensam que uma explicação evolutiva mostrará como somos dotados de um DDAH*, insistirão em quebrar encantos e dissipar ilusões seja lá qual for o preço.

Se fizermos esta concessão aos doutrinariamente confusos, os doutrinariamente indefinidos seguramente serão ainda mais merecedores da tolerância secular. Pois seus erros são, na pior das hipóteses, os de seus primos doutrinariamente confusos. Além disso, uma vez que se reconheça o papel importante que a interpretação deve desempenhar na leitura de textos religiosos, e uma vez que a riqueza de várias passagens destes textos seja apreciada, é fácil estimar a classe das pessoas religiosas honestas cujas opiniões partem da escritura como de grande valor para orientar sua vida e conduta, mas que admitem uma incapacidade para formular quaisquer sentenças definitvas que poderiam articular o teor das palavras ressonantes. Há algo nessas palavras que as inspira e instiga, e elas acreditam que estas palavras registram algumas importantes experiências arcanas –  mas o conteúdo exato da inspiração e a natureza precisa das experiências está, elas reconhecem, além de seus poderes de formulação precisa.

Concluo recapitulando dois pontos que levantei antes. Primeiro, a adesão a qualquer doutrina definida, a autoconsciência mítica, ou a indefinição doutrinária não devem predispor o crente a resvalar para a aceitação de alegações normativas que subscreveriam sua conduta afetando as vidas de outros em razão delas expressarem a vontade de algum ser transcendente – e estou inclinado a pensar que um ponto similar é válido mesmo quando o crente é o único afetado por suas ações. O modelo baseado na orientação insiste na primazia dos valores. Quando afirmações adicionais sobre o que deve ser buscado ou o que deve ser feito são derivadas de doutrinas religiosas, entendidas como expressões dos mandamentos da divindade, o crente migrou do modelo baseado na orientação para o modelo baseado na crença. Aqueles a quem o modelo baseado na creça se aplica são, como sustento, vulneráveis às críticas cogentes. De modo que deve haver um compromisso austero com a primazia de valores que possam ser compartilhado com os adeptos de outras religiões e com os que não possuem absolutamente nenhuma religião. A razão coletiva deve ser completamente secular. O máximo que pode ser feito é oferecer formulações particularmente vívidas e inspiradoras dos valores comuns.

Meu segundo ponto de concordância com o ateísmo militante contemporâneo é quase um corolário do que foi exposto acima. Se um dos valores que compartilhamos é o da autodeterminação, a máxima de Mill ‘buscar o próprio bem à sua própria maneira’, então a prática de confinar os pensamentos dos jovens às doutrinas religiosas – ou às atitudes seculares – de seus pais é efetivamente derivada do valor específico atribuído pela aceitação paterna à doutrina. Pais esclarecidos devem ver o modelo baseado na orientação como apropriado para seus filhos, e assim deveriam preocupar-se em expor seus filhos a uma gama de possibilidades, enquanto simultaneamente os auxiliam na aquisição de hábitos de pensamento que os capacitarão a fazer sabiamente suas próprias escolhas. No entanto, até que os meios sociais nos quais vários jovens crescem e são educados tenha sido radicalmente transformado e enriquecido, o envolvimento numa instituição religiosa pode proteger as crianças, como protegeu seus pais, dos graves cerceamentos de oportunidades que nossas sociedades indiferentes tantas vezes permitem[11].

NOTA DO TRADUTOR

*DDAH, sigla para ‘dispositivo de detecção de agentes hiperativo’, conceito cunhado por Justin Barret em 2002 e utilizado por Dennett em seu livro Quebrando o Encanto para designar o mecanismo pelo qual organismos dos mais variados graus de complexidade reagem defensivamente a estímulos ambientais como se fossem provocados por outros organismos potencialmente perigosos.

NOTAS DO AUTOR

1. Richard Dawkins, Deus, Um Delírio (Companhia das Letras, 2007); Daniel Dennett, Quebrando o Encanto (Editora Globo, 2006).

2. Em seus livros Quebrando o Encanto e Deus, um delírio, Dennett e Dawkins, respectivamente, recapitulam alguns pontos levantados por Russell em Por que não sou cristão (L&PM Editores, 2009). Algumas das idéias e argumentos remetem aos Diálogos sobre a religião natural de Hume e aos volumosos escritos antirreligiosos do Barão d’Holbach (por exemplo, ao Cristianismo Desmarcarado).

3. Assim Leon Wieseltier falou e escreveu com contundência sobre os livros de Dennett e Dawkins. Em The Case for God (London: Bodley Head, 2009), Karen Armstrong também critica a compreensão supostamente superficial da religião de Dawkins.

4. I. Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Edições 70, 2011).

5. J.S. Mill, Sobre a Liberdade (Editora Hedra, 2011); Dawkins, Deus, um delírio.

6. John Dewey, A Common Faith (New Haven, CT:Yale University Press, 1933), p. 17.

7. Veja Dennett op. cit.

8. Richard Dawkins, O capelão do diabo (Companhia das Letras, 2005); citado em Deus, um delírio.

9. Dawkins, Deus, um delírio.

10. Richard Dawkins, Desvendando o Arco-Íris (Companhia das Letras, 2000).

11. Este artigo foi originalmente apresentado no Encontro Anual da Sociedade para a Filosofia Aplicada em 19 de Março de 2010. Sou grato a Taylor Carman e Wayne Proudfoot pelos valiosos comentários sobre um rascunho prévio, ao público do encontro da SAP pelas perguntas excelentes, e a Richard Harries por uma estimulante conversa antes da palestra.

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