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Posts Tagged ‘Realismo Moral’

por Richard Carrier

Foram apresentadas duas objeções cuja análise apenas confirma a conclusão de que fatos morais universais existem. Primeiro, pode ser construído um argumento (e eu construo um em Sense and Goodness, 326-327) segundo o qual é altamente provável que todas as espécies terrestres naturalmente evoluídas que construírem civilizações compartilharão com os humanos um subconjunto de necessidades e interesses e modos e meios de satisfaze-los que implicarão pelo menos uma ordem elevada de moralidade universal. Em outras palavras, teremos duas morais verdadeiras justapondo-se (no meio estando um conjunto de fatos morais igualmente verdadeiros para ambas), ou de fato sobrepondo-se completamente (isto é, com todos os mesmos fatos morais prevalecendo para cada um de nós). Entretanto, como ainda é possível que exista uma espécie senciente que não compartilhe conosco nada que estabeleceria que mesmo uma ordem mais elevada de moralidade universal aplica-se a eles (esta espécie pode evoluir, ao menos raramente, ou ser criada através da engenharia genética ou do desenvolvimento da IA, por exemplo; veja Carrier, Sense and Goodness without God, 342-43), segue-se que a moralidade universal que demonstrei que deve existir necessariamente não é cosmicamente ou metafisicamente universal mas contingente em certos padrões de construção ou evolução (o que não obstante é altamente provável).[43] Portanto, estritamente falando, a moralidade universal que efetivamente existe ainda é um subconjunto do relativismo moral, mas apenas de um modo trivial. Fatos morais devem necessariamente ser relativos à veracidade de certos fatos acerca da natureza fundamental de um agente. Mas mesmo o Cristianismo é moralmente relativista nesse sentido (pois sua moral também mudaria se Deus alterasse suficientemente nossa natureza fundamental ou mesmo a sua própria), e indiscutivelmente toda teoria moral verossímil deve ser.[44]

Segundo, fatos morais universais devem necessariamente consistir de leis abraangentes cuja aplicação particular sempre diferirá de acordo com o indivíduo e as circunstâncias. Um indivíduo deve escolher o que ele individualmente mais deve fazer, uma escolha que será um imperativo moral para ele mas não necessariamente para qualquer outra pessoa – mesmo na mesma situação – já que as circunstâncias de controle incluem os modos e meios do agente (por exemplo, alguém que não sabe nadar não deve tentar salvar alguém se afogando; alguém que deve comer não deve consumir alimentos aos quais é alérgico; etc.). Mas todos concordarão que se fossem essa pessoa então isso seria a ação correta a ser feita. De maneira similar, todos os casos de conhecimento inacessível: “suficientemente informado” nunca pode significar “plenamente informado”, e portanto imperativos morais resultam apenas de conhecimentos disponíveis para nós no momento da tomada de decisão. Por exemplo, uma pessoa “plenamente informada” por definição saberia nadar, mas uma pessoa “suficientemente informada” sabe apenas que ela ainda não sabe nadar, portanto todos os fatos morais que lhe são imperativos devem resultar do fato real de sua ignorância, e não de informações que ela “poderia” ter, mas não tem e não pode ter na ocasião.[45] O mesmo vale para preferências moralmente aceitáveis: que você goste de um tipo de emprego mais do que de outro diferirá do que outros gostam, mas um imperativo moral para atender a sua felicidade e segurança financeira ao procurar um emprego não implicará que todos devem buscar exatamente a mesma ocupação.

Consequentemente todos estes diferentes resultados não constituem fatos morais diferentes mas regras universais adaptadas a condições particulares, assim como para as condições ambientais inalteráveis discutidas anteriormente. Por exemplo, uma lei abraangente para o exemplo da alergia seria “Você não deve comer alimentos aos quais é alérgico” (se você não tem que), o que por sua vez deriva de uma lei mais geral “Você não deve infligir danos gratuitos a si próprio” (na medida em que você possa razoavelmente saber). Estas leis são verdadeiras para todos, mesmo para pessoas sem alergias. O desejo fundamental instrumental neste caso ainda é o mesmo para todos os seres humanos. Consequentemente uma alergia não é uma diferença biológica que exerça o menor efeito sobre nossos maiores desejos fundamentais, que neste caso são “comer” e “evitar danos gratuitos”. Ser exposto a comida tóxica é simplesmente outra diferença de circunstância.

Levado a sua conclusão lógica, isto abraangeria até mesmo alienígenas com moralidades não-humanas, com quem concordaríamos, se fôssemos estes alienígenas, que devemos nos comportar como eles. Mas, é claro, não somos estes alienígenas, de modo que essa conclusão não possui consequências para nós (exceto na medida em que precisamos prever suas ações e reagir ao que eles farão). Portanto o fato de que definimos a moralidade universal de acordo com as espécies é na verdade apenas uma questão de convenção prática. Simplesmente não precisamos saber sobre outras moralidades, porque há apenas uma espécie racional com a qual estamos lidando (pelo menos até agora), e quando se trata de perguntar como nós devemos nos comportar, existe apenas uma espécie a que esta pergunta se refere (a nossa própria).[46]

Portanto as exceções na verdade provam a regra: como os seres humanos compartilham os mesmos desejos biológicos primários (que não estão limitados aos assim chamados desejos baixos por, digamos, comida e sexo, mas incluem, como a ciência tem demonstrado, desejos por amor e companhia e alegria e realização pessoal e outros mais, ordenados em hierarquias semelhantes de necessidade instrumental e irrevogabilidade), e como somente tais desejos podem sempre implicar racionalmente (conjugados com o conhecimento) uma conclusão esclarecida sobre o que nós mais queremos, segue-se que todos (quando racionais e igualmente informados) desejaremos acima de tudo exatamente as mesmas coisas (quando nas mesmas circunstâncias), o que implica logicamente que os mesmos fatos morais serão verdadeiros para todos nós. Portanto, fatos morais universais devem existir necessariamente.[47]

Notas.

43. Não me interprete como se eu estivesse dizendo que fatos morais consistem de estratégias evolutivas que incrementam o sucesso reprodutivo diferencial. Tais estratégias evoluíram. Mas elas não carregam nenhuma autoridade imperativa quando desejamos ainda mais alguma outra coisa. Nós (como pessoas tomando decisões morais) somos mentes, não genomas. Nós preferimos coisas como felicidade ao sucesso reprodutivo diferencial (e eu prevejo que isto será um lugar-comum entre  todas as espécies civilizadas). O último pode na melhor das hipóteses ser instrumental para o primeiro – ou seja, para nós; ao passo que para nossos genes, obviamente, foi o contrário, que é como nós chegamos a este estágio, mas agora nós estamos no comando do espetáculo, não nossos genes: veja Keith Stanovich, The Robot’s Rebellion: Finding Meaning in the Age of Darwin (Chicago: University of Chicago Press, 2004), e observações relacionadas no capítulo que Victor Stenger escreveu para o presente volume (Life After Death: Examining the Evidence).

44. Esta é uma consequência muito importante de minha análise, já que se este for o caso, precisamos ser extremamente cuidadosos em qualquer esforço para desenvolver IA de qualquer espécie, seja genética ou digital, já que seu reconhecimento dos fatos morais dependerá da natureza que lhes projetemos (ou fracassarmos em projetar). Este risco foi habilidosamente ilustrado, por exemplo, nos filmes Dark Star (1974) e 2010 (1984).

45. Aqui, não há diferença relevante entre conhecimento proposicional (“Eu sei nadar”) e conhecimento não-proposicional (realmente saber como nadar). As mesmas conclusões seguem-se de qualquer dos dois (o último consistindo meramente de informações assimiladas inconscientemente, como quando no filme Matrix [1999] a personagem Trinity recebe o “upload” da habilidade de pilotar um helicóptero).

46. Consequentemente as conclusões de Jonathan Haidt e Fredrik Bjorklund em Sinnott-Armstrong, Moral Psychology, 2:213–16 (bem como 250–54).

47. Isto possui a consequência adicional de refutar o Argumento Moral Para A Existência de Deus, por exemplo, Mark Linville, “The Moral Argument,” in The Blackwell Companion to Natural Theology, ed. W. L. Craig and J. P. Moreland (Wiley-Blackwell, 2009), 391–448. Naturalmente, se estou errado, isso ainda não implica que o argumento moral é bem-sucedido (se não existem fatos morais, então não existem fatos morais – isso não refuta o ateísmo). Mas como eu demonstrei que fatos morais devem existir necessariamente independente de se Deus existe ou da veracidade de qualquer religião, a existência de fatos morais não pode provar a existência de Deus ou a veracidade de qualquer religião. O contraargumento de Linville, de que derivar fatos morais a partir de fatos evoluídos da biologia humana comete uma falácia genética, é autoanulante se verdadeiro, já que nesse caso derivar fatos morais a partir dos atos criativos de Deus também comete uma falácia genética (pois não podemos concluir que o que Deus quer é melhor exceto apelando à natureza que Deus nos deu, o que se torna um argumento circular). De qualquer maneira, permanece a questão sobre o que devemos fazer acima de todas as outras coisas, que ainda é implicado pelo que mais queremos que aconteça. Não faz diferença como obtivemos esta configuração (embora vá fazer diferença quando nos tornarmos os criadores de seres inteligentes). Mesmo se Linville argumentasse que deseja ser diferente do modo como a evolução o moldou, ele estaria se contradizendo – já que ele não poderia ter nenhum desejo além daqueles com os quais a evolução o construiu, e se ele pode mudar para satisfazer esse desejo depende de sua natureza real, que é uma questão de fato que permanece a mesma quer tenhamos sido criados por Deus ou pela evolução; portanto, se Linville deseja ser diferente mas não pode satisfazer este desejo, então ele está objetando tanto contra a maneira como Deus o fez como contra o modo como a evolução o fez – ao passo que se ele puder satisfazer este desejo, então sua queixa carece de fundamentos, já que ele não mais precisa ser diferente daquilo que desejou ser.

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