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Posts Tagged ‘Richard Swinburne’

Os leitores fiéis, se algum houver, deste ambicioso e até agora malsucedido blog talvez estejam apreensivos quanto ao conteúdo deste post. Richard Swinburne, o mais distinto teológo britânico, traduzido e divulgado num espaço até então reservado apenas ao primeiro escalão da ateologia?  Terá o  autoproclamado rebelde que mantém o blog tão precocemente “se resignado à mentira” e sucumbido, “como um asno”, ao sabor das “rosas da ilusão”? Dissipem suas apreensões, estimados leitores. Embora minhas faculdades mentais já apresentem um leve comprometimento _ se duvidam, saibam que escrevo esta introdução ouvindo Jennifer Lopez _ ainda preservo sua funcionalidade em grau suficiente para recusar qualquer trégua mínima no embate com o absurdo.

Este post na verdade pretende ser uma irônica resposta a uma sugestão dos editores do Teísmo.net. Eles convidaram seus leitores a se engajarem na “guerra cultural” através, entre outras atividades, da tradução de trabalhos e textos filosóficos que defendam a “superioridade filosófica” do “pluralismo metafísico teísta”, independentemente da crença ou descrença do autor. Pois bem. À época do debate de William Lane Craig contra Sam Harris, encontrei esta dica inestimável no já recomendado por aqui Debunking Christianity, do apóstata John W. Loftus. Num post bem curto, Loftus apresentou o parecer de Swinburne sobre o argumento moral. Para não estragar a surpresa, deixarei que vocês acompanhem o teólogo na formulação de seu caso. Os parágrafos a seguir foram traduzidos do capítulo do livro The existence of God dedicados aos argumentos da consciência e da moralidade, e lançam sérias dúvidas sobre a alegada “superioridade filosófica” da teoria moral teísta. Leiam e tirem suas próprias conclusões.*

O Argumento da Verdade Moral

A consciência moral está confinada aos mesmos seres conscientes que a consciência metafísica. Vários teístas tem sustentado que através da moralidade Deus dá-se a conhecer aos seres humanos intimamente, pois a voz da consciência é a voz de Deus. Encontramos um argumento clássico para a existência de Deus a partir da existência da moralidade em Kant _ ainda que ele tenha veementemente negado que estivesse apresentando qualquer coisa que pudesse ser adequadamente chamada de argumento[4]; e também em escritores do fim do século 19 e começo do século 20 que, quando os argumentos teleológicos se tornaram obsoletos e antiquados, adotaram-no como seu argumento favorito.

É crucial distinguir dois argumentos diferentes a partir da existência da moralidade. Primeiro há o argumento a partir do fato de que existem verdades morais, e depois há o argumento a partir da consciência humana das verdades morais. Começarei pelo primeiro. Uma de suas premissas dá por garantido o objetivismo moral _ segundo o qual juízos morais possuem valor de verdade. Se não existem verdades morais, então não há fato acerca do mundo a partir do qual construir este argumento. Surge então a questão, considerando-se que juízos morais são proposições com valor de verdade, de se proposições morais verdadeiras são logicamente necessárias ou logicamente contingentes. Um argumento que afirme que a melhor explicação para a existência da moralidade é a ação de Deus que a criou deve afirmar que várias verdades morais são logicamente contingentes. Pois a existência de fenômenos descritos como verdades logicamente necessárias não precisam de explicação. Não é necessário  explicar que todos os solteiros são não-casados, ou que, se você somar dois e dois obterá quatro. Estes são fatos inevitáveis e necessários, quer Deus exista ou não. Agora, é óbvio que, se existem verdades morais, um número considerável destas verdades é contingente. Que a ação _ qualquer que tenha sido _ realizada por Hitler às 10 horas da manhã de 3 de dezembro de 1940 foi moralmente condenável é, se verdadeira, totalmente contingente, pois não há contradição em supor que Hitler tenha executado uma boa ação àquela hora. E, se é verdade que dar 10 reais para algum mendigo é bom, é claramente uma verdade contingente, cuja verdade depende do uso que ele fará do dinheiro – se ele o gastará em drogas que o matarão ou em alimentos que impedirão que ele morra de fome. E, plausivelmente, se é ou não errado matar um ser humano específico pode depender de circunstâncias contingentes, tais como se ele está tentando te matar ou se é um transeunte inocente. Em geral, ações podem ser reconhecidas por suas coordenadas espaço-temporais ou por uma descrição que deixa em aberto seu status moral. Até aqui, ações não podem ser obrigatórias ou certas ou erradas. Elas devem ser obrigatórias ou certas ou erradas em virtude de possuírem certas propriedades naturais (isto é, propriedades reconhecíveis por alguém sem conceitos morais). E, uma vez que alguem tenha descrito uma ação em termos de todas as propriedades naturais que ela possui (em termos de todas as suas circunstâncias e efeitos), então – se for uma ação errada – será necessariamente errada; e – se for uma boa ação – será necessariamente boa. Pois, se uma determinada ação é correta, e outra hipotética é errada, deve haver alguma característica natural que a primeira ação possua, e que falte à segunda, que torne a segunda ação errada. Não é coerente afirmar que “a” é errada, e que “b” é indistinguível de “a” por suas propriedades naturais mas que, ao contrário de “a”, “b” é correta. Não poderia existir um mundo que fosse diferente de nosso mundo somente porque o assassinato é errado aqui, mas correto lá. Deveriam haver algumas características naturais do outro mundo que tornariam o assassinato correto lá –  por exemplo, que lá as pessoas assassinadas rapidamente ressuscitariam. Segue-se, dado o objetivismo moral, que afirmações contingentes de que algumas ações são corretas (ou erradas) se sustentam em virtude de verdades contingentes a respeito de propriedades naturais características das ações que tornam verdades necessárias afirmações sobre o seu valor morals. Princípios morais fundamentais devem ser (logicamente) necessários[5].

Agora, se princípios morais básicos são necessários, a existência do que eles descrevem não pode providenciar um argumento para a existência de Deus. Um argumento poderia ser desenvolvido somente a partir da verdade de algumas ou de todas as verdades morais contingentes (por exemplo, a partir do fato de que é errado jogar bombas atômicas no Japão, em vez de a partir do fato de que é errado tirar a vida de pessoas que certamente não ressuscitarão). Agora o fato de que certas verdades morais se sustentam pode confirmar, tornar mais provável, a existência de Deus somente se for mais provável que tais verdades morais se sustentem se Deus existir do que se não existir. As verdades contingentes de que as ações “a”,”b”,”c” e “d” são obrigatórias (certas ou erradas, conforme o caso) dependem de “a”,”b”,”c” e “d” possuírem certas propriedades naturais, Q, R, S, e T, que por necessidade lógica as tornem obrigatórias (ou seja lá o que forem). Então, se acontecer de existir um argumento para a existência de Deus a partir da obrigatoriedade indissociável de certas ações, ele possuirá uma estrutura similar à seguinte: as ações “a”,”b”,”c” e “d” são obrigatórias; elas não seriam obrigatórias a menos que fossem Q, R, S e T. É mais provável que elas sejam Q, R,S, e T se Deus existir do que se não existir; portanto a obrigatoriedade de “a”, “b”, “c” e “d” confirma a existência de Deus[6].

Agora as candidatas mais plausíveis a ações que não seriam obrigatórias a menos que Deus existisse são ações como cumprir promessas e dizer a verdade, para cuja obrigatoriedade não existe uma justificação utilitarista óbvia. Começando a partir da obrigatoriedade de tais ações, poderíamos construir um argumento kantiano ao longo das seguintes linhas. (Apesar deste argumento ser muito no espírito da Crítica da Razão Prática, o próprio Kant nega estar apresentando um argumento para a existência de Deus). ‘O cumprimento de promessas é sempre obrigatório. Mas uma ação é obrigatória se e somente se conduz à perfeição do Universo – aquilo que Kant chama de summum bonum. É mais provável que o cumprimento de promessas conduzirá ao summum bonum se Deus existir do que se não existir. (Isto, pode-se insistir, se dá porque não haveria sentido em cumprir promessas feitas em segredo a pessoas moribundas se não existir vida após a morte, na qual a pessoa a quem a promessa foi feita pode saber que foi cumprida; e é mais provável que haja vida após a morte se Deus existir do que se não existir. Consequentemente a obrigatoriedade do cumprimento de promessas confirma a existência de Deus.’ Este argumento é válido, mas sua primeira e sua terceira premissas são altamente questionáveis. Alguém negará a primeira premissa – de que cumprir promessas é sempre obrigatório. Outros negarão a terceira premissa – de que é mais provável que o cumprimento de promessas conduzirá ao summum bonum se Deus existir do que se não existir. Poderão dizer que o mero ato de cumprir uma promessa, em si, contribui para o summun bonum, e quaisquer consequencias adicionais são irrelevantes. Um moralista de perspectiva teleológica tenderá a negar a primeira premissa, e outras a ela similares; e um moralista de perspectiva deontológica tenderá a negar a terceira premissa e outras a ela similares. O que ocorre com este argumento específico que esbocei é suscetível de acontecer com argumentos similares (por exemplo, um que apele em sua primeira premissa para a incorreção invariável da mentira). Agora, é claro, ambas a primeira e a terceira premissas poderiam ser verdadeiras ainda que muitas pessoas possuam uma inclinação inicial para negar uma ou outra. Mas para obter um argumento moral bem fundamentado você precisaria  de argumentos demonstrando que a primeira e a terceira premissas são verdadeiras. Do jeito que está, o argumento não é um bom argumento (porque as premissas não são aceitas pelas partes em disputa). Sou bastante pessimista a respeito das perspectivas de dispender mais tempo tentando suplementar o argumento através da produção de bons argumentos que sustentem suas premissas. Uma razão para isto é que não posso ver como alguém que sustente ou a primeira ou a terceira premissa (mas não ambas simultaneamente) será persuadido por um processo de argumentação racional a aceitar a outra, a não ser que esta pessoa esteja previamente persuadida por algum outro argumento de que Deus existe. Por esta razão eu não posso ver qualquer força num argumento para a existência de Deus a partir da existência da moralidade.

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*Por uma questão de honestidade, devo dizer que, embora cético em relação à eficácia de um argumento para a existência de Deus a partir da mera existência de verdades morais, Swinburne defende um argumento teísta a partir de nosso conhecimento destas verdades que não examinei e que talvez tenha lá alguma força. Talvez no futuro, eu atualize este post com algum comentário sobre este outro argumento, se eu vier a estuda-lo.

4. Veja I. Kant, Crítica da Razão Prática, livro 2, especialmente cap. 2, seção 5. Kant afirma que a existência de Deus é um “postulado da razão prática pura – isto é, que a existência de Deus implica que o summum bonum, a perfeição do universo que a lei moral nos compele a buscar, é atingível; e que em nenhum outro caso o seria. Consequentemente, ele afirma, a obrigação imperiosa para manter a lei moral pode de qualquer maneira ser formulada como uma verdade teórica. Simplesmente nos encontramos sentindo a força da lei moral, e tentamos dar sentido ao fato de estarmos sob esta lei. Mas eu não consigo ver como pode ser racional para nós nos conformarmos à lei moral (como Kant acreditava que é), a menos que acreditemos que o que a lei moral declara é verdadeiro – por exemplo, que assassinato é errado, e o cumprimento de promessas obrigatório. Portanto, de fato, Kant, ao que parece, está apresentando um argumento a partir do fato de que existem verdades morais inescapáveis.

5. Para argumentação adicional a este respeito, veja The coherence of theism (Clarendon Press, 1993), capítulo 11.

6. O argumento pode ser variado de diversas maneiras como tornando a premissa de que “a”, “b”, “c” e “d” são obrigatórias por serem Q, R, S e T meramente probabilística, e construindo em seguida uma etapa dedutiva.

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