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por Hector Avalos

Crítica Literária

Em sua relação com os estudos bíblicos, a crítica literária é a disciplina dedicada a elucidar as realizações literárias dos autores bíblicos. Para nossos propósitos, usamos a crítica literária para descrever um conjunto de abordagens unificado pela ideia de que os textos bíblicos são construídos artisticamente e possuem méritos artísticos. Como David J. A. Clines e J. Cheryl Exum, dois de seus mais influentes profissionais em atuação, observam em seu próprio levantamento da crítica literária, “sua ocupação principal é o texto como um objeto, um produto, não como uma janela para a realidade histórica.”[61] Tal descrição reflete o que é chamado “Nova Crítica” nos estudos literários seculares mais abrangentes. A Nova Crítica debruça-se sobre uma obra de arte como um objeto autônomo cuja beleza não depende de seu contexto histórico. Uma pintura de Rembrandt conserva sua beleza não importa quais forças históricas a tenham acarretado.[62]

Não é necessário escavar muito fundo para descobrir os motivos para a análise literária da Bíblia entre virtuoses como Robert Alter, Meir Sternberg e Frank Kermode.[63] Na verdade, o objetivo apologético algumas vezes é nítido, como no caso do comentário de Robert alter sobre a abordagem da Bíblia pelos leitores antigos e modernos:

A tradição religiosa subsequente tem acima de qualquer coisa nos encorajado a considerar a Bíblia seriamente em vez de aprecia-la, mas a verdade paradoxal sobre o assunto pode muito bem ser que ao aprender a apreciar as narrativas bíblicas mais apropriadamente como ficção, também venhamos a divisar com mais clareza o que elas tencionam nos dizer sobre Deus, o homem e o domínio perigosamente significativo da história.[64]

A crítica literária da Bíblia atravessa uma crise que aflige cronicamente toda a literatura. Por um lado, as antigas justificações para estudar literatura não mais parecem auto-evidentes. Por exemplo, não é claro que a literatura incremente a “disciplina mental”, uma justificativa usada no célebre Yale Report, que buscava desesperadamente justificar a exigência do estudo dos clássicos numa universidade contemporânea.[65]

A questão do cânone tornou-se muito mais polarizada, com outras vozes clamando por serem incluídas no cânone.[66] De qualquer maneira, justificar os estudos literários da Bíblia levanta uma série especial de problemas. Primeiro, os especialistas bíblicos fracassaram em apresentar uma justificativa coerente para considerar a literatura bíblica superior à de várias outras culturas. Quando lhes perguntam o que distingue a Bíblia de Shakespeare, Phyllis Trible, uma apologista feminista da Bíblia e presidente da Sociedade de Literatura Bíblica em 1994, poderia responder apenas que “Eu me pergunto a mesma coisa, e se eu tivesse uma resposta clara eu te diria.[67]

Segundo, a Bíblia tem sido estudada há muito mais tempo do que qualquer outro texto. Então por que investir qualquer minuto a mais neste texto quando ainda há vários outros por serem estudados? Se a Bíblia é privilegiada devido a suas pretensas lições morais, então por que não permitir que os vários textos antigos ainda desconhecidos pelo mundo contemporâneo também possam conter lições valiosas? Do mesmo modo, o mérito estético pode ser encontrado em vários textos antigos, e portanto a Bíblia também não pode ser privilegiada por esta razão.

Terceiro, a questão da relevância é particularmente delicada no que tange a textos antigos como a Bíblia. De que modo saber qualquer coisa sobre personagens bíblicos ou estruturas poéticas bíblicas nos ajuda a nos tornarmos pessoas melhores ou a resolver quaisquer problemas práticos no mundo atual? Esta é a razão pela qual a noção de que a Bíblia deve ser estudada por seu “valor intrínseco” também fracassa como outra característica indefinível e desprovida de sentido cujo única finalidade é manter o privilégio desse texto.[68]

Mas digamos que a literatura seja um componente vantajoso de nossa experiência humana, que deveria ser celebrado junto com as humanidades.[69] O problema é que tal justificativa negligencia como a Bíblia também tem sido deletéria para os seres humanos. Para cada página de Hamlet que podemos apreciar inocentemente há uma passagem da Bíblia que prontifica alguém a matar outro ser humano. Não se pode dizer isso de Hamlet. A diferença no efeito deletério também é um argumento importante para por um fim ao status privilegiado desfrutado pela Bíblia em qualquer cânone moderno.

Por fim, basta dizer que a beleza literária é subjetiva; pode-se defender que vários textos bíblicos são realmente feios; a Bíblia fracassa em satisfazer os padrões estéticos estabelecidos pelos próprios acadêmicos; outros textos também poderiam igualar ou exceder a Bíblia quando o mesmo critério de beleza é aplicado; a ética pode ser invocada para julgar alguns textos bíblicos como esteticamente defeituosos. Resumindo, a ênfase corrente sobre a estética e a análise literária torna-se simplesmente outro dispositivo apologético para manter o valor da Bíblia na sociedade contemporânea.[70]

Teologia Bíblica

Como outras disciplinas dentro dos estudos bíblicos, a teologia bíblica possui uma história complexa e controvertida.[71] Krister Stendahl, o ex-reitor da Harvard Divinity School, num artigo bastante citado do The Interpreter’s Dictionary of the Bible, afirma que os estudiosos deveriam distinguir entre “o que significou e o que significa”.[72] O pano de fundo de tal afirmação foi a conclusão de Stendahl de que a Bíblia é tão estranha à nossa cultura que somente a reinterpretação poderia mante-la viva. Jon Levenson também defende a legitimidade da “recontextualização” e da “reapropriação”, que afirma que um texto pode e deveria significar seja lá o que for que uma comunidade religiosa precise que ele signifique para se manter viva. Para Levenson, a recontextualização é legítima mesmo quando contradiz o que um autor pretendeu dizer a princípio. E tanto Levenson como Stendahl defendem que como as comunidades religiosas aplicam outros sentidos à Bíblia, é-lhes legítimo adotar este procedimento. Esta justificação pode ser expressa mais esquemeticamente como “As pessoas fazem X = As pessoas devem ser autorizadas a fazer X”.

Mas sob uma inspeção mais rigorosa, o próprio programa de reapropriação de Levenson traz consigo as sementes da destruição dos estudos bíblicos. Quando consideramos o sentido de um texto bíblico para as comunidades religiosas, duas posturas podem ser identificadas entre aqueles que acreditam que existe tal coisa como a intenção autoral:

A: A intenção autoral é a única coisa que importa

B: A intenção autoral não é a única coisa que importa

Se alguém escolhe A, então os estudos bíblicos são um fracasso monumental. Muitas vezes não dispomos de informações suficientes para determinar o que um autor quis dizer, mesmo se acreditamos que a intenção autoral importa e deveria ser o principal objetivo da interpretação. Se alguém escolhe B, então o único resultado é o caos e o relativismo que torna os estudos bíblicos acadêmicos irrelevantes e supérfluos. As comunidades religiosas não precisam de especialistas acadêmicos para esclarecê-los sobre qualquer contexto original a fim de manter a Bíblia viva para eles próprios. Assim sendo, qual é a finalidade dos estudos bíblicos acadêmicos neste caso? A resposta é que não há nenhuma finalidade, exceto talvez conservar os empregos e o status dos especialistas bíblicos.

De qualquer maneira, geralmente não é o caso que uma comunidade religiosa contemporânea reconheça que o Texto A possui um sentido original B, mas que o sentido B será desconsiderado ou contradito de modo que o Texto A possa assumir o sentido contemporâneo C, mas não porque é recontextualizado. Para eles, B = C. Os especialistas podem chamar esse procedimento de “recontextualização” porque concluíram em bases empírico-racionalistas que o sentido atribuído ao texto pelas comunidades religiosas atuais não corresponde ao original, mesmo quando as comunidades religiosas podem estar afirmando não uma reinterpretação, mas em vez disso uma continuidade na interpretação.

Mas tão logo o sentido contemporâneo é igualado ao original, não se trata de especialistas permitindo “outro sentido” mas antes um caso em que o racionalismo empírico entra em cena. Como tal, um especialista bíblico secular está perfeitamente correto ao concluir que uma comunidade atual está afirmando falsamente que “sentido contemporâneo = sentido original pretendido pelo autor”. Os seguidores do método histórico-crítico não seriam  mais monopolistas ou fundamentalistas neste caso do que se estivessem corrigindo alguém que afirmasse que 1=3.

Mesmo sob a hipótese de que a intenção autoral é irrelevante ou indeterminada, a posição de Levenson também conduziria ao argumento de que os estudos bíblicos deveriam terminar.[73] As consequências da posição de Levenson não diferem em nada de expulsar completamente esse texto antigo da vida contemporânea. Se o Texto A pode significar tanto B como não-B, então como não-B seria diferente de considerar o sentido B irrelevante para a vida contemporânea? Ainda mais importante, por que estamos despendendo quaisquer energias na determinação da história ou do sentido original?

John J. Collins, o presidente da Sociedade de Literatura Bíblica em 2002, certa vez observou: “A Bíblia foi escrita há muito tempo atrás e em outra cultura, vastamente diferente de nossa própria cultura.[74] No fim, os apelos de Levenson pela legitimidade da recontextualização apenas expõem o fato de que a Bíblia é tão estranha à vida contemporânea que só pode sobreviver se as pessoas fingirem que ela é algo diferente do que realmente é. O fato de que as pessoas se reapropriam das escrituras não é um argumento para que lhes seja permitido dar continuidade a este procedimento. Levenson nunca responde por que, afinal, deveríamos nos preocupar em nos reapropriar de tais textos considerando-se que existem inúmeros outros textos cujas vozes permanecem silenciosas e silenciadas pelos acadêmicos que poderiam muito bem ressuscita-los.

Apesar das alegações de rigor acadêmico e autocrítica crescente, todas as teologias bíblicas possuem uma coisa em comum: a bibliolatria. Elas podem não concordar sobre qual é o conceito central da Bíblia ou quantos conceitos há, mas todos concordam que a Bíblia é suficientemente valiosa para que seus conceitos sejam exaustivamente analisados com o objetivo de auxiliar os leitores. Nunca vemos uma teologia bíblica ou veterotestamentária dedicada a desprivilegiar o texto bíblico e em ajudar os seres humanos a superar suas seções antiquadas e degradantes.  Em vez disso, os teólogos bíblicos não poupam esforços para resgatar a Bíblia dela própria, enquanto alimentam a ilusão de que a teologia bíblica teria qualquer importância. Se isto é o melhor que a teologia bíblica tem a oferecer, então ela merece chegar ao mais ignominioso fim.[75]

Notas.

61. J. Cheryl Exum e David J. A. Clines, eds., The New Literary Criticism and the Hebrew Bible (Valley Forge, PA: Trinity Press International, 1993), 11.

62. Veja Edgar V. McKnight e Elizabeth Struthers Malbon, eds., The New Literary Criticism and the New Testament (Valley Forge, PA: Trinity Press International, 1994). Veja também Frank Lentricchia, After the New Criticism (Chicago: University of Chicago Press, 1981).

63. Robert Alter e Frank Kermode, eds., The Literary Guide to the Bible (Cambridge: Harvard University Press, 1987); Robert Alter, The Art of Biblical Narrative (New York: Basic, 1981) e The Art of Biblical Poetry (New York: Basic, 1985); Meir Sternberg, The Poetics of Biblical Narrative: Ideological Literature and the Drama of Reading (Bloomington: Indiana University Press, 1987).

64. Alter, The Art of Biblical Narrative, 189.

65. Para o Yale Report, veja Richard Hofstadter e Wilson Smith, American Higher Education: A Documentary History, 2 vols. (Chicago: University of Chicago Press, 1961), 1:289.

66. Para uma defesa de nosso “canône ocidental”, veja Harold Bloom, The Western Canon: The Books and Schoolfor the Ages (New York: Harcourt Brace, 1994); e Christian Kopff, The Devil Knows Latin: Why America Needs the Classical Tradition (Wilmington, DE: ISI Books, 1999).

67. Vejam a entrevista de Hershel Shanks com Phyllis Trible, “Wrestling with Scripture,” Biblical Archaeology Review 32, no. 2 (March/April 2006): 49.

68. Para um exemplo impressivo, veja Avalos, “Yahweh Is a Moral Monster,” in The Christian Delusion, 209–36.

69. Veja Peter Lamarque e Stein Haugom Olsen, Truth, Fiction, and Literature: A Philosophical Perspective (Oxford: Clarendon, 2002).

70. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 219–48 (e veja 289–342 para uma demonstração da inércia institucional e dos sórdidos interesses comerciais que também sustentam os estudos bíblicos).

71. Para levantamentos históricos básicos, veja John H. Hayes e Frederick C. Prussner, Old Testament Theology: Its History and Development (Atlanta: John Knox, 1985). Igualmente útil é Robert B. Laurin, ed., Contemporary Old Testament Theologians (Valley Forge, PA: Judson, 1970).

72. Krister Stendahl, “Biblical Theology, Contemporary,” in The Interpreter’s Dictionary of the Bible, ed. George A. Buttrick, et al. (Nashville: Abingdon, 1962), 1:420. Compare o ponto de vista de Stendahl com o de E. D. Hirsch, Validity in Interpretation (New Haven, CT: Yale University Press, 1967), 8: “Significado é o que é representado por um texto; é o que o autor pretendeu dizer ao utilizar uma sequência particular de signos. Significância, por outro lado, designa uma relação entre o significado e uma pessoa….”

73. Para as questões históricas e filosóficas envolvendo o coneito de “autoria” e intencionalidade autoral, veja Jed Wyrick, The Ascension of Authorship: Attribution and Canon Formation in Jewish, Hellenistic, and Christian Traditions (Cambridge, MA: Harvard University Department of Comparative Literature, 2004); Jeff Mitscherling, Tanya DiTommaso, and Aref Nayed, The Author’s Intention (Lanham, MD: Lexington, 2004).

74. John J. Collins, Encounters with Biblical Theology (Minneapolis: Fortress, 2005), 7.

75. Para demonstrações e discussões adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 249–88.

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