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Posts Tagged ‘Materialismo’

Autor: André Comte-Sponville

Fonte: O Espírito do Ateísmo, págs 113-116

(…)

Meu quinto argumento para justificar meu ateísmo concerne menos ao mundo do que aos humanos: quanto mais os conheço, menos posso crer em Deus. Digamos que não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral, e de mim mesmo em particular, para imaginar que um Deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo. É mediocridade demais por toda parte. Pequenez demais. Nulidade [dénéantise] demais, como dizia Montaigne. Vanidade demais, como ele também diz (“De todas as vanidades, a mais vã é o homem”). Que belo resultado para um ser onipotente! Você me dirá que Deus talvez tenha feito coisa melhor em outros domínios… Admitamos. Mas será essa uma razão para se contentar com tão pouco neste? O que você diria de um artista que, a pretexto de ter feito algumas obras primas, pretendesse lhe vender os seus refugos? Pode ser que isso não seja raro em nossos artistas, mas não é aceitável num Ser supostamente onipotente e infinitamente bom… Enfim, a idéia de que Deus tenha podido consentir em criar tamanha mediocridade – o ser humano – me parece, mais uma vez, de uma plausibilidade baixíssima.

“Deus criou o homem à sua imagem”, lemos no Gênesis. Isso nos faz duvidar do original. Parece-me muito mais concebível, muito mais sugestivo, muito mais verossímil que o homem descenda do macaco. Darwin, mestre de misericórdia.

Devemos por isso dar razão aos misantropos? De jeito nenhum! O homem não é entranhadamente mau. Ele é entranhadamente medíocre, mas não tem culpa disso. Ele faz o que pode com o que tem ou o que é, e ele não é grande coisa, e não pode muito. É o que nos deve tornar indulgentes em relação a ele, às vezes até mesmo admirativos. O materialismo, dizia La Mettrie, é o antídoto da misantropia: é porque os homens são animais que não vale a pena odia-los, nem tampouco despreza-los. Como cópias de Deus, seríamos ridículos ou inquietantes. Como animais produzidos pela natureza, não somos de todo desprovidos de qualidades e méritos. Partimos de tão baixo! Quem poderia adivinhar, cem mil anos atrás, que aquelas espécies de grandes símios iriam à Lua, gerariam Michelângelo e Mozart, Shakespeare e Einstein, que inventariam os direitos humanos e até os direitos dos animais? Nós lutamos, por exemplo, para proteger as baleias e os elefantes. Temos razão. Mas imaginem que a humanidade se torne, isso talvez venha a acontecer, uma espécie em extinção: baleias ou elefantes não levantariam a nadadeira ou a tromba para nos preservar. A ecologia é própria do homem (sim, apesar da poluição, ou antes, por causa dela), e os direitos dos animais, inclusive, só existem para os humanos. Isso diz muito sobre nossa espécie.

Religião do homem? Claro que não. Que péssimo deus ele daria! O humanismo não é uma religião, é uma moral (a qual inclui também nossos deveres para com as outras espécies animais). O homem não é nosso Deus; ele é nosso próximo. A humanidade não é nossa Igreja, mas nossa exigência. Trata-se, repitamos com Montaigne, de “fazer bem o homem””, e nunca se para de fazê-lo! Humanismo sem ilusões, e de salvaguarda. Devemos perdoar os homens – e nós mesmos – por serem apenas o que são. Nem anjos, nem bestas, como diz Montaigne antes de Pascal, nem escravos nem super-homens: “Eles querem se pôr fora de si e escapar do homem. É loucura: em vez de se transformar em anjos, eles se transformam em bestas; em vez de se elevar, eles se rebaixam. Esses humores transcendentes me assustam, tal como os lugares altos e inacessíveis.” A lucidez basta, e é melhor.

Finitude do homem: exceção do homem. O mesmo homo sapiens, que não seria mais do que uma imitação grotesca de Deus, é o mais extraordinário, de longe, de todos os animais: ele tem um cérebro espantosamente complexo e eficiente; é capaz de amor, de revolta de criação; inventou as ciências e as artes, a moral e o direito, a religião e a irreligião, a filosofia e o humor, a gastronomia e o erotismo… Não é pouco! O que ele fez de melhor, nenhum animal teria feito. O que ele fez de pior, também não. Isso diz bastante sobre sua singularidade. Daí a imagina-lo criado por um Deus… Como? Toda essa mesquinharia, todo esse narcisismo, todo esse egoísmo, todas essas pequenas rivalidades, esses pequenos ódios, esses pequenos rancores, essas pequenas invejas, esses pequenos divertimentos, essas pequenas satisfações de conforto ou de amor-próprio, essas pequenas covardias, essas pequenas ou grandes ignomínias – seria necessário um Deus para explicar isso? Coitado! Como ele deve se chatear, se existir, se é que não se envergonha! Veja nossos principais canais de televisão, basta ver somente um dia, e – diante de tanta bsteira, violência vulgaridade – pergunte-se simplesmente: como é que um Ser onipotente e onisciente poderia querer isto? Você vai me dizer que não é Deus que faz os programas. Sem dúvida. Mas ele é que teria criado a humanidade, a qual dá ibope aos programas… Como, diante de tamanha mediocridade das criaturas, ainda crer na infinita perfeição de um Criador?

Estou carregando nas tintas? Não muito, parece-me. Estou simplificando, tenho de faze-lo, estou abreviando, digamos que, para ir mais depressa, examino apenas um lado da questão. Sei que também existem (e, às vezes, está na televisão) obras-primas, gênios, heróis; enfim, dentre alguns verdadeiros canalhas, uma larga maioria de gente de bem. Mas esses dois lados da humanidade, sombra e luz, grandeza e miséria, em se tratando de nosso debate, não tem a mesma pertinência, nem a mesma força. A miséria do homem, como diz Pascal, me parece muito mais incompatível com sua origem divina do que sua grandeza com sua origem natural! O fato de sermos capazes de amor e de coragem, de inteligência e de compaixão, isso a seleção natural pode bastar para explicar: são vantagens seletivas, que tornam a transmissão de nossos genes mais provável. Mas que sejamos a tal ponto capazes de ódio, de violência e de mesquinharia, isso (que o darwinismo explica sem dificuldade) me parece exceder os recursos de qualquer teologia. É inútil explicar que não sou exceção. Quando mais eu me conheço, menos posso crer em nossa origem divina. E, quanto mais conheço os outros, menos a coisa se arranja… Crer em Deus, escrevi em algum lugar, é pecado de orgulho. Seria atribuir a nós mesmos uma causa muito grande para um efeito tão pequeno. O ateísmo, ao contrário, é uma forma de humildade. Somos filhos da terra (humus, de onde vem “humildade”), e dá para sentir essa filiação… Mais vale assumi-la e inventar o céu que corresponda a ela.

(…)

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por Keith Augustine

Onde o exame prévio dos critérios para o sobrenatural nos deixou? Vimos que há boas razões para rejeitar a mera identificação do natural com o físico, com o espaçotemporal, ou com o que é acessível em princípio à investigação científica. Teoricamente, o natural pode ser identificado com o físico ou o superveniente ao físico e com o que se comporta em conformidade com as leis da natureza. Estes dois critérios podem ser combinados como condições teóricas conjuntamente necessárias e suficientes para o natural. Qualquer coisa adequadamente rotulada como natural deveria satisfazer ambas as condições. Ser estritamente físico, espaçotemporal ou acessível em princípio à investigação científica seriam condições suficientes (mas não necessárias) para um objeto ser natural. Em outras palavras, qualquer coisa que seja física, espaçotemporal ou cientificamente explicável seria claramente natural, mas estas não são exigências que algo deve obrigatoriamente satisfazer a fim de ser considerado natural. Todavia, de modo recíproco, ser não-físico, não-espaciotemporal e cientificamente inexplicável seriam condições necessárias mas não suficientes para o não-natural — qualquer coisa que seja física, espaçotemporal ou cientificamente explicável não pode ser não-natural.

Combinando estes critérios com uma negação de nossos critérios remanescentes para o natural, somos deixados com as seguintes condições teóricas conjuntamente necessárias e suficientes para o não-natural: (1) é não-físico e não-superveniente ao físico; (2) é não-espaciotemporal; (3) é cientificamente inexplicável em princípio; e (4) fracassa em se comportar em conformidade com as leis da natureza. Objetos abstratos, como casos paradigmáticos de objetos não-naturais, satisfazem todas estas condições. Como o sobrenatural é uma subclasse mais específica do não-natural restrita a causas não-naturais de eventos dentro da natureza, um evento sobrenatural teria que ser um evento dentro do mundo natural cuja causa satisfaça todas as quatro condições apresentadas acima. Em teoria, causas de eventos no mundo natural que satisfazem estes critérios são causas sobrenaturais. Mas, como vimos, é impossível aplicar qualquer destes critérios teóricos na prática em virtude de nossos recursos epistemológicos limitados para responder questões metafísicas. Simplesmente não sabemos que tipos de objetos, propriedades ou fenômenos contam como não-físicos, que classes resistem em princípio à investigação científica, ou que realmente se comportam em concordância com genuínas leis da natureza. Isto significa que deveríamos abandonar a distinção entre o natural e o sobrenatural?

Considerando-se que podemos formular condições teóricas auto-consistentes conjuntamente necessárias e suficientes, a distinção entre o natural e o sobrenatural pode ser coerentemente enunciada em teoria. Entretanto, isto não quer dizer que a distinção possua qualquer validade na prática. Rotular uma ocorrência como um evento sobrenatural implica que “as forças e leis da natureza não são capazes de acarretar esse evento” (Hepburn 1972, p. 454). Contudo, a objeção continua, não estamos na posição epistemológica para fazer tal determinação. Como Ronald Hepburn assinala,

É qualquer coisa menos fácil… elaborar coerentemente a distinção entre o natural e o sobrenatural. Crucial a ela é a afirmação de que podemos distinguir o que jaz no âmbito das potencialidades da natureza do que está situado além delas. Nosso conhecimento das leis e forças da natureza é em si derivado de nossa experiência e observação dos eventos. O que julgamos ser possível depende daquilo para o que dispomos de razões para acreditar que realmente ocorre ou já ocorreu… O que devemos fazer com as ocorrências que, eventualmente, desejarmos rotular como miraculosas? Excluí-las implicaria que já sabemos quais são as potencialidades da natureza, que existem critérios independentes da experiência pelos quais interpretamos nossas observações. Mas inclui-los torna impossível para nós trata-los depois como exceções miraculosas às leis da natureza (Hepburn 1972, p.454).

Hepburn ressalta um dilema decisivo: ou preservamos a distinção entre o natural e o sobrenatural na prática, colocando-nos da difícil posição de tentar determinar a priori quais tipos de fenômenos são fisicamente impossíveis — algo que não somos capazes de asseverar com plena confiança — ou abandonamos completamente a distinção prática tornando, deste modo, ‘evento naturalmente causado’, para todos os propósitos práticos, equivalente a ‘qualquer evento que ocorre no mundo natural’. Considerando-se estas duas alternativas forçadas, deveríamos optar por preservar na prática a distinção simplesmente porque o preço de abandona-la é demasiado alto.

O naturalismo se tornaria trivialmente verdadeiro se abandonássemos a distinção prática entre o natural e o sobrenatural. O argumento para o naturalismo trivial seria que é impossível obter na prática a distinção entre o natural e o sobrenatural e por conseguinte jamais estaríamos justificados em postular causas sobrenaturais posto que nunca seríamos capazes de dizer que a causa de um evento é não-natural. Disto resultaria que o naturalismo sempre prevaleceria automaticamente por razões epistemológicas, ainda que não necessariamente por razões metafísicas. O naturalismo se torna trivialmente verdadeiro porque não importa com qual fenômeno nos deparemos, não seremos capazes de dizer que não é um fenômeno naturalmente causado. Se abandonarmos a distinção prática entre o natural e o sobrenatural, até onde podemos dizer, qualquer evento logicamente possível poderia ser um evento naturalmente causado. Consequentemente, o naturalismo se tornaria trivialmente verdadeiro na prática mas pouco informativo e o sobrenaturalismo nunca seria uma opção de crença uma vez que todas as causas de eventos no mundo natural podem ser causas naturais.

O ponto levantado por Hepburn — que absolutamente não conhecemos a totalidade do que está situado no âmbito das forças e leis da natureza — é corroborado por todos impasses que atingimos ao tentar determinar como aplicar na prática nossos critérios teóricos para o natural e o sobrenatural. Não obstante possuirmos uma excelente noção teórica do significado do termo ‘natural’, é difícil dizer na prática o que consideramos como exemplo de um evento com uma causa natural ou sobrenatural. Herbert Spiegelberg afirma que como o sobrenatural (como uma espécie do não-natural) é definido em termos puramente negativos, ele possui pouco — ou nenhum — conteúdo positivo. Se por um evento sobrenatural queremos dizer não somente um evento extraordinário mas um evento que está além das potencialidades da natureza, exigindo uma suspensão ou uma violação das leis da natureza, Spiegelberg assinala:

Agora, não é necessário muito para ver que mesmo este conceito de um evento sobrenatural é predominantemente negativo. Ele nega implicitamente que as coisas geralmente ocorrem desta maneira e que nós, com nosso conhecimento da natureza, sempre podemos esperar compreende-las. Mas não aprendemos nada de positivo sobre a natureza de um evento miraculoso… Somos confrontados com uma compreensão meramente negativa do sobrenatural (Spiegelberg 1951, p.348).

Mas o que um entendimento negativo de um conceito implica? Spiegelberg observa que conceitos negativos referem-se à ausência de características específicas. Por exemplo, o termo ‘não-branco‘ refere-se a todas as coisas coloridas exceto àquelas que são brancas. Conquanto ‘não-branco’ seja um conceito negativo, ele refere-se indiretamente ao complemento denotativo positivo do termo branco — objetos coloridos. Como ‘branco’ é uma espécie imediata do gênero das coisas coloridas, não-branco também é uma espécie das coisas coloridas. O problema que Spiegelberg vê com o conceito do sobrenatural é que não há nenhum gênero imediato ao qual tanto o natural quanto o não-natural se refiram:

Num exemplo como ‘não-branco’… após subtrair o branco, todas as outras cores conhecidas permanecem como o que pode ser denominado complemento denotativo. Mas o que exatamente é o complemento denotativo no caso do não-natural, uma vez que subtraímos o conjunto inteiro dos objetos e eventos naturais? Nesta conjuntura é que o coração da dificuldade aparece: não podemos apontar um complemento denotativo para o nome ‘natural’ (Spiegelberg 1951, p. 354).

Spiegelberg afirma que como não sabemos literalmente nada sobre o não-natural não somos capazes de encontrar quaisquer atributos positivos compartilhados por ambos o natural e o não-natural (Spiegelberg 1951, p. 354). Embora negue que os termos sobrenaturais sejam completamente desprovidos de significado, Spiegelberg conclui que “eles não possuem mais significado do que uma expressão como ‘a 1ooª dimensão’ ou ‘lógica de 100º grau'” (Spiegelberg 1951, p.355).

Apesar desta conclusão, Spiegelberg reconhece que os termos sobrenaturais podem possuir o que ele denomina significado diagnóstico. O significado diagnóstico refere-se aos critérios de identificação “para reconhecer casos do sobrenatural quando os vemos e para decidir se um candidato específico ao título de sobrenatural possui qualquer direito a ele” (Spiegelberg 1951, p. 355). Entretanto, Spiegelberg duvida que o conceito completamente negativo do sobrenatural seja significativo o suficiente para prover meios para a identificação confiável do sobrenatural:

Na medida em que somos incapazes de assinalar um complemento positivo sequer para todas as propriedades naturais excluídas pelo sobrenaturalista nós jamais teríamos uma oportunidade de dizer com segurança: ‘Este evento deve ser uma ocorrência sobrenatural… uma intercessão, originária de um mundo exterior à natureza, dentro da natureza’ (Spiegelberg 1951, p. 356).

Concordo que uma vez subtraído o natural, não há nenhuma categoria ontológica caracterizada positivamente à qual o não-natural ou o sobrenatural pertençam. Isto torna impossível confirmar positivamente que um evento possui uma causa sobrenatural da maneira que podemos confirmar que uma pane no motor causou a queda de um avião. Entretanto, isto não priva completamente o sobrenatural de significado diagnóstico. Tudo o que é preciso para o significado diagnóstico do sobrenatural é algum critério razoável para ao que um evento sobrenatural se assemelharia. Não precisamos dizer que algo satisfazendo estes critérios deve ser sobrenatural, precisamos dizer apenas que um evento sobrenatural deve satisfazer esses critérios. Isto, obviamente, deixa em aberto a possibilidade de que algo completamente natural também venha a satisfazer esses critérios. Mas, como veremos, esta concessão não é necessariamente fatal para a obtenção de uma distinção prática entre o natural e o sobrenatural. Isso nos permite distinguir uma classe de eventos claramente causados de modo natural de uma classe de eventos possivelmente sobrenaturais. Embora isto não forneça uma classificação definitiva para o sobrenatural, diminui significativamente nossos possíveis candidatos a um evento sobrenatural.

Spiegelberg oferece duas razões para negar que podemos garantir evidências indiretas para o sobrenatural da maneira que podemos garantir evidências indiretas para os elétrons. Primeiro, podemos conjeturar predições testáveis somente a partir de conceitos positivos bem-definidos (Spiegelberg 1951, p. 356). Segundo, é impossível confirmar conclusivamente que qualquer evento possui uma causa sobrenatural: “Os indícios naturais previstos como indicações do sobrenatural sempre são de tal modo indefinidos que, de qualquer forma, nunca podem constituir uma prova conclusiva. Nenhuma confirmação é possível, já que não pode ser concebida qualquer falseamento  que estabeleça inequivocamente o caso” (Spiegelberg 1951, p. 356).

Considere a segunda razão de Spiegelberg para negar que podemos garantir evidências indiretas para o sobrenatural. Eu concordo que não podemos em absoluto prover certas evidências para o sobrenatural. Entretanto, eu sustento que, em princípio, poderíamos providenciar evidências que qualquer pessoa razoável consideraria evidências conclusivas da existência do sobrenatural. Primeiro, podemos providenciar evidências conclusivas de que um evento específico ocorreu. As evidências de que um evento ocorreu serão de um tipo claramente diferente das evidências experimentais para uma hipótese científica. As evidências para uma hipótese científica geralmente consistem de resultados reprodutíveis obtidos sob condições rigorosamente controladas, ao passo que as evidências de que qualquer tipo de evento passado ocorreu não serão reprodutíveis desta maneira, mediante experimentos. Não obstante, as evidências de que um evento ocorreu podem ser a tal ponto fortes que seria irracional negar que o evento ocorreu. Por exemplo, dispomos de evidências bastante confiáveis de que uma bomba nuclear foi lançada sobre Hiroshima em 1945, evidências que vão além de meros registros históricos, tais como depoimentos de testemunhas oculares, filmagens, resíduos radioativos, etc.

Segundo, podemos oferecer razões muito boas para negar que um tipo específico de evento poderia ser interpretado plausivelmente como um evento com uma causa natural. Alguns eventos imagináveis, se ocorressem, seriam tão sugestivos de uma causa sobrenatural que seria irracional resistir indefinidamente à espera de uma explanação natural para eles. Defenderei este ponto mais detalhadamente quando apresentar meus critérios para obter a distinção prática entre o natural e o sobrenatural. Contrariando a asserção de Spiegelberg, não  há razão em princípio pela qual não poderiam haver evidências conclusivas para um evento extremamente sugestivo de uma causa sobrenatural. Além disso, mesmo se pudéssemos dizer apenas que um evento fosse sugestivo de uma causa sobrenatural, ainda que não tão conclusivamente, Spiegelberg está errado ao afirmar que falseamentos não são possíveis. Uma explanação natural bem sucedida de um evento alegadamente sobrenatural seria um falseamento de uma causa sobrenatural na mesma medida em que as evidências paa a evolução falseiam o criacionismo bíblico literalista.

A primeira razão apresentada por Spiegelberg para negar que podemos assegurar evidências indiretas para o sobrenatural — que não podemos derivar previsões testáveis de explanações sobrenaturais — é relacionada à seguinte objeção: “Por quais métodos, se houver algum, podemos esperar identificar uma instância de causação sobrenatural na realidade? Sem tal método estaria-nos vetada qualquer possibilidade de conhecimento genuíno” (Spiegelberg 1951, p. 357). O ponto de Spiegelberg é que, ao contrário das explanações naturalistas bem sucedidas baseadas no método científico, não dispomos de nenhuma metodologia sobre a qual basear explanações sobrenaturais.

Conquanto eu concorde com Spiegelberg que, ao contrário das explanações naturais, não dispomos de nenhuma base para avaliar explanações sobrenaturais concorrentes para um evento, isto não significa que não podemos identificar um candidato provável a evento sobrenatural. Eu sustento que, em princípio, não pode existir qualquer metodologia que proporcione explanações sobrenaturais confiáveis de um evento devido à natureza da causação sobrenatural. A causação sobrenatural exige uma causa sobrenatural de um efeito natural. Mas, por definição, não podemos acessar empiricamente a causa sobrenatural. Podemos acessar empiricamente apenas o efeito de uma causa sobrenatural. A fim de proporcionar explanações explanações fidedignas dos fenômenos devemos estabelecer relações causais através da investigação científica. Mas como não dispomos de meios empíricos para obter informações sobre as próprias causas sobrenaturais, não podemos estabelecer leis que expressem relações causais entre causas sobrenaturais e efeitos naturais, existindo algum. Precisamos acessar ambos a causa e o efeito para estabelecer qualquer tipo de explanação causal fidedigna. Entretanto, isto quer dizer apenas que não podemos compreender como um evento sobrenatural ocorreu; não significa que não podemos dizer que ele ocorreu.

Spiegelberg sustenta que estabelecemos ordinariamente a existência de uma instância de um conceito negativo estabelecendo a existência de parte de seu complemento denotativo positivo — por exemplo, para estabelecer a existência do ‘não-branco’ nós estabelecemos a existência de alguma outra cor. Mas como não podemos encontrar nenhum complemento denotativo positivo para o não-natural ou sobrenatural, será extremamente difícil estabelecer uma instância dele:

Como constatamos que o sobrenatural em sua interpretação negativa prevalente não possui tal complemento denotativo positivo, este método simples de verificação está fora de questão. Suponha então algum objeto apresente-se como um candidato à honra sobrenatural… Tudo o que podemos esperar fazer, se quisermos examinar criticamente tal alegação, é mostrar que ele não se encaixa em nenhuma categoria natural conhecida. Temos portanto que nos certificar de um exame abraangente do reino natural, vasculhando ao longo de todas as suas categorias conhecidas e concebíveis, tendo em vista estabelecer pelo menos indiretamente que aqui está uma evidência inequívoca de algo diferente do padrão familiar e não abarcado por nossas categorias ‘naturais’. Fazer isto exaustivamente pode não parecer impossível em princípio. Mas em qualquer situação concreta esta definitivamente não é uma empreitada banal (Spiegelberg 1951, p. 358).

Conquanto o estabelecimento de uma instância de causação sobrenatural possa não ser impossível em princípio, Spiegelberg sustenta que para faze-lo em qualquer caso particular deve-se eliminar todas as explanações naturais possíveis para um evento — inlcuindo as explanações científicas elaboradas em termos de uma ciência futura ainda não disponível para nós. Obviamente, esta não é uma possibilidade prática. Mas mesmo se fôssemos de alguma maneira capazes de levar a cabo tal tarefa, Spiegelberg afirma ainda que apelos ao sobrenatural em tais casos, considerando-se a natureza negativa do sobrenatural, convertem-se em apelos à ignorância.

Considerando-se a ausência de qualquer metodologia para avaliar explanações sobrenaturais concorrentes e a ausência de qualquer pretensa apelo à revelação empiricamente convincente, concordo que o máximo que poderíamos dizer em tais casos é que a causa do evento em questão não é natural. Não poderíamos dizer nada sobre a natureza da causa sobrenatural em si. Neste sentido qualquer explanação sobrenatural particular seria um apelo à ignorância. Entretanto, quando nenhuma causa natural para um evento pode ser encontrada após uma busca exaustiva por causas naturais, nosso único recurso aparente é postular uma causa sobrenatural para o evento. Em casos reais de um possível evento sobrenatural, evidentemente, não estaremos aptos a conduzir uma busca completamente exaustiva por causas naturais. Não somos capazes de faze-lo mesmo para eventos com causas naturais. Outras considerações que analisarei brevemente tornarão claro que a exigência de Spiegelberg de uma busca exaustiva no mundo natural para estabelecer que uma causa sobrenatural de um evento é muito mais provável do que uma natural é demasiado rigorosa.

A afirmação fundamental de Spiegelberg é que a fim de dizer que um fenômeno é seguramente sobrenatural devemos dispôr de um conhecimento exaustivo do reino natural e do que é possível dentro dele:

Existe, contudo, uma afirmação bem mais presunçosa envolvida emq ualquer afirmação do sobrenatural. A interpretação sobrenatural pressupõe um conhecimento da esfera natural tão claro e tão exaustivo que podemos estar absolutamente certos que ela não deixa o menor espaço para o fenômeno em consideração… quem quer que assevere que um evento específico é sobrenatural também assevera que está de posse de um conhecimento completo do domínio assinalado como natureza bem como um conhecimento pleno do que é e do que não é possível dentro dele (Spiegelberg 1951, p. 358).

Será que realmente precisamos possuir um conhecimento completo do mundo natural a fim de distinguir entre um evento com uma causa natural e um evento com uma sobrenatural? Se desejamos certeza máxima de que um evento possui uma causa sobrenatural podemos precisar de uma investigação exaustiva do mundo natural. Entretanto, Spiegelberg não aborda a possibilidade de que poderíamos determinar que um evento tem uma causa sobrenatural com um grau razoável de confiança. Eu irei agora defender a posição de que estamos em posição de identificar eventos com causas sobrenaturais com um grau razoável de confiança.

É difícil, mas não impossível, obter a distinção entre o natural e o sobrenatural na prática. Nosso impasse em determinar o que considerar um evento com uma causa sobrenatural não reflete um deficiência em nossos critérios teóricos para o sobrenatural, mas antes as limitações práticas de nosso acesso epistemológico às categorias metafísicas fundamentais como ‘físico’, ‘leis da natureza’, etc. Não podemos em absoluto dizer categoricamente o que significa um objeto ser físico, ser acessível em princípio à investigação científica, ou ser uma lei da natureza. Esta é uma dificuldade prática que pode ser superada com a substituição de nossos critérios teóricos para o sobrenatural por nossas melhores aproximações a eles na prática. Portanto, o que precisamos é um conjunto menos teórico de condições para eventos que podem ter causas sobrenaturais — que eu chamarei critérios para um provável candidato a evento sobrenatural. Considerando-se que estamos trabalhando com aproximações a nossos critérios teóricos, é possível, embora improvável, que algo considerado inteiramente natural em termos de nossos critérios seria consistente com nossos critérios práticos para um provável candidato a evento sobrenatural. Em outras palavras, qualquer coisa satisfazendo estes critérios práticos seria inteiramente natural, mas é improvável que qualquer coisa satisfazendo todos eles seria. A que se assemelhariam estes critérios práticos?

A fim de responder esta questão, devemos levantar outra. O que seria um indício de que um evento tem uma causa sobrenatural? Considere três exemplos que várias pessoas considerariam eventos nitidamente sobrenaturais — estrelas se alinhando de modo a formar a expressão ‘Deus existe’, a ressurreição de um cadáver após um século de decomposição, e uma estátua de mármore acenando para você. O que há nestes exemplos que nos faz pensar que estes eventos não podem possuir causas exclusivamente naturais? É simplesmente possível que eles não ocorram ordinariamente, assim como a extinção em massa subsequente ao impacto de meteoros com a Terra? Ou é algo mais?

Além de satisfazer aproximações de nossos critérios teóricos para o sobrenatural, estes exemplos parecem exibir outras comunalidades. Nossos critérios teóricos para o não-natural consistiram das seguintes condições conjuntamente necessárias e suficientes — o não-natural deve ser não-físico e não superveniente ao físico, ser não-espaciotemporal, ser cientificamente inexplicável em princípio, e falhar em se comportar em conformidade com as leis da natureza. Nossas aproximações práticas a estes critérios teóricos combinada com as comunalidades nos exemplos ‘nítidos’ proporcionam as seguintes condições conjuntamente necessárias e suficientes para um provável candidato a evento sobrenatural; (1) a causa do evento não pode ser identificada como qualquer força ou entidade física conhecida nem ser superveniente à qualquer entidade ou força física conhecida; (2) a causa do evento não pode situar-se no espaço e no tempo; (3) o evento desafia todas as explanações científicas propostas até agora; (4) o evento aparenta violar leis científicas bem estabelecidas (conforme distinguidas das genuínas leis da natureza); (5) o evento é altamente improvável se possui exclusivamente causas naturais conhecidas; e (6) o evento exibe um comportamento inteligente ou aparentemente intencional. Qualquer evento satisfazendo estes critérios é um provável candidato a evento sobrenatural. Observe que ser um provável candidato a evento sobrenatural é uma condição necessária mas não suficiente para que  um evento seja realmente sobrenatural.

As três primeiras condições para um provável candidato a evento sobrenatural parecem relativamente simples. A quarta e a quinta condições são mais complicadas e relacionadas de modo fundamental. Observe que seria uma aproximação mais forte a nossos critérios teóricos dizer que um provável candidato ao sobrenatural viola as leis científicas em vez de aparenta violar as leis científicas. Entretanto, mesmo considerando as leis científicas conhecidas, nem sempre é claro o que constitui uma violação de uma lei científica. Teoricamente, um evento com uma causa sobrenatural realmente seria fisicamente impossível — considerando-se condições iniciais predeterminadas, leis da natureza genuínas, e apenas fatores causais naturais, um sistema físico teria que se comportar de modo determinado. Isto é verdadeiro considerando-se o indeterminismo físico — alguns resultados serão mais prováveis do que outros, mas alguns resultados serão completamente excluídos. Por exemplo, conquanto o princípio da incerteza de Heisenberg permita a criação a partir do nada de efêmeras partículas subatômicas, a criação de objetos físicos macroscópicos a partir do nada seria uma violação de uma lei da natureza. Um evento fisicamente impossível seria um evento que se comportasse contrariamente ao que seria previsto considerando-se as condições iniciais, leis da natureza genuínas, e todos os fatores causais naturais relevantes. Como frequentemente não somos capazes de conhecer as condições iniciais e os fatores causais naturais envolvidos na ocorrência de um evento mesmo assumindo que leis científicas são genuínas  leis da natureza, um evento fisicamente impossível pode não envolver uma violação inequívoca de uma lei científica.

Por exemplo, uma ressurreição pode ser descrita como uma reversão localizada de entropia, algo que não é explicitamente excluído por leis científicas. Entretanto, considerando-se condições iniciais prováveis (por exemplo, um estado avançado de decomposição) e todos os prováveis fatores naturais relevantes (por exemplo, a destruição da maior parte da informação física sobre o corpo tal como ele era antes da morte devido à decomposição e a ausência de um aparelho avançado de replicação), alguns eventos podem ser tão improváveis que as chances de tais eventos ocorrerem uma única vez sequer , considerando-se nosso conhecimento de fundo dos fatores naturais causais relevantes produzem improbabilidades astronômicas. Considere o exemplo de Richard Dawkins de uma estátua acenando a mão para você:

No caso da estátua de mármore, as moléculas do mármore sólido estão continuamente colidindo umas contra as outras, em direções aleatórias. As colisões das moléculas anulam umas às outras, e por isso é que toda a mão da estátua se mantém parada. Mas, se por pura coincidência, acontecer de as todas as moléculas se moverem simultaneamente na mesma direção, a mão se mexerá. E se então elas inverterem a direção no mesmo momento, a mão se movimentará na direção oposta. Desse modo, é possível que uma estátua de mármore acene para nós. Poderia acontecer. A improbabilidade de uma coincidência assim acontecer é inconcebivelmente grande, mas não impossível de calcular… Um colega físico fez a gentileza de calcula-la para mim. O número é tão grande que toda a idade do universo é pouco tempo para escrever todos os zeros! Teoricamente, é possível uma vaca pular até a lua com mais ou menos a mesma improbabilidade. (Dawkins 1987, p. 238)

Dawkins argumenta que se um evento a tal ponto improvável ocorresse deveríamos considera-lo um evento sobrenatural “porque toda nossa experiência e conhecimento nos diz que o mármore não se comporta assim” (Dawkins 1987, p. 159). Estes eventos não envolvem explicitamente violações de leis científicas porque, na prática, todos os fatores causais naturais relevantes não são considerados. Se eles fossem todos conhecidos, contudo, então a ressurreição quase certamente envolveria uma violação de leis científicas. Devido às limitações de nosso conhecimento, teremos que trabalhar com condições iniciais prováveis e fatores causais naturais prováveis. Certos conjuntos de fatores causais serão mais prováveis de serem encontrados do que outros. Mas porque não sabemos que uma lei científica necessariamente é violada (por exemplo, a levitação poderia resultar de alguma outra força natural, como a repulsão magnética, sobrepujando a gravidade), para todos os propósitos práticos, um evento aparentando violar leis científicas reduz-se a um evento altamente improvável considerando-se apenas tipos conhecidos de causas naturais. Observe que um evento que é altamente improvável considerando-se causas naturais conhecidas não é necessariamente um evento infrequente. Se causas sobrenaturais estão presentes, esperaríamos uma frequencia maior de eventos que seriam muito improváveis se somente causas naturais estivessem presentes. A fim de manter esta distinção, devemos assumir algo como um interpretação predisposicionalista das probabilidades, em vez de uma interpretação de frequencias relativas — isto é, devemos assumir que a probabilidade de um evento refere-se à propensão de um sistema físico produzir um determinado resultado.

A última condição para um provável candidato a evento sobrenatural — que o evento exiba comportamento aparentemente intencional ou inteligente — é razoavelmente ambíguo. Observe que esta condição final é a única condição que não pode, em última análise, ser derivada de nossos critérios teóricos para o não-natural. Comportamento inteligente ou intencional contrasta com o modo como os fenômenos naturais são frequentemente caracterizados — como impessoais ou como resultados de causas mecânicas, impessoais. Forças naturais são geralmente caracterizadas deste modo porque as causas naturais básicas que constituem o objeto de estudo da física são impessoais e mecânicas e as ciências físicas dentre todas as ciências tem nos oferecido as conclusões mais confiáveis. Obviamente esta condição não pode ser derivada de nossas condições teóricas para o natural ou sobrenatural precisamente porque alguns objetos naturais como animais ou mesmo mísseis guiados pelo calor exibem comportamento intencional. Comportamento intencional ou inteligente não é necessariamente um sinal de causação sobrenatural porque objetos naturais também podem exibi-lo. Mas nossas considerações sobre todos os três exemplos de eventos ‘nitidamente’ sobrenaturais  incluíram este elemento e penso que podemos concluir experimentalmente que nenhum evento sobrenatural teria causas impessoais e portanto comportamento intencional seria uma das condições para um provável candidato à evento sobrenatural.

Podemos elaborar sobre o que é exigido para que um evento satisfaça a última condição oferecendo exemplos de eventos que a satisfaçam. Entretanto, para respaldar a afirmação de que é improvável que um evento com uma causa natural satisfaça todos os critérios que delineei para um provável candidato a evento sobrenatural, eu considerarei um exemplo de um evento satisfazendo todas as seis condições. Imagine que um líder religioso tenha afirmado que retornaria meio século após sua morte para justificar a fé de seus discípulos de que ele é o salvador do mundo. Imagine que este líder combinou com seus seguidores que seu cadáver seria mantido em exposição após sua morte. Antecipando sua ressurreição e com vastos recursos financeiros, os seguidores asseguraram a presença substancial dos meios de comunicação na tumba exibida cinquenta anos após aquele dia. Embora os jornalistas tenham relutantemente comparecido ao local, cumprindo o acordo, nenhum deles acreditou seriamente que esta ressurreição ocorreria. Os seguidores do líder também asseguraram que um teste de DNA seria realizado no local no dia marcado para a ressurreição para confirmar a identidade do cadáver.

Uma hora mais tarde os resultados do teste e DNA confirmaram a identidade do cadáver, e enquanto as camêras de TV registravam, o cadáver recobrou, espontânea e perfeitamente, a aparência original do homem. O líder fisicamente restaurado virou-se então para os repórteres e operadores de camêra estupefatos e disse “Eu trarei paz e harmonia ao mundo e curarei as doenças”. No momento em que essas palavras eram ditas, todos os seres humanos no planeta perderam todos os sintomas de doenças. O líder aparentemente ressurreto então disse “Retornarei dentro de seis meses” e desapareceu. Um exame médico geral em escala global patrocinado pela ONU confirmou que nenhum dos indivíduos examinados no planeta inteiro apresentava o menor sinal de doença.

Este seria sem sombra de dúvidas um provável candidato a evento sobrenatural. A causa da transformação e da cura universal não poderia ser identificada com qualquer causa física ou espaciotemporal conhecida, seria cientificamente inexplicável, aparentaria violar as leis naturais, seria altamente improvável considerando-se somente tipos conhecidos de causas naturais, e a comunicação e os aparentes poderes de cura do cadáver restaurado exibiriam comportamento intencional. Eu sustento que neste exemplo hipotético em consideração os eventos bem documentados não poderiam plausivelmente serem considerados eventos com causas exclusivamente naturais.

(…continua…)

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por Keith Augustine

Introdução

Ao longo do século XX o termo naturalismo foi utilizado para rotular uma série de distintos posicionamentos filosóficos que possuem muito pouco ou nada em comum. Na ética, o naturalismo é uma forma de realismo moral que afirma que propriedades éticas são objetivas em virtude de serem redutíveis a ou idênticas a propriedades naturais, na qual as propriedades naturais são simplesmente as propriedades investigadas pelas diversas ciências. Na metafísica, o naturalismo geralmente assume a forma do materialismo ou do fisicalismo: tudo o que existe é físico ou superveniente ao físico. Na epistemologia, o naturalismo defende que o papel da epistemologia é descrever como o conhecimento é obtido em vez de estabelecer um critério a priori para a justificação de crenças; desse modo uma epistemologia naturalizada propõe teorias do conhecimento e da justificação que eliminam padrões normativos pela utilização exclusiva de conceitos cientìficos.

Neste ensaio ocupar-me-ei com o naturalismo na filosofia da religião, onde outras questões metafísicas e epistemológicas básicas aparecerão. Neste domínio, o naturalismo é a antítese do sobrenaturalismo — é frequentemente interpretado como a concepção de que tudo o que existe é natural e portanto por implicação que o sobrenatural não existe. Entretanto, a esta formulação aparentemente simples do naturalismo, subjaz implícita uma opulenta complexidade. Parte desta complexidade consiste da análise do significado dos termo “natureza” e “natural”, de como a natureza deve ser caracterizada, e de como a distinção entre o natural e o sobrenatural deve ser formulada, tanto na teoria como na prática. Estas questões serão abordadas na primeira parte deste artigo. Na segunda parte eu defenderei o naturalismo como uma opção de crença mais razoável do que o sobrenaturalismo ou o agnosticismo. Esta defesa do naturalismo será alicerçada sobre um argumento sustentando que a ausência de evidências incontroversas para potenciais exemplos de causação sobrenatural proporciona poderosos fundamentos indutivos para considerarmos o naturalismo verdadeiro.

Capítulo 1: O Naturalismo e a Distinção Entre O Natural E O Sobrenatural

O que é o Naturalismo?

Uma das versões mais comuns do naturalismo é a postura de que tudo o que existe é natural. Robert Audi define o naturalismo, interpretado num sentido lato, como “a concepção de que a natureza é tudo o que existe e todas as verdades básicas são verdades da natureza” (Audi 1996, p.372) Rem B. Edwards oferece uma definição similar: “o naturalista é alguém que afirma que somente a natureza existe e, por implicação, que o sobrenatural não existe… O mundo [natural] é toda a realidade; é tudo o que há; não existe ‘outro mundo'” (Edwards 1972, p. 135) Não obstante estas definições apreenderem algumas das características mais fundamentais do naturalismo, penso que o naturalismo pode — e portanto deveria ser — definido de modo menos categórico. Alan Lacey apreende o coração do naturalismo quando escreve: “No que o Naturalismo insiste é que o mundo natural formaria uma esfera única sem intervenções externas de almas ou espíritos, divinos ou humanos” (Lacey 1995, p. 604).

Penso que a maioria dos naturalistas concordaria que o naturalismo pelo menos implica que a natureza seja um sistema fechado contendo apenas causas naturais e seus efeitos. Basicamente, o naturalismo é uma postura metafísica sobre que tipos de relações causais existem – é a posição de que todo evento causado dentro do mundo natural possui uma causa natural. Esta definição do naturalismo é mais fraca do que “tudo o que existe é natural” porque deixa em aberto a possibilidade de que o mundo natural não esgote toda a realidade: podem existir alguns aspectos da realidade situados fora da natureza. Quais aspectos da realidade são não-naturais neste sentido variarão conforme as diferentes definições de natureza ou natural em uso. Pode até mesmo ser impossível em princípio saber que tais domínios não-naturais existem. Mas esta definição mais fraca preserva o núcleo essencial do naturalismo ao negar que a causação sobrenatural exista. De modo que seria melhor dizer que o naturalismo é a posição de que tudo o que existe dentro da natureza é em si mesmo natural e é influenciada exclusivamente por causas naturais.

O naturalismo, como o concebo, permite, portanto, a existência tanto da natureza como de domínios que podem existir fora da natureza; ele simplesmente estipula que quaisquer domínios não-naturais possivelmente existentes não influenciam causalmente o mundo natural. Mesmo a possibilidade de causação não-natural não é excluída na medida em que a causa e seu efeito fiquem ambos confinados a algum domínio não-natural. De modo que o naturalismo permite a existência tanto do natural como do não-natural — incluindo instâncias de causação natural e não-natural — na medida em que estes domínios estejam causalmente separados. Uma causa sobrenatural, nesta concepção, seria uma causa não-natural de um evento dentro da natureza. A expressão “evento sobrenatural” é melhor empregada para nos referirmos a um evento dentro da natureza que possui uma causa sobrenatural. A expressão “evento natural” pode se referir a um evento com uma causa natural ou a um evento no mundo natural. Devemos distinguir entre estes dois, portanto não utilizarei a expressão ” evento natural”. Em vez disso, utilizarei as expressões ‘eventos naturalmente causados’ e ‘eventos dentro da natureza’ (ou do mundo natural), respectivamente, para assinalar esta distinção. Deste modo, o naturalismo é melhor interpretado como a negação da existência de quaisquer instâncias genuínas de causação sobrenatural, ao passo que o sobrenaturalismo é a afirmação da existência de tais instâncias.

Arthur C. Dantos chega muito perto de definir explicitamente o naturalismo desta maneira quando caracteriza o naturalismo como implicando que “Todo o universo cognoscível é constituído de objetos naturais — isto é, objetos que entram e saem da existência em consequência da operação de ‘causas naturais'” (Danto 1972, p. 448). Mas o que é uma causa natural? De acordo com Danto,

Uma causa natural é um objeto natural ou um episódio na história de um objeto natural que acarreta uma mudança em algum outro objeto natural… é exclusivamente em referência a causas naturais que explicamos mudanças no comportamento dos objetos naturais. Isto pode exigir a referência a objetos que podemos não experienciar diretamente, mas estes no entanto, ainda serão objetos naturais, e nunca precisamos sair do sistema de objetos naturais para explanações do que ocorre em seu interior. Referência a objetos não-naturais nunca são explanatórias (Danto 1972, p448).

Na medida em que o significado do termo ‘natural’ não é explicitado, a definição acima deixa em aberto a possibilidade de que ‘causa natural’ possa ser definida de maneira ampla como qualquer causa de uma mudança no comportamento de um objeto natural. Tal definição ampla de ‘causa natural’ é uma manifesta petição de princípio: que todas as causas de eventos dentro da natureza sejam causas naturais é exatamente a questão em disputa. Certamente não queremos que essa tese seja verdadeira por definição — isto é, verdadeira num sentido trivial. Antes, queremos que o naturalismo seja uma posição que — se verdadeira — seja informativa. O aspecto decisivo e instigante da definição de Danto que parece mais essencial ao naturalismo é a tese de que nunca precisamos procurar por algo fora do mundo natural para explicar qualquer coisa dentro do mundo natural.

Na definição de Danto, podemos nem sempre ser capazes de experienciar diretamente uma causa natural, mas presumivelmente deveríamos ser capazes de experiencia-la indiretamente, como quando concebemos os átomos como objetos naturais. Embora Danto nunca declare como distingue entre experienciar diretamente um objeto e experiencia-lo indiretamente, presumirei que ele quer dizer algo nas seguintes linhas: um objeto é diretamente experienciado se  está imediatamente presente a nossos sentidos; é indiretamente experienciado se podemos inferir sua presença para explicar o comportamento de outros objetos que estão imediatamente presentes a nossos sentidos[1]. A discussão de Danto dos objetos não-naturais sugere que ele não pretende referir-se com ‘causa natural’ simplesmente a qualquer causa de mudança num objeto natural:

Ademais, o universo pode conter um ou outro tipo de objeto não-natural, mas não temos nenhuma razão para permitir a existência de objetos não-naturais a menos que eles tenham impacto sobre o comportamento observável de objetos naturais, pois objetos naturais são os únicos objetos que conhecemos diretamente, e somente em referência a suas perturbações poderíamos garantir o conhecimento indireto dos objetos não-naturais, existindo algum (Danto 1972, p. 448).

Suponha que concedamos a Danto sua suposição de que somente objetos naturais podem ser conhecidos diretamente[2]. Uma questão decisiva ainda surge: dentre os objetos conhecidos indiretamente, como distinguimos entre os que são naturais e os que são não-naturais?

(…continua…)

Notas:

1. Esta distinção ainda é bastante ambígua — não deixa claro, por exemplo, que não inferimos a existência de todos os objetos naturais para explicar os objetos que experienciamos. E mesmo se não fazemos isto, não fica claro se o que nós experienciamos diretamente ao perceber um objeto natural é o próprio objeto — pode ser que tudo o que experimentamos diretamente ao avistarmos um objeto, por exemplo, sejam fótons refletidos. Coloquemos de lado estas questões e assumamos que esta distinção seja sólida.

2. Vários filósofos teístas negariam isto, afirmando que podemos experienciar Deus ou outros seres espirituais diretamente através de uma experiência mística. Mesmo filósofos naturalistas podem conceder que podemos ter conhecimento direto de objetos abstratos não-naturais.

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Estou sinceramente feliz por compartilhar com vocês esta ocasião e me tornar íntimo desta vetusta e muito prestigiosa universidade. Minhas congratulações e meus melhores votos para todos os graduandos de hoje.

O lema de Harvard é “Veritas”. Vários de vocês já descobriram e outros ainda se darão conta no decorrer de suas vidas que a verdade foge de nós se não nos dedicarmos incondicionalmente à sua busca. E mesmo quando ela nos escapa, a ilusão de possui-la persiste e leva-nos a vários equívocos. Ademais, a verdade raramente é agradável; quase invariavelmente ela é amarga, dolorosa e cruel. De fato, há alguma amargura em meu discurso de hoje. Mas desejo salientar que ela vem não de um adversário mas de um aliado.
Três anos atrás, aqui nos Estados Unidos da América, eu disse certas coisas que à época pareceram inaceitáveis. Hoje, entretanto, várias pessoas concordam com o que eu disse então…

Um Mundo Em Estilhaços

 Palestra proferida por Alexander Solzhenitsyn no dia 8 de Junho de 1978 aos alunos da graduação da Universidade de Harvard.

Fonte: http://www.columbia.edu/cu/augustine/arch/solzhenitsyn/harvard1978.html

Tradução: Gilmar Pereira Dos Santos

A fragmentação do mundo contemporâneo é perceptível mesmo de relance. Qualquer de nossos contemporâneos facilmente identifica duas potências mundiais, ambas capazes de se  destruirem mútua e completamente. Entretanto, a compreensão da fratura muitas vezes é limitada a esta concepção política, à ilusão de que o perigo pode ser extinto através de negociações diplomáticas bem sucedidas ou pela obtenção de um poderio bélico equilibrado. A verdade é que a fratura é muito mais profunda e alienante; que as falhas e brechas vão muito além do que se percebe a primeira vista. Estas divisões múltiplas e profundas alimentam o perigo de desastres múltiplos para todos nós, em concordância com a antiga verdade de que um reino —  neste caso, nosso planeta — dividido contra si próprio não pode manter-se firme por muito tempo.

Mundos contemporâneos

Existe o conceito de Terceiro Mundo: de maneira que já possuímos três mundos. Sem sombra de dúvidas, contudo, o número é ainda maior; apenas nos encontramos demasiado distantes para ver com clareza. Qualquer cultura autônoma antiga profundamente enraizada, especialmente se está disseminada numa porção ampla da superfície do planeta, constitui um mundo autônomo, cheio de enigmas e surpresas para o pensamento ocidental. No mínimo, devemos incluir nesta categoria a China, a Índia, o mundo muçulmano e a África, se realmente aceitarmos a visão aproximada das dois últimos como unidades compactas. Por mil anos a Rússia pertenceu a esta categoria, ainda que o pensamento ocidental tenha sistematicamente cometido o erro de negar seu caráter autônomo e portanto nunca a tenha compreendido, da mesma maneira que atualmente o Ocidente não compreende a Rússia aprisionada pelo comunismo. Pode ser que em anos recentes o Japão tenha se tornado gradativamente uma parte distante do Ocidente, não julgarei isto aqui; mas em relação a Israel, por exemplo, parece-me que esta nação destaca-se do mundo ocidental no sentido de que seu sistema político é essencialmente vinculado à religião.

Há relativamente não muito tempo atrás o pequeno novo mundo europeu estava facilmente estabelecendo colônias em toda parte, não apenas sem antecipar qualquer resistência real, como também usualmente desprezando quaisquer possíveis valores na abordagem à vida dos povos conquistados. Em face disso, foi um sucesso esmagador; inexistiram-lhe fronteiras geográficas. A sociedade ocidental se expandiu num triunfo do poder e da independência humanas. E subitamente no século XX veio a descoberta de sua fragilidade e de sua inconsistência. Agora vemos que as conquistas revelaram-se precárias e efêmeras, e isto por sua vez aponta para as deficiências na cosmovisão ocidental que levou a estas conquistas. As relações com as ex-colônias agora se inverteram e o mundo ocidental muitas vezes vai a extremos de servilismo, mas ainda é difícil estimar o valor total da conta que as ex-colônias apresentarão ao Ocidente, e é difícil prever se desfazer-se não apenas de suas últimas colônias, mas de tudo o que possui, será suficiente para saldar a dívida do Ocidente.

Convergência

Mas a cegueira da superioridade continua apesar de tudo e encoraja a crença de que vastas regiões em todos os cantos de nosso planeta deveriam progredir e amadurecer até o estágio dos atuais sistemas ocidentais, que em teoria são os melhores, e na prática os mais atraentes. Existe a crença de que todos aqueles outros mundos estão apenas sendo temporariamente impedidos por governantes perversos ou por crises difíceis ou por sua própria selvageria ou incompreensão de tomar a via da democracia pluralista ocidental e de adotar
o estilo de vida ocidental. Países são julgados pela extensão de seu progresso nesta direção. Entretanto, esta concepção é fruto da incapacidade ocidental de compreender a essência dos outros mundos, do erro de medi-los todos pelo padrão ocidental. O verdadeiro retrato do desenvolvimento de nosso planeta é bastante diferente.

A angústia em relação a nosso mundo dividido deu à luz a teoria da convergência entre os principais países ocidentais e a União Soviética. É uma teoria tranquilizadora que negligencia o fato de que estes mundos absolutamente não estão se desenvolvendo de maneira similar, nem podem ser transformados um no outro sem o uso de violência. Além disso, a convergência inevitavelmente significa igualmente a aceitação das deficiências do outro lado, e isto dificilmente é desejável.

Se hoje eu estivesse me dirigindo a uma audiência em meu país, examinando o padrão global das falhas mundiais eu teria me concentrado nas calamidades orientais. Mas uma vez que meu exílio forçado no Oeste já perdura por quatro anos e como minha audiência é ocidental, penso ser de grande interesse me concentrar em aspectos específicos do Ocidente contemporâneo, tal como os vejo.

Um declínio da coragem […]

pode ser o aspecto mais atordoante que um observador externo notaria no Ocidente atual. O mundo ocidental perdeu sua coragem civil, tanto como um todo quando separadamente, em cada país, cada governo, cada partido político e obviamente nas Nações Unidas. Tal declínio da coragem é particularmente perceptível dentre os grupos dominantes e as elites intelectuais, causando um impressão de perda de coragem aolongo de toda a sociedade. Certamente existem vários indivíduos corajosos mas eles não exercem nenhuma influência determinante na vida pública. Burocratas, políticos e intelectuais mostram-se deprimidos, passivos e perplexos em suas ações e em seus pronunciamentos e mais ainda em reflexões teóricas para explicar quão realista, razoável, bem como intelectualmente e até mesmo moralmente justificado é fundamentar políticas estatais na fraqueza e na covardia. E o declínio da coragem é ironicamente enfatizado por explosões ocasionais de raiva e inflexibilidade da parte dos mesmos burocratas quando lidam com governos e países fracos, desamparados por todos, ou com movimentos incapazes de oferecer qualquer resistência. Mas eles ficam mudos e paralisados quando lidam com governos poderosos e forças ameaçadoras, com agressores e terroristas internacionais.

É necessário assinalar que desde a mais remota antiguidade o declínio da coragem sempre foi considerado o começo do fim?

Bem-Estar

Quando os Estados ocidentais modernos foram criados, o seguinte princípio foi proclamado: os governos destinam-se a servir o homem, e o homem vive para ser livre e perseguir a felicidade. (Veja, por exemplo, a Declaração Americana). Agora, pelo menos durante as décadas recentes o progresso técnico e social tem permitido a realização de tais aspirações: o Estado de Bem-Estar Social. A todo cidadão tem sido assegurada a tão desejada liberdade e os bens materiais em tal quantidade e de tal qualidade de forma a garantir, em teoria, a conquista da felicidade, no sentido moralmente inferior estabelecido durante as mesmas décadas. No processo, entretanto, um detalhe psicológico tem sido negligenciado: o desejo constante de ter ainda mais coisas e uma vida ainda melhor e o grande esforço empreendido em sua obtenção imprime em vários rostos ocidentais a preocupação e até mesmo a depressão, ainda que seja comum ocultar e dissimular tais sentimentos. A competição ativa e acirrada permeia todos os pensamentos humanos sem abrir um caminho para o livre desenvolvimento espiritual. A independência individual de vários tipos de controle estatal foi assegurada; à maioria das pessoas foi garantido o bem-estar numa extensão que seus pais ou avós não poderiam sequer sonhar; tornou-se possível criar os jovens segundo estes ideais, levando-os ao esplendor físico, à felicidade, à posse de bens materiais, dinheiro e ócio, a uma liberdade quase ilimitada de prazer e divertimento. De maneira que quem agora renunciaria a tudo isto, por que e para que alguém arriscaria sua preciosa vida na defesa de valores comuns, e particularmente em tais casos nebulosos quando a segurança da própria nação precise ser defendida num país distante?

Até mesmo a biologia revela que a segurança e o bem-estar extremos banalizados não são vantajosos para um organismo vivo. Hoje, o bem-estar na vida da sociedade ocidental começou a mostrar sua face perniciosa.

Vida Jurídica

A sociedade ocidental proporcionou-se a organização que melhor se adequa a seus própositos, baseada, eu diria, na letra da lei. Os limites dos direitos humanos e da retidão são determinados por um sistema de leis; tais limites são bastante amplos. As pessoas no Ocidente adquiriram uma habilidade considerável em usar, interpretar e manipular a lei, apesar de as leis tenderem a ser muito complicadas para um pessoa mediana compreender sem a ajuda de um especialista. Qualquer conflito é resolvido de acordo com a letra da lei e isto é considerado a solução suprema. Se alguém está certo e autorizado de um ponto de vista jurídico, nada mais é exigido, ninguém pode mencionar que ainda poder-se-ia não estar completamente certo, e apelar ao autocontrole, à renúncia voluntária a tais direitos legais, ao sacrifício e à exposição desinteressada a riscos: tal coisa soaria simplesmente absurda.

Quase nunca o autocontrole voluntário é visto. Todos operam nos limites extremos desse arcabouço legal. Uma indústria petrolífera é inocente quando patenteia uma nova técnica de produção de energia a fim de impedir seu uso. Um fabricante de produtos alimentícios é legalmente inocente quando envenena sua produção para aumentar seu prazo de validade: afinal, as pessoas são livres para não compra-lo.

Eu gastei toda a minha vida sob um regime comunista e quero dizer-lhes que uma sociedade desprovida de qualquer padrão jurídico objetivo é de fato terrível. Mas uma sociedade sem qualquer outra escala de valores que não a jurídica tampouco é digna do homem. Uma sociedade baseada na letra da lei que nunca atinge qualquer ápice beneficia-se escassamente do alto nível do potencial humano. A letra da lei é muito fria e formal para influenciar beneficamente a sociedade. Sempre que a trama da vida é tecida por relações jurídicas, surge uma atmosfera de mediocridade moral que paraliza os mais nobres impulsos humanos.

E será simplesmente impossível manter-se de pé ao longo das provações deste século ameaçador amparados apenas numa estrutura jurídica.

A Direção da Liberdade

Na sociedade ocidental contemporânea, tornou-se patente a diferença entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más. Um estadista que deseje atingir algo importante e altamente construtivo para seu país tem que se mover cautelosamente e até mesmo timidamente; existem centenas de críticos imprudentes e irresponsáveis à sua volta, enquanto o parlamento e a imprensa cuidam de boicota-lo. À medida em que ele avança, ele precisa provar que cada um de seus passos é bem fundamentado e absolutamente indefectível. Na verdade uma pessoa ilustre e particularmente dotada que possua iniciativas incomuns e inesperadas em mente dificilmente tem a chance de se afirmar; desde o começo, dúzias de armadilhas serão colocadas em seu caminho. De forma que a mediocridade triunfa sob o pretexto de restrições impostas pela democracia.

É factível e fácil em qualquer lugar sabotar o poder administrativo e, de fato, ele tem sido drasticamente debilitado em todos os países ocidentais. A defesa dos direitos individuais tem atingido extremos tais que tornam a sociedade como um todo indefesa contra certos indivíduos. È hora, no Ocidente, de defender não tanto os direitos humanos quanto os deveres humanos.

À liberdade destrutiva e irresponsável foi concedido um espaço ilimitado. A sociedade aparenta possuir poucas defesas contra os abismos da decadência humana, tal como, por exemplo, o mal uso da liberdade para a violência moral contra pessoas jovens, a produção de filmes repletos de pornografia, crimes e horrores. Isto é considerado uma parte da liberdade e teoricamente contrabalançado pelo direito das pessoas jovens de não olhar e não aceitar. A vida organizada juridicamente tem assim revelado sua incapacidade de se defender contra os efeitos corrosivos do mal.

E o que deveríamos dizer a respeito dos sombrios domínios da criminalidade como tais? Cenários jurídicos (especialmente nos EUA) são amplos o bastante para encorajar não somente a liberdade individual mas também certos crimes individuais. O acusado pode seguir impune ou obter leniência imerecida com o auxílio de centenas de defensores públicos. Quando um governo começa a combater diligentemente o terrorismo, a opinião pública imediatamente o acusa de violar os direitos civis dos terroristas. Existem vários casos assim.

Tal declive da liberdade na direção do mal surgiu gradualmente mas foi evidentemente gestado a partir de uma concepção humanista benevolente segundo a qual não existe nenhum mal inerente à natureza humana; o mundo pertence à humanidade e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais moralmente condenáveis que devem ser corrigidos. De maneira bastante enigmática, ainda que as melhores condições sociais tenham sido alcançadas no Ocidente, ainda existe criminalidade e consideravelmente mais do que na desregrada e miserável sociedade soviética. (Há um grande número de prisioneiros em nossos campos de concentração que são denominados criminosos, mas a maioria deles nunca cometeu qualquer crime; eles meramente tentaram se defender contra um estado sem lei lançando mão de meios externos a um arcabouço legal).

A Direção da Imprensa

A imprensa, é claro, aprecia a mais ampla liberdade (utilizarei o termo “imprensa” para me referir a todos os canais de mídia). Mas que tipo de uso ela faz desta liberdade?

Aqui mais uma vez, a principal preocupação é não infringir a letra da lei. Não há nenhuma responsabilidade moral pela distorção ou manipulação. Que tipo de responsabilidade tem um jornalista para com seus leitores, ou para com a história? Se eles enganaram a opinião pública ou o governo com informações imprecisas ou conclusões errôneas, temos conhecimento de quaisquer casos de reconhecimento e retificação pública de tais erros pelo mesmo jornalista ou a mesma publicação? Não, isto não acontece, porque prejudicaria as vendas. Uma nação pode ser vítima de erros do tipo, mas o jornalista sempre elude sua responsabilidade. Pode-se admitir com segurança que ele começará a escrever o oposto com autoconfiança renovada.

Porque informação instantânea e confiável deve ser oferecida, torna-se necessário lançar mão de rumores, boatos e suposições para preencher as lacunas, e nenhuma delas jamais será retificada, permanecendo na memória dos leitores. Quantos julgamentos precipitados,imaturos, superficiais e errôneos são pronunciados diariamente, confundindo leitores, sem qualquer confirmação. A imprensa é capaz tanto assumir o papel da opinião pública como de perverte-la. De maneira que podemos ver terroristas celebrados como heróis, ou documentos secretos, relativos à defesa nacional de um país, revelados ao público, ou podemos testemunhar a desavergonhada invasão da privacidade de figuras públicas sob o slogan “a todos é permitido conhecer tudo’. Mas este é um falso slogan, característico de uma falsa era: as pessoas também possuem o direito de não saber, direito este muito mais precioso. O direito de não ter suas almas divinas atulhadas com fofocas, futilidades e conversa fiada. Um pessoa que trabalha e leva um vida significativa não precisa deste fluxoexcessivamente opressivo de informação.

Precipitação e superficialidade são as doenças psíquicas do século XX e aqui mais do que que em qualquer outro lugar esta doença se manifesta na imprensa. Análises aprofundadas de um problema são anátemas para a imprensa. Esta se detém nas fórmulas sensacionalistas.

Tal como está, contudo, a imprensa tornou-se o maior poder dentro das nações ocidentais, mais poderosa do que o legislativo, o executivo e o judiciário. Talvez alguém deseje perguntar: por qual lei ela foi eleita e por quem eles se responsabilizam?  No leste comunista um jornalista é explicitamente apontado como um oficial do estado. Mas quem outorgou aos jornalistas ocidentais seu poder, por quanto tempo e com quais prerrogativas?

Uma outra surpresa ainda encontra-se à espera de alguém vindo do leste, onde a imprensa é rigorosamente unificada: descobre-se gradualmente uma tendência comum de preferências dentro da imprensa ocidental como um todo. É uma moda; há padrões geralmente aceitos de julgamento e podem haver interesses corporativos, sendo o resultado total dos efeitos não a competição mas a homogeinização. Concede-se uma liberdade colossal à imprensa, mas não a seu público, porque os jornais predominantemente acentuam e reforçam as opiniões que não contradizem explicitamente sua própria tendência geral.

Uma tendência no pensamento

Sem qualquer censura, no Ocidente as tendências de pensamento e das idéias em voga são cuidadosamente apartadas das que não estão em voga; nada é proibido, mas o que não está em voga dificilmente encontrará espaço em livros, periódicos ou nas grades curriculares dos colégios e universidades. Juridicamente seus pesquisadores são livres, mas são condicionados pela ortodoxia vigente. Não há violência explícita como no Leste; entretanto, uma seleção ditada pela ortodoxia e pela necessidade de satisfazer padrões de massa frequentemente impedem pessoas com opiniões independentes de contribuirem com a vida pública. Existe uma perigosa tendência à formação de rebanhos, excluindo o desenvolvimento bem sucedido.Na Ámerica, recebi cartas de pessoas muito inteligentes, talvez um professor numa pequena e remota escola que não podia fazer muito pela renovação e salvação de seu país, mas seu país não podia ouvi-lo porque a mídia não estava interessada nele. Isto origina fortes preconceitos em massa, uma cegueira que é mais perigosa em nossa era dinâmica. Há por exemplo, uma interpretação auto-ilusória da situação mundial contemporânea. Ela funciona como um tipo de armadura petrificada envolvendo as mentes das pessoas. Vozes humanas de 17 países da Europa Oriental e da Ásia Oriental não são capazes de rompê-la. Ela será quebrada somente pela alavanca implacável dos acontecimentos.

Mencionei algumas tendências da vida ocidental que surpreendem e chocam um recém-chegado a este mundo. O objetivo e o escopo desta palestra impedem que eu continue tal avaliação, que eu considere a influência destas características ocidentais sobre aspectos importantes da vida de uma nação, tais como a educação tanto elementar quanto avançada em artes e humanidades.

Socialismo

É quase universalmente reconhecido que o Ocidente exibe para o mundo um modo de desenvolvimento econômico bem sucedido, mesmo que nos últimos anos tenha sido fortemente perturbado por uma inflação caótica. Entretanto, várias pessoas que vivem no Ocidente encontram-se insatisfeitas com sua própria sociedade. Elas a desprezam ou a acusam de não estar a altura do grau de maturidade alcançado pela humanidade. Vários destes críticos voltam-se para o socialismo, o que é uma tendência infeliz e perigosa.

Espero que nenhum dos presentes suspeite que eu esteja apresentando minha crítica pessoal do sistema ocidental para oferecer-lhes o socialismo como alternativa. Tendo vivenciado o socialismo aplicado num país onde a alternativa foi efetivada, eu certamente não serei seu porta-voz. O renomado matemático soviético Shafarevich, um mebro da Academia de Ciências SOviética, escreveu um brilhante livro intitulado Socialism; a obra é uma análise profunda mostrando que o socialismo sob qualquer forma ou matiz leva à total destruição do espírito humano e ao nivelamento mortal dos indivíduos humanos. O livro de Shafarevich foi publicado na França quase dois anos atrás e até agora não apareceu ninguém a refuta-lo. Será publicado em breve em inglês nos Estados Unidos.

Não é um modelo

Ma se alguém me perguntasse se eu indicaria o Ocidente contemporâneo como um modelo pára meu país de origem, eu daria uma resposta francamente negativa. Não, eu não recomendaria a sociedade de vocês em seu estado atual como um ideal para a transformação da nossa. Através de um profundo sofrimento nosso país atingiu um desenvolvimento espiritual de tal intensidade que o sistema ocidental em seu estado atual de exaustão espiritual não parece atraente. Mesmo as características de sua vida que eu apenas mencionei são extremamente deprimentes.

Um fato que não pode ser contestado é a fragilização dos seres humanos no Ocidente, enquanto no Leste eles estão se tornando mais fortes e resistentes. Seis décadas para nosso povo e três décadas para o povo da Europa Oriental; durante este período atravessamos um treinamento espiritual que supera largamente a experiência ocidental. A complexidade da vida e seu fardo pesado produziram tipos mais fortes, profundos e interessantes que os produzidos pelo bem-estar ocidental padronizado. Portanto, se nossa sociedade tivesse de ser transformada na de vocês, isso significaria um aprimoramento em certos aspectos, mas também uma mudança para pior em algumas realizações particularmente significativas. É verdade, sem dúvidas, que uma sociedade não pode aguentar-se num abismo de arbitrariedade jurídica, como é o caso em nosso país. Mas também seria aviltante instaurar tal regularidade jurídica mecânica como vocês fizeram. Após o sofrimento de décadas de violência e opressão, a alma humana anseia por coisas mais puras, sublimes e extasiantes que as oferecidas pelos hábitos de vida em alta concentração demográfica introduzidos pela revoltante invasão de publicidade, pelo estupor televisivo e por genêros musicais intoleráveis.

Tudo isto é visível para observadores de todos as sociedades de nosso planeta. É cada vez menos provável que o estilo de vida ocidental venha a se tornar o principal modelo a ser seguido.

Existem alertas significativos que a história dá a uma sociedade ameaçada ou em declínio. Tais são, por exemplo, a decadência da arte, ou a ausência de grandes estadistas. Também há avisos evidentes e manifestos. O centro de sua democracia e de sua cultura é  privada de energia elétrica por apenas algumas horas, e repentinamente multidões de cidadãos americanos começam a promover saques e atos de vandalismo. A camada superficial de civilidade deve ser muito fina, o que indica que o sistema social inteiro é instável e doentio.

Mas a luta por nosso planeta, física e espiritual, uma batalha de proporções cósmicas, não é uma questão vaga sobre o futuro; ela já começou. As forças do mal deflagaram sua ofensiva decisiva, você pode senti-las pressionando, e mesmo assim as telas e publicações estão recheadas de sorrisos caducos e taças tilintando. O que eles estão comemorando?

Miopia

Representantes amplamente conhecidos de sua sociedade, como George Kennan, dizem: não podemos aplicar critérios morais à política. Assim amalgamamos o bem e o mal, o certo e o errado e criamos as condições para o absoluto triunfo  do Mal no mundo. Por outro lado, somente critérios morais podem auxiliar o Ocidente contra a bem planejada estratégia mundial do Comunismo. Não há outros critérios. Consideraçõs práticas e ocasionais de qualquer tipo serão inevitavelmente varridas pela estratégia comunista. Após um certo nível do problema ter sido atingido, o pensamento jurídico induz a paralisia; ele impede uma pessoa de ver a dimensão e o significado dos eventos.

Apesar da abundância de informação, ou talvez em decorrência dela, o Ocidente tem dificuldade em compreender a realidade tal como ela é. Houveram previsões ingênuas da parte de alguns especialistas americanos que acreditaram que Angola se tornaria o Vietnã soviético ou que expedições cubanas à África seriam melhor estancadas se os Estados Unidos dispensassem à Cuba mimos e gentilezas especiais. O conselho dado por Kennan a seu próprio país – dar início ao desarmamento unilateral — pertence à mesma categoria. Se vocês soubessem como os oficiais mais jovens da Antiga Praça de Moscou [Kremlin] gargalharam de seus mágos políticos! Assim como Fidel Castro, eles hostilizam abertamente os Estados Unidos, enviando suas tropas para aventuras distantes em países vizinhos ao de vocês.

Entretanto, o erro mais cruel ocorreu com o fracasso em compreender a Guerra do Vietnã. Algumas pessoas sinceramente desejaram que todas as guerras acabassem o mais rápido possível; outros acreditaram que haveria espaço para a autodeterminação nacional, ou comunista, no Vietnã, ou no Camboja, como vemos hoje com particular clareza. Mas os membros do movimento pacifista americano acabaram sendo envolvidos na traição das nações do Extremo Oriente, num genocídio e no sofrimento imposto hoje a 30 milhões de pessoas que lá vivem. Será que estes pacifistas convictos ouviram os lamentos vindos de lá? Eles compreendem sua responsabilidade hoje? Ou eles preferem não ouvir? A Intelligentsia americana  perdeu sua fibra e como consequencia disso o perigo se aproximou muito mais dos Estados Unidos. Mas não há a menor consciência disso. Seus políticos míopes que assinaram a precipitada capitulação do Vietnã aparentemente deram á Ámerica uma despreocupada pausa para respirar; contudo, um Vietnã centuplicado assoma ameaçador sobre vocês. Aquele pequeno Vietnã foi um alerta e uma ocasião para mobilizar a coragem da nação. Mas se uma America em sua plenitude sofreu uma derrota real contra um pequeno meio-país comunista, como pode o Ocidente permanecer firme no futuro?

Já tive a oportunidade de dizer que no século XX a democracia não venceu qualquer grande guerra sem a ajuda e a proteção de um poderoso aliado continental cuja filosofia e ideologia não foi questionada. Na Segunda Guerra Mundial contra Hitler, em vez de vencer aquela guerra com suas próprias forças, o que certamente teria sido suficiente, a democracia ocidental produziu e cultivou outro inimigo que se provaria ainda pior e mais poderoso, já que Hitler nunca dispôs de tantos recursos e tanto contingente pessoal, tampouco ofereceu quaisquer idéias atraentes, ou possuiu um grande número de adeptos no Ocidente — uma potencial quinta coluna — como a União Soviética. No momento, algumas vozes ocidentais já falaram em obter a proteção de uma terceira potencia contra agressão no próximo conflito mundial, se houver; neste caso o escudo seria a China. Mas eu não desejaria tal desenlace a qualquer país do mundo. Primeiro de tudo, esta é mais uma vez um aliança condenada com o Mal; além disso, ela angariaria algum respeito aos Estados Unidos, mas quando no futuro a China com seus bilhões de habitantes encontrar-se armada com armas americanas, a própria América cairia vítima de um genocídio similar ao perpetrado no Camboja em nossos dias.

Perda de força de vontade

E ainda — nenhuma arma, não importa quão poderosa, pode ajudar o Ocidente até que ele supere sua perda de força de vontade. Num estado de fraqueza psicológica, armas tornam-se um fardo para o lado rendido. Para se defender, deve-se estar pronto para morrer; há poucadisposição como essa numa sociedade erguida sobre o culto do bem-estar material. Nada é deixado, então, além de concessões, tentativas de ganhar tempo e traição. Assim, na constrangedora conferência de Belgrado, diplomatas do ocidente livre, em sua fraqueza renderam-se ao caminho onde membros escravizados dos grupos de vigilância de Helsinque estão sacrificando suas vidas.

O pensamento ocidental tornou-se conservador: a situação do mundo estabilizaria sem qualquer custo, não haveriam mudanças. Este sonho debilitante de um status quo é o sintoma de uma sociedade que chegou ao fim de seu desenvolvimento. Mas deve-se estar cego a fim de não ver que os oceanos não mais pertencem ao Ocidente, enquanto a terra sob seu domínio continua encolhendo. As duas assim chamadas guerras mundiais (elas não foram nem de longe de escala global, não ainda) significaram a autodestruição interna do Ocidente pequeno e progressivo que dessa maneira preparou abriu o caminho para seu próprio fim. A próxima guerra (que não precisa ser atômica e eu não acredito que será) pode muito bem enterrar a civilização ocidental para sempre.

Diante de tal perigo, com tais valores históricos em seu passado, em tal grau de realização da liberdade e de aparente devoção à liberdade, como é possível perder em tal extensão a vontade de se autodefender?

O Humanismo e Suas Consequências

Como foi produzida esta desfavorável relação de forças? Como o Ocidente declinou de sua marcha triunfante para sua atual enfermidade? Houveram guinadas fatais e perdas de direção em seu desenvolvimento? Não parece ser o caso. O Ocidente continuou avançando socialmente em concordância com seus objetivos proclamados, auxiliado pelo brilhante progresso tecnológico. E subitamente ele se encontra no atual estado de debilidade.

Isto quer dizer que a fraqueza deve estar na raiz, na própria base do pensamento humano dos últimos séculos. Refiro-me à visão de mundo ocidental predominante nascida durante a Renascença e que encontrou sua expressão política na época do Iluminismo. Ela tornou-se a base para o governo e para a ciência social e poderia ser definida como humanismo racionalista ou autonomia humanista: é a autoproclamada e reforçada autonomia do homem de qualquer força superior. Também poderia ser chamada antropocentrismo, com o homem visto como o centro de tudo o que existe.

A mudança introduzida pela Renascença obviamente era inevitável de um ponto de vista histórico. A Idade Média chegara a um término natural por exaustão, tornando-se uma repressão despótica intolerável da natureza física do homem em favor da espiritual. Então, contudo, demos as costas para o Espírito e abraçamos tudo o que é material com um anelo excessivo e injustificado. Esta nova maneira de pensar, que nos impôs sua tutela, não admite a existência do mal intrínseco ao homem, tampouco busca qualquer tarefa mais elevada do que a realização da felicidade sobre a terra. Ela baseou a civilização ocidental sobre a perigosa tendência a adorar o homem e suas necessidades materiais. Todas as coisas além do bem-estar físico e do acúmulo de bens materiais, todas as outras exigências e características humanas de natureza mais sutil e elevada, foram deixadas fora do campo de atenção dos sistemas estatais e sociais, como se a vida humana não possuísse qualquer sentido superior. Isso abriu caminho para o mal, do qual em nossos dias há um fluxo constante e desimpedido. A liberdade apenas não resolverá em última instância todos os problemas da vida humana e até mesmo acrescenta uma série de novos problemas.

Entretanto, nas democracias primitivas, bem como na democracia americana à época de seu nascimento, todos os direitos humanos individuais foram reconhecidos porque o homem é uma criatura de Deus. Isto é, a liberdade foi concedida ao indivíduo condicionalmente, presumindo-se sua constante responsabilidade religiosa. Tal foi a herança dos últimos mil anos.

Duzentos ou mesmo cinquenta anos atrás, teria parecido completamente impossível, na América, que a um indivíduo poderia ser concedida liberdade ilimitada simplesmente para a satisfação de seus instintos e caprichos. Subsequentemente, contudo, todas estas limitações foram descartadas em todos os lugares do Ocidente; uma liberação total ocorreu a partir da herança moral de séculos de Cristianismo com suas grandes reservas de piedade e sacrifício. Sistemas estatais tornaram-se cada vez mais e totalmente materialistas. O Ocidente terminou por reforçar verdadeiramente os direitos humanos, as vezes excessivamente, mas o senso de responsabilidade do homem para com Deus e a sociedade turvou-se. Nas últimas décadas o aspecto juridicamente egoísta da abordagem ocidental atingiu sua dimensão final e o mundo acabou numa grave crise espiritual e num impasse político. Todas as glorificadas realizações tecnológicas do Progresso, incluindo a conquista do espaço sideral,não redimem a pobreza moral do século XX, inimaginável mesmo à suas vésperas no final do século XIX.

Uma afinidade inesperada

A medida em que o humanismo em seu desenvolvimento tornou-se mais e mais materialista, ele gradativamente revelou-se suscetível à especulação e manipulação, a princípio pelo socialismo e depois pelo comunismo. De modo que Karl Marx estava autorizado a dizer em 1844 que o “comunismo é um humanismo naturalizado”.

Esta declaração acabou não sendo inteiramente sem sentido. Pode-se de fato ver as mesmas rochas nas fundações tanto de um humanismo desespiritualizado como nas de qualquer tipo de socialismo: materialismo interminável, liberação da religião e da responsabilidade religiosa, que sob os regimes comunistas alcançaram o estágio de ditadura anti-religiosa; foco em estruturas sociais com uma abordagem aparentemente científica. (Isto é característico do Iluminismo Setecentista e do Marxismo). Não por coincidência todas as juras e promessas sem sentido do comunismo são sobre o Homem, com H maiúsculo, e sua felicidade mundana. A primeira vista parece um paralelo grotesco: traços comuns na maneira de pensar e de viver do Ocidente e do Oriente contemporâneos? Mas tal é a lógica do progresso materialista.

A conexão é tal que a vertente de materialismo mais à esquerda, por ser mais consistente, sempre termina sendo a mais forte, mais atraente e vitoriosa. O Humanismo sem sua herança cristã não pode resistir a tal competição. Assistimos a este processo nos últimos séculos e especialmente nas últimas décadas, numa escala mundial, a medida em que a situação torna-se cada vez mais dramática. O liberalismo foi inevitavelmente substituído pelo radicalismo, o radicalismo teve que se render ao socialismo e o socialismo nunca poderia resistir ao comunismo. O regime comunista no Oriente persevera e cresce devido ao apoio entusiástico de um vasto número de intelectuais ocidentais que sentiram uma afinidade e se recusaram a enxergar os crimes do comunismo. Quando não lhes foi mais possível proceder assim, eles tentaram justifica-los. Em nossos países orientais, o comunismo sofreu uma derrota ideológica total; tornou-se nada e menos do que nada. Mas os intelectuais ocidentais ainda o olham com interesse e simpatia, e é exatamente isto que torna tão imensamente difícil para o Ocidente resistir e fazer oposição ao Oriente.

Antes da mudança

Não estou examinando aqui o caso de um desastre bélico global e as mudanças que ele produziria na sociedade. Na medida em que despertamos diariamente sob um sol calmo e sereno, precisamos levar uma vida ordinária. Há, contudo, um desastre em andamento já há um bom tempo. Refiro-me à calamidade de uma consciência humanista desespiritualizada e irreligiosa.

Para tal consciência, o homem é a medida última de tudo o que existe sobre no universo. O homem imperfeito, que nunca está livre de orgulho, auto-interesse, inveja, vaidades, e dúzias de outros defeitos. Estamos agora experimentando as consequências de erros que não foram percebidos no começo da jornada. No trajeto da Renascença até nossos dias enriquecemos nossa experiência, mas perdemos o conceito de uma Entidade Suprema Absoluta que costumava refrear nossas paixões e nossa irresponsabilidade. Depositamos demasiada esperança nas reformas políticas e sociais, apenas para descobrir que fomos privados de nosso bem mais precioso: nossa vida espiritual. No Oriente, ela foi destruída pelos procedimentos e maquinações do partido no poder. No Ocidente, os interesses comerciais tendem a sufoca-la. Esta é a crise real. A cisão no mundo é menos terrível do que a similaridade da doença que assola suas principais regiões.

Se fosse verdade, como o Humanismo declara, que o homem foi feito para ser feliz, ele não teria sido feito para morrer. Uma vez que seu corpo está condenado a morte, sua tarefa na terra evidentemente deve ser de natureza mais espiritual. Não pode ser o gozo desenfreado da vida cotidiana. Não pode ser a mera procura pelas maneiras mais eficazes de obter bens materiais e de desfruta-los ao máximo alegre e irresponsávelmente. Tem que ser o cumprimento de uma obrigação permanente, séria, de modo que a jornada de vida de alguém possa ser uma experiência de crescimento moral, de modo de que alguém possa terminar sua vida como um ser humano melhor do que era quando começou. É imperativo revisar a tábua dos valores humanos típicos. A gravidade de seus erros atuais é assombrosa. Não é possível que a avaliação do desempenho de um presidente reduza-se à questão de quanto alguém lucra ou da disponibilidade ilimitada de gasolina. Somente a autocontenção inspirada e voluntária pode elevar a humanidade acima da corrente mundial do materialismo.

Seria um retrocesso, hoje em dia, apegarmo-nos às fórmulas fossilizadas do Iluminismo. Tal dogmatismo social nos deixa completamente desamparados em face das provações de nossa época.

Mesmo se fôssemos poupados da destruição pela guerra, nossas vidas teriam que mudar se desejássemos salvar a vida da autodestruição. Não podemos mais esquivarmo-nos de revisar as definições fundamentais da vida e da sociedade humanas. É verdade que o homem paira acima de todas as coisas? Não existe nenhum Espírito Superior acima dele? É certo que a vida do homem e as atividades da sociedade sejam orientadas em primeiro lugar pela expansão material? É lícito promover tal expansão em detrimento de nossa integridade espiritual?

Se o mundo não chegou a seu fim, ele se encontra à beira de uma guinada decisiva em sua história, de importância equivalente à transformação pela qual passou entre a Idade Média e a Renascença. Ela exigirá de nós uma verdadeira erupção espiritual; atingiremos opatamar de uma nova visão, um novo estágio de vida no qual nossa natureza física não será anatematizada como na Idade Média, mas, ainda mais importante, nossa essência espiritual não será pisoteada como na era moderna.

Esta ascensão será semelhante à uma escalada para o próximo estágio antropológico. Nenhuma outra alternativa está ao alcance de qualquer um no globo a não ser esta: ir adiante e ascender.

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