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Posts Tagged ‘Fundamentalismo’

por Richard Carrier

A teoria moral cristã mais popular diz que é melhor sermos bons ou então arderemos eternamente no mármore do inferno, onde o fogo não se apaga e o verme nunca morre, mas se formos bons, viveremos eternamente no paraíso. Os intelectuais cristãos se exasperam com isto, mas apesar de suas lamúrias, esta é a visão mantida pelo grosso da cristandade. Teorias mais sofisticadas substituem “céu” e “inferno” por objetivos mais abstratos, tais como “é melhor que você seja bom ou Deus ficará desapontado com você”, ou “é melhor que você seja bom ou então você estará amesquinhando sua existência” e mais uma meia dúzia de outras coisas que foram propostas.[7] Mas todas equivalem à mesma coisa: um apelo a algo ruim que acontecerá se você não obedecer (e algo correspondentemente bom que acontecerá caso contrário), combinada com a hipótese de que você se importa com isso – não apenas se importa, mas se importa com isso acima de todas as outras coisas.

Portanto, todos os sistemas morais cristãos são redutíveis ao mesmo argumento:

1. Se você fizer x, A acontecerá; e se você fizer ~x, B acontecerá.
2. Sendo racional e suficientemente informado, você desejará A mais do que B.
3. Se sendo racional e suficientemente informado você desejará A mais do que B (e se B, então ~A; e A se e somente se x, então), então você deve fazer x.
4. Portanto, você deve fazer x.

Isto significa, para que a conclusão seja verdadeira, que é necessário que todas as três premissas sejam verdadeiras. A deve ser um fato empírico verdadeiro resultante da realização de x. B deve ser um fato empírico  resultante da realização de ~x. E deve ser um fato empírico verdadeiro que, quando racionais e esclarecidos, desejamos A mais do que B[8]. Também deve ser verdade que estes dois fatos implicam o que devemos fazer (3ª premissa), caso contrário declarar que a conclusão segue das premissas é um non sequitur, mesmo para um cristão (mais sobre isso adiante).

Se, por exemplo, Deus enviar para o inferno todos os que obedecem aos Dez Mandamentos, então a afirmação cristã “você deve obedecer aos Dez Mandamentos para não queimar no inferno” seria factualmente falsa, e portanto definitivamente não seria um enunciado moral verdadeiro. Igualmente, se Deus ficar efetivamente satisfeito se violarmos os Dez Mandamentos, ou se esta violação realmente valorizar nossa existência (ou [insira uma razão aqui], então a afirmação de que deveríamos obedecer aos Dez Mandamentos para não ofendermos a Deus ou depreciar nossa existência (ou seja lá o que for) é igualmente falsa. De modo que a moralidade cristã depende de suas afirmações de causa-e-efeito serem factualmente verdadeiras. Mas não há nenhuma evidência empírica de que qualquer daquelas afirmações seja verdadeira. Não há nada que nos indique que tipo de comportamento nos levará ao céu ou ao inferno. Não existem evidências empíricas sobre como Deus realmente se sente em relação a qualquer comportamento específico.[9] Não existem evidências empíricas da superioridade da moralidade cristã sobre várias outras alternativas não-cristãs solidamente argumentadas em produzir uma sociedade vicejante de pessoas felizes. Não existem nem mesmo evidências empíricas de que converter as pessoas ao Cristianismo as torna moralmente melhores – estatisticamente, quanto mais cristãos há numa sociedade, mais os problemas sociais se agravam, e não há casos registrados de um declínio abraangente e substancial (tudo o mais sendo igual).[10] Mesmo em termos de alcançar a felicidade e o bem estar pessoal, não existem evidências empíricas de que outros sistemas morais não realizem esse objetivo tão bem quanto ou até melhor do que a conversão ao Cristianismo[11]. Portanto, a moralidade cristã é totalmente não comprovada ou não comprovável. Portanto, não existem evidências que a respaldem mais do que a qualquer outra moralidade, ou mesmo a uma moralidade exatamente oposta – à parte de fatos inteiramente seculares que são visivelmente verdadeiros mesmo se o Cristianismo for falso.

O Cristianismo depende também de serem verdadeiras suas afirmações sobre os desejos humanos. Se, mesmo após esclarecermo-nos por completo, nós na verdade preferirmos arder eternamente no inferno, então não há nenhum sentido relevante em que “você deve ser bom se não quiser queimar no inferno” seja verdadeira. O mesmo vale para qualquer coisa que você substitua: se nós realmente preferirmos desagradar a Deus, ou realmente detestarmos nos sentir em paz com o mundo, ou realmente apreciarmos o amesquinhamento de nossa existência mais do que sua valorização, e todas as outras coisas, e ainda nos sentirmos dessa maneira mesmo após nos conscientizarmos de todas as consequências de cada alternativa, então nenhuma moralidade cristã é verdadeira (ao menos para nós). Mesmo se tivermos um conhecimento acurado do que Deus ordena, essas ordens não nos seriam mais imperativas do que as de qualquer outra pessoa, ou até mesmo as nossas próprias. Simplesmente não teríamos a mínima razão para nos importarmos com elas.

Podemos ficar o dia inteiro fabricando moralidades. Não temos nenhuma razão para obedecer a qualquer uma delas. No entanto, não existe nenhuma diferença entre um sistema moral cristão que não temos nenhum motivo para seguir, e qualquer sistema moral escolhido ao acaso. Nossos motivos para obedece-los são idênticos em cada caso, ou seja, identicamente ausentes. Não temos mais razões para obedecer a uma moralidade cristã não-motivante do que temos para obedecer à moralidade pitagórica (em que comer feijões é uma imoralidade grave) ou à moralidade judaica ortodoxa (em que atender a um telefonema no sábado é uma imoralidade grave). E se não há razão alguma para obedece-la, ela não é verdadeira em nenhum sentido significativo. Pode ser verdade que “Deus ordena x”, mas não será verdade que “Você deve fazer x”.

Esta é a razão pela qual o Cristianismo ingênuo é tão popular, em que céus e infernos eternos são invocados não apenas para criar um motivo, mas como se fossem os únicos motivos concebíveis – assim como assume-se que a perspectiva de não acreditar no céu ou no inferno acarreta um vertiginoso mergulho na mais despudorada devassidão (as evidências provam decisivamente o contrário, mas as crenças cristãs raramente enraízam-se na realidade – veja a nota 11). Mesmo teorias mais sofisticadas simplesmente substituem este motivo por algum outro  (tal como o amor de Deus, ou uma profunda preocupação com o que ele pensa de nós, ou um sentimento de “estar em paz com o mundo”, ou seja lá qual for o seu), sempre apelando no fim ao que nós supostamente desejamos acima de tudo, e,  portanto, desejando mais do que a qualquer outra coisa, poderíamos obte-lo agindo diferente. E no entanto, mais uma vez, se verdadeiramente desejarmos acima de tudo alguma outra coisa – se estivéssemos plenamente cientes de todas as consequências disso, e mesmo assim sempre preferirmos uma eternidade no inferno (ou seja lá qual for a ameaça) – então não haveria nenhum sentido significativo  em que “devemos” fazer qualquer coisa que os cristãos prescrevam. Suas declarações seriam simplesmente falsas – tão falsas quanto “você não deve comer feijões” ou “você não deve atender o telefone no sábado”.

De modo que todo e qualquer sistema moral cristão concebido ou deriva seu “deve” de algum “é”, ou então não faz nenhuma reivindicação de veracidade relevante. Entretanto, nenhum “é” do qual o Cristianismo deriva seus “deve’s” é empiricamente comprovável, exceto fatos que permaneceriam visivelmente verdadeiros mesmo se o Cristianismo for falso (tais como o efeito que o comportamento moral tem sobre nosso próprio bem-estar), e alegações factuais que são de uma falsidade efetivamente comprovável (tais como a de que a homossexualidade prejudica a felicidade humana ou causa danos mensuráveis à sociedade). O “é” do qual os cristãos tentam derivar seus “deve’s” é a mesma afirmação de fatos dupla que justifica qualquer outro imperativo, apenas entremeada com afirmações sobrenaturais: (1) uma afirmação sobre o que Deus é ou deseja ou fará (ou sobre como ele planejou o funcionamento do mundo, ou alguma outra coisa semelhante) e (2) uma afirmação sobre o que todos nós realmente desejamos – mais especificamente, a afirmação de que, quando racionais e suficientemente informados, desejamos as consequências da busca do objetivo acarretado por (1) mais do que as consequências de não busca-lo. Se a última for falsa (se não desejarmos este resultado mais do que o outro), então o sistema moral cristão construído sobre ela também é. O caso é o mesmo  se o comportamento prescrito não produzir as consequências acarretadas por (1). E os cristãos nunca comprovaram a eficácia de sua moralidade. Portanto, independente do que já podemos justificar sem ela, a moralidade cristã não possui fundamento algum e nada que a recomende em detrimento de qualquer outra.

Notas.

7. Para um levantamento de todas as razões que o filósofo J. P. Moreland poderia pensar (que razoavelmente abraange quase todas as razões dignas de crédito que há para se considerar), veja Carrier, Sense and Goodness, 293-311.

8. Por racional eu não quero dizer nada além de derivar conclusões de premissas  com validade lógica (ou seja, sem falácias). E por irracional eu não entendo nada além de não-racional.

9. Apesar das afirmações em contrário falaciosas ou sem fundamentos empíricos, conforme demonstrado em The Christian Delusion, e na bibliografia ali citada, e em outros capítulos do presente volume.

10. Ou seja, quando todos os indicadores são comparados, não há diferença líquida significativa entre sociedades comparáveis (por exemplo, as taxas de roubos na Austrália são mais altas que no EUA mas a taxa global de crimes na Austrália é bem menor, e a taxa de crimes na Rússia é mais alta que a dos EUA mas as condições sociais não são equivalentes). Veja, Gregory Paul, “The Chronic Dependence of Popular Religiosity upon Dysfunctional Psychosociological Conditions,” Evolutionary Psychology 7, no. 3 (2009): 398–441, e “Cross-National Correlations of Quantifiable Societal Health with Popular Religiosity and Secularism in the Prosperous Democracies: A First Look,” Journal of Religion and Society 7 (2005): http://moses.creighton.edu/JRS/2005/2005–11.html; Phil Zuckerman, Society without God: What the Least Religious Nations Can Tell Us about Contentment (New York: New York University Press, 2008); Pippa Norris and Ronald Inglehart, Sacred and Secular: Religion and Politics Worldwide (Cambridge: Cambridge University Press, 2004); Michael Shermer, The Science of Good and Evil (New York: Times Books, 2004), 235–36. Afirmações em contrário geralmente são fraudulentas, cf., e.g., Carrier, Sense and Goodness, 303–308.

11. Por exemplo, veja Ronald Inglehart, Roberto Foa, Christopher Peterson, e Christian Welzel, “Development, Freedom, and Rising Happiness,” Perspectives on Psychological Science 3, no. 4 (2008): 264–85. Quando combinado com as evidências levantadas na nota anterior, este estudo estabelece que não há evidências de que o crescimento do ateísmo leva a qualquer declínio na moralidade ou na felicidade.

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Nos comentários do post “Mais uma refutação ao poderoso OTF…“, um dos discípulos do profeta apocaliptista travestido de ateu conservador Luciano Ayan  (ele jura que é operado, mas vai até a lua e volta espumando de ódio toda vez que alguém acerta uma pancada contundente em suas intimidades religiosas) fez uma “contribuição de altíssimo nível“, expondo a todos um suposto debate que um suposto John W. Loftus supostamente teria perdido. Desde então Luciano Ayan vem fazendo anúncios bombásticos de uma vindoura refutação humilhante ao OTF, como pode ser visto nos dois screenshots abaixo (coloquei as fontes nas legendas, mas é altamente provável que ele adultere seus posts ao ver sua alegria de pobre abortada e me acuse de te-lo fraudado):

 O motivo dessa hybris pode ser visto nesta arena virtual aqui. Thrasymachus, o desafiante, não faz nada além de reciclar objeções que alguns apologistas já haviam levantado anteriormente, e às quais o autêntico Loftus já havia respondido _ vejam os comentários deste post do blog do Thrasymachus. Observem também como o próprio Thrasymachus, no terceiro round do debate, em vez de comemorar a vitória suspeitosamente fácil, preferiu considerar altamente provável que o perfil que aceitara seu desafio na verdade pertencia a um fake, suspeita que ele já aventara no começo do segundo round ao solicitar que o outro debatedor lhe enviasse alguma confirmação de que era o autêntico Loftus.

O cristão enrustido, naturalmente predisposto a se agarrar à literalmente qualquer bobagem que alguém fale ou escreva em defesa de sua fé e numa atitude típica de pessoas iludidas, levou em consideração só o que lhe era favorável e ignorou o que era de fato relevante. Se fosse o cético full-blown que se jacta de ser a cada duas linhas de seus posts, teria se poupado mais esse constrangimento. V.V., obrigado por propiciar mais essa oportunidade de expor ao ridículo o macho-alfa dos conservopatas.

Quanto à objeção levantada pelo Thrasymachus contra o OTF, trata-se da famigerada e abusada falácia genética, que consiste em afirmar que uma crença é falsa em virtude do modo como foi adquirida. É a quinta das objeções respondidas abaixo. Além disso, observem que o OTF é um argumento indutivo, probabilístico, não um argumento dedutivo. Ele deixa em aberto a possibilidade de que alguma fé religiosa seja verdadeira apesar de adquirida por um processo não confiável de formação de crenças.

Quanto ao Luciano Ayan, este é o último post em que esse infeliz ou algum de seus textos é mencionado aqui no Rebeldia Metafísica. Continuar a faze-lo seria desmerecer o excelente trabalho de desconstrução da equipe do Blog do Mensalão (recomendo a leitura dos seguintes textos: O que é Controle de Frame, Sou ateu parte 1B: Jeremias e Marcelo Rizzo, Uma “breve” biografia de Luciano Ayan). Como meu presente pessoal de despedida, deixo a ele este link  e uma canção que decerto lhe serão úteis no estágio terminal em que se encontra:

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Um: Os crentes religiosos objetarão em uníssono que o OTF não mostra que sua religião particular é falsa simplesmente por ser um fato sociológico incontestável que acreditamos baseados em acidentes históricos e geográficos. William Lane Craig indaga, “Como a mera presença de visões de mundo incompatíveis com o Cristianismo mostra que alegações distintivamente cristãs não são verdadeiras? Logicamente, a existência de reivindicações de verdade múltiplas e incompatíveis implica apenas que todas elas não podem ser (objetivamente) verdadeiras;  mas seria obviamente falacioso inferir que nenhuma delas é (objetivamente) verdadeira.” Ele está certo sobre isso, assim como os muçulmanos e os mórmons que podem dizer a mesma coisa em relação a suas respectivas fés. Afinal, alguém pode estar certo por nenhuma outra razão além da sorte de nascer na época e no lugar certo.

Mas como você justifica racionalmente tal sorte? Foi por isto que desenvolvi o desafio do teste do infiel em primeiro lugar, para testar as fés religiosas contra tal sorte. Se o teste entre fés religiosas é baseado inteiramente na sorte, então quais são as chances, baseado apenas na sorte, que a seita específica do Cristianismo à qual alguém adere seja a correta?

Dois: Objeta-se que existem minorias ínfimas de pessoas que escolheram ser teístas cristãos que nasceram e cresceram em países muçulmanos e que as pessoas podem escapar de sua fé culturalmente adotada. Isto é verdade. Mas estas são as exceções. Os teístas cristãos respondem me pedindo para explicar as exceções. Estou pedindo que eles expliquem a regra. Por que crenças religiosas específicas predominam em áreas geográficas específicas? Por que isso ocorre?

Quando se trata destes convertidos, minha opinião é que a maioria deles não ponderou objetivamente as evidências quando fez seus compromissos religiosos iniciais. Eles mudaram sua maneira de pensar sobretudo devido à influência e à credibilidade do evangelizador e/ou da natureza fantástica e assombrosa do próprio relato religioso. Eles não dispunham de nenhum método inicial para realmente investigar a fé professada. Que evangelista falaria de maneira nua e crua sobre o lado negro da Bíblia e da Igreja enquanto prega as Boas Novas? Nenhum que eu conheça. Que evangelista apresenta um panorama dos inumeráveis problemas que os acadêmicos cristãos como vocês próprios da platéia enfrentam em encontros como este? Nenhum que eu conheça. Que evangelizador dá a um convertido em potencial uma cópia de um livro como o meu junto com uma cópia de um livro de apologética cristã e pede-lhe que leia os dois antes de tomar uma decisão? Mais uma vez, nenhum que eu conheça.

Três: Objeta-se que a mera discordância de pessoas racionais acerca de um tema não justifica o ceticismo acerca de uma afirmação específica. Ao contrário, penso que isso não somente pode justificar como de fato justifica o ceticismo. O grau de ceticismo justificado depende dos critérios que mencionei antes. Pessoas racionais não apostam contra a gravidade, por exemplo, porque há evidências para ela que foram aprendidas à parte do que lhes foi ensinado para acreditarem numa região geográfica distinta. Ela pode testa-la pessoalmente. Sustento que as crenças religiosas estão numa categoria diferente da dos resultados de experimentos científicos reprodutíveis, e que esta afirmação é tanto óbvia quanto incontroversa. De qualquer maneira, o ceticismo é melhor expresso num continuum. Algumas alegações de crença justificarão um ceticismo maior do que outras. Afirmo que crenças religiosas provavelmente justificam o mais elevado grau de ceticismo considerando-se os fatos sociológicos. Correndo o risco de ofender os religiosos aqui, as crenças religiosas, como crenças em elfos na Islândia, em trolls na Noruega e no poder das bruxas na África, devem ser submetidas ao mais elevado grau de ceticismo considerando-se tanto a natureza extraordinária destas afirmações e como algumas destas crenças são adotadas em primeiro lugar.

Quatro: Alguém pode objetar que meu argumento se auto-destrói. Elas indagarão: “Minhas condições culturais ‘determinam’ esmagadoramente minha pressuposição cética? Se for o caso, então, como Alvin Plantinga pergunta, seriam minhas crenças igualmente ‘produzidas por um processo de produção de crenças não-confiável’? Se não, então por que razão eu penso que posso transcender a cultura mas um teísta cristão não pode transcender sua cultura?” Em resposta, penso ser extremamente difícil transcender nossa cultura porque, como mencionei antes, elas nos dota com os próprios olhos com os quais vemos. Mas precisamente porque sabemos a partir de estudos psicológicos e antropológicos que isto é o que a cultura faz por e para nós, é possível transcender a cultura em que fomos criados.

[Exemplo] Sabemos que as pessoas não percebem sensorialmente a realidade como ela realmente é. O que vemos é filtrado por nossos olhos. O que ouvimos é filtrado por nossos ouvidos. Vemos e ouvimos apenas uma quantidade muito limitada dos dados do mundo. Mas se víssemos e ouvíssemos o espectro sônico e eletromagnético inteiro nós basicamente veríamos e ouviriamos ruído branco. Sabemos disso mesmo não sendo capazes de realmente ver ou ouvir o ruído branco por nós mesmos. Também sabemos que o chão sobre o qual caminhamos move-se como um enxame de abelhas no nível microscópico. Assim, é o conhecimento científico sobre o mundo que nos leva a sermos céticos sobre o que vemos e ouvimos.

O mesmo pode ser dito quando se trata de estudos psicológicos e antropológicos mostrando que deveríamos ser céticos em relação ao que somos levados a acreditar, apesar de sermos incapazes de realmente ver qualquer coisa acerca de nossas crenças sobre as quais deveríamos ser céticos. E o OTF é sem dúvidas um teste que podemos propor para examinar nossas crenças culturalmente adotadas.

A verdade é que meu argumento definitivamente não se autodestrói. Ele sugere que deveríamos duvidar do que acreditamos. Não é autodestrutivo dizer quais são as chances de que estejamos errados. Afinal, estamos falando sobre as probabilidades aqui. O filósofo agnóstico J.L. Schellenberg lida come este mesmo tipo de críticas nestes termos: “agora, esta objeção pode ser sólida se meus argumentos de fato forem aplicáveis a si próprios, e não é preciso muito para vermos que tal não é o caso.” Pois existe uma diferença colossal entre defender um sistema de crenças religiosas como o único e exclusivo sistema correto, e negar que um sistema de crenças religiosas seja justificado. Sua afirmação é que os adeptos de qualquer sistema de crenças religiosas dado “não foram bem-sucedidos em montar seu caso; ele nos compele a continuar a investigação… porque o ceticismo sempre é uma posição de último recurso em contextos de busca da verdade.”

Cinco: ao afirmar que fés religiosas são adotadas esmagadoramente por “acidentes de nascimento”, terei cometido a falácia genética, uma falácia informal de irrelevância? Esta falácia é cometida sempre que se argumenta que uma crença é falsa devido ao modo como se originou.

Eu não considero a falácia genética tão significativa quanto as pessoas pensam que é, especialmente em contextos religiosos. Se alguém acredita de maneira paranóica que a CIA o está espionando e descobrimos que a gênese (ou origem) de sua crença remonta ao consumo de uma droga alucinógena como o LSD, então possuímos evidências realmente boas para sermos céticos em relação a sua crença paranóica, apesar de não termos realmente demonstrado a falsidade de sua crença de qualquer outro modo, e apesar de ao procedermos assim alguém poder nos acusar de cometer a falácia genética. Portanto, de maneira similar, se podemos determinar que as origens das formas mais primitivas de Cristianismo foram criadas puramente por seres humanos antigos supersticiosos, possuímos boas bases para sermos céticos. Mas ainda mais importante para o caso, se todas as nossas crenças são completamente determinadas por nosso ambiente então esse é o caso independente do fato de que ao argumentar em defesa disso comete-se a falácia genética.

Todavia, não há nenhuma falácia genética aqui, a menos que ao explicar como os fiéis primeiro adotam sua fé eu em seguida concluísse que tal fé é falsa. Não estou afirmando que essas fés são falsas em virtude de como os crentes originalmente as adotam. Estou apenas defendendo que os crentes deveriam ser céticos a respeito de suas fés religiosas culturalmente adotadas em virtude de como eles primeiro vieram a adota-las.

Seis: Uma última objeção pergunta se isto tudo não seria circular. Teria eu meramente escolhido um sistema de crenças metafísicas diferentes baseado em fatores culturais diferentes? Eu nego que isto seja verdade, pois tenho fundamentos iniciais muito bons para começar com o ceticismo baseado em fatos sociológicos, antropológicos e psicológicos. Os procedimentos metodológicos são aqueles testes que utilizamos para investigar alguma coisa. Como procedemos ao investigar alguma coisa é uma questão separada que deve ser justificada em seus próprios termos, e eu tenho feito isto aqui. Uma pessoa não pode dizer que devo ser tão cético acerca do Teste Da Fé do Infiel quanto sou acerca das conclusões a que cheguei quando apliquei o teste, já que justifiquei o teste a partir dos fatos. Deve-se primeiro discutir o teste do infiel em seus próprios termos.

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[O texto a seguir é uma adaptação, para uma palestra proferida por John W. Loftus em março de 2009 num encontro da Evangelical Philosophical Society, do capítulo “The Outsider Test Of Faith” da primeira edição de seu livro Why I Became An Atheist]

Quando se trata de avaliar as reivindicações de veracidade do teísmo cristão, a pergunta mais importante de todas é se deveríamos abordar as evidências disponíveis pelas lentes da fé ou do ceticismo. A neutralidade completa e absoluta, embora desejável, parece ser praticamente impossível, já que a visão de mundo que utilizamos para avaliar as evidências preexiste ao olhar sobre as evidências. Assim, a questão que abordarei hoje é se deveríamos adotar uma predisposição religiosa ou cética antes de examinarmos as evidências para um sistema de crenças religiosas. Defenderei que a adoção de uma predisposição cética é a melhor escolha.

Meu Teste da Fé Do Infiel (Outsider Test Of Faith no original, doravante OTF) é apenas um dos vários argumentos que utilizo para demonstrar que ao examinarmos as evidências para um sistema de crenças religiosas uma predisposição cética é mais do que justificada. Existem evidências esmagadoras, inegáveis e incontroversas para o próprio teste que podem ser encontradas em bancos de dados sociológicos, antropológicos e psicológicos. Começarei com alguns dos dados que constituem os fundamentos para o teste. Então descreverei o teste, oferecerei alguns exemplos do que ele exige do fiel, e o defenderei contra seis objeções principais.

Existe um debate acalorado entre os apologistas cristãos sobre os “fatores de fundo” bayesianos, fatores que desempenham um papel significativo na avaliação da verossimilhança do Cristianismo em geral, da probabilidade da ressurreição de Jesus, da probabilidade da ocorrência de milagres, e do problema do mal. Mas o fator de fundo mais importante de todos para avaliarmos cognitivamente as reivindicações de verdade da fé religiosa é o plano de fundo sociológico e cultural.

O fundamento para o Teste do Infiel foi enunciado com muita propriedade pelo filósofo liberal cristão John Hick: “É evidente que em aproximadamente 99% dos casos a religião que um indivíduo professa e à qual ele adere depende de acidentes de nascimento.” Ou seja, se tivéssemos nascido na Arábia Saudita, hoje seríamos muçulmanos sunitas. Se tivéssemos nascido no Irã, seríamos muçulmanos xiitas. Se tivéssemos nascido na Índia, seríamos hindus. Se tivéssemos nascido no Japão, seríamos xintoístas. Se tivéssemos nascido na Mongólia, seríamos budistas. Se tivéssemos nascido no primeiro século a.C. em Israel, seríamos adeptos da fé judaica daquela época, e se tivéssemos nascido na Europa do ano 1000 d.C., seríamos católicos romanos. Pelos primeiros nove séculos do primeiro milênio da era comum, teríamos acreditado na teoria do resgate como explicação do modo como funciona o sacrifício de Jesus. Como os cristãos que viveram durante a Idade Média tardia, não veríamos nada de errado em queimar bruxas, torturar hereges e reconquistar Jerusalém dos “infiéis” nas Cruzadas. Estas coisas estão o mais próximo possível de serem fatos inegáveis a que se pode chegar no universo sociológico.

Houvéssemos nós vivido no Egito antigo ou na Babilônia, teríamos sido muito supersticiosos e politeístas até a medula. No mundo antigo, teríamos buscado orientação divina através da adivinhação, tentado alterar as circunstâncias por meio de mágicas e acreditado no temível mau-olhado.

Existe toda uma gama de temas e questões que admitem a diversidade também na política e na moral, diversidade esta baseada sobretudo em “acidentes de nascimento”. Homens caucasianos americanos teriam acreditado, como o presidente Andrew Jackson, no destino manifesto, nosso mandato outorgado por Deus para confiscarmos os territórios dos nativos americanos na expansão em direção ao Oeste. Ao longo do século 17 teríamos acreditado que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens, e consequentemente não teríamos permitido que recebessem a mesma educação ministrada aos homens, e muito menos que votassem. Como Thomas Jefferson e a maioria dos americanos, teríamos pensado desta maneira a respeito das pessoas negras também, que elas eram intelectualmente inferiores aos brancos, ao passo que se tivéssemos nascido nos Estados do Sul, teríamos justificado a escravidão citando a Bíblia. Se no mundo de hoje tivéssemos nascido na Faixa de Gaza palestina, odiaríamos os judeus e provavelmente desejaríamos mata-los todos.

Estes tipos de crenças religiosas, morais e políticas, baseadas em condições culturais, podem ser multiplicadas numa extensa lista de crenças que manteríamos se tivéssemos nascido numa época e/ou num local diferentes. Voltaire estava certo: “Todo homem é uma criatura da época em que vive, e poucos são capazes de elevar-se acima das idéias de seu tempo.

Condições sociais nos municiam com as crenças de controle iniciais que utilizamos desde o primeiro momento para integrar todas as nossas experiências e fatos conhecidos. Esta é a razão pela qual elas são chamadas de crenças de controle. Elas são semelhantes a viseiras. A partir do momento em que as colocamos, vemos muito bem apenas o que nossas viseiras permitam que vejamos, porque a razão e o entendimento são utilizados sobretudo a serviço destas viseiras.

Michael Shermer, um ex-cristão que tornou-se ateu, empreendeu um estudo abraangente das razões pelas quais as pessoas acreditam em Deus e em “coisas estranhas”. Ele afirma: “A maioria de nós a maioria das vezes formamos nossas crenças por uma variedade de razões que tem muito pouco a ver com evidências empíricas e raciocínio lógico. Em vez disso, variáveis como predisposições genéticas, predileções paternas, influências fraternas, pressão dos colegas, experiências educacionais e impressões da vida, todas estas coisas moldam as preferências pessoais e as inclinações emocionais que, combinadas com numerosas influências sociais e culturais, levam-nos a adotar certas crenças. Raramente qualquer de um de nós senta-se diante de uma tabela de fatos, pesa os prós e os contras e escolhe a crença mais lógica e racional, independentemente do que acreditávamos anteriormente. Em vez disso, os fatos do mundo nos alcançam através dos filtros coloridos das teorias, hipóteses, intuições, vieses e preconceitos que acumulamos ao longo de nossa vida. Então ordenamos a massa de dados e selecionamos aqueles que mais confirmam o que já acreditamos, e ignoramos ou racionalizamos os que nos desmentem. Todos fazemos isto, é claro, mas pessoas inteligentes são melhores nisso.

O filósofo cristão Robert McKim concorda em alguns aspectos. Ele escreveu: “Ao que parece possuímos uma admirável capacidade para encontrar argumentos que respaldam as posições que mantínhamos anteriormente. Nossa razão é, em larga escala, uma escrava de nossos compromissos prévios.” Consequentemente, a noção inteira de um “julgamento racional independente” é suspeita, ele afirma. Não estamos aqui negando que os apologistas cristãos defendem sua fé com razões. É claro que eles o fazem. Estes apologistas, quando bons no que fazem, são pessoas inteligentes. Porém, como Michael Shermer também nos lembra, “pessoas inteligentes, justamente porque são mais inteligentes e mais bem educadas, são capazes de dar razões intelectuais justificando as crenças que vieram a adotar por razões não-inteligentes.

A psiquiatra Dra. Valerie Tarico descreve o processo de defesa de crenças não-inteligentes por pessoas inteligentes. Ela afirma, “não são necessárias muitas hipóteses falsas para que nos engajemos numa demorada caça ao ganso.” Para ilustrar isto ela nos conta sobre o mundo mental de um esquizofrênico paranóico. Para uma pessoa assim a sensação de estar sendo perseguida pela CIA parece real. “Você pode sentar, como um psiquiatra, com um manual de diagnóstico próximo a você, e pensar: por mais bizarro que isso soe, a CIA realmente está na cola deste cara. Os argumentos são coesos, a lógica persuasiva, as evidências esmeradamente catalogadas. Tudo o que é preciso para erguer tal impressivo castelo de ilusões é uma mente clara e bem organizada e um punhado de hipóteses falsas. Indivíduos paranóicos podem ser bastante verossímeis.” Em sua opinião, é isto que os cristãos fazem e o que melhor explica por que é tão difícil abalar a fé evangélica. Eu não espero, é claro, que os cristãos concordem com ela que isto é o que fazem, mas a esta altura eles não podem negar que pessoas de fé religiosa fazem isto. O que explicaria de modo mais satisfatório porque ainda existe uma igreja Mórmon agora que as evidências genéticas demonstram conclusivamente que os nativos americanos não vieram do Oriente Médio?

Eu investiguei minha fé de dentro, enquanto a professava presumindo que fosse verdadeira. Mesmo de uma perspectiva interna com o sistema de crenças de controle cristão, eu não fui capaz de continuar a acreditar. Agora, de fora, ela não faz absolutamente nenhum sentido. Os cristãos estão do lado de dentro. Agora estou do lado de fora. Os cristãos veem as coisas de dentro. Eu vejo as coisas de fora. De dentro, ela parece verdadeira. De fora, ela parece quase bizarra. Como Mark Twain sabiamente disse, “A fácil confiança com que eu sei que a religião de outro homem é uma tolice insensata me ensina a suspeitar que a minha própria também é.

Esta questão da perspectiva interna/externa é quase um dilema e prontifica me a propor e argumentar em favor do OTF, cujo resultado torna a pressuposição do ceticismo a postura preferível quando abordamos qualquer fé religiosa, especialmente a que se professa. O Teste do Infiel é simplesmente um desafio para testar a própria fé religiosa com a presunção do ceticismo, como alguém que dela não partilha. Ela exorta os fiéis: “Teste ou examine suas crenças religiosas como se você não as professasse com a mesma presunção de ceticismo que você utiliza para testar ou examinar outras crenças religiosas.” Seu pressuposto é que quando examinamos qualquer sistema de crenças religiosas o ceticismo é justificado, já que há boas chances de que o sistema de crenças religiosas particular do qual você é adepto seja falso.

O OTF  não é diferente do que fez o príncipe na história da Cinderella, que precisou interrogar quarenta e cinco mil garotas para descobrir qual delas perdeu o sapatinho de cristal no baile da noite anterior. Todas afirmavam ser a dona do sapatinho. Portanto, definitivamente, o ceticismo é justificado. Isto é o caso especialmente quando não se dispõe de um pé correspondente empírico.

O grau de ceticismo justificado depende do número de pessoas racionais que discordam, se as pessoas que discordam encontram-se separadas em regiões geográficas distintas, a natureza dessas crenças, como elas se originaram, como elas foram pessoalmente adotadas em primeiro lugar, e os tipos de evidências que podem possivelmente ser utilizadas para decidir entre elas. Minha afirmação é que quando se trata de crenças religiosas um elevado grau de ceticismo é justificado em virtude destes fatores.

Seguramente alguém objetará inicialmente que isto é completamente draconiano em seu escopo. Por que assumir uma posição tão extrema? Eis a resposta: devido a como pessoas religiosas abordam todas as outras fés religiosas exceto a sua própria. Se alguém afirma não ser capaz de fazer isso porque ninguém pode testar qualquer coisa sem pressupostos de algum tipo, então este teste desafia o crente a substituir provisoriamente seus pressupostos. Se ele não puder realmente fazer isso, então deixe-me sugerir-lhe fazer o que René Descartes fez com uma dúvida metodológica (ou hiperbólica), apesar de eu não estar sugerindo este tipo de dúvida radical. Considere hipoteticamente sua fé da perspectiva de alguém que dela não partilha.

Se o crente se recusar a fazer isto então ele deve justificar a utilização de tal padrão duplo. Por que ele testa outras crenças religiosas de maneira diferente das suas próprias? Para alguém objetar que o que estou pedindo é injusto, ele tem o ônus da prova de mostrar por que razão sua abordagem inconsistente à fé religiosa é justificada em primeiro lugar.

Estou disposto a reconhecer que o que estou pedindo é uma coisa dificílima de se fazer. Isto porque, como o antropólogo Dr. David Eller explica, nossas crenças culturalmente herdadas são os olhos com que vemos o mundo. Não vemos a cultura. Vemos com a cultura. Nossas crenças culturalmente herdadas são quase como nossos próprios olhos. Não podemos facilmente arrancar nossos olhos para olha-los. Mas devemos tentar isto se desejarmos sinceramente examinar aquilo que nos foi ensinado a acreditar. Apenas os honestos, os consistentes e os corajosos alguma vez farão isso.

Para o teísta cristão o desafio do teste do infiel implica não mais poder citar a Bíblia para defender a alegação de que a morte de Jesus na cruz nos salvou dos pecados. O teísta cristão agora deve tentar explicar isso racionalmente. Não mais citar a Bíblia para mostrar como é possível que Jesus seja 100% Deus e 100% homem sem deixar nenhuma ponta solta. O teísta cristão deve agora tentar dar sentido a esta afirmação, como se ela proviesse de um povo antigo e supersticioso que não via problemas em acreditar que Paulo e Barnabé eram “deuses em forma humana” (Atos 14:11, 28:6). O teísta cristão também não deve presumir antes de examinar as evidências que existe uma resposta ao problema do sofrimento horrendo que existe em nosso mundo. E tem que ser inicialmente cético em acreditar em qualquer dos milagres relatados na Bíblia, assim como deveria ser cético acerca de qualquer alegação de ocorrência miraculosa nos mundo de hoje respaldando outras fés religiosas. Por que? Por que ele não pode começar acreditando na Bíblia, nem pode confiar que as pessoas próximas a ele que são teístas cristãos estejam de posse da verdade, nem confiar em suas próprias experiências religiosas anedóticas, já que tais experiências são vivenciadas por pessoas de todas as fés religiosas que diferem sobre o conteúdo cognitivo aprendido como resultado destas experiências. Ele desejaria evidências e razões para estas crenças.

O teste do infiel também desafia os fiéis a examinar as condições sociais e culturais em que vieram a adotar sua fé religiosa particular em primeiro lugar. Isto é, os fiéis devem interrogar a si próprios quem ou o que os influenciou e quais foram as verdadeiras razões para adotar sua fé em seus estágios primitivos. Cristão, apenas pergunte-se se as razões iniciais que você teve para adotar sua fé foram do tipo fortes. Apenas pense sobre os problemas que você vivenciou em suas igrejas  paralelamente aos problemas intelectuais com que você se digladiou em reuniões como essa. Se você pudesse voltar no tempo sabendo o que você sabe agora sobre como os cristãos se comportam na igreja você ainda escolheria acreditar? E aqueles argumentos iniciais que o converteram seriam considerados por você hoje simplórios e indignos de consideração. Apenas pergunte-se se você teria se tornado um mórmon, houvesse um daqueles jubilosos grupos de mórmons amistosamente te abordado naquela mesma época vulnerável de sua vida. A maioria de nós, a maior parte do tempo, não possui boas razões iniciais para aceitar nossa fé religiosa, que da época de sua adoção em diante atua como um um par de viseiras em relação a como vemos as evidências. Simplesmente terminamos acreditando no que nos foi dito para acreditar por pessoas em quem confiávamos numa cultura dominada pelo Cristianismo.

Na pior das hipóteses, um crente deveria estar disposto a submeter sua fé a um rigoroso escrutínio lendo algumas das mais conceituadas críticas à sua fé, muitas das quais foram escritas por outros crentes declarados e praticantes. A fé evangélica, por exemplo, pode ser concebida como uma pequena ramificação de um galho chamado Cristianismo, que por sua vez está ligado a uma árvore frondosa chamada religião. O debate começaria levantando-se a questão de qual Cristianismo representa o verdadeiro Cristianismo em nosso mundo hoje. Em seguida a fé cristã de hoje guarda pouca semelhança com as teologias e a ética dos Cristianismos do passado, e se assemelhará pouco aos futuros Cristianismos porque a fé cristã é como um camaleão, mudando continuamente com o progresso do conhecimento. Mas uma vez que o debate entre cristãos esteja estabelecido, por mais remota que seja essa possibilidade, o próximo debate é entre o Cristianismo e todas as outras religiões do planeta. Eu afirmo que os evangélicos não podem vencer o primeiro debate, muito menos o segundo. O antropólogo cultural david Eller está certo: “Nada é mais destrutivo para a uma religião do que as outras religiões; é como uma colisão com sua parcela gêmea de antimatéria“.

Não obstante, se após ter investigado sua fé religiosa com a presunção do ceticismo ela sobreviver à inspeção intelectual, então você pode manter sua fé religiosa. É simples assim. Se não, abandone-a como eu fiz. Suspeito que se alguém se dispuser a encarar o desafio do Teste do Infiel, então sua fé religiosa revelar-se-á problemática, frágil e vulnerável e ele a abandonará junto com todas as outras fés religiosas, como aconteceu comigo.

(…continua…)

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por Jaco Gericke

Assim como não é possível argumentar a favor da existência de Zeus através de especulações filosóficas sofisticadas, igualmente não se pode faze-lo em relação a Deus, também conhecido como Javé. Todavia, filósofos da religião cristãos que não mais acreditam em Javé conforme retratado no Antigo Testamento ainda são capazes de se apresentarem como crentes em “Deus”, uma versão atualizada da antiga divindade tribal multifacetada. Eles projetam as mais recentes metáforas tecnomórficas sobre a realidade; e lançando mão de um jargão sofisticado e uma abordagem genérica conferem às suas idéias um aspecto intimidador e quase respeitável. Mas o fato é que a filosofia da religião cristã por inteiro, seja ela filosofia analítica fundamentalista ou a mais pós-moderna versão da a/teologia continental, não passa de mitologia reconstrutiva. Tal discurso parece funcionar porque as pessoas se esquecem que Deus costumava ser Javé. Elas podem igualmemente tentar reabilitar qualquer antigo deus tribal, abrigando-o sob o guarda-chuva universal atualmente abraangido pelo conceito de divindade. Assim, qualquer filosofia da religião que presuma que o deus sobre o qual discorre seja em qualquer sentido basicamente a mesma realidade divina sobre a qual se fala no Antigo Testamento encontra-se em sérios apuros.

Em primeiro lugar, as concepções de Javé mantidas pela maioria dos filósofos da religião cristãos tendem a ser radicalmente anacrônicas e correspondem mais ao proverbial “Deus dos Filósofos” (Tomás de Aquino em particular) do que a qualquer versão de Javé representada na antiga religião israelita. Isto significa que nem mesmo os próprios filósofos cristãos acreditam nas concepções “bíblicas” pré-filosóficas de Javé, a crença em quem supõe-se ser apropriadamente básica. Suas noções sublimes de Deus em termos de “Simplicidade Divina”, “Grandeza Máxima”, e “Teologia do Ser Perfeito” são completamente alheias a várias caracterizações de Javé na narrativa bíblica (por exemplo, Gen. 18). Isto quer dizer que debates sobre o poder e o conhecimento de Deus e sua relação com o mal (etc.), sejam lá quais forem seus méritos lógicos, convenientemente ignoram o fato de que existem vários textos bíblicos que os contradizem (e que exibem representações da divindade em que os filósofos cristãos não acreditam).

O problema do mal é um pseudo-problema em vários textos do Antigo Testamento, em que Javé não era nem onipotente nem onibenevolente. Além disso, a capacidade de fazer o mal no sentido de ser destrutivo era de fato uma propriedade enaltecedora no teísmo antigo. Javé é poderoso exatamente porque ele pode fazer o mal quando deseja, seja ele natural, moral ou metafísico (veja Exod. 4:11; Lam. 3:38; Isa. 45:7; Amós 3:6; Ecles. 7:13–14; etc.). Os crentes de antigamente não eram tão mimados como os de hoje que acreditam que um deus tem que ser perfeitamente bom (leia-se “com uma interface amigável para o usuário”) para ser digno de adoração. O que tornava um deus divino era seu grande poder (o que não é o mesmo que onipotência), não sua prestação de serviços focada no cliente, seus valores familiares ou sua consideração pelos direitos humanos.

O segundo problema resulta do primeiro: que tipo de Deus é esse em quem a crença é garantida de acordo com a filosofia da religião cristã? É inútil dizer  que a crença em Deus é justificada a menos que se possa especificar quais são os supostos conteúdos das crenças acerca de Deus (e quem é este deus em quem alguém acredita basicamente). Mas esta filosofia da religião cristã é irremediavelmente solapada por seu fracasso em reconhecer o fato de que está cometendo a falácia do essencialismo. Esta falácia perpassa os problemas filosóficos colocados pelo pluralismo teológico no Antigo Testamento e as mudanças diacrônicas (leia-se: “revisões”) nas crenças acerca de Javé na história da religião israelita. Em diversos pontos de confluência em seus argumentos a filosofia da religião cristã parece beatificamente ignorante de que não existe tal coisa como a perspectiva “bíblica” sobre Deus. De modo que se é no Deus “bíblico” em quem supostamente se deve acreditar, a maioria dos teólogos do Antigo Testamento gostaria de saber “em qual de suas versões?” (ou, “em qual de suas interpretações?”).

Um terceiro problema concerne a uma outra maneira ainda em que a filosofia da religião cristã fracassa em aplicar as formas de verificação próprias do Antigo Testamento. Colocando de lado a possibilidade do pluralismo, que pode erguer sua carranca medonha mais uma vez (por exemplo, nas incomensuráveis teologias religiosas de Daniel e do Eclesiastes), o fato é que é errado assumir que o Antigo Testamento não é evidencialista. Ao contrário, existem razões significativas para acreditar que um tipo primitivo de evidencialismo seria de fato a epistemologia padrão presumida na antiga religião israelita dada a natureza de várias hipóteses pre-filosóficas nas narrativas bíblicas. De modo que pode-se dizer que toda a questão dos “milagres” (sinais) e revelações através de teofanias, audição de vozes, sonhos, adivinhações e histórias pressupõe um evidencialismo (veja a reiterada fórmula “de modo que eles possam saber…”). Os filósofos da religião irão negar que seja possível constatar a existência de Deus neste sentido empírico, e não obstante, de acordo com o Antigo Testamento, o próprio Javé admitiu esta possibilidade.

Afinal, de todas as epistemologias religiosas concebíveis, é difícil imaginar que o profeta Elias, na narrativa em que enfrenta os profetas de Baal no Monte Carmelo, estivesse endossando qualquer coisa remotamente similar às alegações da filosofia da religião cristã de que não é necessário provar nada empiricamente (veja 1 Reis 18). Se isso não é um exemplo de evidencialismo no Antigo Testamento, então o que seria? Os cristãos podem ter suas próprias razões para explicar porque estas coisas não mais acontecem e pelas quais nenhum filósofo da religião consentirá em participar de uma competição no Monte Carmelo. Mas o fato é que os filósofos da religião cristãos, sejam eles fundamentalistas e analíticos ou pós-modernos e continentais, todos adoram a racionalização dogmática mais do que a epistemologia bíblica. Mais uma vez, isto mostra que nem mesmo os filósofos da religião cristãos acreditam realmente em Javé. Eles também são ateus em relação à divindade bíblica.

A partir disso vemos por que a crença em Javé é para ambos ateus e cristãos tão impossível quando a crença em Zeus. Pode-se muito bem sugerir “apenas acredite na Bíblia!” ou em qualquer outro deus antigo. Mas poucos filósofos cristãos alguma vez se perguntaram por que é o caso que o principal desejo de um deus é que suas criaturas concordem que ele exista, dentre todas as coisas com as quais alguém poderia, em tese, se preocupar – e ainda assim fazer tão pouco para torna-la possível. Que um deus precise se ocultar e que a fé seja necessária para tornar um relacionamento possível é simplesmente uma ridícula noção não-bíblica. Moisés alegadamente tanto viu como acreditou em Javé, e eles mantiveram um relacionamento exemplar (para os padrões bíblicos). Assim, qual é o problema com a intimidade cara a cara numa base diária com cada ser humano, numa época em que o ateísmo é mais popular do que nunca? Como Voltaire disse antes de Nietzsche, a única desculpa aceitável para Deus é não existir.

Em outras palavras, foi a consciência histórica que levou os crentes a reinterpretar as crenças bíblicas para conferir-lhes um aspecto respeitável e que leva os ateus contemporâneos a ver por que ninguém pode acreditar em Javé mais do que eles acreditam em Zeus. Simplesmente não podemos imaginar que a realidade seja uma estrutura planejada em que uma entidade demasiado humana, embora superior, detém todo o poder, em que “a força diz o que é certo” – Deus pode fazer o que ele deseja porque ele é Deus, exatamente a mesma imoralidade que os religiosos imputam aos ateus – em que o sentido de sua existência é criar seres débeis, frágeis e mortais para servi-lo e dizer-lhe o quão maravilhoso ele é por toda a eternidade. A devoção religiosa é,  pura e simplesmente, a subserviência bajulatória ao poder. De qualquer maneira, não é o caso que sejamos rebeldes e não queiramos a priori acreditar em um deus; ocorre simplesmente que o conceito inteiro da realidade divina conforme construído pelos humanos no sentido bíblico é tão absurdo e tão obviamente uma projeção de humanos sinceramente iludidos que concebiam o funcionamento do cosmos análogo ao de uma sociedade humana antiga, que não seríamos capazes de realmente acreditar nem mesmo se tentássemos!

Esta é a razão pela qual a teologia e a filosofia da religião e os argumentos para a existência de Deus tornaram-se necessários – para ocultar o absurdo e conferir-lhe uma aparência convicente. Mas desde quando a realidade precisa convencer qualquer um? Se o mundo fosse realmente daquela maneira, seria tão desnecessário argumentar por sua facticidade quanto o é argumentar pela existência do mundo biológico. O apelo ao mau funcionamento epistemológico nos descrentes é tão pouco convincente quanto dizer que a razão pela qual achamos difícil acreditar em Zeus é nossa falta de intuição espiritual.

Após dois mil anos o sistema cristão cobriu quase tudo, e alguns crentes acreditam piamente que a apologética oferece respostas para tudo. Para perceber como o truque foi feito – para ver o revestimento metálico do espelho e as cordas das marionetes – basta permitir que a filosofia da religião cristã seja julgada pela história da religião israelita. O melhor argumento contra qualquer dogma cristão contemporâneo é sua própria história remontando à e se originando da própria Bíblia. As reinterpretações dos próprios cristãos nos mostram que mesmo o “crente” mais fundamentalista é realmente um ateu quando se trata de Javé, e o mais “bíblico” dos crentes não é tão bíblico quanto pensa. No fim a teologia cristã foi posta abaixo pela ética cristã; a crença foi destruída por sua própria moralidade, que exige a busca da verdade.

Angustiado estará o crente quando no fim vier a perceber que precisa escolher entre Deus e a verdade. É o tipo de experiência de “choque com a realidade” associada a filmes como Matrix ou O Show de Truman. Mas você precisa ver com seus próprios olhos para perceber como isso foi a sinuca perfeita, a dupla lealdade definitiva para qualquer pessoa crescendo numa cultura religiosa contemporânea. Infelizmente, como os próprios célebres personagens bíblicos, os crentes de hoje em dia não desperdiçam seu tempo estudando seriamente a Bíblia. Os livros mais populares sobre o Antigo Testamento são tira-gostos espirituais, guloseimas para o cérebro, se você desejar. E quando confrontados com a questão de por que os ateus se importam com a Bíblia se eles não acreditam nela, bem, talvez seja pela mesma razão que os cristãos se preocupam com os pagãos: porque as pessoas se preocupam com que outras pessoas acreditam ser a verdade e sobre o fato de que existem tantas pessoas bem-intencionadas inconscientemente propensas a iludirem tanto a si próprias como ao resto da humanidade.

Conclusão

Em certo sentido, a entidade chamada “Deus” é como um troll da Internet criado num fórum aberto ao público – uma vez que você se torna ciente do agente por trás do personagem, tal conhecimento muda tudo sobre se podemos ou não fazer com que acreditemos que “ele” existe. Não há realmente nada para refutar, e não precisamos mostrar que algum deus, seja lá qual for sua descrição, não existe. Tudo o que precisamos fazer é mostrar que as descrições de Javé não possuem nenhuma contraparte fora das fábulas bíblicas. Pois se Javé conforme retratado não é real, como poderia “Javé” em si não obstante existir? Se o deus do Antigo Testamento – que é o Deus de Jesus – não existe, como poderia o Deus do Novo Testamento ainda assim existir? E se o Deus do Novo Testamento não é real, não é este o fim das pretensões do Cristianismo à realidade?

Portanto, não é necessário nos sentirmos intimidados pelos filósofos da religião cristãos que precisam recalcar o fato de que seus sofisticados argumentos sobre um Deus supostamente respeitável ignoram a história da religião israelita. A própria biografia do deus é-lhes um constrangimento colossal. Eles próprios não mais acreditam em Javé, e hoje em dia “Deus” não passa de um ídolo idealizado, criado à imagem e semelhança das mais recentes metáforas tecnológicas projetadas sobre o cosmos. Como Javé nunca foi um deus vivo, “Deus” está, de fato, morto.

No fim, então, parece que a história da religião israelita possui um senso de ironia. O mesmo povo antigo e moderno que tão impiedosamente ridicularizou os pagãos por seus mitos e superstições fracassou em reconhecer em si próprio as mesmas predisposições supersticiosas. Os mesmos crentes que deploram os produtos da imaginação humana não são capazes de enxergar que um deus criado como um personagem numa história escrita não é menos um ídolo do que os silenciosos deuses esculpidos em pedra ou madeira.

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por Jaco Gericke, PhD

A maioria dos religiosos pode conceber “Deus” como um ser incorpóreo e espiritual. Mas se isto realmente é o caso, eles não acreditam em Javé conforme retratado em diversos textos bíblicos. De fato muitos não acreditam e não apreciam a verdade expressa na piada popular sugerindo que, no princípio, Deus criou o homem à sua própria imagem e esse homem, em resposta, prontamente retribuiu o favor. A este respeito, os teólogos, tantos os bíblicos como os sistemáticos, tem debatido interminavelmente as possibilidades semânticas de passagens como Genesis 1:26-27 que falam do homem sendo criado “à imagem de Deus”. Eles tem insistido que não é possível que o sentido óbvio e literal destas palavras – que acreditava-se que Deus possuía a aparência de ser humano do sexo masculino porque pensava-se que Deus criara os humanos semelhantes a si próprio (veja Gen. 5:1-3; 9:6) – corresponda à intenção do autor. Malgrado toda a apologética sofisticada, isto é o que Genesis 1 parece estar dizendo, e eu gostaria de considera-lo seriamente.[6]

A maioria das referências a Javé não são simbólicas. Não pode ser negado que existe uma série de referências textuais ao corpo (e aos membros) de Javé que, no contexto das narrativas bíblicas, parecem ter funcionado como descrições não-metafóricas da suposta aparência da divindade. Assim, no livro do Êxodo, encontramos referências literais ao rosto de Javé (Êx. 33:20); às suas costas (Êx. 33:23). às suas mãos e dedos (Êx. 31:18); seus pés (Êx. 24:10-11); e assim por diante. Existem outros textos sugerindo que Javé possuía literalmente um nariz com o qual cheirava os agradáveis aromas dos sacríficios em sua honra (Gen. 8:21; Lev. 1:9, 13, 17; 26:31). Portanto, deve-se reconhecer a presença de algum literalismo nos textos do Antigo Testamento: é necessário que todos levemos a Bíblia a sério. Quando os acadêmicos cristãos tentam minimizar o problema com o conceito de antropomorfismo (isto é, falam como se Javé apenas se manifestasse visualmente em forma humana, mas “em si” não se assemelhasse nada a um humano) é porque eles também reconhecem a absurdidade de tal crença.

Uma justificativa para considerar seriamente a linguagem religiosa do Antigo Testamento pode ser encontrada no reconhecimento de que sobejam elementos não-metafóricos naquelas retratações de Javé que fazem sentido somente se se assume que as limitações de uma condição corpórea exercem sobre ele um efeito restritivo. Assim, ele é flagrado precisando descansar a fim de recobrar suas energias (Gen. 2:1; Ex. 31:17); tendo que viajar para obter informações e averiguar relatos (Gen. 3:8-11; 11:5-7; 18:17); precisando testar as pessoas para discernir suas crenças, intenções e motivos (Gen. 22; Deut. 8:2; Cron. 32:31; etc.); sendo obrigado a agir baseado num medo do potencial humano (Gen. 3:22; 11:5-7); sendo impotente ao ponto de seu povo ser incapaz de derrotar os inimigos porque estes utilizavam carruagens de ferro na batalha (Juízes 1:21) e solicitando assistência em alguns assuntos (Juízes 5:23; 1 Reis 22:20-23; Is. 63:3-5); etc.[7]

Tendo um corpo masculino, acreditava-se que Javé possuía membros masculinos. Isto também engloba órgãos sexuais masculinos (isto é, “loins”, Ezeq. 1:27-28). Textos como Gen. 6:4, em que os deuses mantém intercurso sexual com fêmeas humanas presumem a mesma coisa, assim como a discreta visitação divina à virgem adolescente Maria no Novo Testamento. Evidências oriundas de pesquisas históricas e arqueológicas largamente aceitas sugerem fortemente que uma deusa era adorada no antigo Israel como a consorte de Javé (Asherah).[8] Mas os grupos responsáveis pelo texto final do Antigo Testamento asseguraram-se de eliminar a maior parte dos vestígios dessa crença, resultando num cenário bastante sexista em que o Céu é um mundo habitado somente por indivíduos masculinos. O mais próximo que se chega sobre como Javé se relacionaria com uma deusa é quando Javé chama Israel ou algumas cidades na terra de sua esposa/noiva (como em Ezequiel e Oséias). Observando como ele trata sua esposa, entretanto, descobrimos uma mente demasiado humana propensa ao abuso emocional e à violência doméstica, não obstante quaisquer outros traços de caráter positivos e afetuosos que sejam incluídos na representação de Javé como um marido.[9]

Mas o texto revela ainda outros absurdos concernentes a algo que pode soar como pedantismo, mas é injustificadamente negligenciado em discussões sobre o corpo de Javé; trata-se de Deus como falante de uma língua. Curiosamente aconteceu de Deus ter um nome hebraico, Javé, um fato que intriga pouquíssimos crentes que ainda oram em seu nome sem ficarem perplexos com a importância a isto atribuída, ou com a razão pela qual ele precisaria de um nome (poderia-se apenas chama-lo de “Deus”). Além disso, de acordo com o texto, precisamos levar a sério a hipótese de que na criação dos céus e da terra (por que um deus desejaria criar coisas?), mesmo antes que as línguas semíticas do noroeste evoluíssem (das quais o hebraico é um exemplo), Javé conjurou o mundo à existência através de um dialeto específico do hebraico clássico que evoluiu entre humanos, sobreviveu apenas por um curto período de tempo e numa pequena região, e então desapareceu de todos os lugares exceto o Céu. Mas pense sobre isso: o momento do episódio da criação em que Deus fala pela primeira vez não faz sentido algum. Quando Deus diz “Que haja luz!” em hebraico clássico, não há ninguém para quem o que Deus profere sejam palavras dotadas de significado em vez de apenas um grito não-verbal. Não há nenhuma comunidade de falantes para a qual o que Deus grita equivale a um imperativo, a uma ordem que exige que algo aconteça. Então como Deus sabe o que dizer, e como ele pode estar certo de que o que ele profere são palavras dotadas de sentido e com um poder específico? A existência de convenções sociais estabelecidas na criação é impossível; o que há é apenas nossa própria projeção a fim de descrever como um certo tipo de ação um vislumbre limitado  do comportamento divino, distinguindo-o de espasmos e convulsões desprovidas de significado. A idéia de um usuário de uma língua eternamente consciente de si mesmo como um falante do hebraico clássico não faz absolutamente o menor sentido.[10]

Poucos leitores ao longo das eras captaram este problema, e aqueles que o fizeram rapidamente recorreram a uma reinterpretação filosófico-teológica. Diversas autoridades judaicas medievais sustentaram que o hebraico foi a língua de Deus sem jamais se incomodarem em perguntar por que Deus falaria um dialeto particular do hebraico clássico, historica, cultural e temporalmente específico. Parte desta dilema para a logística da criação pela palavra foi reconhecido em 1851 quando o filologista alemão Jacob Grimm argumentou que se Deus fala uma língua, na verdade qualquer língua que envolva consoantes dentais, Deus deve ter dentes, e uma vez que dentes foram criados não para falar mas para comer, disso se seguiria que ele também come, o que levaria a tantas outras hipóteses inadmissíveis para aqueles teologicamente comprometidos que a idéia foi completamente abandonada.[11]

Não há dúvidas de que esta preocupação seja anacrônica na medida em que Genêsis 1 assume que os seres humanos é que são teomórficos em vez de Deus ser antropomórfico. A última hipótese é certamente ingênua de uma perspectiva evolutiva, e atualmente os estudiosos da Bíblia da corrente predominante não mais leem Gênesis 1 como um documento histórico ou científico, de modo que a questão da credibilidade não é levantada. O que é louvável; mas embora tais preocupações sejam pseudoproblemas devido a erros categoriais na análise do gênero, o problema com não tentar relacionar a linguagem à realidade é que fica-se completamente perdido quando se tenta lidar com a absurda filosofia da linguagem popular  que opera através do mito.

Para diversos filósofos e comentadores da Bíblia, Deus não possui qualquer forma e somente aparece em forma humana. Belo pensamento, mas infelizmente não é isso o que a Bíblia ensina nos textos em que se pressupõe que a forma humanóide de Javé é sua verdadeira forma (por exemplo, Ex. 33:20-23), a forma que presume-se que ele assuma mesmo no Céu. A reinterpretação filosófica cristã disto não passa de uma estratégia de evasão por pessoas que não são capazes de admitir para si próprias que elas, igualmente, não mais acham possível acreditar em “Deus” (também conhecido como Javé), mais do que acreditam em Zeus. Os filósofos gregos fizeram a mesma coisa com os deuses gregos quando começaram a achar suas representações muito rudes. Até onde se pode extrapolar a partir da experiência prévia, os crentes continuarão a proceder assim a perder de vista.

(…continua…)

Notas.

6. Para uma discussão mais abraangente do fundo histórico e semântico por trás destes recentes balbucios gaguejantes sobre as descrições físicas de Deus no Antigo Testamento, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 407–12.

7. Para uma exposição divertida, veja Alexander Waugh, God (London: Headline Books, 2002). Para um levantamento mais detalhado e uma discussão de exemplos de Deus sendo concebido trabalhando com os membros e as limitações de um corpo humano, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 416–18 (projeção antropomórfica).

8. Sobre isto veja, William G. Dever, Did God Have a Wife? Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel (Grand Rapids, MI: William Eerdmans Publishing, 2005).

9. Veja Michael Coogan, God and Sex: What the Bible Really Says (New York: Twelve, 2010), 163–88. [Nota do Editor: no último capítulo deste livro Coogan descreve a vida sexual de Javé, que assim como os outros deuses e deusas daquele período, também tinha uma. Javé provavelmente teve uma consorte cujo nome era Asherah (a “rainha do Céu”, uma contraparte de Javé como “o rei do Céu”). Ela foi cultuada como parte da religião popular daqueles dias, bem como por reis e oficiais. Num fragmento de cerâmica encontrado por arqueólogos, Javé está representado com um grande falo ereto abraçando Asherah! Os “filhos de deus” em Gênesis 6:1-4 eram sua prole. Estes “filhos de deus” tornaram-se problemáticos para os monoteístas posteriores, de modo que eles os reinterpretaram como “Vigilantes” e mais tarde como anjos. Faz sentido. Certo? O que mais você poderia fazer com seres obviamente míticos como estes, e com uma família divina, após rejeitar seu antigo politeísmo e se tornar monoteísta?

A coisa realmente fascinante foi como Javé tratou suas esposas infiéis. Sim, ele era um polígamo. Na mente do profeta isto era uma alegoria, é claro, mas a alegoria deveria ter um significado para as pessoas a quem foi dirigida, caso contrário não faria sentido para elas. Os profetas Oséias, Jeremias e Ezequiel contam-nos sobre suas infidelidades para com seu marido Javé, e o que ele fez como castigo pela traição. Ezequiel 16 e 23 contém “algumas das passagens mais chocantes e sexualmente explícitas da Bíblia”, Coogan nos diz (183). Nesta alegoria, as espoas infiéis da Samaria e Jerusálem são brutalmente punidas por seu divino marido Javé. A certa altura ele as despe diante da multidão. Então vem o alerta do próprio Javé, dizendo que assim procedeu “para que sirva de exemplo à todas as mulheres, e não façam conforme a vossa perversidade” (Ezeq. 23:48).

10. Don Cupitt, Philosophy’s Own Religion (London: SCM Press, 2001), 65.

11. F. Staal, “Noam Chomsky between the Human and Natural Sciences,” Janus Head: Journal of Interdisciplinary Studies in Literature, Continental Philosophy, Phenomenological Psychology, and the Arts (Special Supplemental Issue, Winter 2001): 21, 25–66.

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