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Posts Tagged ‘Teologia Natural’

por Jaco Gericke

Assim como não é possível argumentar a favor da existência de Zeus através de especulações filosóficas sofisticadas, igualmente não se pode faze-lo em relação a Deus, também conhecido como Javé. Todavia, filósofos da religião cristãos que não mais acreditam em Javé conforme retratado no Antigo Testamento ainda são capazes de se apresentarem como crentes em “Deus”, uma versão atualizada da antiga divindade tribal multifacetada. Eles projetam as mais recentes metáforas tecnomórficas sobre a realidade; e lançando mão de um jargão sofisticado e uma abordagem genérica conferem às suas idéias um aspecto intimidador e quase respeitável. Mas o fato é que a filosofia da religião cristã por inteiro, seja ela filosofia analítica fundamentalista ou a mais pós-moderna versão da a/teologia continental, não passa de mitologia reconstrutiva. Tal discurso parece funcionar porque as pessoas se esquecem que Deus costumava ser Javé. Elas podem igualmemente tentar reabilitar qualquer antigo deus tribal, abrigando-o sob o guarda-chuva universal atualmente abraangido pelo conceito de divindade. Assim, qualquer filosofia da religião que presuma que o deus sobre o qual discorre seja em qualquer sentido basicamente a mesma realidade divina sobre a qual se fala no Antigo Testamento encontra-se em sérios apuros.

Em primeiro lugar, as concepções de Javé mantidas pela maioria dos filósofos da religião cristãos tendem a ser radicalmente anacrônicas e correspondem mais ao proverbial “Deus dos Filósofos” (Tomás de Aquino em particular) do que a qualquer versão de Javé representada na antiga religião israelita. Isto significa que nem mesmo os próprios filósofos cristãos acreditam nas concepções “bíblicas” pré-filosóficas de Javé, a crença em quem supõe-se ser apropriadamente básica. Suas noções sublimes de Deus em termos de “Simplicidade Divina”, “Grandeza Máxima”, e “Teologia do Ser Perfeito” são completamente alheias a várias caracterizações de Javé na narrativa bíblica (por exemplo, Gen. 18). Isto quer dizer que debates sobre o poder e o conhecimento de Deus e sua relação com o mal (etc.), sejam lá quais forem seus méritos lógicos, convenientemente ignoram o fato de que existem vários textos bíblicos que os contradizem (e que exibem representações da divindade em que os filósofos cristãos não acreditam).

O problema do mal é um pseudo-problema em vários textos do Antigo Testamento, em que Javé não era nem onipotente nem onibenevolente. Além disso, a capacidade de fazer o mal no sentido de ser destrutivo era de fato uma propriedade enaltecedora no teísmo antigo. Javé é poderoso exatamente porque ele pode fazer o mal quando deseja, seja ele natural, moral ou metafísico (veja Exod. 4:11; Lam. 3:38; Isa. 45:7; Amós 3:6; Ecles. 7:13–14; etc.). Os crentes de antigamente não eram tão mimados como os de hoje que acreditam que um deus tem que ser perfeitamente bom (leia-se “com uma interface amigável para o usuário”) para ser digno de adoração. O que tornava um deus divino era seu grande poder (o que não é o mesmo que onipotência), não sua prestação de serviços focada no cliente, seus valores familiares ou sua consideração pelos direitos humanos.

O segundo problema resulta do primeiro: que tipo de Deus é esse em quem a crença é garantida de acordo com a filosofia da religião cristã? É inútil dizer  que a crença em Deus é justificada a menos que se possa especificar quais são os supostos conteúdos das crenças acerca de Deus (e quem é este deus em quem alguém acredita basicamente). Mas esta filosofia da religião cristã é irremediavelmente solapada por seu fracasso em reconhecer o fato de que está cometendo a falácia do essencialismo. Esta falácia perpassa os problemas filosóficos colocados pelo pluralismo teológico no Antigo Testamento e as mudanças diacrônicas (leia-se: “revisões”) nas crenças acerca de Javé na história da religião israelita. Em diversos pontos de confluência em seus argumentos a filosofia da religião cristã parece beatificamente ignorante de que não existe tal coisa como a perspectiva “bíblica” sobre Deus. De modo que se é no Deus “bíblico” em quem supostamente se deve acreditar, a maioria dos teólogos do Antigo Testamento gostaria de saber “em qual de suas versões?” (ou, “em qual de suas interpretações?”).

Um terceiro problema concerne a uma outra maneira ainda em que a filosofia da religião cristã fracassa em aplicar as formas de verificação próprias do Antigo Testamento. Colocando de lado a possibilidade do pluralismo, que pode erguer sua carranca medonha mais uma vez (por exemplo, nas incomensuráveis teologias religiosas de Daniel e do Eclesiastes), o fato é que é errado assumir que o Antigo Testamento não é evidencialista. Ao contrário, existem razões significativas para acreditar que um tipo primitivo de evidencialismo seria de fato a epistemologia padrão presumida na antiga religião israelita dada a natureza de várias hipóteses pre-filosóficas nas narrativas bíblicas. De modo que pode-se dizer que toda a questão dos “milagres” (sinais) e revelações através de teofanias, audição de vozes, sonhos, adivinhações e histórias pressupõe um evidencialismo (veja a reiterada fórmula “de modo que eles possam saber…”). Os filósofos da religião irão negar que seja possível constatar a existência de Deus neste sentido empírico, e não obstante, de acordo com o Antigo Testamento, o próprio Javé admitiu esta possibilidade.

Afinal, de todas as epistemologias religiosas concebíveis, é difícil imaginar que o profeta Elias, na narrativa em que enfrenta os profetas de Baal no Monte Carmelo, estivesse endossando qualquer coisa remotamente similar às alegações da filosofia da religião cristã de que não é necessário provar nada empiricamente (veja 1 Reis 18). Se isso não é um exemplo de evidencialismo no Antigo Testamento, então o que seria? Os cristãos podem ter suas próprias razões para explicar porque estas coisas não mais acontecem e pelas quais nenhum filósofo da religião consentirá em participar de uma competição no Monte Carmelo. Mas o fato é que os filósofos da religião cristãos, sejam eles fundamentalistas e analíticos ou pós-modernos e continentais, todos adoram a racionalização dogmática mais do que a epistemologia bíblica. Mais uma vez, isto mostra que nem mesmo os filósofos da religião cristãos acreditam realmente em Javé. Eles também são ateus em relação à divindade bíblica.

A partir disso vemos por que a crença em Javé é para ambos ateus e cristãos tão impossível quando a crença em Zeus. Pode-se muito bem sugerir “apenas acredite na Bíblia!” ou em qualquer outro deus antigo. Mas poucos filósofos cristãos alguma vez se perguntaram por que é o caso que o principal desejo de um deus é que suas criaturas concordem que ele exista, dentre todas as coisas com as quais alguém poderia, em tese, se preocupar – e ainda assim fazer tão pouco para torna-la possível. Que um deus precise se ocultar e que a fé seja necessária para tornar um relacionamento possível é simplesmente uma ridícula noção não-bíblica. Moisés alegadamente tanto viu como acreditou em Javé, e eles mantiveram um relacionamento exemplar (para os padrões bíblicos). Assim, qual é o problema com a intimidade cara a cara numa base diária com cada ser humano, numa época em que o ateísmo é mais popular do que nunca? Como Voltaire disse antes de Nietzsche, a única desculpa aceitável para Deus é não existir.

Em outras palavras, foi a consciência histórica que levou os crentes a reinterpretar as crenças bíblicas para conferir-lhes um aspecto respeitável e que leva os ateus contemporâneos a ver por que ninguém pode acreditar em Javé mais do que eles acreditam em Zeus. Simplesmente não podemos imaginar que a realidade seja uma estrutura planejada em que uma entidade demasiado humana, embora superior, detém todo o poder, em que “a força diz o que é certo” – Deus pode fazer o que ele deseja porque ele é Deus, exatamente a mesma imoralidade que os religiosos imputam aos ateus – em que o sentido de sua existência é criar seres débeis, frágeis e mortais para servi-lo e dizer-lhe o quão maravilhoso ele é por toda a eternidade. A devoção religiosa é,  pura e simplesmente, a subserviência bajulatória ao poder. De qualquer maneira, não é o caso que sejamos rebeldes e não queiramos a priori acreditar em um deus; ocorre simplesmente que o conceito inteiro da realidade divina conforme construído pelos humanos no sentido bíblico é tão absurdo e tão obviamente uma projeção de humanos sinceramente iludidos que concebiam o funcionamento do cosmos análogo ao de uma sociedade humana antiga, que não seríamos capazes de realmente acreditar nem mesmo se tentássemos!

Esta é a razão pela qual a teologia e a filosofia da religião e os argumentos para a existência de Deus tornaram-se necessários – para ocultar o absurdo e conferir-lhe uma aparência convicente. Mas desde quando a realidade precisa convencer qualquer um? Se o mundo fosse realmente daquela maneira, seria tão desnecessário argumentar por sua facticidade quanto o é argumentar pela existência do mundo biológico. O apelo ao mau funcionamento epistemológico nos descrentes é tão pouco convincente quanto dizer que a razão pela qual achamos difícil acreditar em Zeus é nossa falta de intuição espiritual.

Após dois mil anos o sistema cristão cobriu quase tudo, e alguns crentes acreditam piamente que a apologética oferece respostas para tudo. Para perceber como o truque foi feito – para ver o revestimento metálico do espelho e as cordas das marionetes – basta permitir que a filosofia da religião cristã seja julgada pela história da religião israelita. O melhor argumento contra qualquer dogma cristão contemporâneo é sua própria história remontando à e se originando da própria Bíblia. As reinterpretações dos próprios cristãos nos mostram que mesmo o “crente” mais fundamentalista é realmente um ateu quando se trata de Javé, e o mais “bíblico” dos crentes não é tão bíblico quanto pensa. No fim a teologia cristã foi posta abaixo pela ética cristã; a crença foi destruída por sua própria moralidade, que exige a busca da verdade.

Angustiado estará o crente quando no fim vier a perceber que precisa escolher entre Deus e a verdade. É o tipo de experiência de “choque com a realidade” associada a filmes como Matrix ou O Show de Truman. Mas você precisa ver com seus próprios olhos para perceber como isso foi a sinuca perfeita, a dupla lealdade definitiva para qualquer pessoa crescendo numa cultura religiosa contemporânea. Infelizmente, como os próprios célebres personagens bíblicos, os crentes de hoje em dia não desperdiçam seu tempo estudando seriamente a Bíblia. Os livros mais populares sobre o Antigo Testamento são tira-gostos espirituais, guloseimas para o cérebro, se você desejar. E quando confrontados com a questão de por que os ateus se importam com a Bíblia se eles não acreditam nela, bem, talvez seja pela mesma razão que os cristãos se preocupam com os pagãos: porque as pessoas se preocupam com que outras pessoas acreditam ser a verdade e sobre o fato de que existem tantas pessoas bem-intencionadas inconscientemente propensas a iludirem tanto a si próprias como ao resto da humanidade.

Conclusão

Em certo sentido, a entidade chamada “Deus” é como um troll da Internet criado num fórum aberto ao público – uma vez que você se torna ciente do agente por trás do personagem, tal conhecimento muda tudo sobre se podemos ou não fazer com que acreditemos que “ele” existe. Não há realmente nada para refutar, e não precisamos mostrar que algum deus, seja lá qual for sua descrição, não existe. Tudo o que precisamos fazer é mostrar que as descrições de Javé não possuem nenhuma contraparte fora das fábulas bíblicas. Pois se Javé conforme retratado não é real, como poderia “Javé” em si não obstante existir? Se o deus do Antigo Testamento – que é o Deus de Jesus – não existe, como poderia o Deus do Novo Testamento ainda assim existir? E se o Deus do Novo Testamento não é real, não é este o fim das pretensões do Cristianismo à realidade?

Portanto, não é necessário nos sentirmos intimidados pelos filósofos da religião cristãos que precisam recalcar o fato de que seus sofisticados argumentos sobre um Deus supostamente respeitável ignoram a história da religião israelita. A própria biografia do deus é-lhes um constrangimento colossal. Eles próprios não mais acreditam em Javé, e hoje em dia “Deus” não passa de um ídolo idealizado, criado à imagem e semelhança das mais recentes metáforas tecnológicas projetadas sobre o cosmos. Como Javé nunca foi um deus vivo, “Deus” está, de fato, morto.

No fim, então, parece que a história da religião israelita possui um senso de ironia. O mesmo povo antigo e moderno que tão impiedosamente ridicularizou os pagãos por seus mitos e superstições fracassou em reconhecer em si próprio as mesmas predisposições supersticiosas. Os mesmos crentes que deploram os produtos da imaginação humana não são capazes de enxergar que um deus criado como um personagem numa história escrita não é menos um ídolo do que os silenciosos deuses esculpidos em pedra ou madeira.

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por Jaco Gericke, PhD

A maioria dos religiosos pode conceber “Deus” como um ser incorpóreo e espiritual. Mas se isto realmente é o caso, eles não acreditam em Javé conforme retratado em diversos textos bíblicos. De fato muitos não acreditam e não apreciam a verdade expressa na piada popular sugerindo que, no princípio, Deus criou o homem à sua própria imagem e esse homem, em resposta, prontamente retribuiu o favor. A este respeito, os teólogos, tantos os bíblicos como os sistemáticos, tem debatido interminavelmente as possibilidades semânticas de passagens como Genesis 1:26-27 que falam do homem sendo criado “à imagem de Deus”. Eles tem insistido que não é possível que o sentido óbvio e literal destas palavras – que acreditava-se que Deus possuía a aparência de ser humano do sexo masculino porque pensava-se que Deus criara os humanos semelhantes a si próprio (veja Gen. 5:1-3; 9:6) – corresponda à intenção do autor. Malgrado toda a apologética sofisticada, isto é o que Genesis 1 parece estar dizendo, e eu gostaria de considera-lo seriamente.[6]

A maioria das referências a Javé não são simbólicas. Não pode ser negado que existe uma série de referências textuais ao corpo (e aos membros) de Javé que, no contexto das narrativas bíblicas, parecem ter funcionado como descrições não-metafóricas da suposta aparência da divindade. Assim, no livro do Êxodo, encontramos referências literais ao rosto de Javé (Êx. 33:20); às suas costas (Êx. 33:23). às suas mãos e dedos (Êx. 31:18); seus pés (Êx. 24:10-11); e assim por diante. Existem outros textos sugerindo que Javé possuía literalmente um nariz com o qual cheirava os agradáveis aromas dos sacríficios em sua honra (Gen. 8:21; Lev. 1:9, 13, 17; 26:31). Portanto, deve-se reconhecer a presença de algum literalismo nos textos do Antigo Testamento: é necessário que todos levemos a Bíblia a sério. Quando os acadêmicos cristãos tentam minimizar o problema com o conceito de antropomorfismo (isto é, falam como se Javé apenas se manifestasse visualmente em forma humana, mas “em si” não se assemelhasse nada a um humano) é porque eles também reconhecem a absurdidade de tal crença.

Uma justificativa para considerar seriamente a linguagem religiosa do Antigo Testamento pode ser encontrada no reconhecimento de que sobejam elementos não-metafóricos naquelas retratações de Javé que fazem sentido somente se se assume que as limitações de uma condição corpórea exercem sobre ele um efeito restritivo. Assim, ele é flagrado precisando descansar a fim de recobrar suas energias (Gen. 2:1; Ex. 31:17); tendo que viajar para obter informações e averiguar relatos (Gen. 3:8-11; 11:5-7; 18:17); precisando testar as pessoas para discernir suas crenças, intenções e motivos (Gen. 22; Deut. 8:2; Cron. 32:31; etc.); sendo obrigado a agir baseado num medo do potencial humano (Gen. 3:22; 11:5-7); sendo impotente ao ponto de seu povo ser incapaz de derrotar os inimigos porque estes utilizavam carruagens de ferro na batalha (Juízes 1:21) e solicitando assistência em alguns assuntos (Juízes 5:23; 1 Reis 22:20-23; Is. 63:3-5); etc.[7]

Tendo um corpo masculino, acreditava-se que Javé possuía membros masculinos. Isto também engloba órgãos sexuais masculinos (isto é, “loins”, Ezeq. 1:27-28). Textos como Gen. 6:4, em que os deuses mantém intercurso sexual com fêmeas humanas presumem a mesma coisa, assim como a discreta visitação divina à virgem adolescente Maria no Novo Testamento. Evidências oriundas de pesquisas históricas e arqueológicas largamente aceitas sugerem fortemente que uma deusa era adorada no antigo Israel como a consorte de Javé (Asherah).[8] Mas os grupos responsáveis pelo texto final do Antigo Testamento asseguraram-se de eliminar a maior parte dos vestígios dessa crença, resultando num cenário bastante sexista em que o Céu é um mundo habitado somente por indivíduos masculinos. O mais próximo que se chega sobre como Javé se relacionaria com uma deusa é quando Javé chama Israel ou algumas cidades na terra de sua esposa/noiva (como em Ezequiel e Oséias). Observando como ele trata sua esposa, entretanto, descobrimos uma mente demasiado humana propensa ao abuso emocional e à violência doméstica, não obstante quaisquer outros traços de caráter positivos e afetuosos que sejam incluídos na representação de Javé como um marido.[9]

Mas o texto revela ainda outros absurdos concernentes a algo que pode soar como pedantismo, mas é injustificadamente negligenciado em discussões sobre o corpo de Javé; trata-se de Deus como falante de uma língua. Curiosamente aconteceu de Deus ter um nome hebraico, Javé, um fato que intriga pouquíssimos crentes que ainda oram em seu nome sem ficarem perplexos com a importância a isto atribuída, ou com a razão pela qual ele precisaria de um nome (poderia-se apenas chama-lo de “Deus”). Além disso, de acordo com o texto, precisamos levar a sério a hipótese de que na criação dos céus e da terra (por que um deus desejaria criar coisas?), mesmo antes que as línguas semíticas do noroeste evoluíssem (das quais o hebraico é um exemplo), Javé conjurou o mundo à existência através de um dialeto específico do hebraico clássico que evoluiu entre humanos, sobreviveu apenas por um curto período de tempo e numa pequena região, e então desapareceu de todos os lugares exceto o Céu. Mas pense sobre isso: o momento do episódio da criação em que Deus fala pela primeira vez não faz sentido algum. Quando Deus diz “Que haja luz!” em hebraico clássico, não há ninguém para quem o que Deus profere sejam palavras dotadas de significado em vez de apenas um grito não-verbal. Não há nenhuma comunidade de falantes para a qual o que Deus grita equivale a um imperativo, a uma ordem que exige que algo aconteça. Então como Deus sabe o que dizer, e como ele pode estar certo de que o que ele profere são palavras dotadas de sentido e com um poder específico? A existência de convenções sociais estabelecidas na criação é impossível; o que há é apenas nossa própria projeção a fim de descrever como um certo tipo de ação um vislumbre limitado  do comportamento divino, distinguindo-o de espasmos e convulsões desprovidas de significado. A idéia de um usuário de uma língua eternamente consciente de si mesmo como um falante do hebraico clássico não faz absolutamente o menor sentido.[10]

Poucos leitores ao longo das eras captaram este problema, e aqueles que o fizeram rapidamente recorreram a uma reinterpretação filosófico-teológica. Diversas autoridades judaicas medievais sustentaram que o hebraico foi a língua de Deus sem jamais se incomodarem em perguntar por que Deus falaria um dialeto particular do hebraico clássico, historica, cultural e temporalmente específico. Parte desta dilema para a logística da criação pela palavra foi reconhecido em 1851 quando o filologista alemão Jacob Grimm argumentou que se Deus fala uma língua, na verdade qualquer língua que envolva consoantes dentais, Deus deve ter dentes, e uma vez que dentes foram criados não para falar mas para comer, disso se seguiria que ele também come, o que levaria a tantas outras hipóteses inadmissíveis para aqueles teologicamente comprometidos que a idéia foi completamente abandonada.[11]

Não há dúvidas de que esta preocupação seja anacrônica na medida em que Genêsis 1 assume que os seres humanos é que são teomórficos em vez de Deus ser antropomórfico. A última hipótese é certamente ingênua de uma perspectiva evolutiva, e atualmente os estudiosos da Bíblia da corrente predominante não mais leem Gênesis 1 como um documento histórico ou científico, de modo que a questão da credibilidade não é levantada. O que é louvável; mas embora tais preocupações sejam pseudoproblemas devido a erros categoriais na análise do gênero, o problema com não tentar relacionar a linguagem à realidade é que fica-se completamente perdido quando se tenta lidar com a absurda filosofia da linguagem popular  que opera através do mito.

Para diversos filósofos e comentadores da Bíblia, Deus não possui qualquer forma e somente aparece em forma humana. Belo pensamento, mas infelizmente não é isso o que a Bíblia ensina nos textos em que se pressupõe que a forma humanóide de Javé é sua verdadeira forma (por exemplo, Ex. 33:20-23), a forma que presume-se que ele assuma mesmo no Céu. A reinterpretação filosófica cristã disto não passa de uma estratégia de evasão por pessoas que não são capazes de admitir para si próprias que elas, igualmente, não mais acham possível acreditar em “Deus” (também conhecido como Javé), mais do que acreditam em Zeus. Os filósofos gregos fizeram a mesma coisa com os deuses gregos quando começaram a achar suas representações muito rudes. Até onde se pode extrapolar a partir da experiência prévia, os crentes continuarão a proceder assim a perder de vista.

(…continua…)

Notas.

6. Para uma discussão mais abraangente do fundo histórico e semântico por trás destes recentes balbucios gaguejantes sobre as descrições físicas de Deus no Antigo Testamento, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 407–12.

7. Para uma exposição divertida, veja Alexander Waugh, God (London: Headline Books, 2002). Para um levantamento mais detalhado e uma discussão de exemplos de Deus sendo concebido trabalhando com os membros e as limitações de um corpo humano, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 416–18 (projeção antropomórfica).

8. Sobre isto veja, William G. Dever, Did God Have a Wife? Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel (Grand Rapids, MI: William Eerdmans Publishing, 2005).

9. Veja Michael Coogan, God and Sex: What the Bible Really Says (New York: Twelve, 2010), 163–88. [Nota do Editor: no último capítulo deste livro Coogan descreve a vida sexual de Javé, que assim como os outros deuses e deusas daquele período, também tinha uma. Javé provavelmente teve uma consorte cujo nome era Asherah (a “rainha do Céu”, uma contraparte de Javé como “o rei do Céu”). Ela foi cultuada como parte da religião popular daqueles dias, bem como por reis e oficiais. Num fragmento de cerâmica encontrado por arqueólogos, Javé está representado com um grande falo ereto abraçando Asherah! Os “filhos de deus” em Gênesis 6:1-4 eram sua prole. Estes “filhos de deus” tornaram-se problemáticos para os monoteístas posteriores, de modo que eles os reinterpretaram como “Vigilantes” e mais tarde como anjos. Faz sentido. Certo? O que mais você poderia fazer com seres obviamente míticos como estes, e com uma família divina, após rejeitar seu antigo politeísmo e se tornar monoteísta?

A coisa realmente fascinante foi como Javé tratou suas esposas infiéis. Sim, ele era um polígamo. Na mente do profeta isto era uma alegoria, é claro, mas a alegoria deveria ter um significado para as pessoas a quem foi dirigida, caso contrário não faria sentido para elas. Os profetas Oséias, Jeremias e Ezequiel contam-nos sobre suas infidelidades para com seu marido Javé, e o que ele fez como castigo pela traição. Ezequiel 16 e 23 contém “algumas das passagens mais chocantes e sexualmente explícitas da Bíblia”, Coogan nos diz (183). Nesta alegoria, as espoas infiéis da Samaria e Jerusálem são brutalmente punidas por seu divino marido Javé. A certa altura ele as despe diante da multidão. Então vem o alerta do próprio Javé, dizendo que assim procedeu “para que sirva de exemplo à todas as mulheres, e não façam conforme a vossa perversidade” (Ezeq. 23:48).

10. Don Cupitt, Philosophy’s Own Religion (London: SCM Press, 2001), 65.

11. F. Staal, “Noam Chomsky between the Human and Natural Sciences,” Janus Head: Journal of Interdisciplinary Studies in Literature, Continental Philosophy, Phenomenological Psychology, and the Arts (Special Supplemental Issue, Winter 2001): 21, 25–66.

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por John W. Loftus

Adoro a maneira como o Dr. Jacko Gericke descreve a filosofia (sic) reformada de Alvin Plantinga como fundamentalismo sobre pernas de pau. A metáfora das pernas de pau retrata Plantinga colocando-se fora da mira do criticismo bíblico sem lidar realmente com as bases de sua fé.

William Lane Craig declarou inúmeras vezes que não é sua intenção debater a confiabilidade da Bíblia. Naturalmente não, por que ele não é capaz disso. Há não muito tempo atrás ele declinou um convite para debater contra Jacko Gericke sobre a existência do YHWH do Antigo Testamento. Sim, está certo. Ele disse que esta não era sua especialidade. Mas espere um momento. Ele anda por aí debatendo se Deus existe ou não, certo? O que quer dizer que ele acredita que YHWH existe. Então por que ele não pode defender a existência de seu Deus? Porque ele não é capaz de faze-lo. Isso exigiria que ele descesse de suas pernas de pau e chafurdasse na mira do criticismo bíblico que deixou sua fé em ruínas.

O que me traz à especialidade de Bill Craig, a Teologia Natural.

Nos meus tempos de estudante na década de 80, a Teologia Natural encontrava-se num estado desgraçadamente deplorável. Não que não houvessem pessoas trabalhando nessa área, porque haviam. Os católicos sempre empreenderam desde os tempos de Tomás de Aquino, e a série de Palestras Gifford baseadas no desejo de “promover e difundir o estudo da Teologia Natural no mais amplo sentido do termo” tem acontecido ininterruptamente desde os últimos anos da década de 1880. (N.T.: Carl Sagan já proferiu estas palestras, que podem ser conferidas em seu livro “Variedades da Experiência Científica“, título que homenageia o talvez mais célebre ciclo de palestras Gifford, o proferido por William James, Variedades da Experiência Religiosa. As palestras de James também foram fontes de preciosos insights que Dan Dennett explorou em seu livro Quebrando o Encanto – A Religião Como Fenômeno Natural.) É verdade que os protestantes e evangélicos, em sua maioria, não se preocupam muito com isso . O consenso parece ser que os cristãos poderiam não defender uma teologia baseada na razão e na ciência. A voz de Karl Barth como o maior teológo do século XX pode talvez ter sido a mais significativa e influente entre os protestantes ao afirmar que a teologia natural estava condenada desde o nascimento.

Mas uma movimento de revitalização ocorreu. Norman Geisler e seu pupilo William Lane Craig fizeram-se ouvir em alto e bom som através de obras como Apologética Cristã e The Blackwell Companion to Natural Theology e em outras obras como In Defense of Natural Theology: A Post-humean Assessment de James F. Sennett and Douglas Groothuis, além da ressurgência de proponentes do design inteligente como Michael Behe e William Dembski.

Mas não nos esqueçamos  da razão pela qual a Teologia Natural caiu em desgraça:  o massacre levado a cabo no século XIX pelo criticismo bíblico. As evidências do criticismo bíblico destruíram as razões para acreditar. Foi por isso que Barth conclamou sua geração de crentes a simplesmente pregar a Bíblia pois Deus se pronunciaria através dela. A Bíblia era uma uma testemunha da revelação de Deus, não a revelação propriamente dita. Isso foi um existencialismo derivado de Kierkegaard  em meio a argumentos racionais sustentando que a Bíblia continha mitos, lendas e falsificações compartilhadas por outras culturas similares da antiguidade.

Os fundamentalistas estavam de sobreaviso e contra-atacaram com várias réplicas ás críticas chamadas Fundamentals, mas estes argumentos não vingaram entre o crescente número de crentes religiosos que se tornaram barthianos. Outros, como Rudolf Bultmann, defenderam uma desmitologização do Novo Testamento a fim de revelar o kerygma, ou proclamação de evangelho, através da extirpação dos elementos do “imaginário mítico” do primeiro século com potencial para alienar os contemporâneos da fé cristã.

O que eu vejo como a recente ascensão da Teologia Natural é baseada numa completa ignorância dos estudos do criticismo bíblico. É como se estas pessoas jamais tivessem aberto um livro publicado pela Fortress Press, ou uma Bíblia Comentada Anchor, ou uma Bíblia Comentada Cambridge, ou as várias monografias publicadas pela Society of Biblical Literature. Com os achados arqueológicos das últimas décadas a situação é ainda pior do que o próprio Barth reconhecia em sua época. Agora sabemos que os povos antigos compartilharam concepções cosmológicas similares, como visto neste livro de Wayne Horowitz, que Ed Babinski utiliza como base de sua argumentação num capítulo de meu novo livro, “The Christian Delusion”.

Os teólogos naturais da atualidade continuam agindo como se soubessem o que estão defendendo e que há uma base histórica para o que estão defendendo. Uma situação que me lembra a do imperador nu. Eles agem como se possuíssem argumentos que lhes favorecem e pavoneiam-se por aí como se estivessem em trajes de gala quando na verdade estão nus. O criticismo bíblico destrói completamente os fundamentos históricos de sua fé. Eles estão nus e desprotegidos como pássaros tagarelas. Estão me ouvindo? Vocês estão nus. Cubram suas vergonhas e parem de se expor ao ridículo.

A teologia natural não irá durar muito. É o que prevejo. É uma moda passageira. E o evangelicalismo está de saída. Os evangélicos serão obrigados a descer de suas pernas de pau e ver de perto no que estão se atolando.

Há mais uma coisa ainda. Parece-me estranho que estes autores jamais falem sobre, em primeiro lugar, como eles vieram a acreditar. Victor Reppert não veio a acreditar por causa do Argumento da Razão, tampouco Bill Craig veio a acreditar por causa do Argumento Cosmológico Kalam. O que eles fazem é defender o que foram compelidos a acreditar em virtude de um compromisso inicial, feito geralmente na juventude, que determina sua abordagem destes argumentos. Agora eles se encontram defendendo uma concepção anselmiana de Deus alcançada através de um longo processo de falsificação teológica. Mas eles nunca consideraram seriamente o conhecimento produzido por Karl Barth.

Contudo, existem alguns evangélicos que reconhecem os resultados do criticismo bíblico, como Kenton Sparks, John Walton e Peter Enns. Sparks, por exemplo, subscreveu a Barth. Muitos mais ainda serão forçados a faze-lo. Então, a medida em que a história se desenrola, eles se tornarão liberais e vários deles se tornarão agnósticos. É um processo realmente lento mas tem ocorrido desde o Iluminismo e influenciado como os novos seminários e editoras, todas as décadas, tem de ser fundados por conservadores, a medida em que estes seminários e editoras tornam-se mais e mais esclarecidos e liberais.

Está é a razão pela qual eu concentro minhas críticas à fé cristã no criticismo bíblico. Eu tenciono solapar completamente a base inteira da teologia natural. Meu objetivo é derrubar estes teólogos naturais de suas pernas de pau para que vejam que a base de sua fé não está lá, e assim fazendo cientifica-los ao máximo possível que eles estão nus. Nus e desprotegidos como pássaros tagarelas. Me divirto muito com isso. Em minha opinião esta é a melhor maneira de desacreditar seus empreendimentos sofisticados na teologia natural. E isso não exige um mergulho de cabeça nesse tipo de literatura filosófica. Embora esse mergulho seja importante eu pessoalmente me envolva com esse tipo de literatura, penso que ela não é um anulador solapante (undercutting defeater, uma crença A que enfraquece as razões para uma crença B; por exemplo, a teoria da evolução seria um undercutting defeater para os argumentos teleológicos. A TE não os refuta, mas os enfraquece) para o que eles defendem. O verdadeiro anulador solapante é o Criticismo Bíblico.

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