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Posts Tagged ‘História da Ciência’

O texto a seguir é continuação de A Tragédia Da Teologia: Como A Igreja Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 3: Fundamentos Filosóficos De Uma Visão de Mundo Pró-Científica

por Andrew Bernstein

O maior filósofo da história, o homem cujo método incorporou a racionalidade baseada na observação acima de qualquer coisa, foi Aristóteles. Apesar de seus erros, as realizações extraordinárias de Aristóteles aumentaram significativamente nosso entendimento da natureza, nossos métodos para determinar suas propriedades, e, portanto, nossa capacidade de nos engajarmos na ciência. É impossível reconhecer a falsidade criminosa da alegação de Stark de que o Catolicismo medieval, e não a cultura grega, foi o maior responsável pelo compromisso ocidental com a razão sem levarmos em consideração a obra e a influência de Aristóteles.

Para Aristóteles, a realidade era constituída fundamentalmente de matéria organizada, o que ele denominou ousiai, ou seres elementares (isto é, entidades); por conseguinte, a realidade não era nem um agregado de impressões sensoriais discretas nem uma dimensão espiritual mais elevada mas o reino da natureza. Tais entidades (e todos os outros existentes) são o que são (a Lei da Identidade), e não são o que não são (a Lei da Não-Contradição). A mudança (ou processo) natural é analisada racionalmente em termos de matéria rearranjada, de coisas se transformando no que elas sempre tiveram o potencial para se transformar. Conquanto não aplicável apropriadamente a objetos inanimados, o princípio aristotélico de coisas se esforçando para atualizar seu potencial é profundamente frutífero para a compreensão dos seres vivos. O estudo de praticamente qualquer tema, de plantas à política, começa com a observação cuidadosa de uma ampla gama de fatos relevantes. “Ele impressionara-se com o fato de que embora os fatos por si não propiciem o entendimento…eles não obstante ainda são muito mais confiáveis do que qualquer teoria.[33] Os seres humanos, ao perceberem seu potencial para o pensamento e a conduta racional, poderiam aspirar a, e alcançar, a excelência, incluindo a absolutamente indispensável esfera moral. Por conseguinte, os homens poderiam sentir-se – merecidamente – dignos, honrados e, de um modo geral, felizes ao longo do curso de sua existência.

Ao contrário dos medievais, o pensamento de Aristóteles era completamente baseado na observação, no naturalismo, na racionalidade – não em deduções racionalistas a partir de premissas arbitrárias. Se vocábulos contemporâneos podem ser aplicados aos antigos de modo não-anacrônico, sua visão de mundo era predominantemente, para efeitos práticos exclusivamente, secular. Seus interesses foram a natureza, a vida e o homem – não o sobrenatural, o pós vida e deus. Sua extraordinária energia e curiosidade intelectual levaram-no a investigar todas as áreas conhecidas pelos homens em sua época – a lógica, a ética, a estética, a física, a metafísica, a biologia, a meteorologia, e outras mais – e a inaugurar o entendimento humano em várias delas.  Através do vasto conjunto de seus escritos, seu trabalho demonstrou “a busca passional pela verdade desapaixonada.” Jonathan Barnes, um destacado especialista em Aristóteles contemporâneo, coloca nos seguintes termos: “Ele [Aristóteles] domina a Antiguidade como um colosso intelectual. Ninguém antes dele contribuíra tanto para o conhecimento. Ninguém após ele pode ambicionar rivalizar com suas realizações.[34]

Ele representa o ápice, a coroação do comprometimento grego com a ciência e estudo da natureza. Muito da filosofia grega pré-aristotélica – Tales, Anaxímenes, Heráclito, Demócrito – consistiu numa tentativa de compreender as difíceis questões inerentes à multiplicidade atordoante da natureza: os problemas relativos à mudança (por exemplo, como é possível que um bebê transforme-se num homem adulto e no entanto permaneça a mesma pessoa?) e da identidade na multiplicidade (por exemplo, como é possível que uma planta, um inseto, um peixe e um homem sejam o mesmo tipo de coisa: um organismo vivo?). Aristóteles, o lógico seminal, impingiu à sua obra tanta racionalidade fervorosa quanto qualquer de seus predecessores – mas, em seu zelo pela observação, ele descartou seu racionalismo. Em sua obra História dos Animais, por exemplo, Aristóteles oferece uma explicação do desenvolvimento de um embrião galináceo baseada em esmeradas observações. Citando Jones: “O método de Aristóteles foi um antídoto revigorante ao racionalismo excessivo de seus predecessores filosóficos…[35]

E quanto a seus sucessores filosóficos no período medieval?

Embora não seja um medievalista, este que vos escreve desconhece qualquer cientista da Idade Média anterior a Alberto Magno no século XIII – um período de mais de 600 anos – que tenha adotado a abordagem escrupulosa de Aristóteles para o estudo da natureza. Como outros pensadores medievais, Alberto citou textos anteriores, religiosos ou seculares, como autoridades inquestionáveis. Entretanto, além disso ele foi um excelente observador da natureza, tendo navegado pelo Mar do Norte para coletar amostras para pesquisa, e contribuído significativamente tanto para a revitalização dos estudos de Aristóteles como para o desenvolvimento da ciência medieval. “Alberto tanto ajudou a apresentar a filosofia da ciência de Aristóteles ao mundo medieval como desafiou as concepções da natureza prevalecentes. Em resposta à tradição agostiniana, Alberto criticou a noção de que ideias na mente de Deus… existem independentemente e dão a natureza formal dos objetos sensíveis… Consequentemente, não somos obrigados a nos apoiar confiantemente no conhecimento de Deus para um conhecimento das coisas… A própria natureza pode nos revelar sua ordem. Com Alberto, a natureza, que fora muitas vezes emudecida pelos intelectuais medievais, encontraria sua própria voz. Uma vez descoberta e subitamente tornada articulada, sua voz gradualmente libertaria a ciência (e as artes) dos grilhões da teologia.[36]

Antes de Alberto, por pelo menos 500 anos, a personalidade “científica” dominante na Europa medieval fora Isidoro de Sevilha (560-636), cuja obra Etimologias, “um amontoado desordenado…de informação e desinformação… fora a principal autoridade por toda a Alta Idade Média .[37] Isidoro, em consonância com o espírito religioso de sua época, atribuiu às afirmações sobre o domínio sobrenatural uma importância e uma segurança vastamente superiores às das afirmações sobre a natureza. Consequentemente, ele repetiu acriticamente fantasias sem fundamento sobre o mundo material, e não reconheceu nenhuma importância na observação sensorial. Não obstante, ele foi, por séculos, citado como a maior autoridade científica e, como Jones observa, “a ciência do século XII avançou pouco além de Isidoro de Sevilha.[38]

Stark sabe, é claro, mas quase não menciona que a primazia das obras de Aristóteles no Ocidente foi perdida durante a Idade das Trevas entre os séculos V e IX – e que, não acidentalmente, a Renascença Medieval dos séculos XII e XIII coincide largamente com a recuperação do corpus aristotélico nos grandes centros de ensino islâmicos na Espanha. É um truísmo histórico que os avanços intelectuais significativos promovidos por Alberto, por seu brilhante aluno Tomás de Aquino e seus pares do começo do período escolástico, ocorreram sob a influência monumental de Aristóteles.[39]

Mesmo hoje, a influência profundamente benéfica de Aristóteles não é reconhecida em toda a sua magnitude. Não foi apenas (ou mesmo principalmente) as obras de Aristóteles que foram perdidas entre o final da Idade Antiga e a Alta Idade Média; foi seu espírito, sua abordagem, sua orientação, seu caso de amor cognitivo com este mundo. Quem estuda as obras de Aristóteles – e a história de sua perda e redescoberta séculos mais tarde pelo homem ocidental – vê claramente a relação causal recíproca e imensamente positiva entre a recuperação das obras de Aristóteles e a Renascença Medieval. Após intermináveis séculos de escravização da razão pela fé – e de hibernação da ciência e da filosofia secular – os homens dos séculos XII e XIII estavam sedentos por um conhecimento maior da natureza e pelos progressos práticos que tal conhecimento traz a reboque. E quem, em toda a história da humanidade até aquela época, possuiu um conhecimento da natureza maior do que o de Aristóteles?

Nas primeiras décadas do século XII, após La Reconquista ter expulsado os muçulmanos de grandes porções do território espanhol e as devolvido ao domínio católico, o arcebispo Raimundo I de Toledo apoiou o trabalho de tradução para o latim, empreendido por eruditos cristãos, muçulmanos e judeus de obras-primas gregas anteriormente perdidas, incluindo as de Aristóteles. E o conhecimento dessas obras-primas – sobretudo as de Aristóteles – inspirou, e em alguns casos inflamou, os principais pensadores do período com uma paixão ainda maior pelas verdades da natureza.

Resumindo, os europeus ocidentais redescobriram as obras de Aristóteles quando eles estavam desesperadamente ansiosos pela sabedoria e pelos métodos cognitivos contidos nestas obras. Não é nenhum exagero afirmar que quando o método aristotélico de racionalidade baseada na observação, em sintonia com suas incontáveis intuições e teorias específicas, prevaleceu culturalmente, grandes progressos aconteceram; quando ausente ou reprimido, nada se observou além de eras miseravelmente obscuras.

Entretanto, numa inversão estarrecedora desta verdade, Stark afirma que o compromisso ocidental com a razão e a ciência foi uma função do Cristianismo medieval e de Santo Agostinho – e que Aristóteles e os gregos foram obstáculos. Por exemplo, ele escreve que “Santo Agostinho raciocinou que a astrologia é falsa porque acreditar que o destino de alguém se encontra predestinado está em contradição com o dom divino do livre-arbítrio.” Baseado em tal “raciocínio” (isto é, em tal dedução racionalista a partir de uma premissa não-observacional, baseada na fé), Stark afirma que a ciência ocupou uma posição de destaque na Europa medieval.[40]

Stark, supostamente um adepto e defensor da lógica, dá muito pouco ou nenhum crédito a Aristóteles pela revolucionária criação de praticamente todo o campo da lógica. Stark tampouco faz qualquer referência às superlativas realizações científicas de Aristóteles, Arquimedes, Hipócrates e outros semelhantes. Em vez disso, ele faz afirmações como “Os elementos anticientíficos do pensamento grego combatidos com êxito por Santo Agostinho…” e “Foi em oposição explícita a Aristóteles e outros autores clássicos que os escolásticos avançaram rumo à ciência.[41]

Stark declara que os gregos foram não-científicos (até mesmo anticientíficos), porque “seu empirismo foi completamente ateórico, e sua teorização foi não-empírica”. Ele afirma que Aristóteles não permitia que os fatos restringissem sua teorização. Em Sobre os Céus, o filósofo grego ensinou que a velocidade com que os objetos caíam em direção ao solo era diretamente proporcional a seu peso; que uma pedra de dois quilos, por exemplo, cairia duas vezes mais rápido do que uma de um. Starl observa sarcasticamente que “uma visita a qualquer penhasco nas vizinhanças lhe teria permitido falsear esta proposição.[42]

Pode-se responder com um sarcasmo similar a Stark que uma visita às bibliotecas Moody/Jones no campus da University Baylor lhe teria permitido consultar as Obras Completas de Aristóteles e encontrar dados suficientes para refutar a sua própria teoria. Uma das razões é que Sobre os Céus é provavelmente uma obra da juventude de Aristóteles, quando ele ainda se encontrava sob grande influência de Platão e, consequentemente, mais transcendente, menos empírico e menos científico em seu pensamento. Apesar dos especialistas correntes em Aristóteles em geral rejeitarem diversas afirmações de Werner Jaeger, um dos principais especialistas em Aristóteles do século XX, eles em geral conservam sua ideia de que O Filósofo evoluiu a partir de um modo de pensamento originalmente platônico, quase religioso, para o grande filósofo cientista/naturalista de sua maturidade.

Mesmo assim, em Sobre os Céus Aristóteles critica diversas vezes seus predecessores, incluindo Platão, exatamente por suas teorias racionalistas e não-empíricas – e insiste que um raciocínio teórico sempre esteja em consonância com a observação sensorial. Ele diz, por exemplo: “A razão [pela qual seus predecessores erraram] é que seus princípios últimos são assumidos erroneamente; eles tinham certas visões predeterminadas, e estavam decididos a alinhar tudo em concordância com estas visões… como se alguns princípios não exigissem ser julgados por seus resultados, e particularmente a partir de sua conclusão última. E essa conclusão… no conhecimento da natureza é o fenômeno sempre e apropriadamente dado à percepção.[43]

Mais fundamentalmente, a obra inovadora de Aristóteles na biologia é suficiente para refutar a tese geral de Stark. Pois Aristóteles foi, por um lado, um observador cuidadoso e incisivo dos fatos biológicos. Sir David Ross, o eminente estudioso anglófono de Aristóteles no séxulo XX, assinala a título de exemplificação que Aristóteles “reconheceu… a natureza mamífera dos cetáceos – um fato negligenciado por todos os outros escritores até o século XVI.[44] De maneira similar, David Lindberg, um dos principais especialistas contemporâneos em história da ciência, escreve que Aristóteles “descreveu a placenta do ‘dogfish’ (uma espécie de tubarão)… em termos que não foram confirmados até o século XIX.” Aristóteles não somente superou os filósofos anteriores em sua devoção aos fatos observáveis concernentes às espécis animais – ele também foi “o primeiro a enfrentar o problema de sua classificação.” Ele discutiu mais de 500 espécies em sua História dos Animais; “a morfologia e o comportamento de vários são descritos num grau de detalhamento considerável, muitas vezes a partir de habilidosas dissecações.”[45]

Acima de tudo, porém, Aristóteles procurou explicar as causas dos animais serem como são. Ele não se contentou em meramente observar, dissecar e descrever as partes e o funcionamento dos animais; ele se empenhou arduamente para identificar os princípios primeiros que explanavam as razões pelas quais eles são o que são. Allan Gotthelf, professor do Departamento de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Pittsburgh, e um dos maiores especialistas contemporâneos na de Aristóteles, expressa nas seguintes palavras este ponto:

Por qualquer critério razoável que identifique um empreendimento científico – o objetivo de entender o que as coisas são e por que elas são como são, de alcançar esse entendimento pela descoberta de causas, de buscar essas causas através de um exame cuidadoso e sistemático de todo o espectro de dados relevantes, de basear as próprias conclusões somente na avaliação racional das evidências, e de organiza-las num todo sistemático, um conjunto de teorias com amplo poder explanatório remontando aos primeiros princípios… Aristóteles foi um grande cientistas, e um dos maiores.[46]

Não é sem razão que, ao cabo de dois milênios mais tarde, ninguém menos do que o biólogo Charles Darwin poderia dizer: “Lineu e Cuvier tem sido minhas duas divindades, embora de maneiras muito diferentes, mas eles não passam de colegiais quando comparados ao velho Aristóteles.[47] Numa veia similar, Ernst Mayr, um dos mais destacados biólogos do século XX, escreveu:

Ninguém antes de Darwin deu uma contribuição maior para nossa compreensão do mundo vivo do que Aristóteles… A característica mais notável de Aristóteles foi sua procura por causas. Ele não se satisfez meramente com levantar questões do tipo ‘como’, mas foi fabulosamente moderno ao levantar também questões do tipo ‘por quê’. Por que um organismo cresce a partir de um ovo fertilizado até a forma adulta perfeita?…[48]

Stark poderia ter averiguado com facilidade que, atualmente, na aurora do século XXI, Aristóteles é apropriada e universalmente reconhecido como um dos biólogos seminais da história – um pensador que, nas palavras de Lindberg, “contribuiu monumentalmente para o progresso das ciências biológicas.” Se um estudioso contemporâneo deseja difamar as realizações científicas de Aristóteles, ele deveria pelo menos se familiarizar com as fontes relevantes. Por exemplo, Stark poderia (e deveria) ler a obra prontamente acessível de Jonathan Barnes que, em meio ao debate sobre as realizações de Aristóteles na zoologia e na botânica, observou que “seus [de Aristóteles] estudos sobre os animais lançaram as bases para as ciências biológicas; e eles não foram superados por mais de dois mil anos após sua morte.[49]

De uma maneira geral, a visão de Stark de que a ciência assenta-se sobre um arcabouço teórico de Santo Agostinho e da teologia cristã, e que seu progresso foi obstruído por Aristóteles e os gregos, constitui uma fantástica barafúndia de erros. Que a ciência não é e não pode ser baseada nas deduções racionalistas baseadas na fé da religião já foi estabelecido. A natureza falaciosa da tentativa de Stark de desvincular a ciência de suas raízes no pensamento grego, sobretudo aristotélico, foi igualmente desmascarada.

Os escolásticos, os pensadores do período final da Idade Média, a partir do século XIII, eram cristãos aristotélicos. Para o mérito perene de vários intelectuais católicos do período, eles foram fascinados pelo que “O Filósofo” escrevera. Suas obras foram estudadas avidamente durante a renascença medieval desta época. Para o benefício do mundo contemporâneo, os escolásticos efetivamente, ao menos de início, “moveram-se em direção à ciência”. Alberto Magno e Tomás de Aquino foram de uma importância decisiva a este respeito. Mas foi o elemento aristotélico do amálgama – seu naturalismo, seu secularismo, sua racionalidade baseada na observação – o responsável pelo novo surto de interesse na natureza.

Os escolásticos, contudo, também foram cristãos aristotélicos carregando um fardo de séculos de fidelidade à metodologia cristã; eles transformaram as obras de Aristóteles em textos normativos, como se fossem baseados na fé ou em dogmas racionalistas. Consequentemente, estes cristãos aristotélicos opuseram-se aos princípios da ciência moderna. Mas foi o elemento cristão do amálgama que se evitou as descobertas empíricas inéditas, agarrando-se às conclusões específicas de Aristóteles do mesmo modo como se agarravam à crença em que uma sarça ardente falou ou que um virgem deu à luz. Em termos das respectivas epistemologias envolvidas, foi o elemento cristão que se apoiou pesadamente sobre a autoridade – em geral recusando-se a desafiar tanto as Escrituras como as obras dos Pais da Igreja.

Observem, por exemplo, o veredicto imposto a Galileu pela Inquisição Papal, que o condenou porque ele “sustentou e acreditou numa doutrina falsa e contrária à Santa Escritura.” A Inquisição puniu Galileu por acreditar que “alguém pode manter e defender… uma opinião após ela ter sido declarada e definida contrária à Santa Escritura.” Esta última foi, do ponto de vista da Inquisição, a mais sombria transgressão de Galileu. O método de Aristóteles, por outro lado, era orientado pela realidade, não baseado num texto – dirigido pela observação e pelos fatos, não centrado na fé em autoridades – e consequentemente não hesitou em desafiar as autoridades anteriores, incluindo seu respeitado mentor, Platão.[50]

A verdade é que os escolásticos não se moveram em direção à ciência em oposição a Aristóteles, como Stark alega. Antes, eles impediram a ciência apesar de Aristóteles. Eles opuseram-se a Galileu da mesma maneira – e utilizando o mesmo método – como, séculos mais tarde, os fundamentalistas opuseram-se a Darwin. Como Galileu – embora aprisionado numa batalha cultural fatal com tais mentalidades – acuradamente divisou: o próprio Aristóteles, com seu respeito capital pelas evidências, jamais teria rejeitado as descobertas observacionais reveladas pelo telescópio. Mas os escolásticos do século XVII, atando os conteúdos aristotélicos aos grilhões mortais de um método cristão, rejeitariam e de fato rejeitaram aquelas descobertas.[51]

É difícil imaginar um livro mais profundamente equivocado sobre tantos campos da investigação intelectual do que o livro de Stark A Vitória da Razão. Além de sua identificação – compartilhada por outros, sobretudo Ayn Rand – de que o compromisso com a razão foi a causa fundamental das realizações ocidentais, cada uma das principais teses do livro é flagrantemente equivocada. Diante da possibilidade desse livro se tornar culturalmente influente, ou de o mundo ocidental ser palco de uma duradoura renascença religiosa, a única resposta racional é: Deus nos livre!

[A série completa encontra-se disponível para download em formato pdf aqui.]

Notas.

33. Aristotle, Metafísica,tradução de Richard Hope (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1975), book I, pp. 3–6; Analíticos Posteriores, tradução de G. R. G. Mure in The Basic Works of Aristotle, editado por Richard McKeon (New York: Random House, 1941), book II, pp. 184–186; Nicomachean Ethics, editado por Richard McKeon, pp. 935–1112; W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol.1, The Classical Mind (New York: Harcourt, Brace and World, Inc., 1969), pp. 214–311. Sir David Ross, Aristotle (New York: Routledge, 1995), pp. 1–16, 161–239. John Herman Randall, Aristotle (New York: Columbia University Press, 1960), pp. 27–28, 107–144.

34. John Herman Randall, Aristotle (New York: Columbia University Press, 1960), p. 1. Jonathan Barnes, Aristotle (Oxford: Oxford University Press, 1982), p. 1. Richard Tarnas, The Passion of the Western Mind (New York: Ballantine Books, 1991), pp. 55–68.

35. History of Animals, tradução de D. W. Thompson in The Works of Aristotle, editado por J. A. Smith e W. D. Ross (Oxford: Oxford University Press, 1910–1952, vol. IV (1910), 561a3. Citado em W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 1, The Classical Mind (New York: Harcourt, Brace and World, 1969), pp. 233–235.

36. William Wallace, “Foreword,” Albertus Magnus On Animals: A Medieval Summa Zoologica, traduzido e anotado por K. F. Kitchell and I.M. Resnick, 2 vols. (Baltimore.: Johns Hopkins University Press, 1999), vol. 1, pp. xvi–xx; and, sobre a produção científica de Alberto, pp. 18–42. Veja também os três volumes obrigatórios do estudo sobre a história da ciência de A. C. Crombie, Styles of Scientific Thinking (London: Duckworth, 1994), vol. 2, pp. 1259–61 and 1503, note 53.

37. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind, p. 141.

38. Ibid., p. 166.

39. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children, passim. Charles Homer Haskins, The Renaissance of the 12th Century (New York: Meridian Books, 1970), pp. 278–365.

40. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), p. 6.

41. Ibid., pp. 21–22.

42. Ibid., pp. 13–14, 17–20.

43. Aristotle, On the Heavens, tradução de J. L. Stocks, The Complete Works of Aristotle: The Revised Oxford Translation, 2 vols., editado por Jonathan Barnes (Princeton: Princeton University Press, 1984), 306a 7–17. Werner Jaeger, Aristotle (Oxford: Oxford University Press, 1934), passim. John Herman Randall, Aristotle (New York: Columbia University Press, 1960), pp. 20–22, 28–30.

44. Sir David Ross, Aristotle (New York: Routledge, 1995), p. 118.

45. David Lindberg, The Beginnings of Western Science (Chicago: University of Chicago Press, 1992), p. 63.

46. Allan Gotthelf, “Aristotle as Scientist: A Proper Verdict,” em seu Teleology, First Principles, and Substance: Essays on Aristotle’s Biology, Oxford: Oxford University Press, 2007). David Lindberg, The Beginnings of Western Science (Chicago: University of Chicago Press, 1992), pp. 62-68.

47. Allan Gotthelf, “Darwin on Aristotle,” Journal of the History of Biology, 1999, pp. 3–30.

48 Ernst Mayr, The Growth of Biological Thought (Cambridge: Harvard University Press, 1982), pp. 87–90. Sir David Ross, Aristotle (New York: Routledge, 1995), pp. XIV, 117–131. John Herman Randall, Aristotle (New York: Columbia University Press, 1960), pp. 145–148, 165–167, 219–242.

49. David Lindberg, The Beginnings of Western Science (Chicago: University of Chicago Press, 1992), pp. 62–68. Jonathan Barnes, Aristotle (Oxford: Oxford University Press, 1982), pp. 8–13.

50. Citado em Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages (Cambridge: Cambridge University Press, 2001), pp. 306–307.

51. Galileo Galilei, Dialogue Concerning the Two Chief World Systems—Ptolemaic and Copernican, tradução de Stillman Drake (Berkeley: University of California Press, 1967), pp. 110–111. Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages (Cambridge: Cambridge University Press, 2001), pp. 304–312. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 6–11.

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O texto a seguir é continuação de A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 2: A Igreja Contra A Razão

por Andrew Bernstein

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Eis a tragédia da teologia em sua essência destilada: o emprego do gênio, do intelecto humano de alta potência, da dedução lógica profundamente rigorosa – ao estudo de nada. Durante a Idade Média, as grandes mentes com o potencial para transformar o mundo não estudaram o mundo; e assim, por quase um milênio, enquanto os seres humanos gritavam em agonia – cambaleando de fome, devorados pela lepra e pela peste, morrendo em massa no auge de seus vintes anos – os homens de espírito, que poderiam ter providenciado sua salvação terrena, os abandonaram em troca de fantasias transcendentes.

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O erro fundamental da explicação de Stark, a concepção errônea que subjaz à e origina sua interpretação equivocada da história, é sua compreensão equivocada da natureza da razão. Stark sustenta que o Catolicismo é intrinsecamente racional, e, portanto plenamente capaz de produzir um progresso tecnológico e científico significativo. Com efeito, sua visão é: como a Idade Média foi uma fonte de pensamento racional, ela deve ter sido um caldeirão borbulhante de progresso científico – e, consequentemente, afirmações de uma “Idade das Trevas” não seriam nada além de mitologia preconceituosa disseminada pelos inimigos culturais da religião.

No capítulo mais importante de seu livro, “As Bençãos de Uma Teologia Racional”, ele afirma que “os teólogos medievais depositaram na razão uma fé muitíssimo superior à que a maioria dos filósofos está disposta atualmente”. Foi a tentativa cristã de compreender a natureza de Deus que abriu “o precedente para uma teologia da dedução e da inferência…” As bases para o compromisso ocidental com a razão foi estabelecido porque “desde seus primórdios os teólogos do Cristianismo assumiram que a aplicação da razão pode produzir um entendimento cada vez mais preciso da vontade de Deus.[26]

Para compreender o profundo erro cometido aqui, e compreender a verdadeira natureza da razão, devemos remeter aos fundamentos da filosofia.

A filosofia busca responder a cinco questões principais: Qual é a natureza da realidade? Como – por quais meios – os homens obtêm conhecimento dela? Qual é a natureza do homem? O que é o bem – e o que é o mal? Qual é a sociedade ideal? A religião, como uma espécie particular de filosofia, é uma tentativa de responder a estas questões.

No que tange à realidade, a essência da religião é a crença no dualismo metafísico – ou seja, em dois mundos: o universo natural e um outro mundo mais importante além dele, transcendente. Como não existe nenhum meio de acesso baseado na observação a um mundo “mais elevado”, segue-se que, em relação a conhecimentos importantes, a fé nas verdades infalíveis de um texto revelado fornece a base da cognição. A famosa máxima de Santo Agostinho de que a crença é o fundamento necessário do conhecimento é representativa da abordagem religiosa. Um estudioso escreve: “Em sua maturidade, Santo Agostinho utiliza sua razão sobretudo para compreender aquilo em que já acreditava.[27] O home é um bípede metafísico: sua alma pertence ao domínio transcendente e seu corpo a este. Uma criatura caída manchada pelo pecado de seus ancestrais, sua carne terrena é propensa à luxúria e à tentação, às quais sua alma transcendente deve resistir piamente. O bem é colocar Deus no mais alto posto de seu panteão de valores, e obedecer cegamente a todos os seus mandamentos; o mal é desobedecer. Uma sociedade adequada é teocrática – baseada nos mandamentos divinos conforme interpretados por uma elite de espiritualmente iniciados: o clero.

A religião, como uma tentativa de responder a todas as questões filosóficas importantes da vida humana, é uma espécie de filosofia, gênero ao qual pertence. A religião é um sistema filosófico baseado na fé, não baseado na razão. A religião pode ser (grosseiramente) definida como um sistema filosófico baseado na fé, não na razão, defendendo a existência e a supremacia de um Deus transcendente que exige a obediência incondicional dos indivíduos humanos pecaminosos por Ele criados e governados. A religião foi o arcabouço filosófico dominante, melhor dizendo, exclusivo, que vigorou no primeiro período da Idade Média, do século VI ao século XII aproximadamente.

Santo Agostinho (354-430) foi a principal influência e porta-voz intelectual do período. Sua filosofia, embora complexa em alguns aspectos, é, em termos essenciais, bastante simples: o conhecimento requer a aceitação da autoridade – Deus em primeiro lugar, a Igreja em seguida. A razão é, na melhor das hipóteses, uma faculdade suplementar, talvez capaz de explicar o que é previamente acreditado, talvez não. Apenas Adão possuiu livre-arbítrio. Seus descendentes são grotesca e irremediavelmente pecaminosos, incapazes de salvar a si próprios; todos merecem, e a maioria receberá, apenas a danação; apenas um seleto grupo será salvo por um rígido processo de predestinação. O pecado é transmitido pelo intercurso sexual, que é maligno e deve ser evitado exceto para propósitos procriativos – e mesmo então, não deve ser desfrutado. Embora a criação de Deus seja intrinsecamente ordenada de acordo com leis, milagres – violações das leis da natureza – ocorrem repetidamente; numerosos homens foram levantados dos mortos, por exemplo. O orgulho é um pecado mortal, sobretudo o orgulho intelectual – o comprometimento com o uso das próprias capacidades racionais para bisbilhotar os mistérios do universo criado e mantido por Deus. Os pensadores gregos foram condenados por seus “esforços para descobrir as leis secretas da natureza”. A ciência foi condenada como a “luxúria dos olhos”.[28]

Um sistema filosófico como esse está em conflito profundo com as bases intelectuais da ciência. Uma condição de possibilidade para a ciência é a visão de que a natureza é fascinante, importante, de um valor supremo – uma convicção logicamente congruente com o entendimento secular da natureza como a realidade. Esta visão é incompatível com a crença cristã de que este mundo é corrupto e deficiente, ao passo que o ideal encontra-se além do alcance da compreensão do homem terreno. A ciência começa com observações dos fatos, não com pronunciamentos infalíveis de um texto revelado. Além disso, a ciência (sobretudo seus ramos aplicados e tecnológicos) apoia-se na premissa de que os seres racionais são (ao menos potencialmente) bons, que a vida do homem sobre a terra é valiosa, que o conhecimento é tanto alcançável como desejável, e que os homens são merecedores de padrões de vida elevados. A ideia de que o homem deveria buscar o desenvolvimento científico é incompatível com a hipótese de que os homens são criaturas, segundo a eloquência de Santo Agostinho, “repulsivas… deformadas… sórdidas… maculadas… e ulcerosas”, inexoravelmente (e compreensivelmente) condenadas à perdição por uma divindade ultrajada.[29] Stark convenientemente ignora estes pontos.

Por que a Igreja medieval perseguiu os livre-pensadores que ousaram desafiar a ortodoxia? Porque, como um exemplo histórico perfeito de religião em estado puro, ela foi necessariamente uma instituição de puro autoritarismo. Ela concebia a si própria como o intermediário entre Deus e o homem desesperadamente caído, que não poderia aspirar à ascensão sem sua intercessão. Sua ortodoxia era literalmente a palavra de Deus; qualquer desvio era uma afronta ao representante de Deus sobre a Terra, portanto ao próprio Deus – e era, consequentemente, profundamente intolerável. Onde os homens não possuem nenhuma capacidade para melhorar seu quinhão terreno – muito menos salvarem-se a si próprios – e são completamente dependentes da Igreja de Deus, qualquer crítica a ela é um ataque à divindade e solapa a única instituição capaz de trazer aos homens a redenção. Tolerar a independência de pensamento, dada a essência desprezível dos homens, é tolerar a inevitável rebelião espiritual. Para que o homem seja salvo de sua natureza irremediavelmente pecaminosa, sua mente deve ser agrilhoada.

Santo Agostinho, filosoficamente um cristão neo-platonista, glorificou o núcleo da visão de mundo platônico-cristã: o dualismo metafísico, a supremacia de um mundo transcendente, a estatura reduzida deste, a ignóbil raiz da existência corpórea do homem. Tais fundamentos conduziram necessariamente à elevação da teologia (o estudo de Deus) como a disciplina cognitiva dominante, e a depreciação da ciência e da filosofia secular (o estudo da natureza e da vida terrena do homem).

Aqui reside a causa primordial da tragédia que a Idade Média representa – e do erro fundamental de Stark em atribuir à teologia cristã o compromisso com o pensamento racional. A razão é uma metodologia baseada na observação. Ela não começa com crenças já aceitas sobre bases preconceituosas, e então prossegue para “provar” sua veracidade. Seja estudando o homem, o funcionamento interno de sua mente, os germes, pedras, insetos, átomos, os limites do espaço intergaláctico, ou qualquer outra coisa mais, a razão prossegue a partir da observação sensorial por um método de pensamento lógico que incorpora a famosa Lei Da Não-Contradição de Aristóteles: nenhum existente pode ser tanto x e não-x ao mesmo tempo e no mesmo aspecto.

Mas não há, e nem pode haver, nenhuma experiência sensorial de uma dimensão além desta. Mais especificamente, não existem provas das quais inferir que a existência e as atividades dos corpos materiais resultam de uma causa imaterial. (Como poderia o espírito ou a consciência existir na ausência de um meio corpóreo, por exemplo, orgãos dos sentidos, um sistema nervoso e um cérebro? Como poderia tal fantasma desprovido de corpo criar, controlar ou afetar remotamente os seres corpóreos?) Teólogos e religionistas em geral começam com uma premissa fantasiosa e então vão adiante aplicando uma lógica formal rigorosa para descortinar suas implicações. O próprio Stark assinala que “a teologia consiste do raciocínio formal sobre Deus.” Isto é de uma exatidão admirável. Teólogos, começando com uma criação “conjurada” por suas próprias mentes, analisam as características dessa criação pela aplicação rigorosa dos princípios da lógica formal– ou seja, dedutiva.[30]

Mas o método da razão, adequadamente compreendido, é, enfaticamente, não o emprego da lógica formal para explicar as consequências implicadas por premissas arbitrárias. O raciocínio consiste, primeiro e acima de tudo, na observação e na indução a partir da observação. A lógica dedutiva fornece conhecimento somente quando aplicada a premissas radicadas, em última instância, em fatos observáveis.

Na história da filosofia, o termo ‘racionalismo’ possui dois significados distintos. Num sentido, ele significa um compromisso inviolável com o pensamento racional em oposição a qualquer rejeição irracionalista da mente. Neste sentido, Aristóteles e Ayn Rand são expoentes do racionalismo, contrários a qualquer forma de irrazão, incluindo a fé. Num sentido mais estreito, contudo, o racionalismo contrasta com o empirismo no que se refere à falsa dicotomia entre o compromisso com a assim chamada razão “pura” (isto é, a razão desvinculada da realidade perceptual) e uma confiança exclusiva na experiência dos sentidos (isto é, observações sem inferências subsequentes). O racionalismo, neste sentido, é um compromisso com a razão interpretado como dedução lógica a partir de pontos de partida não-observáveis, e uma desconfiança em relação à experiência sensorial (por exemplo, o método de Descartes). O empirismo, de acordo com esta falsa dicotomia, é uma crença em que a experiência dos sentidos fornece conhecimentos factuais, mas qualquer inferência além da observação não passa de manipulação de palavras ou símbolos verbais (por exemplo, a abordagem de Hume). Tanto Aristóteles como Ayn Rand rejeitam esta falsa dicotomia entre a razão e a experiência dos sentidos; nenhum deles é um racionalista neste sentido estreito.

A teologia é a mais pura expressão do racionalismo no sentido de aplicar a dedução lógica à premissas sem fundamentos em fatos observáveis – dedução sem referência à realidade. O assim chamado “raciocínio” envolvido aqui é puramente formal, infundado de uma perspectiva oservacional, desprovido de fatos, desvinculado da realidade. Tomás de Aquino, por exemplo, foi o mais destacado especialista de todos os tempos num campo conhecido como “angeologia”. Ninguém poderia rivalizar seu “conhecimento” sobre os anjos, e ele dedicou muito mais espaço em sua monumental Summa Theologica a eles do que às ciências naturais.

Eis a tragédia da teologia em sua essência destilada: o emprego do gênio, do intelecto humano de alta potência, da dedução lógica profundamente rigorosa – ao estudo de nada. Durante a Idade Média, as grandes mentes com o potencial para transformar o mundo não estudaram o mundo; e assim, por quase um milênio, enquanto os seres humanos gritavam em agonia – cambaleando de fome, devorados pela lepra e pela peste, morrendo em massa no auge de seus vintes anos – os homens de espírito, que poderiam ter providenciado sua salvação terrena, os abandonaram em troca de fantasias transcendentes. Mais uma vez, estes fatos filosóficos fundamentais reduzem a pó o argumento de Stark, e no entanto ele simplesmente os ignora.

A religião enquanto um campo de estudos é, em seus melhores momentos, racionalismo – dedução aplicada a premissas fantasiosas – não uma racionalidade genuína. (Em seus piores momentos, ela repudia até mesmo esta conexão tênue com a lógica em favor da adesão à fé autêntica.) O próprio Stark fornece um exemplo perfeito deste método falacioso. Embora seja amplamente conhecido pelos estudiosos que Jesus teve pelo menos um irmão, Tiago, um líder da igreja de Jerusalém após a morte de Cristo, Stark afirma, como um exemplo notável do “raciocínio” cristão, que “Tomás de Aquino analisou a doutrina do nascimento virginal de Cristo para deduzir que Maria não teve outros filhos.” Em outras palavras, a abordagem religiosa à “verdade” é ignorar os fatos se eles entram em conflito com deduções lógicas extraídas de premissas fidelistas bizarras. Portanto, mesmo um gênio monumental como Tomás de Aquino – um aristotélico, um pensador que mantinha um grande respeito pelos fatos e pela observação, e o maior filósofo cristão de todos os tempos – não ficou imune à infecção cognitiva pela metodologia religiosa.[31]

Pela própria natureza de sua metafísica, a religião é incapaz de promover, encorajar e defender a razão. A religião é compatível somente com deduções racionalistas extraídas de premissas baseadas na fé. E, na Idade Média, se as deduções de alguém colidissem com a ortodoxia, este corria o sério risco de ser punido por heresia. A religião e a racionalidade são antípodas primordiais. (Há um campo da religião natural que emprega a observação na tentativa de provar a existência de Deus; mas ela deriva sua crenças originais da fé, executa saltos gratuitos no mundo transcendente, é facilmente refutada pelos filósofos racionais e, consequentemente, sua validade é debatida acaloradamente mesmo pelos teólogos.)

A racionalidade inclui – na verdade, começa com – um respeito incondicional pelos fatos. Como Jones assinala, porém, a identificação dos fatos, de importância crucial para Aristóteles e os secularistas contemporâneos, foi considerada de pouco valor pelos homens do período medieval. Para eles, as exigências da salvação eram esmagadoramente mais importantes do que os fatos da natureza. “Em relação a coisas não concernentes à fé – sobre as propriedades das safiras ou sobre a cura para a lepra, por exemplo – não fazia muita diferença se se estava ou não errado.[32]

O maior filósofo da história, o homem cujo método incorporou a racionalidade baseada na observação acima de qualquer coisa, foi Aristóteles. Apesar de seus erros, as realizações extraordinárias de Aristóteles aumentaram significativamente nosso entendimento da natureza, nossos métodos para determinar suas propriedades, e, portanto, nossa capacidade de nos engajarmos na ciência. É impossível reconhecer a falsidade criminosa da alegação de Stark de que o Catolicismo medieval, e não a cultura grega, foi o maior responsável pelo compromisso ocidental com a razão sem levarmos em consideração a obra e a influência de Aristóteles.

A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Conclusão: O Gênio De Aristóteles

Notas.

26. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), pp. 8–9.

27. Adrian Hastings, “Reason,” The Oxford Companion to Christian Thought (Oxford: Oxford University Press, 2000). Citado em Charles Freeman, The Closing of the Western Mind: The Rise of Faith and the Fall of Reason (New York: Vintage Books, 2005), pp. 286–287.

28. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 72–138.

29. Santo Agostinho, Confessions, tradução de J. G. Pilkington (Liveright, NY, 1943), VIII, pp. vii, 16. Citado em W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), p. 106.

30. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), p. 5.

31. Ibid., p.6. L. Michael White, From Jesus to Christianity (San Francisco: HarperSanFrancisco, 2004), pp. 149, 219, 229–230, 277.

32. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 169–170.

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O texto a seguir é continuação de A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 1: História Econômica E Social da Idade Média

por Andrew Bernstein

Há dois princípios que se deve ter em mente a fim de compreender os erros de Stark; ambos os princípios foram identificados por Ayn Rand. O primeiro é que a mente racional é uma ferramente básica para a sobrevivência e o progresso do homem. O segundo é que seu funcionamento adequado requer liberdade; ela deve estar completamente desacorrentada, livre para percorrer qualquer trilha de pensamento ou pesquisa que julgue importante.

O Iluminismo setecentista, e os princípios por ele herdados da Renascença e a Idade da Razão, originiram a Revolução Americana, e aumentaram vastamente a liberdade política e econômica por todo o mundo ocidental. Não se deve esquecer que os revolucionários que criaram a República Americana foram, em vários casos, os maiores expoentes do Iluminismo Americano: Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Thomas Paine, James Madison. Um dos resultados de tal liberdade vastamente ampliada foi o extraordinário progresso intelectual, sobretudo nas ciências teóricas e aplicadas, na industrialização e no desenvolvimento tecnológico, e na pesquisa médica – todos os quais produziram uma elevação nos padrões e nas expectativas de vida inigualada por qualquer outro período histórico anterior. Quando os Isaacs Newtons, os Charles Darwins, os Thomas Edisons, as Ayn Rands e os Jonas Salks não precisam se curvar perante autoridades polítcas ou religiosas, e não podem ser legalmente reprimidos pela Igreja ou pelo Estado, eles ficam livres para criar novas idéias, invenções e inovações que melhoram em larga escala a vida do homem sobre a terra. Tal liberdade existiu durante a Idade Média? Se a mente não era livre – se seu trabalho foi inteiramente ou em grande parte sufocado – então se deve esperar uma era de estagnação, até mesmo de retrocesso. Se a mente foi, de fato, substancialmente reprimida durante esta época, qual foi o papel desempenhado pela Igreja em tal repressão?[14]

Por uma questão de justiça para com a Igreja medieval, alguns pontos devem ser deixados bem claros de início. Primeiro, houve grandes pensadores durante este período – Alberto Magno e Tomás de Aquino são os dois exemplos mais notórios. Segundo, estes pensadores foram todos católicos devotos; na verdade, geralmente membros do clero católico. Terceiro, a posição oficial de diversos papas e oficiais do alto escalão da Igreja era, nas circunstâncias em questão, a de encorajar a educação e o progresso intelectual (apesar das intermináveis qualificações e restrições). Quarto, como amplamente divulgado, os monastérios católicos foram, na época, vetores da sabedoria clássica, na medida em que os monges laboriosamente preservaram e copiaram os poucos manuscritos antigos sobreviventes. Quinto, embora os hereges e outros livre-pensadores fossem continua e sistematicamente reprimidos, deve ser observado que um herético condenado poderia, em todos os casos, salvar sua vida até o último momento ao abjurar de suas crenças ilícitas. Isto de maneira alguma isenta a Igreja medieval de censuras; não obstante, não deixa de ser verdade que a Igreja não foi uma instituição assassina nos mesmos moldes que os regimes instalados pelos nazistas ou pelos comunistas.

Além disso, embora a Igreja tenha sido um componente integral do ancien regime – o sistema feudal que reprimiu brutalmente os servos e plebeus – sendo generoso, pode-se defender que, nos séculos caóticos que se seguiram ao colapso de Roma, os chefes guerreiros tribais que conquistaram o poder e se declararam aristocratas exerciam uma forma primitiva de poder baseado na violência dificilmente atenuado por uma instituição fundada teoricamente para salvar as almas. Em outras palavras, é pelo menos possível que a responsabilidade pelo interminável estado sangrento de guerra e pela repressão brutal dos servos e plebeus não repouse primariamente sobre os ombros da Igreja.

Não obstante, as instituições, como os indivíduos, são muitas vezes uma combinação de qualidades boas e ruins. Apesar de tal apologia, e nos termos mais generosos imagináveis, a Igreja Católica foi, e continua sendo, uma força de malignidade incalculável. A explicação começa com a natureza da ortodoxia e sua hostilidade generalizada contra a heresia. A ortodoxia, neste contexto, significa o estabelecimento de uma doutrina oficial baseada na fé e a exigência, sob pena de excomunhão ou até mesmo de morte, de resignação acrítica a ela. A nona edição do Webster’s Collegiate Dictionary define “heresia” como: “adesão a uma opinião religiosa contrária ao dogma da igreja”. Com efeito, um herege é um membro de uma denominação religiosa que discorda de (ou pelo menos questiona) algum aspecto da doutrina dessa denominação. Resumindo, um herege não passa de um espírito independente cujo livre-pensamento o coloca em rota de colisão com a seita religiosa dominante.

Ao longo de literalmente séculos de disputas teológicas, a Igreja impôs ferreamente sua posição oficial em relação a centenas de controvérsias religiosas – incluindo aquelas envolvendo a doutrina da Trindade, da Eucaristia, o problema do mal, e inúmeros outros. Previsivelmente, dada a impossibilidade lógica de provar qualquer alegação transcendente baseada na fé, houve discordâncias intelectuais intermináveis com as conclusões oficiais. Vários dos que rejeitaram os postulados ortodoxos foram condenados como hereges. Como é a história da interação da Igreja com aqueles pensadores católicos independentes o bastante para contestar algum aspecto de sua doutrina oficial? Não é nem um pouco atraente.

Considere os diversos exemplos que indicam a essência e a extensão da repressão. A heresia ariana é um bom ponto de partida. Ário (256-336 d.C.), um presbítero da Igreja em Alexandria, a fim de proteger o monoteísmo, ensinou que Cristo não é perfeito e eterno como Deus Pai, mas que na verdade foi criado do nada por Deus. Resumindo, se o monoteísmo fosse verdadeiro, como Ário sem dúvida alguma afirmara, então Jesus não poderia ser Deus. Nas palavras de Jones: “Ele [Jesus] deve ter sua própria natureza e uma essência distinta da de Deus”.[15] O conflito entre os arianos e os partidários da Trindade – a crença em que Jesus é Deus, mas distinto de Deus Pai, mas que mesmo assim Deus é único – foi uma batalha cruel. O Imperador Constantino convocou o Concílio de Niceia, uma conferência dos bispos da Igreja em 325, para arbitrar a disputa; ela aderiu ao ponto de vista trinitarista e condenou a teoria de Ário. Os arianos recusaram-se a aceitar a derrota teológica e, por fim, centenas foram massacrados na batalha centenária que sucedeu.

Filosoficamente, Ário foi um descendente epistemológico distante dos proponentes gregos da racionalidade, buscando compreender o universo logicamente, incluindo a natureza de Jesus e de Deus Pai. Mas aqueles defendendo e transformando em ortodoxia a doutrina da Trindade promoviam a noção baseada na fé de que a crença cristã não precisava ser racionalmente inteligível. Por conseguinte, “a controvérsia ariana enfatiza diferenças importantes no método e na abordagem, assim como na perspectiva básica, entre a mentalidade grega e a cristã… A solução que venceu e se tornou ortodoxa foi um sinal de que, para o bem ou para o mal, a Igreja atribuíra à razão um posto subordinado no esquema das coisas.[16]

No mesmo século, a heresia donatista – a crença em que os sacramentos da Igreja são ineficazes se ministrados por sacerdotes moralmente indignos – foi implacavelmente exterminada. “Os donatistas foram proscritos [pela Igreja]; vários foram exilados; vários outros foram mortos ou cometeram suicídio.” Santo Agostinho (354-430), que relutantemente apoiou a perseguição, manteve que seu resultado líquido foi humano, já que em várias ocasiões arrancou homens das trevas da ignorância para “o Deus vivo e verdadeiro”. Jones observa: “Desta maneira, foram assentados os fundamentos e fornecida a autoridade para a instituição da Inquisição – para a cooperação entre a Igreja e o Estado na sagrada tarefa de extirpar as heresias e as dissidências e salvar as almas contra suas vontades.[17]

A heresia maniqueísta, que tem resistido tenazmente por milênios a todas as tentativas de eliminação, é uma tentativa de resolver o implacável problema do mal: como pode o mal existir num universo criado e governado por um Deus onipotente e onibenevolente? A crença maniqueísta, plausível sob premissas religiosas, é que Deus é onibenevolente mas não onipotente. Deus, na verdade, é uma versão turbinada do Batman: ele combate o mal implacável e efetivamente, mas o mal exerce um poder inegável no mundo.

Embora o maniqueísmo tenha sido suprimido pela Igreja no século V, ele ressurgiu numa forma bastante difundida durante os séculos XII e XIII. A heresia cátara ou albigense, como foi conhecida durante esta revivescência específica, foi exterminada numa guerra sangrenta comandada pelo papa Inocente III em 1208. O exército de caçadores de hereges do papa assaltou a cidade de Beziers em 1209. Tanto os católicos leais como os cátaros da cidade se refugiaram nas igrejas: os invasores irromperam e massacraram todos – homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, inválidos, sacerdotes. Segundo uma história possivelmente apócrifa, o emissário papal, Arnald-Amalric, quando lhe comunicaram que vários católicos sinceros residiam na cidade, respondeu: “Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus.” Não há dúvidas de que ele escreveu exultante para o papa após o massacre, proclamando que “aproximadamente 20 000 cidadãos foram mortos, independentemente de sua idade ou sexo. As obras da vingança divina são magníficas.”[18] A seita claudicou em números enormemente reduzidos até o século seguinte; os últimos cátaros foram queimados na Itália em 1330.

As obras cátaras foram queimadas, a ortodoxia triunfou e a Inquisição Papal foi estabelecida em 1227. “A Igreja e o Estado concordaram que a heresia impenitente era traição, e deveria ser punida com a morte.”[19] Estes foram os penosos resultados  da cruzada contra a heresia albigense. Não sarcasticamente, mas com a maior seriedade possível, os críticos de Stark deveriam perguntar-lhe: é a isto que você se refere quando afirma que a Igreja medieval promoveu a razão?

Tampouco a proscrição de hereges restringiu-se aos que desafiaram pilares específicos da fé. Todos os pensadores originais viveram sob a ameaça de condenação. Por exemplo, de Boécio no sexto século a Abelardo no século XII – um período de 600 anos – houve apenas um pensador original na filosofia: John Scotus Erigena (810-877). Naturalmente, várias de suas conclusões foram condenadas em 855 – e as cópias de um de seus livros foram queimadas com tanto êxito que nenhum exemplar sobreviveu às chamas.

Pedro Abelardo (1079-1142), o mais brilhante espírito europeu em séculos, foi acossado por décadas pelos cães de guarda oficiais do dogma católico. Em 1121, um conselho da Igreja condenou as obras de Abelardo sobre a Trindade e o obrigou a arremessar seu livro numa fogueira. Em 1141, dezesseis proposições de seus livros, incluindo sua definição de pecado, foram condenadas. Não muito depois, o papa Inocente II impôs-lhe uma sentença de silêncio perpétuo, confinando- o num monastério. Abelardo, um mestre da lógica aristotélica, enfureceu as autoridades da Igreja com sua recusa em excluir qualquer preceito de fé da análise racional. “Mais do que qualquer heresia específica, o que incomodou a Igreja em Abelardo foi sua pressuposição de que não havia mistérios na fé, que todos os dogmas deveriam ser racionalmente explicáveis.[20]

Um dos contemporâneos de Abelardo, William de Conches (1080-1154), atraiu a previsível fúria da Igreja ao condenar os que atacaram a filosofia e a ciência apoiando-se na suficiência da fé sincera. O estudioso rebelde logo decidiu que a resignação era preferível à excomunhão. William “retratou-se por suas heresias… abandonou a filosofia como um empreendimento cujo lucro potencial não compensava o risco; tornou-se o tutor de Henrique Plantageneta da Inglaterra, e retirou-se da história.” Nos termos do romance de Ayn Rand A Revolta de Atlas, William de Conches entrou em greve.

Jean Roscelin (1050-1120), um dos professores de Abelardo, foi ameaçado de excomunhão por desafiar a Trindade ao ensinar que três não pode ser um. Ele foi arrastado até um conselho episcopal em 1092 e confrontado com uma escolha difícil: retratação ou excomunhão. Ele preferiu retratar-se.

Até mesmo Tomás de Aquino (1225-1274), o maior gênio filosófico desde Aristóteles, não escapou da vigilância repressiva da Igreja. Na condenação de 1277, apenas três anos após a morte deste grande homem, o bispo de Paris, Étienne Tempier, baniu como heréticas 219 proposições ensinadas na Universidade de Paris, incluindo várias do aquinate.[21]

Evidências adicionais poderiam ser arroladas (por exemplo, a repressão sistemática dos pagãos e dos judeus, inevitavelmente incluindo as mentes mais brilhantes entre eles), mas os exemplos acima são suficientes para estabelecer o caso. Durante o período medieval, o espírito de livre investigação humano, mais bem exemplificado pelos hereges e dissidentes, viveu sob ameaça constante de condenação, proscrição, destruição de suas obras, excomunhão, decretos de silêncio perpétuo, até mesmo de execução. Apesar das alegações de Stark em contrário, a Igreja conduziu uma guerra implacável, invasiva e muitas vezes letal contra os espíritos independentes.[22]

Os leitores procurarão em vão por qualquer referência à repressão dos pensadores inovadores por parte da Igreja. Por exemplo, os termos “heresia” e “hereges” não aparecem no índice remissivo. Suas breves menções a este fenômeno não sugerem o menor indício da dura realidade. Para ilustrar, quando discute a obra teológica de Santo Agostinho e Tomás de Aquino, ele declara: “Naturalmente, milhares de outros teólogos também tentaram se destacar por suas doutrinas. Alguns foram bem sucedidos, a maioria foi ignorada, e alguns foram rejeitados como hereges.”[23] Observem seu emprego do termo “rejeitados”, vago, enganador e completamente sanitizado. Alguém poderia concluir desta versão da história que as teorias heréticas foram meramente descartadas como erros intelectuais por uma comunidade de acadêmicos, sem quaisquer outras consequências para seus proponentes.

Ainda pior é a discussão de sua visão (errônea) de que o Cristianismo foi responsável pela abolição da escravatura. Neste contexto, ele escreve: “Aqui também podem ser vistos os princípios do progresso teológico operando, tornando possível aos teólogos propor novas interpretações sem fazer recair sobre si acusações de heresia.[24] Como já foi notado, porém, uma descrição mais acurada deste período estabelece que muitas vezes foi extremamente difícil para “novas interpretações” escaparem da acusação de heresia. Ademais, ele tampouco menciona a repressão aos pagãos, judeus e outros dissidentes ou infiéis.

A verdade é que o espírito criativo não pode florescer a contento sob tal reinado de terror. Sua busca sagrada pelo conhecimento não lhe permite cessar os questionamentos desafiadores, as descobertas de princípios verdadeiros, ou autocensurar-se em virtude da presença ameaçadora da Inquisção espreitando sobre seus ombros e coagindo-o a viver temendo cronicamente por sua liberdade ou mesmo sua vida. Se tais são os parâmetros sociais impostos, a investigação racional é atrofiada, até mesmo deixa de existir; a ferramenta de sobrevivência humana é inutilizada, e vários homens não sobreviverão à inevitável Idade das Trevas que se segue.

Que a fé reinou suprema sobre a razão sob a égide da Igreja é um fato histórico incontestável. Mas especificamente quais princípios filosóficos o catolicismo medieval promoveu – e a quais ele renunciou? Quais ideias foram responsáveis pela Idade das Trevas? Quem codificou estas ideias? E quais ideias reduziram a pó este código, pavimentando o caminho para o progresso superlativo do Ocidente secular contemporâneo?

A Tragédia Da Teologia: Como A Igreja Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 3: Fundamentos Filosóficos De Uma Visão de Mundo Pró-Científica

Notas.

14. Peter Gay, The Enlightenment: An Interpretation, 2 vols. (New York: Knopf, 1966, 1969). Andrew Bernstein, The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic and Philosophic Case for Laissez-Faire (Lanham, Md.: 2005), 41–54, 70–72, 73–101.

15. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 63–65.

16. Malcolm Lambert, Medieval Heresy: Popular Movements from the Gregorian Reform to the Reformation (Malden, MA.: Blackwell Publishing, 2002), pp. 3–8.

17. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 125–127.

18. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 769–776. Charles Freeman, The Closing of the Western Mind: The Rise of Faith and the Fall of Reason (New York: Vintage Books, 2005), p. 296.

19. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 140–157. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 769–784. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 67–69.

20. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 931–948. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 88–126. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 190–196.

21. Para a citação e os exemplos nos três parágrafos anteriores, e para mais exemplos como esse, veja Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), pp. 949–983 (citação, p. 950).

22. Malcolm Lambert, Medieval Heresy: Popular Movements from the Gregorian Reform to the Reformation (Malden, Mass.: Blackwell Publishing, 2002), pp. 194–207. Sobre a perseguição aos pagãos veja, por exemplo, Ramsay MacMullen, Christianity and Paganism in the Fourth to Eighth Centuries (New Haven: Yale University Press, 1997); sobre a perseguição aos judeus, veja James Carroll, Constantine’s Sword: The Church and the Jews (Boston: Houghlin Mifflin, 2001), e Gustavo Perednik, “The Nature of Judeophobia,”. Para o estudo da perseguição de várias mulheres religiosamente inconformistas como ‘bruxas’, veja Jeffrey Burton Russell, Witchcraft in the Middle Ages (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1972), Brian Levack, The Witch-Hunt in Early Modern Europe (London: Longman, 1995), e Alan Charles Kors e Edward Peters, Witchcraft in Europe: 400–1700 (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2001).

23. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), p. 7.

24. Ibid., pp. 30–31.

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Uma crítica do livro A Vitória da Razão, de Rodney Stark

Autor: Andrew Bernstein

Andrew Bernstein é PhD em Filosofia pela Graduate School of the City University of New York. Ele leciona filosofia na SUNY Purchase, onde em 2004 foi eleito “Professor de Destaque”. Ele é o autor de The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic, and Philosophic Case for Laissez-Faire (2005); Objectivism in One Lesson: An Introduction to the Philosophy of Ayn Rand (2008); Capitalism Unbound: The Incontestable Moral Case for Individual Rights (2010); e Capitalist Solutions (2011). O Dr. Bernstein é um dos editores e colaboradores do The Objective Standard, e escreve regularmente uma coluna para o site Forbes.com.

Fonte: The Objective Standard – Reason, Egoism and Capitalism, vol. 1, nº4, Inverno de 2006-2007

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

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Nas últimas décadas, os acadêmicos medievalistas têm apresentado persistentemente a tese de que a Idade Média não foi realmente uma era de trevas e obscuridade – que o período de mil anos compreendido entre a queda do Império Romano (aproxiamdamete 500 d.C.) e o Renascimento (aproximadamente 1500 d.C.) foi na verdade uma época de avanços culturais e intelectuais significativos. Esta tendência culminou nas teses do livro de Rodney Stark A Vitória Da Razão: Como O Cristianismo Levou À Liberdade, Ao Capitalismo E Ao Sucesso Ocidental (e em  alegações similares apresentadas no livro de Thomas Woods Jr. Como A Igreja Católica Construiu A Civilização Universal). Que tal teoria tenha sido bem recebida pela direita religiosa não surpreende. Entretanto, o que pode surpreender alguns – e o que é certamente tenebroso – é que órgãos importantes da imprensa liberal (N.T.: Leia-se ‘de esquerda’) como o The New York Times e o The Chronicle of Higher Education (a mais importante publicação para reitores e professores universitários) tem dispensado ao livro de Stark um respeito expressivo. Este artigo demonstrará que tal respeito é completamente imerecido.

A tese do livro de Stark é que a Igreja Católica promoveu um compromisso cultural com a razão que possibilitou a ascensão do Ocidente. O Cristianismo Medieval foi fundamentalmente, talvez exclusivamente, responsável pelo grande progresso alcançado pela civilização ocidental na filosofia, nas artes, na ciência, na tecnologia e na liberdade. Nas palavras do próprio Stark:

Mas quando se investiga a fundo, torna-se claro que a base verdadeiramente fundamental para… a ascensão do Ocidente foi uma extraordinária fé na razão.

A Vitória da Razão explora uma série de eventos e mudanças significativas em que a razão trinfou, moldando de maneira única a cultura e as instituições ocidentais. A mais importante destas vitórias ocorreu dentro do Cristianismo… enquanto as outras religiões do mundo enfatizaram o mistério e a intuição, apenas o Cristianismo abraçou a lógica e a razão como o guia principal para a verdade religiosa… Encorajada pelos escolásticos e materializada nas grandes universidades medievais fundadas pela Igreja, a fé no poder da razão saturou a cultura ocidental, estimulando a busca da ciência e a evolução da teoria e da prática democráticas.

O sucesso do Ocidente, incluindo a ascensão da ciência, assentou-se por inteiro sobre fundamentos religiosos, e as pessoas que a trouxeram à existência foram cristãos devotos.[1]

Este livro, e outros semelhantes – junto com o tratamento reverente a eles dispensado pelos principais veículos da mídia liberal – são sintomas da revitalização do Cristianismo na América. O que torna isto ainda mais alarmante é o fato de os argumentos estarem ser apresentados e adotados num nível acadêmico, não meramente popular. Se tais argumentos fossem sólidos, sua crescente aceitação entre os intelectuais contemporâneos não representaria nenhum problema; mas, como será demonstrado, esta tese pró-religião, apesar de convincente para alguns, é flagrante e demonstravelmente equivocada.

Stark, um professor de ciências sociais na Universidade Baylor, está absolutamente correto em seu raro acerto de que um compromisso com a razão foi a causa fundamental do progresso espetacular alcançado no Ocidente e em nenhum outro lugar. Mas ele está profundamente equivocado ao atribuir a base deste compromisso ao Cristianismo. Na verdade, o Ocidente progrediu muito mais lenta e incompletamente do que poderia ter progredido sob outras circunstâncias, exatamente devido à sua profunda ambivalência para com a razão. Ao longo das eras, e continuando até hoje, tem havido no Ocidente recaídas na irracionalidade que muitas vezes excedem seu comprometimento com a racionalidade. Existe um profundo dualismo no pensamento ocidental: sua dedicação à razão, embora certamente superior à de outras culturas, existe num desesperado conflito com diversas versões da irracionalidade, incluindo a fé. Expresso em termos de seus maiores expoentes, Jesus e seus discípulos – não apenas Aristóteles e os seus – tem sido uma influência esmagadora no pensamento ocidental. O Cristianismo, incluindo enfaticamente a Igreja medieval, mais do que qualquer outro fator isolado, é responsável pela irracionalidade da sociedade ocidental. O compromisso com a racionalidade é em sua essência um legado da Grécia Antiga – sobretudo de Aristóteles – e dos períodos subsequentes em que o elemento grego foi dominante, por exemplo, o Iluminismo do século XVIII.

Os erros de Stark são abundantes e abrangentes. Eles compreendem os campos da História e, sobretudo, da Filosofia. Com efeito, como será demonstrado, as alegações de Stark são historicamente falsas e filosoficamente impossíveis.

História

Stark afirma que “o período que começa com a Queda do Império Romano e se prolonga na Idade Média foi um tempo de progresso intelectual e tecnológico espetacular que irrompeu quando a inovação foi libertada dos grilhões do despotismo romano.” De modo semelhante: “O compromisso cristão com a razão e o progresso não era apenas conversa; logo após a queda de Roma, ele encorajou uma extraordinária era de invenção e inovação.” Ele descreve o desenvolvimento de moinhos d’água, represas e moinhos de vento – e discute repetidamente melhorias na agricultura que incrementaram significativamente a produção de alimentos. Por exemplo, ela afirma que “a Europa medieval ampliou grandemente sua produção agrícola drenando potenciais terrenos cultiváveis”, e que “estes ganhos incríveis na produtividade agrícola reduziram tanto a necessidade de trabalho nas fazendas e aumentaram tanto a produção que facilitaram grandamente a formação e o suprimento de vilas e cidades.” Após outras alegações semelhantes, Stark conclui: “Não somente os europeus se alimentaram muito melhor durante a Idade das Trevas do que no período romano como eles também foram mais saudáveis, mais bem dispostos e provavelmente mais inteligentes.[2]

Ao projetar tais fantasias sem substância, Stark comete um erro idêntico ao da esquerda anticapitalista _ ignorar por completo o campo da História Econômica. A História Econômica é relevante, pois ela municia os pesquisadores com dados factuais acerca do que pode ser descoberto sobre os padrões de vida das pessoas que viveram no passado. Criticamente, este campo não é respaldado nem por asserções arbitrárias nem por julgamentos confusos, mas por evidências reais.

Um dos principais pensadores contemporâneos neste campo é o economista holandês Angus Maddison. De acordo com a pesquisa de Maddison, a Europa padeceu de crescimento econômico nulo entre o século 5 e o 15, precisamente o período descrito por Stark. Maddison mostra que por mil anos não houve nenhum aumento da renda per capita, que atingiu o valor abissalmente baixo de 215 dólares em 1500. Além disso, ele estima que no ano 1000, um recém-nascido típico poderia esperar viver aproximadamente até os 24 anos – e que um terço deles morreria antes de completar o primeiro de vida. Estas são estimativas globais, e a Europa não exibia nenhuma diferença apreciável do restante do mundo. Não chega a surpreender que os padrões de renda per capita não mostrem nenhum aumento dramático até o Iluminismo do século XVIII – o começo da Revolução Industrial.[3]

Embora outros historiadores econômicos defendam que algum crescimento econômico ocorreu na Idade Média tardia, eles não obstante reconhecem que o crescimento foi tão irrisório que contribuiu muito escassamente para mitigar a horrível penúria em que viviam as massas europeias. Por exemplo, a pesquisa do economista Graeme Snooks sugere que houve crescimento econômico na Inglaterra ao longo dos seis séculos entre 1086 e 1688. “Se em 1086 o indivíduo médio tivesse cerca de um sexto da renda do indivíduo médio em 1688, ele ou ela não tinha muito… Os camponeses ingleses em 1086 tinham pouco mais do que alimento suficiente para mante-los vivos, e às vezes nem mesmo isso. As casas eram construções grosseiras e temporárias. As posses de um camponês consistiam de um conjunto de roupas, melhor descritas como trapos, e mais alguns pertences.”[4]

Admiravelmente, Stark cita em sua bibliografia diversos historiadores importantes que concordam com estas descobertas. Por exemplo, o soberbo historiador francês Fernand Braudel, escrevendo sobre a época anterior ao século XVIII, afirma que: “A fome foi tão recorrente por anos a fio que foi incorporada ao regime biológico do homem medieval e integrada a seu cotidiano…” Braudel assinala, por exemplo, que embora a França fosse, pelos padrões da época, um país relativamente próspero, acredita-se que sua população foi assolada por dez fomes generalizadas durante o século X; vinte e seis no século XII – e estas estimativas nem levam em conta as “centenas e centenas de fomes locais…”[5] Mesmo reconhecendo que existem diversas dificuldades inerentes às estimativas dos padrões de vida medievais com qualquer grau de precisão, a conclusão deve ser que o que foi então considerado prosperidade relativa foi, quando comparado com épocas anteriores e posteriores, a mais completa indigência.

Ademais, o saneamento básico regrediu ao grau mais primitivo durante esta era. Dejetos humanos eram muitas vezes arremessados pela janela nas ruas ou simplesmente despejados nos rios locais. (Em comparação, a Roma antiga foi significativamente mais avançada: “as principais cidades do Império instalaram sistemas de drenagem conectados às latrinas” – e os “ricos desfrutavam de luxos como água encanada em suas residências… até mesmo os indigentes tinham acesso aos banhos públicos.”) Com as ruas transbordando lixo, urina e fezes – e com as mesmas condições deploráveis permeando os rios e cursos d’água dos quais era extraída a água bebida nas residências – as verminoses e infecções se multiplicaram, e doenças de todos os tipos, intratáveis pelos conhecimentos médicos primitivos da época, proliferaram. Entre 1347 e 1350, por exemplo, a peste bubônica – a infame ‘Morte Negra’ – espalhou-se através das pulgas que parasitavam os ratos, devastando a Europa, ceifando aproximadamente 20 milhões de vidas, um terço da população européia. Norman Cantor, o principal historiador contemporâneo da Idade Média, declara: “O surto de Peste Negra de 1348-1349 foi o maior desastre biomédico da história europeia e possivelmente da história mundial.” Um cronista florentino referiu-se a ela simplesmente como “o extermínio da raça humana.”[6]

Por fim, os primeiros séculos da Idade Média testemunharam um declínio estarrecedor nos níveis de instrução e educação em relação ao período romano. No estado de guerra endêmico do período, os seres humanos perderam a habilidade da escrita e, em larga escala, a da leitura. “Na época em que Santo Agostinho viveu sua juventude [quarto século da era comum]… até mesmo um cristão ostentava uma formação clássica razoavelmente boa. Apenas algumas gerações mais tarde, a alfabetização era uma raridade mesmo entre as classes dominantes.” Por exemplo, durante o oitavo século, Charlemagne sustentava que mesmo o clero não sabia latim o bastante para ler a Bíblia ou conduzir adequadamente os serviços eclesiásticos.[7]

Uma catástrofe relacionada foi o abandono em larga escala do aprendizado clássico no Ocidente. Uma das razões para isso foi o fato de, durante o Império Romano, os romanos educados terem estudado as obras de Platão, Aristóteles e outros pensadores no original grego, de modo que não havia necessidade de traduzi-las para o latim. Embora os conquistadores bárbaros tenham aprendido algum latim, os ocidentais não mais aprenderam o grego. A perda da alfabetização em grego foi desastrosa para a civilização, pois ela significou “a perda simultânea da filosofia, da matemática, da medicina, da engenharia e da ciência.[8]

Andrew Coulson, um pesquisador do campo da história educacional, assinala que enquanto os gregos foram fascinados pelo mundo natural, dando passos pioneiros em ciências como a anatomia, a biologia, a física e a metereologia, os cristãos substituíram os esforços para compreender o mundo por uma tentativa de conhecer Deus; o estudo baseado na observação da natureza foi, consequentemente, subordinado ao estudo das escrituras baseado na fé. Consequentemente, um declínio nos níveis de instrução afligiu todos os campos do conhecimento. “O conhecimento médico limitado que havia sido acumulado pelos médicos gregos e romanos foi substituído pelo mais completo misticismo.” Por exemplo, Santo Agostinho acreditou que os demônios eram responsáveis pelas doenças, um indiscutível retrocesso em relação à abordagem hipocrática. O trabalho científico em geral declinou, bem como o interesse pelo mundo natural. O resultado global? “Da perspectiva da educação das massas… a Idade Média foi realmente uma idade das trevas. Apesar de bolsões isolados de instrução concentrados ao redor dos monastérios da Europa, a maioria esmagadora da população era ignorante e analfabeta.[9]

Contribuindo para o desastre educacional, em 529 o imperador cristão Justiniano I, governando em Constantinopla o império oriental e sustentando que a filosofia grega era “inerentemente subversiva para a fé cristã”, fechou todas as escolas pagãs de filosofia, incluindo a Academia de Platão que, por 900 anos, especializara-se nos ensinamentos de seu fundador. Para reforçar cabalmente o banimento da filosofia greco-romana, Justiniano proibiu qualquer pagão de ensinar. (Boécio, um cristão que viveu entre 480 e 525, o último grande filósofo por 350 anos, fora educado nas grandes escolas pagãs.) Como resultado, ninguém no Ocidente teve a oportunidade de estudar as realizações da cultura grega por seis intermináveis séculos. Como o eminente historiador Will Durant observou: “A filosofia grega, após onze séculos de história, chegou ao fim.[10]

W. T. Jones, o maior historiador da filosofia do século XX, capturou sucintamente a essência do declínio, e o papel causal do Cristianismo ao promovê-lo, quando declarou: “Devido à indiferença e à franca hostilidade dos cristãos… a totalidade da literatura e da erudição antigas quase se perdeu… Esta destruição foi tão grande e o ritmo de recuperação foi tão lento que mesmo por volta do século IX a Europa ainda se encontrava incomensuravelmente atrás do mundo clássico em todos os departamentos da vida… Esta foi, então, verdadeiramente uma Idade das ‘Trevas’.[11]

Que alguns avanços tenham ocorrido ao longo deste milênio não está posto em questão, e Stark volta a relatá-los minuciosamente. Mas pelos padrões do Ocidente secularizado posteriores ao século XVIII, tal progresso foi relativamente – e enormemente – insignificante. Com efeito, os relatos de avanços menores são mera distração, pois eles proporcionaram pouco ou nenhum alívio para a miséria extrema em que os europeus ocidentais viveram por séculos. A alegação de Stark de que o período foi de “invenção e inovação extraordinárias” é um exagero grotesco – na melhor das hipóteses. Uma era “extraordinária de inovação e invenção“ envolveria avanços tecnológicos igualmente extraordinários e a consequente melhoria significativa dos padrões de vida humanos. No mínimo, Stark sugere – e em alguns casos afirma explicitamente – que foi isto o que ocorreu durante a Idade Média. Na verdade, nada remotamente semelhante a isso aconteceu.

Alegações importantes feitas por Stark são escandalosamente errôneas. Por exemplo, ele declara: “A idéia de que a Europa mergulhou numa Idade das Trevas é um boato produzido pelos intelectuais antirreligiosos e cruelmente anticatólicos do século XVIII, que estavam determinados a afirmar a superioridade cultural de sua própria época e que promoveram sua alegação depreciando os séculos anteriores como – nas palavras de Voltaire – uma época em que ‘o barbarismo, a superstição e a ignorância cobriram a face do mundo.’[12] Infelizmente para os homens que viveram naquela época, a alegação de Stark de que a Idade das Trevas europeia entre os séculos V e IX foi “um boato” não é nem remotamente corroborada pelos fatos. A verdade trágica é que da queda de Roma até a Renascença medieval dos séculos XII e XIII – um período de seiscentos anos completos – a Europa Ocidental sofreu um longo período de penúria material e privação intelectual quando comparada tanto à Idade Clássica que o precedeu como ao Renascimento que o seguiu.

Em comparação, os séculos XVIII e XIX foram palco do florescimento pleno das Revoluções Tecnológica e Industrial. Estes foram séculos não de Santos Bonifácios convertendo pagãos paralelamente a progressos secundários como moinhos de vento de água que ainda deixavam os homens esfaimados – mas de James Watt e a máquina a vapor, Thomas Edison e o sistema de iluminação elétrico, Alexander Graham Bell e o telefone, os irmãos Wright e a aviação, Henry Ford, Andrew Carnegie, John D. Rockefeller, e a produção industrial em massa de bens de consumo – e, consequentemente, estes foram séculos de crescimento meteórico do padrão e da expectativa de vida. Esta foi uma era de progresso intelectual e material assombroso. Os séculos XVIII e XIX foram um período de “invenções e inovações extraordinárias”. Os séculos VIII e IX simplesmente não foram.[13]

Qual foi a causa básica de um período tão longo de estagnação, sobretudo quando comparado com o enorme avanço criado pelos homens nos últimos 250 anos? Para respondermos a esta questão, é necessário identificar tanto a causa fundamental do progresso humano como as condições sociais que seu florescimento exige.

A Tragédia Da Teologia: Como A Religião Causou E Prolongou A Idade Das Trevas – Parte 2: A Igreja Contra A Razão

Notas.

1. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), pp. x–xi.

2. Ibid., xiv–xv, 35, 38–42.

3. Angus Maddison, Phases of Capitalist Development (New York: Oxford University Press, 1982), pp. 4–7. Angus Maddison, The World Economy: A Millennial Perspective (Paris: Organization for Economic Cooperation and Development, 2001), p.1. Andrew Bernstein, The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic and Philosophic Case for Laissez-Faire (Lanham, Md.: 2005), pp. 73–136.

4. Graeme Snooks recontado em Joyce Burnette and Joel Mokyr, “The Standard of Living Through the Ages,” in The State of Humanity, editado por Julian Simon (Malden, Mass.: Blackwell Publishers, 1995), pp. 136–39.

5. Fernand Braudel, The Structures of Everyday Life: Civilization and Capitalism, 15th–18th Centuries (New York: Harper & Row, 1981), pp. 73–78.

6. J. J. Bagley, Life in Medieval England (London: B.T. Batsford, 1960), pp. 57–59, 156–159. Mabel Buer, Health, Wealth and Population in the Early Days of the Industrial Revolution (New York: Howard Fertig, 1968), pp. 104–105. Norman Cantor, In the Wake of the Plague (New York: Perennial, 2002), pp. 6–8.

7. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 141–142.

8. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 61–62.

9. Andrew Coulson, Market Education: The Untold History (New Brunswick: Transaction Publishers, 1999), pp. 58–60.

10. Will Durant, The Story of Civilization, vol. 4, The Age of Faith (New York: Simon & Schuster, 1950), p. 123.

11. W. T. Jones, A History of Western Philosophy, vol. 2, The Medieval Mind (New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1969), pp. 139–142. Richard Rubenstein, Aristotle’s Children: How Christians, Muslims and Jews Rediscovered Ancient Wisdom and Illuminated the Middle Ages (New York: Harcourt, Inc., 2003), pp. 59, 61–62. Charles Freeman, The Closing of the Western Mind: The Rise of Faith and the Fall of Reason (New York: Vintage Books, 2005), pp. 268–269.

12. Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (New York: Random House, 2005), p. 35.

13. Veja Andrew Bernstein, The Capitalist Manifesto: The Historic, Economic and Philosophic Case for Laissez-Faire (Lanham, Md.: 2005), pp. 73–161.

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Título Original: O Cristianismo Não Foi Responsável Pela Ciência Moderna

Fonte: The Christian Delusion, págs. 396-419 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2010 )

Autor: Richard Carrier, PhD

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Richard Carrier é um autor e conferencista de renome mundial. Como historiador profissional, filósofo em atividade e um defensor destacado do movimento de livres-pensadores norte-americano, o Dr. Carrier já participou de eventos e programas televisivos em todo o país defendendo sólidos métodos de investigação histórica e a visão de mundo ética do naturalismo secular. Seus livros e artigos também tem recebido atenção internacional. Ele possui um título de Ph.D. em História Antiga pela Columbia University, especializando-se na história intelectual greco-romana, particularmente filosofia antiga, religião e ciência, com enfâse nas origens do Cristianimso e nos usos e progressos da ciência no Império Romano. Ele é mais conhecido como o autor de Sense and Goodness without God (Sentido e Bondade sem Deus), Not The Impossible Faith (Não A Fé Impossível) e Why I Am Not A Christian (Por que não sou Cristão), e um dos principais colaboradores em The Empty Tomb (A Tumba Vazia), The Christian Delusion (Cristianismo, um Delírio), The End of Christianity (O Fim do Cristianismo) e Sources of The Jesus Tradition (Fontes da Tradição de Jesus), bem como redator e editor-chefe (atualmente emérito) da Secular Web, e por seu volumoso trabalho em história e filosofia, online e impresso. Seu mais recente livro é Proving History: Baye’s Theorem and the Quest for the Historical Jesus. Atualmente, ele trabalha em seus próximos livros, On the Historicity of Jesus Christ, The Scientist in the Early Roman Empire, e Science Education in the Early Roman Empire. De sua autoria, você também pode ler aqui no Rebeldia Metafísica o artigo O Fim da Aposta de Pascal: Por Que A Descrença É A Aposta Mais Segura. Para saber mais a respeito da vida e da obra de Richard Carrier, visite sua página pessoal na internet.

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Conforme demonstrado por uma nova geração de historiadores, sociólogos e filósofos da ciência, a religião bíblica não foi o inimigo da ciência mas antes a matriz intelectual que a possibilitou, em primeiro lugar. Sem os insights fundamentais que o Cristianismo encontrou celebrados na Bíblia e disseminados através da Europa, a ciência jamais teria se desenvolvido… As evidências são incontestáveis: foi a teologia racional tanto da Idade Média Católica como da Reforma Protestante – inspirada pelas verdades implícitas e explícitas reveladas na Bíblia Judaica – que abriram caminho e conduziram às descobertas da ciência moderna.[1]

A crença na racionalidade de Deus não apenas levou ao método indutivo como também à conclusão de que o universo é governado racionalmente por leis passíveis de serem descobertas. Este pressuposto é de importância crucial para a pesquisa científica porque, num mundo pagão ou politeísta, que concebia seus deuses muitas vezes engajados em comportamentos irracionais e emocionalmente arbitrários, atuando num mundo não-racional, qualquer investigação sistemática de tal mundo pareceria fútil e sem sentido. Somente num arcabouço teórico cristão, que postula “a existência de um Deus único, o Criador e regente do universo, [que] funciona de modo ordenado e padronizadamente previsível”, é possível que a ciência exista e opere.[2]

Estas duas citações descrevem sucintamente uma nova ilusão esgueirando-se pelos saguões da academia conservadora: a crença em que o Cristianismo não somente causou a ciência moderna, como também foi, inclusive, necessário para seu surgimento. No estágio em que a fábula se encontra, não somente o Cristianismo nunca esteve em conflito com a ciência e jamais obstruiu-lhe de maneira alguma seu livre curso, como na verdade foi o salvador da ciência, a única visão de mundo capaz de possibilitar sua existência. E esta é a razão pela qual a Revolução Científica eclodiu somente em um lugar: numa sociedade completamente cristã.

Isto é não somente falso em todos os detalhes concebíveis como tão escandalosamente falso, que qualquer um, mesmo um estudioso das mais modestas competências e responsabilidades acadêmicas, deveria estar ciente de sua falsidade. Donde se depreende que os proponentes desta visão, todos os quais reivindicam o título de pesquisadores acadêmicos, devem ou ser constragedoramente incompetentes, ou patologicamente desonestos, ou iludidos além de qualquer esperança de recuperação. Que tantos acadêmicos sejam a tal ponto incompetentes parece improvável. Que eles estejam todos mentindo, mais ainda. Naturalmente, todos já vimos a tática política conservadora de repetir uma mentira tantas vezes, em tantos lugares, com tamanha convicção, e a partir de fontes tão variadas, que todo mundo começa a dar-lhe crédito. Esta pode ser uma destas mentiras. Ou estes intelectuais podem realmente ser tão tresloucadamente incompetentes. Mas estou disposto a conceder-lhes o benefício da dúvida. A ilusão parece-me uma explicação mais provável para o fato tantas pessoas estarem a repetir uma alegação tão demonstravelmente falsa sem jamais serem corrigidas por seus pares.

Uma objeção óbvia a esta alegação delirante é que ela viola um dos mais elementares princípios da causalidade: quando uma causa está presente, seus efeitos são vistos. O Cristianismo dominou completamente todo o mundo ocidental do quinto ao décimo quinto séculos da Era Comum, e ainda assim no decorrer destes mil anos não houve Revolução Científica alguma. Uma causa que fracassa em produzir seus efeitos previsíveis apesar de estar atuando continuamente por mil anos é usualmente considerada refutada, não confirmada. Desculpas esfarrapadas serão apresentadas, alegações de impedimentos, mas nenhuma Revolução Científica tampouco ocorreu na metade oriental do mundo cristão, que não possui nenhuma das escusas do Ocidente. O Oriente nunca foi invadido por bárbaros e permaneceu próspero e desenvolvido por cinco séculos. De qualquer forma, tais pretextos são geralmente negados – a nova moda é insistir que mesmo a Idade Média Ocidental foi caracterizada por um espírito de inovação e um vigor econômico e intelectual inigualáveis. Mas mesmo se você rejeitar isso e aceitar que o Ocidente foi refreado, por que a Revolução Científica  nunca aconteceu no Império Bizantino, tão cristão quanto, e em todos os demais aspectos mais bem sucedido? Aqueles confrontados por este questionamento geralmente reagem denegrindo os bizantinos como sendo de alguma maneira o “tipo errado” de cristãos[3]. Mas uma vez que você enverede por este caminho, a noção de que o Cristianismo é a solução cai fora do quadro. Agora você precisa de um tipo especial de Cristianismo, que evidentemente não é uma consequência inevitável do Evangelho Cristão original. De qualquer maneira, o fato permanece, seja no Oriente ou no Ocidente, tão logo os cristãos dominaram a cultura, nenhuma Revolução Científica sucedeu. Foi necessário esperar mais um milênio.

Portanto, logo de saída, alguma coisa está errada. Talvez você seja capaz de desembaraçar-se desta dificuldade. Não obstante, algumas afirmações associadas a esta nova ilusão são de uma falsidade gritante. Dinesh D’Souza , num livro cuja edição brasileira recebeu o irônico título de “A Verdade Sobre o Cristianismo“, declara com uma convicção inabalável que, de todas as religiões antigas, “somente” o Cristianismo “foi, desde seus primórdios, baseado na razão”, e consequentemente “não existem teólogos” na história de qualquer outra religião[4]. Embora não haja dúvidas de que mesmo um estudante aplicado do ensino médio  saiba que o gregos pagãos inventaram a razão, no sentido exato em que D’Souza emprega o termo, desenvolvendo as ciências formais da lógica, filosofia, matemática e retórica. E não obstante qualquer leitor atento da Bíblia saiba que o Cristianismo foi desde seus primórdios baseado nas escrituras, na inspiração e na revelação, não na “razão”[5]. Se quiser saber como é uma religião realmente baseada na razão, basta olhar as teologias formais dos filósofos greco-romanos. Sim, os pagãos inventaram, também, a teologia[6].

Mas os fatos não são os únicos obstáculos obstruindo a disseminação do boato de que a ciência precisou do Cristianismo. O uso de uma lógica franciscana é outro.

Falácias Comuns

A maioria dos argumentos apresentados para sustentar esta conclusão assentam-se numa série de falácias comuns. Que nenhum esforço seja feito para detecta-las ou evita-las é outro índício de ilusão.

Toda a noção começa com uma mera falácia de correlação: apenas porque a ciência moderna surgiu somente numa cultura cristã ocidental, não se segue que uma cultura cristã ocidental foi sua causa (ou, ainda mais absurdo, que tal cultura tenha sido a única capaz de de produzi-la). Isto é tão falacioso quanto assumir que porque os inventores da geometria formal eram politeístas, o politeísmo foi a causa da invenção da geometria formal, ou, ainda mais absurdo, que somente os politeístas poderiam te-la inventado. Nenhuma destas afirmações possui a menor plausibilidade. O fato de a geometria formal ter sido inventada numa época e local em que a religião dominante era politeísta não passa de um mero acidente histórico. Na maioria dos aspectos o mesmo vale para o Cristianismo e a Revolução Científica.

Nunca levado em consideração, por exemplo, é o fato de no início do segundo milênio qualquer motivo, para ser respeitável em tal matriz cultural demasiado estreita e paranóica, precisava ser articulado em termos amigáveis ao Cristianismo — na verdade, se possível, como se satisfizesse o Cristianismo. Pois qualquer coisa aparentando mesmo remotamente ser anticristã era condenada e seus defensores punidos — socialmente certamente, fisicamente às vezes. Esta não era uma época em que você poderia desfrutar da liberdade de ser um herege ou um ateu, muito menos um pagão ou um apóstata, sem encarar repercussões que poderiam encerrar sua carreira, sua liberdade ou até mesmo sua vida. Tal atmosfera compeliu todos a encontrar maneiras criativas de vender quaisquer novas idéias como perfeitamente cristãs, até mesmo bíblicas, independentemente de seu real motivo ou inspiração. De maneira que a descoberta de argumentos bíblicos ou cristãos para a adoção de novas idéias neste período não confirma que o Cristianismo ou a Bíblia foram a causa destas idéias, mas antes apenas revela a estratégia de marketing exigida para vende-los naquela época.

Outra falácia é a fusão de causas necessárias, suficientes e contribuintes. É possível montar um bom caso para defender que o raciocínio científico foi na verdade um subproduto da teologia pagã primitiva[7]. Mas mesmo assim, ninguém concluiria a partir disso que o paganismo foi necessário. Eu seria capaz de apontar diversos aspectos da religião pagã que contribuíram para o surgimento da ciência, (sua confiança na razão e nas evidências em detrimento da autoridade institucional e escritural, seu interesse devotado na natureza e nas estrelas), mas disso não segue que somente o paganismo possua estes atributos. Sequer pode-se afirmar com segurança que eles sejam todos necessários. O paganismo greco-romano poderia ter sido uma causa suficiente ou apenas contribuinte da ciência antiga, mas dificilmente foi uma causa necessária; e ele pode ter provido valores que ajudaram a ciência a se desenvolver, mas dos quais a ciência poderia ter prescindido, ou que outras visões de mundo poderiam igualmente ter encorajado. Assim como, também, o Cristianismo.

Finalmente, com demasiada frequência os promotores desta nova ilusão repetidamente confundem razão (entendida como o uso da lógica para se alcançar a consistência) com raciocínio científico (a testagem de previsões a partir de suas hipóteses contra as evidências, utilizando um método que investiga e controla agressivamente erros empíricos e falácias, e a coleta e o registro de fatos reais sobre o mundo pela observação e confirmação deles). Ou eles confundem “ciência” entendida como métodos, pesquisas e progresso científicos, com “ciência” no sentido de transmissão e utilização da ciência anterior na prática profissional (como fazem os médicos, astrônomos e engenheiros) sem nenhum esforço significativo para aprimora-la (além de revisões de escritório ou a diminuição da margem de erro das mensurações). Muito frequentemente evidências de um serão aliciadas como evidências da outra. Mas isto é uma falácia de equívoco. A “ciência” pode persistir sem a ciência, e de fato indiscutivelmente sobreviveu no Cristianismo medieval, assim como a razão poderia ser louvada e buscada ao passo que o raciocínio científico dificilmente seria visto, como também foi nitidamente o caso ao longo da maior parte da Idade Média.

Fantasias Históricas

Um argumento bem construído poderia talvez evitar estas falácias. Mas neste caso você tem que encarar os fatos de frente. E ninguém o faz. A noção de que a ciência precisou do Cristianismo possui diversos autores, mas sua formulação mais plenamente desvairada parece ter se originado de um  físico católico devoto, o padre Stanley  “A atitude da Igreja para com a Ciência foi muito benéfica” Jaki[8]. Ela então se infiltrou na mentalidade conservadora cristã, e é muitas vezes representada como o novo consenso na história da ciência (embora não o seja)[9]. Rodney Stark é provavelmente seu melhor representante [Nota do Tradutor: Outro de seus representantes mais conhecido do público brasileiro é Thomas Woods Jr., autor da obra-prima da desinformação e distorção histórica Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental). Ele sumariza os argumentos de Jaki mais sucinta e inteligivelmente do que o próprio Jaki, e ao contrário da maioria, Stark pelo menos tenta citar suas fontes. De modo que examinarei sua versão do argumento[10]. Stark já foi criticado alhures[11]. Mas não ainda por um especialista em ciência antiga e Cristianismo.

Fantasia Histórica Número 1: “Nenhuma Ciência Real Existiu Na Antiguidade

Rodney Stark é um excelente sociológo mas um historiador fajuto. Ele não possui nenhum treinamento formal no exercício da profissão de historiador, ou em história antiga em particular. Na verdade, nenhum dos defensores desta teoria possui. Mas é desnecessário citar a falta de credenciais. A incompetência de Stark é exposta de maneira decisiva numa única sentença: “O conhecimento grego estagnou em virtude de sua própria lógica interna. Após Platão e Aristóteles, pouquíssimo aconteceu além de alguns progressos da geometria”[12]. Que a Universidade de Princeton tenha publicado um livro contendo esta sentença permanece uma das coisas mais aterradoras com que me deparei em minha carreira (e pode não ser uma mera coincidência que Stark tenha publicado seu livro seguinte pela Random House).

A verdade é que os gregos e os romanos alcançaram progressos contínuos e formidáveis na ciência e na matemática após Aristóteles. A geração de Aristóteles marcou apenas o começo da história da ciência antiga – quase todas as descobertas espetaculares dos antigos ocorreram após esta geração. E eles descobriram um bocado[13]. De modo que numa única sentença Stark passou uma borracha em toda a história da ciência antiga. Contudo, seu argumento por inteiro está assentado nesta sentença. Tivesse ele feito o que qualquer pesquisador acadêmico é obrigado a fazer, e averiguado de fato a historiografia corrente sobre a ciência antiga, ele saberia que esta premissa chave, e consequentemente o argumento assentado por inteiro sobre ela, é de uma estupidez atordoante. Já no tempo de Aristóteles, em meados do 4º século AEC, existiram vários cientistas importantes, de Hipócrates e Eudózio a Calístrato, Arquitas e Aristoxenos, os quais Stark demonstra ignorar por completo. Mas depois disso, até o fim do segundo século da Era Comum, sou capaz de verificar os nomes de mais de cem cientistas que publicaram suas obras, cujas obras em sua maioria não foram preservadas pelos cristãos medievais[14]. Stark não exibe o menor conhecimento de qualquer deles, ou – nem mesmo daqueles cujas obras foram preservadas.

Eis uma pequena amostra…

Aristóteles realizou inúmeras experiências de dissecação e vivissecção na anatomia e fisiologia animal e produziu a maior coleção científica de obras zoológicas até então. Imediatamente após isso, seu sucessor Teofrasto ampliou seu trabalho à botânica e à fisiologia das plantas, e também produziu as primeiras obras científicas em pirologia, mineralogia e outras áreas. Seu sucessor, Estratão de Lâmpsaco, extendeu seu método experimental à engenharia e à física, período em que diversas das teorias físicas de Aristóteles foram modificadas ou abandonadas. No terceiro século AEC um instituto de pesquisa foi instaurado em Alexandria, no Egito, onde Tecíbio e Filo completaram os primeiros trabalhos científicos de que se tem notícia sobre pneumática (o estudo do comportamento do ar e da água); Erastótenes inventou a ciência da cartografia e foi um dos primeiros cientistas na história a medir o diâmetro da Terra (com uma margem de erro de apenas 15 por cento!) e a analisar o efeito da lua sobre as marés; e Herófilo e seu pupilo Erasístrato deram origem à neurofisiologia, estabelecendo a partir de experimentos detalhados que a mente é uma função do cérebro e que funções mentais específicas são controloadas por regiões específicas do cérebro, e eles distinguiram os nervos motores dos nervos sensoriais e os mapearam ao longo do corpo. De um modo geral, seus estudos do corpo humano e de seus ossos, músculos e órgãos, foram tão minuciosos e abraangentes que até hoje fazemos uso de sua terminologia anatômica.

Na Sicília, seu colega Arquimedes estava ocupadíssimo aprimorando a mecânica e a hidrostática, e descobrindo, descrevendo ou explicando as primeiras leis matemáticas da física. Não muito depois disso, Aristarco começou a medir as distâncias entre a lua, o sol e os planetas (com valores gradativamente refinados nos séculos eguintes), e propôs a primeira teoria heliocêntrica. Em Rodes um século depois, Hiparco descobriu e mediu a precessão celestial (a rotação do Zodíaco ao longo de um período de 25800 anos), observou a primeira supernova, estabeleceu os primeiros mapas celestes detalhados, fez numerosos avanços na teoria planetária, e desenvolveu o primeiro sistema científico de previsão de eclipses solares e lunares. Seleuco da Babilônia descobriu o efeito do sol sobre as marés, não apenas o da lua, desenvolvendo a primeira teoria matemática lunissolar das marés. Então, nos primeiros anos do Império Romano, as realizações da ciência antiga atingiram seu clímax, produzindo obras não superadas até a Revolução Científica: Dioscórides na botânica, mineralogia e farmacologia; Hero na mecânica, pneumática e robótica teatral; Ptolomeu na astronomia, cartografia, ótica e harmonia, e Galeno na anatomia, fisiologia e medicina. Para nomear apenas alguns. Muitos mais houveram cujas obras estão agora perdidas, avançando áreas tão diversas como a apiologia e a oceanografia, passando pela hidrostática e a vulcanologia.

Nenhum deles esteve enclausurado por qualquer “matriz teórica fossilizada inalterável” recebida de Aristóteles[15]; ao contrário, todos os pressupostos de sua física foram livremente debatidos e revisados. Os heliocentristas debateram com os geocentristas estáticos e dinâmicos; teorias da inércia, da pressão e da gravitação universal competiram com as teorias aristotélicas dos lugares naturais, teorias dos raios óticos competiram com teorias corpusculares da luz, e assim por diante[16]. Por volta do período romano, a conclusão de Aristóteles de que os cometas eram um fenômeno atmosférico perdeu terreno para a concepção correta de que eles eram corpos planetares descrevendo órbitas exageradamente excêntricas; Hiparco desenvolveu uma teoria cada vez mais verossímil da balística e refutou a crença de Aristóteles de que os céus nunca mudam; Herófilo refutou a teoria aristotélica de que a alma residia no coração, com experimentos acurados provando que todos os pensamentos e sensações aconteciam no cérebro – uma conclusão reforçada por Galeno com um estudo detalhado do sistema vocal, demonstrando que o cérebro controla a fala humana; Hero refutou experimentalmente a tese de Aristóteles de que o vácuo era impossível, e provou que o vento era ar em movimento, que o ar aquecido se expande e ascende, e que o ar frio se contrai e desce; e Ptolomeu abandonou a suposição de Aristóteles de que as órbitas planetárias precisavam ser concentricamente circulares e suas velocidades constantes. Até mesmo a teoria de Aristóteles de uma divisão fundamental entre os domínios celestial e sublunar foi largamente desafiada e rejeitada diversas vezes pelos naturalistas subsequentes, junto com quase todos os outros aspectos duvidosos de sua física original.

Os mais importantes progressos na lógica também ocorreram após Aristóteles[17], assim como nos conceitos matemáticos e físicos, a tal ponto que quase tudo cuja autoria é creditada aos intelectuais da Idade Média na verdade já havia sido concebido na Antiguidade. Por exemplo, o que conhecemos atualmente por Navalha de Ockham já era uma heurística metodológica padronizada[18]. Mesmo os “alguns progressos na geometria” esnobados por Stark incluem cônicas avançadas, trigonometria plana e esférica, e os rudimentos do cálculo. Eles ainda foram além da geometria, desenvolvendo a análise combinatória e um forma primitiva de álgebra multivariada. Todavia, os cristãos medievais mostraram tamanho desinteresse nestas realizações matemáticas que alguns de seus registros foram escassamente preservados, enquanto outros foram literalmente apagados dos livros para ceder espaço a hinos de louvor a Deus[19]. Na verdade, sob o domínio cristão quase todas as realizações científicas dos antigos foram esquecidas no Ocidente e ignoradas no Oriente, ou sobreviveram apenas em caricaturas simplistas. Os poucos livros que foram copiados o suficiente para sobreviver o foram, sob qualquer ponto de vista, rara ou escassamente copiados, muitas vezes não compreendidos, e nunca aprimorados substancialmente por aproximadamente mil anos.

Como resultado, por vários séculos os cristãos sequer souberam que cientistas posteriores a Aristóteles expandiram significativamente o método experimental e começaram a confirmar as leis matemáticas da física, que foram preditivamente bem sucedidas, tecnologicamente úteis e completamente mecânicas. As primeiras leis matemáticas corretas provavelmente antecederam Arquimedes, mas seus tratados sobre a estática e a hidrostática são os registros mais antigos que possuímos delas. A esta altura, os cientistas sabiam que as alavancas obedeciam à lei D1W1=D2W2 (expressa geometricamente), e que os objetos flutuam não porque (como Aristóteles supusera) possuíam uma “natureza flutuativa”, eles flutuam porque suas densidades são menores do que a da água circundante, de modo que a água mais pesada empurra para cima o objeto flutuante, com uma força cujo valor resulta exatamente da diferença matemática entre suas densidades, e que mesmo os objetos que afundam tornam-se mais leves, por uma diferença exatamente igual ao peso da água deslocada pelo corpo – que, incidentalmente, refutou a noção de Aristóteles de que a leveza de um objeto era imutavelmente inata. No período romano, as leis corretas da reflexão também foram conhecidas, assim como sua explicação teórica correta (Hero provou que eles resultavam de um princípio de menor esforço), e as leis da refração foram exploradas e aperfeiçoadas com experimentos detalhados. Ptolomeu mediu experimentalmente a diferença entre os índices de refração de materiais como vidro, água e ar, descobriu que o ângulo de refração aumenta com o ângulo de incidência numa relação de proporção direta, e tentou descobrir uma lei matemática da refração. Medições precisas desempenharam um papel até mesmo na fisiologia, permitindo a Galeno provar a teoria correta da função renal (e explicar o sistema renal por inteiro) com uma série de experimentos controlados[20].

Hutchinson define a ciência moderna como uma “ênfase na observação e experimentação diretas, medições precisas, e a formulação de leis da natureza”, e vimos que os pagãos antigos possuíam todos estes elementos[21]. Stark define a ciência moderna como “um método empregado em esforços ordenados para formular explicações da natureza, sempre sujeitas a modificações e correções através de observações sistemáticas” tais que “é possível deduzir a partir das explicações resultantes algumas previsões e proibições bem definidas sobre o que será observado”[22]. Isso, também, descreve acuradamente a ciência antiga. Os cientistas da antiguidade desenvolveram e aprimoraram continuamente seus métodos – até o fim: Galeno, Hero e Ptolomeu todos tiveram muito a dizer sobre métodos e seus aperfeiçoamentos. Seus esforços também foram ordenados. O Almagesto de Ptolomeu mostra que os astrônomos compartilharam observações e criaram registros para seus futuros colegas, os livros de Galeno mostram repetidamente médicos cooperando em pesquisas anatômicas e cientistas de todas as áreas debatendo, conferenciando e aconselhando-se mutuamente, e existiram associações científicas formais, incluindo o Museu de Alexandria. E todos eles almejaram produzir explicações da natureza, muitas vezes corrigindo suas teorias com observações sistemáticas e experimentos controlados, e deduzindo a partir de suas teorias previsões exatas do que iria ou não acontecer. A teoria planetária de Ptolomeu era capaz de prever a posição de Marte com uma precisão assombrosa com uma antecipação de 20 anos, e sua lei da refração era quase tão precisa quanto. A teoria de Galeno dos sistemas renal e vocal previu corretamente os efeitos de doenças e lesões específicas, assim como o comportamento normal dos próprios órgãos. Hero foi capaz de prever os benefícios mecânicos exatos de diversas máquinas e o comportamento geral do ar, água e do vapor na presença ou ausência de pressão ou calor. Menelau foi capaz de prever as densidades específicas de diferentes fluidos e sólidos e seus comportamentos em diferentes meios de suspensão. Eu poderia continuar por várias páginas. Todos foram empíricos, todos associaram teoria e prática, e todos testaram pelo menos algumas de suas teorias contra os dados observados. Não obstante, Stark ainda sustenta, com plena convicção, que “enfim, todas as suas realizações foram filosofias não-empíricas, até mesmo anti-empíricas, especulativas, coleções de fatos não-teóricos, e tecnologias e invenções esporádicas – jamais… ciência verdadeira”[23]. Como espero ter deixado perfeitamente claro a esta altura, esta sentença não contém o menor vestígio de qualquer coisa remotamente verdadeira.

Fantasia Histórica Número II: “Os Pagãos Possuíam Um Bloqueio Mental

Sendo o primeiro fato de Stark tão constrangedoramente falso, surpreende que ele não tenha sido banido e escorraçado da comunidade acadêmica. Mas a coisa fica ainda pior: ele enuncia confiantemente razões pelas quais seu primeiro fato é verdadeiro, não obstante seu primeiro fato não ser verdadeiro, refutando, assim, seu segundo – já que se essas causas são obtidas, elas claramente não produzem o efeito previsto. Como, também, quaisquer outras “causas” que outros defensores aleguem para esta estagnação fictícia da ciência antiga.

Todas estas “explicações” equivalem à alegação de que os pagãos sofreram de diversos bloqueios mentais dos quais somente o Cristianismo poderia liberta-los. Stark apresenta três exemplos populares:

Primeiro, suas concepções do divino eram inadequadas para permitir-lhes imaginar um Criador consciente [portanto eles não poderiam conceber leis físicas]. Segundo, eles concebiam o universo não apenas eterno e incriado, mas também encerrado em ciclos intermináveis de progresso e decadência [portanto eles não poderiam imaginar o progresso científico]. Terceiro, condicionados por suas concepções religiosas, eles transformaram objetos inanimados em criaturas vivas dotadas de crenças, desejos, emoções e intenções – desta maneira abortando a busca por teorias físicas.[24]

Mesmo se estas alegações fossem verdadeiras, a teoria de Stark já estaria refutada, pois, como acabamos de ver, a ciência floresceu apesar delas, e Stark defende a tese de que estes três fatos certamente teriam-na obstruído. Como eles não o fizeram, o Cristianismo não pode reivindicar nenhuma vantagem por te-los abandonado. Todavia, da forma como Stark os descreve, estas alegações nem chegam a ser verdadeiras, nem faz qualquer sentido lógico apresenta-los como barreiras à ciência, para começar. Na verdade, eu defendo que eles são tão falsos quanto ilógicos, embora declarados com tamanha convicção, que Stark só pode ser desonesto, incompetente ou iludido. Pois até mesmo a mais rudimentar análise e verificação dos fatos teria destruído todos.

Teologia Pagã

A teologia pagã supostamente é um obstáculo, mas Stark não apresenta uma defesa convincente desta idéia. Ele afirma que certos aspectos da teologia platônica impediram a ciência[25]. Mas como todos os cientistas antigos eram filosoficamente ecléticos com fortes simpatias pelo naturalismo estóico e epicurista, e pelo aristotelismo, corrente antiplatônica desde sua fundação, não era nem mesmo possível que o platonismo impedisse o curso da ciência antiga, mesmo se este abrigasse quaisquer vieses anticientíficos[26].

Mais genericamente, a teologia pagã supostamente impediu a concepção de um universo inteligível governado por leis naturais. Consequentemente, de acordo com Stanley Jaki, apenas o Cristianismo poderia originar a ciência, pois:

A investigação científica encontrou um solo fértil apenas quando esta fé num Criador pessoal e racional impregnou verdadeiramente toda uma cultura, começando com os séculos da Alta Idade Média… [propiciando] a certeza na racionalidade do universo, confiança no progresso, e apreciação do método quantitativo, todos ingredientes indispensáveis da pesquisa científica[27].

Naturalmente, como vimos, a “pesquisa científica” já havia encontrado um terreno fértil na antiguidade pagã. Mas todo o resto aqui também é falso. Os cientistas da Antiguidade já confiavam na racionalidade do universo (como logo veremos), já tinham fé no progresso (como veremos em seguida), e já valorizavam o método quantitativo (como vimos há pouco). Portanto, a alegação de Jaki de que somente o Cristianismo poderia inspirar estas coisas é flagrantemente falsa.

Como outros defensores recentes deste novo delírio, Stark enfatiza o ângulo da “racionalidade do universo”: a menos que você acredite num Criador racional, que criou todas as coisas a partir do nada, você não terá qualquer razão para acreditar que o universo é racional ou se comporta segundo padrões naturais detectáveis. Mas isto é não somente uma falsidade, como um completo absurdo. D’Souza insiste que “o pressuposto” de que “o universo é racional é praticamente impossível de ser provado” e portanto exige uma justificação teológica[28]. Mas que o universo é racional é um fato observado. Então ele não precisa ser provado. Tal crença não demanda nenhuma fé ou teologia porque está assentada por inteiro em evidências. Os pagãos reagiram a esta observação de duas maneiras: exatamente como os cristãos tardios o fizeram, ou exatamente como os ateus contemporâneos o fazem. Nenhuma delas representou qualquer obstáculo à ciência.

Aqueles que não acreditavam no design inteligente tiveram que explicar de onde toda esta ordenação e consistência observada se originou, o que os compeliu à investigação científica, exatamente para descobrir as causas reais. De modo que céticos e panteístas da Antiguidade, como Estratão, Erasístrato, Epicuro ou Asclepiades procuraram explicações na inevitável interação de leis e forças naturais. Eles não utilizaram nossa “lei” metafórica mas outras em seu lugar, como a “necessidade natural” e a “natureza intrínseca” das coisas, mas estas expressões eram equivalentes: objetos flutuam na água, por exemplo, devido à inevitável interação de forças intrínsecas segundo um padrão identificável. Deus algum foi necessário. Nenhuma crença na Criação exigida. Tudo é apenas o resultado de causas naturais. De modo que mesmo o ateísmo não representaria impedimento algum à ciência. Muito pelo contrário, como não há nenhuma outra maneira de os ateus explicarem o que veem, esta postura na verdade acarreta a ciência.

E muito provavelmente, se você não era um ateu, você era um criacionista. A maioria dos intelectuais politeístas acreditava num Criador que ordenara o Cosmos de maneira inteligente, que esta ordenação poderia ser descoberta pela mente humana, e que tal descoberta honraria a Deus. Cientistas como Galeno e Ptolomeu, portanto, foram motivados se engajar na investigação científica por sua piedade religiosa, exatamente como Stark afirma que os cristãos o foram, e exatamente pelas mesmas razões. Em seu monumental Sobre os usos das partes, um atlas de anatomia humana em vários volumes que permanece um das defesas mais empiricamente persuasivas do design inteligente jamais escrita, Galeno enuncia suas motivaçõess pagãs para conduzir toda a pesquisa aplicada meticulosa e exaustiva documentada pelo livro: “Componho este sagrado discurso como um verdadeiro hino em louvor de nosso Criador. E considero que estou realmente mostrando a Ele reverência não quando Lhe ofereço” incontáveis e dispendiosos sacríficos “mas quando eu próprio primeiro aprendo a conhecer Sua sabedoria, poder e bondade e então faço-os conhecidos aos outros”[29]. A maioria dos filósofos concorda. Sêneca afirmou que a investigação científica era um empreendimento piedoso superior aos mistérios sagrados da religião pagã, e Cícero afirmou que Deus realmente nos projetou para buscar o conhecimento científico[30]. Podemos encontrar vários outros exemplos de pagãos declarando motivações teológicas para a investigação científica[31]. De modo que quando D’Souza alega que um “impulso” religioso para buscar a ciência “partiu originalmente do Cristianismo”, podemos ver que isto é uma manifesta falsidade[32] A teologia pagã proporcionou motivação abundante, assim como o ateísmo ou o panteísmo.

Teoria Cíclica do Tempo

A alegação de Stark de que qualquer um que acredite que o mundo está enclausurado em “ciclos intermináveis de progresso e decadência” não pode formar um conceito de “progresso” é ilógica: quem acredita em ciclos de progresso e decadência, obviamente acredita no progresso. Você precisa estar à beira da loucura para não notar uma contradição tão óbvia. Não obstante, Stark insiste irracionalmente que os gregos “rejeitaram a idéia de progresso em favor de um ciclo interminável do ser.”[33] Isto é não somente ilógico como falso.

A crença no progresso científico é tão bem evidenciada na literatura antiga, que surpreende alguém ter tido a audácia de afirmar o contrário[34]. Como Stark foi capaz de afirmar o oposto? Por não ter verificado o estado corrente do conhecimento sobre o tema, ou mesmo suas próprias evidências. Para respaldar esta alegação tudo o que Stark oferece são diversas citações irrelevantes que fracassam em absoluto em demonstrar qualquer conexão entre as teorias do tempo antigas e a crença no progresso. De fato, a noção antiga de ciclos eternos poderia ser baseada numa crença no progresso: presumiu-se a eternidade do universo (na ausência de quaisquer evidências em contrário), mas observou-se que a sociedade não havia alcançado um estágio de perfeição em todas as artes e ciências, mas o teria se estivesse progredindo por um tempo infinito; portanto catástrofes periódicas devem destruir as civilizações e todos os registros de suas realizações, obrigando os homens a recomeçar do zero. Aristóteles acreditou que resquícios de sabedoria oralmente transmitidos sobreviveriam a cada catástrofe, mas todos os registros escritos e conhecimentos avançados teriam se perdido, caso contrário ainda estaríamos de posse deles[35]. Acreditar nisto de maneira alguma implica acreditar que existe qualquer outro término para o progresso além da destruição de sua civilização inteira – ou, naturalmente, do mundo inteiro, cujo fim os cristãos acreditaram ser tão iminente que já deveríamos ter perguntado há mais tempo por que eles, os cristãos, acreditariam no progresso, já que essa idéia lhes teria parecido fútil[36]. Os pagãos pelo menos esperavam vários milhares de anos, até mesmo dezenas de milhares, em que continuar seu progresso.

Consequentemente é notável que o único texto citado por Stark que realmente parece relevante, na verdade diz exatamente o oposto do que ele afirma. Nisto ele pode ter sido enganado por Jaki (que justificativa Jaki teria me escapa por completo), mas penso que o fracasso de Stark em verificar o original é um sintoma ou de incompetência ou de ilusão[37]. Quando Aristóteles diz que todas as coisas “foram reinventadas diversas vezes ao longo do curso das eras, ou antes vezes sem conta,” Stark não somente alega que ele está se referindo à tecnologia, mas que Aristóteles quis dizer “o desenvolvimento tecnológico de sua época havia alcançado seu ápice, impedindo qualquer progresso ulterior”, e (suponho que estas palavras destinam-se a nos fazer inferir que) assim como na tecnologia, igualmente na ciência[38]. Mas aqui está a citação real em seu contexto original:

Parece que não há nenhuma descoberta nova ou recente  entre os filósofos políticos de que o estado deve ser dividido por classes e… ter refeições públicas… De modo que devemos supor que estas e outras coisas foram descobertas inúmeras vezes, por um longo período, ou antes vezes incontáveis. Pois parece que as necessidades da vida ensinam os homens o que é proveitoso em e por si mesmo, enquanto é razoável esperar um aprimoramento e um progresso cada vez maior das coisas estabelecidas no princípio… Portanto, deve-se confiar no que já foi apropriadamente descoberto, mas também ir em busca do que permanece por ser descoberto.[39]

Observem: Aristóteles refere-se exclusivamente à organização política, não à tecnologia, nem a qualquer conhecimento científico de qualquer tipo. Na verdade, ele refere-se exclusivamente a duas invenções políticas em particular: o desenvolvimento de um sistema de classes e de refeições públicas, ambas as quais ele remete às civilizações remotas em Creta, Itália e Egito. Ele conclui apenas que estas (e certamente “outras coisas”) devem ter sido inventadas em todos os lugares porque ele as vê por toda parte, até onde o registro histórico permite. E não há nada sobre a impossibilidade de aprimora-las. Antes, quando ele diz que tais coisas foram inventadas inúmeras vezes, tudo o que Aristóteles quer dizer é que a necessidade é a mãe da invenção, e portanto onde quer que alguma necessidade surja, podemos esperar encontrar homens inventando o que for necessário para supera-las. Aristóteles imediatamente acrescenta que ainda existem muitas coisas a serem descobertas e que deveríamos procurar por elas – exatamente o oposto do que Stark afirma.

De maneira similar, quando Aristóteles diz que “é razoável supor que cada arte e filosofia foi desenvolvida tanto quanto possível e então perdida novamente, inúmeras vezes”, ele não quer dizer que o progresso havia terminado em sua própria época, nem mesmo que terminaria em breve, mas que em cada ciclo as artes progridem o máximo que podem antes que alguma catástrofe global nos arremesse em outra Idade das Trevas, e precisemos recomeçar do zero[40]. Como nenhuma catástrofe do tipo estava no horizonte temporal de Aristóteles, não há indícios de que ele tenha acreditado que sua sociedade havia alcançado o estágio máximo do progresso – ao contrário, como vimos na Política, ele claramente acreditou que ainda havia muito a ser realizado, e até mesmo declarou ser nossa obrigação busca-las. Aristóteles também manifesta sua fé no progresso futuro do conhecimento humano em vários outros contextos[41]. Não existe absolutamente evidência alguma, em Aristóteles ou qualquer outro pagão posterior a ele, de uma crença em ciclos eternos impactando a confiança de qualquer pessoa no valor e na possibilidade do progresso científico. Pelo contrário, dispomos de uma vasta quantidade de evidências de que vários pagãos, especialmente os cientistas, não somente acreditaram em tal progresso, como também trabalharam por ele.

Animismo Pagão

Também nos foi dito que o animismo pagão impediu a ciência. Como Stark coloca, “se objetos minerais são animados, envereda-se por um caminho errado ao tentar explicar os fenômenos naturais – as causas do movimento dos objetos, por exemplo, serão atribuídas a motivos, não a forças naturais”[42]. Isto é completamente falso. Nem Aristóteles nem qualquer outro cientista posterior a ele jamais procurou explicar muitos fenômenos desta maneira, exceto quando obrigatório (como no estudo dos comportamentos humano e animal) e quando os cristãos o fizeram (como na procura pela finalidade e pelo projeto divinos na natureza).

Mais uma vez flagramos Stark deixando de ler suas próprias fontes, e confiando cegamente em Jaki (que não tem tal desculpa). Ambos insinuam que Aristóteles (e todos os pagãos que lhe sucederam) acreditaram que os objetos caíam ao chão “devido a seu amor intrínseco pelo centro do mundo”[43]. Mas em seu livro Sobre os céus Aristóteles argumenta especificamente contra esta explicação. Em vez disso, ele diz que os planetas ou objetos em queda moveriam-se em virtude de tendências inatas fixas – em nossas palavras, por se comportarem em concordância com as leis naturais[44]. Um forte indício de fraude, incompetência ou insanidade mental ocorre quando você afirma que suas fontes dizem exatamente o contrário do que elas realmente dizem, e então baseia sua teoria espalhafatosa por inteiro nesse lapso extraordinário. Houvesse Stark verificado superficialmente as explicações do movimento, ou de qualquer outro comportamento dos objetos inanimados, em Aristóteles ou em qualquer outro filósofo pagão posterior, e teria encontrado o exato oposto do que alega.

Mesmo D’Souza sabe o suficiente para admitir que foram os pagãos, começando pelos pré-socráticos, que deram origem à idéia de “um universo que opera segundo regras detectáveis de causa e efeito” e portanto “substituíram a idéia de um ‘universo encantado’ pela de um cosmos ‘desencantado’ acessível à razão humana desamparada”[45]. D’Souza então afirma que “sua influência foi efêmera”, mas isto é uma falsidade. Longe de ter sido efêmera, ela tornou-se o paradigma entre os filósofos greco-romanos, impulsionando o progresso científico por cinco séculos. Todos os cientistas da Antiguidade procuraram explicar todas as coisas como uma interação de causas naturais, formulando leis matemáticas, explicações mecânicas, e teorias de forças e propriedades naturais fixas. Nenhum procurou explicar qualquer coisa em termos de desejos arbitrários dos objetos físicos. Mesmo a noção de que os deuses governam ativamente o mundo, tornando-o assim caprichoso e imprevisível, foi abandonada em favor de um ordem racional consistente previsível, passível de ser estudada, compreendida e modelada.

Embora inúmeros indivíduos pertencentes à massa iletrada retivessem as antigas concepções animistas, isto era ridicularizado pelos intelectuais pagãos. O Aetna, por exemplo, um poema épico romano sobre a vulcanologia, afirma que tal animismo ignorante deve ser rejeitado em favor de explicações mecânicas, e então continua descrevendo explicações mecânicas para a atividade vulcânica[46]. Médicos cientistas, de Erasistrato a Galeno, procuraram explicar toda a fisiologia humana em termos de princípios ou mecanismos físicos[47]. Astrônomos, de Posidônio a Ptolomeu, sem dúvida eram capazes de conceber um modelo mecânico para o sistema solar[48]. O comportamento do ar, da água, do clima e de tudo o mais era explicado de maneira similar[49]. Mesmo quando explicações “redutivamente” mecânicas eram rejeitadas, elas não eram substituídas por outras animistas, mas por teorias físicas de forças naturais intrínsecas –  que muitas vezes poderiam ser corretas, como a teoria da filtragem renal de Galeno, que sustentava que o rim não é uma mera peneira mas contém forças de atração habilmente engendradas que naturalmente selecionam as toxinas para expulsa-las do sangue, uma conclusão que ele provou por experimentação[50]. E longe de atribuir o movimento planetário a desejos caprichosos, Ptolomeu os atribuiu à forças naturais intrínsecas em concordância com leis matemáticas – desenvolvendo, por exemplo, uma lei de “ângulos iguais em tempos iguais” que implicava que os planetas variavam suas velocidades de uma maneira que claramente inspirou a segunda lei de Kepler das áreas iguais em tempo iguais[51]. Embora Ptolomeu suspeitasse que a força que impulsiona os planetas pudesse ser “almas planetárias”, estas eram tão fixas e previsíveis quanto as almas planetárias de Kepler, sendo tão desprovidas de mentes quanto o magnetismo ou qualquer outra força física[52].

Portanto, a polêmica tese de Stark de que após Aristóteles os cientistas antigos estiveram explicando todo o universo em termos de motivos animistas é pura fantasia. Isso nunca aconteceu. Tampouco existe qualquer fundamento para acreditar que isto ocorreu. E uma crença que não somente carece de qualquer fundamento evidencial como também encontra-se refutada por todas as evidências disponíveis existentes, certamente é indistinguivel de um delírio.

A Divisão Mental-Manual

Embora Stark não a invoque, outra premissa comum é que os pagãos não tiveram ciência porque havia uma divisão aguda entre os pensadores educados e os que trabalhavam com suas mãos – em virtude de (é o que nos dizem) algum tipo de desprezo aristocrático contra se sujar. Como os antigos muito claramente possuíram ciência, já sabemos que esta teoria é falsa. Mas não somente a conexão causal está demonstravelmente ausente, como também a alegada causa.

As evidências são abundantemente claras: todos os cientistas antigos foram não somente teóricos soberbamente educados como também exímios artesãos engajados em seus próprios experimentos práticos; eles até mesmo fabricaram seus próprios instrumentos. Todas as obras de Ptolomeu e Hero estão repletas de descrições dos aparelhos e instrumentos que eles construíram, e de instruções para fabrica-los, muitos dos quais tinham de ser fabricados com extraordinária precisão. Todas as obras de Galeno estão repletas com descrições de suas dissecações, cirurgias e vivissecções pessoalmente executadas, bem como de reiterada enfâse na importância dos médicos desenvolverem e manterem sua destreza manual, e conduzir pessoalmente dissecações e vivissecções em vez de incumbi-las a outros, e até mesmo prepararem seus próprios medicamentos. O anatomista da Renascença Vesalius opos-se ferozmente à divisão entre os cirurgiões como trabalhadores braçais e os médicos como os rapazes “dos livros e teorias”, mas na Antiguidade tal divisão nunca existiu, como Galeno atesta e insiste reiteradamente[53]. Hero igualmente sustentou que os médicos e engenheiros precisavam tanto de lições teóricas como de habilidades manuais, especialmente na metalurgia, construção civil, carpintaria e pintura[54]. De modo que se qualquer divisão alguma vez ocorreu, só pode ter sido sob o domínio cristã.

Uma das provas mais decisivas disso é a recuperação arqueológica do computador astronômico mais antigo do mundo, uma máquina construída pelos cientistas gregos não muito depois do ano 100 EC que afundou num navio próximo à ilha de Antiquitera algumas décadas depois. Lançando mão de engrenagens epicíclicas meticulosa e soberbamente confeccionadas, a máquina calculava o dia e o ano em diversos calendários, as posições dos planetas no Zodíaco, bem como a do sol e da lua, e as fases da lua, e previa eclipses solares e lunares, com mais de dois séculos de antecedência, informados por um sistema de ponteiros e mostradores[55]. Este computador é magnificamente fabricado, além de empregar teorias matemáticas e astronômicas avançadas, demonstrando conclusivamente que os pagãos não imaginaram nenhum conflito entre teoria e aprendizado, e entre artesanato e trabalho braçal. Ao contrário, eles os unificaram plenamente. Os cristãos simplesmente não se interessaram em preservar este conhecimento.

Conclusão

Num sentido coloquial, uma ilusão é qualquer crença não somente falsa, mas cuja falsidade é facilmente demonstrável por uma verificação corriqueira dos fatos, embora seja mantida com uma convicção desproporcional às evidências. Nesse sentido, esta nova idéia de que o Cristianismo foi não somente responsável como necessário para o surgimento e o florescimento da ciência moderna é com certeza uma ilusão. Uma ilusão se torna patológica quando esta crença é mantida com a mais absoluta convicção mesmo diante de evidências persuasivas que a contrariam. E nesse sentido, eu penso que as pessoas impassíveis diante das evidências apresentadas neste artigo estão não somente iludidas, como também completamente fora de seu juízo.

Nenhuma das premissas invocadas para sustentar esta ilusão é verdadeira. Todas distorcem os sentidos dos fatos ou dos textos, muitas vezes com uma obviedade escandalosa. Tampouco são os argumentos que empregam estas premissas  logicamente sólidos. Mas ainda mais pertubardor, toda esta fantasia ignora quais são, realmente, os valores necessários para o progresso científico: eleger a curiosidade como uma virtude moral, conceder ao empirismo o estatuto de autoridade suprema em todas as disputas de fato, e valorizar a busca do progresso. Diversos cientistas pagãos promoveram todos estes três valores tão vigorosa e persistentemente que produziram avanços contínuos nas descobertas e nos métodos científicos. O Cristianismo, ao contrário, por um longo período jamais estimou estes valores, e em várias situações os denunciou e reprimiu. Nunca houve na Bíblia ou na mentalidade do Cristianismo original qualquer coisa com tendência a favorece-los. Somente com uma dose cavalar de engenhosidade, e contrariando uma resistência igualmente cavalar, alguns cristãos eventualmente lograram êxito em encontrar uma maneira de reintegrar estes valores pagãos numa cultura completamente cristianizada, e mesmo assim somente após séculos de um desisnteresse quase total[56].

Não obstante, como todas as boas ilusões, esta erigiu-se sobre um núcleo de verdade.

Os pagãos armaram o cenário para o término da ciência antiga – mas não por qualquer das razões alegadas atualmente pelos cristãos. Pelo fracasso em desenvolver um governo constitucional estável e eficaz, o Império Romano foi condenado ao colapso sob o peso de guerras civis constantes e de uma política econômica desastrosa; e no terceiro século da Era Comum foi exatamente isto o que aconteceu. A sociedade pagã respondeu a este colapso abandonando os valores científicos de seu passado e refugiando-se cada vez mais em modos místicos e fantasiosos de compreender o mundo e suas maravilhas. O Cristianismo já foi uma visão de mundo deste tipo, e sua popularidade crescente atingiu o ápice exatamente nessa época[57]. Como era previsível, porém, quando o Cristianismo tomou o poder, ele não restaurou aqueles valores científicos; em vez disso, selou o destino da ciência encerrando todo progresso científico significativo por quase mil anos. Isso não foi feito através da repressão ou da perseguição da ciência, mas simplesmente ao não se promover seu progresso e promovendo em seu lugar uma desconfiança profunda e duradoura contra os próprios valores necessários para produzi-la.

Outrossim, a ciência moderna de fato desenvolveu-se num ambiente cristão, pelas mãos de cientistas que realmente foram cristãos, e é possível compatibilizar o Cristianismo com a ciência e os valores científicos. O Cristianismo precisou apenas se adaptar para adotar aqueles antigos valores pagãos que outrora impulsionaram o progresso científico. E foram os cristãos que se adaptaram, inventando habilidosamente argumentos em favor da mudança, porque somente argumentos em concordância com a Bíblia e a Teologia cristã teriam sido bem sucedidos em persuadir seus pares. Mas este foi um desenvolvimento apesar dos valores e ideais do Cristianismo original, retornando o mundo ao ponto em que os pagãos, não os cristãos, o haviam deixado há mil anos, no alvorecer do terceiro século. Somente então o mundo cristão assumiu aquela antiga ciência pagã e seus valores centrais mais uma vez. E somente então uma nova onde de progresso e inovações floresceu. Não houvesse o Cristianismo interrompido o progresso intelectual da humanidade e suspendido o progresso da ciência por mil anos, a Revolução Científica poderia ter ocorrido mil anos atrás, e nossa ciência e tecnologia hoje estariam mil anos a frente. Esta é uma verdade dolorosa que alguns cristãos recusam-se terminantemente a ouvir ou aceitar. De modo que eles refugiam-se na ilusão de que isso não é verdade, que o Cristianismo, ao contrário, foi tão maravilhoso que não somente causou a ciência moderna, como também foi essencial a ela. Porém, como os fatos demonstram, isto absolutamente não é verdade.

Notas.

1. Robert Hutchinson, “As origens Bíblicas da Ciência Moderna,” in O Guia Politicamente Incorreto da Bíblia (Washington, DC: Regnery, 2007), p. 139.

2. Alvin Schmidt, “Ciência: Suas Conexões Cristãs” in Sob a Influência: Como o Cristianismo Transformou a Civilização (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2001), p. 221.

3. Não estou brincando: Lynn White Jr., “O que acelerou o progresso tecnológico na Idade Média Ocidental?” in Scientific Change, ed. A. C. Crombie (New York: Basic Books, 1963): pp. 272-91; Edward Grant, Science and Religion, 400 B.C. to A.D. 1550 (Westport, CT: Greenwood Press, 2004), pp. 225-30. Grant também alega que as guerras constantes impediram a ciência bizantina, mas o Ocidente cristão e os gregos antigos também estiveram guerreando continuamente, e numa nação próspera (como Bizâncio) a guerra pode na verdade fazer a ciência avançar em vez de obstrui-la: Tracey Rihll, The Catapult A History (Yardley, PA: Westholme, 2007).

4. Dinesh D’Souza, “Cristianismo e Razão: As Raízes Teológicas da Ciência” in A Verdade sobre o Cristianismo, págs. 105-112. (Thomas Nelson Brasil – Rio de Janeiro – 2008).

5. Sobre a espistemologia original do Cristianismo: Richard Carrier, Not the Impossible Faith: Why Christianity Didn’tNeed a Miracle to Succeed (Raleigh, NC: Lulu, 2009): pp. 329-68, 385-406.

6. Teologia como uma ciência racional na Antiguidade: Aristóteles, Metafísica 6.1 (1026a); Sexto Empírico, Contra os Professores 9.12-194 (= Contra os Físicos 1.12-194 = Contra os Dogmáticos 3.12-194); e John Dillon, Alcinous: The Handbook of Platonism (Oxford: Clarendon, 1993): pp. 57-60, 86-89.

7. Convincentemente defendido em David Sedley, Criacionismo e seus críticos na Antiguidade (Berkeley: University of California Press, 2007).

8. Mais conspicuamente em Stanley Jaki, Ciência e Criação (New York: Science History, 1974), A estrada da ciência e os caminhos para Deus (Chicago: University of Chicago Press, 1978) e O Salvador da Ciência (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2000).

9. Exemplos proeminentes: Nancy Pearcey e Charles Thaxton, “A nova história da Ciência” in A alma da ciência (Wheaton, IL: Crossway Books, 1994), pp. 15-56; Thomas Woods, “A Igreja e a Ciência,” Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (Editora Quadrante, 2011), pp. 67-114; Schmidt, Sob a influência, pp. 218-47; D’Souza, A verdade sobre o Cristianismo, pp. 83-99; Hutchinson, Guia Politicamente Incorreto, pp. 138-56; e Stark (veja a próxima nota).

10. Rodney Stark, “A Obra de Deus: As origens religiosas da ciência” em Para a Glória de Deus (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2003), pp. 121-99; and “Bençãos da Teologia Racional” em A Vitória da Razão (New York: Random House, 2005), pp. 3-32.

11. Andrew Bernstein, “A Tragédia da Teologia: Como a Religião Causou e Prolongou a Idade Média: Uma crítica do livro de Rodney Stark ‘A vitória da Razão”‘ Objective Standard 1, no. 4 (Winter 2006-2007): 11-37; Joseph Lucas e Donald Yerxa, eds., “A vitória da razão: um debate,” Historically Speaking 7, no. 4 (Março/Abril 2006): 2-18.

12. Stark, Vitória da Razão, p. 20.

13. As evidências para tudo isto (e o que vem a seguir) será sumarizada em Richard Carrier, The Scientist in the Early Roman Empire (prestes a ser publicado), mas já é coletivamente demonstrada em: Lucio Russo, The Forgotten Revolution, 2nd ed. (New York: Springer, 2003); Tracey Rihll, Greek Science (New York: Oxford University Press, 1999); G. E. R. Lloyd, Greek Science after Aristotle (New York: W. W. Norton, 1973); Paul Keyser e Georgia Irby-Massie, eds., The Biographical Encyclopedia of Ancient Natural Scientists (New York: Routledge, 2009); e toda a série Routledge Sciences of Antiquity.

Para o período romano especificamente: Andrew Barker, Scientific Method in Ptolemy: Harmonics (New York: Cambridge University Press, 2000); A. M. Smith, Ptolemy and the Foundations of Ancient Mathematical Optics (Philadelphia, PA: American Philosophical Society, 1999); J. L. Berggren, Ptolemy:s Geography (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2000); G.J. Toomer, Ptolemy’.r Almagest (New York: Springer-Verlag, 1984); Karin Tybjerg, “Hero of Alexandria’s Mechanical Treatises,” in Physik/Mechanik, ed. Astrid Schurmann (Stuttgart: Franz Steiner, 2005), pp. 204-26; Bennet Woodcroft, ed., The Pneumatics of Hero of Alexandria (London: Taylor, Walton and Maberly, 1851); A. G. Drachmann, The Mechanical Technology of Greek and Roman Antiquity (Madison: University of Wisconsin Press, 1963); Rudolph Siegel, Galen on Psychology, Psychopathology, and Function and Diseases of the Nervous System: An Analysis of His Doctrines Observations and Experiments (New York: Karger, 1973), Galen on Sense Perception: His Doctrines Observations and Experiments on Vision, Hearing, Smell, Taste, Touch and Pain, and Their Historical Sources (New York: Karger, 1970), Galena System of Physiology and Medicine- An Analysis of His Doctrines and Observations on Bloodflow, Respiration, Tumors and Internal Diseases (New York: Karger, 1968).

14. Para uma pequena lista de cientistas conhecidos: Richard Carrier, “Attitudes Toward the Natural Philosopher in the Early Roman Empire (100 BC to 313 AD),” PhD diss., Columbia University, 2008, pp. 562-73 (pre-Aristotle: pp. 558-61). Para uma lista completa, veja Keyser and Irby-Massie, Biographical Encyclopedia. As perdas mais excruciantes são todos os tratados científicos sobre o movimento e a gravidade após Aristóteles: Sobre o Movimento de Estrato, Sobre os objetos derrubados por seu peso de Hiparco e Sobre o Equilíbrio de Ptolomeu, para nomear apenas aqueles de que temos notícia.

15. Como Jaki alega em Estrada da Ciência, p. 22.

16. Como revelado em Sobre a face que aparece no orbe lunar de Plutarco (_ Moralia 920b-945d; reproduzido em vol. 406 da Loeb Classical Library, Plutarch:r Moralia, vol. 12).

17. Vejam Russo, Forgotten Revolution, pp. 218-24 and John Kieffer, Galen” Institutio Logica (Baltimore: Johns Hopkins Press, 1964).

18. Descrito por Ptolomeu em Hipóteses Planetárias 2.6 e no Almagesto 13.2.

19. Por exemplo: Reviel Netz o William Noel, The Archimedes Codex (Philadelphia, PA: Da Capo Press, 2007).

20. Archimedes, On the Equilibrium of Planes and On Floating Bodies; Hero, On Mirrors; Ptolemy, Optics; Galen, On the Natural Faculties.

21. Hutchinson, Politically Incorrect, p. 140.

22. Stark, Victory of Reason, p. 12.

23. Stark, For the Glory, p. 152.

24. Ibid.

25. Stark, Victory of Reason, pp. 18-19, and For the Glory, pp. 152-53.

26. Veja John Dillon and A. A. Long, eds., The Question of `Eclecticism” (Berkeley: University of California Press, 1988); H. B. Gottschalk, “Aristotelian Philosophy in the Roman World,” Aufstieg and Niedergang der romischen Welt 2.36.2 (1987): 1079-1174 [cf. pp. 1164-71]; R. J. Hankinson, “Galen’s Philosophical Eclecticism,” Auf tieg and Niedergang der romischen Welt 2.36.5 (1992): 3505-22; Pamela Huby and Gordon Neal, eds., The Criterion of Truth (Liverpool: Liverpool University Press, 1989); e Tybjerg, “Hero,” pp. 214-15. Exemplos explícitos incluem: Galeno, Sobre as paixões e os erros da alma 1.8 e 2.6-7; Seneca, Epístolas Morais 33; Celsus, Sobre a medicina págs. 45-47.

27. Jaki, Science and Creation, p. viii.

28. D’Souza, A verdade, p. 92.

29. Galen, Sobre os usos das partes 3.10 (também 17.1).

30. Seneca, Natural Questions 7.2 e Cicero, Sobre os limites do Bem e do Mal 5.18.(48)-5.21.(60).

31. Veja Carrier, “Attitudes,” pp. 353-74, 396-98 (que serão reproduzidas em Carrier, Scientist).

32. D’Souza, A verdade, p. 99.

33. Stark, Victory of Reason, pp. 18, 19.

34. Amplamente comprovado em: Ludwig Edelstein, The Idea of Progress in Classical Antiquity (Baltimore, MD: Johns Hopkins Press, 1967) e Antoinette Novara, Les idees romaines sur le progres d’apres ley ecrivains de la Republique, 2 vols. (Paris: Les Belles Lettres, 1982). Faço acréscimos consideráveis às evidências de Edelstein e Novara em Carrier, “Attitudes,” pp. 249-342 (que serão reproduzidas em Carrier, Scientist). Os cientistas antigos foram especialmente otimistas: Edelstein, Idea of Progress, pp. 142-48; Tybjerg, “Hero,” p. 211; Serafina Cuomo, Ancient Mathematics (London: Routledge, 2001), pp. 183-85; Ingrid Rowland e Thomas Howe, Vitruvius (Cambridge: Cambridge University Press, 1999), pp. 16-17; R.J. Hankinson, “Galen’s Concept of Scientific Progress,” Aufstieg and Niedergang der romischen Welt 2.37.2 (1994): 1776-89 and Galen: On the Therapeutic Method (Oxford: Clarendon Press, 1991), p. 86; e Mary Beagon, Roman Nature (Oxford: Clarendon Press, 1992), pp. 56-63,183-90.

35. Esta é a idéia por trás das observações de Aristóteles em Sobre os céus 1.3 (270b) e Metereologia 1.3 (339b).

36. Muitos esperaram que tudo fosse destruído em questão de anos: Hebreus 1:10-2:5, 10:36-37; 1 Coríntos 1:28, 6:13, 7:29-31; 1 Tessalonicensess 4:15; 2 Pedro 3:5-13; 1 João 2:15-18; e obviamente Marcos 13 e Mateus 24; e assim por diante desde o começo (veja Bernard McGinn et al., The Continuum History of Apocalypticism [New York: Continuum, 2003] and Jonathan Kirsch, A History of the End of the World [San Francisco: Harper, 2006]).

37. Stark está simplesmente macaqueando Jaki, Road of Science, p. 24, ou Science and Creation, pp. 113-14. Jaki possui a tendência de relatar falsamente o que suas fontes dizem; por exemplo, ao contrário do que Jaki afirma em Savior, p. 93, nem Plutarco nem Ptolomeu apresentaram quaisquer objeções religiosas ao heliocentrismo- em nenhuma das passagens citadas eles aprovam tais coisas.

38. Stark, Victory of Reason, p. 19. A tecnologia antiga na verdade progrediu imensamente após Aristóteles: John Oleson, ed., The Oxford Handbook of Engineering and Technology in the Classical World (Oxford: Oxford University Press, 2008); Orjan Wikander, ed., Handbook of Ancient Water Technology (Leiden: Brill, 2000); Kevin Greene, “Technological Innovation and Economic Progress in the Ancient World,” Economic History Review 53, no. 1 (Fevereiro de 2000): 29-59; M.J. T. Lewis, Millstone and Hammen The Origins of Water Power (Hull: University of Hull, 1997); and Rihll, Catapult.

39. Aristóteles, Política 7.10 (1329b).

40. Aristóteles, Metafísica 12.8 (1074b).

41. Veja Edelstein, Idea of Progress, pp. 19-29 para diversos exemplos, incluindo: Aristóteles, Refutações Sofísticas 3.34 (183b-184b), Política 2.8 (1268b-1269a), Ética a Nicômaco 1.7 (1098a), Metafísica 13.1 (1076a), Sobre os Céus 2.5 (287b-288a), e Sobre a geração dos animais 3.10 (760b).

42. Stark, For the Glory, p. 154.

43. Stark, Victory of Reason, p. 20, citando Jaki, Science and Creation, p. 105.

44. Aristóteles, Sobre os céus 1.8 (276a-278a), 2.1 (283b-284a), 3.2 (300a-302a), e o livro 4 inteiro (307b-313b), e Física 8.1 (250b-252b). Aristóteles, Metafísica 12.7 (1072b3) de fato diz que o amor e a vontade de Deus sustenta todas as tendências naturais em seus arranjos imutáveis (sustentando consequentemente as leis da natureza), mas nisso os cristãos também creem.

45. D’Souza, A verdade, p. 93.

46. Veja P. B. Paisley e D. R. Oldroyd, “Science in the Silver Age,” Centaurus 23, no. 1 (1979): 1-20 [cf. pp. 2-6]; F. R. D. Goodyear, “The `Aetna,”‘ Auf tieg and Niedergangderromischen Welt2.32.1 (1984): 344-63 [cf. pp. 346-47].

47. Russo, Forgotten Revolution, pp. 146-51; Vivian Nutton, Ancient Medicine (London: Routledge, 2004), pp. 134-36; Sylvia Berryman, “Galen and the Mechanical Philosophy,” Apeiron: A,journal for Ancient Philosophy and Science 35, no. 3 (September 2002): 235-53; Heinrich von Staden, “Body and Machine,” Alexandria and Alexandrianism (Malibu, CA: J. Paul Getty Museum, 1996), pp. 85-106. Exemplos: Galen, On the Natural Faculties 3.15 and On the Uses of the Parts 1.2-4, 1.19, 7.14, 14.5.

48. Por exemplo: Cicero, Sobre a Natureza dos Deuses 2.88.(34-35); Vitruvius, Sobre a Arquitetura 9.1.2, 10.1.4; e Lucrécio, Sobre a Natureza das Coisas 5.96; para Ptolomeu: Liba Taub, Ptolomeu’s Universe (Chicago: Open Court, 1993).

49. Veja Liba Taub, Ancient Meteorology (London: Routledge, 2003), pp. 141-61; e para exemplos: a Pneumática e a Mecânica de Hero e, de Arquimedes, Sobre os corpos flutuantes.

50. Veja Galeno, Sobre as faculdades naturais.

51. Ptolomeu, Hipóteses Planetárias 2.6 e Almagesto 9.5.

52. Veja Andrea Murschel, “The Structure and Function of Ptolemy’s Physical Hypotheses of Planetary Motion,” Journal for the History of Astronomy 26 (1995): 33-61; on Kepler’s “soul” theory: Eric Aiton, “How Kepler Discovered the Elliptical Orbit,” The Mathematical Gazette 59, no. 410 (December 1975): 255-57 [pp. 250-260]; sobre todo o programa de Ptolomeu de procurar leis naturais: Alexander Jones, “Ptolemy’s Mathematical Models and Their Meaning,” in Mathematics and the His- torian:r Craft, eds. Glen van Brummelen and Michael Kinyon (New York: Springer, 2005), pp. 23-42.

53. Veja o prefácio a Vesalius, Sobre a fábrica do corpo humano (1543). Agricola similarmente precisou devotar o primeiro capítulo inteiro de seu livro Sobre a Mineração (1556) à defender-se contra seus pares que rejeitaram seus estudos como base.

54. Numa citação perdida em Pappus, Mathematical Collection 8.1. Para mais evidências de cientistas como artesãos e a ausência de qualquer divisão entre trabalhos manuais e intelectuais, veja Carrier, “Attitudes,” pp. 425-79 (que serão reproduzidas em Carrier, Scientist).

55. Por uma explicação completa, veja Jo Marchant, Decifrando os céus (Cambridge, MA: Da Capo Press, 2009).

56. Sobre a hostilidade dos cristãos primitivos à curiosidade, o destronamento do empirismo e o desinteresse no progresso científico (e uma eventual revivescência destas idéias mil anos mais tarde), veja Neil Kenny, The Uses of Curiosity in Early Modern France and Germany (New York: Oxford University Press, 2004) e Curiosity in Early Modern Europe (Wiesbaden: Harrassowitz, 1998); Peter Harrison, The Bible, Protestantism, and the Rise of Natural Science (Cambridge: Cambridge University Press, 1998) e “Curiosity: Forbidden Knowledge, and the Reformation of Natural Philosophy in Early Modern England,” Isis 92, no. 2 (June 2001): 265-90; Lorraine Daston, Wonders and the Order of Nature, 1150-1750 (New York: Zone Books, 1998); William Eamon, Science and the Secrets of Nature (Princeton: Princeton University Press, 1996); Lloyd, Greek Science, pp. 167-71; and Marshall Clagett, Greek Science in Antiquity (Salem, NH: Ayer, 1955), pp. 118-82. Mais evidências serão sumarizadas em Carrier, Scientist.

57. Para um resumo da produção acadêmica sobre este colapso do terceiro século (e o fato de o Cristianismo não ter tido qualquer sucesso digno de nota antes disso), veja Carrier, Not the Impossible Faith, pp. 407-47 (esp. pp. 435-40 e p. 447 n. 32), que foi reforçado por Ramsay MacMullen, Christianizing the Roman Empire AD 100-400 (New Haven, CT: Yale University Press, 1984) e Christianity and Paganism em the Fourth to Eighth Centuries (New Haven, CT: Yale University Press, 1997); and Robin Lane Fox, Pagans and Christians (New York: Knopf, 1987).

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