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Posts Tagged ‘Violência Religiosa’

Título Original: Stalinismo

Fonte: Fighting Words: The Origins Of Religious Violence, págs. 325-334, (Amherst, New York: Prometheus Books, 2005)

Autor: Hector Avalos, PhD

Hector Avalos é professor associado de Estudos Religiosos na Iowa State University, diretor executivo do Comitê para a Investigação Científica da Religião, ex-editor do Journal for the Critical Study of Religion, e autor ou editor de nove livros sobre estudos bíblicos e religiosos. De sua autoria o Rebeldia Metafísica já publicou O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto.

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

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Fighting Words não é apenas mais um livro sobre religião e violência.

Num mundo em que a violência parece estar por todos os lados, muitas vezes provocada por conflitos religiosos, muitas pessoas ainda defendem não que as principais religiões do mundo sejam inerentemente violentas, mas que as ações de uma minoria radical de seus adeptos o são. As religiões em si são pacíficas e fraternas e empenhadas em melhorar a condição humana. Este poderoso livro defende que as origens da violência enraízam-se profundamente na natureza da própria religião em si. Neste estudo intrigante e original da violência religiosa, Hector Avalos oferece uma nova teoria para o papel da religião em conflitos violentos. Começando com a premissa de que a maior parte da violência  resulta da escassez de recursos real ou percebida, Avalos defende persuasivamente que a religião cria novas necessidades baseadas em critérios ilusórios ou inverificáveis. Através de uma esmerada análise dos textos fundamentais do Judaísmo, do Cristianismo e do Islã, Avalos explica como quatro recursos “escassos” tem repetidas vezes desempenhado um papel crucial na produção de violência religiosa: espaço sagrado, a criação de escrituras sagradas, privilégios grupais e salvação.

A criação de espaços sagrados pode gerar violência quando dois ou mais grupos desejam o mesmo espaço sagrado, e este tem sido o caso em vários conflitos do Oriente Médio, desde as Cruzadas até o moderno conflito entre os Estados Unidos e Osama Bin Laden. A inscrituração _ a criação de escrituras sagradas _ tornou-se um recurso escasso porque os fiéis sustentam que somente um livro ou conjunto de livros contém a revelação de Deus. Privilégios grupais tornam-se um recurso escasso quando aos infiéis é vedado usufruir dos mesmos privilégios dos fiéis. Muito buscada após os privilégios é a salvação, um dos recursos mais escassos de todos em algumas religiões.

Comparando a violência em contextos religiosos e não-religiosos, Avalos constrói o persuasivo argumento segundo o qual se condenamos a violência causada por escassez de recursos como moralmente objetável, então devemos considerar ainda mais objetável a violência provocada pela alegada escassez de recursos cuja existência sequer pode ser demonstrada. Além disso,  ele mostra como vários estudiosos da religião contemporâneos sustentam o valor dos textos sagrados apesar de sua violência.

O livro é dividido em quatro partes. A Parte 1 sumariza explicações prévias para a violência, situando a tese central do livro no contexto dessas explicações, bem como explicando porque a maioria das explicações anteriores não teve êxito em identificar os mecanismos mais básicos da violência. A Parte 2 introduz o arcabouço teórico da teoria dos recursos escassos, sobre a qual a tese central do livro foi erigida. A Parte 2 também contém o principal do livro na medida em que ilustra detalhadamente como sua tese se aplica ao Judaísmo, ao Cristianismo e ao Islã.

A Parte 3 (à qual pertence o texto a seguir) examina alegados exemplos de violência secular. Isto é importante porque vários acadêmicos assumem que a violência secular é em grande medida responsável pelo que parece ser violência religiosa. São demonstradas as origens religiosas das maiores instâncias de violência (por exemplo, o Holocausto Nazista e o Dia de São Bartolomeu) que tem sido atribuídos a forças políticas e seculares. A quarta e última parte sintetiza a tese mostrando como a violência secular difere da violência religiosa, além de oferecer soluções e aplicações práticas para a teoria.

Este sério exame filosófico das raízes da violência religiosa acrescenta muito à nossa compreensão de uma fonte perene de sofrimento humano generalizado.

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Se Hitler não se qualifica como ateu, Stalin certamente o faz aos olhos de muitos. Além disso, tem-se afirmado que o terror stalinista oferece um exemplo radical de como a violência pode ser causada pelo ateísmo. Vance Farrel, autor do compêndio antievolucionista The Evolution Cruncher, nos diz que “Lenin foi um ardente evolucionista, assim como Stalin. Com efeito, foi a mensagem que ele encontrou no livro de Darwin que transformou Stalin na criatura bestial que ele veio a se tornar.”[1] Em geral, tais declarações são escassamente documentadas ou vem de fontes secundárias.

Nossa discussão mostrará que o reinado de terror de Stalin teve tanto a ver com política quanto com ateísmo. Stalin, na verdade, manteve uma relação complexa com as instituições religiosas na União Soviética. Muito de nossa discussão será documentada com materiais de arquivos que foram trazidos à luz somente com a chegada da glasnot e a queda do Comunismo.

Josef Stalin (1879-1953) foi o líder de aço da União Soviética de 1924 a 1953. De acordo com as melhores biografias, Stalin nasceu Josif Dzhugashvili numa família de camponeses analfabetos em Gori, Georgia.[2] Sua mãe o imaginava como um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa, e Stalin realmente recebeu uma educação religiosa até por volta de seus vinte anos. Ele começou suas atividades com os socialistas por volta de 1899, e tomou parte na Revolução Bolchevique que derrubou o czar Nicolau II (1868-1918) em 1917. Ele foi chamado de “Stalin” (“aço”) após a revolução. Após a morte de Vladimir Lenin (1870-1924), o motor primário da revolução, Stalin ascendeu ao poder após uma série de disputas com outros líderes comunistas. Na esteira do Grande Expurgo de seus rivais em 1936-38, Stalin governou praticamente como único ditador da União Soviética até sua morte em 1953.

A POLÍTICA DO GRANDE TERROR

Até cerca de uma década atrás, a maioria dos estudiosos e pesquisadores sabia realmente pouquíssimo sobre as opiniões pessoais de Josef Stalin a respeito da maioria dos assuntos, já que a maior parte de seus documentos mais significativos permanecia indisponível. Em 1990, Walter Laqueur, o destacado biógrafo de Stalin, lamentava, “até hoje os documentos particulares de Stalin não foram encontrados, e ninguém pode dizer com certeza se eles ainda existem”.[3]

Esta situação não impediu que se afirmarasse que Stalin é um excelente exemplo do mal que o ateísmo pode causar. John Blanchard, autor de um compêndio contra o ateísmo, diz sobre Stalin, “seu desprezo por Deus foi demonstrado sobretudo em sua sórdida perseguição aos fiéis, vários dos quais morreram por sua fé durante um sórdido expurgo que, segundo estimativas de uma autoridade no assunto, levou ao massacre sistemático de cerca de dez milhões de pessoas.[4]

Com o advento da era Gorbachev, os arquivos tornaram-se mais acessíveis aos pesquisadores. O final da década de 1990 testemunhou a publicação de importantes antologias de correspondências pessoais de Stalin e documentos concernentes ao Grande Terror, como os expurgos sob Stalin vieram a ser conhecidos. De especial importância é a correspondência mantida com Vyacheslav M. Molotov (1890-1986) e Lazar Kaganovich (1893-1957), dois de seus assistentes nas décadas de 1920 e 1930.[5] Igualmente importante é a documentação concernente ao período entre 1932 e 1939.[6]

Apesar das novas revelações, os motivos de Stalin para o Grande Terror ainda são difíceis de identificar. Como J. Arch Getty e Oleg V. Naumov comentam a respeito destes documentos recentemente revelados:

Eles não nos dizem exatamente quando Stalin tornou-se convicto de que o terror em larga escala era necessário, nem iluminam por inteiros seus pensamentos. Eles não provam se havia um plano para conduzir o terror ou a extensão em que planos deliberados foram feitos para facilita-lo. Pesquisadores e leitores ainda tem que fazer seus próprios julgamentos sobre estas questões, mas pelo menos agora eles dispõem de mais para continuar.[7]

Efetivamente, não podemos encontrar qualquer evidência direta de que a agenda pessoal do próprio Stalin levou à mortes por causa do ateísmo. Em outras palavras, Stalin nunca justificou qualquer ação com declarações diretas como “Eu não acredito em Deus, portanto estou cometendo o ato de violência X.” Como mostramos antes, tal não é o caso com várias das ações atribuídas a agentes religiosos em nossos exemplos. Em muitos daqueles casos, podemos de fato encontrar declarações diretas na forma: “Eu acredito que Deus deseja X, portanto estou cometendo o ato de violência Y.”

De qualquer maneira, também dizemos que inferência é um método admissível para estabelecer a causação, e podemos fazer o mesmo com Stalin. Stalin seguiu várias políticas antirreligiosas que podem razoavelmente ser atribuídas a seu ateísmo. Muitas evidências para isto foram reunidas nas obras de Dimitri Pospielovsky.[8] A perseguição de igrejas incluiu a interrupção de suas atividades, sua destruição, e o aprisionamento e o assassinato de membros do clero. Tais ações podem de fato ser reduzidas à forma: “Eu não acredito em Deus, portanto estou cometendo o ato de violência X.”

A obra de Pospielovsky também respalda o argumento de que nem todas as atividades antirreligiosas foram violentas. Por exemplo, algumas das atividades assumiram a forma de livros e conferências, como um livro sobre os Manuscritos do Mar Morto. Parte da violência contra as igrejas precisa ser redimensionada pelo fato de que às vezes os soviéticos estiveram favorecendo igrejas ou fiéis pró-sovietes. Igrejas que cooperaram com a agenda comunista recebiam autorização para manter suas atividades, ao passo que igrejas não-cooperativas geralmente eram violentamente reprimidas. De certo modo, isto não é diferente das relações entre a Igreja e o Estado no resto da Europa.[9]

Outros aspectos violentos do que é designado como o Grande Terror sob Stalin podem ser mostrados como primariamente políticos em vez de ateus. A fim de compreender isto, precisamos distinguir duas espécies diferentes porém relacionadas de agenda violenta durante o período stalinista. Uma foi dirigida contra os kulaks, o nome pelo qual eram conhecidos os fazendeiros prósperos ou quase qualquer um que se opôs às políticas agrícolas de Stalin. A outra campanha violenta foi interna, e dirigida contra os burocratas considerados contrários e hostis à Stalin ou à sua agenda.[10]

A liquidação dos kulaks é muito bem documentada. O próprio Stalin falou da “liquidação dos kulaks” como parte de sua agenda. Entretanto, isto tem pouco a ver com ateísmo. A ação contra os kulaks pode ser remontada ao primeiro dos planos quinquenais de Stalin, anunciado em 1929. Stalin imaginou uma industrialização em ritmo acelerado e a coletivização das fazendas. A rápida modernização da agricultura era necessária porque os kulaks produziam os alimentos que seriam consumidos pelos trabalhadores rumando para uma economia coletiva plenamente desenvolvida.

Os kulaks, naturalmente, eram contra a desapropriação de suas terras. Foi esta resistência que levou à execução em massa dos kulaks. Uma série de documentos cruciais aludem a este processo. Por exemplo, há um discurso proferido por Nicolai Bukharin (1888-1938), um colaborador muito próximo de Stalin e, durante algum tempo, líder de uma seção do Conselho Supremo para a Economia Nacional da União Soviética. Bukharin referiu-se a uma sessão plenária do Comitê Central Soviético em 19 de Dezembro de 1930 e comentou, “Em minha opinião, a destruição dos kulaks constitui, em primeiro lugar, um processo decisivo e, se me é permitido falar francamente, doloroso, implicando uma ruptura direta com a velha estrutura, um processo de remodelação [peredelka] da insignificante economia rural sobre as bases da coletivização socialista.”[11]

Um memorando de Kaganovich e M. F. Shkiriatov também sugere a natureza da resistência sendo suprimida pelos oficiais de Stalin. O memorando fala de uma organização contrarrevolucionária chamada “Partido da Comunidade Popular”. Segundo o memorando, “o objetivo desta organização contrarrevolucionária era destruir o poder soviético, a dissolução do kolkhozy e a restauração da agricultura individual [edinolichnoye khoziaistvo] como a forma de agricultura predominante.”[12] O memorando continua instando resistência a esta organização devido a sua utilização privilegiada de propaganda antissemita e a organização de “pogroms hitleristas”.[13]

Mesmo os críticos mais eloquentes de Stalin não atribuem sua violência ao ateísmo, mas antes a ummal dirigido desvelo pela rápida industrialização e pela coletivização. Talvez o crítico mais sincero de Stalin durante o período stalinista tenha sido M. N. Riutin (1890-1937), que prestou serviços como um membro da Junta Governativa para o Supremo Conselho para a Economia Nacional. Em 1932 ele publicou o que veio a ser conhecido como Plataforma Riutin, um documento que foi suprimido. A Plataforma Riutin consiste numa crítica contundente a Stalin, e discutiu os kulaks. Riutin observou que o plano de Stalin mostrou-se efetivamente desastroso, comentando,

O lema de Stalin, “a liquidação dos kulaks como uma classe”, não pode levar a qualquer liquidação definitiva real dos kulaks, já que a base para este lema – “coletivização total” – não se baseia numa genuína “revolução em larga escala das zonas rurais rumo ao socialismo”. Ao contrário, alicerça-se nas formas mais diretas e indiretas da mais rigorosa coerção, planejada para obrigar os camponeses a entrarem para os kolkhozy. Não se baseia numa melhoria de sua condição mas em sua expropriação direta e indireta e na pauperização em larga escala.[14]

Observem que, da forma como Riutin a compreendia, a “liquidação dos kulaks como uma classe” envolveria sua transição da classe dos kulaks para a classe dos kolkhozy (fazendas coletivas). Supunha-se que isto resultaria no melhoramento dos ex-kulaks. Entretanto, o resultado não intencional do plano de Stalin foi deletério para os kulaks. Ironicamente, Riutin vê Stalin como o promotor de uma guerra civil que era contrária à verdadeira essência do Comunismo. Riutin, com efeito, recusa-se a categorizar Stalin como um dos grandes líderes comunistas, ao lado de Marx e Lênin.

Conquanto Riutin responsabilize pessoalmente Stalin pela destruição dos kulaks, é possível encontrar evidências de que Stalin não era capaz de controlar os oficiais superdedicados que eram pessoalmente responsáveis pela violência contra os kulaks. Como observado por Getty e Naumov, Stalin até mesmo determinou uma “pausa na coletivização forçada e ordenou uma redução no uso da violência contra os camponeses” em um artigo publicado na edição de 2 de março de 1930 do jornal Pravda.[15]

Um decreto sigiloso, agora tornado público, mostra que a destruição dos kulaks pode ser vista parcialmente como um caso em que os escalões inferiores foram mais longe do que os escalões superiores pretenderam originalmente. Este decreto, publicado pelo Comitê Central e datado de 8 de Maio de 1933, instrui os oficiais de baixo escalão a parar de prender pessoas “sem nenhuma razão” e a abandonar a prática de “prender primeiro, perguntar depois”.[16] O decreto chega a declarar:

Estes camaradas não compreendem que o método de  prisões desordenadas em massa, se é que isto pode ser considerado um método – representa, à luz da nova situação, apenas vulnerabilidades, o que diminui a autoridade do poder soviético. Eles não compreendem que a realização de prisões deve ser limitada e conduzida sob o controle estrito dos órgãos apropriados. Eles não compreendem que as prisões devem ser dirigidas exclusivamente contra os inimigos ativos do poder soviético.[17]

Getty e Naumov observam a hipocrisia deste decreto à luz do fato de que estes oficiais estavam tentando reverter a violência que eles próprios haviam sancionado. Não obstante, permanece o fato de que nenhuma destas diretivas contra os kulaks pode ser vinculada exclusivamente ao ateísmo. As ações podem ser vistas como parte de um esforço brutal e mal orientado para impor a coletivização às massas.

STALIN E A IGREJA

Revelações recentes também ajudam a elucidar o complexo relacionamento de Stalin com a Igreja Ortodoxa Russa (IOR). De particular importância tem sido o trabalho de Tatiana A. Chumachenko, que leciona no Departamento de História Russa Moderna na Chelyabinsk State University. Seu livro Church and State in Soviet Russia: Russian Orthodoxy from World War II to the Khrushchev Years apareceu em inglês em 2000.[18] Mais recentemente, Steven Miner disponibilizou um estudo do período crucial entre 1941 e 1945.[19]

A obra de Chumachenko foi sobretudo arquivística, sendo sua fonte principal a coleção do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa. Estes arquivos são de especial importância pelo fato de nunca terem sido removidos ou expurgados. Dois grupos de documentos podem ser identificados, de acordo com Chumachenko. O primeiro grupo consiste de documentos de alto nível do próprio Conselho. Dentro deste grupo, Chumachenko encontrou Memorandos de Instruções dos Membros do Governo Relacionadas à Atividade da Igreja Ortodoxa Russa originalmente classificados como altamente confidenciais, que atualmente revelaram-se inestimáveis.[20] Um segundo grupo consiste de documentos que falam da relação entre o conselho e os comissários regionais.

O trabalho de Mikhail I. Odintsov também merece ser mencionado, na medida em que ajudou a estabelecer uma periodização das relações entre a Igreja e o Estado na ex-União Soviética.[21] Para Odintsov, o período entre 1943 e 1948-49 foi decisivo. Em 4 de Setembro de 1943, Stalin encontrou-se com os bispos da IOR. Georgi Karpov, o presidente do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa, escreveu um relatório sobre o encontro que veio a público somente em 1989. O texto russo foi publicado por Odintsov.[22]

O encontro resultou na normalização das relações com a IOR. Esta normalização levou ao Decreto 1095, publicado em 7 de Outubro de 1943.[23] O decreto delineou as obrigações do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa, que funcionou como a ligação oficial entre o governo e o Patriarca de Moscou. Ao conselho foi delegada, entre outras obrigações, da revisão de questionamentos e solicitações levantados pelo Patriarca de Moscou, bem como a supervisão da regulamentação de leis pertinentes às questões da Igreja. Resumindo, a normalização sob Stalin significou a transformação da Igreja num órgão governamental.

Para o russo ordinário, entretanto, isso significou o espetáculo de  “igrejas lotadas nos feriados ortodoxos, a possibilidade de conduzir ritos religiosos domésticos, tocar os sinos para conclamar os fiéis aos serviços religiosos, e procissões religiosas festivas acompanhadas por imensas multidões.”[24] O número de igrejas abertas mais do que duplicou (de 207 para 509) entre 1944 e 1945.[25] O número de igrejas e capelas cuja abertura foi relatada pelo Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa pulou de 9 829 em outubro de 1943, quando Stalin normalizou as relações com a IOR, para 14 187 em janeiro de 1948.[26] Em 1944 cerca de 148 000 pessoas compareceram às celebrações da Páscoa nas igrejas de Moscou.[27] Numa única igreja na cidade de Kuibyshev, 22 045 batismos foram registrados em 1945, e 5 412 foram registrados apenas nos três primeiros meses de 1946.[28]

Stalin prometeu assistência financeira para a IOR no encontro de 1943, e os registros mostram um aumento substancial nos aportes para a IOR. O orçamento para todas a igrejas russas foi de 550 000 rublos em 1946 e de 3 150 000 rublos em 1947. [29]

O que estes documentos também indicam é que as autoridades distritais algumas vezes desobedeceram as ordens de Stalin de mais tolerância para com a IOR. Em 1947 o conselho recebeu 2033 queixas de oposição das autoridades à abertura de igrejas.[30] Alguns oficiais recusaram-se a abrir instituições teológicas apesar das ordens assinadas pelo próprio Stalin.[31]

Mas as igrejas não estavam totalmente impotentes, mesmo contra alguns burocratas. Em 1944 na região Riazan, um comitê executivo regional tentou demolir uma construção que seria usada como igreja. A explicação oficial foi que a construção não era segura. Os burocratas encontraram resistência da parte dos trabalhadores nas fazendas coletivas, e por fim a construção foi declarada “em boas condições”.[32]

A IOR também cooperou com o governo na supressão de denominações rivais. Um exemplo é o movimento de renovação, conhecido também como a Igreja Viva, que tentou combinar Bolchevismo com Cristianismo Ortodoxo. A Igreja Viva, liderada pelo Arcebispo Alexander Vvdenskii, foi considerada cismática, sobretudo na medida em que permitia pessoas casadas no clero. Correspondências, incluindo alguns apontamentos de Stalin, mostram que existiu uma campanha ativa para provocar o desaparecimento dos renovacionistas. O movimento perdeu muito poder após a morte de Vvdenskii em 1946, embora algumas igrejas tenha continuado ativas pelo menos até 1948.[33]

Em todo caso, o estudo das relações entre a Igreja e o Estado sob Stalin mostram tanto um reinado ateu de terror contra a religião como uma postura mais conciliatória quando útil aos objetivos políticos de Stalin. Em vez de representar alguma inovação atéia radical, a normalização de Stalin assemelhou-se bastante às uniões entre a Igreja e o Estado em vários países cristãos ocidentais.[34] Em vez de mostrar o reinado de terror de Stalin simplesmente como uma trama ateísta, os novos documentos mostram que a IOR continuou sua aliança pré-comunista, embora tênue e complexa, com as elites no poder. Com efeito, a nova questão deveria ser a extensão em que a IOR cooperou com o governo para suprimir as denominações rivais.

COMUNISMO NA BÍBLIA

Em geral, a responsabilização do ateísmo pelos crimes de Stalin pode ser atrelada a uma equação simplista e falsa: “Comunismo = Ateísmo e Ateísmo = Comunismo”. Na verdade, o Comunismo, se definido como uma forma de organização social baseada na posse coletiva do patrimônio, definitivamente não precisa ser ateu. Existem movimentos significativos (por exemplo, a Teologia da Libertação) e grupos célebres (por exemplo, os huteritas) que se identificam como cristãos mas ainda adotam alguma forma de Comunismo. E a violência causada pela coletivização forçada de Stalin pode ser encontrada numa escala menor no caso bíblico de coletivização forçada discutido a seguir.

Na verdade, os leitores da Bíblia parecem ignorar que uma das primeiras formulações do Comunismo encontra-se no Novo Testamento.[35] O livro dos Atos dos Apóstolos relata a história de uma das primeiras formas de sociedade ideal constituída pelos cristãos primitivos. Lemos em Atos 4:32-35 sobre a natureza comunista desta sociedade:

Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um.

Além disso, este empreendimento coletivista foi seguido de violência e coerção na história imediatamente a seguir em Atos 5.

De acordo com Atos 5:1-11, Ananias e Safira eram um casal que havia vendido todos os seus bens como parte do processo de coletivização. Entretanto, ao contrário de um homem chamado Levi, que havia doado para os apóstolos todo o dinheiro arrecadado com a venda de seus bens, Ananias reteve para si uma parte do rendimento que deveria ter sido entregue aos apóstolos. O apóstolo Pedro imediatamente confrontou Ananias, e proferiu a seguinte acusação:

Ananias, como você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo e guardar para si uma parte do dinheiro que recebeu pela propriedade? Ela não lhe pertencia? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em seu poder? O que o levou a pensar em fazer tal coisa? Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus”. Ouvindo isso, Ananias caiu e morreu. Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido.

Cerca de três horas depois, Safira, ciente da retenção de rendimentos de Ananias, encontrou Pedro. O último pronunciou a sentença capital de Deus sobre ela, e ela morreu. A história termina em Atos 5:11 com a seguinte observação: “E grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram falar desses acontecimentos.

A história relatada no livro dos Atos dos Apóstolos possui dois elementos correspondentes na política stalinista, na medida em que a compreendemos. Primeiro, havia um objetivo declarado de coletivização. Segundo, os que foram flagrados não cooperando com a coletivização foram objetos de violência. O número de pessoas mortas pode ter sido diferente, mas o princípio é semelhante: a violência é um método apropriado para lidar com os que não cooperam com a coletivização.

Afirmar que o crime de Ananias foi mentir ou quebrar uma promessa feita a Deus não atenua o princípio correspondente que identificamos. O autor ainda endossa a ideia de que uma promessa para impor a coletivização pode ser cobrada pela violência. A única diferença significativa, é claro, é que as ordens e os desejos de Deus não são verificáveis, como o autor do livro de Atos afirmou. Qualquer pessoa morta sob estas premissas verdadeiramente teria sofrido por uma violação de uma promessa feita a uma entidade inexistente ou pelo menos a uma entidade de cuja existência não se tem conhecimento, ao passo que a violência sob Stalin violou as regras de uma pessoa que realmente existiu, não importa o quanto injustificadas essas regras possam ter sido.

[Acréscimo do tradutor: para os que insistem na alegada incompatibilidade entre socialismo, comunismo, esquerdismo ou seja lá como queiram chamar, e o Cristianismo, repito o que já havia dito no artigo sobre ateísmo e Holocausto: intérpretes modernos da doutrina cristã, como o influente apologista inglês C.S. Lewis, reconhecem que no aspecto econômico, uma sociedade construída sob princípios cristãos “seria o que se chama hoje em dia ‘de esquerda’(…) sua vida econômica seria bastante socialista“. Para maiores detalhes vejam o capítulo 3 do terceiro livro de Cristianismo Puro e Simples, Conduta Cristã – Moralidade Social]

SUMÁRIO

A ideia de que o ateísmo foi responsável pelo terror em larga escala sob o governo de Stalin é parcialmente verdadeira. O ateísmo certamente foi um elemento da razão para a violência antirreligiosa ao longo da era soviética. O fator mais importante, entretanto, parece ter sido político. As ações de Stalin contra os kulaks representam uma instância de uma política de coletivização forçada em vez de uma política ateísta. Outras ações repressivas poderiam ser vinculadas  à criação da identidade pan-soviética.[36] Em que medida a ação contra os kulaks foi conduzida por oficiais excessivamente dedicados e em que medida qualquer violência em larga escala representa o que Stalin inicialmente e pessoalmente tencionou é discutível. Tal coletivização forçada provavelmente levaria à violência quer se acreditasse em Deus, como no caso de Ananias e Safira, quer não, como no caso do Stalinismo.

Notas.

1. Vance Ferrel, The Evolution Cruncher (Altamont, TN: Evolution Facts, 2001), págs. 820-821.

2. Nossa biografia de Stalin foi extraída de Walter Laqueur, Stalin: The Glasnot Revelations (New York: Scribner’s, 1990).

3. Ibid. p. 337.

4. John Blanchard, Does God Believe In Atheists? (Auburn, MA: Evangelical Press, 2000), p. 68. Para uma resenha do livro de Blanchard, veja Hector Avalos, Free Inquiry (Outono 2002): 69-70.

5. Lars T. Lih, Oleg Naumov, e Oleg V. Khlevniuk, eds., Stalin’s Letters to Molotov (New Haven, CT: Yale University Press, 1995); R. W. Davies, Oleg V. Khlevniuk, e E. A. Rees, The Stalin-Kaganovich Correspondence 1931-36 (New Haven, CT: Yale University Press, 2003).

6.  J. Arch Getty e Oleg V. Naumov, The Road To Terror: Stalin and the Self-Destruction of the Bolsheviks, 1932-1939 (New Haven, CT: Yale University Press, 1999).

7.Ibid., p. 25.

8. Dimitry V. Pospielovsky, A History of Sovietic Atheism in Theory and Practice and the Believer, 3 vols. (London: Macmillan, 1987-88). Veja também Stephen K. Batalden, ed., Seeking God: The Recovery of Religious Identity in Orthodox Russia, Ukraine, and Georgia (DeKalb: Northern Illinois University Press, 1993).

9. Os exemplos são inúmeros, e incluem  especialmente Henrique VIII (1509-1547) e “Bloody” Mary I (1553-1558). Veja também, Peter A. Dykema e Heiko Oberman, eds., Anticlericalism in Late Medieval and Early Modern Europe (Leiden: Brill, 1993).

10. Veja também, Robert W. Thurston, Life and Terror in Stalin’s Russia 1934-1941 (New Haven, CT: Yale University Press, 1996).

11. Getty e Naumov, The Road to Terror, p. 47.

12. Ibid., p. 65.

13. Ibid.

14.Ibid., p.57.

15. Ibid., p. 109.

16. Ibid. p. 115.

17. Ibid.

18. Tatiana A. Chumachenko, Church and State in Soviet Russia: Russian Orthodoxy From World War II to the Krushchev Years, trad. Edward E. Roslof (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2002), p. 11. O título original é Gosudartsvo, pavoslavnaia tserkov, veruiushchie, 1941-1961 (Moscou: AIRO-XX, 1999).

19. Steven Merritt Miner, Stalin’s Holy War: Religion, Nationalism, and Alliance Politics 1941-1945 (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2003).

20. Chumachenko, Church and State, p. 11.

21. Mikhail I. Odintsov, Russie patriarkhi XX veka: Sud’by Otechestva I Tserkvi na stranitsakh arkhivnykh dokumentov (Moscou, RAGS, 1999).

22. Ibid., págs. 283-291. Figura como o documento nº 34 na coleção de documentos de Odintsov.

23. Para uma tradução em língua inglesa, veja Chumachenko, Church and State, pp. 17-18.

24. Ibid., p. 190.

25. Ibid., p. 59, tabela 1.1.

26. Ibid., p. 67, tabela 1.3.

27. Ibid., p. 85.

28. Ibid.

29. Ibid.

30. Ibid., p. 61.

31. Ibid., págs. 71-72.

32. Ibid., p. 62.

33. Ibid., p. 39.

34. Para a política de Stalin em relação aos judeus, veja Robert Weinberg, Stalin’s Forgotten Zion: Birobidzhan and the Making of a Soviet Jewish Homeland, Na Illustrated History, 1928-1996 (Berkeley and Los Angeles: University Of California Press, 1998); e Gennadi Kostyrchenko, Out of the Red Shadows: Anti-Semitism in Stalin’s Russia. (Amherst, NY: Prometheus Books, 1995). Para outros tratamentos da comunidade judaica soviética, veja Allan Laine Kagedan, Soviet Zion: The Quest For a Russian Jewish Homeland (New York: St. Martin’s, 1994); e Nora Levin, The Jews in the Soviet Union since 1917, 2 volumes. (London: I. B. Taturis, 1990).

35. Para uma aplicação clássica do marxismo à Bíblia, veja José P. Miranda, Marx and the Bible: A Critique of the Philosophy of Oppression, trad. John Eagleson (Maryknoll, NY: Orbis, 1974).

36. Para um estudo de como as práticas religiosas e medicinais autóctones dos cazaques foram afetadas pelo movimento rumo a uma identidade pan-soviética, veja Paula A. Michaels, Curative Powers: Medicine and Empire in Stalin’s Central Asia (Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2003). Para a política em relação aos muçulmanos, veja Alexandre Bennigsen e S. Enders Wimbush, Muslims of the Soviet Empire: A Guide (Bloomington: Indiana University Press, 1996).

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O Cristianismo surgiu como um movimento social/revitalicionista exatamente como vários anteriores e posteriores a ele, e seguiu um processo de evolução gradual absolutamente padronizado. Ele nasceu num momento de crise cultural, um momento no qual vieram à luz várias outras reações, muitas vezes bastante similares – a conquista da Palestina pelos romanos, e antes disso a introdução da cultura grega ou helenística. A experiência foi profundamente desnorteante para os antigos judeus; pessoas estrangeiras, um poder estrangeiro, idéias estrangeiras, deuses estrangeiros sobejavam, abundavam. Como em qualquer situação similar, houveram reações distintas e concomitantes. Já no século anterior ao de Jesus, o movimento político-militar dos Macabeus organizou um exército de libertação nacional no ano 160 AEC e reconquistou Jerusalém em 164 (este evento, a propósito, é a origem da tradição do Hanukkah). Mas o sucesso dos macabeus foi efêmero, e sob a autoridade romana uma série de adaptações judaicas apareceram consecutivamente. Os assim chamados saduceus eram os religiosos “conservadores” ou “elitistas” que buscavam preservar o poder sacerdotal tradicional, mesmo se isso significasse colaborar com os romanos. Os fariseus eram comparativamente inovadores que procuravam proteger a religião modificando-a: seu objetivo era “tornar a fé de Israel relevante para as situações cotidianas e para as novas circunstâncias sob o governo romano e os perigos da helenização”. Paralelamente, eles mantiveram algumas doutrinas, tais como a ressurreição final e a existência de anjos, que os judeus mais conservadores declararam ser meras inovações”[7](pontos de vista agora “tradicionais” no Cristianismo). Fora do establishment, outros movimentos independentes irromperam, se espalharam e se extinguiram. Os essênios constituíram um destes movimentos, uma espécie de grupo separatista que retirou-se para o deserto para escapar à odiosa influência alienígena. Outro foi o dos politicamente engajados zelotes que defendiam a revolta armada; ao passo que os sicários promoviam ousados assassinatos diários de oficiais romanos e colaboradores judeus.

Foi neste ambiente que o Cristianismo surgiu pela primeira vez. Ou, mais acuradamente, o que primeiro surgiu não era o “Cristianismo” mas um movimento de revitalização tipicamente irrisório que foi, com justiça, chamado de o Movimento de Jesus; em seu livro The Jesus Movement, Ekkehard e Wolfgang Stegemann definem-no como “a igreja primitiva de Jerusalém e as ‘igrejas da Judéia’ mencionadas pelo apóstolo Paulo.[8] Gerd Theissen, estudioso do Novo Testamento, data o período do Movimento de Jesus aproximadamente entre os anos 30 e 70 da Era Comum[9]

Há vários sentidos em que o “Cristianismo” não apareceu naqueles anos ou por vários anos ainda. O primeiro é que os membros “não tinha intenções de fundar uma nova ‘igreja‘” e em vez disso “permaneceram inteiramente dentro da matriz do Judaísmo.[10] Justo Gonzalez concorda: “Os cristãos primitivos não acreditaram estar fundando uma nova religião. Eles eram judeus, e… a mensagem cristã para os judeus não era que eles deveriam abandonar seu judaísmo. Ao contrário, agora que a Era Messiânica começara, eles deveriam ser judeus melhores[11]. Consequentemente, o Movimento de Jesus preservou a maior parte dos elementos do Judaísmo que herdaram (elementos por sua vez mesclados ao longo de uma história milenar – sobretudo a idéia messiânica), assim como os outros movimentos e profetas que perambulavam pela região, como Judas, Jônatas e Teudas[12].

Os próprios evangelhos são um segundo sentido em que o “cristianismo” fracassou em se materializar nesse período primitivo. O nascimento do Cristianismo foi múltiplo, sendo suas origens narradas em quatro versões diferentes (oficiais) que não são inteiramente compatíveis. Pior ainda, à medida em que as escrituras do movimento gradualmente tomavam forma, vários candidatos tiveram sua inclusão no cânone vetada, tais como os evangelhos “infantis” de João e Tomás; os assim chamados Evangelhos judeo-cristãos dos Hebreus, dos Nazarenos e dos Ebionitas; os evangelhos de Tomás, Pedro, Nicodemo, Maria, Filipe, Judas e Bartolomeu; os evangelhos “gnósticos”; e uma série de outras obras como o Diálogo do Salvador, o Apocalipse de Pedro, o Apócrifo de João, o Evangelho Copta dos Egípcios, e assim por diante. O Novo Testamento (ou Testamentos, pois existem múltiplas versões do cânone oficial em diferentes tradições cristãs) é (são) um exemplo clássico de história sendo escrita, ou construída, pelo vencedor. Pior ainda, Elaine Pagels, vencedora do National Book Award em 1979 por seu livro Os Evangelhos Gnósticos, construiu um caso convincente interpretando cada evangelho canônico como um produto condicionado pelo momento histórico e pela perspectiva de composição particular de cada um de seus autores; cada um deles reflete a política de seu período ao retratar Marcos em conciliação com os romanos, Mateus queixando-se dos fariseus, Lucas (o único evangelista gentio) escrevendo para “os gentios convertidos ao Cristianismo que se consideram os verdadeiros herdeiros de Israel,” e João apartando-se completamente da comunidade judaica corrupta[13].

Um terceiro e último problema – que permanece o problema definidor para o Cristianismo unificado – foi a diversidade de opiniões e atividade nas diversas comunidades cristãs primitivas locais. Esta é a questão das epístolas de Paulo, bem como de suas viagens, pois o movimento desarticulado tomou diferentes rumos em locais diferentes. Paulo batalhou para impor uma certa padronização, uma certa ortodoxia sobre as congregações discrepantes. Isto é especialmente significativo para o futuro do Cristianismo porque Paulo jamais se encontrou com ou ouviu Jesus pessoalmente, e as cartas e os esforços de pregação de Paulo ocorreram antes da composição dos Evangelhos. Ou seja, as epístolas paulinas são efetivamente os mais antigos registros documentais do movimento, portanto de várias maneiras ele moldou o Movimento de Jesus tanto quanto ou até mais do que o próprio Jesus. Talvez mais significativamente, como Theissen nos lembra, Paulo quase nunca cita Jesus porque ele nunca conheceu Jesus e porque as palavras de Jesus ainda não haviam sido registradas[14]. A principal contribuição de Paulo foi a criação do que Robert Wright, num cauteloso artigo publicado recentemente, chamou de “um bom Jesus”, um professor gentil cuja única “doutrina” foi o “amor” – uma concepção oportunista que emergiu “da interação entre as ambições que impulsionavam Paulo e seu ambiente social”[15]. Resumindo, Paulo foi burilando uma mensagem que ressonaria junto a, e incluiria, uma audiência mais ampla, gentis e judeus igualmente, “concedendo ao pragmatismo a primazia sobre o princípio escritural” (exceto pelo fato de que ainda não havia nenhuma escritura!).

Se o primeiro estágio do que veio a ser conhecido como Cristianismo foi o Movimento de Jesus, o estágio seguinte foi a igreja helenística, da qual Paulo foi o maior arquiteto, ele próprio um judeu helenizado (influenciado pela cultura grega). O Movimento de Jesus fracassou completamente na tarefa que originalmente se propôs, de reformar o Judaísmo e efetuar qualquer mudança real na fortuna política e espiritual dos judeus. O Movimento de Jesus basicamente desapareceu em Israel, deslocando-se para centros mais urbanizados e cosmopolitas no Oriente Médio e no Império Romano – e, segundo Gonzalez, sua sobrevivência deve-se parcialmente a sua mudança para estes locais e por não mais ser nem reivindicar ser um fenômeno especificamente judaico. Fora dos limites do paroquial universo do judaísmo, a igreja embrionária deparou-se com três importantes e entrelaçadas fontes de influência. A primeira foi o sistema social romano que praticava explicitamente o sincretismo religioso, tolerando e até mesmo encorajando a incorporação de toda sorte de práticas e idéias religiosas. A segunda foi um universo inteiro já constituído de “cultos de mistérios” bastante semelhantes, vários deles girando ao redor de semideuses que morreram e voltaram à vida como salvadores; não há nada de exclusivo ou de original acerca do tema principal do Cristianismo. A terceira foi a cultura dominante greco-helenística com suas poderosas tradições intelectuais e filosóficas. Foi neste ambiente que o “Cristianismo” evoluiu a partir do simples Movimento de Jesus, e foi para tais pessoas que as rédeas do Cristianismo foram passadas com as inevitáveis, duradouras e já conhecidas consequências.

O Cristianismo somente começou a crescer de verdade quando o Movimento de Jesus entrecruzou com a cultura helenística; o Cristianismo é uma religião no mínimo tão greco-romana quanto judaica. A igreja emergente encontrou dois aliados específicos no mundo helenístico: o sistema filosófico de Platão e a filosofia tardia do Estoicismo. Como Gonzalez apropriadamente observa, o Platonismo já havia questionado o panteão pagão e postulado um “reino superior” de verdade última, bem como uma alma imortal que era superior ao corpo inferior. O estoicismo foi em si uma adaptação do pensamento grego ao caráter fragmentado e urbano da vida contemporânea, sustentando a idéia de uma lei natural universal com a qual os humanos devem se harmonizar e à qual devem se submeter; o sentido da vida era a superação das paixões e o cultivo da “coragem, do discernimento moral, do auto-controle e da justiça”[16]. “Tudo isto vários cristãos primitivos acharam atraente e proveitoso”, e “embora à primeira vista estas tradições filosóficas fossem utilizadas para interpretar a fé aos não-convertidos, elas terminaram por influenciar o modo como os cristãos compreendiam sua própria fé.”[17]

Sob o fascínio exercido pela lei e pela sociedade romana e pela filosofia grega, um problema inevitável surgiu: quais exatamente eram as crenças e práticas da nova religião? Estas questões nunca foram solucionadas, em parte porque não havia necessidade de resolve-las – a igreja sendo relativamente pequena e o fim dos tempos estando supostamente próximo – e parcialmente porque a tradição intelectual de levantar perguntas desse tipo não existiu até que o Cristianismo absorvesse do espírito filosófico grego. Agora veio a primeira grande época de debates e controvérsias cristãs e, previsivelmente, de dissidências. Uma das questões era a relação entre a cultura cristã e as não-cristãs: alguns, como Tertuliano, opunham-se às influências pagãs e ainda assim evidenciavam essas influências envolvendo-se em debates e disputas escritas com descrentes, como na obra do próprio Tertuliano Prescrição Contra os Hereges. Outros, como Justino e Taciano, admiraram e valorizaram a cultura greco-romana vendo nela as raízes da crença judeo-cristã.

Uma outra e ainda mais problemática questão era o sentido e a interpretação exata das crenças cristãs: o próprio Jesus não escreveu nada e proferiu diversas coisas enigmáticas, e Paulo desenvolveu apenas alguns aspectos da doutrina – e mesmo estes apenas em certas direções. Havia muito para resolver e diversas soluções possíveis e disponíveis. Várias destas questões giravam em torno da identidade de Jesus e da leitura correta das (recentemente compiladas e de autoria obviamente humana) escrituras. Uma das mais antigas e mais persistentes visões era o gnosticismo, que afirmava que um grupo de privilegiados (naturalmente, os próprios gnósticos) possuíam um conhecimento esotérico profundo (gnosis é o termo grego para “conhecimento”, geralmente implicando sabedoria ou entedimento profundos) não disponível aos não-iniciados. O próprio gnosticismo era um agregado de movimentos e pontos de vista, mas todos compartilhavam uma noção dualista da matéria em oposição ao espírito e a noção do progresso em direção à pureza espiritual pelo conhecimento secreto (isto é, não escritural). Duas alegações heterodoxas principais do gnosticismo eram que Deus possui uma série de “emanações” ou “filhos”, incluindo uma filha Sofia (sabedoria), e que Jesus, sendo um espírito puro e perfeito, não possui um corpo humano e assim nunca esteve realmente encarnado. A ortodoxia em desenvolvimento sustentava que Jesus era ao mesmo tempo corpo e espírito, homem e Deus.

Esta polêmica acerca da humanidade e da divindade de Jesus foi um dos problemas mais incômodos para os cristãos primitivos e uma fonte de várias, se não da maioria, de suas heresias. Sabelius ensinou no segundo século que Jesus, assim como o Pai e o Espírito Santo, eram três “modos” do único Deus, tornando-o completamente divino e não humano, e se Jesus também não era (e igualmente?) humano, então ele não sofreu e morreu, o que contraria o entendimento ortodoxo da salvação. O docetismo (do termo grego dokesis, “parecer”) insistiu que Jesus apenas pareceu ser humano, mas que seu corpo físico na verdade era uma ilusão; no outro extremo do espectro, o “adocionismo” mantinha que Jesus era um mero homem que foi adotado por Deus, ou na concepção ou no batismo. A heresia de Marcião foi tanto mais radical como mais eficaz, pois ele na verdade concebeu o Deus bíblico Yahweh/Jehovah como um ser imperfeito ou talvez até mesmo malévolo que não era o Pai Supremo; o Deus acima de Yahweh/Jehovah era perfeitamente bom e o pai de Jesus. Por conseguinte, Marcião montou seu próprio cânone (antes que o Novo Testamento “oficial” fosse estabelecido) que incluía apenas o evangelho de Lucas e as epístolas paulinas. O mais alarmante de tudo, Marcião organizou sua própria igreja com sua própria liderança como uma alternativa séria à igreja “católica” nascente.

A lista de heresias primitivas poderia continuar e tem sido bem pesquisada. Montanus ofereceu uma forma de Cristianismo encorajando o dom da profecia e os estados extáticos e, obviamente, colocando as profecias montanistas acima das bíblicas e até mesmo acima da vida e dos ensinamentos de Jesus. Praxeras sustentou uma posição às vezes chamada de patripassianismo, segundo a qual Deus como pai sofreu a crucificação, já que Deus as vezes assume a forma de pai, às vezes a de filho, às vezes a de espírito. Pelágio sugeriu que o pecado original não era uma mácula eterna e indelével da natureza humana (de forma que os humanos poderiam ser bons sem Deus), ao passo que os euquitas ou messalianos defendiam que a essência da trindade era perceptível aos sentidos e que a salvação poderia ser obtida pela oração apenas, sem a igreja ou seus rituais e sacramentos. Dualismo extremos como o maniqueísmo e o mandeísmo opunham a luz (geralmente um princípio esiíritual) às trevas (geralmente o corpo e o mundo material). De qualquer maneira, uma das heresias mais resistentes foi o arianismo, proposto por Ário no começo do quarto século, que afirmou uma forma particularmente estrita de monoteísmo tal que Jesus não poderia ser divino (somente Deus era divino) e que Jesus não existira eternamente com Deus mas havia sido criado recentemente por Deus.

Controvérsias cristológicas deste tipo são irrelevantes, até mesmo ridículas, para não-cristãos, mas estes eram os assuntos que colocavam em risco as almas dos homens na igreja helenística. Estas questões foram supostamente respondidas na terceira geração das espécies cristãs, a igreja imperial. Quando o imperador romano Constantino converteu-se à nova fé e autoproclamou-se seu principal intérprete e mediador, várias destas controvérsias foram alegadamente encerradas por decreto ou maioria de votos. O Concílio de Nicéia em 325, por exemplo, adotou o credo ou profissão de fé que foi considerado normativo – Jesus foi “gerado, não criado” e “de uma substância (o termo técnico é homoousia, para “mesma-substância”)- e qualquer um que continuasse a acreditar que Jesus era “de uma substância diferente” ou que “antes de ser gerado Ele não era” (isto é, que Jesus não existia “no começo” ao lado de Deus) era “anatematizado” pela igreja oficial.

Os doutores da igreja, naturalmente, fracassaram em impedir a evolução do Cristianismo, assim como a própria conversão imperial contribuiu para evoluções posteriores. Uma das razões é que Constantino ilustra como o Cristianismo não tanto substituiu as religiões anteriores como na verdade foi erigido sobre elas: o imperador nunca abandonou sua religião pagã, permanecendo o sumo sacerdote do culto romano e instituindo o primeiro dia da semana, o dia pagão dedicado a honrar o Sol Invicto – ou “Dia do Sol” (“sun-day” em inglês) – como o Sabbath do Cristianismo. A elevação do Cristianismo ao posto de religião oficial pôs termo às perseguições e portanto à subcultura do martírio que floresceu sob a opressão; Tertuliano, entre outros, insistiu que não havia outro meio de alcançar a salvação exceto pelo derramamento do próprio sangue cristão. Uma vez no poder, os cristãos abandonaram a atitude. Outra atitude que perdeu sua razão de ser foi a oposição ao serviço militar: os cristãos primitivos tinha muitas vezes recusado (ou sido proibidos de) servir no exército sob a premissa política de que tal obrigação exigia a veneração do imperador bem como sob a premissa espiritual de que matar era errado. Mas a objeção cristã à guerra foi rapidamente abandonada quando a religião alcançou a primazia política; com efeito, “a prática dos cristãos primitivos foi a tal ponto revertida por volta dos princípios do quinto século que sob Teodósio II aqueles maculados pela prática de rituais pagãos foram excluídos do exército – somente cristãos poderiam servir”[18]. A adesão cristã à guerra alcançou seu clímax nas Cruzadas (“guerras da cruz”) nos séculos 11 e 12, com, literalmente, batalhões de monges-guerreiros como os Cavaleiros Templários causando estragos na Terra Santa porque Deus lo volt – “Deus assim o quis”.

No período imperial da igreja, se a ortodoxia ainda não estava firmemente estabelecida, pelo menos diversos dos modelos que se transformariam na Igreja Católica estavam instituídos: “A adoração cristã começou a ser influenciada pelo protocolo imperial”[19], desde as luxuosas e paramentadas indumentárias clericais até as catedrais ricamente ornamentadas e os rituais complexos. O Cristianismo não somente apropriou-se de formas de domínio político-secular como também contribuiu para a estabilidade deste último: a religião “tornou-se cada vez mais o cimento social do estado totalitário da antiguidade tardia”[20]. Isto incluiu censurar os inimigos do Estado-Igreja, e estes inimigos incluíam não somente impérios rivais e hordas de bárbaros como também hereges que desafiaram a ortodoxia e a unidade do Estado-igreja. O Concílio da Calcedônia (380) tornou a heterodoxia um crime punível pelo Estado (a igreja muitas vezes delegou seu trabalho sujo às autoridades seculares). Subsquentemente, “a intolerância religiosa logo se tornou um princípio cristão”:

No período de 380 a 395, os éditos imperiais privaram todos os hereges e pagãos do direito de exercer sua religião, expulsou-os dos cargos civis, e os sujeitou à severas penalidades, confiscos de propriedades, exílio e, em certos casos, à morte. Por volta de 435, haviam 66 leis contra as heresias cristãs além de várias outras contra os pagãos. O objetivo da perseguição foi converter os hereges e os pagãos, estabelecendo assim a uniformidade.[21]

Mas nem mesmo a execução do bispo Prisciliano da Espanha e outros seis em 385 foi capaz de impedir a continuidade da evolução do Cristianismo.

Quando o império terminou, o mesmo não ocorreu com a igreja imperial; em vez disso, de certa forma ela foi libertada, mas também foi alterada pelo influxo de “bárbaros” e sua ascensão ao poder político real. Várias tribos não-romanas (godos, vândalos, etc.) foram cristianizadas, mas o cristianismo também foi barbarizado: doutrinas de choque como o inferno foram realçadas e enfatizadas para apelar às mentes menos sofisticadas. A Igreja Católica também se autoproclamou uma fazedora de reis, outorgando-se o direito de coroar líderes de Estado como Charlemagne. E o “papado”, sob alguns pontos de vista nada além do episcopado de Roma, terminou por se ver como a encarnação de Jesus na terra, o “vigário de Cristo”, a sede global da autoridade cristã.

Outros bispos, entretanto, não necessariamente viram as coisas dessa forma. Para alguns, cada bispo detinha o mesmo poder que os outros, e as asserções de preeminência foram apenas um acréscimo às divisões entre a igreja Católica ou “Ocidental” ou “Latina” e outras igrejas “orientais”. As igrejas egípcias e etíopes há muito matinham uma identidade local distinta, e a igreja na antiga capital (Constantinopla ou Bizâncio) encontrou-se em atritos crescentes com Roma acerca de várias questões, desde a autoridade papal até o uso de imagens na adoração e o celibato clerical. A Igreja Bizantina (ou Oriental ou Ortodoxa) também conduziu suas próprias atividades missionárias, incluindo territórios na Rússia e na Europa Oriental. Em 1054 a Igreja Romana excomungou a Igreja Bizantina, criando o primeiro cisma permanente ou especiação no Cristianismo europeu. Naturalmente, tanto à época como agora a Igreja Ortodoxa é na verdade uma família de igrejas “nacionais” (Ortodoxa Grega, Ortodoxa Russa, Ortodoxa, Ortodoxa Letã, etc. ), um conjunto permanente de subespécies do Cristianismo.

À medida em que a igreja imperial dava lugar à igreja medieval, não havia nenhuma Igreja mas apenas igrejas. A situação jamais se reverteria como na verdade somente se agravaria, acompanhando o fluxo e o refluxo das seitas, cismas, movimentos e heresias. Dentre os que desafiaram a unidade do cristianismo ocidental podemos citar

  • Peter Waldo e os Waldenses (1100s-1340s);
  • Os Cátaros ou Albigensianos (1000s-1300s) contra os quais a Santa Inquisição foi amplamente dirigida;
  • John Wycliffe e os Lolardos (1300s);
  • Os Irmãos do Espírito Livre (1300s);
  • Jan Huss e os Hussitas (1400s), que empreenderam uma longa e dispendiosa guerra contra a Igreja Católica;
  • Os Huguenotes (1500s);
  • Os Protestantes, sobretudo os Luteranos que seguiram Martinho Lutero (1518) e então os Calvinistas de João Calvino, mais tarde seguidos por George Fox e os Quacres ou Sociedade dos Amigos, o Rei Henrique VIII e os Anglicanos, e vários, vários outros grupos pitorescos como os Faladores, os Niveladores, os Anabatistas, ad infinitum – estes grupos muitas vezes dividindo-se em em subrupos e sub-subgrupos.

(Continua…)

Notas.

7. Justo L. Gonzalez, The Story of Christianity Volume I: The Early Church to the Dawn of the Reformation (New York: HarperOne, 1984), 10.

8. Ekkehard Stegemann and Wolfgang Stegemann, The Jesus Movement: A Social History of Its First Century (Minneapolis: Fortress, 1999), 1.

9. Gerd Theissen, Sociology of Early Palestinian Christianity (Philadelphia: Fortress, 1978), 1.

10. Ibid., 17.

11. Gonzalez, The Story of Christianity, 31.

12. Theissen, Early Palestinian Christianity, 60.

13. Elaine Pagels, The Origin of Satan (New York: Random House, 1995), 89.

14. Theissen, Early Palestinian Christianity, 115.

15. Robert Wright, “One World, Under God,” Atlantic Monthly, April 2009.

16. Gonzalez, The Story of Christianity, 17.

17. Ibid., 16–17.

18. Roland Bainton, Christian Attitudes Toward War and Peace: A Historical Survey and Critical Evaluation (New York: Abingdon, 1960), 88.

19. Gonzalez, The Story of Christianity, 125.

20. Theissen, Early Palestinian Christianity, 119.

21. Leonard W. Levy, Blasphemy: Verbal Of fense against the Sacred, from Moses to Salman Rushdie (New York: Alfred A. Knopf, 1993), 44.

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