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Posts Tagged ‘Visão Trágica de Mundo’

Autor: Arthur Schopenhauer

Fonte: The Essays of Arthur Schopenhauer – Volume Three: Studies in Pessimism (Pennsylvania State University, 2005), pp. 71-75.

Kant escreveu um Tratado Sobre Os Poderes Vitais. Eu preferiria escrever um lamento por eles. A exibição superabundante de vitalidade, que assume ubiquamente a forma de batidas, marteladas e arremessos de coisas, assumiu ao longo de toda minha vida a forma de um tormento diário. Há pessoas, é verdade, – melhor dizendo, a grande maioria das pessoas – que acham graça de tais coisas, pois não são sensíveis ao barulho; mas estas são exatamente as mesmas pessoas que também não se deixam afetar por argumentos, ou são também insensíveis ao pensamento, à poesia ou à arte; numa sentença, são imunes a qualquer tipo de influência intelectual. A razão disso é que o tecido de seus cérebros é de uma qualidade muito grosseira e vulgar. Por outro lado, o barulho é uma tortura para as pessoas intelectuais. Nas biografias de quase todos os grandes autores, ou em qualquer outro lugar em que seus ditos estejam registrados, encontro queixas a respeito disso; no caso de Kant, por exemplo, e de Goethe, Lichtenberg e Jean Paul; e se porventura algum autor deixou de se manifestar sobre o assunto, terá sido apenas por falta de oportunidade.

Esta aversão ao barulho eu explicaria da seguinte maneira: se você quebrar um diamante grande em pequeninos fragmentos, ele perderá completamente o valor que possuía quando inteiro; um exército dividido em pequenos grupos de soldados perde toda a sua força. De maneira similar, um grande intelecto decai ao nível de um intelecto ordinário tão logo é interrompido e perturbado, sua atenção distraída e desviada do problema de que se ocupa; pois sua superioridade depende de seu poder de concentração – de concentrar toda sua força sobre um único assunto, do mesmo modo que um espelho côncavo converge para um mesmo ponto todos os raios de luz que incidem sobre ele. Interrupções ruidosas são um empecilho a esta concentração. É esta a razão pela qual mentes notáveis invariavelmente demonstram tamanho desgosto por qualquer forma de perturbação como algo que invade sua mente e dissipa seus pensamentos. Acima de tudo eles demonstram aversão àquela interrupção violenta causada pelo barulho. Pessoas ordinárias não se incomodam muito com nada do tipo. A mais sensível e inteligente de todas as nações europeias promulga a regra “Nunca Interrompa!” como o décimo-primeiro mandamento. O barulho é a mais impertinente de todas as formas de interrupção. Ele não é apenas uma interrupção, mas também uma destruição do pensamento. Naturalmente, onde não há nada para interromper, o barulho não será tão particularmente doloroso. Ocasionalmente acontece que algum ruído sutil mas constante me incomoda e distrai continuamente por algum tempo antes que eu me torne distintamente consciente dele. Tudo o que sinto é um aumento uniforme do esforço mental – como se eu estivesse tentando caminhar com um peso em meus pés. Por fim eu descubro o que é. De qualquer maneira, passemos agora do gênero às espécies. O mais imperdoável e abominável de todos os barulhos é o estalo dos chicotes – uma coisa verdadeiramente infernal quando é feito nas ruas estreitas e ressonantes de uma cidade pequena. Eu o denuncio como aquilo que torna impossível uma vida pacífica; ele põe termo a todo pensamento suave. Que este estalo de chicotes seja permitido parece-me uma demonstração irrefutável do quão absurda e despropositada é a natureza da humanidade. Ninguém com qualquer coisa semelhante a uma ideia em sua cabeça pode deixar de sentir uma verdadeira dor ao escutar este estalo súbito e afiado que paralisa o cérebro, rompe a trama da reflexão e mata o pensamento. Cada uma de suas ocorrências deve perturbar uma centena de pessoas envolvidas com algum tipo de trabalho mental, não importa o quão trivial; enquanto sobre o pensador seu efeito é catastrófico e desesperador, desmembrando seus pensamentos como o machado de um carrasco decepa a cabeça do condenado. Nenhum som, não importa o quão agudo, penetra de maneira tão afiada no cérebro como este maldito estalo de chicotes; você sente o aguilhão do chicote lá dentro da sua cabeça; e ele afeta o cérebro da mesma maneira que o toque afeta uma planta sensitiva, e pelo mesmo intervalo de tempo.

Com o devido respeito pela sagrada doutrina da utilidade, eu realmente não consigo ver por que razão uma pessoa conduzindo uma carroça de entulho ou esterco teria o direito de abortar os pensamentos que porventura estejam brotando em dez mil cabeças – o número de pessoas que ele perturbará uma após a outra em meia hora percorrendo a cidade. Batidas, marteladas, latidos de cães e gritos de crianças são horríveis aos ouvidos; mas o único assassino genuíno de pensamentos é o estalo de um chicote; ele existe para o único propósito de destruir todo momento agradável de reflexão silenciosa que qualquer um possa ocasionalmente desfrutar. Se o condutor não dispusesse de nenhum outro meio pelo qual acelerar a marcha de seu cavalo além do mais abominável de todos os barulhos, ele estaria desculpado; mas o caso é exatamente o contrário. Este maldito estalar do chicote é não somente desnecessário como também inútil. Seu objetivo é produzir um efeito sobre a inteligência do cavalo; mas pelo constante abuso deste recurso, o animal se habitua ao som que, incidindo sobre uma sensibilidade embotada pelo abuso, deixa de produzir absolutamente qualquer efeito. O cavalo não acelera sua marcha por causa dele. Você tem um exemplo notável disso quando observa um taxista estalar incessantemente seu chicote enquanto roda lentamente à procura de passageiros. Se ele chicoteasse seu cavalo com o mínimo de força possível obteria o mesmo efeito. De qualquer maneira, supondo que fosse absolutamente necessário estalar o chicote a fim de manter o cavalo constantemente cônscio de sua presença, um ruído cem vezes mais fraco seria o bastante. Pois é um fato bem conhecido que, em relação à visão e à audição, os animais são sensíveis até mesmo aos mais tênues estímulos; eles estão atentos a coisas que mal percebemos. Os exemplos mais surpreendentes disso são oferecidos por cães e canários treinados.

É óbvio, portanto, que aqui estamos lidando com um ato de pura crueldade; melhor dizendo, com um desafio indecente lançado aos membros da comunidade que trabalham com suas cabeças por aqueles que trabalham com suas mãos. Que tamanha infâmia seja tolerada numa cidade é uma amostra de barbaridade e iniquidade, quanto mais porque isso poderia ser facilmente remediado por uma lei decretando que todo chicote deve ter um nó em sua ponta. Não pode haver nenhum mal em chamar a atenção das massas para o fato de que  as classes que lhe são superiores trabalham com suas cabeças, pois qualquer tipo de trabalho intelectual representa uma angústia mortal para o homem comum na rua. Um indivíduo que passa pelas vielas estreitas de uma cidade levando cavalos desocupados e continua estalando seu chicote por milhas a fio com toda a sua força merece receber umas boas cinco chibatadas por isso. Nenhum dos filantropos e legisladores do mundo empenhados em decretar a completa abolição dos castigos corporais jamais me convencerão do contrário!

Há algo ainda mais abominável do que o que acabei de descrever. É bastante comum vermos um carroceiro caminhando pela rua, completamente sozinho, sem qualquer cavalo, e ainda assim estalando incessantemente seu chicote, tão habituado o infeliz se tornou em consequência da injustificável tolerância para com esta prática. O corpo de um homem e as necessidades de seu corpo são atualmente tratados com a mais terna indulgência. Seria a mente pensante, então, a única coisa a nunca obter a mais ínfima medida de consideração ou proteção, para não mencionar respeito? Carroceiros, porteiros, mensageiros – estes são os burros de carga da humanidade; jamais deixemos de lhes dispensar um tratamento justo, honesto, cordial e prudente; mas não se deve permitir que eles obstruam o caminho dos mais elevados empreendimentos da humanidade fazendo barulho gratuito e excessivo. Eu gostaria muito de saber quantos pensamentos esplêndidos e grandiosos o mundo perdeu pelo estalo de um chicote. Se estivesse em meu poder, eu produziria nas cabeças destas pessoas uma associação indissolúvel de ideias entre o estalo de um chicote e a sensação da dor causada por uma chicotada.

Esperemos que a mais inteligente e refinada entre as nações dê os primeiros passos a este respeito, e então que os alemães tomem-na como modelo e sigam seu exemplo.[1] Enquanto isso, posso citar o que Thomas Hood diz a seu respeito[2]: “Para uma nação musical, eles são os mais ruidosos que já encontrei.” Que eles sejam assim é devido não ao fato de serem eles mais propensos a fazer barulho do que outros povos – eles negariam isso se você lhes perguntasse – mas a que seus sentidos são obtusos; consequentemente, quando ouvem um barulho, não os afeta muito. Não os perturba ao ler ou pensar, simplesmente porque eles não pensam; eles apenas fumam, sendo esta atividade seu sucedâneo para o pensamento. A tolerância geral para com barulho desnecessário – batidas de porta, por exemplo, uma demonstração de rispidez e falta de educação extremas – é evidência direta de que o hábito mental dominante é a estupidez e a falta de reflexão. Na Alemanha em particular, parece que cuidados são tomados, na forma de barulho, para que ninguém jamais pense. Para mencionar apenas um exemplo, considerem a diligência com que batidas e pancadas se fazem ouvir continuamente sem propósito algum.

Finalmente, em relação à literatura sobre o assunto tratado neste ensaio, tenho apenas uma obra para recomendar, mas muito boa. Refiro-me à epístola poética em terzo rimo pelo célebre pintor Bronzino, intitulada De’Romori: a Messe Luca Martini. Esta obra contém uma descrição detalhada da tortura à qual as pessoas são submetidas pelas várias espécies de barulho de uma pequena cidade italiana. Escrita num estilo tragicômico, é uma leitura bastante divertida. A epístola pode ser encontrada em Opere burlesche del Berni, Aretino ed altri, Vol. II, p. 258; aparentemente publicada em Utrecht em 1771.

Notas.

1. De acordo com uma notícia publicada pela Sociedade Protetora dos Animais em Munique, o uso supérfluo do chicote foi positivamente proibido em Nuremberg em dezembro de 1858.

2. Em Up the Rhine.

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Fonte: Gray, John. Cachorros de Palha:  Reflexões sobre humanos e outros animais (Rio de Janeiro: Record, 2007), págs. 113-118.

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Na pior das circunstâncias, a vida humana não é trágica, mas desprovida de sentido. A alma é quebrada, mas a vida persiste. Ao falhar a vontade, a máscara da tragédia cai ao chão. O que permanece é apenas sofrimento. O último sofrimento não pode ser contado. Se os mortos pudessem falar, não os entenderíamos. Somos sábios por nos apegarmos a um arremedo de tragédia: a verdade desvelada apenas nos cegaria.

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Hegel escreveu que a tragédia é a colisão do certo com o certo. É verdade que existe tragédia quando é impossível reconciliar importantes obrigações em choque umas com as outras, pois então o que quer que façamos conterá algum erro. Ainda assim, a tragédia nada tem a ver com moralidade.

Como um gênero reconhecível, a tragédia começa com Homero, mas não nasceu nos cantos que lemos hoje na Ilíada. Ela veio ao mundo com as figuras mascaradas, híbridos de animais e deuses, que celebravam o ciclo da natureza em festivais arcaicos. A tragédia nasceu no coro que cantava a vida e a morte míticas de Dioniso. De acordo com Gimbutas, “um uso litúrgico de participantes mascarados, os thiasotes ou tragoi, levou, em última instância, à sua aparição no palco e ao nascimento da tragédia.”

A tragédia nasce do mito, não da moralidade. Prometeu e Ícaro são heróis trágicos. Ainda assim, nenhum dos mitos nos quais aparecem nada tem a ver com dilemas morais. Nem as maiores tragédias gregas.

Se Eurípedes é o mais trágico dos escritores do teatro grego, não é porque lida com conflitos morais, mas porque entendeu que a razão não pode guiar a vida. Eurípedes rejeitava a crença que, para Sócrates, era a base da filosofia: de que, nas palavras de Dodds, “o erro moral, tal como o intelectual, só pode surgir de um fracasso em usar a razão que possuímos, e que, quando surge, tem que ser curável pelo processo intelectual, tal como ocorre com o erro intelectual.”

Assim como Homero, Eurípedes não compartilhava a fé de que o conhecimento, a bondade e a felicidade são uma e a mesma coisa. Para ambos, a tragédia vinha do embate entre o desejo humano e o destino. Sócrates destruiu essa visão arcaica das coisas. A razão nos capacitava a evitar o desastre ou então mostrava que o desastre não importa. É isso que Nietzsche quis dizer quando escreveu que Sócrates causou “a morte da tragédia”.

A essência da tragédia não é a colisão do certo com o certo. Existe tragédia quando os humanos se recusam a se submeter a circunstâncias que nem a coragem nem a inteligência podem remediar. A tragédia cai sobre aqueles que fizeram suas apostas contrariando todas as chances. A importância de seus objetivos é irrelevante. A vida de um pequeno criminoso pode ser trágica, enquanto a de um estadista mundial pode ser trivial.

Em nosso tempo, cristãos e humanistas juntaram-se para tornar a tragédia impossível. Para os cristãos, as tragédias são apenas bênçãos disfarçadas: o mundo – como diz Dante – é uma divina comédia; existe uma vida depois da vida na qual todas as lágrimas serão secadas. Para os humanistas, podemos almejar por um tempo em que todas as pessoas terão a chance de uma vida feliz; enquanto isso, a tragédia é um lembrete edificante de como podemos crescer no infortúnio. Mas é apenas em sermões ou no palco que os seres humanos são dignificados por extremos de sofrimento.

Varlam Shalamov, que, segundo Gustaw Herling, um sobrevivente do gulag, era “um escritor diante do qual toda a intelligentsia literária do gulag, incluindo Solzhenitsyn, deve curvar a cabeça”, foi preso pela primeira vez em 1929, quando tinha apenas 22 anos e ainda era um estudante de Direito na Universidade de Moscou. Foi condenado a três anos de trabalhos forçados em Solovki, uma ilha que havia sido transformada de um monastério ortodoxo em um campo de concentração soviético. Em 1937 foi preso novamente e condenado a cinco anos em Kolyma, no nordeste da Sibéria. Segundo estimativas conservadoras, cerca de três milhões de pessoas pereceram nesses campos árticos, e um terço ou mais dos prisioneiros morria a cada ano.

Shalamov passou 17 anos em Kolyma. Seu livro Kolyma Tales é escrito num estilo preciso, tchekoviano, sem nenhum tom didático como o encontrado nos trabalhos de Solzhenitsyn. Ainda assim, em ocasionais e lacônicas digressões e nas entrelinhas, existe uma mensagem: “quem quer que pense que pode se comportar de outra forma nunca tocou o verdadeiro fundo da vida; nunca teve que dar seu último suspiro em ‘um mundo sem heróis’.”

Kolyma era um lugar no qual a moralidade havia deixado de existir. Naquilo que Shalamov secamente chamou de “contos de fada literários”, profundos vínculos humanos são forjados sob a pressão da tragédia e da necessidade, mas na verdade nenhum vínculo de amizade ou simpatia era o forte o bastante para sobreviver à vida em Kolyma: “Se a tragédia e a necessidade puseram pessoas juntas e fizeram surgir uma amizade entre elas, então a necessidade não era extrema e a tragédia não era grande”, escreveu Shalamov. Com as vidas drenadas de todo sentido, poderia parecer que os prisioneiros não tivessem nenhuma razão para prosseguir; mas a maior parte estava fraca demais para aproveitar as chances que apareciam, de tempos em tempos, de terminar suas vidas de uma maneira que tivessem escolhido: “Há tempos em que um homem tem que se apressar para não perder a vontade de morrer.” Vencidos pela fome e pelo frio, moviam-se, insensivelmente, na direção de uma morte sem sentido.

Mulheres e crianças num gulag.

Mulheres e crianças submetidas a trabalho forçado num gulag.

Shalamov escreveu: “Existe muita coisa lá que um homem não deve saber, não deve ver; e, se vir, para ele é melhor morrer.” Após seu retorno dos campos, passou o resto de sua vida recusando-se a esquecer o que havia visto. Descrevendo sua viagem de volta a Moscou, escreveu:

Estava como se tivesse acabado de acordar de um sonho que havia durado anos. E, de repente, tive medo, e sentir um suor frio em meu corpo. Estava aterrorizado pela terrível força do homem, seu desejo e sua habilidade de esquecer. Percebi que estava pronto para esquecer tudo, para apagar vinte anos de minha vida. E, quando compreendi isso, conquistei a mim mesmo; soube que não iria permitir que minha memória esquecesse tudo que eu havia visto. E recuperei a calma e caí no sono.

Na pior das circunstâncias, a vida humana não é trágica, mas desprovida de sentido. A alma é quebrada, mas a vida persiste. Ao falhar a vontade, a máscara da tragédia cai ao chão. O que permanece é apenas sofrimento. O último sofrimento não pode ser contado. Se os mortos pudessem falar, não os entenderíamos. Somos sábios por nos apegarmos a um arremedo de tragédia: a verdade desvelada apenas nos cegaria. Como Czeslaw Milosz escreveu:

Nem-Um

Impunemente dá a si mesmo os olhos de um deus

Shalamov foi libertado de Kolyma em 1951, mas proibido de deixar a área. Em 1953 teve permissão de deixar a Sibéria, mas impedido de viver numa cidade grande. Voltou a Moscou em 1956 para descobrir que a esposa o havia deixado e a filha o havia rejeitado. Em seu aniversário de 75 anos, vivendo só, numa casa para idosos, cego, quase surdo e falando com grande dificuldade, ditou para seu único amigo que ocasionalmente o visitava diversos poemas curtos que foram publicados no exterior. Como resultado, foi tirado do asilo e, resistindo o tempo todo – talvez pensando que estivesse sendo levado de volta para Kolyma –, internado num hospital psiquiátrico. Três dias mais tarde, em 17 de janeiro de 1982, morreu “num quarto pequeno, com grades nas janelas, diante de uma porta acolchoada”.

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