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por Keith Augustine

O Status da Pesquisa Parapsicológica

Antes de determinarmos o status científico da pesquisa parapsicológica, devemos fazer uma pausa para estebelecermos a relevância da pesquisa parapsicológica para o estabelecimento de evidências incontroversas da existência de prováveis candidatos a um evento sobrenatural na história recente. A parapsicologia é o estudo científico dos fenômenos paranormais, também chamados fenômenos psi. Michael Stoeber distingue três tipos principais de fenômenos paranormais: psi-receptivos, psi-expressivos e psi-transcendentais (Stoeber 1996, p. 1-2). Os psi-receptivos incluem a telepatia, a recepção paranormal de informações ou influências de outras mentes; clarividência, a recepção paranormal de informações ou influências de eventos ou objetos físicos; e a predição e a retrodição, a recepção paranormal de informações ou influências sobre o futuro ou o passado, respectivamente. Os psi-expressivos esgotam-se nas várias formas de psicocinese, em que a mente de um indivíduo influencia diretamente uma pessoa, animal ou objeto. O tipo mais interessante de fenômenos paranormais para nossos propósitos é o que Stober chama de psi-transcendentais:

O campo de estudo é largamente expandido e complicado pela inclusão da possibilidade da influência de espíritos desencarnados ou de formas de existências incorpóreas como explicação de certos fenômenos paranormais. Em tais contextos, eventos psi envolvem realidades além de ou distintas daquela deste mundo natural (Stoeber 1996, p. 2).

Na divisão de Stoeber do paranormal, os fenômenos psi-transcendentais implicam o envolvimento de agentes sobrenatuais incorpóreos em fenômenos paranormais receptivos e expressivos, ao passo que qualquer coisa que corresponda às duas outras categorias não. Dentre os fenômenos exibindo características psi-transcendentais, Stoeber lista comunicações mediúnicas, aparições, poltergeists, anjos, possessões, experiências extra-corpóreas, experiências de quase-morte, e fenômenos de vidas passadas (Stoeber 1996, p. 2).

Os fenômenos paranormais parecem intimamente relacionados, quase idênticos, a prováveis candidatos a um evento sobrenatural. Todos os três tipos de fenômenos paranormais abraangidos pelo esquema classificatório satisfazem pelo menos os cinco primeiros de nossos seis critérios para um provável candidato a evento sobrenatural. Primeiro, nenhuma causa física de eventos paranormais pode ser identificada; tampouco, até onde podemos dizer, são as causas de tais eventos supervenientes a qualquer força ou entidade física conhecida[13]. Segundo, nenhuma causa espaciotemporal de tais eventos pode ser identificada. Terceiro, tais eventos desafiam todas as tentativas de explicação científica. Quarto, eventos paranormais parecem violar leis científicas bem estabelecidas. E em quinto lugar, os eventos paranormais são altamente improváveis conjeturando-se somente a operação de fatores causais naturais conhecidos. Entretanto, não é evidente que todas as formas de fenômenos paranormais exibem comportamento aparentemente intencional ou inteligente. Michael Scriven oferece a seguinte objeção à identificação do paranormal com o sobrenatural:

As únicas circunstâncias sob as quais pode-se plausivelmente dizer que foi demonstrada a existência de um fenômeno sobrenatural são aquelas em que o critério para mostrar que ele não é um fenômeno natural dos tipos até agora compreendidos foi satisfeito, e também mostrado que ele é tão ‘diferente’ daqueles até agora compreendidos que pareceria ser um caso de ‘outra ordem de existência’, e que envolve alguma agência ou personalidade… Nenhuma divergência ou controvérsia na parapsicologia parece maior do que as que ocorrem nas ciências físicas, e o mero envolvimento de personalidade humana dificilmente nos persuade de que deveríamos abandonar o materialismo ou a explanação naturalista (Scriven 1976, p. 185).

De forma que conquanto Scriven reconheça que os fenômenos paranormais não são abraangidos por nossas categorias naturais conhecidas, suas principais objeções são que eles não são diferentes o bastante de nossas categorias naturais conhecidas para justificar sua categorização como sobrenaturais e que eles não envolvem ostensivamente agências não-humanas.

A primeira objeção de Scriven é questionável. A preocupação última das ciências físicas é com interações físicas ‘burras’ ou impessoais entre partículas físicas fundamentais e forças (ou entre cordas vibratórias — seja lá qual caso for). Mas a parapsicologia introduz a possibilidade de interações causais entre os estados psicológicos complexos e inteligentes de um sujeito e sistemas físicos simples e impessoais. De forma que os fenômenos paranormais não somente desafiam nossas categorias naturais conhecidas como, sem dúvidas, envolvem outras ordens de existência — pelo menos um tipo de interação causal que nos é completamente estranha. Os fenômenos paranormais são diferentes o bastante de nossas categorias naturais conhecidas para no mínimo serem potencialmente abarcadas pelo domínio do sobrenatural. Ou pelo menos Scriven não nos ofereceu muita justificação para pensarmos o contrário. Quanto à segunda objeção de Scriven, existe pouca justificação para insistir que as atuações envolvidas na causação sobrenatural devem ser inumanas. Como Paul Dietl assinala: “O termo ‘sobrenatural’ implica que o agente seja capaz de produzir eventos que são exceções às leis físicas. Entretanto, nada mais sobre o agente está em questão… Mas ele deve ser uma entidade capaz de controlar as leis da natureza” (Dietl 1972, p. 236). Se um ser humano fosse capaz, ao menos aparentemente, de controlar as leis da natureza, então teríamos uma aparente instância de uma atuação humana com poderes sobrenaturais.

Não obstante, a primeira acusação de Scriven captura um insight importante sobre nosso conceito do sobrenatural. Que um evento é diferente — mesmo bastante diferente — dos eventos abraangidos pelas categorias naturais pode não ser o suficiente para que o categorizemos um evento inexplicável como sobrenatural. Por exemplo, se objetos eventualmente flutuassem de forma aleatória no interior de uma sala, sem nenhuma razão aparente (uma forma de psicocinese), sem qualquer padrão reconhecível atribuível a um comportamento inteligente, isto seria uma instância do paranormal mas não uma instância de um provável candidato a evento sobrenatural. Certas instâncias de telepatia também podem ser paranormais mas não prováveis candidatos a evento sobrenatural. Conquanto a insistência de Scriven no envolvimento de uma atuação inumana seja demasiado restritiva, ele reconhece que o envolvimento de alguma forma de atuação inteligente deveria ser aparente antes que pudéssemos razoavelmente categorizar um evento paranormal como um evento potencialmente sobrenatural. Ao passo que eventos paranormais nem sempre se qualifiquem como prováveis candidatos a evento sobrenatural, prováveis candidatos ao sobrenatural sempre se qualificam como eventos paranormais. Isto porque os cinco primeiros de nossos seis critérios para um provável evento sobrenatural também são critérios para categorizar um evento como paranormal. De modo que embora, para nossos propósitos, um levantamento ideal das evidências parapsicológias concentre-se exclusivamente sobre o que Stoeber chama  de fenômenos psi-transcendentais, considerando-se o estado geral das evidências parapsicológcias disponíveis veremos que isto não é necessário.

Em relação à falta de evidências de causação sobrenatural no passado distante, um caso mais forte para o naturalismo é providenciado pela ausência de evidências incontroversas para prováveis candidatos a evento sobrenatural na história recente. Em parte, isto se deve à ampla diversidade de recursos à nossa disposição para produzir evidências convincentes de que um evento ocorreu ou que um fenômeno é real. Múltiplas camêras de vídeo podem ser dispostas em diferentes pontos de observação num local especificado para registrar quaisquer eventos que ali sucedam. Isto foi feito por camêras de segurança constantemente monitorando e registrando eventos ocorrendo nas ruas das cidades e em propriedades privadas e comerciais, por equipes de reportagem de canais de TV cobrindo eventos ao vivo, e por indivíduos que eventualmente encontram-se no lugar certo na hora certa. Considerando-se o predomínio da videovigilância, eventos incomuns sucedendo em diversos locais foram filmados várias vezes. Podemos até mesmo registrar atividades sob o véu da escuridão com camêras infravermelhas que ‘veem’ além do espectro eletromagnético visível.

Apesar de toda essa tecnologia, ninguém até hoje jamais ofereceu qualquer registro em vídeo convincente de um provável candidato a evento sobrenatural. Além disso, existem outros meios de prover evidências convincentes de prováveis intervenções sobrenaturais na natureza. Se alguém com poucos conhecimentos científicos alega se comunicar com entidades sobrenaturais e pode oferecer informações inéditas e surpreendentes sobre o mundo natural, teríamos uma boa razão para acolher a possibilidade de que esta pessoa esteja se comunicando com entidades sobrenaturais. “Deixemos um místico nos dizer alguma coisa sobre o universo que ele e ninguém mais saiba, e então deixemos que a informação seja confirmada por descobertas [científicas] ulteriores, e poderemos começar a levar o misticismo a sério. Isto nunca aconteceu” (Stenger 1990, p. 104). Em contraste, os que afirmam se comunicar com entidades sobrenaturais ofereceram somente descrições óbvias ou falsas do mundo natural — se é que realmente descreveram o mundo natural — municiando-nos com uma forte razão para acreditar que o que eles consideram ser evidência do sobrenatural na verdade não é.

Finalmente, há as evidências experimentais. Não há nenhuma razão em princípio pela qual entidades sobrenaturais não poderiam intervir no mundo natural de maneira regular sem que tal intervenção seja presidida por algum tipo de leis naturais. Paul Dietl oferece o seguinte exemplo de tal situação:

Imaginemos que um profeta local abra, ou aparente abrir com a ajuda de Deus, o imponente Rio Schuylkill. Duas possibilidades são levantadas. A primeira é que o profeta não figure causalmente na explanação natural mas que ele perceba alguma sugestão na situação física que indique condições suficientes naturais… Ele pode não estar conscientemente informado de tal sugestão e assim pode ele próprio acreditar honestamente no milagre. Este tipo de explanação pode ser excluída, entretanto, se ele for solicitado a fazer milagres aleatoriamente. Digamos que ele permita a céticos escolherem doze milagres e numera-los. Qual ele irá realizar será determinado pelo lançamento de um par de dados honestos, e o dia e horário em que irá ocorrer será determinado por outro lançamento (Dietl 1972, p. 240).

O exemplo de Dietl mostra que um evento que presumivelmente possui uma causa sobrenatural não precisa ser um evento extraordinariamente raro, mesmo se tiver que ser extremamente improvável pressupondo-se que somente causas naturais estão presentes. Apesar dos argumentos em contrário de alguns filósofos, um evento com uma causa sobrenatural não precisa ser um evento único. Na verdade, o exemplo acima ilustra que eventos sobrenaturais poderiam ser reprodutíveis sob demanda. Reprodutibilidade não é uma característica exclusivamente reservada a fenômenos naturalmente causados. Como Dietl assinala mais tarde, se um evento aparentemente sobrenatural puder ser reproduzido desta forma, não existe nenhuma variável independente que poderia fazer parte de uma explanação científica de tais eventos (Dietl 1972, p. 241). Se um profeta obtiver êxito nos testes propostos por Dietl, a única variável correlacionada com a ocorrência do evento seria o desejo do profeta de que este acontecesse. Nenhuma causa natural poderia explicar plausivelmente uma correlação consistente entre o desejo do profeta e a ocorrência de um evento.

Se durante sucessivas experiências extra-corpóreas num ambiente controlado de laboratório um indivíduo for capaz de consistentemente causar o movimento de objetos e fornecer de volta informações acessíveis apenas a partir de um local remoto nós teríamos evidências experimentais persuasivas para a existência de um corpo astral potencialmente sobrenatural. Se assumirmos que a causação sobrenatural ocorreu dentro da história recente, considerando-se tal variedade ampla de meios de registro e documentação de fenômenos, é notável que não exista um único caso incontroverso para a existência de quaisquer candidatos prováveis a um evento sobrenatural. Mas se assumirmos que a causação sobrenatural não ocorre, a ausência de evidências incontroversas para prováveis candidatos a evento sobrenatural na história recente é exatamente o que esperaríamos encontrar.

Portanto a ausência de evidências para prováveis candidatos a evento sobrenatural no período contemporâneo providencia fortes razões indutivas para aceitarmos o naturalismo. O que é particularmente pertinente acerca desta ausência de evidências é que diversas gerações de parapsicólogos empreenderam tentativas sistemáticas para produzir evidências incontroversas de fenômenos paranormais ou ‘psi’ e até o presente momento fracassaram: “O total acumulado em 130 anos, que valha a pena ser cientificamente investigado, não produziu qualquer evidência de paranormalidade consistente capaz de resistir ao escrutínio científico aceitável” (Hyman 1985, p. 7). Esta é a razão pela qual o parapsicologista britânico John Beloff descreve a corroboração independente como “a exceção em vez da regra” na pesquisa parapsicológica (Hyman 1985, p. 89). Três características da pesquisa parapsicológica demonstram seu fracasso em produzir evidências incontroversas para o paranormal. Primeiro, a corrente principal da comunidade científica não reconhece a parapsicologia como uma ciência legítima. Isto não é porque os parapsicologistas não utilizam métodos científicos modernos, mas antes porque ao faze-lo eles fracassaram em produzir evidências indicutíveis para a existência do paranormal. A existência de qualquer fenômeno paranormal ainda está por ser demonstrada para a satisfação da comunidade científica. Os parapsicólogos podem estar engajados no estudo científico de um fenômeno inexistente.

Segundo, não existe consenso entre os parapsicologistas sobre quais dos vários fenômenos paranormais que constituem seu objeto de pesquisa são reais:

Quais experimentos os parapsicólogos julgam produzir as melhores evidências para os fenômenos psi? De acordo com vários críticos, os parapsicólogos não irão, ou não serão capazes de, responder a esta pergunta de forma consensual. Os experimentos listados como conclusivos por um parapsicólogo podem ser seriamente questionados ou completamente ignorados na listagem de outro parapsicólogo. Isto é mais sério quando se percebe que existem pouquíssimos experimentos listados por qualquer parapsicólogo como conclusivos (Ransom 1976, p. 416).

Esta falta de consenso entre os parapsicólogos, que é até mesmo mais estarrecedora do que a encontrada em ciências mais ‘flexíveis’ como a sociologia, é sintomática da ausência de evidências incontroversas para o paranormal. Na ausência de evidências consistentes, os parapsicólogos não dispõem de absolutamente nenhuma base para afirmar a realidade de quaisquer fenômenos paranormais em particular.

Finalmente, a parapsicologia fracassou em fazer qualquer progresso em determinar a natureza dos fenômenos paranormais. Por exemplo, não há consenso entre os parapsicólogos sobre quais propriedades específicas vários fenômenos paranormais exibem. Após aproximadamente um século e meio de investigações, os parapsicólogos não se encontram mais próximos de compreender a natureza do paranormal do que estavam quando a pesquisa psíquica começou. Como Ray Hyman aponta,

Os melhores casos de eventos psi levantados por uma geração são postos de lado pela geração seguinte de parapsicólogos e substituídos pelos casos mais recentes e atualizados. Não somente as evidências para o psi carecem de reprodutibilidade, como, ao contrário das evidências de outras ciências, elas não são cumulativas. É como se cada nova geração limpasse a lousa e recomeçasse tudo do zero. Consequentemente, as bases probatórias para o psi estão sempre sendo substituídas. Os casos mais antigos são descartados e substituídos pelas novas e aparentemente mais promissoras linhas de pesquisa (Hyman 1985, p. 86).

Esta ausência de progresso na parapsicologia também é sintomática da ausência de evidência para o paranormal. Considerando-se a inexistência de evidências consistentes para qualquer fenômeno paranormal, os parapsicólogos podem apenas especular sobre quais características estes fenômenos potencialmente inexistentes podem ter. Como quaisquer eventos qualificáveis como prováveis candidatos a evento sobrenatural na história recente pertenceriam ao domínio do paranormal (mesmo se algum fenômeno paranormal não fosse considerado sobrenatural), a ausência de evidências inequívocas para quaisquer fenômenos paranormais demonstra que não existem evidências incontroversas para prováveis candidatos a evento sobrenatural na história recente.

Além disso, é particularmente interessante como, desde os primórdios da parapsicologia como ‘pesquisa psíquica’ no século XIX, o interesse na investigação dos fenômenos paranormais nos quais entidades incorpóreas alegadamente desempenham um papel causal tem decrescido ao longo do tempo. As investigações científicas dos fenômenos paranormais nos quais entidades inumanas alegadamente devem estar envolvidas praticamente não existem. E conquanto os fenômenos paranormais alegadamente envolvendo agentes humanos incorpóreos constituem o que os parapsicólogos chamam pesquisa de sobrevivência, esta área de pesquisa é irrisória dentro do campo como um todo, com a maioria dos parapsicólogos muito mais interessados em tentar fornecer evidências inequívocas para modalidades de percepção extrasensorial e habilidades psicocinéticas. A total falta de interesse dos parapsicólogos no papel dos agentes incorpóreos na produção de fenômenos paranormais pode ser sugestivo de sua avaliação negativa das perspectivas de descoberta de evidências inequívocas para tais instâncias. Se este realmente for o caso, as perspectivas de descoberta de evidências inequívocas para prováveis candidatos a um evento sobrenatural não são promissoras nem mesmo pelos padrões dos parapsicólogos.

Conclusão

Na primeira parte deste artigo eu considerei diversas maneiras de definir o naturalismo e o que significa dizer que algo é natural. O naturalismo é tipicamente definido como a posição de que a totalidade do que existe é natural. Entretanto, uma definição mais fraca do naturalismo que preserve o núcleo essencial da posição — que a natureza é um sistema fechado de causas e efeitos naturais — é mais desejável. O naturalismo no sentido mais fraco sustenta que todo evento causado dentro da natureza possui uma causa natural. Em outras palavras, o naturalismo implica que causas não-naturais de eventos dentro do mundo natural — isto é, causas sobrenaturais — não existem. Esta definição mais fraca é mais desejável porque deixa em aberto a possibilidade de que domínios não-naturais (tais como o reino platônico dos objetos abstratos) existam. De modo que, ao passo que os naturalistas negam a existência de instâncias genuínas de causação sobrenatural, os sobrenaturalistas afirmam a existência de tais instâncias.

Esta compreensão do naturalismo, entretanto, não especifica o que significa uma causa ser natural. Também considerei diferentes critérios teóricos para que qualquer coisa seja abraangida pela categoria ‘natural’. Minha análise do conceito do natural levou-me a concluir que ser físico ou superveniente ao físico e comportar-se em concordância com as leis naturais são condições teóricas necessárias e suficientes para ser natural. Ser estritamente físico, espaciotemporal, e acessível à investigação científica em princípio são condições teóricas suficientes mas não necessárias para ser natural. A partir desta análise, determinei que ser não-físico e não-superveniente a qualquer coisa física, ser não-espaciotemporal, ser cientificamente inexplicável em princípio, e falhar em se comportar em concordância com as leis naturais são condições conjuntamente necessárias e suficientes para o não-natural. Em teoria, qualquer evento dentro do mundo natural com uma causa satisfazendo estas quatro condições (uma causa não-natural) é um evento sobrenatural.

Tal como estão, entretanto, estas condições teóricas para o não-natural são inadequadas como critérios práticos para caracterizar a distinção entre o natural e o sobrenatural. Elas não nos dizem como identificar na prática um evento sobrenatural. Mas podemos extrair uma distinção prática trabalhando com critérios que incorporam características comuns aos casos ‘nítidos’ de eventos sobrenaturais com aproximações aos critérios teóricos para o não-natural. Esta estratégia nos equipa com as seguintes condições necessárias e suficientes para um provável candidato a evento sobrenatural: (1) a causa do evento não pode ser identificada como qualquer força ou entidade física conhecida e tampouco é superveniente a qualquer força ou entidade física conhecida; (2) A causa do evento não pode ser situada no espaço e no tempo; (3) o evento desafia todas as explicações científicas tentadas até agora; (4) o evento aparenta violar leis científicas bem estabelecidas (conforme distinguidas das genuínas leis da natureza); (5) o evento é altamente improvável se possui exclusivamente causas naturais conhecidas; e (6) o evento exibe comportamento aparentemente intencional ou inteligente. Ser um provável candidato a evento sobrenatural é uma condição necessária mas não suficiente para ser um evento sobrenatural genuíno. Assim, enquanto todo provável candidato e evento sobrenatural pode não ser um evento sobrenatural genuíno, todo evento sobrenatural genuíno será um provável candidato a evento sobrenatural. Em outras palavras, um provável candidato a evento sobrenatural é uma instância potencial de causação sobrenatural.

Na segunda parte deste artigo eu apresentei um caso convincente para a aceitação do naturalismo baseado na ausência de evidências convincentes para quaisquer instâncias de causação sobrenatural. Proponentes da existência de causas sobrenaturais postularam a intervenção de agentes sobrenaturais em diversos momentos do passado distante — para explicar a origem do universo, a origem do planeta Terra, e a origem dos seres humanos, entre outras coisas. Mas nossa moderna descrição científica do mundo baseada em evidências oriundas de uma ampla variedade de disciplinas científicas implica que vivemos num universo naturalista no qual as únicas influências sobre o mundo natural são causas naturais impessoais operando cegamente em concordância com leis naturais fundamentais. Como Ernest Nagel escreveu:

É possível, eu penso, conceber sem inconsistências lógicas um mundo em que forças incorpóreas são agentes dinâmicos, ou em que o que quer que aconteça seja uma manifestação de um padrão lógico em desdobramento. Em tais mundos possíveis seria um erro ser um naturalista (Nagel 1960, p. 491).

Mas aparentemente não vivemos em tal mundo. Se considerarmos seriamente o esboço geral da história do universo elaborado pelos cientistas, descobriremos que a história da vida na Terra é um ciclo sem sentido de especiação e extinção impelido pela competição selvagem por recursos limitados. A seleção natural não deixa qualquer papel a ser desempenhado pelo propósito na origem e na diversificação da vida na Terra. Sob as circunstâncias corretas, uma vez que surgidas moléculas autorreplicantes primitivas, a diversificação da vida prossegue à medida em que forças evolutivas cegas fazem seu efeito. E o papel predominante da extinção e dos acidentes fortuitos na diversificação da vida na Terra respalda a idéia de que a evolução não é um processo guiado por um agente inteligente direcionado a qualquer finalidade.

As evidências compiladas pelas diversas ciências permitiram que os cientistas construíssem um esboço geral da história do universo e não há o menor indício de provável causação sobrenatural em qualquer ponto desta explicação. Além disso, as evidências para prováveis candidatos a evento sobrenatural na história recente são insuficientes. Nossa moderna descrição científica do mundo respalda o naturalismo, mas este suporte probatório NÃO foi uma consequência inevitável da natureza da invstigação científica. Os cientistas poderiam ter descoberto evidências inequívocas de que eventos para os quais não dispomos de nenhuma explanação natural plausível ocorreram ou no passado distante ou na história recente. Mas, naturalmente, eles não descobriram nada do tipo. É extraordinariamente significativo que nem uma descoberta científica sequer tenha falseado o naturalismo no sentido de tornar o sobrenaturalismo mais provável de ser verdadeiro do que falso quando podemos imaginar inúmeras descobertas que poderiam te-lo feito. Embora existam e certamente continuarão a existir anomalias polêmicas em nossa explicação científica do mundo, nenhuma delas tem qualquer coisa a ver com entidades sobrenaturais.

Notas

13. Embora vários parapsicólogos acreditem que habilidades paranormais como a telepatia e a psicocinese sejam supervenientes ao cérebro de um organismo, considerando-se a ausência de evidências consistentes esta hipótese foi meramente proposta, não estabelecida pela pesquisa parapsicológica. Além disso, se espíritos incorpóreos podem agir sobre o mundo natural, sua influência nos pareceria situar-se na esfera da psicocinese; e se ele forem capazes de se comunicar conosco diretamente, mente a mente, qualquer informação que eles forneçam teria que nos ser fornecida telepaticamente. Se possuímos alguma evidência de fenômenos psi-transcendentais que não poderiam ser plausivelmente reduzidos a formas mundanas do paranormal, precisaríamos dispôr de alguma evidência para habilidades paranormais que não sejam supervenientes a qualquer sistema físico conhecido.

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