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Posts Tagged ‘teologia mística’

Autores: Eric Voegelin, Herbert McCabe e Tomás de Aquino

Fonte: Journal of the American Academy Of Religion, vol. 53 Nº 4, Congresso Comemorativo do 75º Aniversário da American Academy of Religion (Dezembro de 1985), pp. 569-584.

Dedicatória:

Este é o último ensaio produzido por Eric Voegelin, e jamais teria sido publicado se não fosse pela compreensão e devoção de Paul Caringella, a quem o ensaio foi ditado com uma voz quase inaudível em circunstâncias as mais pesarosas. Meu marido pretendia agradecê-lo por este gesto dedicando-lhe o ensaio; infelizmente o destino e a morte atravessaram seu caminho e impediram-no de realizar o que ele tanto gostaria. Porém, conhecendo seu coração e seu espírito como eu conheci, posso falar por ele agora e agradecer nosso amigo Paul pelo amor que sempre nos dispensou desde que o conhecemos.

Lissy Voegelin

Prefácio do Editor:

O Professor Voegelin nasceu na Alemanha e foi educado na Áustria, doutorando-se em Ciência Política pela Universidade de Viena em 1922, aos 21 anos de idade. Por dois anos, ele desfrutou de uma Bolsa Rockefeller nos Estados Unidos, tendo estudado com John Dewey em Columbia, Alfred North Whitehead em Harvard e John R. Commons em Winscosin. Em 1938, após ser destituído de sua posição na Universidade de Viena pelos nazistas, ele retornou aos EUA e lecionou em Harvard, no Bennington College e na Universidade do Alabama por breves períodos antes de estabelecer-se por dezesseis anos extremamente produtivos na Universidade Estadual da Louisiana. Em 1958, ele voltou para a Alemanha, onde fundou o Instituto de Ciência Política e lecionou na Universidade de Munique até 1969. De 1969 até sua morte ele foi Professor Pesquisador no Instituto Hoover da Stanford University.

Quando convidei o professor Voegelin a proferir uma palestra no Congresso do 75º Aniversário da Academia Americana de Religião, ele aceitou com relutância e hesitação devido ao estado precário de sua saúde. E quando tornou-se evidente que ele não poderia participar do Congresso, implorei a ele que preparasse o texto de sua palestra para publicação. Sua esposa Lissy e seu amigo e assistente Paul Caringella disseram-me que, fiel a seu caráter de férrea resolução, ele saiu do hospital para (1) morrer em casa e (2) terminar seu último trabalho. À semelhança de Platão, tanto o primeiro como o último trabalho de Eric Voegelin foram exercícios de ascensão da alma em direção a Deus.

Sobre estas páginas, Caringella escreveu:

Eric Voegelin começou a ditar ‘Quod Deus Dicitur‘ em 2 de janeiro de 1985, véspera de seu aniversário de 84 anos. Ele revisou as últimas páginas em 16 de janeiro; revisões adicionais foram feitas em 17 de janeiro e na tarde de 18 de janeiro, seu último dia inteiro antes de sua morte às oito da manhã de sábado, 19 de janeiro.

Quando o ditado chegou à oração de Anselmo, Voegelin inseriu provisoriamente, com pequenos ajustes, trechos pertinentes de um manuscrito anterior. Analogamente, ele adaptou para o começo da seção 5 um parágrafo de sua “Resposta ao Professor Altizer” (JAAR 43: 1975, p. 770f.). Sua discussão da Teogonia de Hesíodo e do Timeu de Platão nas últimas páginas e a conclusão planejada baseiam-se no tratamento analítico completo presente nas últimas 30 e poucas páginas do interminado quinto e último volume de sua obra Ordem e História.

Voegelin falou em ditar mais três ou quatro páginas (que geralmente equivaliam a sete ou oito páginas manuscritas) para concluir adequadamente o artigo. Incluí os cinco textos que ele pretendia comentar e que apontam a direção que ele desejava tomar.

No final do ensaio, o material entre colchetes contém as notas de Paul Caringella sobre a direção que Voegelin desejava imprimir ao comentário sobre cada um dos cinco textos.

À dedicatória da Sra. Voegelin eu desejo acrescentar minha profunda gratidão pela ajuda prestada por Paul Caringella em fazer publicar as últimas palavras de Voegelin. Expresso igualmente meus mais sinceros agradecimentos pela assistência de Gregor Sebba, Professor Emérito da Emory University, o qual, a propósito, também faleceu logo após revisar este manuscrito. Ele e sua eminente esposa tradutora, Helen Sebba, foram amigos afetuosos e de longa data do casal Voegelin.

——–Ray L. Hart

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A questão levantada pelo título deste ensaio recebeu sua forma específica pelas mãos de Tomás de Aquino em sua Summa Theologiae, I.2.3.

Esta questão não permite uma resposta simples, como seria o caso se seu objeto divino fosse uma entidade a respeito de cujas propriedades fosse possível apresentar proposições análogas às que aplicamos às coisas do mundo exterior. Não encaramos Deus como uma coisa, mas como o consorte numa busca investigativa que se move no interior de uma realidade formada pela linguagem participatória. Além disso, nós próprios somos parte da realidade investigada, a qual expressamos linguisticamente como se fosse um objeto externo do qual poderíamos falar como se fôssemos sujeitos cognitivos diante de objetos de cognição. A própria busca noética pela estrutura de uma realidade que inclui a divindade é um evento no interior da realidade que estamos investigando. Portanto, em qualquer momento do processo, somos confrontados pelo problema de uma investigação a respeito de algo experienciado como real antes que a investigação sobre a estrutura de sua realidade tenha começado. O processo de nosso intellectus em busca de nossa fides, um processo que também pode ser formulado como nossa fides em busca de nosso intellectus, é um evento primário.

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O evento da busca é um processo histórico. O mundo dos símbolos simbolizando compactamente a realidade em qualquer ponto histórico determinado precisa submeter-se à pressão da análise noética. Sob a pressão desta análise, a simbolização do fundamento da realidade na forma de “deuses” sucumbe e é substituída por novos símbolos simbolizando o “Deus” cuja presença além e acima dos deuses confere-lhe o título de ser necessário.

Os dois grandes contextos civilizacionais na história ocidental representativos da estrutura da busca são (a) a emergência do “Deus” a partir do simbolismo politeísta na cultura helênica e (b) a emergência do “Deus” a partir da tensão entre a teologia mística e a teologia doutrinária nas sociedades cristãs desde a Antiguidade.

As complicações linguísticas que emergem da estrutura paradoxal do processo nunca foram analisadas noeticamente a contento. A linguagem do discurso supostamente analítico sobre as questões da divindade estabilizou-se, por consenso cultural, num grau de compactação que não distingue suficientemente entre, por um lado, a estrutura paradoxal do encontro entre o humano e o divino na busca e, por outro lado, os símbolos que surgem na reflexão sobre a expressão culturalmente concreta da busca. Este estado insatisfatório da análise faz com que o debate seja conduzido nos termos das bem conhecidas dicotomias reflexivas do discurso teológico. Os símbolos dominando a linguagem reflexiva na fronteira entre a compactação e a diferenciação podem ser sumarizados na seguinte lista:

  1. Filosofia e Religião
  2. Filosofia e Teologia
  3. Teologia Natural e Teologia Revelatória
  4. Fé e Razão
  5. Razão e Revelação
  6. Ciência e Religião
  7. Teologia Natural e Teologia Sobrenatural

Cada uma destas dicotomias enseja uma ocasião para debates indefinidos no nível compacto, sem nunca penetrar na estrutura de pensamento fundamentalmente paradoxal que é peculiar à relação participatória entre o processo de pensamento e a realidade na qual este processo se desdobra.

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No artigo da Summa sobre a questão da existência de Deus ao qual o título deste ensaio alude, Tomás alcançou um certo grau de clareza sobre sua estrutura paradoxal. A questão a respeito de quod Deus dicitur não é levantada arbitrariamente, mas pressupõe um artigo de fé escritural. Este artigo é a fórmula do ego sum qui sum de Êxodo 3:14. Se já não houvesse nenhum símbolo de fé existindo historicamente, não haveria nenhuma questão. Este artigo de fé integra o procedimento do questionamento noético relativo a seu significado. O “problema de Deus” não pode ser tornado inteligível a menos que o problema de Deus seja parte da realidade a ser explorada. O símbolo do ego sum divino é parte da consciência exploratória que aborda o símbolo da fé como a resposta a uma investigação que emerge a partir de experiências particulares da realidade. Pois o ego sum das Escrituras simboliza o polo necessário de uma realidade que em sua particularidade fenomênica é experienciada somente como contingente. A tensão experienciada entre a contingência e a necessidade é a estrutura da realidade que está em jogo na questão da divindade.

Esta estrutura é então perseguida por Tomás nas cinco bem conhecidas experiências de realidade contingente. Na primeira das tensões experienciadas, a realidade está em movimento e o movimento requer um motor. Neste nível particular pode-se avançar somente de um movimento particular para seu motor particular e o procedimento continuaria indefinidamente sem chegar a uma explicação para o fenômeno do movimento. Para alcançar a inteligibilidade, o processo do movimento particular demanda um primeiro motor (primum movens). E neste processo noético de análise, Tomás identifica o primeiro motor como a coisa (hoc) que “omnes intelligunt Deum“, como a coisa, a hoc, que todos entendem ser Deus. O Deus desta proposição é a solução para o problema da estrutura da questão noética.

Em seguida, o mesmo tipo de argumento é aplicado à causa efficiens. Numa série de causas eficientes, também não faz sentido prosseguir indefinidamente; chega-se ao sentido somente pelo simbolismo de uma causa primeira incausada; e aqui Tomás mais uma vez enuncia ser esta primeira causa “quam omnes Deum nominant”, a causa que todos denominam Deus. O mesmo procedimento simbolizante aplica-se às outras assim chamadas provas para a existência de Deus: A causa necessária de todas as outras coisas é “quod omnes dicunt Deum“; e quando a causa última da bondade e da perfeição em todas as coisas precisa ser simbolizada, mais uma vez “hoc dicimus Deum”. Finalmente, o procedimento é aplicado à finalidade de toda a realidade: Há algo inteligivelmente inteligente (intelligens) pelo qual todas as coisas naturais são ordenadas para um fim, e esse inteligivelmente inteligente (intelligens) é o hoc que “dicimus Deum”. Não há outra divindade além da necessidade em tensão com a contingência experienciada na questão noética.

(Continua…)

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