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Posts Tagged ‘Sobrenaturalismo’

Por Quentin Smith (2001)

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

[O texto a seguir encerra a série em três partes sobre a Metafilosofia do Naturalismo]

As quatro metas (anunciadas no final do texto anterior) são:

i) resgatar o naturalismo de sua reclassificação de facto pelos filósofos medievais. Esta reclassificação (que pode ter sido um efeito colateral de algum outro objetivo deliberadamente escolhido) é um rebaixamento de sua classificação original e acurada no naturalismo greco-romano, rebaixamento este levado a cabo pelos filósofos medievais. Esta reclassificação prevalece até hoje.

ii) Reclassificar a filosofia da religião como uma subárea do naturalismo, isto é, ceticismo acerca do naturalismo, de modo que a posição nos vários campos da filosofia primeiramente ocupada pela “filosofia da religião” seja substituída pela disciplina “filosofia do naturalismo”. Não estamos aqui sugerindo uma tentativa de “definir o teísmo fora da filosofia” ou de impedir os teístas de apresentar argumentos teístas. Antes, esta reclassificação envolve:

a) compreender o papel dos argumentos teístas na filosofia de uma maneira diferente de como são atualmente compreendidos,

b) manter uma crença verdadeira irrevogavelmente justificada de que esta diferente compreensão do papel dos argumentos teístas na filosofia é a compreensão correta,

c) auxiliar os teístas a tomarem conhecimento de que esta é a compreensão correta e

d) permitir que esta reclassificação realize-se consistentemente com as liberdades de investigação, pensamento, opinião e profissão de crenças, e permitir que todas as atividades relevantes sujeitem-se aos princípios que distingui em minha discussão prévia sobre “comportamento filosoficamente conduzido versus comportamento ativista social”.

iii) Uma terceira meta é compreender em linhas gerais uma versão realmente existente do naturalismo original (naturalismo greco-romano) a qual estes naturalistas pioneiros acreditaram justificadamente ser um naturalismo esclarecido e que os naturalistas esclarecidos contemporâneos justificadamente acreditam ser aproximadamente o melhor que poderia ser feito pelos naturalistas na situação epistêmica dos filósofos greco-romanos.

iv) O quarto objetivo é reformular justificadamente, e responder, as duas questões ontológicas básicas do tipo “por que” que os filósofos medievais herdaram dos naturalistas greco-romanos, e que tem (predominantemente) permanecido desde então “questões levantadas no campo da filosofia da religião”. A realização bem sucedida destas quatro tarefas restabelecerá a secularização ortodoxa que vigorava no mundo acadêmico antes do colapso pós-1967 no domínio da filosofia.

    1. A primeira tarefa que o naturalista esclarecido colocaria na agenda naturalista contemporânea é resgatar o naturalismo de sua reclassificação de facto perpetrada pelos filósofos medievais e, em seguida, reverter este “movimento reclassificatório”. O naturalismo começou originalmente com os filósofos pré-socráticos, mais nitidamente com Leucipo e Demócrito, mas também com Anaximandro, Aneximenedes, Heráclito, Protágoras, Empédocles, Teodoro, Diágoro, Crítias e outros (sendo as duas exceções principais os monoteístas Xenófanes e Anaxágoras). Alguns destes pré-sócraticos ocasionalmente utilizaram a palavra “deus” (theos), mas na medida em que a existência de um assim chamado deus (ou deuses) foi adotada, eles compreenderam por “deus” um organismo inteligente não-humano que era uma parte dos e submetido aos (em vez de mantenedor dos) processos naturais. A primeira tarefa é baseada no fato de que o naturalismo começou como uma cosmovisão holística distinta, foi efetivamente subsumida como uma subárea cética da teologia natural pelos medievais (por exemplo, em alguns casos ele pode aparecer na “seção de objeções” sob o título “argumentos para a existência de Deus baseados na razão natural”), e atualmente encontra-se “rasgado ao meio” em dois domínios do pensamento. Um destes dois domínios é o “ateísmo”, que é uma filosofia negativa, “Deus não existe”, atribuída a um pequeno número de naturalistas especializados em filosofia da religião. O segundo domínio, ao contrário do “ateísmo”, é uma filosofia positiva que, predominantemente, mas não exclusivamente, envolve a utilização de um “fisicalismo não-redutivo” como argumento ou pressuposto pela maioria dos naturalistas que trabalham nas áreas da filosofia da mente, filosofia da ciência, metafísica, epistemologia, ética, etc. e que são (em sua maior parte) leigos em filosofia da religião. O objetivo naturalista é encerrar o isolamento entre estes dois domínios do pensamento e reinterpretá-los. O ateísmo seria considerado uma defesa do naturalismo contra ataques céticos, e desse modo desempenharia um papel fundacional na justificação de pressuposições da filosofia naturalista positiva. Como uma subdisciplina da filosofia da religião, o ateísmo é usualmente classificado como um corpo de contraargumentos contra os argumentos cosmológicos, teleológicos e ontológicos, e contraargumentos contra os argumentos das experiências religiosas e dos (alegados) milagres. A primeira tarefa consiste parcialmente em remover o ateísmo de sua classificação como uma subdisciplina da filosofia da religião, onde ele não passa de uma teoria extrinsecamente importante parasiticamente dependente de uma teoria intrinsecamente importante, o teísmo. Esta classificação teísta do ateísmo implicou na subestimação do ateísmo como um mero ataque cético ao teísmo que serve ao propósito teísta de estimular o aprimoramento contínuo das defesas argumentativas do teísmo. Mas, de acordo com o naturalista esclarecido, o ateísmo deveria agora ser integrado aos programas de pesquisa naturalista especializada (filosofia da mente, epistemologia, etc.), como uma defesa de seus pressupostos naturalistas contra os ataques céticos, de modo que o resultado da integração seja uma cosmovisão holística única.

2. Este resgate é também uma revogação. O objetivo é que o teísmo seja justificadamente reclassificado como uma subárea do naturalismo, isto é, como um ceticismo dirigido aos princípios básicos do naturalismo cuja refutação destina-se a estimular e promover o desenvolvimento do programa naturalista. A “Filosofia da Religião” desaparece para ser substituída por uma nova subárea do naturalismo, qual seja, “ceticismo acerca do naturalismo”, com argumentos céticos sendo apresentados e contestados visando fomentar o aprimoramento contínuo das bases argumentativas da cosmovisão naturalista.

Como este processo ocorreria? Para evitar quaisquer equívocos sobre a natureza deste processo de revogação, enfatizo mais uma vez que não estou falando em “suprimir a liberdade de pensamento e de expressão dos teístas” ou em “definir injustificadamente a filosofia da religião como inexistente”. Em vez disso, a revogação envolve orientar-se pelas distinções relevantes entre filosofia e ativismo social que fiz anteriormente, respeitando as liberdades de pensamento, investigação, expressão, etc., e auxiliando os teístas a tomarem posse de uma crença verdadeira irrevogavelmente justificada de que esta reversão deve realizar-se.

Se minhas considerações prévias sobre filosofia e ativismo cultural forem lidas mais uma vez, pode-se ver que elas implicam que se acontecer de alguns sobrenaturalistas tomarem conhecimento de que o sobrenaturalismo é verdadeiro, então os naturalistas deverão tornar-se sobrenaturalistas e deverão ser auxiliados a se tornarem sobrenaturalistas pelos sobrenaturalistas que sabem que o sobrenaturalismo é verdadeiro.

3. A efetivação destas duas tarefas do naturalista esclarecido, resgatando e revogando a reclassificação medieval de facto do naturalismo original, resultaria (como a terceira meta do naturalista esclarecido) numa reflexão contemporânea sobre o naturalismo original dos pré-socráticos. Mais exatamente, ela refletiria sobre o naturalismo greco-romano a partir do período por volta de 600 a.C. até o sexto, quinto ou quarto século d.C., dependendo de qual data aproximada se deseje fixar para o fim do naturalismo original: se quando o neoplatonismo se tornou a filosofia predominante, ou mais tarde, quando Santo Agostinho produziu sua obra, por volta de 400 d.C., ou, se desejarmos assinalar um ano exato, digamos, 529 d.C., que foi o ano em que um cristão, o imperador romano Justiniano, fechou as portas da Academia de Atenas, encerrando oficialmente a disseminação autorizada de visões de mundo não-teístas. (Talvez 529 d.C. seja uma data tardia, já que dentre os últimos dos líderes da Academia de Atenas, sucessivamente Marino, Isidoro e Damáscio, somente Marino, no final do quinto século d.C. defendeu explicitamente uma filosofia não-teísta em seu comentário sobre o diálogo platônico Parmênides.) O último filósofo greco-romano naturalista significativo foi Sexto Empírico (c. 250 d.C.). Mas a filosofia naturalista prosperou sossegada por volta de 300 a.C na escola epicurista e na escola  dos Céticos Pirronistas (fundada por Enesidemo de Cnossos por volta de 43 a.C, continuada com Agripa e tendo em Sexto Empírico seu último proponente importante e filosoficamente criativo). Na época em que Plotino prosperava em Roma (c. 250 d.C.), o neoplatonismo tornava-se predominante na filosofia greco-romana e o naturalismo estava em vias de ser “varrido do mapa”. A estimativa mais razoável é provavelmente a de que o naturalismo subsistiu vigorosamente desde aproximadamente 600 a.C. até aproximadamente 300 d.C.

Como não vivemos num período em que o naturalismo esclarecido prevalece, e como o único período extenso de naturalismo em larga escala que os naturalistas esclarecidos contemporâneos acreditam que foi justificado, na situação epistêmica então prevalecente, durou de cerca de 600 a.C. a 300 d.C, o único modo de compreender um exemplo real de um naturalismo deste tipo é delinear algumas das idéias relevantes deste naturalismo primevo. Como sugeri antes, compreender um exemplo real é nossa terceira meta. A escola de contornos mais nitidamente naturalistas, a escola atomista de Leucipo, Demócrito, Nausífanes, Anaxarco, Epicuro, Lucrécio, etc. incluiu naturalistas justificados (no sentido que expliquei). Eles argumentaram contra a religião de sua época e colocaram uma visão de mundo naturalista em seu lugar. Mas nada disso é novidade para o leitor. Tampouco é desejável ou necessário esboçar em linhas gerais suas filosofias como um todo, uma vez que ela está disponível em livros e artigos sobre história da filosofia, e em todo caso não irá apreender o que é mais pertinente para o naturalista  esclarecido. Em vez disso, eu delinearei os aspectos de sua filosofia mais significativos para uma discussão do naturalismo esclarecido, quais sejam, seu tratamento da religião como uma subárea cética do naturalismo e (relacionado ao quarto objetivo do naturalista esclarecido), sua enunciação e resposta das duas questões ontológicas mais básicas do tipo “por que” dentro de uma matriz teórica inteiramente naturalista.

4. As duas questões ontológicas mais básicas são agora consideradas, devido à influência duradoura dos filósofos medievais, como pertinentes ao domínio da filosofia da religião. Mas elas originariamente pertenciam à filosofia naturalista que prevaleceu antes de Santo Agostinho ou de Plotino. As duas questões ontológicas do tipo “por que” mais básicas costumavam pertencer ao atomismo greco-romano mas desde a Idade Média foram tratadas como questões teístas, quais sejam, as questões (numa de suas possíveis formulações) “por que existe algo em vez de nada?” e “por que existem estas coisas em vez de outras coisas?” Leucipo, Demócrito, Epicuro, Lucrécio e outros naturalistas greco-romanos consideraram e tentaram responder às suas próprias formulações das duas questões ontológicas mais básicas do tipo “por que” dentro de um contexto naturalista, sem pensar que fosse absolutamente necessário discutir qualquer coisa considerada “religiosa” ou sobrenatural, mas, começando com os filósofos medievais estas questões foram definidas de facto como questões pertencentes exclusivamente ao campo da teologia natural. Quando Hume discute estas questões, ele o faz primeiramente num tratado sobre teologia natural (que ele inclusive intitulou Diálogos Sobre A Religião Natural) e sua prática foi seguida pelos filósofos subsequentes, nos quais o ato de tentar responder às perguntas ontológicas básicas do tipo “por que” ocorreu dentro do campo da filosofia da religião[5]. Além disso, desde a Idade Média, os teístas convenceram os naturalistas em geral que estas questões, se dotadas de sentido, tem apenas duas respostas possíveis, “Devido a um ato criativo sobrenatural” ou “Por nenhuma razão em particular; eles são fatos brutos.”

O naturalismo esclarecido inclui possíveis respostas às duas questões ontológicas do tipo “por que” mais básicas, perguntas cujas respostas permitem ao naturalismo oferecer uma explicação ontológica explanatoriamente completa do que existe. Uma teoria ontológica é explanatoriamente completa se existem respostas positivas às perguntas ontológicas mais básicas do tipo por que, onde uma resposta positiva oferece uma razão ou razões em vez de meramente replicar “por nenhuma razão, é um fato bruto” (uma resposta negativa). Por exemplo, se as respostas mais básicas às questões ontológicas do tipo “por que” numa teoria naturalista específica permitem às duas perguntas mais básica do tipo “por que”, formuladas como se segue, serem respondidas positivamente, então essa teoria é explanatoriamente completa.

Q1. Por que estas coisas existem e por que vigoram estas leis da natureza em vez de outras coisas possíveis e outras possíveis leis da natureza?

Q2. Por que é o caso de não existir senão o nada? (A razão para formular a questão desta maneira ficará evidente quando eu discutir os atomistas.)

Para o naturalista esclarecido, é uma tese metafilosófica sobre o naturalismo filosófico que é (pelo menos) epistemicamente possível que as explanações ontológicas sejam completas pertencendo a uma filosofia naturalista. Isto é, Q1 e Q2 não são nem questões naturalistas sem sentido, nem possuem somente respostas naturalistas logicamente autocontraditórias, nem são pseudoquestões no sentido de que é logicamente impossível que exista qualquer outra resposta a elas além de “por nenhuma razão em particular; é um fato bruto.” Isto nos habilita a enunciar explicitamente a quarta meta do naturalista esclarecido, que é baseada nas três metas anteriores: 4) É absolutamente necessário que estas duas questões ontológicas mais básicas do tipo “por que” sejam resgatadas da filosofia da religião e restabelecidas em seu lugar original, o lugar que elas ocuparam no atomismo de Leucipo, Demócrito, Epicuro e outros, que era a ontologia naturalista.

Uma vez que este quarto objetivo baseia-se nos três primeiros, e é o objetivo menos compreendido nos dias atuais (em que a maioria dos naturalistas presumem que os teístas estão corretos em pensar que estas duas questões do tipo por que, se respondíveis, possuem respostas que pertencem à filosofia da religião), será mais produtivo discorrer um pouco mais extensamente sobre este objetivo.

Os atomistas gregos originais interpretaram a questão naturalista “Por que não é o caso de que não exista somente o nada?” de um modo que lhes pareceu adequar-se a seu atomismo. Para Leucipo, assim como para seu discípulo Demócrito, “nada” referia-se ao espaço vazio e “alguma coisa” aos átomos, que se movem nos espaços (previamente) vazios. Isto nos faz pensar em alguns cosmologistas quânticos como Ed Tryon que utilizam “alguma coisa” e “nada” aproximadamente da mesma maneira, mutatis mutandis. “Nada” refere-se ao vácuo quântico e “alguma coisa” às partículas reais distintas das virtuais. Parte da dificuldade de abordar a questão sobre por que não ser o caso de não existir senão nada é esclarecer e delimitar o significado de “nada”. O teísta analítico contemporâneo não pode pretender ser significativamente mais esclarecido a este respeito do que Leucipo, uma vez que o teísta geralmente diz que nada é um mundo possível no qual não existe nenhum objeto concreto, de modo que este mundo possível é um objeto abstrato, uma proposição ou estado de coisas maximal. Contudo, pode-se objetar perfeitamente que uma proposição ou um estado de coisas maximal é alguma coisa, algo abstrato, e portanto não é nada. Em ambos os casos, relativizamos o “nada” à não-existência de um tipo específico de seres, átomos ou objetos concretos. Esta dificuldade relacionada ao significado de “nada” ainda não foi resolvida de maneira satisfatória.

Podemos ver por que eu formulei Q2 em vez de sua análoga mais familiar “por que existe alguma coisa em vez de nada?” A formulação “Por que existe algo em vez de nada” levanta a questão contra Leucipo e Demócrito presumindo sem argumentos  algo que eles negam. Eles criticariam esta questão como sendo baseada num pressuposto falso, isto é, que existe ou mesmo que pode existir algo sem o nada. Não pode existir nenhum ser (átomos, que se movem) sem o não-ser (espaço vazio). Mais exatamente, não podem existir seres que se movem e preenchem o que foi um espaço vazio (nada) a menos que existam espaços vazios.

A segunda questão ontológica básica do tipo por que, por que existem estes seres e leis em vez de outros, pode ser respondida em uma de duas maneiras pelos atomistas. O universo (“o Todo” ou “o ilimitado”) é uma sequência de eventos atômicos infinitamente antiga, discreta e causalmente deterministíca; cada um destes eventos atômicos, de menor grandeza discreta possível, possui sua causa suficiente no estado anterior de mesma escala (em conjunção com leis causais). A “guinada” incausada é uma invenção posterior de Epicuro em sua tentativa de explicar o livre-arbítrio; naquela época, os filósofos não conheciam a distinção conceitual entre compatibilismo e determinismo estrito. Além disso, não devemos supor que eles possuíssem uma clara distinção conceitual entre leis causais e instâncias destas, como possuímos hoje. Em vez disso, isto parece ser o que eles tinham em mente de maneira vaga. Considerando isto, podemos dizer o seguinte: cada lei básica é uma regularidade, isto é, eventos atômicos  de um tipo específico nomicalmente causando outros eventos atômicos de um tipo específico. A vigência de uma lei básica em qualquer instante dado é uma consequencia causal da vigência da lei num instante anterior. Desta maneira, não somente os estados do universo são causalmente explicados, como também as leis causais. Observe como Aristóteles cria um espantalho de Demócrito e deturpa sua explicação causal como uma pseudoexplanação temporal em Physics VIII. 252 a.32. No espantalho criado por Aristóteles, a teoria de Demócrito é representada como sustentando que “alguma coisa acontece de uma dada maneira porque sempre aconteceu daquela maneira”. Observe que Aristóteles omite a causalidade da explanação oferecida por Demócrito. Se expressamos a teoria de Demócrito da maneira correta, nos termos de uma explicação causal, o ônus de provar por que a afirmação “para qualquer instante t, a vigência da lei causal L é causada neste instante pela vigência de L num instante anterior t*<t,” não é uma resposta à questão “por que a lei vigora em todos os instantes (num passado infinito)?” recai sobre Aristóteles. Os sobrenaturalistas muitas vezes respondem a esta questão recorrendo a um equívoco, afirmando que a sua verdadeira pergunta não é “por que esta lei efetivamente vigora em todos os instantes de um passado infinito?” mas “por que esta lei efetivamente vigora, em vez de alguma outra lei que poderia ter vigorado, mas que na realidade não vigora?” que não é uma questão sobre temporalidade mas sobre modalidade.

Os atomistas possuem uma resposta pronta para a questão modal: cada possibilidade é efetivada. Nos termos da lógica modal contemporânea, poderíamos dizer que sua posição é (muito tacitamente!) formalmente similar ao sistema modal Triv, discutido mais notoriamente no livro de Hugue e Cresswell[6]. Triv é (Lp–> Mp) +p –> Lp. O símbolo L significa necessariamente e M significa possivelmente. Para ser mais exato, Triv é o sistema D+p–>Lp. Um dos teoremas de Triv claramente relevante para a teoria atomista é Mp≡p≡Lp, onde “≡” significa equivalência material. Disso resulta que se p é possivelmente verdadeiro, então p é efetivamente verdadeiro, e se p é efetivamente verdadeiro, então p é necessariamente verdadeiro. Hugues e Cresswel, entretanto, dizem que Triv reduz as noções modais a noções extensionais. Entretanto, tão logo reconheçamos que mesmo proposições estritamente logicamente (no sentido que C.I. Lewis define para “estritamente”) equivalentes podem ser proposições diferentes, e podem ser expressas por sentenças não-sinônimas (por exemplo, “um triângulo possui três lados” e “um triângulo possui três ângulos”, então podemos dizer que Triv expressa conceitos intensionais não expressos em qualquer lógica extensional. “Necessariamente” não expressa mais o mesmo conceito que “possivelmente” do que “três lados” expressa o mesmo conceito que “três ângulos”. As “necessidades” dos atomistas são entendidas a posteriori na maioria dos casos, conquanto não devamos atribuir-lhes nossas distinções contemporâneas explicitamente conceituais entre a priori e a posteriori.

Um fragmento remanescente de Leucipo foi tema de um intenso debate e Taylor[7] apresentou uma interpretação plausível de uma parte dele. No fragmento lê-se: “Nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas todas a partir de razão (logos) e por necessidade.”[8]

Taylor indica que maten (“em vão”) é algumas vezes utilizada com o sentido “sem razão”, no sentido de “sem uma explicação racional”, como no Teeteto de Platão. A primeira cláusula de Leucipo então significaria: “Nada acontece sem uma explicação racional”, que é (uma versão do) princípio de razão suficiente. Taylor sugere que o restante deveria ser interpretado como “mas tudo acontece por uma razão [com uma explicação racional] e por necessidade.” Taylor atribui à expressão envolvendo o termo “necessidade” o sentido “a razão pela qual algo ocorre é que este algo tem que ocorrer”. Mas esta é uma interpretação duvidosa, pois faria o fragmento terminar de forma redundante: “Nada acontece sem uma explicação racional, mas tudo acontece com uma explicação racional e com uma explicação racional”, uma vez que (na concepção de Taylor) a razão é a necessidade. Mas a conjunção redundante de Taylor sugere que precisamos de uma interpretação diferente: “Nada acontece sem uma explicação racional, mas tudo acontece com uma explicação racional e necessariamente.” Por exemplo, a “explicação racional” seria uma explanação causal e o “necessariamente” significaria que esta cadeia de eventos causalmente explicados existe necessariamente.

Os atomistas discutiram as duas questões ontológicas básicas do tipo “por que” e ofereceram respostas (com um grau maior ou menor de clareza) num contexto puramente naturalista, sem referências a qualquer realidade sobrenatural ou religiosa e sem declarar que a “real importância” de suas respostas era que “implicam o ateísmo”.

Os atomistas não trataram de argumentos ateístas, ou argumentos contra a religião de sua época, como uma subárea da teologia natural; antes, os argumentos ateístas foram refutações de ceticismo sobre o naturalismo que abraangia um dos domínios do naturalismo, ao lado da epistemologia, filosofia da mente, ética, etc. Os atomistas discutiram religião, mas a crença religiosa não era suficientemente interessante para justificar qualquer coisa além de um punhado de réplicas a seu ataque cético sobre a cosmovisão atomística. O atomista romano, Lucrécio, discutiu o ateísmo ao longo da exposição de sua teoria cosmológica e sociológica, e ofereceu uma explicação que era bastante similar à de Demócrito (ainda que Lucrécio aparente estar explicando Epicuro, que por sua vez aparenta estar explicando Demócrito, que por sua vez adotou suas idéias básicas de Leucipo). Lucrécio escreveu “Consideremos agora por que a reverência pelos deuses  está difundida entre as nações… a explicação não se encontra fora de nossa alcance. Já nos dias antigos as pessoas eram acometidas por visões quando suas mentes estavam despertas, e mais claramente quando adormecidas, de personagens divinos, dignificados no porte e no semblante e impressionantes em estatura”[9]. Em outras palavras, a reverência pelos deuses é disseminada porque as faculdades epistêmicas das pessoas não funcionam adequadamente, tomando emprestado uma expressão de Plantinga.

Epicuro disse apenas que os seres que as pessoas chamavam de deuses eram na verdade extraterrestres, organismo inteligentes, constituídos inteiramente por átomos, que estavam submetidos às leis da natureza, e que não possuíam nenhum interesse ou influência nos assuntos humanos. Eles eram como marcianos alegres indiferentes aos terráqueos (a não ser que os extraterrestres de Epicuro existissem nos interstícios entre os “mundos”, onde um mundo seria, grosso modo, um sistema planetário).

Demócrito não possuía uma concepção assim tão otimista. Demócrito, que se encontrava basicamente sozinho em sua época (como estiveram os outros filósofos pré-socráticos) ao rejeitar a religião e adotar o naturalismo, foi acusado por Hipócrates de manter uma opinião não exatamente cor-de-rosa sobre os assuntos humanos: “Este homem ridicularizou todas as coisas como se todos os interesses humanos fossem ridículos.”[10] A busca de Demócrito por um conhecimento naturalista e seus objetivos normativos naturalistas foram provavelmente um interesse de segunda ordem que forneceram-lhe esta perspectiva sobre os interesses de primeira ordem. (Caso contrário seu interesse em ridicularizar todas as coisas seria em si mesmo ridículo; se todos os interesses humanos são ridículos, o interesse de Demócrito em ridicularizar todos os intereses humanos é ridículo. Talvez seu interesse seja ridículo porque fracassa em realizar o obviamente inatingível objetivo de transcender a condição humana). Em todo caso, não há dúvidas de que as considerações de Demócrito sobre a religião fizeram-na parecer ridícula: ele disse que as pessoas confundiram uma impressão, um pressentimento da existência de fantasmas mortais, destrutíveis e errantes, que podiam ser vistos e ouvidos, com “deus”[11]. Como este fenômeno não se encaixa na definição de uma divindade, Demócrito concluiu, as crenças religiosas das pessoas são falsas. Agora pode muito bem ser que as idéias religiosas criticadas por Demócrito fossem não idéias sobrenaturalistas, como eu defini o sobrenaturalismo, mas idéias naturalistas falsas (“existem fantasmas errantes”, etc.). Mas se meus símbolos forem utilizados para representar a estrutura formal do seu pensamento e do pensamento de outros atomistas, de modo que B (por exemplo) represente um justificador religioso que eles criticaram, mesmo que este justificadores religiosos não sejam “sobrenaturalistas” do modo como defini este termo, podemos chamar os argumentos atomistas contra os justificadores religiosos de invalidadores dos justificadores das crenças religiosas, e assim municiar os naturalistas originais com sua versão de DB (onde DB é o invalidador de um argumento B para a veracidade de crenças religiosas específicas).

Os atomistas também formularam versões das seguintes teses, onde B, DB e outros símbolos representam as teorias correspondentes de sua época. Eles defenderam (e pareceu-lhes que):

  1. DB (Um argumento DB contra o justificador religioso B de sua época).
  2. DB invalida B.
  3. C (que inclui um argumento segundo o qual as duas questões básicas do tipo por que possuem respostas naturalistas e oferece essas respostas).
  4. C justifica N.
  5. Portanto, N está justificada.

Leucipo e Demócrito foram os primeiros a apresentar um argumento naturalista deste tipo. Um naturalista esclarecido hoje pode pensar que precisamos adotar um modelo formal como o que eles implicitamente ofereceram  a fim de retornar a filosofia à seu estado predominantemente secularizado e desse modo alinha-la com as demais áreas do saber acadêmico. O naturalista esclarecido pensaria ser este o melhor caminho para fomentar o conhecimento humano. Obviamente, este é um assunto sobre o qual os naturalistas e os anti-naturalistas irão divergir. As divergências atingiram tal magnitude na época dos gregos que chegou-se a um ponto em que a atividade compartilhada entre os filósofos naturalistas e antinaturalistas, a livre obtenção de conhecimento como um fim em si mesmo, em alguns momentos deixou de ser valorizada.

Por exemplo, o principal sobrenaturalista da época greco-romana, Platão, pareceu bastante perturbado com a linha de pensamento atomista. Como Aristoxeno relata em suas Historical Notes: “Platão quis queimar todas as obras de Demócrito que fosse capaz de coletar, mas foi dissuadido pelos pitagóricos Amiclas e Clínias, que disseram-lhe não haver nenhuma vantagem em faze-lo, pois os livros já haviam circulado amplamente”[12]. Entretanto, Platão não precisava ter se preocupado, já que Júlio César acidentalmente queimou as obras de Demócrito em 48 a.C.[13], o que pode ter algo a ver com o fato de o atomismo ter sido “varrido do mapa” pelo neoplatonismo romano por volta de 300 d.C. Tudo o que restou foram fragmentos dos escritos dos atomistas e a obra de Lucrécio De Rerum Natura. Pode não ser meramente retórico perguntar: seria culpa de César que a filosofia ocidental seja uma “série de notas de rodapé sobre Platão”, como Whitehead disse, em vez de uma “série naturalista de notas de rodapé sobre Demócrito [e Leucipo]”? Parece-nos que Aristóxenos teria assumido esta posição com a mais sincera seriedade:[14]

Platão, que menciona quase todos os primeiros filósofos, nem uma vez sequer alude a Demócrito, nem mesmo onde é necessário contesta-lo, obviamente porque sabia que ao faze-lo teria que se confrontar com o príncipe dos filósofos.[15]

NOTAS

5. Felizmente, há exceções. Estas questões foram tratadas num contexto não-teísta por alguns naturalistas, como Milton Munitz, Chris Mortenson, Robert Nozick, Peter Unger, Derek Parfit, e outros, mas a maioria dos naturalistas hoje ignora estas questões presumindo tacitamente que elas pertencem à “filosofia da religião” e que os naturalistas deveriam em vez disso trabalhar em questões que pertencem a outros campos, como a filosofia da ciência ou a filosofia da mente.

6. G.E. Hughes and M.J. Cresswell, A New Introduction to Modal Logic (London: Routledge, 1996), 65.

7. C. Taylor, The Atomists (Toronto: University of Toronto Press, 1999), 188–195.

8. Ibid.

9. Lucrécio, De Rerum Natura.

10. Hipp. I. 13. Dox. 565. Estou citando do livro de Milton Nahm Selections from Early Greek Philosophy (New York: Appleton-Century-Crofts, 1964), p. 158.

11. Sext. Emp. IX.19. Veja a pág. 206 do livro de Nahm Selections from Early Greek Philosophy.

12. D.L., IX. 34 ff. Veja a pág. 154 do livro de Nahm Selections from Early Greek Philosophy.

13. César queimou sua própria frota militar para impedir que o general egípcio Achillas, com seu exército, capturasse a armada de César, mas as chamas inesperadamente atingiram a biblioteca de Alexandria e queimaram não somente os livros de Demócrito como também as únicas cópias existentes de várias obras clássicas escritas antes de 48 a.C.

14. D.L., IX. 34 ff. Veja a pág. 154 do livro de Nahm Selections from Early Greek Philosophy.

15. Agradeço a David Woodruff, William F. Vallicella e Austin Dacey pelos comentários e críticas excepcionalmente extensos e perspicazes tecidos sobre o penúltimo rascunho deste artigo, que propiciaram inúmeras alterações. Várias de suas sugestões sobre como aprimorar este artigo foram incorporadas na versão final, assim como as detalhadas sugestões de Woodruf sobre como melhorar meus esboços das noções de justificação e invalidadores, junto com as diversas observações de Vallicella sobre como a primeira versão não fazia uma distinção clara o bastante entre “ativismo filosófico/cultural”, as críticas de Vallicella da validade do argumento presente no penúltimo rascunho de que a maioria dos naturalistas contemporâneos não conhecem quaisquer verdades naturalistas, o modo fornecido por Dacey de distinguir mais cuidadosamente entre naturalistas ignorantes vindo a conhecer os argumentos ateológicos versus formulando estes argumentos eles próprios; e várias outras sugestões. Um sinal da ajuda que eles prestaram e da influência que tiveram neste artigo é o fato de que o relatório crítico de Woodruff era tão longo quanto meu penúltimo rascunho (era do tamanho de um artigo longo), o relatório de Vallicella era quase tão longo quanto, e o fato de que o relatório de Dacey (bem como o de Woodruff) incluir um comentário linha por linha sobre o estilo de escrita bem como argumentos substanciais sobre as teorias.


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Por Quentin Smith (2001)

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

[O texto a seguir é o segundo de uma série em três partes sobre a Metafilosofia do Naturalismo]

A JUSTIFICAÇÃO DA MAIORIA DAS CONCEPÇÕES NATURALISTAS CONTEMPORÂNEAS É INVALIDADA PELOS ARGUMENTOS TEÍSTAS CONTEMPORÂNEOS

Uma formulação mais sistemática desta situação [descrita na primeira parte desta série] pode ser apresentada. Para faze-lo, será necessário primeiro esboçar algumas noções filosóficas sobre justificação e invalidadores. Estas idéias servem a meu propósito de explicar de maneira breve e acessível a situação acadêmica corrente, mas, uma vez que a epistemologia é tanto um campo altamente controverso como um campo conceitualmente preciso e rigorosamente argumentativo, não posso (no mínimo por razões de espaço) engajar-me numa argumentação crítica contra outras teorias epistemológicas.  Deixarei a cargo dos epistemólogos que sustentam teorias diferentes da que delinearei resumidamente que “capturem a essência geral daquilo sobre o que estou discorrendo” ou então que traduzam conceitualmente as idéias que eu esboço em suas próprias teorias epistemológicas.

Começo com a noção de justificação. Uma pessoa está justificada em acreditar que p porque a crença dessa pessoa de que p é baseada em sua crença de que q (e se, além disso, algumas outras condições, mencionadas adiante, são satisfeitas). Uma crença de que p é “justificada” num sentido derivativo, isto é, se é a crença de que p mencionada na frase anterior. Uma proposição é justificada num sentido derivativo se ela é a proposição p mencionada nas sentenças precedentes. Argumentos podem ser tratados como proposições complexas, por exemplo, colocando uma conjunção (expressa por “e”) entre as premissas e incluindo a conclusão, assim como a relação de inferência (expressa por “portanto”) na mesma proposição que as premissas combinadas. Muitas vezes utilizo “justifica” num sentido derivativo.

Algumas das outras condições que devem ser satisfeitas para uma pessoa estar justificada em acreditar que p são enunciadas da seguinte maneira. Uma pessoa está justificada em acreditar que p porque a crença dessa pessoa que p é baseada em sua crença em q e 1) q ser verdadeira seria uma razão epistemicamente boa para a pessoa acreditar que p, e 2) qualquer invalidador que seja um motivo adequado para acreditar que q não é uma razão adequada para p ou q não é verdadeira encontra-se cognitivamente inacessível à pessoa.

Um invalidador está cognitivamente inacessível a uma pessoa se o invalidador envolve evidências, teses, argumentos, etc. que a pessoa não é capaz de compreender e acreditar, ou a pessoa está impedida de acreditar nas evidências, teses, argumentos, etc., em decorrência de sua situação. Um caso nítido de tal impedimento seria aquele em que a pessoa está numa situação onde as evidências, teses ou argumentos ainda não foram descobertos em virtude de alguma razão relevantemente legítima, por exemplo, a pessoa precisa de lógica modal para compreender um argumento, a pessoa carece da perícia em lógica e a lógica modal ainda não foi descoberta pelos especialistas em lógica. Uma coisa x está cognitivamente acessível a uma pessoa se a pessoa ocorrentemente ou disposicionalmente acredita em x ou se a pessoa poderia vir a acreditar justificadamente em x com os recursos epistêmicos que lhe estão disponíveis. Recursos epistêmicos incluem informações em livros e artigos, informações de especialistas disponíveis para a pessoa, informações a partir do que a pessoa poderia vir a conhecer através de investigações empíricas (considerando-se as ferramentas relevantes, por exemplo, telescópios) ou raciocínio (considerando-se as ferramentas relevantes, por exemplo, sistemas de lógica, matemática, teoria dos conjuntos).

(Se faz sentido dizer que a crença teísta ou naturalista é uma crença apropriadamente básica, poderíamos reformular nossos argumentos de modo que “crença justificada no naturalismo”, por exemplo, signifique que a crença, uma crença naturalista é uma crença de primeira ordem apropriadamente básica, é uma crença de segunda ordem justificada.)

Será de nosso interesse caracterizar a situação epistêmica corrente da perspectiva de uma pessoa real ou hipotética que sabe que o naturalismo é verdadeiro. Chamarei tal pessoa de “naturalista esclarecido”. O naturalista esclarecido perceberá o estado deplorável (ao menos para ele) que resultou ao se tolerar que, desde o final da década de 1960, uma esfera acadêmica predominantemente secularizada retrocedesse parcialmente ao seu estado dessecularizado tradicional, uma situação tenebrosa resultante das falhas, omissões e negligências dos naturalistas contemporâneos e dos êxitos dos teístas contemporâneos no terreno da filosofia. A situação epistêmica da maioria dos naturalistas contemporâneos pode ser explicada em termos desta perspectiva se definirmos os seguintes símbolos.

N (uma tese). Naturalismo, isto é, a tese de que existem corpos animados ou inanimados, sendo os corpos animados ou organismos inteligentes ou organismos não-inteligentes, mas não existe nada sobrenatural. O exemplo de alguma coisa sobrenatural de maior interesse para os filosófos analíticos contemporâneos é uma mente incorpórea que é o criador originário e/ou mantenedor contínuo do universo e possui os oniatributos descritos na teologia do ser perfeito.[4] Outros exemplos de realidades sobrenaturais hipotéticas que regem ou criam em algum sentido o universo são a mente governante postulada pelos estóicos ou o “Eu Absoluto” postulado pelo jovem Fichte.

Observe que N não implica a inexistência de objetos abstratos, tais como os conjuntos de Quine, os universais de Armonstrong, as leis da natureza de Tooley, ou os valores de Moore ou Butcharov. Tampouco N implica a existência de objetos abstratos. Esta questão é deixada em aberto por N uma vez que meu interesse está em contrastar N (definida em termos de corpos e organismos inteligentes) com o sobrenaturalismo. Se os objetos abstratos existem, incriados e não relacionados de maneira alguma a uma realidade sobrenatural, eles são naturais, mas o naturalista não precisa postular sua existência. Considerando isto, (isto é, que se existem objetos abstratos, eles são naturais) segue-se que o naturalismo e o sobrenaturalismo são as duas únicas ontologias possíveis. Isto exige que admitamos a possibilidade de que as realidades sobrenaturais governantes sejam entendidas politeisticamente ou de outros modos religiosos ou filosóficos que não são mencionados explicitamente em N. (Não obstante, Górgias objetaria que estas não são as duas únicas ontologias possíveis uma vez que ele defende que nada existe. Entretanto, uma vez que isto implica que seu argumento não existe, não precisamos nos dar o trabalho de refuta-lo. De uma maneira mais geral, qualquer teoria que seja clara e explicitamente autocontraditória ou sem sentido não pode ser considerada uma “ontologia possível”, ou pelo menos eu assim estipulo.)

  • A (um justificador invalidado). A é o argumento que a ciência contemporânea e a filosofia naturalista são conhecidas por serem provavelmente ou certamente verdadeiras, ainda que A não inclua nenhum contraargumento contra os argumentos contemporâneos para o teísmo.
  • DA (um invalidador para o justificador A). DA é um argumento sólido concluindo que o argumento A não é sólido.
  • B (um justificador invalidado). B é um argumento concluindo que, a ciência contemporânea e a filosofia naturalista, quando combinadas com uma avaliação dps argumentos teístas contemporâneos para não-N, (onde “não-N” implica que o naturalismo não é verdadeiro) justifica não-N.
  • DB (um invalidador para o justificador B). DB é um argumento sólido concluindo que o argumento B não é sólido.
  • C (um justificador invicto para N). C é o argumento concluindo que a ciência contemporânea e a filosofia naturalista, quando combinados com uma avaliação dos argumentos teístas contemporâneos para não-N, justifica N.

De acordo com o naturalista esclarecido, a situação problemática em que se encontra pelo menos 99% dos naturalistas contemporâneos está representada nas seguintes colunas. Podemos enunciar de maneira bastante resumida os argumentos em que diferentes filósofos acreditam em termos de nossos símbolos. O estados de crença mencionados são argumentos em cuja solidez as partes relevantes acreditam.

Estado de Crença da Maioria dos Naturalistas Contemporâneos

1. A

2. A justifica N.

3. Portanto, N está justificada.

Invalidador Reconhecido por Naturalistas Esclarecidos

4. DA.

5. DA invalida A.

6. Portanto, A não justifica N.

Estado de Crença da Maioria dos Teístas Contemporâneos

7. B.

8. B justifica não-N.

9. Portanto, não-N está justificada.

Invalidador Reconhecido por Naturalistas Esclarecidos

10. DB.

11. DB invalida B.

12. Portanto, B não justifica não-N.

Como ambos A e B estão invalidados, a maioria dos naturalistas contemporâneos, bem como a maioria dos teístas contemporâneos, mantém crenças invalidadas acerca do valor de verdade do naturalismo. O naturalista esclarecido conhece o argumento complexo C que constitui o invalidador de B e a justificação de N, bem como satisfaz outras condições explicadas mais adiante neste artigo.

Estado de Crença dos Naturalistas Esclarecidos

13. C.

14. C justifca N.

15. Portanto, N está justificada.

Alguns naturalistas acreditam que são naturalistas esclarecidos. Mas se eles realmente são ou não são naturalistas esclarecidos não é a questão que estou abordando neste artigo. Este artigo é uma metafilosofia do naturalismo, não um argumento filosófico concluindo que o naturalismo é verdadeiro. Tais argumentos filosóficos podem ser encontrados em outros artigos e livros. Neste artigo, estou (em parte) caracterizando a situação epistêmica contemporânea acerca do naturalismo da perspectiva de um naturalista esclarecido real ou hipotético.

Como podem os “naturalistas ignorantes”, a maioria dos naturalistas contemporâneos, responderem e permanecerem impassíveis diante desta representação do ponto de vista de um naturalista esclarecido? Eles podem dizer: por que não podem Searle, Davidson, os Churchland e outros naturalistas deixarem que, digamos, Gale, Grünbaum, Fales, Oppy, Le Poidevin, Martin e um punhado de outros saibam como B é invalidado e como C justifica N? Por que não pode a maioria dos naturalistas deixar a cargo dos naturalistas que se especializam em filosofia da religião conhecer o argumento concluindo que a ciência contemporânea e a filosofia naturalista, quando combinadas com os argumentos sobre o teísmo contemporâneo, justificam o naturalismo?

O problema com esta resposta é que Davidson, Searle, os Churchlands e a maioria dos outros naturalistas não saberiam que o naturalismo é verdadeiro uma vez que eles não conhecem o invalidador DB do justificador teísta B para o sobrenaturalismo (ou não-N). Conhecimento é a crença verdadeira irrevogavelmente justificada e a maioria dos naturalistas possuem uma crença verdadeira (presumindo que o naturalismo seja verdadeiro) e uma justificação invalidada A para sua crença. A fim de possuírem uma crença verdadeira irrevogavelmente justificada no naturalismo, e assim o conhecimento de que o naturalismo é verdadeiro, eles precisam conhecer DB, que invalida B, e C, que justifica o naturalismo. (Estritamente falando, conhecer C é suficiente para uma crença verdadeira irrevogavelmente justificada, já que C inclui DB como um componente característico.) Filósofos como Searle ou Davidson não precisam dedicar a maior parte de seu tempo de pesquisa à formulação ou ao desenvolvimento de argumentos que constituem DB (filosófos como Gale, Grünbaum, Fales e Martin, por exemplo, podem estar envolvidos neste projeto de pesquisa. Em vez disso, eles devem tomar conhecimento de DB (conforme desenvolvido pelos naturalistas especializados na formulação de argumentos contra B), ou eles devem conhecer pelo menos o suficiente sobre DB de modo que sua crença de que B é falso seja irrevogavelmente justificada. DB é cognitivamente acessível a filósofos como Searle ou Davidson e este fato (juntamente com outros mencionados) torna sua crença no naturalismo injustificada. O naturalista esclarecido diria que estes naturalistas ignorantes não estam cumprindo satisfatoriamente suas obrigações epistêmicas com respeito ao naturalismo e que este é um fator que contribui para o atual arrocho filosófico e cultural dos filósofos naturalistas, isto é, que eles permitiram que o mundo filosófico acadêmico perdesse sua secularização ortodoxa. O naturalista esclarecido poderia reformular isto em termos de uma teoria da virtude da justificação epistêmica. Os naturalistas ignorantes estão injustificados ao acreditar em N porque eles não exerceram uma virtude intelectual específica; os naturalistas ignorantes acreditam em N sem primeiro tentarem adequadamente determinar ou se informarem sobre o êxito dos argumentos teístas pós-1967. O naturalista esclarecido, então, pensaria ser sua responsabilidade tornar isto evidente aos naturalistas ignorantes com o motivo de tentar auxilia-los a este respeito, assim como os naturalistas ignorantes são capazes de evidenciar outros fatos aos naturalistas esclarecidos para ajuda-los em outras áreas do pensamento além de DB.

Intuitivamente falando, isto se aplica aos cientistas naturalistas num sentido aproximadamente análogo em que os filosófos naturalistas estão epistemicamente obrigados a conhecer pelo menos em linhas gerais as mais importantes teorias científicas contemporâneas, como a teoria da evolução darwiniana e a cosmologia do Big Bang. Um problema adicional com os cientistas naturalistas é que elesencontram-se a tal ponto alheados de qualquer entendimento da filosofia da religião que eles sequer tem consciência de seu alheamento,  como testemunham suas obras populares sobre ciência e religião.

A situação epistêmica corrente é na verdade muitíssimo pior do que isto. O naturalista esclarecido diria que tudo o que a maioria dos naturalistas pretendem conhecer ser naturalmente o caso (ou aparentam a si próprios conhecer ser naturalmente o caso) é tal que o conhecimento disso implica o conhecimento do naturalismo, e portanto que a maioria dos naturalistas contemporâneos não conhece quaisquer verdades naturais. Não estou aqui pronunciando a declaração obviamente falsa de que (por exemplo) “saber que o universo está em expansão” implica “saber que o naturalismo é verdadeiro”. Em vez disso, estou dizendo que “saber que o universo está se expandindo naturalmente” (ou seja, está se expandindo unica e exclusivamente através de um processo natural, onde a compreensão de “naturalmente” e “natural” engloba uma compreensão do que já foi dito sobre N neste artigo)” implica “saber que o naturalismo é verdadeiro.” Uma razão para esta implicação é a seguinte: se sei que o universo está se expandindo naturalmente, sei que o sobrenaturalismo é falso uma vez que sei que uma tese logicamente implicada pelo sobrenaturalismo, que todos os processos e elementos constituintes do universo são causados ou governados por alguma realidade sobrenatural, é falsa. Como o naturalismo e o sobrenaturalismo são as únicas ontologias possíveis (veja minha discussão prévia sobre N), segue-se (do fato de que sei que o sobrenaturalismo é falso e que sei que alguma ontologia possível é verdadeira) que sei que o naturalismo é verdadeiro, mesmo que eu saiba disso apenas superficialmente, como alguma ontologia que é não-S é verdadeira, onde S é o sobrenaturalismo. Este conhecimento não precisa ser ocorrente; poderia ser disposicional. O problema com os naturalistas ignorantes é que eles estão cientes de coisas como “o universo está em expansão” mas ignoram fatos como “o universo está se expandindo naturalmente.” Eles conhecem certas verdades, mas não sabem se são verdades naturais ou verdades sobrenaturais.

A situação naturalista, conforme vista por um naturalista esclarecido, é mais merecedora de tristeza e lamentação do que de censura. Se o naturalismo é a cosmovisão verdadeira, e uma “Idade das Trevas” significa uma época em que a vasta maioria dos filósofos (e cientistas) não conhecem a cosmovisão verdadeira, então somos obrigados a reconhecer que estamos vivendo numa Idade das Trevas. Uma vez que devemos estar bem informados e esclarecidos em vez de ignorantes e alienados, e uma vez que nos é possível estar mais bem informados e esclarecidos, segue-se que devemos tentar dar um fim à Idade das Trevas vigente. Mas exatamente o que devemos fazer para “tornarmo-nos mais esclarecidos nos aspectos relevantes”? Segundo o naturalista esclarecido, existem quatro coisas que devemos fazer.

NOTAS:

4. Wes Morriston argumenta plausivelmente em “Omnipotence and the Anselmian God,” Philo vol. 4, no. 1, (Primavera-Verão de 2001): 7–20, que Deus não é onipotente e portanto não possui este oniatributo. Acredito que o mesmo valha para outros oniatributos; por exemplo, Deus não é onisciente uma vez que Deus não conhece a proposição verdadeira irredutivelmente dêitica, Eu sou Quentin Smith. Uma definição melhor de Deus na tradição da teologia do ser perfeito é que Deus possui o grau mais elevado das propriedades engrandecedoras relevantes que as habilita serem conjuntamente possuídas pelo maior ser possível. Ainda assim, parece-me que existe um argumento lógico do mal sólido posterior a Mackie e a Plantinga; vejam “Um Argumento Lógico do Mal Sólido“, em meu livro Ethical and Religious Thought in Analytic Philosophy of Language (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1997). Um resenhitas deste livro disse que não era capaz de ver a diferença entre o meu argumento e o de Mackie. A diferença está explicada na página 156, onde também se explica porque o argumento de Mackie não é sólido.

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