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Posts Tagged ‘Política’

por Sam Harris

Para o bem ou para o mal, dissipar a ilusão do livre-arbítrio terá implicações políticas – porque liberais e conservadores não estão igualmente sujeitas a ela. Os liberais são mais propensos a entender que uma pessoa pode ser sortuda ou azarada em todos os aspectos relevantes para seu sucesso. Os conservadores, por sua vez, muitas vezes transformam o individualismo num fetiche religioso. Vários podem não ter absolutamente nenhuma consciência do quão sortudo alguém precisa ser para ter sucesso em qualquer área da vida, não importa o quão arduamente essa pessoa trabalhe. Deve-se ter a sorte de ser capaz de trabalhar. Deve-se ter a sorte de ser inteligente, fisicamente saudável e não ir à falência por volta dos quarenta anos devido à doença de um cônjuge.

Considere a biografia de qualquer homem “que fez a si mesmo”, e você descobrirá que seu sucesso dependeu completamente de condições de fundo que ele não criou e das quais ele foi meramente um beneficiário. Não há uma única pessoa no planeta que escolha seu genoma, ou o país de seu nascimento, ou as condições políticas e econômicas em vigor nos momentos decisivos para seu progresso. E no entanto, vivendo na América, tem-se a distinta sensação de que se se perguntasse a certos conservadores por que eles não nasceram com os pés tortos ou foram abandonados num orfanato antes de completar cinco anos de idade, eles não hesitariam em assumir o crédito por estas “realizações”.

Mesmo se você tiver batalhado para tirar o máximo daquilo com que foi agraciado pela natureza, você ainda precisa reconhecer que sua capacidade e propensão para batalhar é parte de sua herança. Quanto crédito uma pessoa merece por não ser preguiçosa? Absolutamente nenhum. A preguiça, como a diligência, é uma condição neurológica. Naturalmente, os conservadores estão certos em pensar que devemos encorajar as pessoas a trabalhar no limite de suas habilidades e desencorajar os malandros e vadios sempre que pudermos. E é sábio considerar as pessoas responsáveis por suas ações quando proceder assim influencia seu comportamento e traz benefícios para a sociedade. Mas isto não significa que devemos nos deixar levar pela ilusão do livre-arbítrio. Precisamos apenas reconhecer que os esforços importam e que as pessoas podem mudar. Não mudamos a nós próprios, exatamente – porque temos apenas a nós próprios com os quais fazer a mudança – mas influenciamos e somos continuamente influenciados pelo mundo que nos rodeia e por nosso universo interior. Pode parecer paradoxal considerar as pessoas responsáveis pelo que acontece em seu canto do universo, mas uma vez que quebramos o encanto do livre-arbítrio, podemos fazer isto exatamente num grau que nos é útil. Naquilo que as pessoas podem mudar, podemos exigir que elas o façam. Naquilo em que a mudança é impossível, ou insensível às exigências, podemos traçar outro curso de ação. Ao nos aprimorarmos e à sociedade, trabalhamos diretamente com as forças da natureza, pois não há nada com o que trabalhar além da própria natureza.

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