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Posts Tagged ‘Teologia Racional’

por Jaco Gericke

Assim como não é possível argumentar a favor da existência de Zeus através de especulações filosóficas sofisticadas, igualmente não se pode faze-lo em relação a Deus, também conhecido como Javé. Todavia, filósofos da religião cristãos que não mais acreditam em Javé conforme retratado no Antigo Testamento ainda são capazes de se apresentarem como crentes em “Deus”, uma versão atualizada da antiga divindade tribal multifacetada. Eles projetam as mais recentes metáforas tecnomórficas sobre a realidade; e lançando mão de um jargão sofisticado e uma abordagem genérica conferem às suas idéias um aspecto intimidador e quase respeitável. Mas o fato é que a filosofia da religião cristã por inteiro, seja ela filosofia analítica fundamentalista ou a mais pós-moderna versão da a/teologia continental, não passa de mitologia reconstrutiva. Tal discurso parece funcionar porque as pessoas se esquecem que Deus costumava ser Javé. Elas podem igualmemente tentar reabilitar qualquer antigo deus tribal, abrigando-o sob o guarda-chuva universal atualmente abraangido pelo conceito de divindade. Assim, qualquer filosofia da religião que presuma que o deus sobre o qual discorre seja em qualquer sentido basicamente a mesma realidade divina sobre a qual se fala no Antigo Testamento encontra-se em sérios apuros.

Em primeiro lugar, as concepções de Javé mantidas pela maioria dos filósofos da religião cristãos tendem a ser radicalmente anacrônicas e correspondem mais ao proverbial “Deus dos Filósofos” (Tomás de Aquino em particular) do que a qualquer versão de Javé representada na antiga religião israelita. Isto significa que nem mesmo os próprios filósofos cristãos acreditam nas concepções “bíblicas” pré-filosóficas de Javé, a crença em quem supõe-se ser apropriadamente básica. Suas noções sublimes de Deus em termos de “Simplicidade Divina”, “Grandeza Máxima”, e “Teologia do Ser Perfeito” são completamente alheias a várias caracterizações de Javé na narrativa bíblica (por exemplo, Gen. 18). Isto quer dizer que debates sobre o poder e o conhecimento de Deus e sua relação com o mal (etc.), sejam lá quais forem seus méritos lógicos, convenientemente ignoram o fato de que existem vários textos bíblicos que os contradizem (e que exibem representações da divindade em que os filósofos cristãos não acreditam).

O problema do mal é um pseudo-problema em vários textos do Antigo Testamento, em que Javé não era nem onipotente nem onibenevolente. Além disso, a capacidade de fazer o mal no sentido de ser destrutivo era de fato uma propriedade enaltecedora no teísmo antigo. Javé é poderoso exatamente porque ele pode fazer o mal quando deseja, seja ele natural, moral ou metafísico (veja Exod. 4:11; Lam. 3:38; Isa. 45:7; Amós 3:6; Ecles. 7:13–14; etc.). Os crentes de antigamente não eram tão mimados como os de hoje que acreditam que um deus tem que ser perfeitamente bom (leia-se “com uma interface amigável para o usuário”) para ser digno de adoração. O que tornava um deus divino era seu grande poder (o que não é o mesmo que onipotência), não sua prestação de serviços focada no cliente, seus valores familiares ou sua consideração pelos direitos humanos.

O segundo problema resulta do primeiro: que tipo de Deus é esse em quem a crença é garantida de acordo com a filosofia da religião cristã? É inútil dizer  que a crença em Deus é justificada a menos que se possa especificar quais são os supostos conteúdos das crenças acerca de Deus (e quem é este deus em quem alguém acredita basicamente). Mas esta filosofia da religião cristã é irremediavelmente solapada por seu fracasso em reconhecer o fato de que está cometendo a falácia do essencialismo. Esta falácia perpassa os problemas filosóficos colocados pelo pluralismo teológico no Antigo Testamento e as mudanças diacrônicas (leia-se: “revisões”) nas crenças acerca de Javé na história da religião israelita. Em diversos pontos de confluência em seus argumentos a filosofia da religião cristã parece beatificamente ignorante de que não existe tal coisa como a perspectiva “bíblica” sobre Deus. De modo que se é no Deus “bíblico” em quem supostamente se deve acreditar, a maioria dos teólogos do Antigo Testamento gostaria de saber “em qual de suas versões?” (ou, “em qual de suas interpretações?”).

Um terceiro problema concerne a uma outra maneira ainda em que a filosofia da religião cristã fracassa em aplicar as formas de verificação próprias do Antigo Testamento. Colocando de lado a possibilidade do pluralismo, que pode erguer sua carranca medonha mais uma vez (por exemplo, nas incomensuráveis teologias religiosas de Daniel e do Eclesiastes), o fato é que é errado assumir que o Antigo Testamento não é evidencialista. Ao contrário, existem razões significativas para acreditar que um tipo primitivo de evidencialismo seria de fato a epistemologia padrão presumida na antiga religião israelita dada a natureza de várias hipóteses pre-filosóficas nas narrativas bíblicas. De modo que pode-se dizer que toda a questão dos “milagres” (sinais) e revelações através de teofanias, audição de vozes, sonhos, adivinhações e histórias pressupõe um evidencialismo (veja a reiterada fórmula “de modo que eles possam saber…”). Os filósofos da religião irão negar que seja possível constatar a existência de Deus neste sentido empírico, e não obstante, de acordo com o Antigo Testamento, o próprio Javé admitiu esta possibilidade.

Afinal, de todas as epistemologias religiosas concebíveis, é difícil imaginar que o profeta Elias, na narrativa em que enfrenta os profetas de Baal no Monte Carmelo, estivesse endossando qualquer coisa remotamente similar às alegações da filosofia da religião cristã de que não é necessário provar nada empiricamente (veja 1 Reis 18). Se isso não é um exemplo de evidencialismo no Antigo Testamento, então o que seria? Os cristãos podem ter suas próprias razões para explicar porque estas coisas não mais acontecem e pelas quais nenhum filósofo da religião consentirá em participar de uma competição no Monte Carmelo. Mas o fato é que os filósofos da religião cristãos, sejam eles fundamentalistas e analíticos ou pós-modernos e continentais, todos adoram a racionalização dogmática mais do que a epistemologia bíblica. Mais uma vez, isto mostra que nem mesmo os filósofos da religião cristãos acreditam realmente em Javé. Eles também são ateus em relação à divindade bíblica.

A partir disso vemos por que a crença em Javé é para ambos ateus e cristãos tão impossível quando a crença em Zeus. Pode-se muito bem sugerir “apenas acredite na Bíblia!” ou em qualquer outro deus antigo. Mas poucos filósofos cristãos alguma vez se perguntaram por que é o caso que o principal desejo de um deus é que suas criaturas concordem que ele exista, dentre todas as coisas com as quais alguém poderia, em tese, se preocupar – e ainda assim fazer tão pouco para torna-la possível. Que um deus precise se ocultar e que a fé seja necessária para tornar um relacionamento possível é simplesmente uma ridícula noção não-bíblica. Moisés alegadamente tanto viu como acreditou em Javé, e eles mantiveram um relacionamento exemplar (para os padrões bíblicos). Assim, qual é o problema com a intimidade cara a cara numa base diária com cada ser humano, numa época em que o ateísmo é mais popular do que nunca? Como Voltaire disse antes de Nietzsche, a única desculpa aceitável para Deus é não existir.

Em outras palavras, foi a consciência histórica que levou os crentes a reinterpretar as crenças bíblicas para conferir-lhes um aspecto respeitável e que leva os ateus contemporâneos a ver por que ninguém pode acreditar em Javé mais do que eles acreditam em Zeus. Simplesmente não podemos imaginar que a realidade seja uma estrutura planejada em que uma entidade demasiado humana, embora superior, detém todo o poder, em que “a força diz o que é certo” – Deus pode fazer o que ele deseja porque ele é Deus, exatamente a mesma imoralidade que os religiosos imputam aos ateus – em que o sentido de sua existência é criar seres débeis, frágeis e mortais para servi-lo e dizer-lhe o quão maravilhoso ele é por toda a eternidade. A devoção religiosa é,  pura e simplesmente, a subserviência bajulatória ao poder. De qualquer maneira, não é o caso que sejamos rebeldes e não queiramos a priori acreditar em um deus; ocorre simplesmente que o conceito inteiro da realidade divina conforme construído pelos humanos no sentido bíblico é tão absurdo e tão obviamente uma projeção de humanos sinceramente iludidos que concebiam o funcionamento do cosmos análogo ao de uma sociedade humana antiga, que não seríamos capazes de realmente acreditar nem mesmo se tentássemos!

Esta é a razão pela qual a teologia e a filosofia da religião e os argumentos para a existência de Deus tornaram-se necessários – para ocultar o absurdo e conferir-lhe uma aparência convicente. Mas desde quando a realidade precisa convencer qualquer um? Se o mundo fosse realmente daquela maneira, seria tão desnecessário argumentar por sua facticidade quanto o é argumentar pela existência do mundo biológico. O apelo ao mau funcionamento epistemológico nos descrentes é tão pouco convincente quanto dizer que a razão pela qual achamos difícil acreditar em Zeus é nossa falta de intuição espiritual.

Após dois mil anos o sistema cristão cobriu quase tudo, e alguns crentes acreditam piamente que a apologética oferece respostas para tudo. Para perceber como o truque foi feito – para ver o revestimento metálico do espelho e as cordas das marionetes – basta permitir que a filosofia da religião cristã seja julgada pela história da religião israelita. O melhor argumento contra qualquer dogma cristão contemporâneo é sua própria história remontando à e se originando da própria Bíblia. As reinterpretações dos próprios cristãos nos mostram que mesmo o “crente” mais fundamentalista é realmente um ateu quando se trata de Javé, e o mais “bíblico” dos crentes não é tão bíblico quanto pensa. No fim a teologia cristã foi posta abaixo pela ética cristã; a crença foi destruída por sua própria moralidade, que exige a busca da verdade.

Angustiado estará o crente quando no fim vier a perceber que precisa escolher entre Deus e a verdade. É o tipo de experiência de “choque com a realidade” associada a filmes como Matrix ou O Show de Truman. Mas você precisa ver com seus próprios olhos para perceber como isso foi a sinuca perfeita, a dupla lealdade definitiva para qualquer pessoa crescendo numa cultura religiosa contemporânea. Infelizmente, como os próprios célebres personagens bíblicos, os crentes de hoje em dia não desperdiçam seu tempo estudando seriamente a Bíblia. Os livros mais populares sobre o Antigo Testamento são tira-gostos espirituais, guloseimas para o cérebro, se você desejar. E quando confrontados com a questão de por que os ateus se importam com a Bíblia se eles não acreditam nela, bem, talvez seja pela mesma razão que os cristãos se preocupam com os pagãos: porque as pessoas se preocupam com que outras pessoas acreditam ser a verdade e sobre o fato de que existem tantas pessoas bem-intencionadas inconscientemente propensas a iludirem tanto a si próprias como ao resto da humanidade.

Conclusão

Em certo sentido, a entidade chamada “Deus” é como um troll da Internet criado num fórum aberto ao público – uma vez que você se torna ciente do agente por trás do personagem, tal conhecimento muda tudo sobre se podemos ou não fazer com que acreditemos que “ele” existe. Não há realmente nada para refutar, e não precisamos mostrar que algum deus, seja lá qual for sua descrição, não existe. Tudo o que precisamos fazer é mostrar que as descrições de Javé não possuem nenhuma contraparte fora das fábulas bíblicas. Pois se Javé conforme retratado não é real, como poderia “Javé” em si não obstante existir? Se o deus do Antigo Testamento – que é o Deus de Jesus – não existe, como poderia o Deus do Novo Testamento ainda assim existir? E se o Deus do Novo Testamento não é real, não é este o fim das pretensões do Cristianismo à realidade?

Portanto, não é necessário nos sentirmos intimidados pelos filósofos da religião cristãos que precisam recalcar o fato de que seus sofisticados argumentos sobre um Deus supostamente respeitável ignoram a história da religião israelita. A própria biografia do deus é-lhes um constrangimento colossal. Eles próprios não mais acreditam em Javé, e hoje em dia “Deus” não passa de um ídolo idealizado, criado à imagem e semelhança das mais recentes metáforas tecnológicas projetadas sobre o cosmos. Como Javé nunca foi um deus vivo, “Deus” está, de fato, morto.

No fim, então, parece que a história da religião israelita possui um senso de ironia. O mesmo povo antigo e moderno que tão impiedosamente ridicularizou os pagãos por seus mitos e superstições fracassou em reconhecer em si próprio as mesmas predisposições supersticiosas. Os mesmos crentes que deploram os produtos da imaginação humana não são capazes de enxergar que um deus criado como um personagem numa história escrita não é menos um ídolo do que os silenciosos deuses esculpidos em pedra ou madeira.

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Para começar bem 2012, publico agora o primeiro post do Rebeldia Metafísica de minha autoria. Obviamente, peço aos leitores que perdoem o desleixo, a falta de rigor e a informalidade, e que não o julguem em comparação com as publicações anteriores. Peço também que deixem nos comentários suas impressões, sugestões e críticas, construtivas ou destrutivas, estas últimas desde que feitas com elegância e espirituosidade, claro.

E os tranquilizo desde já, comunicando que voltarei à programação normal até a próxima sexa-feira no máximo, com mais traduções de longos artigos escritos por especialistas.

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O filósofo Ronald de Souza certa vez descreveu, de forma memorável, a teologia filosófica como “um jogo de tênis intelectual sem rede“, e me apronto a reconhecer que até agora tenho admitido sem comentários ou perguntas que a rede do pensamento racional estivesse erguida. Mas podemos abaixá-la, se isto é o que você realmente quer. O saque é seu. Mas seja lá como for o saque, suponha que eu o devolverei grosseiramente assim: “O que você diz significa que Deus é um sanduíche de presunto embrulhado em papel alumínio. Não é um Deus que valha a pena adorar!” Se então você rebater, exigindo uma justificativa lógica para a minha afirmativa de que seu saque tem uma implicação tão ridícula, direi: Ah, você quer a rede quando eu rebato, mas não quando você saca é? Ou a rede fica de pé, ou fica no chão. Se a rede ficar no chão, não há regras e ninguém pode dizer nada, um jogo em que ninguém nem perde, se é que algum dia existiu um jogo assim. Tenho lhe dado o benefício da hipótese de que você não estaria perdendo seu tempo ou o meu jogando com a rede abaixada.

Daniel Dennett, A Perigosa Idéia de Darwin, p. 160

Qualquer ateu, agnóstico ou mesmo um religioso mais liberal que já tenha discutido com religiosos menos esclarecidos sobre as razões para crer ou descrer _ e oportunidades não faltam, haja visto Testemunhas de Jeová nos interrompendo em nossos afazeres matinais, seguidores de Edir Macedo presenteando transeuntes distraídos  com exemplares da Folha Universal, kardecistas recolhendo doações para a campanha do quilo, ou mesmo algum amigo, vizinho ou colega de trabalho ansioso por compartilhar as benesses que sua fé lhe propicia _ sabe que geralmente chega um momento do diálogo em que o religioso meio que levanta a bandeira branca, reconhecendo a fragilidade e a insuficiência de seus argumentos, e retrocede para uma posição fidelista, admitindo que o verdadeiro catalisador de sua conversão foi algum tipo de experiência com forte carga emocional e de uma riqueza existencial transfiguradora.

A situação progride de maneira um pouco diferente quando o interlocutor dispõe de maiores recursos intelectuais. Além de geralmente resistirem por mais tempo ao fogo cruzado, quando por fim se veem acuados em um beco sem saída, os exemplares desta categoria sofisticada de religiosos, numa tentativa desesperada de evitar um completo massacre, acovardam-se sob o que eles acreditam ser um inexpugnável escudo de ceticismo. Deixem-me esclarecer.

Os indivíduos de que falo aqui mostram-se a princípio adeptos do que é conhecido como teologia natural ou racional, uma corrente dentro da teologia que afirma ser possível estabelecer a existência de Deus através da observação do mundo e do uso da razão. Respaldados por dados oriundos das mais diversas áreas do saber _ desde às abstratas e apriorísticas lógica e matemática, passando pelas extremamente bem-sucedidas ciências naturais até às menos incertas e controvertidas ciências humanas _ estes cruzados intelectuais encadeiam premissas em geral bastante questionáveis de forma a obter a conclusão de que existe um ser onipotente, onibenevolente e blá blá blá. Os que não acreditam na existência de tal ser são então desafiados a mostrar porque estes argumentos são falhos e, além disso e independentemente destas refutações, a apresentar argumentos demonstrando que tal ser não existe. É quase desnecessário dizer que ao se engajarem numa disputa deste tipo, ambos os contendores admitem tacitamente que tanto as evidências disponíveis como nossas capacidades cognitivas são suficientes para se alcançar alguma conclusão razoável sobre a questão.

Enquanto o debate se desenvolve favoravelmente para o lado teísta, eles ostentam confiantes e sorridentes as armas da razão carregadas com as evidências c0lhidas no mundo ao nosso redor.  Nenhuma ressalva é dirigida ao nosso horizonte cognitivo. Vejam, eles dizem, como as melhores teorias cosmológicas disponíveis apontam para uma origem ex nihilo do Universo. Observem a probabilidade vastamente evanescente de os valores das constantes das leis cosmológicas que permitem o surgimento de vida inteligente no universo resultarem do mero acaso. Com base nas evidências disponíveis, eles continuam, é seguro concluir que há um criador inteligente do Universo. Se alguém objeta que ainda há muitas incertezas e controvérsias para que se possa estabelecer uma conclusão desse tipo, que futuras investigações podem trazer à tona novas informações que dispensariam um apelo ao sobrenatural, e que é razoável, baseado no vasto histórico de sucesso da ciência, esperar que algo assim aconteça, o objetor com frequência é acusado ou de estar fazendo um apelo à ignorância ou de estar sendo cientificista.

Mas a atitude costuma ser outra quando é o lado ateísta a lançar mão de todas as evidências disponíveis para respaldar seus argumentos. Se dizemos que existe demasiado sofrimento em comparação com a quantidade de coisas boas no mundo, ou sofrimento gratuito, somos constantemente lembrados de que não estamos numa boa situação epistêmica para afirmar que realmente há mais coisas ruins do que coisas boas, ou que o sofrimento existente realmente é gratuito. Se afirmamos que a existência da descrença ou da pluralidade religiosa é incompatível com um Deus que deseja se relacionar pessoal e amorosamente com todos, respondem-nos que Deus pode possuir boas razões que não nos são acessíveis para permitir que uma parcela considerável da humanidade seja mantida na ignorância de sua existência, e que não estamos autorizados a concluir que esse Deus não existe até que demonstremos ser impossível a existência de tais razões. Se dizemos que tudo nos leva a crer que mentes não podem existir sem um suporte material, els nos dizem que é possível que uma mente imaterial exista _ nunca investigamos as esferas metafísicas para que possamos afirmar com segurança que tal coisa, uma mente independente de um corpo material, existe. Se dizemos que a idéia de Deus causar o Universo a partir do nada parece ininteligível e contraintuitiva, ouvimos, ou melhor, lemos, que a idéia não precisa ser inteligível, só precisa ser não-contraditória.

E aqui eu chego ao episódio que me motivou a escrever este texto. Um dos posts mais acessados e apreciados neste blog é o artigo de Quentin Smith Causação e a Impossibilidade Lógica de Uma Causa Divina, um artigo tão importante que recebi uma proposta para submeter sua tradução para publicação em periódicos brasileiros de filosofia. Quem já o leu sabe que ele contém uma refutação até hoje não respondida à menina dos olhos de William Lane Craig, o famigerado Argumento Cosmológico Kalam para a existência de Deus. Neste artigo, Quentin Smith empreendeu uma exaustiva investigação das definições existentes de causalidade, testou a hipótese divina em cada uma delas e demonstrou que a volição divina, o evento mental considerado a causa do princípio de existência do universo, não satisfaz nenhuma destas definições. Absurdos surgem todas as vezes em que se afirma que a vontade de Deus é a causa do princípio de existência do universo e se tenta analisar esta idéia à luz do que já se sabe acerca da causação a partir de outros exemplos incontroversos deste tipo de relação entre eventos. Vale notar que os teístas, provavelmente informados do risco de desmoronamento de seu argumento, geralmente empregam um esboço de definição de causa vago e impreciso, feito sob medida para maquiar a fragilidade deste componente, como pode ser visto aqui.

Além disso, Quentin Smith apresenta ainda uma condição lógica para que um evento seja considerado uma causa de outro que é violada pelas volições de Deus em decorrência de sua onipotência: uma causa não é uma condição logicamente suficiente de seu efeito. Existem várias definições e teorias sobre a causação, mas este é um ponto pacífico entre os proponentes das formulações concorrentes _ com exceção, obviamente, dos que são teístas e adeptos da teologia natural. Ciente desta fonte de divergência, Quentin Smith também discute e mostra porque cada uma das objeções à sua argumentação fracassa.

Ao final, o que Smith demonstra não é exatamente a falta de solidez do Kalam _ ele concede sem discutir as duas premissas e a conclusão de que o Universo tem uma causa _, mas sua inadequação como argumento para a existência de Deus, demonstrando que ele é na verdade um argumento para sua inexistência.

Pois bem, a esta altura o teísta já deveria se dar por vencido, não? Afinal, foi-lhe apresentado (mais) um argumento sólido para a inexistência de Deus. Bem, vejam com seus próprios olhos as reações dos admiradores de William Lane Craig em sua principal comunidade no Orkut (o fórum é fechado para não membros, mas ninguém está perdendo nada. Depois que o Rodrigo foi expulso de lá após um arranca-rabo com um defensor do design inteligente a comunidade praticamente morreu). Clique na imagem para ampliar.

Não vou nem mencionar outras respostas baseadas em compreensões errôneas ou leitura incompleta ou apressada do artigo. Para o ponto que quero discutir aqui só me interessam as que podem ser vistas acima e que se resumem ao seguinte:

O argumento não passa de um apelo à ignorância. O fato de não possuirmos uma definição de causalidade que contemple as esferas metafísicas não implica que tal definição não exista e esteja aguardando por ser descoberta e, portanto, que o estado mental de Deus ao desejar a ocorrência do Big Bang não seja a causa do Big Bang. Nossa situação epistêmica não nos permite concluir isso.

Acredito não estar apresentando nenhum espantalho da posição dos foristas e, se alguém discorda, favor se manifestar.

Colocando de lado o fato de o artigo responder uma objeção bastante similar a esta, vamos à atitude dos foristas revelada por estas respostas e que me tirou do sério. Falo, é claro, do duplo padrão que eles utilizam ao lidar com os argumentos pró-teísmo e pró-ateísmo. Ao construir seus argumentos, teístas usam e abusam de intuições universalmente compartilhadas, exemplos, analogias e generalizações abstraídas do mundo concreto, real e material. A primeira premissa do Kalam (“Tudo o que começa a existir tem uma causa”) é uma exemplo que vem bem a calhar. Entretanto, este mesmo recurso é barrado aos ateus pela imposição do véu de ceticismo acerca do metafísico: não somos capazes de conhecer a totalidade do que existe e portanto não estamos autorizados a extrapolar demasiadamente a partir das evidências materiais _  especialmente se a inexistência de Deus estiver à espreita na cadeia de raciocínios. Cômodo e conveniente, não?

Pode até parecer seguro e confortável refugiar-se atrás de um escudo de ceticismo quando a situação começa a ficar insustentável para o teísta, mas agindo assim ele não demonstra um mínimo de integridade, imparcialidade ou compromisso com a busca da verdade. Porque há de se convir que, se a amostra utilizada pelos ateus para construir sua visão de mundo não é representativa o bastante, na melhor das hipóteses o mesmo se pode dizer da amostra dos teístas _ na verdade esta última sim costuma ser de fato viciada dada a falta de precauções contra os vieses cognitivos operando em seus cérebros.

Uma evidência da existência destes vieses é sua a inocência quanto às consequências de abandonarem sua confiança inicial em nossa capacidade cognitiva e retrocederem à uma posição cética. Em sua urgência de salvaguardarem sua tão sofregamente acalentada visão de mundo, fonte de força e consolo em momentos difícieis, eles não se dão conta de que este ceticismo não fica confinado ao tópico específico em discussão, mas, na medida em que o tema, por se tratar de uma visão de mundo, apóia-se e relaciona-se com todas as subáreas da filosofia, termina por também contamina-las. Tomemos como exemplo a resposta cética ao problema do mal: não estamos em condições de saber se o sofrimento existente é realmente gratuito ou se existe para permitir um bem maior. Mas se esta ignorância nos impede de avaliar negativamente o caráter moral do Criador, também nos impede, por um lado, de avalia-lo positivamente _ o corpo de evidências que serve de base para o julgamento é o mesmo, lembrem-se _ e por outro, levanta dúvidas sobre o status moral de ações humanas indiscutivelmente erradas. Afinal, se as razões usualmente apresentadas para classifica-las como más não são boas o suficiente para Deus, por que o seriam para nós? E a conduta e o caráter moral de Deus não são os padrões contra os quais são medidos os humanos? (Eu tenho certeza que a esta altura algum adestrado está com os dedos coçando pra deixar um comentário gritando “Soberania! Soberania!” ou “A moralidade de Deus não é avaliada pelos padrões humanos“. )

Como se a consequência acima já não fosse ruim o bastante, suspeito que este ceticismo, que a príncipio se insinuou no campo teológico e em seguida atravessou as fronteiras da ética, também ameaça a epistemologia de senso comum, tão cara a nossos outrora intrépidos teólogos naturais, e que funciona como um pressuposto na elaboração de seus argumentos. Por epistemologia de senso comum eu me refiro, grosso modo, a postura que considera alguém justificado em manter crenças prima facie óbvias, a não ser que alguma razão esmagadora para questiona-las seja apresentada. Mais uma vez, a primeira premissa do Kalam é um exemplo deste tipo de crenças, a crença na realidade objetiva do mundo exterior e de outras mentes é outro exemplo, e as intuições de que nos valemos em nossos julgamentos morais é outro. Também se poderia citar aqui, por que não, a descrença prática na existência de algo na ausência de evidências de que este algo existe, como, por exemplo, razões suficientes para que Deus permita a descrença inocente ou a existência de tantos sofrimentos no mundo.

Como se vê, o custo de manter uma posição cética quando acuados por argumentos ateológicos pode ser precisamente a justificação da crença que ela tenta salvaguardar. O poder corrosivo do ceticismo, tal como o de um ácido potente num laboratório, requer cuidados e precauções excepcionais, sob pena de dissolver a própria base argumentativa que se tenta conservar.

Ao abaixar sorrateiramente a rede numa tentativa de facilitar a rebatida da bola sacada pelo ateu, eles terminam por deixar cair tanto a bola quanto a raquete e perder o ponto de vez. Mas não me parece que vocês entraram neste jogo para perder.

Bom, embora ainda faltem algumas considerações sobre o papel desempenhado pelo conceito de causação numa teoria do conhecimento decente, vou encerrar por aqui pois acho que, para um post de estréia e de Ano-Novo, já escrevi demais. Termino com mais uma citação de Dan Dennett:

Você está apreciando a paisagem junto com a pessoa amada em um país estranho, e alguém a mata brutalmente diante de seus olhos. No julgamento você fica sabendo que naquele país os amigos podem ser chamados para testemunhar em defesa do acusado, atestar a fé que tem na inocência dele. Assista ao desfile dos amigos do assassino, de olhos úmidos, obviamente sinceros, proclamando orgulhosos a fé imorredoura na inocência do homem que você viu cometer um ato terrível. O juiz ouve com respeito e atenção, claramente mais emocionado com esta efusão do que por todas as evidências apresentadas pela acusação. Não é um pesadelo? Você estaria disposto a viver em um país assim? Ou aceitaria ser operado por um cirurgião que lhe diz que sempre obedece quando uma vozinha interior o instrui a não respeitar a medicina? Sei que entre pessoas educadas não se contestam opiniões, e quase sempre coopero de forma sincera com este acordo salutar. Mas estamos seriamente tentando chegar a verdade aqui, e se você pensa que esse acordo sobre a fé, comum porém tácito, é algo mais além de uma confusão socialmente útil para evitar o constrangimento mútuo e a vergonha, você já examinou esta questão muito mais profundamente do que qualquer filósofo (pois nenhum deles jamais descobriu uma boa defesa para isso) ou, então, está se iludindo.

A bola agora está em seu campo.

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