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Posts Tagged ‘cosmologia’

por Quentin Smith

De acordo com o essencialismo, as leis naturais, tal como a lei de que a água é H2O, são metafisicamente necessárias; elas vigoram em todos os mundos possíveis, de modo que Deus não poderia ter criado um universo em que elas são violadas. Consequentemente, se é uma lei natural que um universo sujeito às soluções de Friedmann para a equação de Einstein e aos teoremas da singularidade de Hawking-Penrose começa numa singularidade, então Deus não poderia ter criado um universo Friedmann-Hawking-Penrose (FHP) de outra maneira que não primeiro criando uma singularidade imprevisível. Dado isto, e dado seu desejo de que o universo fosse animado, ele então seria obrigado a intervir para assegurar que o universo fosse animado. Isto não seria um sinal de ineficiência ou incompetência já que este seria o único modo possível pelo qual se poderia garantir que o universo fosse animado.

Minha resposta a esta objeção é que mesmo se esta hipótese essencialista for sólida, não se segue que Deus deve criar uma singularidade do Big Bang se ele almeja criar um universo animado. Pois o fato de que certas leis naturais são metafisicamente necessárias não implica que elas sejam necessariamente instanciadas. Se pegamos emprestado o simbolismo, se não o ponto de vista, de D. M. Armstrong,[24] podemos dizer que uma lei natural metafisicamente necessária possui uma forma como

(L) [  ] (N(F,G))

onde F e G são universais e N uma relação entre eles. N é a relação da necessitação nômica. Armstrong considera N primitiva, mas penso que podemos definir N em termos de coexemplificação. (L) significa que em todos os mundos possíveis em que F é exemplificado, G é coexemplificado. Se F é água e G H2O, então (L) declara que em cada mundo possível em que ser água é exemplificado, ser H2O é exemplificado por seja lá o que for que exemplifique ser água. Mas (L) não implica que F ou G são exemplificados. O fato de que água é H2O em todos os mundos possíveis em que há água não implica que exista água em todos os mundos. Analogamente, o fato de que um universo que satisfaz as leis FHP começa numa singularidade do Big Bang em todos os mundos possíveis em que tal universo existe não implica que exista um universo FHP em todos os mundos. Pois outras espécies de universo também são possíveis, universos que satisfazem outros conjuntos de leis, incluindo conjuntos de leis que permitem que o estado mais antigo seja, ou evolua previsivelmente até, um estado animado. Se Deus existe e almeja que exista um universo animado, ele teria criado um destes universos (ou um universo animado sem princípio).

Esta resposta à objeção essencialista pode ser rejeitada com base em que o essencialismo e a teoria FHP conjugados implicam que os únicos universos metafisicamente possíveis são universos FHP. Seja F a propriedade ser um universo e G a propriedade ser um universo FHP. De acordo com (L), ser um universo não pode ser exemplificada a menos que ser um universo FHP seja coexemplificada.

Acredito, contudo, que podemos conceder até mesmo esta objeção consistentemente com a solidez do argumento ateológico. Para ver porque isto é possível, devemos refletir sobre as evidências aduzidas para a necessidade metafísica das leis naturais. Kripke, Putnam e outros pioneiros do essencialismo reconhecem que alguma razão deve ser dada para sustentar que uma lei natural seja necessária que anule a razão usual para considera-las contingentes, nomeadamente, que pode-se conceber coerentemente que elas não vigoram. A razão para sustentar que alguns princípios sejam necessários, tal como as tautologias (todos os homens não casados são homens), princípios analíticos (todos os homens não casados são solteiros) e princípios sintéticos a priori (todos os objetos completamente verdes não são simultaneamente completamente vermelhos) é que não se pode conceber coerentemente que eles sejam falsos. Mas este não é o caso das leis naturais. Como Putman assinala, ‘podemos nos imaginar perfeitamente bem tendo experiências que nos convenceriam (e que tornariam racional acreditar que) água não é H2O. Nesse sentido, é concebível que água não seja H2O.’[25] Mas neste caso, a conceptibilidade de ser um caso diferente é um guia anulado para a contingência, pois considerações de como a referência de ‘água’ é estabelecida, em conjunção com observações científicas, mostram que ‘água’ é necessariamente ‘H2O’. Mas eu não seguirei Putnam à risca  ao apresentar “o argumento a partir da rigidez de ‘água’” já que formulações subsequentes proporcionaram versões aprimoradas. Keith Donnellan[26] ofereceu uma versão melhorada em relação à de Putnam e Nathan Salmon[27] aprimorou a versão de Donellan. Mas Paul Copeck[28] recentemente refinou a versão de Salmon e tomarei parcialmente emprestada a versão de Copeck na seguinte declaração resumida deste argumento. A primeira premissa é uma formalização do significado rígido de ‘água’ em termos da definição ostensiva da palavra e a segunda premissa é retirada da teoria científica corrente:

(1) É necessariamente o caso que: alguma coisa é uma amostra de água se e somente se tal coisa exemplifica d-isso (as propriedades P1, …Pn tal que P1, …Pn são causalmente responsáveis pelas propriedades observáveis [por exemplo, ser incolor, inodora e insípida] da substância da qual isso é uma amostra).

(2) Isto (amostra líquida) possui a estrutura química H2O, tal que ser H2O é a propriedade causalmente responsável pelas propriedades observáveis de ser incolor, inodora, insípida, etc.

Portanto,

(3) É necessariamente o caso que: todas as amostras de água possuem a estrutura química H2O.

O termo ‘d-isso’ na premissa (1) é o operador rigidificante de Kaplan, que opera sobre ‘isso’ para produzir uma referência demonstrativa que é rígida. Agora se construirmos um argumento análogo para a necessidade de um universo ser FHP, ele seria como

(4) É necessariamente o caso que: alguma coisa é uma instância de um universo se e somente se tal coisa exemplifica d-isso (as propriedades P1,…,Pn tais que P1,…,Pn são causalmente responsáveis pelas propriedades observáveis [por exemplo, aglomerados de galáxias se afastando, a radiação de micro-ondas de fundo de 2.7 K] de cujo tipo isso é uma instância)

(5) Esta instância de um universo tem uma estrutura FHP, tal que ser um universo FHP é a propriedade causalmente responsável pelas propriedades observáveis de aglomerados se afastando, radiação de fundo, etc.

Portanto,

(6) É necessariamente o caso que: toda instância de um universo tem a propriedade de ser um universo FHP.

Não desafiarei a solidez de (4)-(6) mas meramente mostrarei que sua solidez é consistente com a solidez do argumento cosmológico a partir do Big Bang para a inexistência de Deus. Será útil esboçar um paralelo com o exemplo da água. Como Putnam assinalou, há outro mundo possível em que uma substância possui uma certa estrutura química, XYZ, tal que XYZ é causalmente responsável pelas propriedades observáveis da substância de ser um líquido incolor, inodoro e insípido. Esta substância mão é água mas algo cujas propriedades observacionais são indistinguíveis das da água. Esta substância pode ser chamada ‘água1’, tal que é metafisicamente necessário que água1 é XYZ. Analogamente, há outro mundo possível W em que a estrutura cósmica responsável pelas propriedades observáveis de aglomerados se afastando, radiação de fundo, etc. não é uma estrutura FHP mas alguma outra estrutura, digamos ABC. Aquilo que tem esta estrutura não é um universo, já que ‘universo’ refere-se rigidamente a alguma coisa com uma estrutura FHP. Mas podemos chama-lo de ‘universo1’, assim como podemos chamar XYZ de ‘água1’. Ainda existem outros mundos em que as propriedades observacionais relevantes não incluem aglomerados se afastando e radiação de fundo mas propriedades como as que se considera que os sistemas de Ptolomeu, Copérnico ou Newton exemplifiquem. O que é causalmente responsável por estas propriedades pode ser chamado ‘um universo2’, ‘um universo3’, etc. Consequentemente, o proponente do argumento ateológico pode conceder que Deus não poderia ter criado um universo animado sem criar uma singularidade do Big Bang, mas ele ressaltará que Deus estaria sendo irracional e incompetente ao criar um universo animado; a coisa racional a ser feita seria criar um universo1 animado, ou um universo2 animado, etc., tal que estes sistemas não exigissem intervenções divinas para garantir estados animados.

Notas.

24. D. M. Armstrong, What Is A Law of Nature? (Cambridge: University Press: 1983), p. 163. Armostrong rejeita a ideia de que as leis da natureza são metafisicamente necessárias. Alfred J. Freddoso, por outro lado, argumenta que as leis naturais são corretamente representadas por (L). Veja seu ‘The Necessity of Nature,’ em Midwest Studies in Philosophy XI, ed. P. French, et al. (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1986), pp. 215-42.

25. Hilary Putnam, Philosophical Papers, Vol. 2 (Cambridge: University Press, 1975), p. 233.

26. Keith Donnellan, ‘Substance and Individuals,’ APA address, 1973.

27. Nathan Salmon, Reference and Essence (Princeton: University Press, 1981).

28. Paul Coppock, ‘Review of Nathan Salmon’s Reference and Essence’, em The Journal of Philosophy 81 (1984): 261-270.

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por Quentin Smith

Utilizarei os quatro aspectos da cosmologia do Big Bang explicados na última seção como premissas científicas de meu argumento ateológico. As três primeiras premissas científicas articuladas na última seção, a equação de Einstein, as soluções de Friedmann para esta equação e o teorema da singularidade Hawking-Penrose, nos municiam com as duas premissas

(1) A singularidade do Big Bang é o estado mais antigo do Universo.

(2) O estado mais antigo do universo é inanimado.

(2) segue a partir de (1) já que a singularidade possui temperatura infinita,  curvatura infinita e densidade infinita, condições estas hostis à vida.

A quarte ideia científica explicada na última seção, o princípio da ignorância, nos dá a premissa concisa

(3) Nenhuma lei governa a singularidade do Big Bang e consequentemente não há garantias de que ela emitirá uma configuração de partículas que se desenvolverá num universo animado.

(1)-(3) Implicam

(4) Não há garantias de que o estado mais antigo do universo evoluirá num estado animado do universo.

Meu argumento é que (4) é inconsistente com a hipótese de que Deus criou o estado mais antigo do universo, já que é verdade a respeito de Deus que se ele criou o estado mais antigo do universo, então ele teria assegurado que este estado seria animado ou evoluiria num estado animado do universo. É essencial à concepção de Deus na tradição judaico-cristã-islâmica que se ele criou o universo, ele criou um universo animado, e portanto que se ele criou um primeiro estado do universo, ele criou um estado que é animado ou que seguramente evoluiria até um estado animado. Se alguém diz, ‘não faz diferença para Deus se o universo que ele criou é animado ou inanimado’, esta pessoa está operando com um conceito de Deus que está em conflito com o teísmo clássico. Penso que seria reconhecido por praticamente todos os teístas contemporâneos na tradição analítica (M. e R. Adams, Craig, Menzel, Morris, Plantinga, Quinn, Schlesinger, Swinburne, Wainwright, Wolterstorff e vários outros) que, se Deus cria um universo, ele tenciona que sua criação seja animada. Richard Swinburne escreve, por exemplo, que ‘universos ordenados’ são aqueles requeridos por criaturas animadas e que ‘se Deus cria um universo, então Ele tem razões supremas para criar um universo ordenado.’[16]

A formulação acima do ‘argumento cosmológico a partir do Big Bang para a inexistência de Deus’ é obviamente apenas um ponto de partida, já que o teísta tem à sua disposição numerosos contraargumentos ou objeções. No restante da série algumas destas objeções serão formuladas e respondidas.

Notas.

16. Swinburne, The Existence of God, op. cit., p. 147. A definição completa de Swinburne é que universos ordenados são aqueles exigidos tanto pela beleza natural como pela vida. Cf. p. 146.

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Autor: Mark I. Vuletic

Tradução: Wladimir Costa Cavalcante

[Publicado originalmente no Blog da Divisão Cearense da Liga Humanista Secular]

A primeira versão deste artigo, que terminei de escrever em 1997, simplesmente reunia uma lista de citações de físicos afirmando que certas coisas poderiam realmente surgir do nada através de processos inteiramente naturais, e que todo o universo poderia ser surgido dessa forma. Eu ofereci a lista apenas como uma base de dados, sem nenhuma pretensão de verificar o quão corretas eram as afirmações, ou sua relevância para os debates teológicos  sobre a origem do universo. Mais tarde, estudei a questão mais profundamente, e desenvolvi a linha de argumentação que persegui na primeira nota do meu “Guia de Defesa : Ciência e o Criacionismo.” No entanto, deixei de revisar a primeira versão desse artigo; essa atualização corrige o problema. Aqui, apresento um texto bem direto, e coloquei as citações de suporte no final, acompanhadas por todas as suas referências.

É POSSÍVEL QUE ALGO SURJA DO NADA?

Para a maioria das pessoas, a afirmação de que as coisas não surgem do nada é um truísmo (verdade evidente). No entanto, muitos físicos discordam. Contra essa posição, eles frequentemente citam o que é conhecido, entre outros nomes, como flutuação quântica do vácuo ou partículas virtuais. Elas são pares de partículas/antipartículas que surgem por um brevíssimo intervalo de tempo onde havia apenas espaço vazio – de acordo com o Princípio da Incerteza de Heisenberg.[Q1] [Q2]Elas produzem efeitos mensuráveis, como o Desvio de Lamb e o Efeito Casimir.[Q3] [Q4]Essas partículas não são anomalias; elas são tão comuns que alguns físicos argumentam que se tratamos o espaço vazio como nada, então tal nada simplesmente não existe, pois o espaço nunca está vazio – ele está sempre preenchido com partículas virtuais.[Q5]Em resumo, se agirmos como a maioria das pessoas tratando o espaço vazio como nada, teremos pelo menos um exemplo persuasivo de algo que pode surgir do nada.

O UNIVERSO PODE SURGIR DO NADA?

As partículas virtuais possuem uma vida necessariamente curta porque representam um aumento na energia do universo; o Princípio da Incerteza de Heisenberg abre terreno para partículas virtuais com vidas suficientemente curtas, mas aquelas com vidas mais longas violariam a primeira lei da termodinâmica. Então, alguém poderia pensar que as flutuações quânticas no vácuo não podem ter relevância na origem do universo. Mas pelo contrário, alguns físicos, remontando no mínimo a Tryon (1973), acreditam que todo o universo poderia ser uma massiva flutuação quântica no vácuo.[Q6] O aspecto mais importante do universo que poderia tornar isso possível seria sua energia total em zero. Você deve se perguntar como o universo poderia ter uma energia total de zero. A resposta é que a energia gravitacional é negativa – quando somada com a energia da matéria no universo, o resultado é o cancelamento de ambas.[Q7] [Q8]Nem o Princípio da Incerteza de Heisenberg, nem a Primeira Lei da Termodinâmica impõem qualquer limite à duração temporal de uma flutuação quântica no vácuo cuja energia total é zero; logo, a longevidade do universo não descarta a possibilidade de uma origem por flutuação quântica no vácuo.[Q9] A proposta não é que todo o universo teria se formado em um único instante, mas que uma flutuação quântica no vácuo tenha funcionado como semente para uma expansão local do espaço-tempo, que automaticamente geraria matéria como um efeito colateral.[Q10] [Q11]

Em hipóteses desta espécie, a flutuação quântica no vácuo ocorre no espaço-tempo vazio. Outras hipóteses, mais notavelmente a de Alex Vilenkin, não envolvem um espaço-tempo preexistente, e alicerçam-se sobre o tunelamento quântico e não sobre as flutuações no vácuo.[Q12]

O “NADA” DOS FÍSICOS É REALMENTE O NADA?

Trataremos agora de uma objeção às considerações acima. A objeção é que quando os físicos citados referem-se ao “nada,” estão, na verdade, referindo-se a algo bem diferente da literal ausência de qualquer coisa. Para tentar ser o mais claro possível, irei me referir à ausência de qualquer coisa como o “nada absoluto.” A controvérsia surge por que o “nada” dos físicos não é o nada absoluto. A citação [Q5] pode parecer, a primeira vista, uma exceção. Para mim, essa é uma interpretação errada – Morris está apenas tentando dizer que o espaço nunca está verdadeiramente vazio – mas não precisamos entrar numa disputa exegética aqui, já que é completamente verdadeiro, segundo os modelos de Tryon, que a produção de flutuações no vácuo quântico ocorre em um espaço-tempo pré-existente.
O que mais pode ser dito sobre essa objeção? Duas coisas:
1. Primeiro, o que leva as pessoas a afirmarem que as coisas não surgem do nada é o fato de elas não verem coisas surgindo do espaço vazio em volta delas. Elas igualam o espaço vazio com o nada absoluto. Por isso, mostrar que as partículas podem, e que todo o universo poderia, surgir espontaneamente a partir de espaço vazio, visa atingir a conotação popular de que o universo não poderia ter surgido a partir do nada. Uma vez demonstrado que o universo pode surgir do espaço vazio, não serão muitos os que continuarão seguros de sua intuição metafísica que propõe que o próprio espaço vazio precisa ter surgido de alguma coisa.
2. Segundo, mesmo se considerarmos o espaço vazio alguma coisa, isso não terá peso tomando a hipótese de Vilenkin. Nesse ponto, os críticos objetam que a hipótese de Vilenkin pressupõe a mecânica quântica, e que as leis da mecânica quântica são “alguma coisa.” Essa é uma afirmação estranha, por dois motivos: (a) os críticos parecem querer materializar as leis naturais, que não são “coisas,” mas apenas descrições de como as coisas se comportam. Não fica claro por que alguém consideraria o fato (se for um fato) de o universo surgir de tempos em tempos de uma maneira descritível pela mecânica quântica como sendo esse tipo de “coisa.”(b) Se alguém toma fatos por “coisas”, então o nada absoluto é logicamente impossível: se o nada absoluto existiu, então haveria o fato de o nada ter existido, implicando que ao menos uma coisa (o fato do nada existir) existiu, que por sua vez, contrariaria a hipótese original. Consequentemente, se alguém trata fatos como coisas, então alguns fatos precisam existir; mas, se pelo menos um fato precisa existir, por que esse fato não poderia ser o funcionamento da mecânica quântica?

CONCLUSÃO

Eu não tentei  mostrar que o universo surgiu do nada, ou mesmo analisar todas as questões na cosmologia ou filosofia relacionadas com a ideia de o universo ter sido ou não criado. Tudo que tentei fazer foi mostrar que uma visão ateísta do surgimento ex nihilo do universo, tanto no popular como no técnico entendimento de nihil, é possível. Mesmo esse modesto passo é severamente contestado por muitos teístas, mas a física moderna decisivamente parece endossa-lo.

CITAÇÕES DE SUPORTE

[Q1] Paul Davies:

Em nosso dia-a-dia, a energia é sempre fixa; a lei da conservação de energia é um pilar da física clássica. Mas no microcosmos quântico, energia pode aparecer e desaparecer de lugar nenhum de maneira espontânea e imprevisível. (Davies 1983: 162)

[Q2] Richard Morris:

O princípio da incerteza mostra que partículas podem  passar a existir por breves períodos de tempo mesmo quando não existe energia suficiente para criá-las. Com efeito, elas são criadas por incertezas na energia. Pode-se considerar que elas rapidamente “tomam emprestado” a energia que precisam para sua criação, e então, pouco tempo depois, elas pagam o “débito” e desaparecem novamente. Como essas partículas não possuem uma existência permanente, elas são chamadas de partículas virtuais. (Morris 1990: 24)

[Q3] Paul Davies:

Embora não possamos vê-las, sabemos que essas partículas virtuais estão “realmente lá” no espaço vazio, pois elas deixam traços detectáveis de suas atividades. Um efeito dos fótons virtuais,  por exemplo,  é produzir um minúsculo desvio no nível de energia dos átomos. Eles também causam uma mudança igualmente minúscula no momento magnético dos elétrons. Essas pequenas mas significantes alterações vêm sendo medidas precisamente com uso de técnicas espectroscópicas. (Davies 1994: 32)

[Q4] John Barrow and Joseph Silk:

[Pares de Partículas Virtuais] possuem efeitos calculáveis previsíveis sobre os níveis de energia dos átomos. O efeito esperado é mínimo –  apenas uma mudança de uma parte em um bilhão, mas que vem sendo confirmado por experimentos.

Em 1953 Willis Lamb mediu esse estado excitado da energia de um átomo de hidrogênio. Este fenômeno é agora conhecido como Desvio de Lamb. A diferença na energia prevista para ocorrer devido aos efeitos do vácuo é tão pequena que só pode ser detectada como uma transição na frequência de microondas. A precisão nas medições de microondas é tão grande que Lamb foi capaz de medir o desvio em cinco “Algarismos Significativos“. Ele recebeu o Prêmio Nobel por esse trabalho logo em seguida. Não restam dúvidas de que as partículas virtuais estão realmente lá. (Barrow & Silk 1993: 65-66)

[Q5] Richard Morris:

Na física moderna, não existe tal coisa denominada “nada.” Mesmo no perfeito vácuo,  pares de partículas virtuais estão sendo constantemente criados e destruídos. A existência dessas partículas não é uma ficção matemática. Embora elas não possam ser observadas diretamente, os efeitos que elas produzem são completamente reais. A hipótese de que elas existem nos leva a previsões que têm sido confirmadas em experimentos com um alto grau de precisão. (Morris 1990: 25)

[Q6] Heinz Pagels:

Já que nossas mentes aceitam a mutabilidade da matéria e a nova ideia do vácuo, podemos especular sobre a origem da maior coisa que conhecemos – o universo. Talvez o universo passou a existir a partir do nada  – uma flutuação gigante no vácuo que conhecemos hoje como Big Bang. Notavelmente, as leis da física moderna permitem tal possibilidade. (Pagels 1982: 247)

[Q7] Stephen Hawking:

Existe algo como dez milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de milhões (1 seguido de 85 zeros) de partículas no universo. De onde elas vieram? A resposta é que, pela teoria quântica, partículas podem ser criadas a partir de energia na forma de pares de partículas/antipartículas. Mas isso apenas levanta a questão sobre de onde veio essa energia. A resposta é que o total de energia no universo é exatamente zero. A matéria no universo é feita a partir de energia positiva. No entanto, toda a matéria está atraindo a si mesma pela gravidade. Duas partes da matéria que estão próximas uma da outra possuem  menos energia do que essas mesmas partes separadas por uma longa distância, porque, para separá-las, você tem que gastar energia contra a força gravitacional que as empurra uma contra a outra. Por isso, em certo sentido, o campo gravitacional possui energia negativa. No caso de um universo que é aproximadamente uniforme no espaço, pode-se mostrar que esta energia negativa cancela exatamente a energia positiva representada pela matéria. Logo, a energia total do universo é zero. (Hawking 1988: 129) [obrigado Ross King por esta citação]

[Q8] Paul Davies:

Existe uma possibilidade ainda mais fantástica, que é a criação de matéria a partir de um estado com zero de energia. Essa possibilidade surge porque a energia pode ser tanto positiva como negativa. A energia do movimento ou a energia da massa é sempre positiva, mas a energia da atração, como a que é produzida devido a certos campos gravitacionais ou eletromagnéticos, é negativa. Podem surgir circunstâncias em que a energia positiva que iria criar a massa de novas partículas de matéria é compensada exatamente pela energia negativa da gravidade do eletromagnetismo (sic). Por exemplo, na vizinhança de um núcleo atômico, o campo elétrico é intenso. Se um núcleo contendo 200 prótons puder ser feito (possível, mas difícil), o sistema se torna instável contra a produção espontânea de pares de elétrons-positrons, sem qualquer energia interna. Isso ocorre por que a energia elétrica negativa pode compensar exatamente a energia de suas massas.

No cenário gravitacional a situação é ainda mais bizarra, pois o campo gravitacional é apenas uma deformação no espaço – um espaço curvado. A energia contida em uma deformação no espaço pode ser convertida em partículas de matéria e antimatéria. Isso ocorre, por exemplo, na vizinhança de buracos negros, e foi provavelmente a mais importante fonte de partículas no Big Bang. Por consequência, matéria aparece espontaneamente a partir de espaço vazio. Com isso surge a questão, o Bang primordial possuía energia, ou o universo inteiro estava em um estado cuja energia era zero, com a energia de toda a matéria sendo compensada pela energia negativa da atração gravitacional?

É possível resolvermos a questão através de um simples cálculo. Astrônomos podem medir a massa das galáxias, a distância média entre elas, e a velocidade com que se afastam. Colocando os números em uma fórmula obtemos uma quantidade que muitos físicos interpretam como a energia total do universo. Realmente, a resposta revelar-se-á zero dentro do intervalo de confiança das observações. O razão para esse resultado bem característico vem sendo há tempos um quebra-cabeça para os cosmólogos. Alguns já chegaram a sugerir que deve existir algum princípio cósmico em andamento que requeira que a energia do universo seja exatamente zero. Se for esse o caso, o cosmos pode seguir o caminho de menor resistência, passando a existir sem precisar da entrada de nenhuma energia ou matéria.     (Davies 1983: 31-32)

[Q9] Edward Tryon:

As leis da física não impóem nenhum limite à escala das flutuações quânticas. A duração é, obviamente, restrita a ΔEΔt ~ h, mas  isso apenas implica que o universo tem energia exatamente zero, o que já foi demonstrado como plausível  (Tryon 1973:397)

[Q10] Victor Stenger:

Segundo a relatividade geral, o espaço-tempo pode estar sem matéria ou radiação e ainda conter energia armazenada em sua curvatura . Fortuitamente, flutuações aleatórias no vácuo em um espaço-tempo plano, vazio e inexpressivo podem produzir regiões com uma curvatura positiva ou negativa. Essa é a denominada “espuma de espaço-tempo” e as regiões são denominadas “bolhas de falso vácuo.” Sempre que a curvatura estiver positiva a bolha irá inflar exponencialmente, de acordo com as equações de Einstein. Em 10^-42 segundos a bolha irá se expandir até o tamanho de um próton e terá energia interna suficiente para produzir toda a matéria do universo.

As bolhas começam sem matéria, radiação ou campos e entropia máxima. Elas possuem  energia em sua curvatura, e são por isso denominadas de “falso vácuo.” Enquanto se expandem, a energia interna aumenta exponencialmente. Isso não viola o princípio da conservação de energia já que o falso vácuo possui uma pressão negativa (confie em mim, tudo isso resulta das equações que Einstein escreveu em 1916), o que permite que a bolha em expansão faça esse trabalho sozinha.

Enquanto o universo bolha se expande, um tipo de fricção ocorre, convertendo a energia em partículas. A temperatura então cai e uma série de processos de quebras simétricas ocorrem – semelhante ao que ocorre com um imã posto abaixo da temperatura de Curie, e surgem forças e estruturas de partículas essencialmente aleatórias. A inflação para e o processo segue para o tradicional Big Bang.
As forças e as partículas que aparecem são mais ou menos aleatórias, governadas apenas por princípios de simetria (como os princípios de conservação de energia e de momento ) que não são o produto de um design, mas exatamente o que temos na ausência de um design.

As denominadas “coincidências antrópicas,” pelas quais as partículas e forças parecem ter sido “ajustadas” para a produção de vida baseada em caborno são explicadas pelo fato de a espuma espaço-temporal ter produzido um número infinito de universos, sendo cada um distinto. Nós simplesmente calhamos de estar no lugar onde as forças e partículas prestam-se à produção de carbono e outros átomos com a complexidade necessária para a evolução de organismos vivos e pensantes.
(Stenger 1996)

[Q11] William Kaufmann:

De onde toda a matéria e radiação no universo veio, em primeiro lugar? Pesquisas recentes e intrigantes na física teórica feitas por cientistas como Steven Weinberg de Harvard e Ya B. Zel’dovich em Moscou sugerem que o universo começou como um perfeito vácuo e que todas partículas do mundo material teriam sido criadas pela expansão no espaço…

Pense no universo imediatamente após o Big Bang. O espaço se expande violentamente com um ímpeto explosivo. Ainda, como temos visto, todo o espaço fervilha de pares de partículas e antipartículas virtuais. Normalmente, as partículas e antipartículas não encontram problemas para se unirem novamente em um intervalo de tempo…breve o suficiente para a conservação da massa ser satisfeita de acordo com o princípio da incerteza. No entanto, durante o Big Bang, o espaço se expandiu tão rápido que as partículas foram empurradas para longe de suas antipartículas correspondentes. Privadas da oportunidade de se recombinarem, tais partículas virtuais precisaram se tornar partículas reais em nosso mundo. Mas de onde veio a energia para realizar essa materialização?

Relembre que o Big Bang foi como o centro de um buraco negro. Um vasto suprimento de energia gravitacional foi, por isso, associada com a intensa gravidade dessa singularidade cósmica. Esse recurso ofereceu ampla energia para encher o universo completamente com todos os tipos concebíveis de partículas e antipartículas. Assim, imediatamente após a era de Planck, o universo foi inundado com partículas e antipartículas criadas pela violenta expansão do espaço.
(Kaufmann 1985: 529-532)

[Q12] Martin Bojowald:

A condição de tunelamento proposta por Vilenkin baseia-se em um outro efeito da mecânica quântica, novamente uma consequência das propriedades da Função de Onda. A Função de Onda pode muitas vezes penetrar barreiras com suas caudas, mesmo se estas barreiras não forem tão altas para as partículas clássicas correspondentes…Vilenkin propôs em 1983 que o próprio universo poderia ter emergido de tal processo de tunelamento. Nosso universo seria a cauda de uma Função de Onda pioneira que uma vez teria penetrado a barreira do Big Bang e de sua singularidade. Mas de onde o tunelamento trouxe o universo, e de onde veio o conteúdo da Função de Onda, da qual a cauda de nosso universo é supostamente feita, antes do processo de tunelamento? A resposta de Vilenkin, óbvia e apenas à primeira vista: Do nada …

Dificilmente, pode-se atribuir um significado físico ao tunelamento “do nada” em sentido literal. Independentemente disso, o postulado de Vilenkin faz sentido ao tomarmos a Função de Onda do universo, dotada por uma condição de tunelamento com certas quantias iniciais de perda de volume. (Bojowald 2010: 222)

Referências

Barrow, John D. & Silk, Joseph. 1993. Left Hand of Creation. London: J. M. Dent & Sons.

Bojowald, Martin. 2010. Once Before Time. New York: Alfred A. Knopf.

Davies, Paul. 1983. God and the New Physics. London: J. M. Dent & Sons.

Davies, Paul. 1994. The Last Three Minutes. New York: BasicBooks.

Hawking, Steven. 1988. A Brief History of Time. Toronto: Bantam.
Kaufmann, William J. 1985. Universe: Instructor’s Manual. New York: W.H. Freeman & Co.
Morris, Richard. 1990. The Edges of Science. New York: Prentice Hall.

Pagels, Heinz. 1982. The Cosmic Code. Toronto: Bantam.

Stenger, Victor. 1996. Inflation and creation. URL:<http://www.colorado.edu/philosophy/vstenger/Cosmo/inflat.html.

Tryon, Edward P. 1973. Is the universe a vacuum fluctuation? Nature 246: 396-397.

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7. É NECESSÁRIO QUE A CAUSA PRIMEIRA SEJA UMA PESSOA?

por Wes Morriston

Nosso último tópico é o argumento em que Craig afirma que a Causa Primeira do universo deve ser uma pessoa. É um argumento difícil, e Craig o expõe de maneira bem resumida. Em linhas gerais, ele se desenvolve aproximadamente assim:

Nós sabemos que a causa do início do universo (ou seja lá o que o primeiro evento tenha sido) deve ser eterna. Do contrário, seria uma das coisas que começaram a existir, e necessitaria tanto de uma causa como o próprio universo.

Agora, as causas naturais – causas “mecânicas”, como Craig às vezes as denomina[22] – são suficientes para seus efeitos. Elas produzem seus efeitos tão logo certas condições relevantes sejam atendidas. Por isso, se esse tipo de causa não tivesse um começo, seu efeito também não teria um começo. Por exemplo, se a temperatura estiver fria o suficiente e pelo tempo suficiente, qualquer porção de água em volta irá necessariamente congelar. Portanto, se sempre houve água a uma temperatura menor do que 0°, ela sempre teria estado congelada.

A questão é que se uma causa for suficiente para seu efeito, e a causa for eterna, o efeito precisa ser eterno também. E se tivermos esse tipo de causa para o universo, ele também  precisaria ser eterno.

Craig pensa que mostrou que o universo não é eterno. Como então, ele pergunta, o universo poderia ter uma causa eterna? Acabamos de ver que ele não poderia ter uma causa eterna “mecânica”. Mas que outro tipo de causa eterna poderia ser?

Craig pensa que existe um outro tipo familiar de causa que oferece uma resposta para essa questão. Além das causas mecânicas que automaticamente produzem seus efeitos, eles diz que existem as causas pessoais. Os indivíduos  são agentes livres que têm o poder de causar toda sorte de coisas. Mas eles não precisam causa-las necessariamente, sendo plenamente capazes de existir sem produzir os vários efeitos que são capazes de causar.

Suponha, por exemplo, um homem que está sentado. Ele pode, a qualquer momento, decidir levantar-se, mas também pode escolher permanecer sentado. Ele tem o poder para decidir a maneira de agir – cabendo inteiramente a ele determinar quando ou mesmo se vai ou não levantar-se. Se ele decide levantar-se, então ele, sozinho, é a causa de sua decisão. Diferente de uma causa meramente mecânica, este homem pode existir plenamente sem exercer seu poder de produzir os vários efeitos dos quais ele é a causa.

Essa é uma afirmação completamente controversa. Muitos filósofos acreditam que a verdadeira causa da decisão de uma pessoa não é simplesmente a própria pessoa, mas vários outros fatores psicológicos operando dentro da pessoa – como crenças, valores e preferências, sendo estes por sua vez produtos de outras causas. Ao contrário destes filósofos, Craig afirma que uma pessoa – e não alguma outra coisa ocorrendo dentro dela – é a única e exclusiva causa de suas próprias decisões. Numa situação exatamente equivalente, com exatamente os mesmos desejos e crenças presentes, nosso homem sentado poderia decidir tanto manter-se sentado como levantar-se.

Vamos supor, apenas a título de argumentação, que Craig esteja certo sobre isso. Isso implica que existem pelo menos dois tipos radicalmente diferentes de causação no mundo. Por um lado, há as causas mecânicas que não podem deixar de acarretar seus efeitos; por outro lado, temos as causas pessoais que têm o poder de produzir seus efeitos, sendo livres para determinar como, quando ou mesmo se irão exercer esse poder.

Diante deste embasamento teórico, podemos ver por que Craig pensa que a Causa Primeira precisa ser uma pessoa. Como, ele pergunta, a causa do universo pode ser eterna, embora o próprio universo não o seja? Já vimos que uma causa eterna mecânica poderia ter apenas um efeito eterno. Mas o que dizer sobre uma causa eterna pessoal? Craig pensa que uma pessoa eterna pode causar um efeito temporal. Aqui está sua explicação.

… um homem sentado desde sempre pode desejar levantar-se; portanto, um efeito temporal poderia surgir de um agente que sempre existiu. De fato, um agente pode desejar desde sempre criar um efeito temporal, de forma que nenhuma mudança no agente precise ser concebida.[23]

Suponha, então, que a causa do universo seja uma pessoa eterna. Isso não implica que o universo é eterno – já que a causa pessoal do universo pode ter “desejado desde sempre” produzir um universo com um começo no tempo. Craig pensa que essa é a única maneira de explicar por que o universo não é eterno:

A única maneira de termos uma causa eterna e um efeito temporal parece ser com uma causa que é um agente pessoal que livremente escolhe criar um efeito no tempo.[24]

Existem várias questões difíceis aqui. A causação pessoal opera da forma que Craig pensa? Ou ela é sempre analizável em termos de outras coisas ocorrendo dentro da pessoa? A causação pessoal é a única alternativa para a causação mecânica? Ou poderia haver algum outro tipo de “causa eterna” que não necessariamente produziria um efeito eterno? Não aprofundar-me-ei nessas questões aqui, mas existe outra objeção ao argumento de Craig que eu gostaria de desenvolver. E para ver como esta linha de argumentação funciona, precisamos voltar um pouco e olhar mais de perto a maneira pela qual as pessoas estão relacionadas com as ações que elas causam.

Quando uma pessoa se levanta, ela faz seu corpo se mover. Mas ela faz isso produzindo uma outra mudança em si mesma – uma mudança mental. Ela decide que agora é hora de levantar-se – criando a intenção de levantar-se imediatamente – e esta mudança mental causa a mudança na posição do corpo. Embora uma pessoa possa ficar sentada em um banco por um bom tempo sem decidir levantar-se, tão logo é tomada sua decisão de “levantar-se agora”, tal decisão produz seu efeito imediatamente – mais rápido até do que o congelamento da água por uma temperatura abaixo de zero.

Então, como ficaria essa questão envolvendo Deus e a Criação? Aparentemente, Deus deve escolher criar, ou nada irá ocorrer. Essa escolha de Deus é a causa imediata do início do universo. Deus escolhe criar o universo, e o universo passa a existir. Você poderia pensar que a escolha de Deus seja uma mudança mental em Deus. Deus pensa sobre isso, e então decide criar. Mas Craig nega que seja dessa forma.

Com “escolha” não quero dizer que Deus modifique Sua mente. Eu quero dizer que Deus tencionou eternamente criar um mundo no tempo.[25]

Não é difícil de ver por que Craig não quer dizer que “escolher criar” é uma mudança em Deus. O Deus proposto por Craig é onisciente. Ele não pode tomar decisões da forma que você e eu tomamos, porque ele sempre sabe de antemão o que ainda vai fazer. (Você não chega a uma decisão a respeito do que fazer se você já souber o que irá fazer.) Então, naturalmente, Craig conclui que a decisão de Deus é eterna – e que Ele “tencionou desde a eternidade criar um mundo.”

Mas isso cria um problema diferente para a explicação de Craig sobre a criação. Vimos que a decisão de Deus de criar é a causa imediata do universo. Mas agora aprendemos que a decisão de Deus de criar é eterna. Então como, pelos princípios de Craig, poderemos evitar a conclusão de que o universo é tão eterno quanto a decisão de Deus de criá-lo?

Na verdade, Craig também diz, “Deus escolhe eternamente criar um mundo com um início.”[26] Mas é difícil ver como isso é possível. Você irá recordar que o argumento de Craig para mostrar que a Causa Primeira deve ser uma pessoa assume que:

a. Uma causa eterna suficiente precisa ter um efeito eterno.

Mas, presumivelmente, Craig não pensa que Deus precise de qualquer ajuda para iniciar a criação. Então, é natural supor que :

b. A escolha de Deus de criar “um mundo com um início” é suficiente para produzi-lo.

Mas já aprendemos que :

c. A escolha de Deus de criar “um mundo com um início” é eterna.

Dessas três premissas temos que:

d. “Um mundo com um início” é eterno.

Essa conclusão é obviamente absurda. Um “mundo com um início” não pode ser eterno. Então, uma vez que d resulta das premissas a, b e c, uma delas deve ser falsa. Mas qual? A resposta de Craig dá a impressão de que b é falsa.

Estou inclinado a simplesmente negar que a eterna vontade de Deus de criar o universo, adequadamente compreendida, seja suficiente para a existência do universo…[27]

Como isso é possível? Certamente, Craig não acha que Deus falha em realizar o que ele “eternamente escolhe.” Aqui vai sua explicação:

… [N]ão é suficiente explicar a origem do universo citando apenas Deus, sua intenção atemporal de criar o mundo com um início, e seu poder de produzir tal resultado. Deve haver um exercício de Seu poder causal a fim de que o universo seja criado. … [Devemos] diferenciar entre a intenção atemporal de Deus de criar um mundo temporal e o ato divino de criar um mundo temporal.[28]

Craig agora distingue a eterna vontade de Deus de criar um mundo de seu exercício real do poder de fazer o que almeja – Sua eterna intenção de criar de Seu “ato” de cumprir sua intenção. O “ato” de criar o universo é presumivelmente suficiente para a existência do universo, e o universo passa a existir “tão logo” Deus o “empreende”. Mas isso não torna o universo eterno porque o “ato” (ao contrário da intenção original) não é eterno. Já que Deus Se coloca no tempo ao “empreender” a criação do universo, Seu “empreendimento” criativo ocorre no primeiro momento do tempo. Este é, por assim dizer, o primeiro dos eventos que Deus causa.

Mas isto não faz nada além de empurrar o problema para a relação entre a eterna vontade de Deus e o “ato” de executar Sua intenção anterior. Se a vontade de Deus de criar é suficiente para Sua empresa criativa, então, pelos princípios do próprio Craig, o ato deve ser eterno, caso em que, mais uma vez, o universo deve ser eterno. Portanto, Craig tem que negar, não apenas que a eterna vontade de Deus seja suficiente para a existência do universo, como também que ela seja suficiente para Seu empreendimento de criar o universo. Mas isso possui qualquer plausibilidade?

Penso que não. É bastante fácil ver que a vontade de uma pessoa meramente humana é com frequência insuficiente para levá-lo a fazer o que almeja. Existem pelo menos duas razões para isso. Você e eu podemos tencionar fazer alguma coisa mais tarde, mas até a hora escolhida chegar, não faremos qualquer coisa acerca de nossa intenção inicial. Esta tarde, por exemplo, pretendo ir até uma certa loja comprar vitaminas. Eu ainda não fui, pois o momento que escolhi para esta atividade ainda não chegou. Mas até que o momento apropriado chegue, poderei mudar de ideia e não ir. Essa é a segunda razão para afirmar que a vontade de uma pessoa humana é insuficiente para a efetiva realização do que foi tencionado. Seres humanos possuem desejos que são mutáveis e inconstantes. As vezes eles até mesmo padecem de fraqueza da vontade, e fracassam em fazer o que eles ( sinceramente, talvez) almejavam fazer, mesmo nos casos em que o tempo de agir já passou.

É óbvio que nenhuma dessas explicações sobre as lacunas entre a volição e a execução do que foi tencionado aplicam-se ao tipo de Deus em que Craig acredita – um Deus que é onipotente, onisciente e atemporal. Um Ser onipotente não pode padecer de fraqueza da vontade. Um Ser onisciente não pode mudar de idéia. E de um Ser atemporal não faz sentido dizer que ele “procrastine” a efetiva execução de suas intenções. De forma que é difícílimo entender realmente como a eterna vontade de Deus pode não ser suficiente para causar o ato desejado, caso em que também seria suficiente para o início do universo. Dos princípios do próprio Craig, portanto, resulta que o universo é eterno.

8. CONCLUSÃO

Eu tentei mostrar que o argumento kalam não é bem sucedido na tentativa provar a existência de Deus ou a criação ex nihilo. Isso não significa, é claro, que tenho uma teoria melhor sobre a origem do universo a oferecer. A meu ver, simplesmente não sabemos o suficiente para tirar conclusões firmes sobre tais questões. É divertido especular, mas não podemos esperar que qualquer pessoa honesta, racional e bem informada seja obrigada a aceitar nossas respostas. A maioria de nós possui intuições diferentes, ou mesmo conflitantes, a respeito do tempo e da eternidade, causação e agência, sobre a natureza da pessoalidade, e sobre muitas outras questões. É uma ilusão supor que existe uma única e óbvia maneira correta de pensar coerentemente sobre todas essas coisas. E é por isso que a história da filosofia é, e continuará sendo, uma história de disputas, controvérsias…e diversão.[29]

Questões sobre o artigo

1. Craig afirma que Deus “tenciona desde a eternidade” criar o universo no tempo. Ele também alega que uma causa eterna que é suficiente para seu efeito deve produzir um efeito eterno. Por que Morriston acha esta combinação de alegações problemática?

2. A distinção de Craig entre causação “mecânica” e “pessoal” se sustenta? Ou seria a causação pessoal no fundo apenas outro tipo de causação mecânica?

3. Diversos físicos acreditam que existe aleatoriedade genuína no nível das partículas subatômicas. Por exemplo, se você perguntar por que um átomo de urânio desintegrou-se num determinado momento, a resposta é que em qualquer momento específico a probabilidade é de uma em 10^32 de que uma “partícula alfa” irá “escapar” do núcleo desse átomo. E que isso é tudoo que há para dizer. Pode isto oferecer um modelo para a origem do universo diferente do que Craig considera em sua leitura?

Notas.

[22] “The Existence of God and the Beginning of the Universe.”

[23] “The Existence of God and the Beginning of the Universe.”

[24] Ibid.

[25] “Philosophical and Scientific Pointers to Creation ex Nihilo”, 197.

[26] Ibid., 197.

[27] “Must the Beginning of the Universe Have a Personal Cause?: A Rejoinder.

[28] Ibid.

[29] Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer a Barbara Morriston, que leu uma versão preliminar deste artigo e contribuiu com sugestões bastante úteis.

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Cerca de um ano atrás, quando a idéia do blog mal amadurecia e eu ainda quedava perplexo com o uso que os apologistas fazem de citações científicas para respaldar seus argumentos, li o livro Big Bang – Tudo sobre a mais importante descoberta científica de todos os tempos e por que esse conhecimento é indispensável, a fim de verificar com meus próprios olhos o que a ciência realmente tinha a dizer sobre a origem do universo. Foi uma leitura decepcionante, no sentido de que encontrei pouquíssima coisa que esclarecesse algo na discussão dos argumentos cosmológicos para a existência de Deus. Ao fim e ao cabo, o livro apenas conclui que a teoria do Big Bang é a que melhor explica a evolução do universo (não seu surgimento), mas que, como todo empreendimento científico, ainda possui muitas lacunas cujo preenchimento ficará a cargo das futuras gerações de cosmologistas. De resto, é uma leitura leve e agradável, cheio de divertidas anedotas sobre o submundo dos acalorados debates entre proponentes de teorias científicas concorrentes. Contudo, o livro, pelo menos sobre mim, não causou nem uma sombra do impacto provocado por outro livro do mesmo autor, O último teorema de Fermat, pelo qual tenho um afeto especial, talvez um dia eu conte aqui a história da significância que este livro teve num momento específico de minha vida (significância esta que acontecimentos posteriores infelizmente neutralizaram).

Como se sabe, quando os debates entre os proponentes de um universo eterno e os defensores do modelo do Big Bang começou a pender para o lado dos últimos, o então Papa Pio XII endossou publicamente a teoria, no que foi posteriormente desencorajado por Georges Lemâitre, padre e físico co-autor do modelo do Big Bang. Tal aprovação tinha por base uma compreensão equivocada do que os cosmologistas entendem por “nada”, como pode ser visto pelas duas citações abaixo, que retirei do livro:

George Gamow (físico de origem soviética que, ainda criança, ao fazer a primeira comunhão, correu para casa com fragmentos da hóstia embebida em vinho escondidos na bochecha para examina-los ao microscópio que ganhara de presente do pai a fim de compara-los com o pão e vinho não transubstanciados e não encontrou nenhuma evidência de transformação, o que, segundo ele, foi uma experiência decisiva para que se tornasse um cientista. Suas descobertas sobre a síntese de núcleos atômicos ajudaram a corroborar o modelo do Big Bang):

Em vista das objeções levantadas por alguns críticos em relação ao uso da palavra “criação”, deve ser explicado que o autor usa este termo não no sentido de “produzir alguma coisa a partir do nada”, e sim no de “dar forma a alguma coisa a partir de algo sem forma”, como, por exemplo, na frase, “a última criação da moda parisiense”.

Arthur Eddington (astrofísico britânico divulgador da teoria da relatividade na Inglaterra pós-Primeira Grande Guerra e participante da expedição tropical que em 1919 coletou evidências que corroboraram a Teoria da Relatividade):

Para minha mente, uniformidade não diferenciada e nada não poderiam ser diferenciados filosoficamente.

Abaixo será visto que o argumento de Craig também se baseia numa compreensão errônea, numa verdadeira eisegese, de alguns pontos da teoria do Big Bang.

Os parágrafos finais desta seção do artigo de Morriston de certa forma resgatam um argumento contra a idéia de criação divina que encontrei numa de minhas mais antigas leituras de críticas à racionalidade das crenças religiosas, e que, até conhecer o presente artigo, pensava que se encontrava refutada por nunca ter deparado com ela nos debates contemporâneos sobre o assunto. Em seu Tratado de Metafísica (um livrinho bem curto, meras 26 páginas, encontrado no volume da coleção Os Pensadores dedicado a Voltaire), o célebre iluminista compila resumidamente os principais argumentos favoráveis e contrários à existência de uma divindade nos moldes teístas e as principais objeções que os lados adversários levantavam contra os argumentos do lado contrário. Eis sua formulação das dificuldades encontradas quando se coloca uma divindade imaterial, externa e anterior ao mundo como seu autor:

Se Deus não é o mundo material, ele o criou (ou então, se quiserdes, deu a um outro ser o poder de cria-lo, o que vem a dar no mesmo); mas fazendo esse mundo, ou tirou-o do nada ou tirou-o de seu próprio ser divino. Não pode te-lo tirado do nada porque este não é, não pode te-lo tirado de si próprio porque, então, esse mundo faria essencialmente parte da essência divina e, assim sendo, eu não poderia ter uma idéia da criação, donde se segue que não posso admitir a criação.

Deste raciocínio Voltaire conclui apenas que a criação por Deus não nos é concebível, não que é impossível. Vejamos agora como Morriston debilita as conclusões de W.L. Craig explorando justamente os argumentos que deveriam respalda-las.

6. CRIAÇÃO A PARTIR DO NADA?

Como o título “Philosophical and Scientific Pointers to Creation ex Nihilo” sugere, Craig acredita que pode mostrar, não apenas que o universo foi criado por uma pessoa, mas que foi criado a partir do nada. Seu argumento para essa segunda afirmação apela para uma versão da teoria do Big Bang segundo a qual o universo emergiu de uma partícula infinitamente densa que explodiu há cerca de quinze bilhões de anos atrás.

Esse evento que marcou o início do universo se torna ainda mais fantástico quando refletimos sobre o fato de um estado “infinitamente denso” ser sinônimo de “nada.” Não pode haver nenhum objeto com uma densidade infinita, pois se este tivesse algum tamanho, não seria infinitamente denso. Portanto, como o astrônomo Fred Hoyle destaca, a teoria do Big Bang requer a criação da matéria a partir do nada. Isso ocorre porque à medida em que retrocedemos no tempo, alcançamos um ponto em que, nas palavras de Hoyle, o universo estava “reduzido a absolutamente nada.” Assim, 0 modelo do Big Bang demanda um universo com um início e criado a partir do nada.[19]

O argumento apresentado por Craig nesta passagem pode ser resumido da seguinte maneira:

a. De acordo com a teoria do Big Bang, o universo foi criado a partir de uma partícula infinitamente densa.

b. Não pode existir nenhum objeto de densidade infinita.

c. Logo uma “densidade infinita” é sinônimo de “nada”.

d. Por isso, a teoria do Big Bang implica na criação do universo a partir do nada.

Esse argumento é extremamente confuso. Há uma razão que torna a inferência em c obviamente falsa. “Densidade infinita” não é sinônimo de “nada”, e a singularidade inicial que aparece na teoria do Big Bang não é simplesmente o nada absoluto. Um mero nada não poderia explodir, como supõe-se ter ocorrido com a singularidade inicial. E mesmo se carecesse de extensão espaciotemporal, a singularidade teria outras propriedades. Para os principiantes, ela tinha a propriedade de ser “infinitamente densa”. Sendo, portanto, algo completamente excepcional, e não um simples nada.

Mas isso não é tudo. Se a premissa b é verdadeira – se é mesmo verdade que “não pode haver um objeto de densidade infinita”, então, essa versão da teoria do Big Bang é absolutamentemente falsa, já que afirma que um objeto deste tipo já existiu.

Até agora, então, parece que a teoria do Big Bang não forneceu respaldo algum para a afirmação de que o universo foi criado a partir do nada. Em outro lugar, contudo, Craig explica sua posição de forma algo diferente.

Em tal modelo o universo origina-se ex nihilo no sentido de que na singularidade inicial é verdadeiro que Não existe ponto espaçotemporal anterior ou é falso que Alguma coisa existia anterior à singularidade.[20]

Nessa passagem, Craig não nega que uma partícula infinitamente densa poderia existir. Tampouco fala que a “singularidade inicial” é um mero “nada.” O que ele diz, pelo contrário, é que nada precede a singularidade inicial no tempo, e que, supostamente, isso mostra que a singularidade inicial foi criada a partir do nada. O argumento segue dessa forma:

e. A singularidade existiu no mais antigo ponto do espaço-tempo.

f. Não existe tempo anterior ao mais antigo ponto do espaço-tempo.

g. Logo, não houve nada temporalmente anterior à singularidade inicial.

h. Portanto, a singularidade inicial deve ter sido criada a partir do nada.

Existem pelos menos dois problemas com esse argumento. Por razões já apresentadas na seção 3, não penso que a teoria do Big Bang implique a veracidade da premissa f. Mesmo se concedêssemos que o espaço-tempo começou com a singularidade, isso não implicaria que o tempo metafísico começou com o primeiro momento do espaço-tempo. Recordando que na visão de Craig, Deus poderia ter criado o tempo antes de criar o espaço-tempo de nosso universo. Isso implica que poderia ter existido algo anterior ao mais antigo ponto no espaço-tempo (t=0), e nesse caso a premissa f seria falsa. De toda maneira, a premissa f poderia ser verdadeira – o tempo metafísico e o espaço-tempo poderiam ter começado juntos. Mas já que a teoria do Big Bang não diz nada sobre o tempo metafísico, Craig não pode afirmar consistentemente que essa teoria mostra que isso ocorreu com o tempo metafísico.

Mas suponha que o primeiro momento do tempo metafísico coincida com o t = 0 do espaço-tempo de nosso universo. Isso ainda não nos dá uma criação ex nihilo. Apenas nos mostra que nosso universo não teria sido criado a partir de algo existente antes de t = 0. Com isso o passo h do argumento não segue de f sem uma premissa adicional:

i. Se não houve nada temporalmente anterior à singularidade inicial, então ela foi criada a partir do nada.

Mas que razões temos para pensar que esta premissa adicional seja verdadeira? Por que não poderia a singularidade inicial ter sido criada a partir de alguma coisa que exista atemporalmente? Isso vai depender do tipo de coisas existentes fora do tempo. De acordo com Craig, nós sabemos que Deus, como causa primeira do universo, existiu fora do tempo e “antes” da criação do universo. Mas por que supor que Deus é o único ser que existe fora do tempo? Por que também não poderia ter existido uma “substância” atemporal que Deus transformou num universo?

Craig acha que pode descartar essa possibilidade com base no fato de que matéria e energia são temporais por natureza. Mas por que supor que estas seriam as únicas “matérias-primas” possíveis a partir das quais Deus poderia fazer o universo? É verdade que não estamos familiarizados com nenhuma “matéria-prima” atemporal que poderia ter desempenhado este papel. Mas, da mesma forma, não não possuímos experiência com nenhuma pessoa atemporal, e Craig não vê problema algum com essa idéia. Então, por que não poderia ter existido uma “substância” atemporal com a qual Deus poderia ter feito seu trabalho?

Não estou propondo isto como uma hipótese particularmente provável. Parece-me que nós definitivamente não dispomos de dados suficientes para decidir a partir de que (se é que houve qualquer coisa) Deus (se Ele existir) pode ter feito o universo. Como um sábio filósofo disse certa vez, “Nossa corda é muito curta para sondar tal abismo.”[21] Estou certo de uma coisa – a teoria do Big Bang não resolve o problema favoravelmente à criação ex nihilo.

Questões sobre o artigo

1. Por que Craig pensa que a criação ex nihilo  resulta do modelo do Big Bang da origem do universo? Quais são as principais objeções de Morriston aos argumentos para esta alegação?

2. Seria a criação a partir do nada mais inteligível do que a criação pelo nada? Que implicações tem sua resposta para a premissa 1 do argumento kalam?

Notas.

[19] “Philosophical and Scientific Pointers to Creation ex Nihilo”, 192.

[20] “The Ultimate Question of Origins: God and the Beginning of the Universe”, Astrophysics and Space Science 269-270 (1999), 723-740.

[21] David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, seção 7, parte 1.

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