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Posts Tagged ‘Revisionismo Histórico’

O texto a seguir é continuação de A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 2: A Igreja Contra A Razão

por Andrew Bernstein

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Eis a tragédia da teologia em sua essência destilada: o emprego do gênio, do intelecto humano de alta potência, da dedução lógica profundamente rigorosa – ao estudo de nada. Durante a Idade Média, as grandes mentes com o potencial para transformar o mundo não estudaram o mundo; e assim, por quase um milênio, enquanto os seres humanos gritavam em agonia – cambaleando de fome, devorados pela lepra e pela peste, morrendo em massa no auge de seus vintes anos – os homens de espírito, que poderiam ter providenciado sua salvação terrena, os abandonaram em troca de fantasias transcendentes.

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O erro fundamental da explicação de Stark, a concepção errônea que subjaz à e origina sua interpretação equivocada da história, é sua compreensão equivocada da natureza da razão. Stark sustenta que o Catolicismo é intrinsecamente racional, e, portanto plenamente capaz de produzir um progresso tecnológico e científico significativo. Com efeito, sua visão é: como a Idade Média foi uma fonte de pensamento racional, ela deve ter sido um caldeirão borbulhante de progresso científico – e, consequentemente, afirmações de uma “Idade das Trevas” não seriam nada além de mitologia preconceituosa disseminada pelos inimigos culturais da religião.

No capítulo mais importante de seu livro, “As Bençãos de Uma Teologia Racional”, ele afirma que “os teólogos medievais depositaram na razão uma fé muitíssimo superior à que a maioria dos filósofos está disposta atualmente”. Foi a tentativa cristã de compreender a natureza de Deus que abriu “o precedente para uma teologia da dedução e da inferência…” As bases para o compromisso ocidental com a razão foi estabelecido porque “desde seus primórdios os teólogos do Cristianismo assumiram que a aplicação da razão pode produzir um entendimento cada vez mais preciso da vontade de Deus.[26]

Para compreender o profundo erro cometido aqui, e compreender a verdadeira natureza da razão, devemos remeter aos fundamentos da filosofia.

A filosofia busca responder a cinco questões principais: Qual é a natureza da realidade? Como – por quais meios – os homens obtêm conhecimento dela? Qual é a natureza do homem? O que é o bem – e o que é o mal? Qual é a sociedade ideal? A religião, como uma espécie particular de filosofia, é uma tentativa de responder a estas questões.

No que tange à realidade, a essência da religião é a crença no dualismo metafísico – ou seja, em dois mundos: o universo natural e um outro mundo mais importante além dele, transcendente. Como não existe nenhum meio de acesso baseado na observação a um mundo “mais elevado”, segue-se que, em relação a conhecimentos importantes, a fé nas verdades infalíveis de um texto revelado fornece a base da cognição. A famosa máxima de Santo Agostinho de que a crença é o fundamento necessário do conhecimento é representativa da abordagem religiosa. Um estudioso escreve: “Em sua maturidade, Santo Agostinho utiliza sua razão sobretudo para compreender aquilo em que já acreditava.[27] O home é um bípede metafísico: sua alma pertence ao domínio transcendente e seu corpo a este. Uma criatura caída manchada pelo pecado de seus ancestrais, sua carne terrena é propensa à luxúria e à tentação, às quais sua alma transcendente deve resistir piamente. O bem é colocar Deus no mais alto posto de seu panteão de valores, e obedecer cegamente a todos os seus mandamentos; o mal é desobedecer. Uma sociedade adequada é teocrática – baseada nos mandamentos divinos conforme interpretados por uma elite de espiritualmente iniciados: o clero.

A religião, como uma tentativa de responder a todas as questões filosóficas importantes da vida humana, é uma espécie de filosofia, gênero ao qual pertence. A religião é um sistema filosófico baseado na fé, não baseado na razão. A religião pode ser (grosseiramente) definida como um sistema filosófico baseado na fé, não na razão, defendendo a existência e a supremacia de um Deus transcendente que exige a obediência incondicional dos indivíduos humanos pecaminosos por Ele criados e governados. A religião foi o arcabouço filosófico dominante, melhor dizendo, exclusivo, que vigorou no primeiro período da Idade Média, do século VI ao século XII aproximadamente.

Santo Agostinho (354-430) foi a principal influência e porta-voz intelectual do período. Sua filosofia, embora complexa em alguns aspectos, é, em termos essenciais, bastante simples: o conhecimento requer a aceitação da autoridade – Deus em primeiro lugar, a Igreja em seguida. A razão é, na melhor das hipóteses, uma faculdade suplementar, talvez capaz de explicar o que é previamente acreditado, talvez não. Apenas Adão possuiu livre-arbítrio. Seus descendentes são grotesca e irremediavelmente pecaminosos, incapazes de salvar a si próprios; todos merecem, e a maioria receberá, apenas a danação; apenas um seleto grupo será salvo por um rígido processo de predestinação. O pecado é transmitido pelo intercurso sexual, que é maligno e deve ser evitado exceto para propósitos procriativos – e mesmo então, não deve ser desfrutado. Embora a criação de Deus seja intrinsecamente ordenada de acordo com leis, milagres – violações das leis da natureza – ocorrem repetidamente; numerosos homens foram levantados dos mortos, por exemplo. O orgulho é um pecado mortal, sobretudo o orgulho intelectual – o comprometimento com o uso das próprias capacidades racionais para bisbilhotar os mistérios do universo criado e mantido por Deus. Os pensadores gregos foram condenados por seus “esforços para descobrir as leis secretas da natureza”. A ciência foi condenada como a “luxúria dos olhos”.[28]

Um sistema filosófico como esse está em conflito profundo com as bases intelectuais da ciência. Uma condição de possibilidade para a ciência é a visão de que a natureza é fascinante, importante, de um valor supremo – uma convicção logicamente congruente com o entendimento secular da natureza como a realidade. Esta visão é incompatível com a crença cristã de que este mundo é corrupto e deficiente, ao passo que o ideal encontra-se além do alcance da compreensão do homem terreno. A ciência começa com observações dos fatos, não com pronunciamentos infalíveis de um texto revelado. Além disso, a ciência (sobretudo seus ramos aplicados e tecnológicos) apoia-se na premissa de que os seres racionais são (ao menos potencialmente) bons, que a vida do homem sobre a terra é valiosa, que o conhecimento é tanto alcançável como desejável, e que os homens são merecedores de padrões de vida elevados. A ideia de que o homem deveria buscar o desenvolvimento científico é incompatível com a hipótese de que os homens são criaturas, segundo a eloquência de Santo Agostinho, “repulsivas… deformadas… sórdidas… maculadas… e ulcerosas”, inexoravelmente (e compreensivelmente) condenadas à perdição por uma divindade ultrajada.[29] Stark convenientemente ignora estes pontos.

Por que a Igreja medieval perseguiu os livre-pensadores que ousaram desafiar a ortodoxia? Porque, como um exemplo histórico perfeito de religião em estado puro, ela foi necessariamente uma instituição de puro autoritarismo. Ela concebia a si própria como o intermediário entre Deus e o homem desesperadamente caído, que não poderia aspirar à ascensão sem sua intercessão. Sua ortodoxia era literalmente a palavra de Deus; qualquer desvio era uma afronta ao representante de Deus sobre a Terra, portanto ao próprio Deus – e era, consequentemente, profundamente intolerável. Onde os homens não possuem nenhuma capacidade para melhorar seu quinhão terreno – muito menos salvarem-se a si próprios – e são completamente dependentes da Igreja de Deus, qualquer crítica a ela é um ataque à divindade e solapa a única instituição capaz de trazer aos homens a redenção. Tolerar a independência de pensamento, dada a essência desprezível dos homens, é tolerar a inevitável rebelião espiritual. Para que o homem seja salvo de sua natureza irremediavelmente pecaminosa, sua mente deve ser agrilhoada.

Santo Agostinho, filosoficamente um cristão neo-platonista, glorificou o núcleo da visão de mundo platônico-cristã: o dualismo metafísico, a supremacia de um mundo transcendente, a estatura reduzida deste, a ignóbil raiz da existência corpórea do homem. Tais fundamentos conduziram necessariamente à elevação da teologia (o estudo de Deus) como a disciplina cognitiva dominante, e a depreciação da ciência e da filosofia secular (o estudo da natureza e da vida terrena do homem).

Aqui reside a causa primordial da tragédia que a Idade Média representa – e do erro fundamental de Stark em atribuir à teologia cristã o compromisso com o pensamento racional. A razão é uma metodologia baseada na observação. Ela não começa com crenças já aceitas sobre bases preconceituosas, e então prossegue para “provar” sua veracidade. Seja estudando o homem, o funcionamento interno de sua mente, os germes, pedras, insetos, átomos, os limites do espaço intergaláctico, ou qualquer outra coisa mais, a razão prossegue a partir da observação sensorial por um método de pensamento lógico que incorpora a famosa Lei Da Não-Contradição de Aristóteles: nenhum existente pode ser tanto x e não-x ao mesmo tempo e no mesmo aspecto.

Mas não há, e nem pode haver, nenhuma experiência sensorial de uma dimensão além desta. Mais especificamente, não existem provas das quais inferir que a existência e as atividades dos corpos materiais resultam de uma causa imaterial. (Como poderia o espírito ou a consciência existir na ausência de um meio corpóreo, por exemplo, orgãos dos sentidos, um sistema nervoso e um cérebro? Como poderia tal fantasma desprovido de corpo criar, controlar ou afetar remotamente os seres corpóreos?) Teólogos e religionistas em geral começam com uma premissa fantasiosa e então vão adiante aplicando uma lógica formal rigorosa para descortinar suas implicações. O próprio Stark assinala que “a teologia consiste do raciocínio formal sobre Deus.” Isto é de uma exatidão admirável. Teólogos, começando com uma criação “conjurada” por suas próprias mentes, analisam as características dessa criação pela aplicação rigorosa dos princípios da lógica formal– ou seja, dedutiva.[30]

Mas o método da razão, adequadamente compreendido, é, enfaticamente, não o emprego da lógica formal para explicar as consequências implicadas por premissas arbitrárias. O raciocínio consiste, primeiro e acima de tudo, na observação e na indução a partir da observação. A lógica dedutiva fornece conhecimento somente quando aplicada a premissas radicadas, em última instância, em fatos observáveis.

Na história da filosofia, o termo ‘racionalismo’ possui dois significados distintos. Num sentido, ele significa um compromisso inviolável com o pensamento racional em oposição a qualquer rejeição irracionalista da mente. Neste sentido, Aristóteles e Ayn Rand são expoentes do racionalismo, contrários a qualquer forma de irrazão, incluindo a fé. Num sentido mais estreito, contudo, o racionalismo contrasta com o empirismo no que se refere à falsa dicotomia entre o compromisso com a assim chamada razão “pura” (isto é, a razão desvinculada da realidade perceptual) e uma confiança exclusiva na experiência dos sentidos (isto é, observações sem inferências subsequentes). O racionalismo, neste sentido, é um compromisso com a razão interpretado como dedução lógica a partir de pontos de partida não-observáveis, e uma desconfiança em relação à experiência sensorial (por exemplo, o método de Descartes). O empirismo, de acordo com esta falsa dicotomia, é uma crença em que a experiência dos sentidos fornece conhecimentos factuais, mas qualquer inferência além da observação não passa de manipulação de palavras ou símbolos verbais (por exemplo, a abordagem de Hume). Tanto Aristóteles como Ayn Rand rejeitam esta falsa dicotomia entre a razão e a experiência dos sentidos; nenhum deles é um racionalista neste sentido estreito.

A teologia é a mais pura expressão do racionalismo no sentido de aplicar a dedução lógica à premissas sem fundamentos em fatos observáveis – dedução sem referência à realidade. O assim chamado “raciocínio” envolvido aqui é puramente formal, infundado de uma perspectiva oservacional, desprovido de fatos, desvinculado da realidade. Tomás de Aquino, por exemplo, foi o mais destacado especialista de todos os tempos num campo conhecido como “angeologia”. Ninguém poderia rivalizar seu “conhecimento” sobre os anjos, e ele dedicou muito mais espaço em sua monumental Summa Theologica a eles do que às ciências naturais.

Eis a tragédia da teologia em sua essência destilada: o emprego do gênio, do intelecto humano de alta potência, da dedução lógica profundamente rigorosa – ao estudo de nada. Durante a Idade Média, as grandes mentes com o potencial para transformar o mundo não estudaram o mundo; e assim, por quase um milênio, enquanto os seres humanos gritavam em agonia – cambaleando de fome, devorados pela lepra e pela peste, morrendo em massa no auge de seus vintes anos – os homens de espírito, que poderiam ter providenciado sua salvação terrena, os abandonaram em troca de fantasias transcendentes. Mais uma vez, estes fatos filosóficos fundamentais reduzem a pó o argumento de Stark, e no entanto ele simplesmente os ignora.

A religião enquanto um campo de estudos é, em seus melhores momentos, racionalismo – dedução aplicada a premissas fantasiosas – não uma racionalidade genuína. (Em seus piores momentos, ela repudia até mesmo esta conexão tênue com a lógica em favor da adesão à fé autêntica.) O próprio Stark fornece um exemplo perfeito deste método falacioso. Embora seja amplamente conhecido pelos estudiosos que Jesus teve pelo menos um irmão, Tiago, um líder da igreja de Jerusalém após a morte de Cristo, Stark afirma, como um exemplo notável do “raciocínio” cristão, que “Tomás de Aquino analisou a doutrina do nascimento virginal de Cristo para deduzir que Maria não teve outros filhos.” Em outras palavras, a abordagem religiosa à “verdade” é ignorar os fatos se eles entram em conflito com deduções lógicas extraídas de premissas fidelistas bizarras. Portanto, mesmo um gênio monumental como Tomás de Aquino – um aristotélico, um pensador que mantinha um grande respeito pelos fatos e pela observação, e o maior filósofo cristão de todos os tempos – não ficou imune à infecção cognitiva pela metodologia religiosa.[31]

Pela própria natureza de sua metafísica, a religião é incapaz de promover, encorajar e defender a razão. A religião é compatível somente com deduções racionalistas extraídas de premissas baseadas na fé. E, na Idade Média, se as deduções de alguém colidissem com a ortodoxia, este corria o sério risco de ser punido por heresia. A religião e a racionalidade são antípodas primordiais. (Há um campo da religião natural que emprega a observação na tentativa de provar a existência de Deus; mas ela deriva sua crenças originais da fé, executa saltos gratuitos no mundo transcendente, é facilmente refutada pelos filósofos racionais e, consequentemente, sua validade é debatida acaloradamente mesmo pelos teólogos.)

A racionalidade inclui – na verdade, começa com – um respeito incondicional pelos fatos. Como Jones assinala, porém, a identificação dos fatos, de importância crucial para Aristóteles e os secularistas contemporâneos, foi considerada de pouco valor pelos homens do período medieval. Para eles, as exigências da salvação eram esmagadoramente mais importantes do que os fatos da natureza. “Em relação a coisas não concernentes à fé – sobre as propriedades das safiras ou sobre a cura para a lepra, por exemplo – não fazia muita diferença se se estava ou não errado.[32]

O maior filósofo da história, o homem cujo método incorporou a racionalidade baseada na observação acima de qualquer coisa, foi Aristóteles. Apesar de seus erros, as realizações extraordinárias de Aristóteles aumentaram significativamente nosso entendimento da natureza, nossos métodos para determinar suas propriedades, e, portanto, nossa capacidade de nos engajarmos na ciência. É impossível reconhecer a falsidade criminosa da alegação de Stark de que o Catolicismo medieval, e não a cultura grega, foi o maior responsável pelo compromisso ocidental com a razão sem levarmos em consideração a obra e a influência de Aristóteles.

A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Conclusão: O Gênio De Aristóteles

Notas.

26. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), pp. 8–9.

27. Adrian Hastings, “Reason,” The Oxford Companion to Christian Thought (Oxford: Oxford University Press, 2000). Citado em Charles Freeman, The Closing of the Western Mind: The Rise of Faith and the Fall of Reason (New York: Vintage Books, 2005), pp. 286–287.

28. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 72–138.

29. Santo Agostinho, Confessions, tradução de J. G. Pilkington (Liveright, NY, 1943), VIII, pp. vii, 16. Citado em W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), p. 106.

30. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), p. 5.

31. Ibid., p.6. L. Michael White, From Jesus to Christianity (San Francisco: HarperSanFrancisco, 2004), pp. 149, 219, 229–230, 277.

32. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 169–170.

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O texto a seguir é continuação de A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 1: História Econômica E Social da Idade Média

por Andrew Bernstein

Há dois princípios que se deve ter em mente a fim de compreender os erros de Stark; ambos os princípios foram identificados por Ayn Rand. O primeiro é que a mente racional é uma ferramente básica para a sobrevivência e o progresso do homem. O segundo é que seu funcionamento adequado requer liberdade; ela deve estar completamente desacorrentada, livre para percorrer qualquer trilha de pensamento ou pesquisa que julgue importante.

O Iluminismo setecentista, e os princípios por ele herdados da Renascença e a Idade da Razão, originiram a Revolução Americana, e aumentaram vastamente a liberdade política e econômica por todo o mundo ocidental. Não se deve esquecer que os revolucionários que criaram a República Americana foram, em vários casos, os maiores expoentes do Iluminismo Americano: Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Thomas Paine, James Madison. Um dos resultados de tal liberdade vastamente ampliada foi o extraordinário progresso intelectual, sobretudo nas ciências teóricas e aplicadas, na industrialização e no desenvolvimento tecnológico, e na pesquisa médica – todos os quais produziram uma elevação nos padrões e nas expectativas de vida inigualada por qualquer outro período histórico anterior. Quando os Isaacs Newtons, os Charles Darwins, os Thomas Edisons, as Ayn Rands e os Jonas Salks não precisam se curvar perante autoridades polítcas ou religiosas, e não podem ser legalmente reprimidos pela Igreja ou pelo Estado, eles ficam livres para criar novas idéias, invenções e inovações que melhoram em larga escala a vida do homem sobre a terra. Tal liberdade existiu durante a Idade Média? Se a mente não era livre – se seu trabalho foi inteiramente ou em grande parte sufocado – então se deve esperar uma era de estagnação, até mesmo de retrocesso. Se a mente foi, de fato, substancialmente reprimida durante esta época, qual foi o papel desempenhado pela Igreja em tal repressão?[14]

Por uma questão de justiça para com a Igreja medieval, alguns pontos devem ser deixados bem claros de início. Primeiro, houve grandes pensadores durante este período – Alberto Magno e Tomás de Aquino são os dois exemplos mais notórios. Segundo, estes pensadores foram todos católicos devotos; na verdade, geralmente membros do clero católico. Terceiro, a posição oficial de diversos papas e oficiais do alto escalão da Igreja era, nas circunstâncias em questão, a de encorajar a educação e o progresso intelectual (apesar das intermináveis qualificações e restrições). Quarto, como amplamente divulgado, os monastérios católicos foram, na época, vetores da sabedoria clássica, na medida em que os monges laboriosamente preservaram e copiaram os poucos manuscritos antigos sobreviventes. Quinto, embora os hereges e outros livre-pensadores fossem continua e sistematicamente reprimidos, deve ser observado que um herético condenado poderia, em todos os casos, salvar sua vida até o último momento ao abjurar de suas crenças ilícitas. Isto de maneira alguma isenta a Igreja medieval de censuras; não obstante, não deixa de ser verdade que a Igreja não foi uma instituição assassina nos mesmos moldes que os regimes instalados pelos nazistas ou pelos comunistas.

Além disso, embora a Igreja tenha sido um componente integral do ancien regime – o sistema feudal que reprimiu brutalmente os servos e plebeus – sendo generoso, pode-se defender que, nos séculos caóticos que se seguiram ao colapso de Roma, os chefes guerreiros tribais que conquistaram o poder e se declararam aristocratas exerciam uma forma primitiva de poder baseado na violência dificilmente atenuado por uma instituição fundada teoricamente para salvar as almas. Em outras palavras, é pelo menos possível que a responsabilidade pelo interminável estado sangrento de guerra e pela repressão brutal dos servos e plebeus não repouse primariamente sobre os ombros da Igreja.

Não obstante, as instituições, como os indivíduos, são muitas vezes uma combinação de qualidades boas e ruins. Apesar de tal apologia, e nos termos mais generosos imagináveis, a Igreja Católica foi, e continua sendo, uma força de malignidade incalculável. A explicação começa com a natureza da ortodoxia e sua hostilidade generalizada contra a heresia. A ortodoxia, neste contexto, significa o estabelecimento de uma doutrina oficial baseada na fé e a exigência, sob pena de excomunhão ou até mesmo de morte, de resignação acrítica a ela. A nona edição do Webster’s Collegiate Dictionary define “heresia” como: “adesão a uma opinião religiosa contrária ao dogma da igreja”. Com efeito, um herege é um membro de uma denominação religiosa que discorda de (ou pelo menos questiona) algum aspecto da doutrina dessa denominação. Resumindo, um herege não passa de um espírito independente cujo livre-pensamento o coloca em rota de colisão com a seita religiosa dominante.

Ao longo de literalmente séculos de disputas teológicas, a Igreja impôs ferreamente sua posição oficial em relação a centenas de controvérsias religiosas – incluindo aquelas envolvendo a doutrina da Trindade, da Eucaristia, o problema do mal, e inúmeros outros. Previsivelmente, dada a impossibilidade lógica de provar qualquer alegação transcendente baseada na fé, houve discordâncias intelectuais intermináveis com as conclusões oficiais. Vários dos que rejeitaram os postulados ortodoxos foram condenados como hereges. Como é a história da interação da Igreja com aqueles pensadores católicos independentes o bastante para contestar algum aspecto de sua doutrina oficial? Não é nem um pouco atraente.

Considere os diversos exemplos que indicam a essência e a extensão da repressão. A heresia ariana é um bom ponto de partida. Ário (256-336 d.C.), um presbítero da Igreja em Alexandria, a fim de proteger o monoteísmo, ensinou que Cristo não é perfeito e eterno como Deus Pai, mas que na verdade foi criado do nada por Deus. Resumindo, se o monoteísmo fosse verdadeiro, como Ário sem dúvida alguma afirmara, então Jesus não poderia ser Deus. Nas palavras de Jones: “Ele [Jesus] deve ter sua própria natureza e uma essência distinta da de Deus”.[15] O conflito entre os arianos e os partidários da Trindade – a crença em que Jesus é Deus, mas distinto de Deus Pai, mas que mesmo assim Deus é único – foi uma batalha cruel. O Imperador Constantino convocou o Concílio de Niceia, uma conferência dos bispos da Igreja em 325, para arbitrar a disputa; ela aderiu ao ponto de vista trinitarista e condenou a teoria de Ário. Os arianos recusaram-se a aceitar a derrota teológica e, por fim, centenas foram massacrados na batalha centenária que sucedeu.

Filosoficamente, Ário foi um descendente epistemológico distante dos proponentes gregos da racionalidade, buscando compreender o universo logicamente, incluindo a natureza de Jesus e de Deus Pai. Mas aqueles defendendo e transformando em ortodoxia a doutrina da Trindade promoviam a noção baseada na fé de que a crença cristã não precisava ser racionalmente inteligível. Por conseguinte, “a controvérsia ariana enfatiza diferenças importantes no método e na abordagem, assim como na perspectiva básica, entre a mentalidade grega e a cristã… A solução que venceu e se tornou ortodoxa foi um sinal de que, para o bem ou para o mal, a Igreja atribuíra à razão um posto subordinado no esquema das coisas.[16]

No mesmo século, a heresia donatista – a crença em que os sacramentos da Igreja são ineficazes se ministrados por sacerdotes moralmente indignos – foi implacavelmente exterminada. “Os donatistas foram proscritos [pela Igreja]; vários foram exilados; vários outros foram mortos ou cometeram suicídio.” Santo Agostinho (354-430), que relutantemente apoiou a perseguição, manteve que seu resultado líquido foi humano, já que em várias ocasiões arrancou homens das trevas da ignorância para “o Deus vivo e verdadeiro”. Jones observa: “Desta maneira, foram assentados os fundamentos e fornecida a autoridade para a instituição da Inquisição – para a cooperação entre a Igreja e o Estado na sagrada tarefa de extirpar as heresias e as dissidências e salvar as almas contra suas vontades.[17]

A heresia maniqueísta, que tem resistido tenazmente por milênios a todas as tentativas de eliminação, é uma tentativa de resolver o implacável problema do mal: como pode o mal existir num universo criado e governado por um Deus onipotente e onibenevolente? A crença maniqueísta, plausível sob premissas religiosas, é que Deus é onibenevolente mas não onipotente. Deus, na verdade, é uma versão turbinada do Batman: ele combate o mal implacável e efetivamente, mas o mal exerce um poder inegável no mundo.

Embora o maniqueísmo tenha sido suprimido pela Igreja no século V, ele ressurgiu numa forma bastante difundida durante os séculos XII e XIII. A heresia cátara ou albigense, como foi conhecida durante esta revivescência específica, foi exterminada numa guerra sangrenta comandada pelo papa Inocente III em 1208. O exército de caçadores de hereges do papa assaltou a cidade de Beziers em 1209. Tanto os católicos leais como os cátaros da cidade se refugiaram nas igrejas: os invasores irromperam e massacraram todos – homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, inválidos, sacerdotes. Segundo uma história possivelmente apócrifa, o emissário papal, Arnald-Amalric, quando lhe comunicaram que vários católicos sinceros residiam na cidade, respondeu: “Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus.” Não há dúvidas de que ele escreveu exultante para o papa após o massacre, proclamando que “aproximadamente 20 000 cidadãos foram mortos, independentemente de sua idade ou sexo. As obras da vingança divina são magníficas.”[18] A seita claudicou em números enormemente reduzidos até o século seguinte; os últimos cátaros foram queimados na Itália em 1330.

As obras cátaras foram queimadas, a ortodoxia triunfou e a Inquisição Papal foi estabelecida em 1227. “A Igreja e o Estado concordaram que a heresia impenitente era traição, e deveria ser punida com a morte.”[19] Estes foram os penosos resultados  da cruzada contra a heresia albigense. Não sarcasticamente, mas com a maior seriedade possível, os críticos de Stark deveriam perguntar-lhe: é a isto que você se refere quando afirma que a Igreja medieval promoveu a razão?

Tampouco a proscrição de hereges restringiu-se aos que desafiaram pilares específicos da fé. Todos os pensadores originais viveram sob a ameaça de condenação. Por exemplo, de Boécio no sexto século a Abelardo no século XII – um período de 600 anos – houve apenas um pensador original na filosofia: John Scotus Erigena (810-877). Naturalmente, várias de suas conclusões foram condenadas em 855 – e as cópias de um de seus livros foram queimadas com tanto êxito que nenhum exemplar sobreviveu às chamas.

Pedro Abelardo (1079-1142), o mais brilhante espírito europeu em séculos, foi acossado por décadas pelos cães de guarda oficiais do dogma católico. Em 1121, um conselho da Igreja condenou as obras de Abelardo sobre a Trindade e o obrigou a arremessar seu livro numa fogueira. Em 1141, dezesseis proposições de seus livros, incluindo sua definição de pecado, foram condenadas. Não muito depois, o papa Inocente II impôs-lhe uma sentença de silêncio perpétuo, confinando- o num monastério. Abelardo, um mestre da lógica aristotélica, enfureceu as autoridades da Igreja com sua recusa em excluir qualquer preceito de fé da análise racional. “Mais do que qualquer heresia específica, o que incomodou a Igreja em Abelardo foi sua pressuposição de que não havia mistérios na fé, que todos os dogmas deveriam ser racionalmente explicáveis.[20]

Um dos contemporâneos de Abelardo, William de Conches (1080-1154), atraiu a previsível fúria da Igreja ao condenar os que atacaram a filosofia e a ciência apoiando-se na suficiência da fé sincera. O estudioso rebelde logo decidiu que a resignação era preferível à excomunhão. William “retratou-se por suas heresias… abandonou a filosofia como um empreendimento cujo lucro potencial não compensava o risco; tornou-se o tutor de Henrique Plantageneta da Inglaterra, e retirou-se da história.” Nos termos do romance de Ayn Rand A Revolta de Atlas, William de Conches entrou em greve.

Jean Roscelin (1050-1120), um dos professores de Abelardo, foi ameaçado de excomunhão por desafiar a Trindade ao ensinar que três não pode ser um. Ele foi arrastado até um conselho episcopal em 1092 e confrontado com uma escolha difícil: retratação ou excomunhão. Ele preferiu retratar-se.

Até mesmo Tomás de Aquino (1225-1274), o maior gênio filosófico desde Aristóteles, não escapou da vigilância repressiva da Igreja. Na condenação de 1277, apenas três anos após a morte deste grande homem, o bispo de Paris, Étienne Tempier, baniu como heréticas 219 proposições ensinadas na Universidade de Paris, incluindo várias do aquinate.[21]

Evidências adicionais poderiam ser arroladas (por exemplo, a repressão sistemática dos pagãos e dos judeus, inevitavelmente incluindo as mentes mais brilhantes entre eles), mas os exemplos acima são suficientes para estabelecer o caso. Durante o período medieval, o espírito de livre investigação humano, mais bem exemplificado pelos hereges e dissidentes, viveu sob ameaça constante de condenação, proscrição, destruição de suas obras, excomunhão, decretos de silêncio perpétuo, até mesmo de execução. Apesar das alegações de Stark em contrário, a Igreja conduziu uma guerra implacável, invasiva e muitas vezes letal contra os espíritos independentes.[22]

Os leitores procurarão em vão por qualquer referência à repressão dos pensadores inovadores por parte da Igreja. Por exemplo, os termos “heresia” e “hereges” não aparecem no índice remissivo. Suas breves menções a este fenômeno não sugerem o menor indício da dura realidade. Para ilustrar, quando discute a obra teológica de Santo Agostinho e Tomás de Aquino, ele declara: “Naturalmente, milhares de outros teólogos também tentaram se destacar por suas doutrinas. Alguns foram bem sucedidos, a maioria foi ignorada, e alguns foram rejeitados como hereges.”[23] Observem seu emprego do termo “rejeitados”, vago, enganador e completamente sanitizado. Alguém poderia concluir desta versão da história que as teorias heréticas foram meramente descartadas como erros intelectuais por uma comunidade de acadêmicos, sem quaisquer outras consequências para seus proponentes.

Ainda pior é a discussão de sua visão (errônea) de que o Cristianismo foi responsável pela abolição da escravatura. Neste contexto, ele escreve: “Aqui também podem ser vistos os princípios do progresso teológico operando, tornando possível aos teólogos propor novas interpretações sem fazer recair sobre si acusações de heresia.[24] Como já foi notado, porém, uma descrição mais acurada deste período estabelece que muitas vezes foi extremamente difícil para “novas interpretações” escaparem da acusação de heresia. Ademais, ele tampouco menciona a repressão aos pagãos, judeus e outros dissidentes ou infiéis.

A verdade é que o espírito criativo não pode florescer a contento sob tal reinado de terror. Sua busca sagrada pelo conhecimento não lhe permite cessar os questionamentos desafiadores, as descobertas de princípios verdadeiros, ou autocensurar-se em virtude da presença ameaçadora da Inquisção espreitando sobre seus ombros e coagindo-o a viver temendo cronicamente por sua liberdade ou mesmo sua vida. Se tais são os parâmetros sociais impostos, a investigação racional é atrofiada, até mesmo deixa de existir; a ferramenta de sobrevivência humana é inutilizada, e vários homens não sobreviverão à inevitável Idade das Trevas que se segue.

Que a fé reinou suprema sobre a razão sob a égide da Igreja é um fato histórico incontestável. Mas especificamente quais princípios filosóficos o catolicismo medieval promoveu – e a quais ele renunciou? Quais ideias foram responsáveis pela Idade das Trevas? Quem codificou estas ideias? E quais ideias reduziram a pó este código, pavimentando o caminho para o progresso superlativo do Ocidente secular contemporâneo?

A Tragédia Da Teologia: Como A Igreja Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 3: Fundamentos Filosóficos De Uma Visão de Mundo Pró-Científica

Notas.

14. Peter Gay, The Enlightenment: An Interpretation, 2 vols. (New York: Knopf, 1966, 1969). Andrew Bernstein, The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic and Philosophic Case for Laissez-Faire (Lanham, Md.: 2005), 41–54, 70–72, 73–101.

15. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 63–65.

16. Malcolm Lambert, Medieval Heresy: Popular Movements from the Gregorian Reform to the Reformation (Malden, MA.: Blackwell Publishing, 2002), pp. 3–8.

17. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 125–127.

18. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 769–776. Charles Freeman, The Closing of the Western Mind: The Rise of Faith and the Fall of Reason (New York: Vintage Books, 2005), p. 296.

19. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 140–157. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 769–784. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 67–69.

20. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 931–948. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 88–126. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 190–196.

21. Para a citação e os exemplos nos três parágrafos anteriores, e para mais exemplos como esse, veja Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 949–983 (citação, p. 950).

22. Malcolm Lambert, Medieval Heresy: Popular Movements from the Gregorian Reform to the Reformation (Malden, Mass.: Blackwell Publishing, 2002), pp. 194–207. Sobre a perseguição aos pagãos veja, por exemplo, Ramsay MacMullen, Christianity and Paganism in the Fourth to Eighth Centuries (New Haven: Yale University Press, 1997); sobre a perseguição aos judeus, veja James Carroll, Constantine’s Sword: The Church and the Jews (Boston: Houghlin Mifflin, 2001), e Gustavo Perednik, “The Nature of Judeophobia,”. Para o estudo da perseguição de várias mulheres religiosamente inconformistas como ‘bruxas’, veja Jeffrey Burton Russell, Witchcraft in the Middle Ages (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1972), Brian Levack, The Witch-Hunt in Early Modern Europe (London: Longman, 1995), e Alan Charles Kors e Edward Peters, Witchcraft in Europe: 400–1700 (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2001).

23. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), p. 7.

24. Ibid., pp. 30–31.

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Uma crítica do livro A Vitória da Razão, de Rodney Stark

Autor: Andrew Bernstein

Andrew Bernstein é PhD em Filosofia pela Graduate School of the City University of New York. Ele leciona filosofia na SUNY Purchase, onde em 2004 foi eleito “Professor de Destaque”. Ele é o autor de The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic, and Philosophic Case for Laissez-Faire (2005); Objectivism in One Lesson: An Introduction to the Philosophy of Ayn Rand (2008); Capitalism Unbound: The Incontestable Moral Case for Individual Rights (2010); e Capitalist Solutions (2011). O Dr. Bernstein é um dos editores e colaboradores do The Objective Standard, e escreve regularmente uma coluna para o site Forbes.com.

Fonte: The Objective Standard – Reason, Egoism and Capitalism, vol. 1, nº4, Inverno de 2006-2007

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

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Nas últimas décadas, os acadêmicos medievalistas têm apresentado persistentemente a tese de que a Idade Média não foi realmente uma era de trevas e obscuridade – que o período de mil anos compreendido entre a queda do Império Romano (aproxiamdamete 500 d.C.) e o Renascimento (aproximadamente 1500 d.C.) foi na verdade uma época de avanços culturais e intelectuais significativos. Esta tendência culminou nas teses do livro de Rodney Stark A Vitória Da Razão: Como O Cristianismo Levou À Liberdade, Ao Capitalismo E Ao Sucesso Ocidental (e em  alegações similares apresentadas no livro de Thomas Woods Jr. Como A Igreja Católica Construiu A Civilização Universal). Que tal teoria tenha sido bem recebida pela direita religiosa não surpreende. Entretanto, o que pode surpreender alguns – e o que é certamente tenebroso – é que órgãos importantes da imprensa liberal (N.T.: Leia-se ‘de esquerda’) como o The New York Times e o The Chronicle of Higher Education (a mais importante publicação para reitores e professores universitários) tem dispensado ao livro de Stark um respeito expressivo. Este artigo demonstrará que tal respeito é completamente imerecido.

A tese do livro de Stark é que a Igreja Católica promoveu um compromisso cultural com a razão que possibilitou a ascensão do Ocidente. O Cristianismo Medieval foi fundamentalmente, talvez exclusivamente, responsável pelo grande progresso alcançado pela civilização ocidental na filosofia, nas artes, na ciência, na tecnologia e na liberdade. Nas palavras do próprio Stark:

Mas quando se investiga a fundo, torna-se claro que a base verdadeiramente fundamental para… a ascensão do Ocidente foi uma extraordinária fé na razão.

A Vitória da Razão explora uma série de eventos e mudanças significativas em que a razão trinfou, moldando de maneira única a cultura e as instituições ocidentais. A mais importante destas vitórias ocorreu dentro do Cristianismo… enquanto as outras religiões do mundo enfatizaram o mistério e a intuição, apenas o Cristianismo abraçou a lógica e a razão como o guia principal para a verdade religiosa… Encorajada pelos escolásticos e materializada nas grandes universidades medievais fundadas pela Igreja, a fé no poder da razão saturou a cultura ocidental, estimulando a busca da ciência e a evolução da teoria e da prática democráticas.

O sucesso do Ocidente, incluindo a ascensão da ciência, assentou-se por inteiro sobre fundamentos religiosos, e as pessoas que a trouxeram à existência foram cristãos devotos.[1]

Este livro, e outros semelhantes – junto com o tratamento reverente a eles dispensado pelos principais veículos da mídia liberal – são sintomas da revitalização do Cristianismo na América. O que torna isto ainda mais alarmante é o fato de os argumentos estarem ser apresentados e adotados num nível acadêmico, não meramente popular. Se tais argumentos fossem sólidos, sua crescente aceitação entre os intelectuais contemporâneos não representaria nenhum problema; mas, como será demonstrado, esta tese pró-religião, apesar de convincente para alguns, é flagrante e demonstravelmente equivocada.

Stark, um professor de ciências sociais na Universidade Baylor, está absolutamente correto em seu raro acerto de que um compromisso com a razão foi a causa fundamental do progresso espetacular alcançado no Ocidente e em nenhum outro lugar. Mas ele está profundamente equivocado ao atribuir a base deste compromisso ao Cristianismo. Na verdade, o Ocidente progrediu muito mais lenta e incompletamente do que poderia ter progredido sob outras circunstâncias, exatamente devido à sua profunda ambivalência para com a razão. Ao longo das eras, e continuando até hoje, tem havido no Ocidente recaídas na irracionalidade que muitas vezes excedem seu comprometimento com a racionalidade. Existe um profundo dualismo no pensamento ocidental: sua dedicação à razão, embora certamente superior à de outras culturas, existe num desesperado conflito com diversas versões da irracionalidade, incluindo a fé. Expresso em termos de seus maiores expoentes, Jesus e seus discípulos – não apenas Aristóteles e os seus – tem sido uma influência esmagadora no pensamento ocidental. O Cristianismo, incluindo enfaticamente a Igreja medieval, mais do que qualquer outro fator isolado, é responsável pela irracionalidade da sociedade ocidental. O compromisso com a racionalidade é em sua essência um legado da Grécia Antiga – sobretudo de Aristóteles – e dos períodos subsequentes em que o elemento grego foi dominante, por exemplo, o Iluminismo do século XVIII.

Os erros de Stark são abundantes e abrangentes. Eles compreendem os campos da História e, sobretudo, da Filosofia. Com efeito, como será demonstrado, as alegações de Stark são historicamente falsas e filosoficamente impossíveis.

História

Stark afirma que “o período que começa com a Queda do Império Romano e se prolonga na Idade Média foi um tempo de progresso intelectual e tecnológico espetacular que irrompeu quando a inovação foi libertada dos grilhões do despotismo romano.” De modo semelhante: “O compromisso cristão com a razão e o progresso não era apenas conversa; logo após a queda de Roma, ele encorajou uma extraordinária era de invenção e inovação.” Ele descreve o desenvolvimento de moinhos d’água, represas e moinhos de vento – e discute repetidamente melhorias na agricultura que incrementaram significativamente a produção de alimentos. Por exemplo, ela afirma que “a Europa medieval ampliou grandemente sua produção agrícola drenando potenciais terrenos cultiváveis”, e que “estes ganhos incríveis na produtividade agrícola reduziram tanto a necessidade de trabalho nas fazendas e aumentaram tanto a produção que facilitaram grandamente a formação e o suprimento de vilas e cidades.” Após outras alegações semelhantes, Stark conclui: “Não somente os europeus se alimentaram muito melhor durante a Idade das Trevas do que no período romano como eles também foram mais saudáveis, mais bem dispostos e provavelmente mais inteligentes.[2]

Ao projetar tais fantasias sem substância, Stark comete um erro idêntico ao da esquerda anticapitalista _ ignorar por completo o campo da História Econômica. A História Econômica é relevante, pois ela municia os pesquisadores com dados factuais acerca do que pode ser descoberto sobre os padrões de vida das pessoas que viveram no passado. Criticamente, este campo não é respaldado nem por asserções arbitrárias nem por julgamentos confusos, mas por evidências reais.

Um dos principais pensadores contemporâneos neste campo é o economista holandês Angus Maddison. De acordo com a pesquisa de Maddison, a Europa padeceu de crescimento econômico nulo entre o século 5 e o 15, precisamente o período descrito por Stark. Maddison mostra que por mil anos não houve nenhum aumento da renda per capita, que atingiu o valor abissalmente baixo de 215 dólares em 1500. Além disso, ele estima que no ano 1000, um recém-nascido típico poderia esperar viver aproximadamente até os 24 anos – e que um terço deles morreria antes de completar o primeiro de vida. Estas são estimativas globais, e a Europa não exibia nenhuma diferença apreciável do restante do mundo. Não chega a surpreender que os padrões de renda per capita não mostrem nenhum aumento dramático até o Iluminismo do século XVIII – o começo da Revolução Industrial.[3]

Embora outros historiadores econômicos defendam que algum crescimento econômico ocorreu na Idade Média tardia, eles não obstante reconhecem que o crescimento foi tão irrisório que contribuiu muito escassamente para mitigar a horrível penúria em que viviam as massas europeias. Por exemplo, a pesquisa do economista Graeme Snooks sugere que houve crescimento econômico na Inglaterra ao longo dos seis séculos entre 1086 e 1688. “Se em 1086 o indivíduo médio tivesse cerca de um sexto da renda do indivíduo médio em 1688, ele ou ela não tinha muito… Os camponeses ingleses em 1086 tinham pouco mais do que alimento suficiente para mante-los vivos, e às vezes nem mesmo isso. As casas eram construções grosseiras e temporárias. As posses de um camponês consistiam de um conjunto de roupas, melhor descritas como trapos, e mais alguns pertences.”[4]

Admiravelmente, Stark cita em sua bibliografia diversos historiadores importantes que concordam com estas descobertas. Por exemplo, o soberbo historiador francês Fernand Braudel, escrevendo sobre a época anterior ao século XVIII, afirma que: “A fome foi tão recorrente por anos a fio que foi incorporada ao regime biológico do homem medieval e integrada a seu cotidiano…” Braudel assinala, por exemplo, que embora a França fosse, pelos padrões da época, um país relativamente próspero, acredita-se que sua população foi assolada por dez fomes generalizadas durante o século X; vinte e seis no século XII – e estas estimativas nem levam em conta as “centenas e centenas de fomes locais…”[5] Mesmo reconhecendo que existem diversas dificuldades inerentes às estimativas dos padrões de vida medievais com qualquer grau de precisão, a conclusão deve ser que o que foi então considerado prosperidade relativa foi, quando comparado com épocas anteriores e posteriores, a mais completa indigência.

Ademais, o saneamento básico regrediu ao grau mais primitivo durante esta era. Dejetos humanos eram muitas vezes arremessados pela janela nas ruas ou simplesmente despejados nos rios locais. (Em comparação, a Roma antiga foi significativamente mais avançada: “as principais cidades do Império instalaram sistemas de drenagem conectados às latrinas” – e os “ricos desfrutavam de luxos como água encanada em suas residências… até mesmo os indigentes tinham acesso aos banhos públicos.”) Com as ruas transbordando lixo, urina e fezes – e com as mesmas condições deploráveis permeando os rios e cursos d’água dos quais era extraída a água bebida nas residências – as verminoses e infecções se multiplicaram, e doenças de todos os tipos, intratáveis pelos conhecimentos médicos primitivos da época, proliferaram. Entre 1347 e 1350, por exemplo, a peste bubônica – a infame ‘Morte Negra’ – espalhou-se através das pulgas que parasitavam os ratos, devastando a Europa, ceifando aproximadamente 20 milhões de vidas, um terço da população européia. Norman Cantor, o principal historiador contemporâneo da Idade Média, declara: “O surto de Peste Negra de 1348-1349 foi o maior desastre biomédico da história europeia e possivelmente da história mundial.” Um cronista florentino referiu-se a ela simplesmente como “o extermínio da raça humana.”[6]

Por fim, os primeiros séculos da Idade Média testemunharam um declínio estarrecedor nos níveis de instrução e educação em relação ao período romano. No estado de guerra endêmico do período, os seres humanos perderam a habilidade da escrita e, em larga escala, a da leitura. “Na época em que Santo Agostinho viveu sua juventude [quarto século da era comum]… até mesmo um cristão ostentava uma formação clássica razoavelmente boa. Apenas algumas gerações mais tarde, a alfabetização era uma raridade mesmo entre as classes dominantes.” Por exemplo, durante o oitavo século, Charlemagne sustentava que mesmo o clero não sabia latim o bastante para ler a Bíblia ou conduzir adequadamente os serviços eclesiásticos.[7]

Uma catástrofe relacionada foi o abandono em larga escala do aprendizado clássico no Ocidente. Uma das razões para isso foi o fato de, durante o Império Romano, os romanos educados terem estudado as obras de Platão, Aristóteles e outros pensadores no original grego, de modo que não havia necessidade de traduzi-las para o latim. Embora os conquistadores bárbaros tenham aprendido algum latim, os ocidentais não mais aprenderam o grego. A perda da alfabetização em grego foi desastrosa para a civilização, pois ela significou “a perda simultânea da filosofia, da matemática, da medicina, da engenharia e da ciência.[8]

Andrew Coulson, um pesquisador do campo da história educacional, assinala que enquanto os gregos foram fascinados pelo mundo natural, dando passos pioneiros em ciências como a anatomia, a biologia, a física e a metereologia, os cristãos substituíram os esforços para compreender o mundo por uma tentativa de conhecer Deus; o estudo baseado na observação da natureza foi, consequentemente, subordinado ao estudo das escrituras baseado na fé. Consequentemente, um declínio nos níveis de instrução afligiu todos os campos do conhecimento. “O conhecimento médico limitado que havia sido acumulado pelos médicos gregos e romanos foi substituído pelo mais completo misticismo.” Por exemplo, Santo Agostinho acreditou que os demônios eram responsáveis pelas doenças, um indiscutível retrocesso em relação à abordagem hipocrática. O trabalho científico em geral declinou, bem como o interesse pelo mundo natural. O resultado global? “Da perspectiva da educação das massas… a Idade Média foi realmente uma idade das trevas. Apesar de bolsões isolados de instrução concentrados ao redor dos monastérios da Europa, a maioria esmagadora da população era ignorante e analfabeta.[9]

Contribuindo para o desastre educacional, em 529 o imperador cristão Justiniano I, governando em Constantinopla o império oriental e sustentando que a filosofia grega era “inerentemente subversiva para a fé cristã”, fechou todas as escolas pagãs de filosofia, incluindo a Academia de Platão que, por 900 anos, especializara-se nos ensinamentos de seu fundador. Para reforçar cabalmente o banimento da filosofia greco-romana, Justiniano proibiu qualquer pagão de ensinar. (Boécio, um cristão que viveu entre 480 e 525, o último grande filósofo por 350 anos, fora educado nas grandes escolas pagãs.) Como resultado, ninguém no Ocidente teve a oportunidade de estudar as realizações da cultura grega por seis intermináveis séculos. Como o eminente historiador Will Durant observou: “A filosofia grega, após onze séculos de história, chegou ao fim.[10]

W. T. Jones, o maior historiador da filosofia do século XX, capturou sucintamente a essência do declínio, e o papel causal do Cristianismo ao promovê-lo, quando declarou: “Devido à indiferença e à franca hostilidade dos cristãos… a totalidade da literatura e da erudição antigas quase se perdeu… Esta destruição foi tão grande e o ritmo de recuperação foi tão lento que mesmo por volta do século IX a Europa ainda se encontrava incomensuravelmente atrás do mundo clássico em todos os departamentos da vida… Esta foi, então, verdadeiramente uma Idade das ‘Trevas’.[11]

Que alguns avanços tenham ocorrido ao longo deste milênio não está posto em questão, e Stark volta a relatá-los minuciosamente. Mas pelos padrões do Ocidente secularizado posteriores ao século XVIII, tal progresso foi relativamente – e enormemente – insignificante. Com efeito, os relatos de avanços menores são mera distração, pois eles proporcionaram pouco ou nenhum alívio para a miséria extrema em que os europeus ocidentais viveram por séculos. A alegação de Stark de que o período foi de “invenção e inovação extraordinárias” é um exagero grotesco – na melhor das hipóteses. Uma era “extraordinária de inovação e invenção“ envolveria avanços tecnológicos igualmente extraordinários e a consequente melhoria significativa dos padrões de vida humanos. No mínimo, Stark sugere – e em alguns casos afirma explicitamente – que foi isto o que ocorreu durante a Idade Média. Na verdade, nada remotamente semelhante a isso aconteceu.

Alegações importantes feitas por Stark são escandalosamente errôneas. Por exemplo, ele declara: “A idéia de que a Europa mergulhou numa Idade das Trevas é um boato produzido pelos intelectuais antirreligiosos e cruelmente anticatólicos do século XVIII, que estavam determinados a afirmar a superioridade cultural de sua própria época e que promoveram sua alegação depreciando os séculos anteriores como – nas palavras de Voltaire – uma época em que ‘o barbarismo, a superstição e a ignorância cobriram a face do mundo.’[12] Infelizmente para os homens que viveram naquela época, a alegação de Stark de que a Idade das Trevas europeia entre os séculos V e IX foi “um boato” não é nem remotamente corroborada pelos fatos. A verdade trágica é que da queda de Roma até a Renascença medieval dos séculos XII e XIII – um período de seiscentos anos completos – a Europa Ocidental sofreu um longo período de penúria material e privação intelectual quando comparada tanto à Idade Clássica que o precedeu como ao Renascimento que o seguiu.

Em comparação, os séculos XVIII e XIX foram palco do florescimento pleno das Revoluções Tecnológica e Industrial. Estes foram séculos não de Santos Bonifácios convertendo pagãos paralelamente a progressos secundários como moinhos de vento de água que ainda deixavam os homens esfaimados – mas de James Watt e a máquina a vapor, Thomas Edison e o sistema de iluminação elétrico, Alexander Graham Bell e o telefone, os irmãos Wright e a aviação, Henry Ford, Andrew Carnegie, John D. Rockefeller, e a produção industrial em massa de bens de consumo – e, consequentemente, estes foram séculos de crescimento meteórico do padrão e da expectativa de vida. Esta foi uma era de progresso intelectual e material assombroso. Os séculos XVIII e XIX foram um período de “invenções e inovações extraordinárias”. Os séculos VIII e IX simplesmente não foram.[13]

Qual foi a causa básica de um período tão longo de estagnação, sobretudo quando comparado com o enorme avanço criado pelos homens nos últimos 250 anos? Para respondermos a esta questão, é necessário identificar tanto a causa fundamental do progresso humano como as condições sociais que seu florescimento exige.

A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 2: A Igreja Contra A Razão

Notas.

1. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), pp. x–xi.

2. Ibid., xiv–xv, 35, 38–42.

3. Angus Maddison, Phases of Capitalist Development (New York: Oxford University Press, 1982), pp. 4–7. Angus Maddison, The World Economy: A Millennial Perspective (Paris: Organization for Economic Cooperation and Development, 2001), p.1. Andrew Bernstein, The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic and Philosophic Case for Laissez-Faire (Lanham, Md.: 2005), pp. 73–136.

4. Graeme Snooks recontado em Joyce Burnette and Joel Mokyr, “The Standard of Living Through the Ages,” in The State of Humanity, editado por Julian Simon (Malden, Mass.: Blackwell Publishers, 1995), pp. 136–39.

5. Fernand Braudel, The Structures of Everyday Life: Civilization and Capitalism, 15th–18th Centuries (New York: Harper & Row, 1981), pp. 73–78.

6. J. J. Bagley, Life in Medieval England (London: B.T. Batsford, 1960), pp. 57–59, 156–159. Mabel Buer, Health, Wealth and Population in the Early Days of the Industrial Revolution (New York: Howard Fertig, 1968), pp. 104–105. Norman Cantor, In the Wake of the Plague (New York: Perennial, 2002), pp. 6–8.

7. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 141–142.

8. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 61–62.

9. Andrew Coulson, Market Education: The Untold History (New Brunswick: Transaction Publishers, 1999), pp. 58–60.

10. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), p. 123.

11. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 139–142. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 59, 61–62. Charles Freeman, The Closing of the Western Mind: The Rise of Faith and the Fall of Reason (New York: Vintage Books, 2005), pp. 268–269.

12. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), p. 35.

13. Veja Andrew Bernstein, The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic and Philosophic Case for Laissez-Faire (Lanham, Md.: 2005), pp. 73–161.

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Título Original: O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto

Autor:  Hector Avalos, PhD

Fonte: The Christian Delusion, págs. 368-395 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2010 )

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Hector Avalos (nascido em Nogales, México, em 8 de Outubro de 1958) é professor de Estudos Religiosos na Iowa University State e autor de diversos livros sobre religião. Ele é ex-pastor pentecostal e ex-criança evangelista.

Ele possui um doutorado em Estudos do Oriente Próximo e da Bíblia Hebraica pela Harvard University (1991), um mestrado em Estudos Teológicos pela Harvard Divinity School (1985) e um bacharelado em Antropologia pela University of Arizona (1982).

Avalos foi admitido na Iowa University no Outono de 1993 após completar seu pós-doutorado (1991-93) nos departamentos de Antropologia e Estudos Religiosos na University of North Carolina em Chapel Hill. Em 1996 Avalos foi eleito Professor do Ano na Iowa State University, onde também foi eleito Melhor Professor no biênio 2003-04. Outros prêmios incluem The Early Achievement in Research and Creative Activity Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996), e the Outstanding Professor Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996).

Avalos é internacionalmente reconhecido por sua ferrenha oposição ao design inteligente e ao movimento neocriacionista, sendo frequentemente associado a Guillermo Gonzalez, um astrofísico defensor do design inteligente a quem foi negada a nomeação para um cargo na Iowa State University em 2007. Avalos corredigiu uma declaração contra o design inteligente em 2005, que por fim foi subscrita por 130 membros da Iowa University State. Esta declaração foi adotada como modelo para outras declarações pela University of Northern Iowa e pela University of Iowa. Ambos Gonzalez e Avalos aparecem no filme Expelled: No Intelligence Allowed (2008).

Avalos é um ateu militante e um defensor da ética humanista secular.

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Em sua réplica às acusações dos autores neoateus de que a religião levou a matanças em larga escala, Dinesh D’Souza, o comentarista conservador, assegura-nos que “o nazismo… foi uma filosofia secular e antirreligiosa que, de modo bastante estranho, compartilhou diversos elementos com o comunismo[1].” Desse modo, D’Souza é capaz de responsabilizar o ateísmo na Alemanha Nazista por 10 milhões de mortes, incluindo as de 6 milhões de judeus. De fato, para D’Souza, os regimes ateístas de Joseph Stalin e Mao Zedong ocupam os dois primeiros lugares no ranking da violência ateísta. De um modo geral, D’Souza afirma que estes três grandes regimes ateístas assassinaram cerca de 100 milhões de pessoas[2].

D’Souza exemplifica à perfeição a categoria dos apologistas cristãos cuja melhor resposta aos genocídios cometidos por autoproclamados cristãos é afirmar que os ateus assassinaram ainda mais. Com efeito, D’Souza calcula que “as mortes causadas por regimes cristãos ao longo de um período de 500 anos equivalem a apenas um porcento das mortes causadas por Stalin, Hitler e Mao num intervalo de poucas décadas”.[3] Bruxas e judeus são alguns dos grupos que D’Souza relutantemente admite que podem ter sido assassinados em decorrência da violência cristã.

Já discuti extensamente a falácia de conceber a violência estalinista em termos de ateísmo[4]. A maior parcela da violência estalinista resultou da coletivização forçada, e documentos publicados recentemente mostram a cumplicidade das autoridades clericais com a agenda estalinista.[5] D’Souza não fornece um único documento ou declaração de Stalin mostrando que ele estava coletivizando ou assassinando por razões ateístas.

Além disso, o comunismo, entendido como um sistema de propriedade coletivizada, é uma noção bíblica já encontrada em Atos 4:32-37. Esse sistema comunista cristão também resultou no assassinato de um casal (Atos 5:1-11) que quebrou sua promessa de renunciar à suas posses. Portanto, o princípio de matar os que não se resignassem à coletivização de suas propriedades é bíblico. A defesa de que o motivo pelo qual Ananias e Safira foram mortos foi simplesmente mentir sobre a entrega de suas posses negligencia a brutalidade do fato de que o valor da vida foi colocado abaixo do valor da renúncia às próprias posses. Pois em vez de apenas bani-los da comunidade, eles foram mortos. Stalin ou Mao provavelmente teriam feito a mesma coisa. Como o comunismo é defendido por alguns autores bíblicos, os assassinatos maoístas e estalinistas não podem ser atribuídos ao ateísmo sem mais nem menos, na medida em que a coletivização forçada pode ser letal tanto em sua forma ateísta como na cristã. (Nota do tradutor: não somente isso, como mesmo intérpretes modernos da doutrina cristã, como o influente apologista inglês C.S. Lewis, reconhecem que no aspecto econômico, uma sociedade construída sob princípios cristãos “seria o que se chama hoje em dia ‘de esquerda'(…) sua vida econômica seria bastante socialista“. Para maiores detalhes vejam o capítulo 3 do terceiro livro de Cristianismo Puro e Simples, Conduta Cristã – Moralidade Social)

Além disso, D’Souza não possui a competência necessária para avaliar as alegações de violência maoísta porque tal tarefa requer um treinamento extensivo na língua e nos documentos chineses para averiguar a acurácia das informações fornecidas pelas fontes inglesas. Como eu também careço de especialização no idioma e na cultura chinesa para avaliar a violência maoísta, não abordarei o maoísmo aqui. O que sabemos é que D’Souza não apresenta uma única citação de Mao ou mesmo de algum documento chinês traduzido para respaldar suas asserções de que Mao assassinou por causa do ateísmo.

Em todo caso, este artigo analisará em grande profundidade o argumento de que as mortes causadas por Hitler deveriam ser atribuídas a algum tipo de ateísmo darwinista, algo enfaticamente defendido por Richard Weikart em seu livro From Darwin to Hitler (2004)[6]. O livro de Weikart é uma das fontes para os pronunciamentos de D’Souza. Na verdade, demonstrarei que:

  • O Holocausto nazista, em vez de resultar de algum tipo de ateísmo darwinista, é efetivamente a mais trágica consequência de uma longa história de racismo e antijudaísmo cristãos.
  • O Nazismo assassinou pessoas por sua etnicidade ou religião seguindo princípios enunciados na Bíblia.

Além disso, mostrarei que diversas alegações de D’Souza apoiam-se em péssimas técnicas de pesquisa histórica e num conhecimento superficial do antijudaísmo cristão.

Princípios Éticos e Números

De acordo com a Convenção das Nações Unidas contra o Genocídio (também chamada de Primeira Convenção de Genebra), o termo genocídio descreve “atos cometidos com o objetivo de destruir, parcial ou totalmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”[7]. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo religioso ou um grupo étnico. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo racial ou um grupo nacional. Todos são igualmente proibidos pelos padrões das Nações Unidas. Isto é importante porque D’Souza muitas vezes tenta atenuar a violência religiosa alegando, geralmente sem respaldo documental, que alguns atos atribuídos à violência religiosa são na verdade casos de violência étnica ou racial.

Ademais, D’Souza muitas vezes deixa inexplicado o que há nos grupos étnicos antagônicos que os torna tão mutuamente hostis. D’Souza falha em ver que a etnicidade pode ser criada e/ou exacerbada por diferenças religiosas. Por exemplo, segundo os relatos bíblicos, a criação da etnia hebreia remonta à ordem para que Abraão desse início à sua própria linhagem separada (Gênesis 12:1-7), embora ele e sua família, a esta altura, não fossem “etnicamente” distintos do resto de sua tribo[8]. Além disso, a linhagem de Abraão diferenciou-se pela adesão ao monoteísmo e pelo adoção de algumas práticas religiosas obrigatórias (por exemplo, a endogamia, a circuncisão) que os apartou de seus vizinhos (veja em Gênesis 17:12, 24:3-4). Um fênomeno similar ocorreu entre cristãos e judeus. O conflito inicial era entre judeus que aceitaram Jesus como o Messias e judeus que não o fizeram (veja em João 5:18, Atos 17:2-5, Gálatas 2:11-16).

Com efeito, tais judeus não diferiam “etnicamente” uns dos outros. Não obstante seja claro que alguns personagens no Novo Testamento (NT) consideravam-se judeus e cristãos, ao fim, os “judeus” passaram a ser os que não aceitaram Jesus como o Cristo, conservando a religião tradicional de seus ancestrais. Mais tarde, a Igreja Católica reforçou a separação da identidade religiosa dos judeus através de leis matrimoniais, restrições profissionais, segregação em guetos e utilização obrigatória de trajes característicos, o que os tornou alvos ainda mais distintos e ainda mais facilmente identificáveis[9]. Todavia, foi algo percebido como um antagonismo judaico à figura de Cristo o que muitas vezes foi apresentado oficialmente como a razão primária para tais ações. Assim, quando o Papa Paulo IV publicou em 1555 sua Cum Nimis Absurdum, que estabeleceu a segregação dos judeus num gueto, sua justificativa introdutória foi que os judeus “por sua própria culpa entregaram-se à eterna servidão”[10]. Portanto, não é possível dissociar religião e etnicidade tão facilmente quando D’Souza tenta fazer.

D’Souza também ressalta mais os números do que o princípio ético de que é errado assassinar grupos de seres humanos em virtude de sua raça, etnicidade, nacionalidade ou religião. Mas se, como D’Souza aparentemente pensa, o genocídio é sempre condenável, então os números não importam tanto quanto o princípio. Se D’Souza não pensa que o genocídio é sempre condenável, então ele não é menos relativista moral do que os ateus, e agora teríamos somente suas razões arbitrárias para justifica-lo.

Portanto, suponhamos que dois grupos genocidas, X e Y, estivessem seguindo o mesmo princípio de assassinar todos os membros de algum grupo que eles escolheram por razões étnicas ou religiosas. Chamaremos as vítimas do grupo X de Alvo 1 e as vítimas do grupo Y de Alvo 2. Contudo, suponhamos também que o Alvo 1 seja uma tribo com apenas 1000 pessoas, enquanto o Alvo 2 seja um grupo religioso composto por um milhão de pessoas. Em forma de tabela:

Agora, a repreensibilidade do princípio do genocídio mudaria se o grupo X assassina apenas mil indivíduos ao passo que o grupo Y assassina um milhão? É claro que não, porque podemos supor razoavelmente que se o Alvo 1 possuísse um milhão de membros, então o Grupo X poderia ter assassinado um milhão de indivíduos.

De modo que um truque de ilusionismo está sendo empregado por D’Souza em seu apelo aos números brutos, na medida em que ele imagina que o Cristianismo é de alguma maneira superior simplesmente porque seus representantes tencionaram eliminar grupos menos populosos. Considere que o próprio D’Souza admite que a caça às bruxas cristã assassinou cerca de 100 000 pessoas na Europa[11]. Mas se o princípio de assassinar bruxas continuasse válido, então 10 milhões de bruxas poderiam ter sido assassinadas houvessem os caçadores de bruxas encontrado e matado esse contingente.

O fato de termos somente 100 000 vítimas da caça às bruxas significa apenas que o grupo alvo foi menor, mas não que o objetivo de extermínio total foi diferente. Assim, devemos julgar a moralidade do genocídio não somente por números absolutos de pessoas assassinadas como também pela parcela do grupo alvo marcada para morrer. Como a meta de extermínio presumida para ambos, Hitler ou para os inquisidores cristãos, é de 100%, a repreensibilidade moral de Hitler e dos inquisidores é a mesma. Seus atos genocidas também seriam igualmente condenados pelo padrão das Nações Unidas.

Portanto, a única coisa que D’Souza conseguiu foi mostrar que o Cristianismo não é moralmente superior em seus princípios de genocídio. Cristãos podem e tem procurado assassinar grupos inteiros de pessoas. É um mero acidente histórico que os saldos dos regimes ateístas sejam maiores em comparação com os regimes cristãos, mesmo se concedermos a tese errônea de que Hitler representou um regime ateísta. Caso contrário, o argumento de D’souza é semelhante a afirmar que a Hitler deveria ser dado o crédito por assassinar apenas 6 milhões de judeus porque este contingente foi o máximo que ele conseguiu arrebanhar.

Nazismo e Antijudaísmo Cristão

Ao contrário da polêmica tese defendida por D’Souza de que o nazismo é uma “filosofia antirreligiosa”, o nazismo na verdade é um capítulo da longa história do antijudaísmo cristão. O nazismo não representa um desvio radical das atitudes dos cristãos tradicionais em relação aos judeus. Isto é reconhecido pelo historiador católico Jose M. Sanchez: “Há poucas dúvidas de que o Holocausto remonta à milenar hostilidade dos cristãos contra os judeus[12].

O fato de que o nazismo é simplesmente uma forma modernizada de antijudaísmo cristão é comprovado pelo quão estreitamente o plano nazista para os judeus se assemelha ao do fundador do Cristianismo Protestante, Martinho Lutero (1483-1546). A fim de compreender esta conexão, apresento um resumo extraído do plano de sete pontos de Lutero, publicado em 1543 em seu tratado, Dos judeus e suas mentiras (Nota do Tradutor: versões digitalizadas de uma tradução deste opúsculo são largamente disponibilizadas em sites antissemitas e neonazistas. Por razões óbvias não colocarei nenhum link aqui demonstrando isso, mas uma busca no Google confirma facilmente o que afirmo):

Primeiro, recomendo atear fogo às suas sinagogas e escolas e cobrir com imundície tudo o que não for reduzido à cinzas, de modo que nenhum homem veja novamente uma pedra ou uma brasa deles.

Isto deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus possa ver que somos cristãos, e não perdoamos ou toleramos tais ofensas e blasfêmias contra seu filho e seus seguidores…

Segundo, eu recomendo que suas casas também sejam destruídas…

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e escritos talmúdicos, em que tais idolatrias, mentiras, blasfêmias e indecências são ensinadas, lhes sejam tomados.

Quarto, eu recomendo que seus rabinos sejam proibidos de ensinar doravante sob pena de perder a vida

Quinto, eu recomendo que o salvo-conduto nas estradas seja abolido completamente para os judeus.

Sexto, eu recomendo que a usura lhes seja proibida, e que todo o seu dinheiro e todas os seus tesouros em ouro e prata sejam confiscados e colocados sob custódia…

Sétimo, recomendo colocar um mangual, um machado, uma enxada, uma pá, uma roca ou um eixo nas mãos de todos os jovens judeus e judias e deixa-los ganhar seu pão com suor de seu rosto, como foi imposto aos filhos de Adão (Gen. 3:19)[13]

Cada um dos ítems no plano de Lutero foi implementado pela política nazista. Por exemplo, durante a Kristallnacht, o horrível surto de violência antijudaica de 1938, os lares, as lojas e as sinagogas judaicas foram incendiados ou saqueados, exatamente como prescrito pelos dois primeiros ítems do plano de Lutero. Além disso, coincidência ou não, os eventos da Kristallnacht desenrolaram-se durante o aniversário de Lutero, no dia 10 de novembro. (Nota do Tradutor: acredito que tenha sido uma irônica coincidência. O pretexto para a Kristallnacht foi o assassinato de um funcionário da embaixada alemã em Paris por um judeu indignado com a situação calamitosa em que sua família se encontrava na fronteira com a Polônia após ser expulsa da Alemanha.) Obras de literatura de autores de ascendência judaica foram queimadas pelos nazistas, exatamente como recomendado no terceiro parágrafo do plano de Lutero. Os rabinos foram proibidos de ensinar, como ordenado pelo quarto ítem de Lutero. As prisões e deportações dos judeus para campos de concentração são consistentes com o quinto conselho de Lutero. Propriedades judaicas, incluindo obras de arte, foram confiscadas pelos nazistas, à semelhança da sexta recomendação de Lutero. O sétimo ponto de Lutero possui uma correspondência com os campos de trabalho forçado, com seu infame slogan Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”).

Os planos são tão parecidos que mesmo Martin H. Bertram, um intelectual luterano e o tradutor do panfleto anti-judaico de Lutero, declara: “É impossível publicar o tratado de Lutero hoje, entretanto, sem notar o quanto suas propostas foram similares às ações do regime nacional-socialista na Alemanha nas décadas de 1930 e 1940[14] E quando se considera a imagem que Hitler tinha de Lutero, o que este representava para ele, tudo o que precisamos é consultar o Mein Kampf: “Ao lado de Frederico, o Grande está Martinho Lutero, assim como Richard Wagner.”[15]

Os cristãos católicos possuem uma história ainda mais longa de antijudaísmo. O décimo-sexto canône do Concílio de Elvira (ca. 306), por exemplo, proibiu o casamento entre judeus e cristãos[16]. De modo que as leis de Nuremberg nazistas, que proibiram o casamento entre alemães e judeus, são uma mera extensão de uma tradição cristã, não uma ruptura radical, como D’Souza quer nos fazer crer. Não obstante o antijudaísmo remontar ao NT, é na Idade Média que começamos a testemunhar alguns dos mais brutais e sistemáticos ataques cristãos contra os judeus[17]. Em parte, a codificação do cânone legal católico foi responsável por uma política mais uniforme em relação aos judeus[18]. E apesar das migalhas de tolerância mostradas esparsamente no cânone legal, a realidade é que os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290 e da França em 1306. Por volta de 1492, como se sabe, a Espanha também expulsou os judeus.

De qualquer maneira, a Primeira Cruzada, que tencionava libertar a Terra Santa do domínio muçulmano, deu origem a uma nova onda de violência sistemática contra os judeus. A primeira cruzada foi proclamada em 1095, e os primeiros contingentes começaram sua viagem em direção ao leste em 1096. Estes contingentes, compostos majoritariamente por leigos, foram responsáveis pela maior parte da violência antijudaica. Hordas de “cruzados” tomaram de assalto cidades como Colônia, Mainz e Worms, e deixaram cerca de 3 mil judeus mortos[19]. Vários dos judeus capturados nestes pogroms recusaram-se a se converter ao Cristianismo. Segundo os relatos judaicos, a seguinte justificativa para o martírio foi proferida:

Depois de tudo, não há dúvidas dos caminhos do Santíssimo, louvado seja… Que nos deu Sua Torá e nos ordenou que permitíssemos que fôssemos mortos e chacinados em testemunho da Unicidade de Seu Santo Nome. Felizes estamos se satisfazemos sua vontade e feliz é aquele que tomba e morre atestando a Unicidade de Seu Nome.[20]

Estes judeus, vitimados pelos cristãos, certamente viram o ódio que lhes era dirigido como enraizado na religião. A defesa de D’Souza de que pelo menos os judeus medievais poderiam ter se convertido, ao contrário da situação na Alemanha Nazista, fracassa pelos padrões das Nações Unidas[21] É proibido exterminar qualquer grupo baseado em sua etnicidade ou religião, de modo que a oportunidade de se converter não faz a menor diferença.

Será que D’Souza pensa que se o número de judeus disponíveis para o abate naquelas cidades alemãs medievais tivesse sido maior, então menos judeus teriam sido mortos? Por um lado, as autoridades clericais de fato denunciaram estes pogroms. Por outro lado, os leigos podem ter agido da maneira como o fizeram por causa de palavras como as do Papa Inocente III, que no dia 9 de Outubro de 1208 expediu ao rei da França Philip II Augustus o seguinte édito a respeito dos hereges e dos judeus:

A fim de que a Santa Cidade de Deus, disposta como uma assustadora frente de batalha, possa prosseguir contra seus mais cruéis inimigos, exterminar [ad exterminandum] os seguidores de heresias abomináveis, que como um verme ou uma úlcera, infectaram a província inteira, formamos guarnições de soldados cristãos a serem convocados juntos…[22]

Observe que, mesmo que nem sempre obedecidas literalmente, a idéia de extermínio de grupos de pessoas (hereges, judeus) já está lá, bem como o uso da linguagem genocida medicalizada (“úlcera… infectaram”) compartilhada com o nazismo[23].

O fato de que Hitler via o que ele estava fazendo como uma continuação da política católica é confirmado por uma conversa que ele teve em 26 de Abril de 1933, com Hermann Wilhelm Berning, bispo de Osnabriick, Alemanha. De acordo com um relatório registrado nos Documentos sobre a Política Externa Alemã:

[Hitler] então trouxe à baila a questão judaica. Justificando sua hostilidade para com os judeus, ele referiu-se à Igreja Católica, que igualmente sempre considerou os judeus como indesejáveis e que em virtude dos perigos morais envolvidos proibiu os cristãos de trabalhar para os judeus. Por estas mesmas razões a Igreja baniu os judeus para o gueto. Ele via os judeus como nada além de inimigos perniciosos do Estado e da Igreja e, por essa razão, quis exclui-los cada vez mais, sobretudo dos cargos públicos e da vida acadêmica[24].

Conforme sumarizado pelo renomado historiador do Holocausto Guenter Lewy, “Hitler simplesmente estava fazendo o que a Igreja havia feito por 1500 anos.”[25] Na verdade, Hitler simplesmente dispunha de tecnologias e logísticas muito superiores para fazer o que os cristãos medievais quiseram fazer aos judeus. Também haviam muito mais judeus vivendo na Alemanha na época de Hitler. Portanto, D’Souza deveria estar contando os acréscimos nas populações-alvo, não apenas as populações como um todo, para avaliar a proporcionalidade da violência ateísta e religiosa.

O Quão Religioso Foi o Antijudaísmo Nazista?

D’Souza levanta a polêmica tese de que o nazismo foi uma “filosofia antirreligiosa”, mas oferece escassas evidências incontestáveis para esta alegação. Se desejamos conhecer motivos, um procedimento razoável é buscar as razões que as pessoas oferecem para o que fazem. Se seguirmos este procedimento, então a seguinte declaração de Hitler no Mein Kampf é bastante relevante:

Por isso hoje acredito que estou agindo em concordância com a vontade do Criador Todo-Poderoso; ao me defender contra o Judeu, estou lutando pela obra do Senhor.[26]

Mas D’Souza descarta a declaração de Hitler como evidência de que Hitler realmente pretendeu dizer o que disse. Em vez disso, D’Souza sugere que uma fonte melhor para os pensamentos de Hitler sobre a religião é Allan Bullock, autor de um livro chamado Hitler e Stalin: Vidas Paralelas, de 1993. Conforme D’Souza expressa em suas palavras: “‘Desde a mais tenra idade’, o historiador Allan Bullock escreve, ‘Hitler não dedicou tempo algum ao catecismo católico, considerando-o uma religião adequada somente para escravos e detestando sua ética.”[28] Esta é claramente uma tática de esquiva, já que D’Souza não explica porque Bullock sabe o que Hitler pensava melhor do que o próprio Hitler. Em geral, é um procedimento de investigação histórica inferior substituir uma fonte primária (isto é, Hitler) por uma fonte secundária (ou seja, Bullock). Além disso, mesmo se Hitler detestasse os ensinamentos católicos, D’Souza confunde ateísmo com anticatolicismo. E a citação acima não é a única em que Hitler invoca Deus, a religião ou o Cristianismo para explicar suas idéias políticas no Mein Kampf. Hitler também declarou: “Pois a vontade de Deus deu aos homens sua forma, sua essência e suas habilidades. Qualquer um que destrua Sua obra está declarando guerra à criação do Senhor, a vontade divina.”[29] No encontro com Berning, Hitler insistiu que “nem uma vida pessoal nem uma nação poderia ser construída sem o Cristianismo.”[30]

Outra tentativa de evitar as implicações óbvias das declarações de Hitler é o apelo de D’Souza ao aspecto propagandístico do Mein Kampf. D’Souza alega que “o próprio Hitler diz no Mein Kampf que suas declarações públicas deveriam ser interpretadas como mera propaganda que não guarda a menor relação com a verdade, sendo antes planejadas para exaltar as massas.”[31] D’Souza não cita um trecho direto de Hitler para esta alegação e apenas nos remete às páginas 177-85 do Mein Kampf, o que mais uma vez reflete um péssimo trabalho de pesquisa histórica. D’Souza parece não notar que esta generalização grosseira sobre o Mein Kampf não guardar “nenhuma relação com a verdade” cria um caso de incoerência autorreferencial. Se a propaganda de Hitler sempre esconde a verdade, então segue-se que o próprio enunciado sobre como ele estava usando a propaganda deve ser falso. E Hitler não acreditou realmente que os judeus são malignos porque o que ele diz no Mein Kampf não possui relação alguma com a verdade? Em vez disso, um procedimento histórico superior é interpretar literalmente os enunciados de um autor sobre suas próprias crenças a menos que o contrário seja provado. Nada do que Hitler disse desmente que ele acreditou estar fazendo a vontade de Deus.

Além disso, D’Souza deixa inexplicado por que Hitler teria pensado que sua retórica antijudaica poderia comover as massas a menos que as massas fossem receptivas a uma mensagem antijudaica. Isto é importante porque as massas das quais D’Souza fala se autoidentificavam majoritariamente como cristãs. Por exemplo, um relatório nazista indica que por volta de 1938, 51,4% dos membros da SS foram identificados como protestantes, 22,7% como católicos, e 25,7% como “crentes em Deus” (Gottglaubigen).[32] Como o antijudaísmo não encontra-se associado às obras do próprio Darwin, trabalhar tendo como pano de fundo uma história de antijudaísmo cristão seria muito mais efetivo no convencimento das massas cristãs.

Cristianismo Positivo

Outro aspecto do nazismo que D’Souza descarta sem muita investigação é a idéia nazista do Cristianismo Positivo. A primeira ocorrência do termo remonta ao ponto 24 do Programa do Partido Nazista de 1924, que diz:

O Partido enquanto tal reflete o ponto de vista de um Cristianismo Positivo não limitado confessionalmente a qualquer denominação específica. Ele combate o espírito materialista judaico.[33]

Mais uma vez, o antijudaísmo foi um de seus principais pilares, o mero resultado de uma longa história de antijudaísmo cristão. Nesse sentido, mais uma vez, o nazismo não é um desvio radical do Cristianismo historicamente ortodoxo.

Quem ler O Mito do Século XX, um tratado sobre o nazismo escrito por Alfred Rosenberg, a quem é atribuída a autoria do Programa do Partido de 1920, entenderá que ele concebia o Cristianismo Positivo como uma restauração dos ensinamentos puros e originais de Cristo.[34] De fato, Rosenberg nos diz que a vida de Cristo é o que deveria ser siginificativo para os alemães.[35] Rosenberg repudiou a idéia do sacrifício de Cristo como uma corrupção judaica, e via Jesus como uma figura cuja verdadeira obra, o amor à própria raça, foi distorcida pela cristandade organizada num amor universal, em vez de um amor restrito ao grupo racial a que se pertence (sobretudo em sua interpretação de Levítico 19:18 e 25:17).

Esta é a razão pela qual Rosenberg o denominou “Cristianismo Positivo” (positive Christentum), que ele contrapôs explicitamente à forma corrupta representada pelo “clero etrusco-asiático” (etrusco-asiatische… Priesterherrschaft), que abraangia o Catolicismo Romano[36]. Assim, para o Cristianismo Positivo, a mera palavra “Cristianismo” muitas vezes significou a forma judaizada e clericalmente organizada vista no Catolicismo Romano, que diferia da originalmente proposta por Jesus. Opor-se ao “Cristianismo”, portanto, não significa opor-se à religião de Cristo ou opor-se à religião.

De fato, Der Mythus é repleto de citações bíblicas. Com algumas das interpretações de Rosenberg da Bíblia decerto até mesmo eruditos judeus poderiam concordar. Por exemplo, ele observa que Levítico 25:17, que declara “Ninguém prejudique o seu próximo”, refere-se ao próximo hebreu, e não a todos os demais[37]. Mas esta interpretação de “teu próximo” é consistente com a interpretação de Harry M. Orlinsky, o grande estudioso do cânone judaico[38]. Rosenberg também pensou que o Evangelho de João foi o que melhor preservou alguns dos ensinamentos de Jesus. Assim ele o comenta: “O Evangelho de João, que ainda é permeado por um espírito aristocrático, combateu a bastardização coletiva, a orientalização e a judaização do Cristianismo”[39]. É no Evangelho de João (8:44) em que o próprio Jesus diz que os judeus são mentirosos filhos do diabo. Esse versículo apareceu bem mais tarde na sinalização de trânsito do regime nazista, ao passo que nenhuma citação de Darwin jamais foi vista nas placas de trânsito nazistas[40]. Este versículo ecoa o título do panfleto de Lutero (Dos judeus e suas mentiras), bem como o longo título que Hitler originalmente propôs para seu livro ([Meus] Quatro anos e meio de luta contra as mentiras… ).

Sim, Rosenberg sincretizou os conceitos cristãos encontrados no NT com mitos germânicos, e mitos de sua própria criação ou adaptação. Mas em que a exegese bíblica e o sincretismo de Rosenberg diferem do que outros autoproclamados cristãos estiveram fazendo ao longo da história? Com efeito, vários estudiosos defendem exatamente que o Cristianismo foi o resultado da combinação de idéias judaicas com outras helenísticas. Ao conceberem a si próprios como restauradores do Cristianismo primitivo, os cristãos positivos não foram menos cristãos do que os primeiros luteranos ou anabatistas. Na verdade, o Cristianismo Positivo possui precursores ilustres dentre os primeiros cristãos que rejeitaram o judaísmo. Estes incluem Marcião (segundo século), o cristão gnóstico que repudiou o Antigo Testamento (AT) por inteiro, e promoveu um cânone consistindo apenas de um Evangelho de Lucas expurgado e algumas das epístolas paulinas. O marcionismo repetiu-se na história cristã, especialmente entre alguns grupos anabatistas e teólogos cristãos (por exemplo, Friedrich Schleiermacher)[41].

Resumindo, se usamos a mesma lógica utilizada por vários teólogos cristãos que reinterpretam radicalmente a Bíblia Hebraica para a prática cristã, poderíamos também argumentar que o Cristianismo Positivo não representa tanto um movimento anticristão quanto representa uma reinterpretação do Cristianismo, um fenômeno constante na história cristã. É por isso que atualmente existem cerca de 25 mil grupos cristãos, alguns dos quais acreditam em coisas radicalmente opostas. Dizer que os marcionitas, os luteranos ou os cristãos positivos não são realmente cristãos é fazer um julgamento teológico mais do que um julgamento histórico.

O que há de tão negativo acerca do Cristianismo Positivo?

Não somente D’Souza exibe uma lastimável compreensão errônea  do Cristianismo Positivo, como as principais objeções que ele lança contra ele são extremamente superficiais. Para D’Souza, o Cristianismo Positivo não pode contar como Cristianismo porque ele “obviamente foi uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional, e como tal foi condenado pelo Papa Pio XI na época”[42]. Este último caso é suficiente para mostrar os preconceitos teológicos de D’Souza, já que ele assume que o que quer que o Papa Pio XI condene deve representar um falso cristianismo. E naturalmente, a alegação de que um Cristo ariano é uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional é uma grande novidade para qualquer um familiarizado com a longa história da arte cristã, onde Cristo é rotineiramente pintado como um branco europeu. De acordo com Epiphanies Monachus (oitavo ou nono século), um monge grego de Constantinopla, Jesus “tinha seis pés de altura, longos e dourados cabelos, e não muito volumosos…”[43]. Então, como um Cristo ariano nazista pode ser uma ruptura radical?[44]

D’Souza também deixa de dizer a seus leitores que antes do Papa Pio XI se distanciar do nazismo em sua famosa encíclica de 1937 (Mit Brennender Sorge/ “Com Ardente Pesar”), esse mesmo Papa assinou, “na época”, em 1933, um pacto com os nazistas, que Hitler inclusive apreciou como um inestimável auxílio para levar adiante sua “batalha contra a judiaria internacional (‘der kampf gegen das internationale judentum‘)”[45]. E observem como D’Souza não questiona se o Papa Pio XI teve motivos políticos em vez de sublimes motivos humanitários para sua reprovação aos nazistas em 1937. D’Souza não indaga se Pio XI realmente pretendeu dizer o que ele disse, como faz quando Hitler afirma estar acatando a vontade de Deus.

No entanto, quando se lê essa encíclica de 1937, o Papa Pio XI admite fazer acordos com a Alemanha Nazista:

Quando, em 1933, consentimos, venerável Brethren, em abrir negociações por um pacto, que o governo do Reich propôs como base de um programa de muitos anos de colaboração… Estávamos propensos pela vontade, como nos é próprio, de assegurar à Alemanha a liberdade da missão beneficente da Igreja e a salvação das almas sob seus cuidados, bem como pelo desejo sincero de prestar ao povo alemão um serviço essencial para seu desenvolvimento pacífico e prosperidade. Assim, apesar de várias e graves dúvidas e inquietações, decidimos então não recusar nosso assentimento pois foi nosso desejo poupar os devotos da Alemanha, na medida em que fosse humanamente possível, dos julgamentos e dificuldades que eles teriam que enfrentar, dadas as circunstâncias, houvessem as negociações malogrado[46]

Por que isso não se qualificaria como uma manobra política, já que almeja proteger os interesses de um grupo distinto (católicos)? Por que não podemos  também dizer que a hierarquia do Vaticano não pretendeu dizer o que disse em 1937? E será que nenhum dos conselheiros do Papa estava familiarizado com o Mein Kampf, que fora publicado aproximadamente uma década antes de 1933?

Na verdade, Diego Von Bergen, o embaixador do Reich na Santa Sé, relatou que enquanto o Papa estava dizendo uma coisa, Eugenio Pacelli, o cardeal secretário do Vaticano e o homem que se tornaria o Papa Pio XII, prometeu que “relações normais e amistosas… seriam reestabelecidas o mais cedo possível” entre o Vaticano e os nazistas após essa encíclica[47]. De fato, por volta de 1939, o arcebispo Cesare Orsenigo, o núncio para Berlim, estava atarefado  abrindo uma recepção de gala para o quinquagésimo aniversário de Hitler[48]. Isso encerra a questão do suposto repúdio da Igreja Católica ao regime nazista.

Caso contrário, tudo depende de se alguém considera a missão da Igreja Católica como digna de tal compromisso, e isso é um julgamento teológico. Se Hitler acreditava ser a vontade de Deus que ele matasse os judeus, não há como averiguar se a inspiração para essa tarefa foi menos divina do que a que levou o Papa Inocente III a manifestar seu desejo de exterminar os judeus e outros hereges na Idade Média. Caso contrário, D’Souza precisa explicar por que o Papa Inocente III estaria certo em dizer que Deus realmente quis que ele exterminasse os judeus ou os hereges na Idade Média, mas este não seria o propósito de Deus para a vida de Hitler no século XX.

O Quão Antirreligioso Foi Hitler?

Equivocar-se sobre a diferença entre o Cristianismo Positivo e o resto do Cristianismo é o que tem levado D’Souza e outros a transformar quaisquer das supostas concepções anticristãs de Hitler em concepções antirreligiosas. Há um problema lógico, obviamente, com a afirmação de que ser anticristão ou ser anticatólico significa ser antirreligioso. A religião abraange muito mais do que o Cristianismo ou o Catolicismo.

Mais substancialmente, pois são uma parcela significativa da evidência em que se baseia, D’Souza apela às Conversações Íntimas de Hitler, que supostamente registram os mais recônditos pensamentos do Führer. Entretanto, a confiabilidade desta fonte para determinar as opiniões de Hitler é bastante questionável. Existem quatro versões principais das Conversaçõs Íntimas, aqui nomeadas de acordo com os principais editores ou tradutores e os anos de publicação: (1) Henry Picker (alemã, 1951, 1963, 1976); (2) Francis Genoud (apenas tradução francesa, 1952); (3) H. R. Trevor-Roper (inglesa 1953, 1973, 2000); e (4) Werner Jochmann (alemã, 1980). Estes registros geralmente são organizado internamente pela data em que Hitler manteve a conversa.

Os problemas com as Conversações Íntimas foram minuciosamente estudados por Richard Carrier[49]. Do meu ponto de vista, na qualidade de historiador acadêmico, existem pelo menos três problemas com a utilização desta fonte; (1) não existem originais autógrafos, do próprio punho de Hitler, desta fonte. Não temos fitas de áudio para verificar as transcrições. O que temos são cópias célebres que muitas vezes foram filtradas através de Martin Borman, auxiliar de Hitler. O fato de estas versões concordarem suficientemente para sugerir uma fonte comum não necessariamente prova que esta fonte comum tenha sido o próprio Hitler. (2) As versões às vezes são discrepantes. Algumas passagens estão ausentes na edição de Trevor Roper em relação à edição de Picker. De modo que é difícil dizer o que vem de Hitler e o que vem dos editores. (3) Trevor-Roper autenticou os Diários de Hitler, apesar de estes mais tarde terem sido desmascarados como uma fraude[50]. Genoud também é um personagem de reputação duvidosa que pode ter estado envolvido em outras falsificações. E como Carrier tem mostrado, ambas as edições de Genoud e Trevor-Roper muitas vezes traduzem com erros grotescos o original alemão.

Além disso, o principal mediador em todas as versões conhecidas das Conversações Íntimas é o secretário pessoal de Hitler, Martin Bormann, conhecido por seus pontos de vista anticristãos[51]. De modo que às vezes podemos estar lendo os pensamentos de Bormann em vez de os de Hitler[52].

Também sabemos, a partir de outras fontes, que Hitler discordou de Bormann e também discordou de suas próprias opiniões expressas nas Conversações Íntimas. Por exemplo, Albert Speer, que foi o arquiteto pessoal de Hitler, disse:

Mesmo após 1942 Hitler prosseguiu sustentando que considerava a Igreja indispensável na vida política. Numa dessas conversas à hora do chá, ele afirmou que ficaria feliz se algum dia um eclesiástico renomado se revelasse adequado para liderar uma das igrejas – ou, se possível, ambas, a católica e a protestante, reunidas.[53]

Speer também relata casos em que Hitler censurou ações anticristãs cometidas por seus subordinados[54].

Assim, se utilizarmos somente as fontes mais confiáveis, D’Souza definitivamente não demonstra seu caso. D’Souza não cita uma única passagem do Mein Kampf, uma fonte incontestavelmente atribuída a Hitler, em que este diz que seus motivos foram ateístas. Todavia, podemos encontrar uma série de passagens do Mein Kampf em que Hitler, não menos do que Martinho Lutero, reivindica estar realizando a vontade de Deus.

Mas mesmo se considerarmos as Conversações Intímas uma fonte confiável, a antirreligiosidade de Hitler não é tão evidente quanto D’Souza afirma porque D’Souza confunde anticristianismo com ateísmo. Das citações que D’Souza fornece, a única que melhor contribuiria para seu caso é: “através do campesinato seremos capazes de destruir o Cristianismo.” Mas D’Souza não fornece o número da página das Conversações Íntimas, e sua nota de rodapé correspondente apenas remete a “Conversações Íntimas de Hitler (New York: Enigma Books, 2000)”, que é uma edição associada a Hugh Trevor-Report[56]. Na melhor das hipóteses, o que temos aqui é um trabalho de documentação bastante desleixado, e nos leva a indagar se D’Souza está mesmo lendo as Conversações Íntimas em primeira mão.

Além disso, D’Souza não revela a frase completa, que na verdade encontra-se nos Pronunciamentos de Hitler, um livro historicamente desacreditado da autoria de Hermann Rauschning: “Mas é através do campesinato que realmente seremos capazes de destruir o Cristianismo porque existe entre eles uma verdadeira religião enraizada no sangue e na natureza.” Assim, em sua versão integral, o alegado objetivo de Hitler é uma religião melhor (“verdadeira religião”), não religião nenhuma.

Houvesse D’Souza lido as diversas versões das Conversações Íntimas cuidadosamente, ele também teria encontrado muita coisa que contradiz sua afirmação de que Hitler foi antirreligioso. Por exemplo, numa conversa referida a 14 de Outubro de 1941 (edição de Trevor Roper) Hitler comenta:

Um homem educado preserva o sentido para os mistérios da natureza e ajoelha-se diante do desconhecido. Um homem inculto, por outro lado, corre o risco de sucumbir ao ateísmo (que é um retorno à animalidade)… [58]

Hitler acrescenta:

Pode-se perguntar se o desaparecimento do Cristianismo acarretaria o desaparecimento da crença em Deus. Isso não seria desejável. A idéia de uma divindade confere à maioria dos homens a oportunidade de concretizar o sentimento que eles possuem da existência de realidades sobrenaturais. Por que deveríamos destruir este maravilhoso poder  que eles possuem de encarnar o sentimento para o divino que há em seu interior?[59]

Assim, mesmo aqui Hitler distingue entre não acreditar no Cristianismo e não acreditar em Deus. Na verdade, no original alemão das Conversações Íntimas, Hitler manifesta sua esperança de vida eterna no paraíso e seu real desprezo por aqueles que escarnecem da providência divina, declarando em vez disso que ele pensa ser possível que Deus o tenha escolhido, e que é nossa crença num Criador que nos distingue dos animais.[60]

E é nas Conversações Íntimas que Hitler distingue claramente os ensinamentos originais de Cristo da forma corrupta que se tornou conhecida como “Cristianismo”. Ele diz (em 21 de Outubro de 1941) que:

Originalmente, o Cristianismo era meramente uma encarnação do Bolchevismo, o destruidor. Não obstante, o Galileu, que mais tarde foi chamado o Cristo, pretendeu algo bastante diferente. Ele deve ser considerado como um líder popular que assumiu Sua posição contra a judiaria.[61]

Em qualquer caso, as ações de Hitler contra quaisquer igrejas não são necessariamente mais anticristãs ou antirreligiosas do que a destruição pelos protestantes de igrejas católicas, ou a destruição pelos católicos dos templos protestantes. Por exemplo, o Rei Henrique VIII (1491-1547), que deu ínicio à Reforma Inglesa, não via a si próprio como anticristão ou antirreligioso quando demoliu os monastérios católicos. Reis cristãos muitas vezes mataram clérigos e perseguiram igrejas que discordavam deles[62]. O que estamos vendo no nazismo é uma guerra sectária ou uma guerra intrarreligiosa, que não deveria ser confundida com antirreligiosidade[63].

O Quão Darwinista foi o Nazismo?

Apesar das esmagadoras evidências apontando que o nazismo é uma continuação do antijudaísmo cristão, D’Souza nos assegura que por trás do nazismo o que realmente está é o darwinismo. Para suas evidências, D’Souza nos remete ao trabalho de Richard Weikart, como a seguir:

Se o nazismo representou a culminância de qualquer coisa, foi da ideologia do final do século 19 e início do século 20 do darwinismo social. Como o historiador Richard Weikart documenta, ambos Hitler e Himmler eram admiradores de Darwin e em várias ocasiões falaram de seu papel como o de descobridor de uma “lei da natureza” que garantiria “a eliminação dos incapazes”. Weikart… conclui que embora o darwinismo não seja uma explicação intelectual “suficiente” para o nazismo, é uma explicação necessária. Sem o darwinismo o nazismo não poderia ter existido.[64]

Como nos casos anteriores, D’Souza aparenta não possuir o treinamento requerido para avaliar e julgar as alegações de Weikart. Já ofereci uma série de longas críticas a Weikart, mas aqui eu resumirei alguns dos problemas com a utilização do livro de Weikart[65].

Primeiro, a própria noção de que o darwinismo foi necessário para o nazismo é desmentida pelo plano de Lutero para os judeus de 1543. Por volta de 1543 era possível levar a cabo com êxito um programa que até os especialistas na obra de Lutero reconhecem ser semelhante ao nazismo, e não havia Darwin algum então. Weikart se esquece completamente de Lutero, e raramente menciona a longa história de antijudaísmo cristão que certamente seria mais importante do que o darwinismo. A maioria dos alemães não era tão familiarizada com as obras de Darwin como eram com a Bíblia ou com as tradições antijudaicas de personagens da história alemã como Lutero.

D’Souza nunca oferece qualquer citação direta para mostrar que Hitler foi um admirador de Darwin. Na verdade, D’Souza aparenta ignorar as exatas visões de Weikart sobre as referências de Hitler a Darwin. Weikart foi citado como dizendo:

É verdade que Hitler quase nunca mencionou o nome de Darwin (a única menção direta a Darwin que fui capaz de encontrar é um relato por um colega Wagener).[66]

No entanto, mesmo o “quase nunca” é enganoso porque Weikart reconhece que a única referência direta a Darwin por Hitler definitivamente não vem de Hitler. Hitler, contudo, menciona e aplaude Lutero no Mein Kampf. Isso por si só nos diz que Hitler atribuiu a Lutero importância suficiente para menciona-lo algumas vezes, ao passo que Darwin não recebeu nenhuma menção.

Além disso, D’Souza e Weikart também ignoram evidências de que o darwinismo foi especificamente banido na Alemanha Nazista, pelo menos em 1935. As evidências derivam desta diretriz numa lista de livros banidos na Alemanha Nazista compilados numa exposição da biblioteca da Universidade do Arizona: “Obras de natureza social e filosófica cujos conteúdos lidam com o Iluminismo científico do Monismo e do Darwinismo primitivo (Häckel)”.[67]

O Darwinismo de Weikart

Um problema decisivo com a tese de Weikart é que ele começa com esta definição demasiado restritiva de “Darwinismo”:

Ao utilizar o termo darwinismo neste estudo, refiro-me à teoria da evolução pela seleção natural como exposta por Darwin em A Origem das Espécies.[68]

É intrigante a razão pela qual Weikart restringe sua definição de darwinismo apenas ao que é encontrado em A origem das espécies (1859), sobretudo porque esse livro não diz absolutamente nada sobre evolução humana ou conflitos raciais. Consequentemente, Weikart precisa empreender uma redefinição contínua de “darwinismo” de forma a incluir outras obras de Darwin e quaisquer outras deturpações do darwinismo que ele for capaz de encontrar. Esta falha de Weikart é ainda mais importante porque ele já criticou outros historiadores reconhecidos por não aderirem às definições que propuseram inicialmente. Por exemplo, numa resenha de um livro escrito por Annette Wittkau-Horgby, Weikart comenta, “Wittkau-Horgby, portanto, não adere à definição de materialismo com que começa…”[69] Para evitar constantemente mover o objetivo definicional proposto para o darwinismo, Weikart poderia te-lo definido de modo mais amplo, e dito “… como exposto por Darwin em suas obras”. Uma vez que, para Weikart, interpretações errôneas das teorias de Darwin ainda contam como “darwinismo”, então ele realmente deveria dizer: “…conforme exposto por Darwin em seus livros e em diversas interpretações de sua obra, sejam esta interpretações corretas ou errôneas.”

A disposição de Weikart em subsumir distorções e deturpações do darwinismo sob o rótulo “darwinismo”, entretanto, não é consistentemente aplicada a outras obras que os nazistas desvirtuaram. Por exemplo, em sua resenha do livro de Richard Steigmann Gall “The Holy Reich“, Weikart comenta: “Vários alemães panteístas utilizaram terminologia religiosa – até mesmo cristã – mas eles muitas vezes a redefiniram.”[70] Assim, quando os escritores nazistas utilizam terminologia panteísta, então eles contam como panteístas, mas quando utilizam terminologia cristã, então eles não são realmente cristãos, mas panteístas. Ao se redefinir o vocabulário cristão, não mais se pode responder pelo Cristianismo, mas redefinir o darwinismo ainda estigmatiza alguém como darwinista. Esta inconsistência lógica é tendenciosa e serve para desviar a responsabilidade do Cristianismo.

Tudo isto é importante porque nenhuma das obras de Darwin, e sobretudo A Origem das Espécies, aborda o antijudaísmo. O antijudaísmo é um componente essencial do nazismo, compartilhado não com as obras de Darwin, mas com o Cristianismo primitivo (por exemplo, João 8:44, Apocalipse 2:9-10). Mais uma vez, mesmo se Darwin possuísse uma agenda antijudaica, a maioria dos alemães não estaria tão familiarizada com as obras de Darwin quanto estavam com a Bíblia.

Racialização dos Judeus

D’Souza afirma que os judeus medievais pelo menos poderiam ter se convertido ao Cristianismo ao passo que a eugenia darwinista dos nazistas racializou os judeus até um ponto em que estes não mais poderiam alterar sua identidade. Como já discuti, isto realmente não faz a menor diferença para a repreensibilidade moral do genocídio baseado na religião ou na etnicidade. Mas a idéia de que os judeus eram uma categoria racial, não somente uma categoria religiosa, já possuía uma longa história no Cristianismo muito antes do surgimento de Darwin.

Considere a idéia hitlerista da “pureza do sangue” (Reinhaltung des blutes). Esta noção não teve início com Darwin, nem sequer foi discutida como tal por Darwin em A origem das espécies. Em vez disso, a terminologia específica de Hitler corresponde muito de perto à terminologia católica espanhola (limpieza de sangre/”limpeza ou pureza do sangue”) aplicada contra os judeus na Espanha. Em particular, Juan Martinez Siliceo, o arcebispo de Toledo, propôs em 1547 uma legislação baseada muito especificamente sobre esta noção de limpieza de sangre.[72] Normas decretadas em Toledo em 1449 também se concentraram na pureza do sangue como um meio para discriminar os judeus que haviam se convertido mas não eram espanhóis  “de sangue”.

Como até mesmo os estudiosos judeus observaram, diversos personagens bíblicos podem ser interpretados como defensoras de práticas eugênicas séculos antes que o termo fosse inventado. O rabino Max Reichler, um dos autores de Eugenia judaica e outros ensaios, nos diz:

Certamente a eugenia como ciência dificilmente poderia ter existido entre os antigos judeus; mas diversas regras eugênicas de fato foram incorporadas na vasta coleção de leis bíblicas e rabínicas. Na verdade existem indícios inequívocos de um esforço consciente para utilizar todas as influências capazes de aumentar as qualidades inatas das raças judaicas e resguardar contra quaisquer práticas que poderiam conspurcar a pureza da raça ou “prejudicar as qualidades raciais das futuras gerações” seja física, mental ou moralmente… O próprio fundador da raça judaica, o patriarca Abraão, reconheceu a importância de certas qualidades hereditárias, e insistiu que a esposa de seu “único filho amado” não deveria vir “das filhas dos cananitas”, mas da semente de uma linhagem superior.[73]

D’Souza não fornece nada realmente comparável, além de uma referência secundária a Weikart, mostrando que o A origem das espécies de Darwin contenha quaisquer noções de pureza do sangue ou eugenia ainda mais próximas disto. Como as coisas estão, D’Souza aparenta estar confundindo seleção natural, o principal conceito por trás de A Origem das Espécies, com a seleção artifical que foi um componente essencial do nazismo.

Se olharmos para as justificativas racialistas do próprio Hitler, descobriremos que ele invoca a Bíblia, não o A Origem das Espécies, para respalda-lo. Um exemplo é esta passagem do Mein Kampf  a respeito da miscigenação:

… é uma daquelas a respeito do que é dito com tão grandiosa e terrível justiça que os pecados dos pais são vingados até a décima geração… O pecado contra o sangue e a profanação da raça são o pecado original neste mundo…[74].

Mas de onde Hitler tirou a idéia de que a profanação do sangue é um pecado que macula até a décima geração? Não a vemos em nenhuma das obras de Darwin. Mas no livro de Esdras, capítulo 9, versículos 1-2 e 12, lemos:

Acabadas, pois, estas coisas, chegaram-se a mim os príncipes, dizendo: O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, seguindo as abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios, e dos amorreus.  Porque tomaram das suas filhas para si e para seus filhos, e assim se misturou a linhagem santa com os povos dessas terras; e até os príncipes e magistrados foram os primeiros nesta transgressão. (…) Agora, pois, vossas filhas não dareis a seus filhos, e suas filhas não tomareis para vossos filhos, e nunca procurareis a sua paz e o seu bem; para que sejais fortes, e comais o bem da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos para sempre. (Ênfase do autor)

Observe que o objetivo da endogamia é “para que sejais fortes”, o que exemplifica a concepção clássica de eugenia de aprimorar algumas características desejadas através da procriação adequada. Por conseguinte, o Mein Kampf sugere que é a Bíblia, não o A Origem das Espécies, que parece ser a influência mais direta sobre Hitler.

Conflitos raciais são uma parte do Cristianismo

Weikart rotula como particularmente darwiniana a noção da história como uma luta racial. Weikart tem utilizado repetidamente a seguinte citação de A Descendência do Homem para respaldar esta tese controversa:

Em algum período futuro, não tão distante que não possa ser medido por séculos, as raças civilizadas do homem irão certamente exterminar e substituir as raças selvagens pelo mundo afora.[76]

Mas esta passagem está descontextualizada. O contexto apropriado é um lamento por esta extinção – não um endosso dela. Este lamento é ainda mais evidente quando se lê o que vem em seguida, onde Darwin observa que, de fato, “”os selvagens não eram tão afetados pelas nações invasoras clássicas” até que as civilizações modernas (não as raças modernas) as usurpassem, uma vez que nas eras clássicas “não há esse tipo de queixa entre os escritores clássicos a respeito de uma possível destruição dos valores dos bárbaros”[77]. Consequentemente, Darwin acreditava que tecnologias e culturas superiores, não sangue inferior, eram os responsáveis pelo extermínio das “raças selvagens”.

E a concepção da história como uma luta entre raças é um componente muito importante da história cristã. Já em 1853, e alguns anos antes da publicação de A Origem das Espécies, George Fitzhugh, o advogado americano pró-escravidão, havia articulado a noção de conflito racial numa matriz de sobrevivência dos mais aptos quando disse:

Os membros do Congresso do Partido Jovem Americano, orgulhem-se do fato de que a raça anglo-saxã está manifestamente destinada a devorar as outras raças, assim como o capim-açu destrói e toma o lugar de outras plantas rasteiras.[78]

E ao contrário da afirmação de Weikart de que a orientação espiritual do judeocristianismo resistiu a tais idéias racialistas, Robert Knox, o famoso escritor racialista escocês, declarou:

Agora, esteja a Terra superpopulada ou não, uma coisa é certa, os fortes sempre irão se apoderar das terras e das propriedades dos fracos. Estou convicto de que esta conduta não é, em absoluto, incompatível com a mais elevada moral e mesmo com o sentimento cristão.[79]

Com efeito, John Campbell, um escritor cristão favorável à escravidão, viu a luta racial como um componente essencial da história da humanidade, e ele cita Knox em seu ensaio de 1851, “Negro-Mania“:

O antagonismo das raças opera por si próprio  em toda situação em que duas raças são colocadas em colisão, seja pela extinção rápida ou lenta da raça mais frágil e inferior (…) Knox nos mostrou que em todos os lugares o sangue branco atropela e extermina as raças mais escuras.” O Saxão (ele observa) não se associará com qualquer raça escura, tampouco lhe permitirá manter qualquer acre de terra no país que vier a ocupar … Não há nada que negue o fato de que o Saxão – chame-lhe pelo nome que desejar – possui o mais perfeito horror por seus irmãos mais escuros”.[80]

Em geral, Weikart parece beatificamente ignorante da abundância de literatura racialista cristã pré-nazista que mostraria que o nazismo aboslutamente não representa nenhuma ruptura da história cristã.

Conclusão

D’Souza fracassa de maneira espetacular em seus esforços para pintar o nazismo como uma “filosofia antirreligiosa” responsável por dez milhões de mortes. Primeiro, D’Souza não fornece quase nenhuma documentação para suas alegações, e o que ele de fato oferece vem em sua maior parte de fontes secundárias. Ele aparentemente é incapaz de ler fontes alemãs primárias na língua original. Ele também confunde quaisquer esforços contra o Cristianismo organizado com antirreligiosidade. Mas mesmo nas Conversações Íntimas, uma fonte questionável utilizada por D’Souza, Hitler deixa claro que ser contra o Cristianismo não é o mesmo que ser contra a crença em Deus.

A prestidigitação numérica de D’Souza simplesmente oculta o fato de que tanto a moralidade teísta quanto a não-teísta podem resultar em genocídios. Quaisquer diferenças no número de mortes é mais um acidente histórico do que uma diferença num princípio que pode justificar o assassinato de grupos baseado na etnicidade, na raça, na nacionalidade ou na religião. Pelos padrões das Nações Unidas, os genocídios cometidos pelos cristãos são tão reprováveis quanto os cometidos pelos maoístas ou pelos estalinistas porque todos eles dedicaram-se igualmente ao extermínio de 100% de seus respectivos grupos alvo.

Mas o mais significativo problema com o argumento de D’Souza é sua conveniente amnésia acerca da longa história do antijudaísmo cristão que precede em séculos o nascimento de Darwin ou Hitler. O clamor pelo extermínio dos hereges e judeus na França pelo Papa Inocente III na Idade Média não precisou do darwinismo. E o criminoso plano de sete pontos de Lutero, que é praticamente idêntico ao do nazismo, demonstra além de qualquer dúvida que o darwinismo certamente não foi “necessário” para se chegar à ideologia nazista (veja o quadro abaixo). O nazismo, na verdade, foi muitíssimo facilitado por  uma longa tradição de antijudaísmo cristão.

UMA COMPARAÇÃO DAS POLÍTICAS ANTIJUDAICAS DE HITLER E AS POLÍTICAS DEFENDIDAS EM NAS OBRAS DE MARTINHO LUTERO E CHARLES DARWIN

Notas.

1. Dinesh D’Souza, A Verdade sobre o Cristianismo, pág. 215. (Thomas Nelson Brasil – Rio de Janeiro – 2008).

2. D’Souza, A verdade, p. 215. D’Souza está respondendo especificamente aos argumentos de Sam Harris, A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão (Companhia das Letras, 2009); Daniel Dennett, Quebrando o Encanto – A religião como um fenômeno natural (Ed. Globo, 2007); e Richard Dawkins, Deus, um delírio (companhia das Letras, 2007).

3. D’Souza, A verdade, p. 214.

4. Hector Avalos, Fighting Words: The Origins of Religious Violence (Amherst, NY: Prometheus Books, 2005), pp. 325-34.

5. Vejam sobretudo Tatiana A. Chuinachenko, Church and State in Soviet Russia. Russian Orthodoxy from World War II to the Krushchev Years, trans. Edward E. Roslof (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2002).

6. Richard Weikart, From Darwin to Hitler Evolutionary Ethics Eugenics, and Racism in Germany (New York: PalgraveMacmillan, 2004).

7. Um sumário das convenções da Nações Unidas sobre Direitos Humanos pode ser lido em: http://www.hrweb.org/legal/undocs.html#CAG.

8. Para discussões recentes sobre teorias da etnicidade, veja Richard H. Thompson, Theories of Ethnicity: A Critical Appraisal (New York: Greenwood Press, 1989). Para o antigo Israel, veja Kenton Sparks, Ethnicity and Identity in Ancient Israel – Prolegomena to the Study of Ethnic Sentiments and Their Expression in the Hebrew Bible (Winona Lake: IN: Eisenbrauns, 1998).

9. Veja também, Solomon Grayzel, The Church and the Jews in the XIIIth Century (New York: Hermon Press, 1966); Kenneth R. Stow, Catholic Thought and Papal Jewry Policy, 1555-1593 (New York: Jewish Theological Seminary of America, 1977).

10. Stow, Catholic Thought, p. 295; Latin (p. 291): quos propia culpa perpetua servituta submisit.

11. D’Souza, A verdade, p. 208.

12. Jose M. Sanchez, Pius XII and the Holocaust- Understanding the Controversy (Washington, DC: Catholic University of America Press, 2002), p. 70.

13. Martinho Lutero, “Dos judeus e suas mentiras,” trad. Martin H. Bertram in Luther’s Works: The Christian in Society IV, ed. Franklin Sherman (Philadelphia, PA: Fortress Press, 1971), pp. 268-72.

14. Martinho Lutero, “Dos judeus,” p. 268 n. 173. Veja também William Montgomery McGovern, From Luther to Hitler: The History of Fascist Nazi Political Philosophy (Cambridge, MA: Houghton Mifflin, 1941).

15. Adolf Hitler, Mein Kampf, trad. Ralph Manheirn (Boston: Houghton Mifflin, 1971), p. 213; German (p. 232): Neben Friedrich der Grossen stehen bier Martin Luther sowohl als wie Richard Wagner. Utilizamos a edição alemã Adolf Hitler, Mein Kampf (Munchen: Muller, 1938). Doravante, esta fonte será referida como “Alemã (nº da pág.).”

16. Sobre o Concílio de Elvira, veja Louis H. Feldman, Jew and Gentile in the Ancient World- Attitudes and Interactions from Alexander to Justinian (Princeton: Princeton University Press, 1993), pp. 373, 380, 398.

17. Para um ponto de vista de um erudito católico sobre este período, especialmente à luz do Vaticano II, veja Edward A. Synan, The Pope and the Jews in the Middle Ages (New York: Macmillan, 1965).

18. John Y. B. Hood, Aquinas and the Jews (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1995), p. 25.

19. Veja Robert Chazan, In the Year 1096 The First Crusade and the Jews (Philadelphia, PA: Jewish Publication Society, 1996), p. 129.

20. Shlomo Eidelberg, The Jews and the Crusaders: The Hebrew Chronicles of the First and Second Crusades (Madison: University of Wisconsin Press, 1977), p. 31.

21. D’Souza, A verdade, p. 218.

22. Grayzel, The Church and the Jews, p. 133; Texto latino na p. 132. Inocente (Grayzel, The Church and the Jews, pp. 92-93) paradoxalmente também endossa a idéia agostiniana de manter alguns judeus vivos como um símbolo da descrença, ele também acreditou que “não se deveria destruir os judeus completamente” (em latim: ne deleveris omnino Judeos). Sobre esta idéia posterior, veja Jeremy Cohen, Living Letters of the Law: Ideas of the Jew in Medieval Christianity (Berkeley: University of California Press, 1999).

23. Para este aspecto do nazismo, vejam Gotz Aly, Peter Chroust, e Christian Pross, Cleansing the Fatherland Nazi Medicine and Racial Hygiene, trans. Belinda Cooper (Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 1994).

24. Paul R. Sweet, ed., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos arquivos do Ministério do Exterior alemão (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series C, vol. 1, p. 347.

25. Guenter Lewy, The Catholic Church and Nazi Germany (New York: De Capo Press, 2000), p. 51.

26. Hitler, Mein Kampf, p. 65 / Alemã (p. 70): So glaube ich heute im Sinne des allmachtigen Schopfers zu handeln: Indem ich mich des ,juden erwehre, kampfe ich fur day Werk des herrn.

27. D’Souza, A verdade, p. 217.

28. Ibid.

29. Hitler, Mein Kampf, p. 562 / alemã (p. 630): Denn Gottes WillegabdenMen- sehen einst ihre Gestalt, ihr Wesen and ihre Fahigkeiten. Wer sein Wert zerstort sagt damit der Schopfung des hernn, dem gattlichen Wollen, den kampf an.

30. Sweet, Documents on German Foreign Policy, series C, vol. 1, p. 347.

31. D’Souza, A verdade, p. 217.

32. Richard Steigmann-Gall, The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity, 1919-1945 (Cambridge: Cambridge University Press, 2003), p. 221. Para um estudo da  receptividade ao antijudaísmo pelas populações alemãs, veja Daniel Goldhagen, Hitler’s Willing Executioners.- Ordinary Germans and the Holocaust (New York: Little, Brown, 1996).

33. Alfred Rosenberg, Das Parteiprogramm: Wesen, Grundsatze and Ziele der NSDAP (Munich: Zentralverlag der NSDAP, 1922 [25th edition, 1943]), p. 13: Die Partei als solche vertritt den Standpunkt eines positiven Christentums, ohne rich konfessionell an ein bestimmtes Bekenntnis zu binden. Sic bekampft den judisch-materialistischen Geist… .

34. Alfred Rosenberg, Der Mythus des 20, Jahrhunderts: Ewe Wertung der seeliseh- geistigen Gestaltentkampfe unserer Zeit, (‘Munchen: Hoheneichen Verlag, 1938). Steigmann-Gall (The Holy Reich, pp. 92-93) defende que o livro de Rosenberg não recebeu muita atenção dentro do Partido Nazista. Entretanto, Albert Speer (Inside the Third Reich, trad. Richard e Clara Winston [New York: Macmillan, 1970], p. 115), o arquiteto pessoal de Hitler, diz que  “o público considerava o livro como o texto de referência para a ideologia do partido”.

35. Rosenberg, Der Mythus, p. 74.

36. Ibid., p. 78: Das positive Christentum gegenuber dem negativum der auf der etrusco-asiatische Vorstellung zuruckgehende Priesterherrschaft and des Hexenwahns.

37. Alfred Rosenberg, Race and Race History and Other Essays, ed. Robert Pois e trad. Jonathon Cape (New York: Harper & Row, 1970), p. 180.

38. Veja Harry M. Orlinsky, “Nationalism-Universalism and Internationalism in Ancient Israel,” in Translating and Understanding the Old Testament Essays in Honor of Herbert Gordon May, eds. Harry Thomas Frank and William L. Reed (Nashville, TN: Abingdon, 1970), pp. 206-36, especially pp. 210-11.

39. Rosenberg, Der Mythus, p. 75. My translation of the German: Gegen these gesamte Verbastardierung, Verointalisierung and Verjudung des Christentums wehrte rich bereits day durchaus noch aristokratischen Geist atmende johannes evangelium. A edição de Robert Pois (Race and Race History and Other Essays, p. 70) traduziu johannes evangelium como “ensinamentos evangélicos de São João,” que obscurece as referências mais específicas ao livro que chamamos de Evangelho de João.

40. Para imagens de sinais de trânsito nazistas com este versículo, veja Robert P. Ericksen e Susannah Heschel, Betrayal – German Churches and the Holocaust (Minneapolis, MN: Fortress Press, 1999), fig. 6.

41. Para uma história do cânone e do marcionismo entre os anabatistas, veja meu artigo “The Letter Killeth: A Plea for Decanonizing Violent Biblical Texts,” Journal of Religion, Conflict, and Peace 1, no. 1 (Outono 2007): http://www.plowshares project.org/journal/php/article.php?issu_list_id=8&article_list_id=22.

42. D’Souza, A verdade, p. 217.

43. Frederic W. Farrar, The Life of Christ as Represented in Art (London: Adam and Charles Black, 1901), p. 84.

44. Veja também, Susannah Heschel, An Aryan Jesus. Christian Theologians and the Bible in Nazi Germany (Princeton: Princeton University Press, 2008).

45. Minha citação vem das minutas de uma reunião do governo nazista ocorrida em 14 de Julho de 1933. Minha fonte é Walther Hofer, ed., Der Nationalsozialismus.• Dokumente 1933-1945 (Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag, 1976), p. 130.

46. Mit Brennender Sorge, disponível em http://www.newadvent.org/library/docs_pi11mb.htm.

47. Telegrama de Diego von Bergen para Eugenio Pacelli conforme preservado em Raymond James Sontag et al., eds., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos Archives of the German Foreign Ministry (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series D, vol. 1, p. 991.

48. Veja Richard Phayer, The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965 (Bloomington: Indiana University Press, 2000), p. 45.

49. Veja Richard Carrier, “Hitler’s Table Talk: Troubling Finds,” German Studies Review 26, no. 3 (2003): 561-76.

50. Para uma história dos Diários de Hitler, veja Charles Hamilton, The Hitler Diaries: Fakes That Fooled the World (Louisville: University Press of Kentucky, 1991) e Robert Harris, Selling Hitler (New York: Pantheon Books, 1986).

51. Steigmann-Gall, The Holy Reich, pp. 243-60.

52. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 573.

53. Speer, Inside the Third Reich, p. 113.

54. Ibid., p. 114.

55. D’Souza, A verdade, p. 218.

56. Ibid., p. 327 n. 12.

57. Hermann Rauschning, ed., Hitler Speaks: A Series of Conversations with Adolf Hitler on His Real Aims (London: Thornton Butterworth, 1939; Reprint: Whitefish, MT: Kessinger, 2007), p. 63. Sobre a confiabilidade desta fonte, veja SteigmannGall, The Holy Reich, pp. 28-29.

58. H. R. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, 1941-1944: His Private Conversations (London: Phoenix Press, 2000), p. 59.

59. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 61.

60. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” págs. 566-72 (todas as quatro declarações aparecem na entrada datada da tarde de 27 de Fevereiro de 1942, no original alemão).

61. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 76. Hitler rotineiramente igualou “bolchevismo” e “judaísmo”. Ele também acreditava que Jesus foi um ariano cuja mensagem verdadeira foi corrompida pelo judeu Paulo (Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 572).

62. Veja também, Peter A. Dykema and Heiko Oberman, eds., Anticlericalism in Late Medieval and Early Modern Europe (Leiden: Brill, 1993), que também discute vários conflitos entre protestantes e católicos.

63. Diego von Bergen, o embaixador alemão no Vaticano, relatou especificamente que o Papa temia que “uma ‘terceira’ fé está sendo organizada e encorajada” em adição ao catolicismo e às fés evangélicas (Documentos sobre a política externa alemã, série D, vol. 1, p. 988). Isto mostra que o Vaticano via a religião nazista como uma fé concorrente, e não como “ateísmo”, um termo que ocasionalmente também aplicado a fés concorrentes.

64. D’Souza, A verdade, p. 219; Richard Weikart, From Darwin to Hitler. Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany (New York: Palgrave, 2004).

65. Para minha críticas a Weikart, veja “Avalos contra Weikart: Part I: General Problems with Dr. Weikart’s Methods“; e “Avalos Contra Weikart: Part II: Weikart’s Seven Darwinian Aspects of Nazism“. See also Sander Gliboff, H. G. Bromm, Ernst Haeckel, and the Origins of German Darwinism: A Study in Translation and Transformation (Cambridge, MA: MIT Press, 2008).

66. Denise O’Leary, “Post-Details: Expelling the Outrage: Hitler and Darwinism“(accessado em 3 Julho de 2009).

67. “Guidelines from Die Bucherei,” 2:6, 1935, p. 279.

68. Weikart, From Darwin to Hitler, p. 9.

69. Richard Weikart, “Review of Annette Wittkau-Horgby, Materialismus: Enstehung and Wirkung in den Wissen.rchaften des 19. Jahrhunderts (Gottingen: Vande- hoek and Ruprecht, 1998),” German Studies Review 24, no. 3 (October 2001): 610.

70. Richard Weikart, “Review of Richard Steigmann-Gall’s The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity,” German Studies Review 27, no. 1 (February 2004): 175.

71. Veja Mein Kampf, p. 312: “manter seu sangue puro” / versão alemã (p. 342): Rein- haltung seines Blutes.

72. Veja também, Linda Martz, “Pure Blood Statutes in Sixteenth-Century Toledo: Implementation as Opposed to Adoption,” Sefarad 61, no. 1 (1994): 91-94; Albert Sicroff, Los estatutos de limpieza de sangre.: Controversial entre los siglos xvy xvii (Madrid: Taurus, 1985); Henry Kamen, The Spanish Inquisition.A Historical Revision (London: Weidenfeld and Nicolson, 1997), sobretudo págs. 242-54; Henry Kamen, Philip of Spain (New Haven, CT: Yale University Press, 1997), pp. 33-34.

73. Max Reichler, Jewish Eugenics and Other Essays (New York: Bloch, 1916), pp. 7-8.

74. Hitler, Mein Kampf, p. 249.

75. Ibid., p. 286.

76. Weikart, From Darwin to Hider, p. 186.

77. Charles Darwin, A origem do Homem e a Seleção Sexual, (Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2004 [1874]), p. 135 (contexto: págs. 125-143). Veja também Patrick Brantlinger, Dark Vanishings: Discourse on the Extinction of Primitive Races 1800-1930 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 2003).

78. George Fitzhugh, “Sociology for the South or the Failure of Free Society,” em Antebellum Writings of George Fitzhugh and Hinton Rowan Helper on Slavery, ed. Harvey Wish (New York: Capricorn Books, 1960 [reprint of 1854 edition]), p. 61.

79. Robert Knox, The Races of Men (Philadelphia, PA: Lea & Blanchard, 1850), pp. 38-39.

80. John Campbell, “Negro-Mania,” in E. N. Elliott, Cotton Is King and ProSlavery Arguments: Comprising the Writings of Hammond, Harper Christy, Stringfellow, Hodge, Bledsoe, and Cartwright, on This Important Subject (Augusta, GA: Pritchard, Abbott and Loomis, 1860), p. 520.

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