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Posts Tagged ‘Ceticismo’

Os teístas repetidamente atribuem aos ateus pouca ou nenhuma consideração pela verdade. Mas o vídeo Atacando William Lane Craig, do qual tomei conhecimento nos comentários ao texto que vocês-sabem-quem escreveu em resposta ao artigo “O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto” constitui uma amostra inestimável do que os teístas entendem por compromisso ético com a verdade; veremos como apologistas evangélicos profissionais como o Dr. Craig utilizam destruição da imagem alheia sem a mínima consideração pela honestidade ou pela mais elementar confirmação dos fatos. A seguir, algumas das mais graves acusações contidas no vídeo são desmentidas. As informações abaixo foram em sua maior parte obtidas aqui e aqui.

1. Título do vídeo: “Atacando William Lane Craig”: este título por si já vale um estudo da trapaça. Na verdade, a maior parte do vídeo consiste de ataques contra o Dr. Avalos. Com efeito, não se ouve uma única citação do Dr. Avalos em que este faz qualquer comentário sobre o Dr. Craig, sendo difícil entender como este vídeo pode ser sobre ataques contra William L. Craig. O título do vídeo deveria ser “Atacando Hector Avalos”.

Os únicos alegados ataques contra o Dr. Craig vem de um assim chamado pentelho que estava na platéia do debate ocorrido em 2004 entre o Dr. Craig e o Dr. Avalos na Iowa State University. Mas o assim chamado pentelho de um modo geral estava certo em suas críticas das táticas de debate de Craig. Ele não tanto “pentelhou” como na verdade listou falácias específicas da parte de Bill Craig. Dr. Craig afirmou não se importar em repreender o Dr. Avalos por suas alegadas táticas condenáveis; assim, por que ele não se referiu à sua própria atitude como “pentelhar”?

2. William Lane Craig afirmou que o Dr. Avalos era chefe do Departamento de Estudos Religiosos da Iowa State University: isto é patentemente falso. Dr. Avalos não é nem nunca foi chefe do Departamento de Estudos Religiosos nem da Iowa State University nem de nenhuma outra instituição. Isso poderia ter sido um equívoco insignificante, mas Craig tenta usar esta fictícia posição de liderança para insinuar que Hector Avalos exerce alguma influência perniciosa indevida sobre seus alunos. Vocês-sabem-quem repetiu esta mentira em seu blog. Além disso, mesmo sendo um errinho bobo, o que isto diz acerca do respeito que o Dr. Craig tem pela verificação elementar dos fatos? O currículo acadêmico do Dr. Avalos pode ser encontrado facilmente através do Google, mas Craig aparentemente nem essa preocupação teve. E só para constar, o nome formal do departamento ao qual o Dr. Avalos pertence é Departamento de Filosofia e Estudos Religiosos.

3. Craig afirmou: “Avalos se apresenta como um ex-evangélico e um ex-pastor. Isto é francamente um exagero quando se olha sua biografia pessoal. Mas é assim que ele gosta de se projetar.” Ou Avalos é um ex-evangélico ou não é. Ou ele é um ex-pastor ou não é. Como é que um fato desses pode ser exagerado? Dr. Craig não nos diz o que foi exagerado. E o que ele tem em mente quando fala em dar uma olhada na biografia pessoal do Dr. Avalos? Avalos não se lembra de ter tido contato com Craig em nenhum momento daquele período de sua vida. Ou seja, Craig mais uma vez lança esta acusação sem nenhum outro fato que a respalde.

4. Craig afirma que basicamente o objetivo do Dr. Avalos é destruir a fé ortodoxa de seus alunos cristãos através de críticas, intimidação e ridicularização (e vocês-sabem-quem repetiu esta acusação em seu blog).

Não foi oferecido a menor prova para esta acusação. Craig (e seu papagaio tupiniquim) nunca assistiram a uma aula do Dr. Avalos, e portanto não podem ter verificado isto por si próprios. Se estão se baseando em depoimentos de outras pessoas, isso não passa de “ouvir dizer”. (A ambos será concedido o benefício da dúvida e não será cogitada a hipótese de que tenham inventado essa história.) Como pode a utilização de boatos para levantar uma acusação tão grave ser uma conduta ética ou profissional?

A verdade é que o Dr. Avalos usa abordagens muito diferentes quando fala sobre estas questões dentro e fora da sala de aula. Com suas turmas, utiliza uma abordagem de várias perspectivas que tem sido muito eficaz. Fora da sala de aula, defende seus pontos de vista com a máxima contundência que seus direitos constitucionais lhe permitem. Eis mais alguns fatos:

A. Avalos recebeu o prêmio de Professor do Ano da Iowa State University em 1996, concorrendo com todos os outros professores da ISU. A premiação foi uma iniciativa de seus alunos cristãos.

B. Embora nenhum professor seja aprovado por 100% de seus alunos, e embora não se possa afirmar que todos se sintam da mesma forma, o Dr. Avalos geralmente é um dos professores mais bem avaliados de seu departamento. Em geral, entre 70 e 80 porcento de seus alunos conferem-lhe a nota máxima nos quesitos avaliados.

Em algumas ocasiões, 100% de seus estudantes deram-lhe a mais alta nota possível, o que seria impensável se Avalos agisse da forma como Craig descreve. E os que o descrevem como intimidador o fazem sobretudo pelo rigor com que Avalos os cobra academicamente, não por qualquer esforço de sua parte em destruir a fé de seus alunos.

Naturalmente, Craig nunca viu estas avaliações feitas pelos estudantes, e portanto é difícil compreender como ele pode ter tão pouca consideração pela mais elementar honestidade antes de fazer uma acusação dessas.

C. Mesmo que o Dr. Avalos não recomende  olhar o Rate My Professor por ser uma amostra pouco representativa e o status dos estudantes ser de difícil de verificação, as avaliações e os comentários lá presentes em geral refletem as pontuações que recebe oficialmente.

D. Avalos jamais recebeu uma queixa formal contra sua docência em seus 19 anos na ISU. Mais de 2000 alunos já passaram por suas disciplinas, a maioria deles cristãos. Portanto, como uma trajetória profissional de 19 anos sem uma única queixa sequer ajuda Craig a montar seu caso? E mesmo se ele encontrasse tais estudantes, suas reclamações teriam que ser investigadas mais acuradamente antes de serem consideradas “fatos”.

5. Craig disse: “Avalos também se comporta de maneira pouco profissional nestes debates, recorrendo a ataques ad hominem… Isto parece diferir de seus comentários após o debate citados na edição de 6 de Fevereiro de 2004 do Jornal da ISU: “Craig disse que apreciou muitíssimo o diálogo com Avalos e não considerou haver qualquer desavença entre eles. ‘Tanto Avalos como eu conduzimo-nos com o tom e o comportamento adequados’, Craig disse.

Portanto, teria Craig dito a verdade, ou ele foi citado erroneamente?

6. Craig disse: “Eu me senti muito desconfortável ao fazer isso porque de certa forma eu o estava atacando por seus métodos, por seu modus operandi, mas julguei que devia faze-lo já que eu era o primeiro a falar e não queria ser vítima de um de seus truques… como o que eu o vi executar contra o professor Shelly num debate anterior…”

Craig está se referindo a um debate a um debate entre Avalos e o Dr. Rubel Shelly ocorrido em 1998. Neste debate, Avalos projetou fotos de alguns manuscritos do Novo Testamento e pediu que seu oponente os identificasse. A razão pela qual Avalos o fez foi que Shelly os havia utilizado como parte das evidências para a confiabilidade do texto do Novo Testamento; mais especificamente, Shelly afirmou que atualmente dispomos de manuscritos “completos” do NT, e citou os manuscritos P66 e P75 como exemplos:

Nos últimos anos, a Bodmer Library of Geneva publicou uma edição completa do Evangelho de João (p66) datada de cerca de 200 d.C. … O texto completo dos evangelhos de Lucas e João, datados entre 175 d.C. e 225 d.C, foram publicado pela Bodmer Library (p75). (Rubel Shelly, Prepare To Answer, 1990, p. 139)

O esperado era que Shelly, como todo bom acadêmico é obrigado a fazer, tivesse no mínimo verificado as fontes originais para confirmar a acurácia desta afirmação. Então Avalos expôs a imagem dos manuscritos na tela diante da platéia e perguntou-lhe se sabia do que se tratava. Ele não sabia. Avalos então perguntou-lhe se eles pareciam completos, mesmo não sabendo do que se tratava. Shelly então disse que eles não pareciam completos. De fato, P75 não está completo, e em alguns pontos encontra-se bastante fragmentário.

Ou seja, o que Avalos fez foi refutar efetivamente a afirmação de Shelly diante da platéia. Agora, alguém pode explicar por que isto se configura como uma “conduta reprovável” em vez da boa e velha expertise em debates?

Na verdade, Shelly se saiu tão mal naquele debate e suas credenciais como estudioso da Bíblia foram tão irrecuperavelmente arruinadas que Craig foi até a Iowa State University em 2004 para “nocautear” Avalos, nas palavras de sua fanbase. Entretanto, como todos podem ver, Avalos ainda está na ativa, a todo vapor.

Além disso, Craig distorceu completamente a questão da disponibilidade dos manuscritos. Fotos e cópias destes manuscritos fazem parte de quase todos os bons livros didáticos sobre crítica textual do NT e também de algumas enciclopédias bíblicas. Isso também significa que você é sem sombra de dúvidas um amador terrivelmente incompetente e mal informado se não sabe nem isso.

Algumas das cópias exibidas por Avalos foram retiradas do livro de Jack Finegan Encountering New Testament Manuscripts: A Working Introduction to Textual Criticism (Grand Rapids, MI: W. B. Eerdmans, 1974). Portanto, não é verdade que você precisa ir a uma câmara climatizada de segurança máxima num museu da Europa ou do Oriente Médio se quiser examinar os manuscritos. As fotos são boas o suficiente para ver se os manuscritos estão ou não completos.

Especificamente sobre este debate entre Avalos e Craig, este último começou muitíssimo bem, mas terminou bastante debilitado. Seu discurso de encerramento foi utilizado para conceder no mínimo duas vezes que ele havia cometido erros em virtude de seus conhecimentos insuficientes do aramaico ao argumentar a favor da ressurreição em seu livro Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus…).

Dr. Craig tentou minimiza-los como “bagatelas”, mas essa minimização é inútil para os que o leram e sabem como pelo menos um de seus argumentos assenta-se sobre o aramaico. Quem ler seu Reasonable Faith (p. 275) verá que ele tenta datar o Evangelho de Marcos por volta da época dos discípulos utilizando a suposta expressão em aramaico da Galiléia em Marcos 16:2 (“no primeiro dia da semana”). Ele então usa a suposta ligação direta com a época dos discípulos para respaldar seu FATO 1 (Jesus foi enterrado e seu FATO 2 (a tumba vazia). O que ele não diz a seus leitores, e do que ele tentou se esquivar no debate, é que ele estava lhes vendendo textos em aramaico não-galileanos de uma época posterior, talvez até mesmo medievais, como textos do aramaico da Galiléia do primeiro século. Obviamente, isso não é nem intelectualmente respeitável nem intelectualmente honesto – para não mencionar o fato de que isso torna uma das evidências que suportam seus FATOS 1 e 2 completamente fraudulenta.

Há outro caso em que Craig distorce uma citação, dessa vez do historiador judeu Flávio Josefo. Vejam a citação que ele ofereceu no debate:

Aprendemos de Josefo que Tiago foi finalmente martirizado por sua fé em Jesus Cristo durante um hiato no governo civil na metade dos anos 60. Fonte: Paul Copan and Ronald K. Tacelli, eds. Jesus’ Resurrection: Fact or Figment? (Downer’s Grove, Illinois: InterVarsity Press 2000) p. 190.

Comparem com o que Josefo realmente escreveu, de acordo com as melhores edições de sua obra:

Ananias pensou que tinha uma oportunidade favorável… e assim convocou os juízes do Sinédrio e trouxe diante deles um home chamado Tiago, o irmão de Jesus que foi chamado o Cristo, e outros. Ele os acusou de ter violado a lei e os entregou para serem apedrejados. Fonte: Josephus, Jewish Antiquities XX.200-201. Edition and Translation of L. H. Feldman (Loeb Classical Library: Cambridge: Harvard University Press, 1965), pp. 106-109.

Craig acrescentou sua própria idéia do que Josefo teria dito. E então usa esta tradição inventada para apoiar seu FATO 4 (a origem da crença dos discípulos). Distorções e deturpações semelhantes permeiam as evidências que respaldam cada um de seus 4 FATOS.

Na verdade, este tipo de falsa erudição é uma das razões pelas quais Dr. Craig não possui uma boa reputação como acadêmico fora de seu estreito círculo de apologistas. Sua função é mais a de confortar os fiéis, mostrar-lhes que é possível acreditar em superstições de pescadores ignorantes que viveram há dois mil anos atrás e ainda assim conseguir dois doutorados, do que converter os infiéis que realmente conhecem bem as fontes primárias.

Também não parece que neste debate Craig se beneficiou de sua alegada especialização em filosofia. Sua suposta refutação do “naturalismo” pareceu bastante inconsistente quando Avalos assinalou que ele age como um perfeito naturalista quando se trata de outras religiões, ou mesmo em relação aos milagres relatados em Mateus 27:52-53. Talvez algum de seus admiradores seja capaz de explicar porque ele não chama as ressurreições em Mateus 27:52-53 de “fatos”, mas chama a ressurreição em Marcos 16:6 de “fato”. Porque o próprio Craig certamente não explicou e nem pode explicar quais são as diferenças.

Se William Lane Craig é o melhor que a comunidade de apologistas cristãos tem a oferecer, este debate contra o Dr. Avalos foi um episódio triste para na  história da apologética. Ele mostrou não somente mais um apologista completamente ineficaz contra um estudioso da Bíblia ateu, como também um apologista praticamente admitindo que seus conhecimentos das fontes primárias e línguas antigas estão abaixo dos padrões mínimos.

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A primeira vista pode parecer que estou apenas quebrando minha promessa de não mais citar nem responder aos ataques vindos de vocês-sabem-quem, e de certa forma realmente é o que estou fazendo. Entretanto, meus motivos para faze-lo vão muito além do mero gosto pela contenda (completamente estéril e contraprodutiva em se tratando de vocês-sabem-quem). Acontece que, como sabe a maior parte dos que estão agora lendo isso, em maio último traduzi e publiquei um capítulo do livro The Christian Delusion escrito pelo Dr. Avalos. Uma minoria, se tanto,  viu que o Dr. Avalos em pessoa deixou um comentário agradecendo a tradução, que pode ser visto aqui. Sei que se trata do autêntico Dr. Hector Avalos porque ele também deixou um agradecimento na página do blog no Facebook:

 Ele também compartilhou o link para a tradução no mural de seu perfil:

Agora vem a melhor parte da história. Quem leu o artigo sobre ateísmo e Holocausto se lembra de que os primeiros parágrafos mencionam um capítulo de outro livro do Avalos, Fighting Words, em que ele discute com mais profundidade a relação entre ateísmo e violência no regime stalinista. Pois bem, não sei quanto a vocês, mas eu fiquei muitíssimo interessado neste capítulo; como o Dr. Avalos não se conteve ao expressar sua gratidão pela minha tradução, imaginei que ele provavelmente gostaria de ter outra parcela de seu trabalho divulgada em língua portuguesa, e enviei-lhe um email me apresentando e explicando meus motivos para manter este blog e fazer estas traduções (em parte, o descaso do mercado editorial lusófono para com seu público de céticos, agnósticos e ateus), e perguntando se ele não poderia me enviar o texto do referido capítulo de Fighting Words. Isto foi um pouco constrangedor porque apesar de ler e traduzir razoavelmente bem, minha proficiência deixa muito a desejar na hora de ouvir, falar ou escrever; então antes de mais nada comecei pedindo desculpas por eventuais erros. Ele foi muito compreensivo, gentil e solícito, e sabem qual foi sua resposta a meu pedido? Em vez de me enviar somente o texto do capítulo solicitado ele me presentou com um exemplar inteiro do livro (com uma singela dedicatória na folha de rosto, claro _ For Gilmar, a new friend from Brazil. Dr. Hector Avalos, 14 July, 2012)! Acreditam nisso? Bom, se não acreditam o problema é de vocês; de qualquer maneira, nos próximos dias publicarei a tradução do capítulo sobre ateísmo e violência stalinista. E também, para evitar outras situações tão ou mais embaraçosas do que essa no futuro, começarei um curso de inglês. Não quero que me aconteça o mesmo que aconteceu com William Lane Craig, que foi refutado em público por não dominar a língua original dos textos com os quais trabalha.

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Nos comentários do post “Mais uma refutação ao poderoso OTF…“, um dos discípulos do profeta apocaliptista travestido de ateu conservador Luciano Ayan  (ele jura que é operado, mas vai até a lua e volta espumando de ódio toda vez que alguém acerta uma pancada contundente em suas intimidades religiosas) fez uma “contribuição de altíssimo nível“, expondo a todos um suposto debate que um suposto John W. Loftus supostamente teria perdido. Desde então Luciano Ayan vem fazendo anúncios bombásticos de uma vindoura refutação humilhante ao OTF, como pode ser visto nos dois screenshots abaixo (coloquei as fontes nas legendas, mas é altamente provável que ele adultere seus posts ao ver sua alegria de pobre abortada e me acuse de te-lo fraudado):

 O motivo dessa hybris pode ser visto nesta arena virtual aqui. Thrasymachus, o desafiante, não faz nada além de reciclar objeções que alguns apologistas já haviam levantado anteriormente, e às quais o autêntico Loftus já havia respondido _ vejam os comentários deste post do blog do Thrasymachus. Observem também como o próprio Thrasymachus, no terceiro round do debate, em vez de comemorar a vitória suspeitosamente fácil, preferiu considerar altamente provável que o perfil que aceitara seu desafio na verdade pertencia a um fake, suspeita que ele já aventara no começo do segundo round ao solicitar que o outro debatedor lhe enviasse alguma confirmação de que era o autêntico Loftus.

O cristão enrustido, naturalmente predisposto a se agarrar à literalmente qualquer bobagem que alguém fale ou escreva em defesa de sua fé e numa atitude típica de pessoas iludidas, levou em consideração só o que lhe era favorável e ignorou o que era de fato relevante. Se fosse o cético full-blown que se jacta de ser a cada duas linhas de seus posts, teria se poupado mais esse constrangimento. V.V., obrigado por propiciar mais essa oportunidade de expor ao ridículo o macho-alfa dos conservopatas.

Quanto à objeção levantada pelo Thrasymachus contra o OTF, trata-se da famigerada e abusada falácia genética, que consiste em afirmar que uma crença é falsa em virtude do modo como foi adquirida. É a quinta das objeções respondidas abaixo. Além disso, observem que o OTF é um argumento indutivo, probabilístico, não um argumento dedutivo. Ele deixa em aberto a possibilidade de que alguma fé religiosa seja verdadeira apesar de adquirida por um processo não confiável de formação de crenças.

Quanto ao Luciano Ayan, este é o último post em que esse infeliz ou algum de seus textos é mencionado aqui no Rebeldia Metafísica. Continuar a faze-lo seria desmerecer o excelente trabalho de desconstrução da equipe do Blog do Mensalão (recomendo a leitura dos seguintes textos: O que é Controle de Frame, Sou ateu parte 1B: Jeremias e Marcelo Rizzo, Uma “breve” biografia de Luciano Ayan). Como meu presente pessoal de despedida, deixo a ele este link  e uma canção que decerto lhe serão úteis no estágio terminal em que se encontra:

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Um: Os crentes religiosos objetarão em uníssono que o OTF não mostra que sua religião particular é falsa simplesmente por ser um fato sociológico incontestável que acreditamos baseados em acidentes históricos e geográficos. William Lane Craig indaga, “Como a mera presença de visões de mundo incompatíveis com o Cristianismo mostra que alegações distintivamente cristãs não são verdadeiras? Logicamente, a existência de reivindicações de verdade múltiplas e incompatíveis implica apenas que todas elas não podem ser (objetivamente) verdadeiras;  mas seria obviamente falacioso inferir que nenhuma delas é (objetivamente) verdadeira.” Ele está certo sobre isso, assim como os muçulmanos e os mórmons que podem dizer a mesma coisa em relação a suas respectivas fés. Afinal, alguém pode estar certo por nenhuma outra razão além da sorte de nascer na época e no lugar certo.

Mas como você justifica racionalmente tal sorte? Foi por isto que desenvolvi o desafio do teste do infiel em primeiro lugar, para testar as fés religiosas contra tal sorte. Se o teste entre fés religiosas é baseado inteiramente na sorte, então quais são as chances, baseado apenas na sorte, que a seita específica do Cristianismo à qual alguém adere seja a correta?

Dois: Objeta-se que existem minorias ínfimas de pessoas que escolheram ser teístas cristãos que nasceram e cresceram em países muçulmanos e que as pessoas podem escapar de sua fé culturalmente adotada. Isto é verdade. Mas estas são as exceções. Os teístas cristãos respondem me pedindo para explicar as exceções. Estou pedindo que eles expliquem a regra. Por que crenças religiosas específicas predominam em áreas geográficas específicas? Por que isso ocorre?

Quando se trata destes convertidos, minha opinião é que a maioria deles não ponderou objetivamente as evidências quando fez seus compromissos religiosos iniciais. Eles mudaram sua maneira de pensar sobretudo devido à influência e à credibilidade do evangelizador e/ou da natureza fantástica e assombrosa do próprio relato religioso. Eles não dispunham de nenhum método inicial para realmente investigar a fé professada. Que evangelista falaria de maneira nua e crua sobre o lado negro da Bíblia e da Igreja enquanto prega as Boas Novas? Nenhum que eu conheça. Que evangelista apresenta um panorama dos inumeráveis problemas que os acadêmicos cristãos como vocês próprios da platéia enfrentam em encontros como este? Nenhum que eu conheça. Que evangelizador dá a um convertido em potencial uma cópia de um livro como o meu junto com uma cópia de um livro de apologética cristã e pede-lhe que leia os dois antes de tomar uma decisão? Mais uma vez, nenhum que eu conheça.

Três: Objeta-se que a mera discordância de pessoas racionais acerca de um tema não justifica o ceticismo acerca de uma afirmação específica. Ao contrário, penso que isso não somente pode justificar como de fato justifica o ceticismo. O grau de ceticismo justificado depende dos critérios que mencionei antes. Pessoas racionais não apostam contra a gravidade, por exemplo, porque há evidências para ela que foram aprendidas à parte do que lhes foi ensinado para acreditarem numa região geográfica distinta. Ela pode testa-la pessoalmente. Sustento que as crenças religiosas estão numa categoria diferente da dos resultados de experimentos científicos reprodutíveis, e que esta afirmação é tanto óbvia quanto incontroversa. De qualquer maneira, o ceticismo é melhor expresso num continuum. Algumas alegações de crença justificarão um ceticismo maior do que outras. Afirmo que crenças religiosas provavelmente justificam o mais elevado grau de ceticismo considerando-se os fatos sociológicos. Correndo o risco de ofender os religiosos aqui, as crenças religiosas, como crenças em elfos na Islândia, em trolls na Noruega e no poder das bruxas na África, devem ser submetidas ao mais elevado grau de ceticismo considerando-se tanto a natureza extraordinária destas afirmações e como algumas destas crenças são adotadas em primeiro lugar.

Quatro: Alguém pode objetar que meu argumento se auto-destrói. Elas indagarão: “Minhas condições culturais ‘determinam’ esmagadoramente minha pressuposição cética? Se for o caso, então, como Alvin Plantinga pergunta, seriam minhas crenças igualmente ‘produzidas por um processo de produção de crenças não-confiável’? Se não, então por que razão eu penso que posso transcender a cultura mas um teísta cristão não pode transcender sua cultura?” Em resposta, penso ser extremamente difícil transcender nossa cultura porque, como mencionei antes, elas nos dota com os próprios olhos com os quais vemos. Mas precisamente porque sabemos a partir de estudos psicológicos e antropológicos que isto é o que a cultura faz por e para nós, é possível transcender a cultura em que fomos criados.

[Exemplo] Sabemos que as pessoas não percebem sensorialmente a realidade como ela realmente é. O que vemos é filtrado por nossos olhos. O que ouvimos é filtrado por nossos ouvidos. Vemos e ouvimos apenas uma quantidade muito limitada dos dados do mundo. Mas se víssemos e ouvíssemos o espectro sônico e eletromagnético inteiro nós basicamente veríamos e ouviriamos ruído branco. Sabemos disso mesmo não sendo capazes de realmente ver ou ouvir o ruído branco por nós mesmos. Também sabemos que o chão sobre o qual caminhamos move-se como um enxame de abelhas no nível microscópico. Assim, é o conhecimento científico sobre o mundo que nos leva a sermos céticos sobre o que vemos e ouvimos.

O mesmo pode ser dito quando se trata de estudos psicológicos e antropológicos mostrando que deveríamos ser céticos em relação ao que somos levados a acreditar, apesar de sermos incapazes de realmente ver qualquer coisa acerca de nossas crenças sobre as quais deveríamos ser céticos. E o OTF é sem dúvidas um teste que podemos propor para examinar nossas crenças culturalmente adotadas.

A verdade é que meu argumento definitivamente não se autodestrói. Ele sugere que deveríamos duvidar do que acreditamos. Não é autodestrutivo dizer quais são as chances de que estejamos errados. Afinal, estamos falando sobre as probabilidades aqui. O filósofo agnóstico J.L. Schellenberg lida come este mesmo tipo de críticas nestes termos: “agora, esta objeção pode ser sólida se meus argumentos de fato forem aplicáveis a si próprios, e não é preciso muito para vermos que tal não é o caso.” Pois existe uma diferença colossal entre defender um sistema de crenças religiosas como o único e exclusivo sistema correto, e negar que um sistema de crenças religiosas seja justificado. Sua afirmação é que os adeptos de qualquer sistema de crenças religiosas dado “não foram bem-sucedidos em montar seu caso; ele nos compele a continuar a investigação… porque o ceticismo sempre é uma posição de último recurso em contextos de busca da verdade.”

Cinco: ao afirmar que fés religiosas são adotadas esmagadoramente por “acidentes de nascimento”, terei cometido a falácia genética, uma falácia informal de irrelevância? Esta falácia é cometida sempre que se argumenta que uma crença é falsa devido ao modo como se originou.

Eu não considero a falácia genética tão significativa quanto as pessoas pensam que é, especialmente em contextos religiosos. Se alguém acredita de maneira paranóica que a CIA o está espionando e descobrimos que a gênese (ou origem) de sua crença remonta ao consumo de uma droga alucinógena como o LSD, então possuímos evidências realmente boas para sermos céticos em relação a sua crença paranóica, apesar de não termos realmente demonstrado a falsidade de sua crença de qualquer outro modo, e apesar de ao procedermos assim alguém poder nos acusar de cometer a falácia genética. Portanto, de maneira similar, se podemos determinar que as origens das formas mais primitivas de Cristianismo foram criadas puramente por seres humanos antigos supersticiosos, possuímos boas bases para sermos céticos. Mas ainda mais importante para o caso, se todas as nossas crenças são completamente determinadas por nosso ambiente então esse é o caso independente do fato de que ao argumentar em defesa disso comete-se a falácia genética.

Todavia, não há nenhuma falácia genética aqui, a menos que ao explicar como os fiéis primeiro adotam sua fé eu em seguida concluísse que tal fé é falsa. Não estou afirmando que essas fés são falsas em virtude de como os crentes originalmente as adotam. Estou apenas defendendo que os crentes deveriam ser céticos a respeito de suas fés religiosas culturalmente adotadas em virtude de como eles primeiro vieram a adota-las.

Seis: Uma última objeção pergunta se isto tudo não seria circular. Teria eu meramente escolhido um sistema de crenças metafísicas diferentes baseado em fatores culturais diferentes? Eu nego que isto seja verdade, pois tenho fundamentos iniciais muito bons para começar com o ceticismo baseado em fatos sociológicos, antropológicos e psicológicos. Os procedimentos metodológicos são aqueles testes que utilizamos para investigar alguma coisa. Como procedemos ao investigar alguma coisa é uma questão separada que deve ser justificada em seus próprios termos, e eu tenho feito isto aqui. Uma pessoa não pode dizer que devo ser tão cético acerca do Teste Da Fé do Infiel quanto sou acerca das conclusões a que cheguei quando apliquei o teste, já que justifiquei o teste a partir dos fatos. Deve-se primeiro discutir o teste do infiel em seus próprios termos.

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[O texto a seguir é uma adaptação, para uma palestra proferida por John W. Loftus em março de 2009 num encontro da Evangelical Philosophical Society, do capítulo “The Outsider Test Of Faith” da primeira edição de seu livro Why I Became An Atheist]

Quando se trata de avaliar as reivindicações de veracidade do teísmo cristão, a pergunta mais importante de todas é se deveríamos abordar as evidências disponíveis pelas lentes da fé ou do ceticismo. A neutralidade completa e absoluta, embora desejável, parece ser praticamente impossível, já que a visão de mundo que utilizamos para avaliar as evidências preexiste ao olhar sobre as evidências. Assim, a questão que abordarei hoje é se deveríamos adotar uma predisposição religiosa ou cética antes de examinarmos as evidências para um sistema de crenças religiosas. Defenderei que a adoção de uma predisposição cética é a melhor escolha.

Meu Teste da Fé Do Infiel (Outsider Test Of Faith no original, doravante OTF) é apenas um dos vários argumentos que utilizo para demonstrar que ao examinarmos as evidências para um sistema de crenças religiosas uma predisposição cética é mais do que justificada. Existem evidências esmagadoras, inegáveis e incontroversas para o próprio teste que podem ser encontradas em bancos de dados sociológicos, antropológicos e psicológicos. Começarei com alguns dos dados que constituem os fundamentos para o teste. Então descreverei o teste, oferecerei alguns exemplos do que ele exige do fiel, e o defenderei contra seis objeções principais.

Existe um debate acalorado entre os apologistas cristãos sobre os “fatores de fundo” bayesianos, fatores que desempenham um papel significativo na avaliação da verossimilhança do Cristianismo em geral, da probabilidade da ressurreição de Jesus, da probabilidade da ocorrência de milagres, e do problema do mal. Mas o fator de fundo mais importante de todos para avaliarmos cognitivamente as reivindicações de verdade da fé religiosa é o plano de fundo sociológico e cultural.

O fundamento para o Teste do Infiel foi enunciado com muita propriedade pelo filósofo liberal cristão John Hick: “É evidente que em aproximadamente 99% dos casos a religião que um indivíduo professa e à qual ele adere depende de acidentes de nascimento.” Ou seja, se tivéssemos nascido na Arábia Saudita, hoje seríamos muçulmanos sunitas. Se tivéssemos nascido no Irã, seríamos muçulmanos xiitas. Se tivéssemos nascido na Índia, seríamos hindus. Se tivéssemos nascido no Japão, seríamos xintoístas. Se tivéssemos nascido na Mongólia, seríamos budistas. Se tivéssemos nascido no primeiro século a.C. em Israel, seríamos adeptos da fé judaica daquela época, e se tivéssemos nascido na Europa do ano 1000 d.C., seríamos católicos romanos. Pelos primeiros nove séculos do primeiro milênio da era comum, teríamos acreditado na teoria do resgate como explicação do modo como funciona o sacrifício de Jesus. Como os cristãos que viveram durante a Idade Média tardia, não veríamos nada de errado em queimar bruxas, torturar hereges e reconquistar Jerusalém dos “infiéis” nas Cruzadas. Estas coisas estão o mais próximo possível de serem fatos inegáveis a que se pode chegar no universo sociológico.

Houvéssemos nós vivido no Egito antigo ou na Babilônia, teríamos sido muito supersticiosos e politeístas até a medula. No mundo antigo, teríamos buscado orientação divina através da adivinhação, tentado alterar as circunstâncias por meio de mágicas e acreditado no temível mau-olhado.

Existe toda uma gama de temas e questões que admitem a diversidade também na política e na moral, diversidade esta baseada sobretudo em “acidentes de nascimento”. Homens caucasianos americanos teriam acreditado, como o presidente Andrew Jackson, no destino manifesto, nosso mandato outorgado por Deus para confiscarmos os territórios dos nativos americanos na expansão em direção ao Oeste. Ao longo do século 17 teríamos acreditado que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens, e consequentemente não teríamos permitido que recebessem a mesma educação ministrada aos homens, e muito menos que votassem. Como Thomas Jefferson e a maioria dos americanos, teríamos pensado desta maneira a respeito das pessoas negras também, que elas eram intelectualmente inferiores aos brancos, ao passo que se tivéssemos nascido nos Estados do Sul, teríamos justificado a escravidão citando a Bíblia. Se no mundo de hoje tivéssemos nascido na Faixa de Gaza palestina, odiaríamos os judeus e provavelmente desejaríamos mata-los todos.

Estes tipos de crenças religiosas, morais e políticas, baseadas em condições culturais, podem ser multiplicadas numa extensa lista de crenças que manteríamos se tivéssemos nascido numa época e/ou num local diferentes. Voltaire estava certo: “Todo homem é uma criatura da época em que vive, e poucos são capazes de elevar-se acima das idéias de seu tempo.

Condições sociais nos municiam com as crenças de controle iniciais que utilizamos desde o primeiro momento para integrar todas as nossas experiências e fatos conhecidos. Esta é a razão pela qual elas são chamadas de crenças de controle. Elas são semelhantes a viseiras. A partir do momento em que as colocamos, vemos muito bem apenas o que nossas viseiras permitam que vejamos, porque a razão e o entendimento são utilizados sobretudo a serviço destas viseiras.

Michael Shermer, um ex-cristão que tornou-se ateu, empreendeu um estudo abraangente das razões pelas quais as pessoas acreditam em Deus e em “coisas estranhas”. Ele afirma: “A maioria de nós a maioria das vezes formamos nossas crenças por uma variedade de razões que tem muito pouco a ver com evidências empíricas e raciocínio lógico. Em vez disso, variáveis como predisposições genéticas, predileções paternas, influências fraternas, pressão dos colegas, experiências educacionais e impressões da vida, todas estas coisas moldam as preferências pessoais e as inclinações emocionais que, combinadas com numerosas influências sociais e culturais, levam-nos a adotar certas crenças. Raramente qualquer de um de nós senta-se diante de uma tabela de fatos, pesa os prós e os contras e escolhe a crença mais lógica e racional, independentemente do que acreditávamos anteriormente. Em vez disso, os fatos do mundo nos alcançam através dos filtros coloridos das teorias, hipóteses, intuições, vieses e preconceitos que acumulamos ao longo de nossa vida. Então ordenamos a massa de dados e selecionamos aqueles que mais confirmam o que já acreditamos, e ignoramos ou racionalizamos os que nos desmentem. Todos fazemos isto, é claro, mas pessoas inteligentes são melhores nisso.

O filósofo cristão Robert McKim concorda em alguns aspectos. Ele escreveu: “Ao que parece possuímos uma admirável capacidade para encontrar argumentos que respaldam as posições que mantínhamos anteriormente. Nossa razão é, em larga escala, uma escrava de nossos compromissos prévios.” Consequentemente, a noção inteira de um “julgamento racional independente” é suspeita, ele afirma. Não estamos aqui negando que os apologistas cristãos defendem sua fé com razões. É claro que eles o fazem. Estes apologistas, quando bons no que fazem, são pessoas inteligentes. Porém, como Michael Shermer também nos lembra, “pessoas inteligentes, justamente porque são mais inteligentes e mais bem educadas, são capazes de dar razões intelectuais justificando as crenças que vieram a adotar por razões não-inteligentes.

A psiquiatra Dra. Valerie Tarico descreve o processo de defesa de crenças não-inteligentes por pessoas inteligentes. Ela afirma, “não são necessárias muitas hipóteses falsas para que nos engajemos numa demorada caça ao ganso.” Para ilustrar isto ela nos conta sobre o mundo mental de um esquizofrênico paranóico. Para uma pessoa assim a sensação de estar sendo perseguida pela CIA parece real. “Você pode sentar, como um psiquiatra, com um manual de diagnóstico próximo a você, e pensar: por mais bizarro que isso soe, a CIA realmente está na cola deste cara. Os argumentos são coesos, a lógica persuasiva, as evidências esmeradamente catalogadas. Tudo o que é preciso para erguer tal impressivo castelo de ilusões é uma mente clara e bem organizada e um punhado de hipóteses falsas. Indivíduos paranóicos podem ser bastante verossímeis.” Em sua opinião, é isto que os cristãos fazem e o que melhor explica por que é tão difícil abalar a fé evangélica. Eu não espero, é claro, que os cristãos concordem com ela que isto é o que fazem, mas a esta altura eles não podem negar que pessoas de fé religiosa fazem isto. O que explicaria de modo mais satisfatório porque ainda existe uma igreja Mórmon agora que as evidências genéticas demonstram conclusivamente que os nativos americanos não vieram do Oriente Médio?

Eu investiguei minha fé de dentro, enquanto a professava presumindo que fosse verdadeira. Mesmo de uma perspectiva interna com o sistema de crenças de controle cristão, eu não fui capaz de continuar a acreditar. Agora, de fora, ela não faz absolutamente nenhum sentido. Os cristãos estão do lado de dentro. Agora estou do lado de fora. Os cristãos veem as coisas de dentro. Eu vejo as coisas de fora. De dentro, ela parece verdadeira. De fora, ela parece quase bizarra. Como Mark Twain sabiamente disse, “A fácil confiança com que eu sei que a religião de outro homem é uma tolice insensata me ensina a suspeitar que a minha própria também é.

Esta questão da perspectiva interna/externa é quase um dilema e prontifica me a propor e argumentar em favor do OTF, cujo resultado torna a pressuposição do ceticismo a postura preferível quando abordamos qualquer fé religiosa, especialmente a que se professa. O Teste do Infiel é simplesmente um desafio para testar a própria fé religiosa com a presunção do ceticismo, como alguém que dela não partilha. Ela exorta os fiéis: “Teste ou examine suas crenças religiosas como se você não as professasse com a mesma presunção de ceticismo que você utiliza para testar ou examinar outras crenças religiosas.” Seu pressuposto é que quando examinamos qualquer sistema de crenças religiosas o ceticismo é justificado, já que há boas chances de que o sistema de crenças religiosas particular do qual você é adepto seja falso.

O OTF  não é diferente do que fez o príncipe na história da Cinderella, que precisou interrogar quarenta e cinco mil garotas para descobrir qual delas perdeu o sapatinho de cristal no baile da noite anterior. Todas afirmavam ser a dona do sapatinho. Portanto, definitivamente, o ceticismo é justificado. Isto é o caso especialmente quando não se dispõe de um pé correspondente empírico.

O grau de ceticismo justificado depende do número de pessoas racionais que discordam, se as pessoas que discordam encontram-se separadas em regiões geográficas distintas, a natureza dessas crenças, como elas se originaram, como elas foram pessoalmente adotadas em primeiro lugar, e os tipos de evidências que podem possivelmente ser utilizadas para decidir entre elas. Minha afirmação é que quando se trata de crenças religiosas um elevado grau de ceticismo é justificado em virtude destes fatores.

Seguramente alguém objetará inicialmente que isto é completamente draconiano em seu escopo. Por que assumir uma posição tão extrema? Eis a resposta: devido a como pessoas religiosas abordam todas as outras fés religiosas exceto a sua própria. Se alguém afirma não ser capaz de fazer isso porque ninguém pode testar qualquer coisa sem pressupostos de algum tipo, então este teste desafia o crente a substituir provisoriamente seus pressupostos. Se ele não puder realmente fazer isso, então deixe-me sugerir-lhe fazer o que René Descartes fez com uma dúvida metodológica (ou hiperbólica), apesar de eu não estar sugerindo este tipo de dúvida radical. Considere hipoteticamente sua fé da perspectiva de alguém que dela não partilha.

Se o crente se recusar a fazer isto então ele deve justificar a utilização de tal padrão duplo. Por que ele testa outras crenças religiosas de maneira diferente das suas próprias? Para alguém objetar que o que estou pedindo é injusto, ele tem o ônus da prova de mostrar por que razão sua abordagem inconsistente à fé religiosa é justificada em primeiro lugar.

Estou disposto a reconhecer que o que estou pedindo é uma coisa dificílima de se fazer. Isto porque, como o antropólogo Dr. David Eller explica, nossas crenças culturalmente herdadas são os olhos com que vemos o mundo. Não vemos a cultura. Vemos com a cultura. Nossas crenças culturalmente herdadas são quase como nossos próprios olhos. Não podemos facilmente arrancar nossos olhos para olha-los. Mas devemos tentar isto se desejarmos sinceramente examinar aquilo que nos foi ensinado a acreditar. Apenas os honestos, os consistentes e os corajosos alguma vez farão isso.

Para o teísta cristão o desafio do teste do infiel implica não mais poder citar a Bíblia para defender a alegação de que a morte de Jesus na cruz nos salvou dos pecados. O teísta cristão agora deve tentar explicar isso racionalmente. Não mais citar a Bíblia para mostrar como é possível que Jesus seja 100% Deus e 100% homem sem deixar nenhuma ponta solta. O teísta cristão deve agora tentar dar sentido a esta afirmação, como se ela proviesse de um povo antigo e supersticioso que não via problemas em acreditar que Paulo e Barnabé eram “deuses em forma humana” (Atos 14:11, 28:6). O teísta cristão também não deve presumir antes de examinar as evidências que existe uma resposta ao problema do sofrimento horrendo que existe em nosso mundo. E tem que ser inicialmente cético em acreditar em qualquer dos milagres relatados na Bíblia, assim como deveria ser cético acerca de qualquer alegação de ocorrência miraculosa nos mundo de hoje respaldando outras fés religiosas. Por que? Por que ele não pode começar acreditando na Bíblia, nem pode confiar que as pessoas próximas a ele que são teístas cristãos estejam de posse da verdade, nem confiar em suas próprias experiências religiosas anedóticas, já que tais experiências são vivenciadas por pessoas de todas as fés religiosas que diferem sobre o conteúdo cognitivo aprendido como resultado destas experiências. Ele desejaria evidências e razões para estas crenças.

O teste do infiel também desafia os fiéis a examinar as condições sociais e culturais em que vieram a adotar sua fé religiosa particular em primeiro lugar. Isto é, os fiéis devem interrogar a si próprios quem ou o que os influenciou e quais foram as verdadeiras razões para adotar sua fé em seus estágios primitivos. Cristão, apenas pergunte-se se as razões iniciais que você teve para adotar sua fé foram do tipo fortes. Apenas pense sobre os problemas que você vivenciou em suas igrejas  paralelamente aos problemas intelectuais com que você se digladiou em reuniões como essa. Se você pudesse voltar no tempo sabendo o que você sabe agora sobre como os cristãos se comportam na igreja você ainda escolheria acreditar? E aqueles argumentos iniciais que o converteram seriam considerados por você hoje simplórios e indignos de consideração. Apenas pergunte-se se você teria se tornado um mórmon, houvesse um daqueles jubilosos grupos de mórmons amistosamente te abordado naquela mesma época vulnerável de sua vida. A maioria de nós, a maior parte do tempo, não possui boas razões iniciais para aceitar nossa fé religiosa, que da época de sua adoção em diante atua como um um par de viseiras em relação a como vemos as evidências. Simplesmente terminamos acreditando no que nos foi dito para acreditar por pessoas em quem confiávamos numa cultura dominada pelo Cristianismo.

Na pior das hipóteses, um crente deveria estar disposto a submeter sua fé a um rigoroso escrutínio lendo algumas das mais conceituadas críticas à sua fé, muitas das quais foram escritas por outros crentes declarados e praticantes. A fé evangélica, por exemplo, pode ser concebida como uma pequena ramificação de um galho chamado Cristianismo, que por sua vez está ligado a uma árvore frondosa chamada religião. O debate começaria levantando-se a questão de qual Cristianismo representa o verdadeiro Cristianismo em nosso mundo hoje. Em seguida a fé cristã de hoje guarda pouca semelhança com as teologias e a ética dos Cristianismos do passado, e se assemelhará pouco aos futuros Cristianismos porque a fé cristã é como um camaleão, mudando continuamente com o progresso do conhecimento. Mas uma vez que o debate entre cristãos esteja estabelecido, por mais remota que seja essa possibilidade, o próximo debate é entre o Cristianismo e todas as outras religiões do planeta. Eu afirmo que os evangélicos não podem vencer o primeiro debate, muito menos o segundo. O antropólogo cultural david Eller está certo: “Nada é mais destrutivo para a uma religião do que as outras religiões; é como uma colisão com sua parcela gêmea de antimatéria“.

Não obstante, se após ter investigado sua fé religiosa com a presunção do ceticismo ela sobreviver à inspeção intelectual, então você pode manter sua fé religiosa. É simples assim. Se não, abandone-a como eu fiz. Suspeito que se alguém se dispuser a encarar o desafio do Teste do Infiel, então sua fé religiosa revelar-se-á problemática, frágil e vulnerável e ele a abandonará junto com todas as outras fés religiosas, como aconteceu comigo.

(…continua…)

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Já experimentou o Teste da Fé Do Infiel?

Já experimentou o Teste da Fé Do Infiel?

O Teste da Fé do Infiel de John W. Loftus é um dos argumentos antirreligiosos mais engenhosos e poderosos da história do livre-pensamento. De uma simplicidade que beira o óbvio, e baseando-se em características das crenças religiosas previamente exploradas por outros naturalistas, tem seu potencial de desafio incrementado por apelar ao senso de justiça, honestidade e reciprocidade que todo cristão sincero deveria se empenhar em cultivar. “Faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você”, é a formulação da Regra Áurea enunciada nos evangelhos. Aplicada no domínio epistemológico, poderíamos traduzi-la como “Questione as crenças alheias com o mesmo rigor com que você gostaria que as suas fossem questionadas”. É razoável presumir que o rigor com que pessoas religiosas gostariam que as suas próprias crenças fossem questionadas seja  o mesmo com que as questionam enquanto as professam. Como as alegações de evidências que sustentam essas crenças religiosas são invariavelmente fracas, qualquer que seja a religião,  segue-se que os adeptos de uma religião elevam no mínimo ligeiramente seu grau de ceticismo ao avaliar as evidências apresentadas por adeptos de religiões concorrentes à sua, ao mesmo tempo que impõem um ônus aos que a questionam maior do que eles próprios assumem entre si. Dificilmente a hipocrisia cristã terá se mostrado mais despudoradamente do que neste duplo padrão e nas esquivas apologéticas ao OTF.

Cristãos sabem intuitivamente que sua religião não está a altura do desafio. Prova disso é que em vez de aceita-lo, tentam a todo custo desacredita-lo. Alguns objetam que ele é demasiado radical, ou que ele compromete as concepções de moralidade ou o próprio ateísmo de seus proponentes. Estas e diversas outras são objeções deveras instigantes que eu discutiria com prazer, e eu esperava algo nessa linha dos que se propusessem a examina-lo. Outros, mais desesperados, brincam orwellianamente com o significado de ceticismo, afirmando ser os verdadeiros céticos, já que põem em dúvida os próprios argumentos céticos, e abrem tanto suas mentes que estas são capazes de comportar o miraculoso e o religioso que o ceticismo atrofiado filtra. Se duvida que isto seja sério, pergunte a Thomas Talbott, acadêmico cristão e autor de uma longa crítica ao OTF.

As objeções levantadas ao OTF pela pessoa que se esconde atrás do blogueiro Luciano Ayan, embora traiam um certo desespero, revelam muito mais seu despreparo para engajar-se em debates sérios e construtivos, bem como sua irrelevância intelectual. “Luciano Ayan”, que afirma ser um experiente e renomado auditor, ministrando cursos e palestras a profissionais do mundo corporativo, construiu sua reputação virtual adaptando indiscriminadamente supostas ferramentas de auditoria corporativa para a análise de discursos na esfera política. Desde seu primeiro blog, o Neoateísmo, Um delírio, vem elaborando uma longa cartilha cujas lições, ele afirma, imuniza seus leitores contra toda sorte de fraudes, embustes, manipulações e desonestidades intelectuais. Basta identificar as palavrinhas-chave nos discursos do adversário, buscar em seu banco de dados as técnicas mais apropriadas para lidar com os discursos em que estes termos ocorrem com mais frequencia e bingo! A investida é debelada, e a posição no espaço político é mantida ou recuperada.

Para a infelicidade do aspirante a formador de opinião, a realidade pode resistir a estas abordagens algorítimicas que ele propõe. Não me entendam mal quando critico o automatismo com que ele se joga nos debates. É verdade que com muita frequência os problemas e desafios com que nos deparamos são recorrentes, e geralmente, no mínimo por razões econômicas, é uma boa estratégia dispor de um arsenal previamente adquirido e calibrado para fazer frente a eles. É como nosso sistema imunológico funciona. É um dos inúmeros Bons Estratagemas endossados pela evolução por seleção natural. Mas é preciso saber distinguir os contextos em que uma resposta automática é apropriada daqueles que requerem uma boa dose de reflexão e criatividade. Esse discernimento nem o Ayan nem seus discípulos mais fiéis adquiriram (curiosamente, os que dele dispõem não se preocupam em tentar incuti-lo aos demais, sobre o que comentarei brevemente adiante).

As idéias e argumentos que venho divulgando ao público lusófono aqui neste espaço há quase um ano enquadram-se na categoria de discursos que resistem ao tratamento mecânico que o blogueiro tanto se empenhou em popularizar. Em geral, além de realizar uma triagem entre autores e publicações conceituados, antes de lançar-me ao trabalho de traduzir um artigo, pesquiso a existência de discussões sobre os pontos defendidos. Se o debate existir, e se o estado corrente do debate parecer ao menos favorável à tese principal do artigo, faço a tradução. Caso contrário, apenas registro em off as idéias que possam mostrar-se úteis em futuras discussões.

As objeções levantadas pelo Ayan não arranhariam sequer a primeira versão do argumento. Ele começa dizendo que

O fracasso do OTF reside no fato de que a tal “perspectiva externa” é tratada como um lugar de referência objetiva. Quer dizer, um estado mental no qual alguém ficaria totalmente neutro na questão religiosa, assumindo então o papel de um “julgador imparcial universal”.

Acho que fui bem-sucedido em esclarecer-lhe o equívoco com o seguinte comentário que deixei no post:

Por perspectiva externa, ele não quer dizer um ponto de vista isento de quaisquer preconcepções, muito pelo contrário. A perspectiva externa a uma fé específica é aquela de qualquer um que não partilha daquela fé; externo ao cristianismo, por exemplo, é não somente o ponto de vista dos céticos, ateus e agnósticos, como também o dos judeus, muçulmanos, hindus, budistas, e por aí vai. Coloque-se em qualquer um destes pontos de vista externos ao cristianismo, avalie o cristianismo com o mesmo grau de rigor que, de dentro do cristianismo, vc avalia estas outras fés (ou ausências de fé) e veja se o cristianismo sobrevive. (Ele não sobrevive. Se sobrevivessem não existiriam adeptos de outras religiões. E o mesmo vale para qualquer religião).

Só peço que desconsiderem a besteira colossal que escrevi entre parênteses. Em vez disso, talvez uma colocação melhor seja: “Ele não sobrevive. Se sobrevivesse, os cristãos aceitariam entusiasticamente o desafio, e as bíblias a livros de apologética poderiam exibir o selo ‘validado pelo OTF’.” Como não houve nenhuma tentativa subsequente de corrigir ou aprimorar a crítica à noção de perspectiva externa, imagino que ela tenha sido abandonada.

Para não dar o braço a torcer, Luciano Ayan em seguida lançou mão de uma de suas mais antigas e mal-compreendidas técnicas de refutação: o teste da paródia. O teste da paródia, cujo nome técnico é Método da Interpretação Natural, é uma ferramenta para testar a validade de argumentos na lógica de predicados que consiste em apresentar um contraexemplo da forma do argumento sob suspeita, ou seja uma instância da forma em que as premissas são verdadeiras e a conclusão evidentemente falsa. Contraexemplo este possivelmente instanciado em outro domínio do discurso. Deixem-me dar um exemplo para que fique claro do que estou falando. Considere o seguinte argumento:

“Todos os comunistas são favoráveis à medicina socializada e todos os socialistas são favoráveis à medicina socializada. Portanto, todos os comunistas são socialistas.”

Embora possua premissas e conclusão verdadeiras, o argumento não é lá muito convincente. Para mostrar que o argumento acima é inválido, considere o seguinte argumento que, embora possua a mesma forma do anterior, possui premissas verdadeiras e uma conclusão flagrantemente falsa (ou seja, é um contraexemplo para a forma do argumento anterior):

“Todos os homens possuem cérebros. Todas as mulheres possuem cérebros. Portanto, todas os homens são mulheres.”

Ao que tudo indica, Luciano Ayan pensa que apenas por possuir uma forma instanciável em diferentes domínios do discurso um argumento é inválido, quando o que ocorre é exatamente o contrário disso: uma forma argumentativa válida é universalmente válida, quer estejamos falando de números, idéias, sentimentos, pessoas, plantas, animais, alienígenas ou assombrações, crenças religiosas ou crenças políticas. Poderia ser que, acidentalmente, ele tivesse apresentado contraexemplos nos posts em que lançou mão desta técnica. Mas, desafortunadamente, não foi o que ocorreu. Vejam como ele tentou desacreditar o OTF:

Vamos lá a uma paródia do OTF. Chamarei de OTPF. Outsider Test of Political Faith.

1. Pessoas racionais em regiões geográficas distintas ao redor do globo, de maneira esmagadora, adotam e defendem uma vasta diversidade de fés da religião política em decorrência de sua doutrinação educacional e cultural. Esta é a tese da diversidade da religião política
2. Consequentemente, parece bastante provável que a adesão a uma fé da religião política não é meramente uma questão de julgamento racional independente mas na verdade causalmente dependente em larga escala de condições culturais. Esta é a tese da dependência da religião política.
3. Consequentemente, é altamente provável que qualquer fé da religião política adotada seja falsa.
4. De modo que a melhor maneira para se testar a fé da religião política que se adotou é assumindo a perspectiva de alguém que não partilha dela com o mesmo grau de ceticismo utilizado para avaliar outras fés da religião política. Em poucas palavras, isto resume o OTPF.

Na boa, chega a dar pena de alguém levar isso a sério. Vou agora reescrever o parágrafo de Dalila: “Coloque-se em qualquer um destes pontos de vista externos ao humanismo, avalie o humanismo com o mesmo grau de rigor que, de dentro do humanismo, vc avalia estas outras fés (ou ausências de fé) e veja se o humanismo sobrevive. (Ele não sobrevive. Se sobrevivessem não existiriam adeptos de outras religiões políticas. E o mesmo vale para qualquer religião política”. Esse argumento prova o que?  (risos)

Diante da absoluta inépcia do “Luciano Ayan”, alguém que se gaba de haver estudado e dominado a arte da erística, na compreensão e utilização de ferramentas lógicas elementares, confesso que não entendi as risadas. Você acha divertido compartilhar e recomendar a seus leitores sua própria ignorância, “Luciano Ayan”?  E este erro grotesco vem sendo cometido há no mínimo dois anos e meio, idade do post mais antigo a apresentar esta ‘técnica”, O Teste da Paródia Esmaga Feuerbach. O mais lamentável dessa história, contudo, é que entre seu público cativo há graduados em filosofia, como o Paulo Júnio, fundador do Teísmo.net, e o Francisco Razzo, estudioso de William James e Eric Voegelin, que poderiam tê-lo alertado há tempos do ridículo a que vem se expondo. Lembram-se do Carrier falando, há alguns posts atrás, de pessoas repetindo besteiras sistematicamente sem serem corrigidas por seus pares? Tamanho é o poder da ilusão com que o cristianismo enfeitiça seus adeptos. Para sua desgraça e maior descrédito diante de seu público, a tarefa de corrigi-lo, ao experiente, implacável, diplomado auditor, com inúmeras pós-graduações, especializações e cursos de aperfeiçoamento, coube a um de seus desafetos, um reles calouro numa graduação em Filosofia fazendo o primeiro curso de Lógica de sua vida.

Uma outra maneira de desafiar a solidez (não a validade) de um argumento lançando mão de uma espécie de paródia consiste em apresentar uma adaptação do argumento em disputa que leve à uma conclusão que contrarie ou contradiga a conclusão deste, já que dois argumentos com conclusões contrárias ou contraditórias não podem ser ambos sólidos. Exemplos dessa estratégia são o Argumento Transcendental Para a Inexistência de Deus, que desafia a solidez do Argumento Transcendental Para a Existência de Deus; e o Desafio do Deus Malévolo, que desafia a solidez das teodicéias mostrando que elas podem ser adaptadas para respaldar a existência de um ser supremamente maligno. Parece-me também que tal estratégia é adequada contra argumentos cujas premissas possuem um status epistêmico baixo ou questionável, o que não parece ser o caso do OTF. Então, a partir destes exemplos, um possível desafio ao OTF deveria mostrar, talvez com premissas adicionais, que aceitando-se as teses da diversidade e da dependência religiosa pode-se concluir que o método mais adequado para se avaliar a credibilidade da própria fé é com as lentes desta própria fé e com a mesma brandura de quando se a professa.

Luciano também apareceu com a acusação de que o OTF apresenta um raciocínio circular:

Vamos destruir de vez Loftus:

5. Alguém pode afirmar que adotou o mesmo grau de ceticismo utilizado para avaliar outras fés, para avaliar a sua religião.
6. Essa pessoa poderá dizer em seguida: “minha religião sobreviveu ao questionamento”.
7. O neo ateu dirá: “então você não colocou o grau de ceticismo suficiente para a sua fé”.

Quer dizer, a única forma de usar Loftus para vencer debates contra adversários é USAR O RACIOCÍNIO CIRCULAR. E como isso é uma falácia, automaticamente o neo ateu já perdeu o jogo.

Confesso que não me ficou nem um pouco claro onde é que ele enxerga a suposta circularidade (certamente porque ela não existe). Aparentemente, por circularidade o Ayan refere-se à (suposta) impossibilidade de se verificar empiricamente o grau de ceticismo que alguém empregou ao submeter sua fé ao OTF. Ao fim, só disporíamos da própria alegação do crente de que foi tão rigoroso com sua própria fé quanto o é com as fés alheias como um indicador (viciado, claro) do grau de ceticismo realmente empregado. Mas definitivamente tal não é o caso. Basta perguntar pelos critérios que alguém utiliza para estimar a probabilidade que uma dada proposição seja verdadeira ou falsa, e constatar a consistência na aplicação destes critérios. Darei dois exemplos mostrando que sim, é possível avaliar objetivamente o grau de ceticismo empregado por alguém que submeta sua fé ao OTF.

Imaginem um debate entre um ateu e um ateísta envolvendo a primeira premissa do argumento cosmológico kalam, Tudo o que começa a existir tem uma causa. O próprio William Lane Craig, ao defende-la, pede apenas que sondemos nossas intuições ordinárias, empiricamente construídas, sobre o modo como as coisas surgem, e, como não podemos intuir coisas surgindo incausadas, Craig então solicita que apliquemos esta intuição ao surgimento do próprio universo. Até aqui tudo bem. Ou seja, o critério utilizado por Craig para estimar o status epistêmico da primeira premissa do kalam é sua concordância com nossas intuições empiricamente construídas. Entretanto, ao defender a idéia da criação a partir do nada, uma noção inteiramente contraintuitiva e sem qualquer respaldo empírico, Craig se atrapalha todo, interpreta a terminologia da cosmologia do Big Bang segundo suas próprias preconcepções teológicas e abandona por completo o critério da familiaridade para estimar o status epistêmico da noção de criação a partir do nada. Ou seja, podemos ver nitidamente que Craig utiliza dois pesos e duas medidas para avaliar teses naturalistas e sua própria cosmovisão cristã, e poderíamos contesta-lo com facilidade se ele afirmasse estar sendo imparcial ao avaliar os argumentos favoráveis e contrários à existência de Deus.

Outro exemplo, também de dentro do cristianismo, mas fazer o que, são aqueles a que somos expostos com mais frequencia. De acordo com 1 Coríntios 15:14, “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” A partir deste versículo, apologistas, quando questionados sobre o que os faria abandonar sua fé, respondem que se os ossos de Cristo fossem encontrados e autenticados, eles deixariam de ser cristãos, o que é um critério absurdamente rigoroso que eles naturalmente não empregam para descartar as histórias sobre a ressurreição de Hórus, Osíris, Dionísio, Krishna ou Elvis Presley. De forma que, mais uma vez, dispomos de dados objetivos para desmentir facilmente qualquer cristão que afirme ter submetido sua própria mitologia ao mesmo padrão de avaliação que submete as mitologias alheias.

Por fim, Luciano também aparece com o seguinte desafio:

Aliás, tem uma outra refutação ao Loftus, em relação ao ceticismo entre religiões diferentes. Loftus acha que ou se aceita a idéia completa ou não se aceita nada. Um exemplo seria a refutação a uma vertente do darwinismo. Ex. o darwinismo com gene egoísta, o darwinismo com memética, o darwinismo multi-nível, etc.
O problema é que mesmo que os adeptos de cada uma questionem as outras vertentes, pode haver CONSENSO em relação a alguns cânones. Por isso, mesmo que um cristão questione um judeu quanto a este não achar Jesus um messias, ambos compartilham da crença em Deus. Mais um problema para Dalila resolver se quiser salvar Loftus.

Primeiro, a analogia com diferentes aplicações de uma teoria científica não funciona porque estas não são contempladas pelas teses da diversidade religiosa e da dependência religiosa. E mesmo se fossem, elas passariam pelo OTF. Segundo, mesmo aquele núcleo comum a sistemas de crença em tudo o mais contrários pode ser posteriormente submetido ao, e reprovado pelo OTF. Se um cristão e um judeu chegarem um judeocristianismo genérico, este híbrido mutilado pode ser confrontado com o islamismo. O teísmo genérico que surgir deste segundo embate pode ser avaliado de um ponto de vista budista, digamos. E assim por diante. De forma que não vejo como a existência de pontos de concordância entre diferentes credos possa enfraquecer minimamente o OTF.

Do que foi exposto acima, espero não ter deixado dúvidas acerca da inocuidade das críticas do Luciano Ayan ao OTF. Espero também que tanto ele como seus leitores compreendam porque eu recusei, e recusarei daqui por diante, caso ele não eleve consideravelmente o nível de sua argumentação, qualquer desafio para me envolver em longos e estéreis debates de retribuição. Tais confrontos até podem incrementar ligeiramente o volume de acesso do blog (coisa que não ocorreu anteontem porque o safado já percebeu que minhas provocações visam sobretudo beneficiar-me de sua injustificada popularidade, e não colocou nenhum link para o RM no post que discuti acima), mas intelectualmente meus dividendos (e os de meus leitores) são praticamente nulos. No fundo isso é algo que mais arrisca do que eleva minha reputação; é como aqueles jogos entre a seleção brasileira e a seleção do Tuvalu: vencer não é mais do que obrigação (na verdade chega a ser uma covardia), perder, um trauma que pode custar anos de psicanálise.

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Um adendo que foge completamente ao tópico do post refere-se à minha convicção de que as personas Luciano Ayan, Snowball e Investigador de Ateus são controlados pela mesma pessoa. O Investigador de Ateus é o caso mais simples; primeiro, o Bruno Almeida aventou esta hipótese com base no seguinte, que retiro de um e-mail que recebi dele:

1. Eu estava postando no blog dele com o nick udi-mg e ele não sabia q era eu.

2. Eu mandei um link para a watchGOD em um dos comentários, o que dava na cara que era eu.

3. Esse comentário não foi aprovado.
4. Instantes depois, chega o Investigador de Ateus dizendo que udi-mg = bruno almeida.
5. Como ele poderia saber disso, se o comentário em que eu “confessava” isso não foi publicado?
6. Eu perguntei isso e ele disse que era óbvio.
7. Eu respondi que não faz sentido ter certeza absoluta de que udi-mg era eu, desconfiar tudo bem, mas ter certeza?
8. O Luciano interveio dizendo que eu tinha postado um trecho de tal debate na wG e que alguém tinha contado para ele.
9. Pra começo de conversa, isso é mentira. Cito ele em quase todos meus tópicos, não é novidade nenhuma. Porque alguém contaria isso para ele? Outra: essa comunidade vive às moscas e ele alegou que tinha um X9 la justamente nos 15 minutos depois de publicado. Meio difícil de acreditar.
10. Por fim, essa informação é irrelevante: ele ficou sabendo que era eu por causa do link que dei. Ele não precisa explicar (muito menos inventar) como ficou sabendo. Quem precisa explicar isso é o Investigador de Ateus. Será que ele recebeu um email avisando que era eu também?
A primeira formulação deste argumento pelo Bruno num tópico da WatchGod estava bastante confusa, e eu a princípio não dei muita bola para a acusação. Mas a confirmação veio quando o “Investigador de Ateus” foi fofocar lá na caixa de comentários do post “Humanistas tentando se livrar da culpa pelo Holocausto…”. Eu estava passando por lá, vi o comentário do Investigador e passei o cursor do mouse sobre seu nick. Sabem o que eu vi? Um link para o gravatar do Ayan:  Não sei porque o printscreen não capturou o cursor do mouse, mas ele estava sobre o nick do Investigador, fazendo com que na barra inferior esquerda da página aparecesse o endereço que vocês podem ver. Eu comecei a rir daquilo e deixei esse comentário, cujo primeiro parágrafo foi deletado e que recomendava a ele que corrigisse aquele ato falho ou eu também ficaria convencido de que o Investigador era outro de seus fakes. Obviamente ele fez a correção e armou a cena de forma a parecer que eu estaria plantando provas.
Já o caso para a identidade entre Luciano Ayan e Snowball é um pouco mais complexo e não de todo conclusivo, mas bastante plausível:
1. Ambos criaram blogs com os mesmos objetivos, cujos títulos parodiam os best-sellers neoateus, e empregando a mesma abordagem e os mesmos recursos pedagógicos (postura agnóstica, tentativas de refutação de frases de efeito, diálogo fictício ilustrando a “refutação”);
2. Quando começaram, ambos utilizavam o mesmo referencial teórico: Olavo de Carvalho, a compilação de estratagemas erísticos do Schopenhauer comentada pelo Olavo, John Gray, Tomás de Aquino, William Lane Craig, acho que um pouco de C.S. Lewis e G.K. Chesterton também.

3. Os domínios .com.br de ambos os blogs foram registrados sob um mesmo cpf;

4. Na época em que esse post aqui foi publicado, o Luciano encontrava-se inativo. Ao lê-lo, fiquei com uma baita impressão de que ele havia feito uma perticipação especial anônima no QuebrandoOEncanto. Leiam e vejam se o tom não é exatamente o mesmo do Luciano;

5. Os dois blogs foram reativados simultaneamente no final do ano passado;

6. Já fui contatado por duas pessoas diferentes que afirmaram fazer parte de grupos distintos que procederam investigações independentes sobre a pessoa que controla os dois perfis. Segundo o que dizem, os resultados destas investigações consistem basicamente de confissões via conversas pelo msn. A pessoa com quem estes grupos mantiveram contato não somente confessou ser tanto o Luciano como o Snowball, como além disso entregou diversos detalhes pessoais bastante comprometedores. A esta altura, ficou difícil saber quem estava sendo feito de bobo, se o investigado ou os investigadores (ou talvez eu próprio), tamanha a bizarrice de algumas confissões. Quando eu pedi provas mais concretas e substanciais das acusações, estas pessoas interromperam o contato.

7. Por fim, nos dois testemunhos sobre sua recente desconversão postados em seu blog, o Ayan afirmou ter tido uma fase ateu from hell na adolescência após ler Nietzsche. Vejam esta resposta que o Snowball deixou em seu formspring há bastante tempo:

 Não sei se isso realmente importa para alguém, ou mesmo se alguém pelo menos alimentará suspeitas sobre a identidade entre os dois blogueiros depois de ser exposto às minhas razões para acreditar nisso. Alguns decerto acharão essas evidências insuficientes para justificar minha convicção. A estes eu digo que, se não chegam a ser evidências, podem ser consideradas circunstâncias justificadoras para uma crença “apropriadamente básica” na identidade entre Luciano Ayan e Snowball. E os que disso duvidam ficam então convidados a apresentar provas de que ambos NÃO são a mesma pessoa. Prometo avalia-las com o mesmo grau de rigor que empreguei para construir meu caso em favor da identidade entre os dois!

E chega dessa conversa de comadres. Amanhã, o primeiro capítulo da série sobre a evolução do cristianismo.

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A série que inicio hoje toma como pretexto uma objeção recorrente ao dois devastadores artigos anteriores que retirei de um dos livros do relativamente desconhecido neoateu John W. Loftus (se algum dia algum de seus livros vier a ser traduzido e publicado na íntegra por alguma editora brasileira, lembrem-se de que o Rebeldia Metafísica foi quem primeiro divulgou massivamente seu trabalho em língua portuguesa. A propósito, alguém aí tem experiência com compras no exterior? Comprei os três livros do Loftus em março, mas o Why I Became an Atheist foi enviado separadamente dos outros dois. O pacote com os outros dois, The Christian Delusion e The End Of Christianity, chegou direitinho, duas semanas após o pedido, mas o WIBA até hoje não foi entregue! Semana passada entrei em contato com a Amazon, e eles pediram que aguardasse até o dia 16 e, caso o livro não chegue até lá, ao que parece eles estão dispostos ou a me ressarcir ou a envia-lo novamente. Pra piorar, não encontrei o menor sinal do pacote em território brasileiro com o código para rastreamento fornecido).

Mas vamos ao que interessa. Alguns cristãos (assumidos como Ricardo Rocha, e enrustidos como o “Luciano Ayan” _ este último ficou tão abalado com os artigos que, não contente em dar vazão à sua fúria com o automatismo savant que lhe é característico, e frente à apatia da blogosfera cristã subsequente aos dois ataques, criou mais um fake, o Investigador de Ateus, para tomar as dores da maioria cristã ultrajada sem trair suas reais convicções religiosas. Será que ele aposentou o Snowball?) a despeito da poderosa argumentação respaldada por vasta e fidedigna bibliografia, ainda relutam em admitir que (a) o cristianismo não possui mérito algum pela revolução científica do século XVI e (b) o antissemitismo nazista em particular, e a própria doutrina nazista como um todo, radicam parcialmente nas escrituras sagradas judeocristãs e na conflituosa relação que os adeptos destas duas grandes religiões mantiveram ao longo de dois mil anos. De acordo com estes empedernidos cristãos, os artigos de Carrier e Avalos fracassam porque, (a) o cristianismo não é intrinsecamente anticientífico, podendo ser compatibilizado com os valores e a atitude favoráveis ao progresso científico e (b) o Cristianismo Positivo e o antissemitismo nazista foram uma deturpação do cristianismo original e da atitude mantida pelos cristãos para com os judeus ao longo de sua coexistência. A primeira réplica tenta salvar a malograda tese do cristianismo pró-ciência apelando à sua plasticidade camaleônica, observada desde seus primórdios na estonteante diversidade de variedades cristãs concorrentes, ao passo que o segundo recorre ao mesmo fenômeno numa tentativa frustrada de inocentar o cristianismo da parcela de responsabilidade que lhe cabe pelo horror nazista.

Tanto Carrier quanto Avalos anteciparam estas objeções em seus artigos (o que levanta sérias dúvidas sobre se o Ricardo e o Luciano realmente leram os artigos e, caso tenham lido, se os entenderam. Seria o Luciano Ayan, além de idiota savant, um analfabeto funcional?), o primeiro de relance, ao comentar a desculpa esfarrapada apresentada pelos apologistas para explicar porque o Oriente Bizantino não foi palco de nenhuma revolução científica, e o segundo explicitando com um detalhamento maior a lógica do surgimento de novas religiões a partir de dissidências no interior da forma ancestral, e do quão problemático é estabelecer um critério para discernir até que ponto uma nova variante pode ou não ser considerada uma representante genuína da forma da qual surgiu.

A rigor, a série não anula diretamente a objeção. Entretanto, deixarei a cargo dos contendores o trabalho de reflexão após a leitura do parecer de um antropólogo sobre o fênomeno da rica diversidade interna ao cristianismo, que por sua vez é um dos argumentos de suporte do “Teste da Fé do Infiel” (tradução meia boca que arranjei para The Outsider Test Of Faith [OTF]):

1. Pessoas racionais em regiões geográficas distintas ao redor do globo, de maneira esmagadora, adotam e defendem uma vasta diversidade de fés religiosas em decorrência de sua herança educacional e cultural. Esta é a tese da diversidade religiosa.

2. Consequentemente, parece bastante provável que a adesão a uma fé não é meramente uma questão de julgamento racional independente mas na verdade causalmente dependente em larga escala de condições culturais. Esta é a tese da dependência religiosa.

3. Consequentemente, é altamente provável que qualquer fé religiosa adotada seja falsa.

4. De modo que a melhor maneira para se testar a fé religiosa que se adotou é assumindo a perspectiva de alguém que não partilha dela com o mesmo grau de ceticismo utilizado para avaliar outras fés religiosas.  Em poucas palavras, isto resume o OTF.

O OTF é o coração do primeiro livro de John W. Loftus, Why I Became An Atheist, e ao contrário do Boeing 747 de Dawkins, vem desafiando e exasperando os mais talentosos e destacadados teólogos e apologistas cristãos desde que foi proposto.

Subjacente ao argumento como um todo está a incompatibilidade lógica entre as diferentes religiões, explicitada pela primeira vez por David Hume em sua Investigação Acerca do Entendimento Humano. Combinada com a Tese da Dependência Religiosa, tem como um de seus corolários a alta improbabilidade da veracidade de qualquer fé religiosa em particular; como ela enfraquece consideravelmente as reivindicações de autenticidade de qualquer fé religiosa, os que a aceitam são compelidos a posicionar-se ceticamente diante de sua própria fé. Se esta não resistir ao exame cético, a decisão mais racional é abandona-la em favor do agnostiscismo.

A seguir, um resumo não tão resumido assim do primeiro capítulo de The Christian Delusion, As Culturas do Cristianismo, escrito pelo antropólogo David Eller. E eu juro que este é o último post massivamente baseado no The Christian Delusion.

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Céticos, racionalistas e livre-pensadores contemporâneos há tempos se perguntam por que a religião sobrevive, apesar da fragilidade dos argumentos a seu favor e da superioridade esmagadora dos argumentos contrários. Ironicamente, esta questão também já foi levantada por missionários cristãos confrontados pela dificuldade em converter para o cristianismo membros de outras religiões. O caminho até a resposta passa por um conceito chave da antropologia: a cultura. [O conceito de cultura reduz o cristianismo a um fenômeno cultural como qualquer outro, operando pelos mesmos mecanismos e surtindos os mesmos efeitos.] Muito antes dos livre-pensadores contemporâneos, os missionários deram-se conta de que contra a cultura, a lógica e a evidência são inúteis. Os cristãos absorveram e empregaram com extraordinário sucesso o conceito de cultura; missiologistas desenvolveram à perfeição a arte de penetrar as barreiras culturais (língua, sistemas de valores, instituições), coopta-las e domina-las ou substitui-las por completo. Vejam que fantástico este cartaz de divulgação de um curso de aperfeiçoamento missionário:

Perspectivas sobre o Movimento Cristão Mundial, uma espécie de guia para missionários, dedica vários capítulos a ressaltar a importância crucial da cultura. Charles Kraft, um dos personagens-chave do projeto, descreve a cultura como “o nome que os antropologistas dão aos hábitos e costumes estruturados e aos pressupostos da visão de mundo subjacente pelos quais as pessoas conduzem suas vidas. A cultura (incluindo a visão de mundo) é o modo de vida de uma pessoa, seu projeto de vida, sua maneira de lidar com o ambiente físico, biológico e social em que está inserida. Ela consiste de pressupostos aprendidos e padronizados, conceitos e comportamentos, mais os artefatos resultantes (cultura material)“. Kraft continua enumerando os seguintes atributos mais avançados de uma cultura:

  • Culturas “oferecem um projeto total de vida, lidando com todos os aspectos da vida e fornecendo às pessoas uma maneira de regular suas vidas;
  • Uma cultura “é um legado do passado, aprendida como se fosse absoluta e perfeita“;
  • Culturas “fazem sentido para os que dela fazem parte”;
  • Culturas “é um sistema adaptativo, um mecanismo para fazer frente ao ambiente. Ela provê padrões e estratégias que capacitam as pessoas a se adaptar às condições físicas e sociais a seu redor”;
  • Culturas “tendem a mostrar maior ou menor integração ao longo de sua visão de mundo”;
  • Culturas “são complexas”.
  • Culturas consistem de pressupostos subjacentes a todos os valores, compromissos e comportamentos culturais;
  • Culturas fundamentam e explicam nossa percepção da realidade e nossas respostas a ela;
  • Suas premissas ou pressupostos básicos são transmitidas por sábios anciões, não pela via do raciocínio, mas assumidas como verdadeiras sem provas;
  • Organizamos nossas vidas e experiências de acordo com nossa visão de mundo e raramente a questionamos a menos que nossa experiência desafie algum de seus pressupostos.

Do que foi dito acima seguem-se três consequências relevantes para o trabalho dos missionários cristãos:

  1. O cristianismo, como qualquer religião, é parte de uma cultura. Ele é aprendido, compartilhado e integrado com outros sistemas da cultura, incluindo a economia, a formação de laços de parentesco, e sua organização política.
  2. O cristianismo, como qualquer outra religião, é uma cultura. Como Paul Hiebert frisa no mesmo volume, uma religião nunca é somente um sistema de crenças; oferece sua própria visão de mundo, um vocabulário específico com o qual falar e pensar, e formas institucionais, organizacionais e simbólicas específicas, bem como sentimentos, valores, compromissos e padrões de julgamento e avaliação. É praticamente um projeto de vida.
  3. A evangelização cristã é um tipo de comunicação intercultural e uma mudança cultural. A conversão de uma religião para outra, portanto, nunca é uma mera mudança de crenças; como Kraft nos lembra, “uma mudança cultural significativa é sempre uma questão de mudanças na visão de mundo… qualquer coisa que afete a visão de mundo de uma população afeta a cultura inteira e, naturalmente, a população que opera em termos dessa cultura.”

Autores cristãos antropologicamente esclarecidos reconhecem, a partir do que foi exposto, a pluralidade das formas que o cristianismo pode (deve) assumir para se adaptar a diferentes contextos sem rejeitar todos os aspectos das culturas em que se infiltra e sem perder sua identidade; entretanto, eles detem-se a um passo de concluir que o Cristianismo:

  • é um modo dentre vários outros de regular as vidas humanas;
  • é um legado de seu passado, evoluído ao longo do tempo e transmitido por seus ancestrais, mas considerado absoluto e perfeito;
  • consiste de suas próprias pressuposições e premissas subjacentes às suas normas, valores, compromissos e instituições;
  • fundamenta e comunica uma visão específica da realidade e as possíveis reações a essa visão;
  • Não é alcançado pela via do raciocínio, mas considerado verdadeiro sem qualquer prova; e
  • organiza as vidas e as experiências de seus seguidores – literalmente fornece-lhes os termos em que e pelos quais eles vivem – e raramente é questionado por eles.

Não obstante estarem diretamente envolvidos na produção de dados que conduzem a estas conclusões, os proselitistas ainda pensam que o cristianismo é a verdadeira cultura/visão de mundo.

Os missiologistas descreveram o pilar central da antropologia, o holismo, segundo o qual todos os aspectos da cultura são integrados e interdependentes. A integração é um processo bidirecional; uma das direções é a partir da religião para o resto da cultura, algo que os missionários jesuítas descobriram e aplicaram desde o século XVII:

A pedagogia de ataque jesuítica tencionava antes de mais nada solapar os fundamentos mundivitais dos modos de vida nativos. O mundo-da-vida é a fonte não-questionada do sentido e da ação, e diversas práticas religiosas e espirituais (animismo) estavam entretecidas na vida ordinária… Os jesuítas buscaram expulsar a figura do xamã de seu posto de supremacia no mundo-da-vida através do escárnio, da ridicularização e mostrando-se mais eficazes do que ele, inserindo-se em seu lugar. Esta foi uma estratégia pedagógica brilhante e implacável. Eles recorreram a seus conhecimentos científicos para minar a autoridade do xamã. Eles perfilaram seus próprios recursos mundivitais (a esta altura cada vez mais permeados por formas científicas de conhecimento) para implodir as bases culturais ameríndias e criar uma quinta coluna nativa no Império do Demônio.

Dentre as táticas criadas pelos jesuítas e utilizadas até hoje pelos missionários contemporâneos está o estudo e o domínio das línguas locais para capacita-los a traduzir e adaptar as idéias e doutrinas configuradas numa Europa cristã hierarquizada, patriarcal, tecnológica e obcecada pelo status para o universo mental dos nativos; munidos dos conhecimentos compilados nesta etapa preparatória, os jesuítas (e missionários modernos) deflagram uma campanha em diversas frentes contra as bases da cultura e da vida dos nativos, não descuidando mesmo de assuntos não-religiosos aparentemente secundários, como os papéis de gênero (uma das consequencias da cristianização dos nativos foi o rebaixamento do status relativamente elevado de que gozavam as mulheres na vida tribal).

Outra técnica pedagógica certeira utilizada pelos jesuítas contra os povos nativos foram os ataques verbais e a ridicularização das práticas e crenças tradicionais, intensificada para explicitar a inadequação dos sistemas de sentido dos nativos para lidar com a gradativa erosão de seu modo de vida tradicional promovida pela colonização; a previsão de fenômenos naturais (como eclipses) e a manipulação das emoções pela utilização de recursos visuais e dramáticos eram meios utilizados para aumentar a eficácia do ataque pedagógico. Táticas e mecanismos idênticos foram observados pelos antropólogos na colonização da África no século XIX.

Uma esfera não-religiosa importante a sofrer profundas reformas foi a da economia, particularmente as técnicas de cultivo. Os papéis de gênero tradicionais, em que a horticultura era uma atribuição feminina, foram invertidos, as cercas e arados tornaram-se símbolos de propriedade e força; uma nova moral econômica que estigmatizava o ócio e os primitivos modos de produção (caça e coleta) ajudou a dissolver a visão de mundo tradicional. Outros hábitos mundanos, como a higiene pessoal, a utilização de roupas, o padrão de construção de casas e as práticas da esfera doméstica e também foram alterados à imagem e semelhança dos modelos europeus.

Muitas pessoas, ateus e racionalistas inclusos, ainda pensam que, a menos que estejam vivendo em alguma sociedade primitiva, ou a menos que estejam sendo abertamente espancados pelas “crenças” religiosas alheiras, estão a salvo da influência da religião. Se o que foi exposto acima não os despertou para as múltiplos maneiras mundanas pelas quais a religião se infiltra e impregna os menores e aparentemente mais insignificantes aspectos de suas vidas, elas deveriam refletir cuidadosamente sobre o conselho de Kraft, que assegura a seus leitores que a colonização religiosa não é e não pode ser apenas um ataque frontal contra a “falsa” religião: para o proselitista cultural sagaz, “o cristianismo deve ser dirigido para a visão de mundo de um povo de modo que ele venha a influenciar cada um dos subsistemas do próprio âmago da cultura. Pessoas verdadeiramente convertidas (seja nas Américas ou além mar) precisam manifestar atitudes e comportamentos bíblicos e cristãos em toda sua vida cultural, não apenas em suas práticas religiosas“. Consequentemente, o cristianismo nas sociedades americanas e demais sociedades ocidentais, e outras religiões em outras sociedades, buscam ativa e intencionalmente a mesma direção, criando uma visão de mundo ubíqua e considerada autoevidente que em geral escapa ao questionamento crítico porque deixa de ser percebida. Tanto os Estados Unidos como o mundo ocidental em geral encontram-se saturados de Cristianismo nas esferas macro e micro de suas instituições culturais. Estejam seus habitantes cientes disso ou não – e o efeito é mais traiçoeiro se eles o ignoram – não-cristãos vivendo em sociedades dominadas pelo cristianismo  levam uma vida permeada por premissas e pressupostos cristãos. Cristãos e não-cristãos encontram-se imersos em águas culturais cristãs, e como os peixes eles geralmente consideram autoevidente a água em que nadam.

Os subsistemas mencionados por Kraft incluem todos os aspectos da cultura:

A linguagem: a própria religião é uma linguagem, com um vocabulário próprio e destituído de sentido para os de fora. Considerem por exemplo, termos como “batismo”, “purgatório”, “evangelho”, “anjo”, “demônio”, específicos do cristianismo, e dharma, karma, yuga, samsara e moksha, exclusivos do hinduísmo; ou expressões como “paciência de Jó”, “lobo em pele de cordeiro”, “ovelha perdida”, “filho pródigo”, “atirar a primeira pedra”, todas originariamente bíblicas.

Ocasiões marcantes da vida: as religiões demandam autoridade sobre eventos importantes, como o nascimento, o casamento e a morte; assim como também criam seus próprios eventos, como o batismo.

Hábitos cotidianos: a religião se intromete nos mais prosaicos aspectos da vida ordinária, como a alimentação (prescrições e restrições dietéticas); orações e graças antes, durante a após as refeições, ao acordar e ao dormir; nos nomes das pessoas, geralmente copiados dos de personagens das narrativas religiosas; orientações sobre a aparência em geral, incluindo o uso de barba, os cortes de cabelo, o estilo das roupas; e, como não poderia deixar de ser, a religião faz questão de dar palpites sobre o que as pessoas fazem em quatro paredes, incluindo com quem, quando, como e por que.

Instituições: a religião também deixa suas impressões sobre todas as instituições socialmente significativas: desde a família, passando pelas instituições educacionais e os locais de trabalho, por vezes alcançando as mais altas esferas governamentais. Se não conseguem se infiltrar e ditar as regras dentro das instituições seculares, as religiões podem chegar ao extremo de criar as suas próprias, seja pelo isolamento (como os amish e os mórmons), seja pela tomada violenta do poder (como a revolução iraniana e os talebãs) seja pela criação de seu próprio Estado (como o movimento do Êxodo Cristão nos Estados Unidos).

Tempo: a religião define a noção de tempo para seus membros, estruturando o calendário, os ciclos (semanas com descanso “sabático”), instituindo os feriados e a própria natureza do tempo, linear unidirecional (no caso dos cristãos, o tempo começa com a criação, passa pela Queda e segue inexoravelmente rumo ao Dia do Juízo e à restauração do Paraíso) ou cíclica (no caso dos hindus, por exemplo).

Espaço: a religião coloniza o espaço físico que a abriga, sacralizando os locais que supostamente foram palco de eventos importantes, os cemitérios e os templos; dando nome à ruas, bairros, cidades, etc.; ou adornando temporária (iluminação de Natal) ou permanentemente os locais, sendo o monumental Cristo Redentor o exemplo mais extremo.

Como dito anteriormente, a integração é um processo bidirecional: uma cultura sofre adaptações e é submergida pela religião, mas a religião também se adapta e é reconfigurada pela cultura em que se infiltra. No caso específico do Cristianismo, o resultado inevitável deste processo em duas mãos é a profusão exuberante de cristianismos locais e regionais que muitas vezes não se reconhecem, não se aceitam e as vezes chegam ao extremo de sequer se entenderem entre si.

Elaine Pagels descobriu tal adaptação por parte da religião ao ambiente cultural em que esta busca se estabelecer nos próprios documentos fundadores do cristianismo. Cada um dos quatro evangelhos resulta de seu momento histórico e de um ponto de vista político específicos, tendo sido escritos para alguém e contra alguém; cada um deles foi influenciado pelo inimigo ou rival do dia. Marcos, geralmente considerado o mais antigo dos quatro, “assume uma atitude conciliatória para com os romanos”, mas censura “as lideranças judaicas – o conselho de anciãos, o Sinédrio, bem como os escribas e sacerdotes de Jerusalém que rejeitaram o Messias enviado por Deus”. Este cristianismo é uma disputa entre facções cristãs. Mateus reflete a fundação de uma comunidade e uma identidade cristã distintas, apartada “dos judeus”, ou seja, “da maioria, que rejeitou o evangelho e portanto, perderam seu legado”. Lucas, como “o único autor gentio dentre os evangelistas, dirige-se aos gentios convertidos ao cristianismo que se consideram os verdadeiros herdeiros de Israel”; ao mesmo tempo, ele de certa forma faz as pazes com as autoridades judaicas. Na época de João, historicamente a última versão, uma comunidade cristã exclusiva e bastante coesa emergira, à qual era ordenado que amassem-se uns aos outros ao passo que consideravam seus oponentes judeus verdadeiras crias de Satanás.” Isto para não mencionar os evangelhos não-canônicos de Tomás, Maria Madalena e Filipe, que pintam um quadro ainda mais divergente do homem e sua missão.

Os próximos capítulos da série explorarão em detalhes o fenômeno da diversidade cristã ao longo da história em toda sua atordoante exuberância. A título de conclusão, eis a resposta para o fênomeno que intriga os livre-pensadores contemporâneos: as pessoas não são racionalmente demovidas de suas convicções religiosas porque em primeiro lugar elas não alcançaram estas convicções racionalmente. Elas não foram convencidas por argumentos, mas tiveram suas mentes colonizadas por premissas e pressupostos. Como uma forma de cultura, ela lhes parece autoevidente; compara-la ao uso de óculos ou de muletas não apreende a profundidade do processo de aculturação, já que uma cultura não é como uma prótese corretiva temporária utilizada por um convalescente – é mais como um orgão do corpo.

Eller termina seu capítulo de forma algo incoerente. Após mostrar o papel vital desempenhado pela cultura no aparato cognitivo de uma pessoa, ele justifica seu trabalho dizendo que almeja com a divulgação destes conhecimentos que tão logo as pessoas reconheçam a diversidade, a plasticidade e a relatividade de qualquer religião, elas vejam o quão pouco meritória ela é: que o que deixa de ser autoevidente muitas vezes sequer vale a pena ser considerado.

Eu, particularmente, fiquei mais desalentado do que entusiasmado.

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