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Posts Tagged ‘Teoria do Big Bang’

por Quentin Smith

Utilizarei os quatro aspectos da cosmologia do Big Bang explicados na última seção como premissas científicas de meu argumento ateológico. As três primeiras premissas científicas articuladas na última seção, a equação de Einstein, as soluções de Friedmann para esta equação e o teorema da singularidade Hawking-Penrose, nos municiam com as duas premissas

(1) A singularidade do Big Bang é o estado mais antigo do Universo.

(2) O estado mais antigo do universo é inanimado.

(2) segue a partir de (1) já que a singularidade possui temperatura infinita,  curvatura infinita e densidade infinita, condições estas hostis à vida.

A quarte ideia científica explicada na última seção, o princípio da ignorância, nos dá a premissa concisa

(3) Nenhuma lei governa a singularidade do Big Bang e consequentemente não há garantias de que ela emitirá uma configuração de partículas que se desenvolverá num universo animado.

(1)-(3) Implicam

(4) Não há garantias de que o estado mais antigo do universo evoluirá num estado animado do universo.

Meu argumento é que (4) é inconsistente com a hipótese de que Deus criou o estado mais antigo do universo, já que é verdade a respeito de Deus que se ele criou o estado mais antigo do universo, então ele teria assegurado que este estado seria animado ou evoluiria num estado animado do universo. É essencial à concepção de Deus na tradição judaico-cristã-islâmica que se ele criou o universo, ele criou um universo animado, e portanto que se ele criou um primeiro estado do universo, ele criou um estado que é animado ou que seguramente evoluiria até um estado animado. Se alguém diz, ‘não faz diferença para Deus se o universo que ele criou é animado ou inanimado’, esta pessoa está operando com um conceito de Deus que está em conflito com o teísmo clássico. Penso que seria reconhecido por praticamente todos os teístas contemporâneos na tradição analítica (M. e R. Adams, Craig, Menzel, Morris, Plantinga, Quinn, Schlesinger, Swinburne, Wainwright, Wolterstorff e vários outros) que, se Deus cria um universo, ele tenciona que sua criação seja animada. Richard Swinburne escreve, por exemplo, que ‘universos ordenados’ são aqueles requeridos por criaturas animadas e que ‘se Deus cria um universo, então Ele tem razões supremas para criar um universo ordenado.’[16]

A formulação acima do ‘argumento cosmológico a partir do Big Bang para a inexistência de Deus’ é obviamente apenas um ponto de partida, já que o teísta tem à sua disposição numerosos contraargumentos ou objeções. No restante da série algumas destas objeções serão formuladas e respondidas.

Notas.

16. Swinburne, The Existence of God, op. cit., p. 147. A definição completa de Swinburne é que universos ordenados são aqueles exigidos tanto pela beleza natural como pela vida. Cf. p. 146.

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Cerca de um ano atrás, quando a idéia do blog mal amadurecia e eu ainda quedava perplexo com o uso que os apologistas fazem de citações científicas para respaldar seus argumentos, li o livro Big Bang – Tudo sobre a mais importante descoberta científica de todos os tempos e por que esse conhecimento é indispensável, a fim de verificar com meus próprios olhos o que a ciência realmente tinha a dizer sobre a origem do universo. Foi uma leitura decepcionante, no sentido de que encontrei pouquíssima coisa que esclarecesse algo na discussão dos argumentos cosmológicos para a existência de Deus. Ao fim e ao cabo, o livro apenas conclui que a teoria do Big Bang é a que melhor explica a evolução do universo (não seu surgimento), mas que, como todo empreendimento científico, ainda possui muitas lacunas cujo preenchimento ficará a cargo das futuras gerações de cosmologistas. De resto, é uma leitura leve e agradável, cheio de divertidas anedotas sobre o submundo dos acalorados debates entre proponentes de teorias científicas concorrentes. Contudo, o livro, pelo menos sobre mim, não causou nem uma sombra do impacto provocado por outro livro do mesmo autor, O último teorema de Fermat, pelo qual tenho um afeto especial, talvez um dia eu conte aqui a história da significância que este livro teve num momento específico de minha vida (significância esta que acontecimentos posteriores infelizmente neutralizaram).

Como se sabe, quando os debates entre os proponentes de um universo eterno e os defensores do modelo do Big Bang começou a pender para o lado dos últimos, o então Papa Pio XII endossou publicamente a teoria, no que foi posteriormente desencorajado por Georges Lemâitre, padre e físico co-autor do modelo do Big Bang. Tal aprovação tinha por base uma compreensão equivocada do que os cosmologistas entendem por “nada”, como pode ser visto pelas duas citações abaixo, que retirei do livro:

George Gamow (físico de origem soviética que, ainda criança, ao fazer a primeira comunhão, correu para casa com fragmentos da hóstia embebida em vinho escondidos na bochecha para examina-los ao microscópio que ganhara de presente do pai a fim de compara-los com o pão e vinho não transubstanciados e não encontrou nenhuma evidência de transformação, o que, segundo ele, foi uma experiência decisiva para que se tornasse um cientista. Suas descobertas sobre a síntese de núcleos atômicos ajudaram a corroborar o modelo do Big Bang):

Em vista das objeções levantadas por alguns críticos em relação ao uso da palavra “criação”, deve ser explicado que o autor usa este termo não no sentido de “produzir alguma coisa a partir do nada”, e sim no de “dar forma a alguma coisa a partir de algo sem forma”, como, por exemplo, na frase, “a última criação da moda parisiense”.

Arthur Eddington (astrofísico britânico divulgador da teoria da relatividade na Inglaterra pós-Primeira Grande Guerra e participante da expedição tropical que em 1919 coletou evidências que corroboraram a Teoria da Relatividade):

Para minha mente, uniformidade não diferenciada e nada não poderiam ser diferenciados filosoficamente.

Abaixo será visto que o argumento de Craig também se baseia numa compreensão errônea, numa verdadeira eisegese, de alguns pontos da teoria do Big Bang.

Os parágrafos finais desta seção do artigo de Morriston de certa forma resgatam um argumento contra a idéia de criação divina que encontrei numa de minhas mais antigas leituras de críticas à racionalidade das crenças religiosas, e que, até conhecer o presente artigo, pensava que se encontrava refutada por nunca ter deparado com ela nos debates contemporâneos sobre o assunto. Em seu Tratado de Metafísica (um livrinho bem curto, meras 26 páginas, encontrado no volume da coleção Os Pensadores dedicado a Voltaire), o célebre iluminista compila resumidamente os principais argumentos favoráveis e contrários à existência de uma divindade nos moldes teístas e as principais objeções que os lados adversários levantavam contra os argumentos do lado contrário. Eis sua formulação das dificuldades encontradas quando se coloca uma divindade imaterial, externa e anterior ao mundo como seu autor:

Se Deus não é o mundo material, ele o criou (ou então, se quiserdes, deu a um outro ser o poder de cria-lo, o que vem a dar no mesmo); mas fazendo esse mundo, ou tirou-o do nada ou tirou-o de seu próprio ser divino. Não pode te-lo tirado do nada porque este não é, não pode te-lo tirado de si próprio porque, então, esse mundo faria essencialmente parte da essência divina e, assim sendo, eu não poderia ter uma idéia da criação, donde se segue que não posso admitir a criação.

Deste raciocínio Voltaire conclui apenas que a criação por Deus não nos é concebível, não que é impossível. Vejamos agora como Morriston debilita as conclusões de W.L. Craig explorando justamente os argumentos que deveriam respalda-las.

6. CRIAÇÃO A PARTIR DO NADA?

Como o título “Philosophical and Scientific Pointers to Creation ex Nihilo” sugere, Craig acredita que pode mostrar, não apenas que o universo foi criado por uma pessoa, mas que foi criado a partir do nada. Seu argumento para essa segunda afirmação apela para uma versão da teoria do Big Bang segundo a qual o universo emergiu de uma partícula infinitamente densa que explodiu há cerca de quinze bilhões de anos atrás.

Esse evento que marcou o início do universo se torna ainda mais fantástico quando refletimos sobre o fato de um estado “infinitamente denso” ser sinônimo de “nada.” Não pode haver nenhum objeto com uma densidade infinita, pois se este tivesse algum tamanho, não seria infinitamente denso. Portanto, como o astrônomo Fred Hoyle destaca, a teoria do Big Bang requer a criação da matéria a partir do nada. Isso ocorre porque à medida em que retrocedemos no tempo, alcançamos um ponto em que, nas palavras de Hoyle, o universo estava “reduzido a absolutamente nada.” Assim, 0 modelo do Big Bang demanda um universo com um início e criado a partir do nada.[19]

O argumento apresentado por Craig nesta passagem pode ser resumido da seguinte maneira:

a. De acordo com a teoria do Big Bang, o universo foi criado a partir de uma partícula infinitamente densa.

b. Não pode existir nenhum objeto de densidade infinita.

c. Logo uma “densidade infinita” é sinônimo de “nada”.

d. Por isso, a teoria do Big Bang implica na criação do universo a partir do nada.

Esse argumento é extremamente confuso. Há uma razão que torna a inferência em c obviamente falsa. “Densidade infinita” não é sinônimo de “nada”, e a singularidade inicial que aparece na teoria do Big Bang não é simplesmente o nada absoluto. Um mero nada não poderia explodir, como supõe-se ter ocorrido com a singularidade inicial. E mesmo se carecesse de extensão espaciotemporal, a singularidade teria outras propriedades. Para os principiantes, ela tinha a propriedade de ser “infinitamente densa”. Sendo, portanto, algo completamente excepcional, e não um simples nada.

Mas isso não é tudo. Se a premissa b é verdadeira – se é mesmo verdade que “não pode haver um objeto de densidade infinita”, então, essa versão da teoria do Big Bang é absolutamentemente falsa, já que afirma que um objeto deste tipo já existiu.

Até agora, então, parece que a teoria do Big Bang não forneceu respaldo algum para a afirmação de que o universo foi criado a partir do nada. Em outro lugar, contudo, Craig explica sua posição de forma algo diferente.

Em tal modelo o universo origina-se ex nihilo no sentido de que na singularidade inicial é verdadeiro que Não existe ponto espaçotemporal anterior ou é falso que Alguma coisa existia anterior à singularidade.[20]

Nessa passagem, Craig não nega que uma partícula infinitamente densa poderia existir. Tampouco fala que a “singularidade inicial” é um mero “nada.” O que ele diz, pelo contrário, é que nada precede a singularidade inicial no tempo, e que, supostamente, isso mostra que a singularidade inicial foi criada a partir do nada. O argumento segue dessa forma:

e. A singularidade existiu no mais antigo ponto do espaço-tempo.

f. Não existe tempo anterior ao mais antigo ponto do espaço-tempo.

g. Logo, não houve nada temporalmente anterior à singularidade inicial.

h. Portanto, a singularidade inicial deve ter sido criada a partir do nada.

Existem pelos menos dois problemas com esse argumento. Por razões já apresentadas na seção 3, não penso que a teoria do Big Bang implique a veracidade da premissa f. Mesmo se concedêssemos que o espaço-tempo começou com a singularidade, isso não implicaria que o tempo metafísico começou com o primeiro momento do espaço-tempo. Recordando que na visão de Craig, Deus poderia ter criado o tempo antes de criar o espaço-tempo de nosso universo. Isso implica que poderia ter existido algo anterior ao mais antigo ponto no espaço-tempo (t=0), e nesse caso a premissa f seria falsa. De toda maneira, a premissa f poderia ser verdadeira – o tempo metafísico e o espaço-tempo poderiam ter começado juntos. Mas já que a teoria do Big Bang não diz nada sobre o tempo metafísico, Craig não pode afirmar consistentemente que essa teoria mostra que isso ocorreu com o tempo metafísico.

Mas suponha que o primeiro momento do tempo metafísico coincida com o t = 0 do espaço-tempo de nosso universo. Isso ainda não nos dá uma criação ex nihilo. Apenas nos mostra que nosso universo não teria sido criado a partir de algo existente antes de t = 0. Com isso o passo h do argumento não segue de f sem uma premissa adicional:

i. Se não houve nada temporalmente anterior à singularidade inicial, então ela foi criada a partir do nada.

Mas que razões temos para pensar que esta premissa adicional seja verdadeira? Por que não poderia a singularidade inicial ter sido criada a partir de alguma coisa que exista atemporalmente? Isso vai depender do tipo de coisas existentes fora do tempo. De acordo com Craig, nós sabemos que Deus, como causa primeira do universo, existiu fora do tempo e “antes” da criação do universo. Mas por que supor que Deus é o único ser que existe fora do tempo? Por que também não poderia ter existido uma “substância” atemporal que Deus transformou num universo?

Craig acha que pode descartar essa possibilidade com base no fato de que matéria e energia são temporais por natureza. Mas por que supor que estas seriam as únicas “matérias-primas” possíveis a partir das quais Deus poderia fazer o universo? É verdade que não estamos familiarizados com nenhuma “matéria-prima” atemporal que poderia ter desempenhado este papel. Mas, da mesma forma, não não possuímos experiência com nenhuma pessoa atemporal, e Craig não vê problema algum com essa idéia. Então, por que não poderia ter existido uma “substância” atemporal com a qual Deus poderia ter feito seu trabalho?

Não estou propondo isto como uma hipótese particularmente provável. Parece-me que nós definitivamente não dispomos de dados suficientes para decidir a partir de que (se é que houve qualquer coisa) Deus (se Ele existir) pode ter feito o universo. Como um sábio filósofo disse certa vez, “Nossa corda é muito curta para sondar tal abismo.”[21] Estou certo de uma coisa – a teoria do Big Bang não resolve o problema favoravelmente à criação ex nihilo.

Questões sobre o artigo

1. Por que Craig pensa que a criação ex nihilo  resulta do modelo do Big Bang da origem do universo? Quais são as principais objeções de Morriston aos argumentos para esta alegação?

2. Seria a criação a partir do nada mais inteligível do que a criação pelo nada? Que implicações tem sua resposta para a premissa 1 do argumento kalam?

Notas.

[19] “Philosophical and Scientific Pointers to Creation ex Nihilo”, 192.

[20] “The Ultimate Question of Origins: God and the Beginning of the Universe”, Astrophysics and Space Science 269-270 (1999), 723-740.

[21] David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, seção 7, parte 1.

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