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Posts Tagged ‘Neoateísmo’

por Sam Harris

A questão do livre-arbítrio permeia praticamente tudo com o que nos importamos. Moralidade, direito, política, religião, políticas públicas, relações intímas, sentimentos de culpa e realização pessoal – a maior parcela do que é distintivamente humano em nossas vidas parece depender de vermos uns aos outros como pessoas autônomas, capazes de escolhas livres. Se a comunidade científica declarasse o livre-arbítro uma ilusão, ela precipitaria uma guerra cultural muito mais beligerante do que a que tem sido travada a respeito da evolução. Sem o livre-arbítrio, pecadores e criminosos não passariam de mecanismos precariamente calibrados, e qualquer concepção de justiça que enfatizasse sua punição (em vez de sua dissuasão, reabilitação, ou apenas sua contenção) pareceria completamente incongruente. E aqueles de nós que trabalham duro e seguem as regras não “mereceríamos” nosso sucesso em qualquer sentido relevante. Não é por acaso que a maioria das pessoas acha estas conclusões repugnantes. As apostas são altas.

Na manhã do dia 23 de julho de 2007, Steven Hayes e Joshua Komisarjevsky, dois criminosos reincidentes, invadiram a residência do casal William e Jennifer Petit em Cheshire, um bairro pacato na região central de Connecticut. Eles encontraram o dr. Petit adormecido sobre um sofá na varanda. De acordo com sua confissão gravada, Komiisarjevsky deteve-se diante do homem adormecido por alguns minutos, hesitando, antes de acerta-lo na cabeça com um bastão de baseball. Ele afirmou que os gritos de sua vítima desencadearam algo em seu interior, e ele golpeou Petit com toda sua força até que ele caísse silencioso.

Os dois então amarraram as mãos e os pés de Petit e subiram as escadas para vasculhar o resto da casa. Eles encontraram Jennifer Petit e suas filhas – Hayley, de 17 anos, e Michaela de 11 – ainda adormecidas. Eles acordaram todas as três e imediatamente amarraram-nas às suas camas.

Às 7:00, Hayes foi a um posto de gasolina e comprou quatro galões de gasolina. Às 9:30, ele levou Jennifer Petit até uma agência bancária e a fez sacar 15 000 dólares em dinheiro. A conversa entre Jennifer e o caixa sugere que ela não tinha conhecimento das agressões que seu marido sofrera e acreditava que seus algozes libertariam a família ilesa.

Enquanto Hayes e a mãe das garotas estavam ausentes, Komisarjevsky distraiu-se tirando fotos de Micaela nua e se masturbando diante da garota. Quando Hayes retornou com Jennifer, os dois homens dividiram o dinheiro entre si e ponderaram brevemente o que fariam em seguida. Eles decidiram que Hayes levaria Jennifer para a sala de estar e a estupraria – o que ele de fato fez. Ele então a estrangulou, para a aparente surpresa de seu comparsa.

A esta altura, os dois homens observaram que William Petit se desvencilhara das cordas com que fora amarrado e fugira. Eles começaram a entrar em pânico. Eles rapidamente encharcaram a casa com gasolina e a incendiaram. Quando interrogados pelos policiais porque razão eles não desamarraram as duas garotas de suas camas antes de acender as chamas, Komisarjevsky disse, “Isso nem me passou pela cabeça”. As garotas morreram sufocadas. William Petit foi o único sobrevivente do ataque.

Ao ouvir sobre crimes deste tipo, a maioria de nós naturalmente sente que homens como Hayes e Komisarjevsky deveriam ser considerados moralmente responsáveis por suas ações. Estivéssemos nós próximos da família Petit, a maioria de nós se sentiria perfeitamente justificada em matar estes monstros com as próprias mãos. Faz alguma diferença para nós que Hayes tenha desde então mostrado indícios de remorso e tentado suicídio? Não realmente. E o que dizer sobre o fato de que Komisarjevsky tenha sido violentado repetidamente quando criança? Segundo seus registros, até onde ele era capaz de se lembrar, ele sabia que era “diferente” das outras pessoas, psicologicamente lesado, e capaz de uma grande frieza. Ele também afirmou ter ficado chocado com seu próprio comportamento na residência da família Petit: ele era um ladrão profissional, não um assassino, e ele não tencionara conscientemente matar ninguém. Detalhes desta natureza podem nos fazer hesitar.

Como veremos, a questão não é se podemos confiar na sinceridade dos relatos de sentimentos e intenções de criminosos como Hayes e Komisarjevsky: sejam lá quais tenham sido seus motivos conscientes, estes homens não podem saber porque eles são como são. Tampouco podemos explicar porque não somos como eles. Não importa o quão doentio eu pense que seus comportamentos sejam, sou obrigado a admitir que se eu trocasse de lugar com um destes homens, átomo por átomo, eu seria este homem: não há nenhuma parcela adicional de mim mesmo que poderia decidir ver o mundo de forma diferente ou resistir ao impulso de agredir outras pessoas. Mesmo se você acreditar que todo ser humano abriga uma alma imortal, o problema da responsabilidade permanece: não posso receber o crédito pelo fato de não possuir a alma de um psicopata. Houvesse eu verdadeiramente estado nos sapatos de Komisarjevsky em 23 de julho de 2007 – isto é, se eu tivesse seus genes, sua experiência de vida e um cérebro (ou alma) idêntico num estado idêntico – eu teria agido exatamente como ele agiu. Não existe absolutamente nenhuma posição intelectualmente respeitável da qual negar isto. O papel da sorte, portanto, parece decisivo.

Naturalmente, se descobríssemos que ambos estes homens sofrem de tumores cerebrais que explicam seu comportamento violento, nossas intuições morais se alterariam dramaticamente. Mas desordens neurológicas parece ser apenas um caso especial de eventos físicos produzindo pensamentos e ações. Compreender a neurofisiologia do cérebro, portanto, pareceria ser tão ilibatório quanto descobrir um tumor nele. Como podemos dar sentido a nossas vidas e manter as pessoas responsáveis por suas escolhas, considerando-se as origens inconscientes de nossas mentes conscientes?

O livre-arbítrio é uma ilusão. Simplesmente não somos os criadores de nossas vontades. Pensamentos e intenções emergem de causas de fundo das quais estamos inconscientes e sobre as quais não exercemos nenhum controle consciente. Não possuímos a liberdade que pensamos possuir.

O livre-arbítrio é na verdade mais do que uma ilusão (ou menos), no sentido de que ele não pode sequer ser tornado conceitualmente coerente. Ou nossas vontades são determinadas por causas anteriores e não somos responsáveis por elas, ou elas são o produto do acaso e não somos responsáveis por elas. Se a decisão de um homem de balear o presidente é determinada por certo padrão de atividade neural, que por sua vez é o produto de causas anteriores – talvez uma desafortunada coincidência de genes ruins, uma infância infeliz, noites mal dormidas e bombardeamento por raios cósmicos – o que pode possivelmente significar que sua vontade é “livre”? Ninguém jamais descreveu um modo pelo qual processos físicos e mentais poderiam surgir que atestaria a existência de tal liberdade. A maioria das ilusões assenta-se sobre bases menos frágeis do que esta.

A concepção popular do livre-arbítrio parece repousar sobre duas pressuposições: (1) que cada um de nós poderia ter se comportado diferentemente de como efetivamente se comportou no passado, e (2) que somos a fonte consciente da maior parte de nossos pensamentos e atos no presente. Como estamos prestes a ver, contudo, ambas as pressuposições são falsas.

Mas a verdade mais profunda é que o livre-arbítrio não corresponde sequer a qualquer fato subjetivo sobre nós – e a introspecção logo prova ser tão hostil à idéia quanto as leis da física o são. Volições aparentes surgem de maneira meramente espontânea (se causadas, incausadas ou probabilisticamente propensas não faz diferença alguma) e não podem ser rastreadas até um ponto de origem em nossas mentes conscientes. Um momento ou dois de auto escrutínio sério, e você poderá observar que não decide mais o próximo pensamento a ocorrer em sua mente do que a próxima ideia que escreverei.

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por Richard Carrier

A teoria moral cristã mais popular diz que é melhor sermos bons ou então arderemos eternamente no mármore do inferno, onde o fogo não se apaga e o verme nunca morre, mas se formos bons, viveremos eternamente no paraíso. Os intelectuais cristãos se exasperam com isto, mas apesar de suas lamúrias, esta é a visão mantida pelo grosso da cristandade. Teorias mais sofisticadas substituem “céu” e “inferno” por objetivos mais abstratos, tais como “é melhor que você seja bom ou Deus ficará desapontado com você”, ou “é melhor que você seja bom ou então você estará amesquinhando sua existência” e mais uma meia dúzia de outras coisas que foram propostas.[7] Mas todas equivalem à mesma coisa: um apelo a algo ruim que acontecerá se você não obedecer (e algo correspondentemente bom que acontecerá caso contrário), combinada com a hipótese de que você se importa com isso – não apenas se importa, mas se importa com isso acima de todas as outras coisas.

Portanto, todos os sistemas morais cristãos são redutíveis ao mesmo argumento:

1. Se você fizer x, A acontecerá; e se você fizer ~x, B acontecerá.
2. Sendo racional e suficientemente informado, você desejará A mais do que B.
3. Se sendo racional e suficientemente informado você desejará A mais do que B (e se B, então ~A; e A se e somente se x, então), então você deve fazer x.
4. Portanto, você deve fazer x.

Isto significa, para que a conclusão seja verdadeira, que é necessário que todas as três premissas sejam verdadeiras. A deve ser um fato empírico verdadeiro resultante da realização de x. B deve ser um fato empírico  resultante da realização de ~x. E deve ser um fato empírico verdadeiro que, quando racionais e esclarecidos, desejamos A mais do que B[8]. Também deve ser verdade que estes dois fatos implicam o que devemos fazer (3ª premissa), caso contrário declarar que a conclusão segue das premissas é um non sequitur, mesmo para um cristão (mais sobre isso adiante).

Se, por exemplo, Deus enviar para o inferno todos os que obedecem aos Dez Mandamentos, então a afirmação cristã “você deve obedecer aos Dez Mandamentos para não queimar no inferno” seria factualmente falsa, e portanto definitivamente não seria um enunciado moral verdadeiro. Igualmente, se Deus ficar efetivamente satisfeito se violarmos os Dez Mandamentos, ou se esta violação realmente valorizar nossa existência (ou [insira uma razão aqui], então a afirmação de que deveríamos obedecer aos Dez Mandamentos para não ofendermos a Deus ou depreciar nossa existência (ou seja lá o que for) é igualmente falsa. De modo que a moralidade cristã depende de suas afirmações de causa-e-efeito serem factualmente verdadeiras. Mas não há nenhuma evidência empírica de que qualquer daquelas afirmações seja verdadeira. Não há nada que nos indique que tipo de comportamento nos levará ao céu ou ao inferno. Não existem evidências empíricas sobre como Deus realmente se sente em relação a qualquer comportamento específico.[9] Não existem evidências empíricas da superioridade da moralidade cristã sobre várias outras alternativas não-cristãs solidamente argumentadas em produzir uma sociedade vicejante de pessoas felizes. Não existem nem mesmo evidências empíricas de que converter as pessoas ao Cristianismo as torna moralmente melhores – estatisticamente, quanto mais cristãos há numa sociedade, mais os problemas sociais se agravam, e não há casos registrados de um declínio abraangente e substancial (tudo o mais sendo igual).[10] Mesmo em termos de alcançar a felicidade e o bem estar pessoal, não existem evidências empíricas de que outros sistemas morais não realizem esse objetivo tão bem quanto ou até melhor do que a conversão ao Cristianismo[11]. Portanto, a moralidade cristã é totalmente não comprovada ou não comprovável. Portanto, não existem evidências que a respaldem mais do que a qualquer outra moralidade, ou mesmo a uma moralidade exatamente oposta – à parte de fatos inteiramente seculares que são visivelmente verdadeiros mesmo se o Cristianismo for falso.

O Cristianismo depende também de serem verdadeiras suas afirmações sobre os desejos humanos. Se, mesmo após esclarecermo-nos por completo, nós na verdade preferirmos arder eternamente no inferno, então não há nenhum sentido relevante em que “você deve ser bom se não quiser queimar no inferno” seja verdadeira. O mesmo vale para qualquer coisa que você substitua: se nós realmente preferirmos desagradar a Deus, ou realmente detestarmos nos sentir em paz com o mundo, ou realmente apreciarmos o amesquinhamento de nossa existência mais do que sua valorização, e todas as outras coisas, e ainda nos sentirmos dessa maneira mesmo após nos conscientizarmos de todas as consequências de cada alternativa, então nenhuma moralidade cristã é verdadeira (ao menos para nós). Mesmo se tivermos um conhecimento acurado do que Deus ordena, essas ordens não nos seriam mais imperativas do que as de qualquer outra pessoa, ou até mesmo as nossas próprias. Simplesmente não teríamos a mínima razão para nos importarmos com elas.

Podemos ficar o dia inteiro fabricando moralidades. Não temos nenhuma razão para obedecer a qualquer uma delas. No entanto, não existe nenhuma diferença entre um sistema moral cristão que não temos nenhum motivo para seguir, e qualquer sistema moral escolhido ao acaso. Nossos motivos para obedece-los são idênticos em cada caso, ou seja, identicamente ausentes. Não temos mais razões para obedecer a uma moralidade cristã não-motivante do que temos para obedecer à moralidade pitagórica (em que comer feijões é uma imoralidade grave) ou à moralidade judaica ortodoxa (em que atender a um telefonema no sábado é uma imoralidade grave). E se não há razão alguma para obedece-la, ela não é verdadeira em nenhum sentido significativo. Pode ser verdade que “Deus ordena x”, mas não será verdade que “Você deve fazer x”.

Esta é a razão pela qual o Cristianismo ingênuo é tão popular, em que céus e infernos eternos são invocados não apenas para criar um motivo, mas como se fossem os únicos motivos concebíveis – assim como assume-se que a perspectiva de não acreditar no céu ou no inferno acarreta um vertiginoso mergulho na mais despudorada devassidão (as evidências provam decisivamente o contrário, mas as crenças cristãs raramente enraízam-se na realidade – veja a nota 11). Mesmo teorias mais sofisticadas simplesmente substituem este motivo por algum outro  (tal como o amor de Deus, ou uma profunda preocupação com o que ele pensa de nós, ou um sentimento de “estar em paz com o mundo”, ou seja lá qual for o seu), sempre apelando no fim ao que nós supostamente desejamos acima de tudo, e,  portanto, desejando mais do que a qualquer outra coisa, poderíamos obte-lo agindo diferente. E no entanto, mais uma vez, se verdadeiramente desejarmos acima de tudo alguma outra coisa – se estivéssemos plenamente cientes de todas as consequências disso, e mesmo assim sempre preferirmos uma eternidade no inferno (ou seja lá qual for a ameaça) – então não haveria nenhum sentido significativo  em que “devemos” fazer qualquer coisa que os cristãos prescrevam. Suas declarações seriam simplesmente falsas – tão falsas quanto “você não deve comer feijões” ou “você não deve atender o telefone no sábado”.

De modo que todo e qualquer sistema moral cristão concebido ou deriva seu “deve” de algum “é”, ou então não faz nenhuma reivindicação de veracidade relevante. Entretanto, nenhum “é” do qual o Cristianismo deriva seus “deve’s” é empiricamente comprovável, exceto fatos que permaneceriam visivelmente verdadeiros mesmo se o Cristianismo for falso (tais como o efeito que o comportamento moral tem sobre nosso próprio bem-estar), e alegações factuais que são de uma falsidade efetivamente comprovável (tais como a de que a homossexualidade prejudica a felicidade humana ou causa danos mensuráveis à sociedade). O “é” do qual os cristãos tentam derivar seus “deve’s” é a mesma afirmação de fatos dupla que justifica qualquer outro imperativo, apenas entremeada com afirmações sobrenaturais: (1) uma afirmação sobre o que Deus é ou deseja ou fará (ou sobre como ele planejou o funcionamento do mundo, ou alguma outra coisa semelhante) e (2) uma afirmação sobre o que todos nós realmente desejamos – mais especificamente, a afirmação de que, quando racionais e suficientemente informados, desejamos as consequências da busca do objetivo acarretado por (1) mais do que as consequências de não busca-lo. Se a última for falsa (se não desejarmos este resultado mais do que o outro), então o sistema moral cristão construído sobre ela também é. O caso é o mesmo  se o comportamento prescrito não produzir as consequências acarretadas por (1). E os cristãos nunca comprovaram a eficácia de sua moralidade. Portanto, independente do que já podemos justificar sem ela, a moralidade cristã não possui fundamento algum e nada que a recomende em detrimento de qualquer outra.

Notas.

7. Para um levantamento de todas as razões que o filósofo J. P. Moreland poderia pensar (que razoavelmente abraange quase todas as razões dignas de crédito que há para se considerar), veja Carrier, Sense and Goodness, 293-311.

8. Por racional eu não quero dizer nada além de derivar conclusões de premissas  com validade lógica (ou seja, sem falácias). E por irracional eu não entendo nada além de não-racional.

9. Apesar das afirmações em contrário falaciosas ou sem fundamentos empíricos, conforme demonstrado em The Christian Delusion, e na bibliografia ali citada, e em outros capítulos do presente volume.

10. Ou seja, quando todos os indicadores são comparados, não há diferença líquida significativa entre sociedades comparáveis (por exemplo, as taxas de roubos na Austrália são mais altas que no EUA mas a taxa global de crimes na Austrália é bem menor, e a taxa de crimes na Rússia é mais alta que a dos EUA mas as condições sociais não são equivalentes). Veja, Gregory Paul, “The Chronic Dependence of Popular Religiosity upon Dysfunctional Psychosociological Conditions,” Evolutionary Psychology 7, no. 3 (2009): 398–441, e “Cross-National Correlations of Quantifiable Societal Health with Popular Religiosity and Secularism in the Prosperous Democracies: A First Look,” Journal of Religion and Society 7 (2005): http://moses.creighton.edu/JRS/2005/2005–11.html; Phil Zuckerman, Society without God: What the Least Religious Nations Can Tell Us about Contentment (New York: New York University Press, 2008); Pippa Norris and Ronald Inglehart, Sacred and Secular: Religion and Politics Worldwide (Cambridge: Cambridge University Press, 2004); Michael Shermer, The Science of Good and Evil (New York: Times Books, 2004), 235–36. Afirmações em contrário geralmente são fraudulentas, cf., e.g., Carrier, Sense and Goodness, 303–308.

11. Por exemplo, veja Ronald Inglehart, Roberto Foa, Christopher Peterson, e Christian Welzel, “Development, Freedom, and Rising Happiness,” Perspectives on Psychological Science 3, no. 4 (2008): 264–85. Quando combinado com as evidências levantadas na nota anterior, este estudo estabelece que não há evidências de que o crescimento do ateísmo leva a qualquer declínio na moralidade ou na felicidade.

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por Jaco Gericke

Uma terceira e última concepção absurda no Antigo Testamento já foi tangenciada no capítulo anterior: a idéia de que o cosmos inteiro seja uma monarquia e que a eterna morada divina de Javé nos céus funciona como um reino (Deut. 32:8-9; 1 Sam. 8:7; Dan. 6:27; etc.). Acredita-se que a morada de Javé seja um palácio em que a divindade  em pessoa está sentada num trono (Sal. 11:4; etc.) Um dos meios de transporte preferido pelo deus são as carruagens conduzidas por cavalos (2 Reis 2:11-12; 6:17; Zac. 6:1-8; etc.) Javé também precisa de um exército cuja arma predileta é a espada (Gen. 3:22; 32:1-2; Josué 5:13-15; 2 Sam. 24:16,27; etc.) Javé é sábio mas não onisciente e recorre a conselheiros (1 Reis 22:20-23; Isa. 6:3; Jer. 23:18; Sal. 82:1; 89:5; Jó 1:6; etc.) e serviços de inteligência que espionam as pessoas a fim de assegurar-se de sua lealdade (Jó 1-2; Zac. 3; 1 Cron. 21; etc.). O chifre de carneiro foi um instrumento musical popular nos domínios de Javé (Ex. 19:16); e os habitantes do Céu alimentam-se de pão e cobrem-se com vestes de puro linho branco (Sal. 78:25; Ez. 9:2; Dan. 10:5; etc.) Javé se dedica até mesmo a escrever em rolos de papiro (veja o “livro” [da vida] em Ex. 32:32; Sal. 69:29; 139:16; Dan. 7:10; 10:21; etc.).[19]

Para avaliar a impossibilidade deste estado de coisas, o leitor deveria dedicar algum tempo para refletir sobre a natureza historicamente transitória e culturalmente relativa de objetos como rolos de papiro, carruagens conduzidas por cavalos, espadas, trajes de linho e trompetes de chifre de carneiro. São todos artefatos demasiado humanos e efêmeros. Houve uma época no passado em que eles não existiam. Antes que tais coisas fossem usadas pelos humanos, as pessoas escreviam sobre pedra e argila; lutavam com clavas, arcos e lanças; e viajavam a pé. Então os próprios humanos batizaram ou inventaram estes objetos utilizados por Javé, e então os próprios objetos evoluíram ao longo do tempo. Algumas culturas nunca utilizaram estes objetos e jamais ouviram falar deles. Finalmente, devido ao desenvolvimento e às mudanças culturais e tecnológicas, tanto a instituição política da monarquia como vários dos artefatos utilizados por Javé caíram em desuso e hoje em dia a única fonte de interesse em sua preservação é sua antiguidade. Pouquíssimas pessoas atualmente escrevem em rolos de papiro, lutam com espadas, vestem-se com trajes de linho, sopram chifres de carneiro ou viajam em carruagens conduzidas por cavalos. No entanto, se os textos do Antigo Testamento são dignos de crédito, a realidade última é o deus de Israel que utiliza eternamente artefatos da Idade do Ferro. No palácio celestial de Javé, coisas como trompas de chifre de carneiro, rolos de pergaminho e carruagens existem desde sempre e continuarão a existir para sempre.

Este estado de coisas não deveria nos surpreender. Existe uma razão pela qual presume-se que a criação de Javé seja uma monarquia em vez de um distrito administrativo ou uma democracia. O “Deus” cristão absolutamente não é o objeto de adoração desde toda a eternidade passada mas a divindade nacional “Javé” de uma religião localmente restrita e demasiado recente na história. A mais antiga evidência do Javeísmo remonta a fé nesse deus a não mais do que 3000-3500 anos atrás. Isto explica porque “Deus”, também conhecido como Javé, age, fala e se comporta como um típico deus do fim da Idade do Bronze e do começo da Idade do Ferro e não é capaz senão de desempenhar o papel deste tipo de personagem nas histórias em que figura. Ele está aprisionado à concepção da natureza divina disponível à época com que eram construídos os papéis teatrais para a divindade. Por todas as suas idiossincrasias, Javé instintivamente age como um deus de seu tempo.

Neste ponto, constrangimentos conscientes e inconscientes derivados da natureza culturalmente construída do que se reivindica ser objetiva e eternamente apenas “verdadeiro” tem levado os apologistas à única maneira óbvia de salvar sua credibilidade: a reinterpretação. Vários teólogos contemporâneos perdem as estribeiras insistindo que toda a linguagem religiosa referente ao mundo divino e sobrenatural deve ser entendida simbolica ou metaforicamente. “Deus” foi apenas se “adaptando” (Calvino). Mas a teoria de que toda linguagem lidando com o mundo divino deve ser entendida como mítica ou metafórica de modo que os humanos sejam capazes de apreende-lo torna-se uma generalização pós-bíblica quando se concebe que seja aplicável a todos os textos do Antigo Testamento. Pois, conquanto algumas referências aos artefatos humanos utilizados por Javé sejam realmente deste tipo, um literalismo ingênuo também está presente em vários casos. Somente aqueles que não são capazes de admitirem para si próprios que não mais acreditam em Javé conforme representado na Bíblia precisam recorrer a tal reinterpretação para fazer a divindade parecer menos obviamente impossível. Os que acreditam em Deus precisam recalcar o fato de que sua divindade costumava ser Javé, cuja realidade é por inteiro tão obviamente absurda que demanda contínuas revisões para ocultar o fato de que os humanos de uma época específica imaginaram que a realidade em si funcionava como a única configuração política e cultural com que eles próprios estavam familiarizados.

Esta necessidade de reinterpretação do mundo divino em nenhuma outra circunstância é mais evidente do que na compreensão do conceito bíblico de “céu”. O crente contemporâneo insistirá que ele é algum tipo de dimensão espiritual e rirá da cara das pessoas que afirmaram não terem encontrado Deus no espaço. Mas o fato é, para os antigos israelitas e para o próprio Javé, que o céu realmente era, falando sem rodeios, um palácio divino nas camadas elevadas da atmosfera. Além disso, o conceito de “espírito” não tinha nada a ver com alguma coisa transcendente, mas no idioma hebraico denota uma substância imaterial embora natural como o vento. Não havia nenhum dualismo natural/sobrenatural ou físico/espiritual no sentido moderno – que é a razão pela qual a respiração de Javé foi identificada com o vento e porque ele pode insuflar vida no barro (Gen. 2). Que sua morada estivesse localizada no que atualmente chamamos de céu é evidente no movimento de entrada e saída do céu na narrativa bíblica. Javé desce até o Sinai (literalmente, Ex. 17-19), e Elias ascende ao Céu numa carruagem (literalmente, 2 Reis 2). Javé olha do alto dos céus para os humanos, e as pessoas olham para o Céu acima ao orarem (veja Sal. 14). A razão pela qual Javé cavalga uma nuvem ligeira (Isa. 19), pela qual o trovão é literalmente a voz divina (Jó 37), é porque ele e seus adoradores acreditavam que ele estava literalmente lá em cima. Esta é a razão pela qual Jesus supostamente despediu-se numa nuvem e retornará sobre uma – porque o Céu estava literalmente lá em cima. Crentes que acreditam que a terra é redonda e aceitam uma cosmologia moderna com um céu vazio e ainda assim não ficam chocados e desorientados com sua fé quando leem o Antigo Testamento definitivamente não o compreenderam.[20]

Para entender a idéia por trás desta cosmografia, mais uma vez pense numa sociedade humana ou na planta de qualquer metrópole moderna. A morada divina era considerada simplesmente a “área nobre” do cosmos – o palácio ou fortaleza nas colinas. A divindade vive “lá em cima” apartada dos humanos porque o sistema religioso prescreve uma segregação entre deuses e humanos – quando você é um deus, você não se mistura com a patuléia com frequência e é visto entre a plebe apenas raramente. Essa é a única razão (e nenhuma outra mais) pela qual o divino aparecia e falava com os humanos tão raramente. E quando ele descia, instalações prontas já estavam à sua espera – seu hotel sete estrelas privativo, o templo, cuja designação em hebraico é a mesma para palácio e que era a casa agradável, arejada e silenciosa de Deus onde uma vasta criadagem servia-lhe vinho, gordura animal e óleos vegetais duas vezes ao dia e o cobria de presentes (o verdadeiro motivo para os sacrifícios). A idéia do “alimento” de Javé não é incomum no texto (veja Ezeq. 44:7 e Lev.)

Em última instância, os cristão tendem a sugerir que a idéia de sacrifício humano como alimento para os deuses é uma prática pagã primitiva e completamente repulsiva. Muitos gostam de ressaltar as diferenças entre a Bíblia e outras religiões antigas no sentido de que o Antigo Testamento proibia tal prática. Entretanto, mais uma vez os aplausos são prematuros. Certamente, vários textos do Antigo Testamento rejeitam a idéia do sacrifício de crianças. Entretanto, as próprias fontes de redação anterior nas leis do Antigo Testamento  para a consagração do primogênito mostram que houve uma época em que se acreditava que Javé aprovava essa prática (Ex. 13:2; Lev. 27:28-29).[21] Sua aceitação é implicada pela história da filha de Jeftá (Juí. 11:29-40). Também encontramos vestígios desta prática na história de Abraão e Isaque (Gen. 22) em que Javé não via problemas com a cremação do corpo mesmo que ele por fim venha interromper o ato de seu servo a fim de manter sua promessa. Possivelmente mais negligenciada, contudo, é a idéia de que o sacrifício humano seja necessário e tenha sido reabilitada no Cristianismo. Aqui encontramos a significância teológica do sangue de um homem torturado e assassinado como uma oferenda pela expiação do pecado. Que os cristãos, também, sejam capazes de tornarem-se assim líricos acerca do assassinato de um ser humano (ou de um deus) mostra a repaganização do Javeísmo (que em si nunca foi puro e não possui essência distintiva alguma) e revela a facilidade com que a lavagem cerebral pode dessensibilizar alguém. Isto é claramente evidente quando os cristãos não acham nada fora de ordem quando consomem ritualmente a carne e o sangue de seu deus. A maioria das versões de Javé não aprovaria essa prática.

Outra verdade desconcertante e uma necessidade demasiado humana na psiquê de Javé é vislumbrada em seu motivo para criar os humanos. No mundo de Javé, o propósito da vida humana é sermos escravos (eufemisticamente chamados de “servos”) da divindade. Segundo um dos mitos, os humanos foram criados a fim de governar no lugar do deus de modo que ele não precise faze-lo (Gen. 1:26-28). Em outro mito, bastante incidentalmente em Gênesis 2:5, sugere-se que o propósito da vida humana seja trabalhar arduamente a terra (Ge. 1-2). Mais uma vez Javé mostra-se averso ao labor braçal e quer servos para fazer o trabalho que lhe é indigno. Não que isso sejá lá muito lisonjeiro, mas aos humanos foi concedido pelo menos o prazer de massagear o ego divino e em retribuição obter uma recompensa mínima (alimentação, um plano de saúde, segurança, etc.).

Os crentes contemporâneos definitivamente não consideraram com a devida seriedade os absurdos na concepção do cosmos como um tipo de cidade-estado governada por um monarca no céu cujos caprichos e extravagâncias tem que ser atendidos sob pena de morte presente no Antigo Testamento. Os cristãos sofreram uma lavagem cerebral tão profunda que a idéia de que os humanos são servos de um ditador cósmico ainda afigura-se reconfortante para muitos. Eles falam de uma relação pessoal com a divindade como se ele fosse um pai afetuoso, não percebendo que qualquer pai que trate seus filhos da maneira como Javé supostamente trata os seus sem dúvidas teria que ficar sob observação psicológica e provavelmente passaria o resto de sua vida numa prisão (embora possa-se reconhecer que a tortura eterna no inferno seja uma crença do Novo Testamento; o deus do Antigo Testamento não conhece tal lugar). Os que pensam que a Bíblia afirma a dignidade humana parecem não compreender que ela é completamente alheia à qualquer noção de direitos humanos. Mas porque os cristãos tem por muito tempo lido uma Bíblia reinterpretada, eles não são mais capazes de enxergar o que realmente se encontra lá. Os estudiosos críticos da Bíblia que estão simplesmente tentanto educa-los e esclarece-los sobre qual é realmente o caso no texto estão por conseguinte ironicamente correndo o risco de serem considerados “não-bíblicos”.

Tudo o que foi exposto acima, contudo, não faz sentido algum à luz da história da vida sobre a terra. O fato é que atualmente a idade estimada da terra é de aproximadamente 4,5 bilhões de ano, e se a representássemos num calendário anual, os humanos teriam entrado em cena durante o último minuto antes da meia-noite do dia 31 de dezembro. Humanóides e práticas religiosas tem estado por aí há dezenas de milhares de anos. Contudo, ainda hoje nos dizem para acreditar no que supõe-se ser o “verdadeiro Deus” embora seu personagem da Idade do Ferro (1200-500 a.C.) e sua configuração sobrenatural tenham entrado em cena tardiamente na história da religião em algum momento durante a segunda metade do segundo milênio antes de Cristo – e apenas acidentalmente espelha a cultura desta era. Lamento, mas isso é intragável. Não é mais digno de crédito do que reivindicar que qualquer outro deus com uma história discernível de origem e reconstrução míticas acidentalmente calhou de ser a realidade última. A palavra “absurdo” ainda possui algum sentido nos círculos religiosos hoje em dia?

Não somente o Javeísmo (agora em sua versão melhorada “Deusismo”) foi um retardatário na história das religiões, como também foi um assunto bastante restrito geograficamente. Javé e seus adoradores estavam confinados num espaço sagrado ao leste do Mediterrâneo. Os povos antigos por todo o globo nunca conheceram esta divindade, e nunca, de acordo como Antigo Testamento, Javé soube de suas existências (por exemplo, os ameríndios, os khoi-san da África do Sul, ou os aborígines australianos; confira a lista de nações em Gen. 10). O escândalo da peculiaridade é agravado quando se percebe que todas as preocupações e atributos de manifestação supostamente sobre-humanos de Javé parecem totalmente dependentes da região em que ele foi adorado. De acordo com o Antigo Testamento, ele vem das estepes desérticas ao Sul (a Pensínsula Arábica, veja Juí. 5; Hab. 3; Sal. 68) como um deus-redemoinho, um fetiche tribal de uma outrora horda nômade (segundo os indícios no Antigo Testamento, existe a possibilidade de ter sido cultuado primeiro pelos midianitas ou queneus). As regiões tropicais da terra desconhecem por completo a maldição de esterilidade árida que lançou sobre a criação, enquanto regiões como os Alpes riem-se da idéia de que a Terra Prometida seja  o paradigma da beleza para paisagens naturais. O fato é que a psicologia ambiental e a antropologia ecológica dos antigos israelitas explicam tão bem a natureza e as preocupações deste deus particular que é impossível até mesmo imaginar Javé sendo adorado pelos, digamos, esquimós.

Curiosamente o conceito de eternidade divina na Bíblia Hebraica nem sempre coincide com o filosófico. Em Isaías 43:10, chegamos a encontrar implícita a idéia de que Javé tem uma vida de duração limitada:

Vós sois as minhas testemunhas, diz Javé, o meu servo a quem escolhi, para que saibais, me acrediteis, e entendais que eu sou; antes de mim não se formou nenhum deus nem haverá nenhum depois de mim.

Olhe bem de perto mais uma vez e tente levar o texto mais a sério do que nunca. Ele não diz apenas que não há outros deuses. Ele introduz uma sequência temporal que, se todos os textos desejassem enfatizar que eram afirmações de natureza monoteísta, pareceria completamente desnecessária. No entanto a maioria das pessoas é capaz de ler esta passagem e nunca se incomodar em perguntar como é possível a Javé referir-se a um tempo “anterior” e “posterior” a ele durante o qual não existem outros deuses. Este texto dá a entender claramente que (a) existe um período temporal anterior à existência de Javé quando nenhum outro deus existiu, e (b) chegará um tempo posterior à existência de Javé durante o qual nenhum outro deus tampouco existirá. Naturalmente, esta idéia blasfema não faz sentido algum no contexto do monoteísmo filosófico, mas ela está lá e é perfeitamente compreensível no contexto das teogonias do Oriente Próximo antigo. Também os deuses nascem do caos e ao caos retornam, e nem mesmo o primeiro capítulo do Gênesis diz que Deus criou as trevas/águas. Sem dúvida alguma, esta alusão é basicamente a única de seu tipo na Bíblia (embora a noção de vida divina, ou nephesh, embora atenuada em textos como Exo. 31:18, sugira a possibilidade de degeneração), mas como os estudiosos tem desejado ver o “segundo” Isaías como um aprimoramento teológico, eles ignoraram os elementos mais primitivos de sua teologia.

(…conclui a seguir.)

Notas.

19. Para mais exemplos e discussões deste tipo de projeção sociomórfica no Antigo Testamento, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 413–15.

20. Este ponto foi magistralmente demonstrado por Babinski em “The Cosmology of the Bible.”

21. Veja Avalos, “Yahweh Is a Moral Monster,” The End Of Christianity, 226–27.

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Já experimentou o Teste da Fé Do Infiel?

Já experimentou o Teste da Fé Do Infiel?

O Teste da Fé do Infiel de John W. Loftus é um dos argumentos antirreligiosos mais engenhosos e poderosos da história do livre-pensamento. De uma simplicidade que beira o óbvio, e baseando-se em características das crenças religiosas previamente exploradas por outros naturalistas, tem seu potencial de desafio incrementado por apelar ao senso de justiça, honestidade e reciprocidade que todo cristão sincero deveria se empenhar em cultivar. “Faça aos outros o que você gostaria que fizessem a você”, é a formulação da Regra Áurea enunciada nos evangelhos. Aplicada no domínio epistemológico, poderíamos traduzi-la como “Questione as crenças alheias com o mesmo rigor com que você gostaria que as suas fossem questionadas”. É razoável presumir que o rigor com que pessoas religiosas gostariam que as suas próprias crenças fossem questionadas seja  o mesmo com que as questionam enquanto as professam. Como as alegações de evidências que sustentam essas crenças religiosas são invariavelmente fracas, qualquer que seja a religião,  segue-se que os adeptos de uma religião elevam no mínimo ligeiramente seu grau de ceticismo ao avaliar as evidências apresentadas por adeptos de religiões concorrentes à sua, ao mesmo tempo que impõem um ônus aos que a questionam maior do que eles próprios assumem entre si. Dificilmente a hipocrisia cristã terá se mostrado mais despudoradamente do que neste duplo padrão e nas esquivas apologéticas ao OTF.

Cristãos sabem intuitivamente que sua religião não está a altura do desafio. Prova disso é que em vez de aceita-lo, tentam a todo custo desacredita-lo. Alguns objetam que ele é demasiado radical, ou que ele compromete as concepções de moralidade ou o próprio ateísmo de seus proponentes. Estas e diversas outras são objeções deveras instigantes que eu discutiria com prazer, e eu esperava algo nessa linha dos que se propusessem a examina-lo. Outros, mais desesperados, brincam orwellianamente com o significado de ceticismo, afirmando ser os verdadeiros céticos, já que põem em dúvida os próprios argumentos céticos, e abrem tanto suas mentes que estas são capazes de comportar o miraculoso e o religioso que o ceticismo atrofiado filtra. Se duvida que isto seja sério, pergunte a Thomas Talbott, acadêmico cristão e autor de uma longa crítica ao OTF.

As objeções levantadas ao OTF pela pessoa que se esconde atrás do blogueiro Luciano Ayan, embora traiam um certo desespero, revelam muito mais seu despreparo para engajar-se em debates sérios e construtivos, bem como sua irrelevância intelectual. “Luciano Ayan”, que afirma ser um experiente e renomado auditor, ministrando cursos e palestras a profissionais do mundo corporativo, construiu sua reputação virtual adaptando indiscriminadamente supostas ferramentas de auditoria corporativa para a análise de discursos na esfera política. Desde seu primeiro blog, o Neoateísmo, Um delírio, vem elaborando uma longa cartilha cujas lições, ele afirma, imuniza seus leitores contra toda sorte de fraudes, embustes, manipulações e desonestidades intelectuais. Basta identificar as palavrinhas-chave nos discursos do adversário, buscar em seu banco de dados as técnicas mais apropriadas para lidar com os discursos em que estes termos ocorrem com mais frequencia e bingo! A investida é debelada, e a posição no espaço político é mantida ou recuperada.

Para a infelicidade do aspirante a formador de opinião, a realidade pode resistir a estas abordagens algorítimicas que ele propõe. Não me entendam mal quando critico o automatismo com que ele se joga nos debates. É verdade que com muita frequência os problemas e desafios com que nos deparamos são recorrentes, e geralmente, no mínimo por razões econômicas, é uma boa estratégia dispor de um arsenal previamente adquirido e calibrado para fazer frente a eles. É como nosso sistema imunológico funciona. É um dos inúmeros Bons Estratagemas endossados pela evolução por seleção natural. Mas é preciso saber distinguir os contextos em que uma resposta automática é apropriada daqueles que requerem uma boa dose de reflexão e criatividade. Esse discernimento nem o Ayan nem seus discípulos mais fiéis adquiriram (curiosamente, os que dele dispõem não se preocupam em tentar incuti-lo aos demais, sobre o que comentarei brevemente adiante).

As idéias e argumentos que venho divulgando ao público lusófono aqui neste espaço há quase um ano enquadram-se na categoria de discursos que resistem ao tratamento mecânico que o blogueiro tanto se empenhou em popularizar. Em geral, além de realizar uma triagem entre autores e publicações conceituados, antes de lançar-me ao trabalho de traduzir um artigo, pesquiso a existência de discussões sobre os pontos defendidos. Se o debate existir, e se o estado corrente do debate parecer ao menos favorável à tese principal do artigo, faço a tradução. Caso contrário, apenas registro em off as idéias que possam mostrar-se úteis em futuras discussões.

As objeções levantadas pelo Ayan não arranhariam sequer a primeira versão do argumento. Ele começa dizendo que

O fracasso do OTF reside no fato de que a tal “perspectiva externa” é tratada como um lugar de referência objetiva. Quer dizer, um estado mental no qual alguém ficaria totalmente neutro na questão religiosa, assumindo então o papel de um “julgador imparcial universal”.

Acho que fui bem-sucedido em esclarecer-lhe o equívoco com o seguinte comentário que deixei no post:

Por perspectiva externa, ele não quer dizer um ponto de vista isento de quaisquer preconcepções, muito pelo contrário. A perspectiva externa a uma fé específica é aquela de qualquer um que não partilha daquela fé; externo ao cristianismo, por exemplo, é não somente o ponto de vista dos céticos, ateus e agnósticos, como também o dos judeus, muçulmanos, hindus, budistas, e por aí vai. Coloque-se em qualquer um destes pontos de vista externos ao cristianismo, avalie o cristianismo com o mesmo grau de rigor que, de dentro do cristianismo, vc avalia estas outras fés (ou ausências de fé) e veja se o cristianismo sobrevive. (Ele não sobrevive. Se sobrevivessem não existiriam adeptos de outras religiões. E o mesmo vale para qualquer religião).

Só peço que desconsiderem a besteira colossal que escrevi entre parênteses. Em vez disso, talvez uma colocação melhor seja: “Ele não sobrevive. Se sobrevivesse, os cristãos aceitariam entusiasticamente o desafio, e as bíblias a livros de apologética poderiam exibir o selo ‘validado pelo OTF’.” Como não houve nenhuma tentativa subsequente de corrigir ou aprimorar a crítica à noção de perspectiva externa, imagino que ela tenha sido abandonada.

Para não dar o braço a torcer, Luciano Ayan em seguida lançou mão de uma de suas mais antigas e mal-compreendidas técnicas de refutação: o teste da paródia. O teste da paródia, cujo nome técnico é Método da Interpretação Natural, é uma ferramenta para testar a validade de argumentos na lógica de predicados que consiste em apresentar um contraexemplo da forma do argumento sob suspeita, ou seja uma instância da forma em que as premissas são verdadeiras e a conclusão evidentemente falsa. Contraexemplo este possivelmente instanciado em outro domínio do discurso. Deixem-me dar um exemplo para que fique claro do que estou falando. Considere o seguinte argumento:

“Todos os comunistas são favoráveis à medicina socializada e todos os socialistas são favoráveis à medicina socializada. Portanto, todos os comunistas são socialistas.”

Embora possua premissas e conclusão verdadeiras, o argumento não é lá muito convincente. Para mostrar que o argumento acima é inválido, considere o seguinte argumento que, embora possua a mesma forma do anterior, possui premissas verdadeiras e uma conclusão flagrantemente falsa (ou seja, é um contraexemplo para a forma do argumento anterior):

“Todos os homens possuem cérebros. Todas as mulheres possuem cérebros. Portanto, todas os homens são mulheres.”

Ao que tudo indica, Luciano Ayan pensa que apenas por possuir uma forma instanciável em diferentes domínios do discurso um argumento é inválido, quando o que ocorre é exatamente o contrário disso: uma forma argumentativa válida é universalmente válida, quer estejamos falando de números, idéias, sentimentos, pessoas, plantas, animais, alienígenas ou assombrações, crenças religiosas ou crenças políticas. Poderia ser que, acidentalmente, ele tivesse apresentado contraexemplos nos posts em que lançou mão desta técnica. Mas, desafortunadamente, não foi o que ocorreu. Vejam como ele tentou desacreditar o OTF:

Vamos lá a uma paródia do OTF. Chamarei de OTPF. Outsider Test of Political Faith.

1. Pessoas racionais em regiões geográficas distintas ao redor do globo, de maneira esmagadora, adotam e defendem uma vasta diversidade de fés da religião política em decorrência de sua doutrinação educacional e cultural. Esta é a tese da diversidade da religião política
2. Consequentemente, parece bastante provável que a adesão a uma fé da religião política não é meramente uma questão de julgamento racional independente mas na verdade causalmente dependente em larga escala de condições culturais. Esta é a tese da dependência da religião política.
3. Consequentemente, é altamente provável que qualquer fé da religião política adotada seja falsa.
4. De modo que a melhor maneira para se testar a fé da religião política que se adotou é assumindo a perspectiva de alguém que não partilha dela com o mesmo grau de ceticismo utilizado para avaliar outras fés da religião política. Em poucas palavras, isto resume o OTPF.

Na boa, chega a dar pena de alguém levar isso a sério. Vou agora reescrever o parágrafo de Dalila: “Coloque-se em qualquer um destes pontos de vista externos ao humanismo, avalie o humanismo com o mesmo grau de rigor que, de dentro do humanismo, vc avalia estas outras fés (ou ausências de fé) e veja se o humanismo sobrevive. (Ele não sobrevive. Se sobrevivessem não existiriam adeptos de outras religiões políticas. E o mesmo vale para qualquer religião política”. Esse argumento prova o que?  (risos)

Diante da absoluta inépcia do “Luciano Ayan”, alguém que se gaba de haver estudado e dominado a arte da erística, na compreensão e utilização de ferramentas lógicas elementares, confesso que não entendi as risadas. Você acha divertido compartilhar e recomendar a seus leitores sua própria ignorância, “Luciano Ayan”?  E este erro grotesco vem sendo cometido há no mínimo dois anos e meio, idade do post mais antigo a apresentar esta ‘técnica”, O Teste da Paródia Esmaga Feuerbach. O mais lamentável dessa história, contudo, é que entre seu público cativo há graduados em filosofia, como o Paulo Júnio, fundador do Teísmo.net, e o Francisco Razzo, estudioso de William James e Eric Voegelin, que poderiam tê-lo alertado há tempos do ridículo a que vem se expondo. Lembram-se do Carrier falando, há alguns posts atrás, de pessoas repetindo besteiras sistematicamente sem serem corrigidas por seus pares? Tamanho é o poder da ilusão com que o cristianismo enfeitiça seus adeptos. Para sua desgraça e maior descrédito diante de seu público, a tarefa de corrigi-lo, ao experiente, implacável, diplomado auditor, com inúmeras pós-graduações, especializações e cursos de aperfeiçoamento, coube a um de seus desafetos, um reles calouro numa graduação em Filosofia fazendo o primeiro curso de Lógica de sua vida.

Uma outra maneira de desafiar a solidez (não a validade) de um argumento lançando mão de uma espécie de paródia consiste em apresentar uma adaptação do argumento em disputa que leve à uma conclusão que contrarie ou contradiga a conclusão deste, já que dois argumentos com conclusões contrárias ou contraditórias não podem ser ambos sólidos. Exemplos dessa estratégia são o Argumento Transcendental Para a Inexistência de Deus, que desafia a solidez do Argumento Transcendental Para a Existência de Deus; e o Desafio do Deus Malévolo, que desafia a solidez das teodicéias mostrando que elas podem ser adaptadas para respaldar a existência de um ser supremamente maligno. Parece-me também que tal estratégia é adequada contra argumentos cujas premissas possuem um status epistêmico baixo ou questionável, o que não parece ser o caso do OTF. Então, a partir destes exemplos, um possível desafio ao OTF deveria mostrar, talvez com premissas adicionais, que aceitando-se as teses da diversidade e da dependência religiosa pode-se concluir que o método mais adequado para se avaliar a credibilidade da própria fé é com as lentes desta própria fé e com a mesma brandura de quando se a professa.

Luciano também apareceu com a acusação de que o OTF apresenta um raciocínio circular:

Vamos destruir de vez Loftus:

5. Alguém pode afirmar que adotou o mesmo grau de ceticismo utilizado para avaliar outras fés, para avaliar a sua religião.
6. Essa pessoa poderá dizer em seguida: “minha religião sobreviveu ao questionamento”.
7. O neo ateu dirá: “então você não colocou o grau de ceticismo suficiente para a sua fé”.

Quer dizer, a única forma de usar Loftus para vencer debates contra adversários é USAR O RACIOCÍNIO CIRCULAR. E como isso é uma falácia, automaticamente o neo ateu já perdeu o jogo.

Confesso que não me ficou nem um pouco claro onde é que ele enxerga a suposta circularidade (certamente porque ela não existe). Aparentemente, por circularidade o Ayan refere-se à (suposta) impossibilidade de se verificar empiricamente o grau de ceticismo que alguém empregou ao submeter sua fé ao OTF. Ao fim, só disporíamos da própria alegação do crente de que foi tão rigoroso com sua própria fé quanto o é com as fés alheias como um indicador (viciado, claro) do grau de ceticismo realmente empregado. Mas definitivamente tal não é o caso. Basta perguntar pelos critérios que alguém utiliza para estimar a probabilidade que uma dada proposição seja verdadeira ou falsa, e constatar a consistência na aplicação destes critérios. Darei dois exemplos mostrando que sim, é possível avaliar objetivamente o grau de ceticismo empregado por alguém que submeta sua fé ao OTF.

Imaginem um debate entre um ateu e um ateísta envolvendo a primeira premissa do argumento cosmológico kalam, Tudo o que começa a existir tem uma causa. O próprio William Lane Craig, ao defende-la, pede apenas que sondemos nossas intuições ordinárias, empiricamente construídas, sobre o modo como as coisas surgem, e, como não podemos intuir coisas surgindo incausadas, Craig então solicita que apliquemos esta intuição ao surgimento do próprio universo. Até aqui tudo bem. Ou seja, o critério utilizado por Craig para estimar o status epistêmico da primeira premissa do kalam é sua concordância com nossas intuições empiricamente construídas. Entretanto, ao defender a idéia da criação a partir do nada, uma noção inteiramente contraintuitiva e sem qualquer respaldo empírico, Craig se atrapalha todo, interpreta a terminologia da cosmologia do Big Bang segundo suas próprias preconcepções teológicas e abandona por completo o critério da familiaridade para estimar o status epistêmico da noção de criação a partir do nada. Ou seja, podemos ver nitidamente que Craig utiliza dois pesos e duas medidas para avaliar teses naturalistas e sua própria cosmovisão cristã, e poderíamos contesta-lo com facilidade se ele afirmasse estar sendo imparcial ao avaliar os argumentos favoráveis e contrários à existência de Deus.

Outro exemplo, também de dentro do cristianismo, mas fazer o que, são aqueles a que somos expostos com mais frequencia. De acordo com 1 Coríntios 15:14, “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” A partir deste versículo, apologistas, quando questionados sobre o que os faria abandonar sua fé, respondem que se os ossos de Cristo fossem encontrados e autenticados, eles deixariam de ser cristãos, o que é um critério absurdamente rigoroso que eles naturalmente não empregam para descartar as histórias sobre a ressurreição de Hórus, Osíris, Dionísio, Krishna ou Elvis Presley. De forma que, mais uma vez, dispomos de dados objetivos para desmentir facilmente qualquer cristão que afirme ter submetido sua própria mitologia ao mesmo padrão de avaliação que submete as mitologias alheias.

Por fim, Luciano também aparece com o seguinte desafio:

Aliás, tem uma outra refutação ao Loftus, em relação ao ceticismo entre religiões diferentes. Loftus acha que ou se aceita a idéia completa ou não se aceita nada. Um exemplo seria a refutação a uma vertente do darwinismo. Ex. o darwinismo com gene egoísta, o darwinismo com memética, o darwinismo multi-nível, etc.
O problema é que mesmo que os adeptos de cada uma questionem as outras vertentes, pode haver CONSENSO em relação a alguns cânones. Por isso, mesmo que um cristão questione um judeu quanto a este não achar Jesus um messias, ambos compartilham da crença em Deus. Mais um problema para Dalila resolver se quiser salvar Loftus.

Primeiro, a analogia com diferentes aplicações de uma teoria científica não funciona porque estas não são contempladas pelas teses da diversidade religiosa e da dependência religiosa. E mesmo se fossem, elas passariam pelo OTF. Segundo, mesmo aquele núcleo comum a sistemas de crença em tudo o mais contrários pode ser posteriormente submetido ao, e reprovado pelo OTF. Se um cristão e um judeu chegarem um judeocristianismo genérico, este híbrido mutilado pode ser confrontado com o islamismo. O teísmo genérico que surgir deste segundo embate pode ser avaliado de um ponto de vista budista, digamos. E assim por diante. De forma que não vejo como a existência de pontos de concordância entre diferentes credos possa enfraquecer minimamente o OTF.

Do que foi exposto acima, espero não ter deixado dúvidas acerca da inocuidade das críticas do Luciano Ayan ao OTF. Espero também que tanto ele como seus leitores compreendam porque eu recusei, e recusarei daqui por diante, caso ele não eleve consideravelmente o nível de sua argumentação, qualquer desafio para me envolver em longos e estéreis debates de retribuição. Tais confrontos até podem incrementar ligeiramente o volume de acesso do blog (coisa que não ocorreu anteontem porque o safado já percebeu que minhas provocações visam sobretudo beneficiar-me de sua injustificada popularidade, e não colocou nenhum link para o RM no post que discuti acima), mas intelectualmente meus dividendos (e os de meus leitores) são praticamente nulos. No fundo isso é algo que mais arrisca do que eleva minha reputação; é como aqueles jogos entre a seleção brasileira e a seleção do Tuvalu: vencer não é mais do que obrigação (na verdade chega a ser uma covardia), perder, um trauma que pode custar anos de psicanálise.

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Um adendo que foge completamente ao tópico do post refere-se à minha convicção de que as personas Luciano Ayan, Snowball e Investigador de Ateus são controlados pela mesma pessoa. O Investigador de Ateus é o caso mais simples; primeiro, o Bruno Almeida aventou esta hipótese com base no seguinte, que retiro de um e-mail que recebi dele:

1. Eu estava postando no blog dele com o nick udi-mg e ele não sabia q era eu.

2. Eu mandei um link para a watchGOD em um dos comentários, o que dava na cara que era eu.

3. Esse comentário não foi aprovado.
4. Instantes depois, chega o Investigador de Ateus dizendo que udi-mg = bruno almeida.
5. Como ele poderia saber disso, se o comentário em que eu “confessava” isso não foi publicado?
6. Eu perguntei isso e ele disse que era óbvio.
7. Eu respondi que não faz sentido ter certeza absoluta de que udi-mg era eu, desconfiar tudo bem, mas ter certeza?
8. O Luciano interveio dizendo que eu tinha postado um trecho de tal debate na wG e que alguém tinha contado para ele.
9. Pra começo de conversa, isso é mentira. Cito ele em quase todos meus tópicos, não é novidade nenhuma. Porque alguém contaria isso para ele? Outra: essa comunidade vive às moscas e ele alegou que tinha um X9 la justamente nos 15 minutos depois de publicado. Meio difícil de acreditar.
10. Por fim, essa informação é irrelevante: ele ficou sabendo que era eu por causa do link que dei. Ele não precisa explicar (muito menos inventar) como ficou sabendo. Quem precisa explicar isso é o Investigador de Ateus. Será que ele recebeu um email avisando que era eu também?
A primeira formulação deste argumento pelo Bruno num tópico da WatchGod estava bastante confusa, e eu a princípio não dei muita bola para a acusação. Mas a confirmação veio quando o “Investigador de Ateus” foi fofocar lá na caixa de comentários do post “Humanistas tentando se livrar da culpa pelo Holocausto…”. Eu estava passando por lá, vi o comentário do Investigador e passei o cursor do mouse sobre seu nick. Sabem o que eu vi? Um link para o gravatar do Ayan:  Não sei porque o printscreen não capturou o cursor do mouse, mas ele estava sobre o nick do Investigador, fazendo com que na barra inferior esquerda da página aparecesse o endereço que vocês podem ver. Eu comecei a rir daquilo e deixei esse comentário, cujo primeiro parágrafo foi deletado e que recomendava a ele que corrigisse aquele ato falho ou eu também ficaria convencido de que o Investigador era outro de seus fakes. Obviamente ele fez a correção e armou a cena de forma a parecer que eu estaria plantando provas.
Já o caso para a identidade entre Luciano Ayan e Snowball é um pouco mais complexo e não de todo conclusivo, mas bastante plausível:
1. Ambos criaram blogs com os mesmos objetivos, cujos títulos parodiam os best-sellers neoateus, e empregando a mesma abordagem e os mesmos recursos pedagógicos (postura agnóstica, tentativas de refutação de frases de efeito, diálogo fictício ilustrando a “refutação”);
2. Quando começaram, ambos utilizavam o mesmo referencial teórico: Olavo de Carvalho, a compilação de estratagemas erísticos do Schopenhauer comentada pelo Olavo, John Gray, Tomás de Aquino, William Lane Craig, acho que um pouco de C.S. Lewis e G.K. Chesterton também.

3. Os domínios .com.br de ambos os blogs foram registrados sob um mesmo cpf;

4. Na época em que esse post aqui foi publicado, o Luciano encontrava-se inativo. Ao lê-lo, fiquei com uma baita impressão de que ele havia feito uma perticipação especial anônima no QuebrandoOEncanto. Leiam e vejam se o tom não é exatamente o mesmo do Luciano;

5. Os dois blogs foram reativados simultaneamente no final do ano passado;

6. Já fui contatado por duas pessoas diferentes que afirmaram fazer parte de grupos distintos que procederam investigações independentes sobre a pessoa que controla os dois perfis. Segundo o que dizem, os resultados destas investigações consistem basicamente de confissões via conversas pelo msn. A pessoa com quem estes grupos mantiveram contato não somente confessou ser tanto o Luciano como o Snowball, como além disso entregou diversos detalhes pessoais bastante comprometedores. A esta altura, ficou difícil saber quem estava sendo feito de bobo, se o investigado ou os investigadores (ou talvez eu próprio), tamanha a bizarrice de algumas confissões. Quando eu pedi provas mais concretas e substanciais das acusações, estas pessoas interromperam o contato.

7. Por fim, nos dois testemunhos sobre sua recente desconversão postados em seu blog, o Ayan afirmou ter tido uma fase ateu from hell na adolescência após ler Nietzsche. Vejam esta resposta que o Snowball deixou em seu formspring há bastante tempo:

 Não sei se isso realmente importa para alguém, ou mesmo se alguém pelo menos alimentará suspeitas sobre a identidade entre os dois blogueiros depois de ser exposto às minhas razões para acreditar nisso. Alguns decerto acharão essas evidências insuficientes para justificar minha convicção. A estes eu digo que, se não chegam a ser evidências, podem ser consideradas circunstâncias justificadoras para uma crença “apropriadamente básica” na identidade entre Luciano Ayan e Snowball. E os que disso duvidam ficam então convidados a apresentar provas de que ambos NÃO são a mesma pessoa. Prometo avalia-las com o mesmo grau de rigor que empreguei para construir meu caso em favor da identidade entre os dois!

E chega dessa conversa de comadres. Amanhã, o primeiro capítulo da série sobre a evolução do cristianismo.

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Título Original: O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto

Autor:  Hector Avalos, PhD

Fonte: The Christian Delusion, págs. 368-395 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2010 )

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Hector Avalos (nascido em Nogales, México, em 8 de Outubro de 1958) é professor de Estudos Religiosos na Iowa University State e autor de diversos livros sobre religião. Ele é ex-pastor pentecostal e ex-criança evangelista.

Ele possui um doutorado em Estudos do Oriente Próximo e da Bíblia Hebraica pela Harvard University (1991), um mestrado em Estudos Teológicos pela Harvard Divinity School (1985) e um bacharelado em Antropologia pela University of Arizona (1982).

Avalos foi admitido na Iowa University no Outono de 1993 após completar seu pós-doutorado (1991-93) nos departamentos de Antropologia e Estudos Religiosos na University of North Carolina em Chapel Hill. Em 1996 Avalos foi eleito Professor do Ano na Iowa State University, onde também foi eleito Melhor Professor no biênio 2003-04. Outros prêmios incluem The Early Achievement in Research and Creative Activity Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996), e the Outstanding Professor Award (College of Liberal Arts and Sciences, 1996).

Avalos é internacionalmente reconhecido por sua ferrenha oposição ao design inteligente e ao movimento neocriacionista, sendo frequentemente associado a Guillermo Gonzalez, um astrofísico defensor do design inteligente a quem foi negada a nomeação para um cargo na Iowa State University em 2007. Avalos corredigiu uma declaração contra o design inteligente em 2005, que por fim foi subscrita por 130 membros da Iowa University State. Esta declaração foi adotada como modelo para outras declarações pela University of Northern Iowa e pela University of Iowa. Ambos Gonzalez e Avalos aparecem no filme Expelled: No Intelligence Allowed (2008).

Avalos é um ateu militante e um defensor da ética humanista secular.

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Em sua réplica às acusações dos autores neoateus de que a religião levou a matanças em larga escala, Dinesh D’Souza, o comentarista conservador, assegura-nos que “o nazismo… foi uma filosofia secular e antirreligiosa que, de modo bastante estranho, compartilhou diversos elementos com o comunismo[1].” Desse modo, D’Souza é capaz de responsabilizar o ateísmo na Alemanha Nazista por 10 milhões de mortes, incluindo as de 6 milhões de judeus. De fato, para D’Souza, os regimes ateístas de Joseph Stalin e Mao Zedong ocupam os dois primeiros lugares no ranking da violência ateísta. De um modo geral, D’Souza afirma que estes três grandes regimes ateístas assassinaram cerca de 100 milhões de pessoas[2].

D’Souza exemplifica à perfeição a categoria dos apologistas cristãos cuja melhor resposta aos genocídios cometidos por autoproclamados cristãos é afirmar que os ateus assassinaram ainda mais. Com efeito, D’Souza calcula que “as mortes causadas por regimes cristãos ao longo de um período de 500 anos equivalem a apenas um porcento das mortes causadas por Stalin, Hitler e Mao num intervalo de poucas décadas”.[3] Bruxas e judeus são alguns dos grupos que D’Souza relutantemente admite que podem ter sido assassinados em decorrência da violência cristã.

Já discuti extensamente a falácia de conceber a violência estalinista em termos de ateísmo[4]. A maior parcela da violência estalinista resultou da coletivização forçada, e documentos publicados recentemente mostram a cumplicidade das autoridades clericais com a agenda estalinista.[5] D’Souza não fornece um único documento ou declaração de Stalin mostrando que ele estava coletivizando ou assassinando por razões ateístas.

Além disso, o comunismo, entendido como um sistema de propriedade coletivizada, é uma noção bíblica já encontrada em Atos 4:32-37. Esse sistema comunista cristão também resultou no assassinato de um casal (Atos 5:1-11) que quebrou sua promessa de renunciar à suas posses. Portanto, o princípio de matar os que não se resignassem à coletivização de suas propriedades é bíblico. A defesa de que o motivo pelo qual Ananias e Safira foram mortos foi simplesmente mentir sobre a entrega de suas posses negligencia a brutalidade do fato de que o valor da vida foi colocado abaixo do valor da renúncia às próprias posses. Pois em vez de apenas bani-los da comunidade, eles foram mortos. Stalin ou Mao provavelmente teriam feito a mesma coisa. Como o comunismo é defendido por alguns autores bíblicos, os assassinatos maoístas e estalinistas não podem ser atribuídos ao ateísmo sem mais nem menos, na medida em que a coletivização forçada pode ser letal tanto em sua forma ateísta como na cristã. (Nota do tradutor: não somente isso, como mesmo intérpretes modernos da doutrina cristã, como o influente apologista inglês C.S. Lewis, reconhecem que no aspecto econômico, uma sociedade construída sob princípios cristãos “seria o que se chama hoje em dia ‘de esquerda'(…) sua vida econômica seria bastante socialista“. Para maiores detalhes vejam o capítulo 3 do terceiro livro de Cristianismo Puro e Simples, Conduta Cristã – Moralidade Social)

Além disso, D’Souza não possui a competência necessária para avaliar as alegações de violência maoísta porque tal tarefa requer um treinamento extensivo na língua e nos documentos chineses para averiguar a acurácia das informações fornecidas pelas fontes inglesas. Como eu também careço de especialização no idioma e na cultura chinesa para avaliar a violência maoísta, não abordarei o maoísmo aqui. O que sabemos é que D’Souza não apresenta uma única citação de Mao ou mesmo de algum documento chinês traduzido para respaldar suas asserções de que Mao assassinou por causa do ateísmo.

Em todo caso, este artigo analisará em grande profundidade o argumento de que as mortes causadas por Hitler deveriam ser atribuídas a algum tipo de ateísmo darwinista, algo enfaticamente defendido por Richard Weikart em seu livro From Darwin to Hitler (2004)[6]. O livro de Weikart é uma das fontes para os pronunciamentos de D’Souza. Na verdade, demonstrarei que:

  • O Holocausto nazista, em vez de resultar de algum tipo de ateísmo darwinista, é efetivamente a mais trágica consequência de uma longa história de racismo e antijudaísmo cristãos.
  • O Nazismo assassinou pessoas por sua etnicidade ou religião seguindo princípios enunciados na Bíblia.

Além disso, mostrarei que diversas alegações de D’Souza apoiam-se em péssimas técnicas de pesquisa histórica e num conhecimento superficial do antijudaísmo cristão.

Princípios Éticos e Números

De acordo com a Convenção das Nações Unidas contra o Genocídio (também chamada de Primeira Convenção de Genebra), o termo genocídio descreve “atos cometidos com o objetivo de destruir, parcial ou totalmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”[7]. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo religioso ou um grupo étnico. Não existe nenhuma distinção ética entre assassinar um grupo racial ou um grupo nacional. Todos são igualmente proibidos pelos padrões das Nações Unidas. Isto é importante porque D’Souza muitas vezes tenta atenuar a violência religiosa alegando, geralmente sem respaldo documental, que alguns atos atribuídos à violência religiosa são na verdade casos de violência étnica ou racial.

Ademais, D’Souza muitas vezes deixa inexplicado o que há nos grupos étnicos antagônicos que os torna tão mutuamente hostis. D’Souza falha em ver que a etnicidade pode ser criada e/ou exacerbada por diferenças religiosas. Por exemplo, segundo os relatos bíblicos, a criação da etnia hebreia remonta à ordem para que Abraão desse início à sua própria linhagem separada (Gênesis 12:1-7), embora ele e sua família, a esta altura, não fossem “etnicamente” distintos do resto de sua tribo[8]. Além disso, a linhagem de Abraão diferenciou-se pela adesão ao monoteísmo e pelo adoção de algumas práticas religiosas obrigatórias (por exemplo, a endogamia, a circuncisão) que os apartou de seus vizinhos (veja em Gênesis 17:12, 24:3-4). Um fênomeno similar ocorreu entre cristãos e judeus. O conflito inicial era entre judeus que aceitaram Jesus como o Messias e judeus que não o fizeram (veja em João 5:18, Atos 17:2-5, Gálatas 2:11-16).

Com efeito, tais judeus não diferiam “etnicamente” uns dos outros. Não obstante seja claro que alguns personagens no Novo Testamento (NT) consideravam-se judeus e cristãos, ao fim, os “judeus” passaram a ser os que não aceitaram Jesus como o Cristo, conservando a religião tradicional de seus ancestrais. Mais tarde, a Igreja Católica reforçou a separação da identidade religiosa dos judeus através de leis matrimoniais, restrições profissionais, segregação em guetos e utilização obrigatória de trajes característicos, o que os tornou alvos ainda mais distintos e ainda mais facilmente identificáveis[9]. Todavia, foi algo percebido como um antagonismo judaico à figura de Cristo o que muitas vezes foi apresentado oficialmente como a razão primária para tais ações. Assim, quando o Papa Paulo IV publicou em 1555 sua Cum Nimis Absurdum, que estabeleceu a segregação dos judeus num gueto, sua justificativa introdutória foi que os judeus “por sua própria culpa entregaram-se à eterna servidão”[10]. Portanto, não é possível dissociar religião e etnicidade tão facilmente quando D’Souza tenta fazer.

D’Souza também ressalta mais os números do que o princípio ético de que é errado assassinar grupos de seres humanos em virtude de sua raça, etnicidade, nacionalidade ou religião. Mas se, como D’Souza aparentemente pensa, o genocídio é sempre condenável, então os números não importam tanto quanto o princípio. Se D’Souza não pensa que o genocídio é sempre condenável, então ele não é menos relativista moral do que os ateus, e agora teríamos somente suas razões arbitrárias para justifica-lo.

Portanto, suponhamos que dois grupos genocidas, X e Y, estivessem seguindo o mesmo princípio de assassinar todos os membros de algum grupo que eles escolheram por razões étnicas ou religiosas. Chamaremos as vítimas do grupo X de Alvo 1 e as vítimas do grupo Y de Alvo 2. Contudo, suponhamos também que o Alvo 1 seja uma tribo com apenas 1000 pessoas, enquanto o Alvo 2 seja um grupo religioso composto por um milhão de pessoas. Em forma de tabela:

Agora, a repreensibilidade do princípio do genocídio mudaria se o grupo X assassina apenas mil indivíduos ao passo que o grupo Y assassina um milhão? É claro que não, porque podemos supor razoavelmente que se o Alvo 1 possuísse um milhão de membros, então o Grupo X poderia ter assassinado um milhão de indivíduos.

De modo que um truque de ilusionismo está sendo empregado por D’Souza em seu apelo aos números brutos, na medida em que ele imagina que o Cristianismo é de alguma maneira superior simplesmente porque seus representantes tencionaram eliminar grupos menos populosos. Considere que o próprio D’Souza admite que a caça às bruxas cristã assassinou cerca de 100 000 pessoas na Europa[11]. Mas se o princípio de assassinar bruxas continuasse válido, então 10 milhões de bruxas poderiam ter sido assassinadas houvessem os caçadores de bruxas encontrado e matado esse contingente.

O fato de termos somente 100 000 vítimas da caça às bruxas significa apenas que o grupo alvo foi menor, mas não que o objetivo de extermínio total foi diferente. Assim, devemos julgar a moralidade do genocídio não somente por números absolutos de pessoas assassinadas como também pela parcela do grupo alvo marcada para morrer. Como a meta de extermínio presumida para ambos, Hitler ou para os inquisidores cristãos, é de 100%, a repreensibilidade moral de Hitler e dos inquisidores é a mesma. Seus atos genocidas também seriam igualmente condenados pelo padrão das Nações Unidas.

Portanto, a única coisa que D’Souza conseguiu foi mostrar que o Cristianismo não é moralmente superior em seus princípios de genocídio. Cristãos podem e tem procurado assassinar grupos inteiros de pessoas. É um mero acidente histórico que os saldos dos regimes ateístas sejam maiores em comparação com os regimes cristãos, mesmo se concedermos a tese errônea de que Hitler representou um regime ateísta. Caso contrário, o argumento de D’souza é semelhante a afirmar que a Hitler deveria ser dado o crédito por assassinar apenas 6 milhões de judeus porque este contingente foi o máximo que ele conseguiu arrebanhar.

Nazismo e Antijudaísmo Cristão

Ao contrário da polêmica tese defendida por D’Souza de que o nazismo é uma “filosofia antirreligiosa”, o nazismo na verdade é um capítulo da longa história do antijudaísmo cristão. O nazismo não representa um desvio radical das atitudes dos cristãos tradicionais em relação aos judeus. Isto é reconhecido pelo historiador católico Jose M. Sanchez: “Há poucas dúvidas de que o Holocausto remonta à milenar hostilidade dos cristãos contra os judeus[12].

O fato de que o nazismo é simplesmente uma forma modernizada de antijudaísmo cristão é comprovado pelo quão estreitamente o plano nazista para os judeus se assemelha ao do fundador do Cristianismo Protestante, Martinho Lutero (1483-1546). A fim de compreender esta conexão, apresento um resumo extraído do plano de sete pontos de Lutero, publicado em 1543 em seu tratado, Dos judeus e suas mentiras (Nota do Tradutor: versões digitalizadas de uma tradução deste opúsculo são largamente disponibilizadas em sites antissemitas e neonazistas. Por razões óbvias não colocarei nenhum link aqui demonstrando isso, mas uma busca no Google confirma facilmente o que afirmo):

Primeiro, recomendo atear fogo às suas sinagogas e escolas e cobrir com imundície tudo o que não for reduzido à cinzas, de modo que nenhum homem veja novamente uma pedra ou uma brasa deles.

Isto deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus possa ver que somos cristãos, e não perdoamos ou toleramos tais ofensas e blasfêmias contra seu filho e seus seguidores…

Segundo, eu recomendo que suas casas também sejam destruídas…

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e escritos talmúdicos, em que tais idolatrias, mentiras, blasfêmias e indecências são ensinadas, lhes sejam tomados.

Quarto, eu recomendo que seus rabinos sejam proibidos de ensinar doravante sob pena de perder a vida

Quinto, eu recomendo que o salvo-conduto nas estradas seja abolido completamente para os judeus.

Sexto, eu recomendo que a usura lhes seja proibida, e que todo o seu dinheiro e todas os seus tesouros em ouro e prata sejam confiscados e colocados sob custódia…

Sétimo, recomendo colocar um mangual, um machado, uma enxada, uma pá, uma roca ou um eixo nas mãos de todos os jovens judeus e judias e deixa-los ganhar seu pão com suor de seu rosto, como foi imposto aos filhos de Adão (Gen. 3:19)[13]

Cada um dos ítems no plano de Lutero foi implementado pela política nazista. Por exemplo, durante a Kristallnacht, o horrível surto de violência antijudaica de 1938, os lares, as lojas e as sinagogas judaicas foram incendiados ou saqueados, exatamente como prescrito pelos dois primeiros ítems do plano de Lutero. Além disso, coincidência ou não, os eventos da Kristallnacht desenrolaram-se durante o aniversário de Lutero, no dia 10 de novembro. (Nota do Tradutor: acredito que tenha sido uma irônica coincidência. O pretexto para a Kristallnacht foi o assassinato de um funcionário da embaixada alemã em Paris por um judeu indignado com a situação calamitosa em que sua família se encontrava na fronteira com a Polônia após ser expulsa da Alemanha.) Obras de literatura de autores de ascendência judaica foram queimadas pelos nazistas, exatamente como recomendado no terceiro parágrafo do plano de Lutero. Os rabinos foram proibidos de ensinar, como ordenado pelo quarto ítem de Lutero. As prisões e deportações dos judeus para campos de concentração são consistentes com o quinto conselho de Lutero. Propriedades judaicas, incluindo obras de arte, foram confiscadas pelos nazistas, à semelhança da sexta recomendação de Lutero. O sétimo ponto de Lutero possui uma correspondência com os campos de trabalho forçado, com seu infame slogan Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”).

Os planos são tão parecidos que mesmo Martin H. Bertram, um intelectual luterano e o tradutor do panfleto anti-judaico de Lutero, declara: “É impossível publicar o tratado de Lutero hoje, entretanto, sem notar o quanto suas propostas foram similares às ações do regime nacional-socialista na Alemanha nas décadas de 1930 e 1940[14] E quando se considera a imagem que Hitler tinha de Lutero, o que este representava para ele, tudo o que precisamos é consultar o Mein Kampf: “Ao lado de Frederico, o Grande está Martinho Lutero, assim como Richard Wagner.”[15]

Os cristãos católicos possuem uma história ainda mais longa de antijudaísmo. O décimo-sexto canône do Concílio de Elvira (ca. 306), por exemplo, proibiu o casamento entre judeus e cristãos[16]. De modo que as leis de Nuremberg nazistas, que proibiram o casamento entre alemães e judeus, são uma mera extensão de uma tradição cristã, não uma ruptura radical, como D’Souza quer nos fazer crer. Não obstante o antijudaísmo remontar ao NT, é na Idade Média que começamos a testemunhar alguns dos mais brutais e sistemáticos ataques cristãos contra os judeus[17]. Em parte, a codificação do cânone legal católico foi responsável por uma política mais uniforme em relação aos judeus[18]. E apesar das migalhas de tolerância mostradas esparsamente no cânone legal, a realidade é que os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290 e da França em 1306. Por volta de 1492, como se sabe, a Espanha também expulsou os judeus.

De qualquer maneira, a Primeira Cruzada, que tencionava libertar a Terra Santa do domínio muçulmano, deu origem a uma nova onda de violência sistemática contra os judeus. A primeira cruzada foi proclamada em 1095, e os primeiros contingentes começaram sua viagem em direção ao leste em 1096. Estes contingentes, compostos majoritariamente por leigos, foram responsáveis pela maior parte da violência antijudaica. Hordas de “cruzados” tomaram de assalto cidades como Colônia, Mainz e Worms, e deixaram cerca de 3 mil judeus mortos[19]. Vários dos judeus capturados nestes pogroms recusaram-se a se converter ao Cristianismo. Segundo os relatos judaicos, a seguinte justificativa para o martírio foi proferida:

Depois de tudo, não há dúvidas dos caminhos do Santíssimo, louvado seja… Que nos deu Sua Torá e nos ordenou que permitíssemos que fôssemos mortos e chacinados em testemunho da Unicidade de Seu Santo Nome. Felizes estamos se satisfazemos sua vontade e feliz é aquele que tomba e morre atestando a Unicidade de Seu Nome.[20]

Estes judeus, vitimados pelos cristãos, certamente viram o ódio que lhes era dirigido como enraizado na religião. A defesa de D’Souza de que pelo menos os judeus medievais poderiam ter se convertido, ao contrário da situação na Alemanha Nazista, fracassa pelos padrões das Nações Unidas[21] É proibido exterminar qualquer grupo baseado em sua etnicidade ou religião, de modo que a oportunidade de se converter não faz a menor diferença.

Será que D’Souza pensa que se o número de judeus disponíveis para o abate naquelas cidades alemãs medievais tivesse sido maior, então menos judeus teriam sido mortos? Por um lado, as autoridades clericais de fato denunciaram estes pogroms. Por outro lado, os leigos podem ter agido da maneira como o fizeram por causa de palavras como as do Papa Inocente III, que no dia 9 de Outubro de 1208 expediu ao rei da França Philip II Augustus o seguinte édito a respeito dos hereges e dos judeus:

A fim de que a Santa Cidade de Deus, disposta como uma assustadora frente de batalha, possa prosseguir contra seus mais cruéis inimigos, exterminar [ad exterminandum] os seguidores de heresias abomináveis, que como um verme ou uma úlcera, infectaram a província inteira, formamos guarnições de soldados cristãos a serem convocados juntos…[22]

Observe que, mesmo que nem sempre obedecidas literalmente, a idéia de extermínio de grupos de pessoas (hereges, judeus) já está lá, bem como o uso da linguagem genocida medicalizada (“úlcera… infectaram”) compartilhada com o nazismo[23].

O fato de que Hitler via o que ele estava fazendo como uma continuação da política católica é confirmado por uma conversa que ele teve em 26 de Abril de 1933, com Hermann Wilhelm Berning, bispo de Osnabriick, Alemanha. De acordo com um relatório registrado nos Documentos sobre a Política Externa Alemã:

[Hitler] então trouxe à baila a questão judaica. Justificando sua hostilidade para com os judeus, ele referiu-se à Igreja Católica, que igualmente sempre considerou os judeus como indesejáveis e que em virtude dos perigos morais envolvidos proibiu os cristãos de trabalhar para os judeus. Por estas mesmas razões a Igreja baniu os judeus para o gueto. Ele via os judeus como nada além de inimigos perniciosos do Estado e da Igreja e, por essa razão, quis exclui-los cada vez mais, sobretudo dos cargos públicos e da vida acadêmica[24].

Conforme sumarizado pelo renomado historiador do Holocausto Guenter Lewy, “Hitler simplesmente estava fazendo o que a Igreja havia feito por 1500 anos.”[25] Na verdade, Hitler simplesmente dispunha de tecnologias e logísticas muito superiores para fazer o que os cristãos medievais quiseram fazer aos judeus. Também haviam muito mais judeus vivendo na Alemanha na época de Hitler. Portanto, D’Souza deveria estar contando os acréscimos nas populações-alvo, não apenas as populações como um todo, para avaliar a proporcionalidade da violência ateísta e religiosa.

O Quão Religioso Foi o Antijudaísmo Nazista?

D’Souza levanta a polêmica tese de que o nazismo foi uma “filosofia antirreligiosa”, mas oferece escassas evidências incontestáveis para esta alegação. Se desejamos conhecer motivos, um procedimento razoável é buscar as razões que as pessoas oferecem para o que fazem. Se seguirmos este procedimento, então a seguinte declaração de Hitler no Mein Kampf é bastante relevante:

Por isso hoje acredito que estou agindo em concordância com a vontade do Criador Todo-Poderoso; ao me defender contra o Judeu, estou lutando pela obra do Senhor.[26]

Mas D’Souza descarta a declaração de Hitler como evidência de que Hitler realmente pretendeu dizer o que disse. Em vez disso, D’Souza sugere que uma fonte melhor para os pensamentos de Hitler sobre a religião é Allan Bullock, autor de um livro chamado Hitler e Stalin: Vidas Paralelas, de 1993. Conforme D’Souza expressa em suas palavras: “‘Desde a mais tenra idade’, o historiador Allan Bullock escreve, ‘Hitler não dedicou tempo algum ao catecismo católico, considerando-o uma religião adequada somente para escravos e detestando sua ética.”[28] Esta é claramente uma tática de esquiva, já que D’Souza não explica porque Bullock sabe o que Hitler pensava melhor do que o próprio Hitler. Em geral, é um procedimento de investigação histórica inferior substituir uma fonte primária (isto é, Hitler) por uma fonte secundária (ou seja, Bullock). Além disso, mesmo se Hitler detestasse os ensinamentos católicos, D’Souza confunde ateísmo com anticatolicismo. E a citação acima não é a única em que Hitler invoca Deus, a religião ou o Cristianismo para explicar suas idéias políticas no Mein Kampf. Hitler também declarou: “Pois a vontade de Deus deu aos homens sua forma, sua essência e suas habilidades. Qualquer um que destrua Sua obra está declarando guerra à criação do Senhor, a vontade divina.”[29] No encontro com Berning, Hitler insistiu que “nem uma vida pessoal nem uma nação poderia ser construída sem o Cristianismo.”[30]

Outra tentativa de evitar as implicações óbvias das declarações de Hitler é o apelo de D’Souza ao aspecto propagandístico do Mein Kampf. D’Souza alega que “o próprio Hitler diz no Mein Kampf que suas declarações públicas deveriam ser interpretadas como mera propaganda que não guarda a menor relação com a verdade, sendo antes planejadas para exaltar as massas.”[31] D’Souza não cita um trecho direto de Hitler para esta alegação e apenas nos remete às páginas 177-85 do Mein Kampf, o que mais uma vez reflete um péssimo trabalho de pesquisa histórica. D’Souza parece não notar que esta generalização grosseira sobre o Mein Kampf não guardar “nenhuma relação com a verdade” cria um caso de incoerência autorreferencial. Se a propaganda de Hitler sempre esconde a verdade, então segue-se que o próprio enunciado sobre como ele estava usando a propaganda deve ser falso. E Hitler não acreditou realmente que os judeus são malignos porque o que ele diz no Mein Kampf não possui relação alguma com a verdade? Em vez disso, um procedimento histórico superior é interpretar literalmente os enunciados de um autor sobre suas próprias crenças a menos que o contrário seja provado. Nada do que Hitler disse desmente que ele acreditou estar fazendo a vontade de Deus.

Além disso, D’Souza deixa inexplicado por que Hitler teria pensado que sua retórica antijudaica poderia comover as massas a menos que as massas fossem receptivas a uma mensagem antijudaica. Isto é importante porque as massas das quais D’Souza fala se autoidentificavam majoritariamente como cristãs. Por exemplo, um relatório nazista indica que por volta de 1938, 51,4% dos membros da SS foram identificados como protestantes, 22,7% como católicos, e 25,7% como “crentes em Deus” (Gottglaubigen).[32] Como o antijudaísmo não encontra-se associado às obras do próprio Darwin, trabalhar tendo como pano de fundo uma história de antijudaísmo cristão seria muito mais efetivo no convencimento das massas cristãs.

Cristianismo Positivo

Outro aspecto do nazismo que D’Souza descarta sem muita investigação é a idéia nazista do Cristianismo Positivo. A primeira ocorrência do termo remonta ao ponto 24 do Programa do Partido Nazista de 1924, que diz:

O Partido enquanto tal reflete o ponto de vista de um Cristianismo Positivo não limitado confessionalmente a qualquer denominação específica. Ele combate o espírito materialista judaico.[33]

Mais uma vez, o antijudaísmo foi um de seus principais pilares, o mero resultado de uma longa história de antijudaísmo cristão. Nesse sentido, mais uma vez, o nazismo não é um desvio radical do Cristianismo historicamente ortodoxo.

Quem ler O Mito do Século XX, um tratado sobre o nazismo escrito por Alfred Rosenberg, a quem é atribuída a autoria do Programa do Partido de 1920, entenderá que ele concebia o Cristianismo Positivo como uma restauração dos ensinamentos puros e originais de Cristo.[34] De fato, Rosenberg nos diz que a vida de Cristo é o que deveria ser siginificativo para os alemães.[35] Rosenberg repudiou a idéia do sacrifício de Cristo como uma corrupção judaica, e via Jesus como uma figura cuja verdadeira obra, o amor à própria raça, foi distorcida pela cristandade organizada num amor universal, em vez de um amor restrito ao grupo racial a que se pertence (sobretudo em sua interpretação de Levítico 19:18 e 25:17).

Esta é a razão pela qual Rosenberg o denominou “Cristianismo Positivo” (positive Christentum), que ele contrapôs explicitamente à forma corrupta representada pelo “clero etrusco-asiático” (etrusco-asiatische… Priesterherrschaft), que abraangia o Catolicismo Romano[36]. Assim, para o Cristianismo Positivo, a mera palavra “Cristianismo” muitas vezes significou a forma judaizada e clericalmente organizada vista no Catolicismo Romano, que diferia da originalmente proposta por Jesus. Opor-se ao “Cristianismo”, portanto, não significa opor-se à religião de Cristo ou opor-se à religião.

De fato, Der Mythus é repleto de citações bíblicas. Com algumas das interpretações de Rosenberg da Bíblia decerto até mesmo eruditos judeus poderiam concordar. Por exemplo, ele observa que Levítico 25:17, que declara “Ninguém prejudique o seu próximo”, refere-se ao próximo hebreu, e não a todos os demais[37]. Mas esta interpretação de “teu próximo” é consistente com a interpretação de Harry M. Orlinsky, o grande estudioso do cânone judaico[38]. Rosenberg também pensou que o Evangelho de João foi o que melhor preservou alguns dos ensinamentos de Jesus. Assim ele o comenta: “O Evangelho de João, que ainda é permeado por um espírito aristocrático, combateu a bastardização coletiva, a orientalização e a judaização do Cristianismo”[39]. É no Evangelho de João (8:44) em que o próprio Jesus diz que os judeus são mentirosos filhos do diabo. Esse versículo apareceu bem mais tarde na sinalização de trânsito do regime nazista, ao passo que nenhuma citação de Darwin jamais foi vista nas placas de trânsito nazistas[40]. Este versículo ecoa o título do panfleto de Lutero (Dos judeus e suas mentiras), bem como o longo título que Hitler originalmente propôs para seu livro ([Meus] Quatro anos e meio de luta contra as mentiras… ).

Sim, Rosenberg sincretizou os conceitos cristãos encontrados no NT com mitos germânicos, e mitos de sua própria criação ou adaptação. Mas em que a exegese bíblica e o sincretismo de Rosenberg diferem do que outros autoproclamados cristãos estiveram fazendo ao longo da história? Com efeito, vários estudiosos defendem exatamente que o Cristianismo foi o resultado da combinação de idéias judaicas com outras helenísticas. Ao conceberem a si próprios como restauradores do Cristianismo primitivo, os cristãos positivos não foram menos cristãos do que os primeiros luteranos ou anabatistas. Na verdade, o Cristianismo Positivo possui precursores ilustres dentre os primeiros cristãos que rejeitaram o judaísmo. Estes incluem Marcião (segundo século), o cristão gnóstico que repudiou o Antigo Testamento (AT) por inteiro, e promoveu um cânone consistindo apenas de um Evangelho de Lucas expurgado e algumas das epístolas paulinas. O marcionismo repetiu-se na história cristã, especialmente entre alguns grupos anabatistas e teólogos cristãos (por exemplo, Friedrich Schleiermacher)[41].

Resumindo, se usamos a mesma lógica utilizada por vários teólogos cristãos que reinterpretam radicalmente a Bíblia Hebraica para a prática cristã, poderíamos também argumentar que o Cristianismo Positivo não representa tanto um movimento anticristão quanto representa uma reinterpretação do Cristianismo, um fenômeno constante na história cristã. É por isso que atualmente existem cerca de 25 mil grupos cristãos, alguns dos quais acreditam em coisas radicalmente opostas. Dizer que os marcionitas, os luteranos ou os cristãos positivos não são realmente cristãos é fazer um julgamento teológico mais do que um julgamento histórico.

O que há de tão negativo acerca do Cristianismo Positivo?

Não somente D’Souza exibe uma lastimável compreensão errônea  do Cristianismo Positivo, como as principais objeções que ele lança contra ele são extremamente superficiais. Para D’Souza, o Cristianismo Positivo não pode contar como Cristianismo porque ele “obviamente foi uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional, e como tal foi condenado pelo Papa Pio XI na época”[42]. Este último caso é suficiente para mostrar os preconceitos teológicos de D’Souza, já que ele assume que o que quer que o Papa Pio XI condene deve representar um falso cristianismo. E naturalmente, a alegação de que um Cristo ariano é uma ruptura radical do entendimento cristão tradicional é uma grande novidade para qualquer um familiarizado com a longa história da arte cristã, onde Cristo é rotineiramente pintado como um branco europeu. De acordo com Epiphanies Monachus (oitavo ou nono século), um monge grego de Constantinopla, Jesus “tinha seis pés de altura, longos e dourados cabelos, e não muito volumosos…”[43]. Então, como um Cristo ariano nazista pode ser uma ruptura radical?[44]

D’Souza também deixa de dizer a seus leitores que antes do Papa Pio XI se distanciar do nazismo em sua famosa encíclica de 1937 (Mit Brennender Sorge/ “Com Ardente Pesar”), esse mesmo Papa assinou, “na época”, em 1933, um pacto com os nazistas, que Hitler inclusive apreciou como um inestimável auxílio para levar adiante sua “batalha contra a judiaria internacional (‘der kampf gegen das internationale judentum‘)”[45]. E observem como D’Souza não questiona se o Papa Pio XI teve motivos políticos em vez de sublimes motivos humanitários para sua reprovação aos nazistas em 1937. D’Souza não indaga se Pio XI realmente pretendeu dizer o que ele disse, como faz quando Hitler afirma estar acatando a vontade de Deus.

No entanto, quando se lê essa encíclica de 1937, o Papa Pio XI admite fazer acordos com a Alemanha Nazista:

Quando, em 1933, consentimos, venerável Brethren, em abrir negociações por um pacto, que o governo do Reich propôs como base de um programa de muitos anos de colaboração… Estávamos propensos pela vontade, como nos é próprio, de assegurar à Alemanha a liberdade da missão beneficente da Igreja e a salvação das almas sob seus cuidados, bem como pelo desejo sincero de prestar ao povo alemão um serviço essencial para seu desenvolvimento pacífico e prosperidade. Assim, apesar de várias e graves dúvidas e inquietações, decidimos então não recusar nosso assentimento pois foi nosso desejo poupar os devotos da Alemanha, na medida em que fosse humanamente possível, dos julgamentos e dificuldades que eles teriam que enfrentar, dadas as circunstâncias, houvessem as negociações malogrado[46]

Por que isso não se qualificaria como uma manobra política, já que almeja proteger os interesses de um grupo distinto (católicos)? Por que não podemos  também dizer que a hierarquia do Vaticano não pretendeu dizer o que disse em 1937? E será que nenhum dos conselheiros do Papa estava familiarizado com o Mein Kampf, que fora publicado aproximadamente uma década antes de 1933?

Na verdade, Diego Von Bergen, o embaixador do Reich na Santa Sé, relatou que enquanto o Papa estava dizendo uma coisa, Eugenio Pacelli, o cardeal secretário do Vaticano e o homem que se tornaria o Papa Pio XII, prometeu que “relações normais e amistosas… seriam reestabelecidas o mais cedo possível” entre o Vaticano e os nazistas após essa encíclica[47]. De fato, por volta de 1939, o arcebispo Cesare Orsenigo, o núncio para Berlim, estava atarefado  abrindo uma recepção de gala para o quinquagésimo aniversário de Hitler[48]. Isso encerra a questão do suposto repúdio da Igreja Católica ao regime nazista.

Caso contrário, tudo depende de se alguém considera a missão da Igreja Católica como digna de tal compromisso, e isso é um julgamento teológico. Se Hitler acreditava ser a vontade de Deus que ele matasse os judeus, não há como averiguar se a inspiração para essa tarefa foi menos divina do que a que levou o Papa Inocente III a manifestar seu desejo de exterminar os judeus e outros hereges na Idade Média. Caso contrário, D’Souza precisa explicar por que o Papa Inocente III estaria certo em dizer que Deus realmente quis que ele exterminasse os judeus ou os hereges na Idade Média, mas este não seria o propósito de Deus para a vida de Hitler no século XX.

O Quão Antirreligioso Foi Hitler?

Equivocar-se sobre a diferença entre o Cristianismo Positivo e o resto do Cristianismo é o que tem levado D’Souza e outros a transformar quaisquer das supostas concepções anticristãs de Hitler em concepções antirreligiosas. Há um problema lógico, obviamente, com a afirmação de que ser anticristão ou ser anticatólico significa ser antirreligioso. A religião abraange muito mais do que o Cristianismo ou o Catolicismo.

Mais substancialmente, pois são uma parcela significativa da evidência em que se baseia, D’Souza apela às Conversações Íntimas de Hitler, que supostamente registram os mais recônditos pensamentos do Führer. Entretanto, a confiabilidade desta fonte para determinar as opiniões de Hitler é bastante questionável. Existem quatro versões principais das Conversaçõs Íntimas, aqui nomeadas de acordo com os principais editores ou tradutores e os anos de publicação: (1) Henry Picker (alemã, 1951, 1963, 1976); (2) Francis Genoud (apenas tradução francesa, 1952); (3) H. R. Trevor-Roper (inglesa 1953, 1973, 2000); e (4) Werner Jochmann (alemã, 1980). Estes registros geralmente são organizado internamente pela data em que Hitler manteve a conversa.

Os problemas com as Conversações Íntimas foram minuciosamente estudados por Richard Carrier[49]. Do meu ponto de vista, na qualidade de historiador acadêmico, existem pelo menos três problemas com a utilização desta fonte; (1) não existem originais autógrafos, do próprio punho de Hitler, desta fonte. Não temos fitas de áudio para verificar as transcrições. O que temos são cópias célebres que muitas vezes foram filtradas através de Martin Borman, auxiliar de Hitler. O fato de estas versões concordarem suficientemente para sugerir uma fonte comum não necessariamente prova que esta fonte comum tenha sido o próprio Hitler. (2) As versões às vezes são discrepantes. Algumas passagens estão ausentes na edição de Trevor Roper em relação à edição de Picker. De modo que é difícil dizer o que vem de Hitler e o que vem dos editores. (3) Trevor-Roper autenticou os Diários de Hitler, apesar de estes mais tarde terem sido desmascarados como uma fraude[50]. Genoud também é um personagem de reputação duvidosa que pode ter estado envolvido em outras falsificações. E como Carrier tem mostrado, ambas as edições de Genoud e Trevor-Roper muitas vezes traduzem com erros grotescos o original alemão.

Além disso, o principal mediador em todas as versões conhecidas das Conversações Íntimas é o secretário pessoal de Hitler, Martin Bormann, conhecido por seus pontos de vista anticristãos[51]. De modo que às vezes podemos estar lendo os pensamentos de Bormann em vez de os de Hitler[52].

Também sabemos, a partir de outras fontes, que Hitler discordou de Bormann e também discordou de suas próprias opiniões expressas nas Conversações Íntimas. Por exemplo, Albert Speer, que foi o arquiteto pessoal de Hitler, disse:

Mesmo após 1942 Hitler prosseguiu sustentando que considerava a Igreja indispensável na vida política. Numa dessas conversas à hora do chá, ele afirmou que ficaria feliz se algum dia um eclesiástico renomado se revelasse adequado para liderar uma das igrejas – ou, se possível, ambas, a católica e a protestante, reunidas.[53]

Speer também relata casos em que Hitler censurou ações anticristãs cometidas por seus subordinados[54].

Assim, se utilizarmos somente as fontes mais confiáveis, D’Souza definitivamente não demonstra seu caso. D’Souza não cita uma única passagem do Mein Kampf, uma fonte incontestavelmente atribuída a Hitler, em que este diz que seus motivos foram ateístas. Todavia, podemos encontrar uma série de passagens do Mein Kampf em que Hitler, não menos do que Martinho Lutero, reivindica estar realizando a vontade de Deus.

Mas mesmo se considerarmos as Conversações Intímas uma fonte confiável, a antirreligiosidade de Hitler não é tão evidente quanto D’Souza afirma porque D’Souza confunde anticristianismo com ateísmo. Das citações que D’Souza fornece, a única que melhor contribuiria para seu caso é: “através do campesinato seremos capazes de destruir o Cristianismo.” Mas D’Souza não fornece o número da página das Conversações Íntimas, e sua nota de rodapé correspondente apenas remete a “Conversações Íntimas de Hitler (New York: Enigma Books, 2000)”, que é uma edição associada a Hugh Trevor-Report[56]. Na melhor das hipóteses, o que temos aqui é um trabalho de documentação bastante desleixado, e nos leva a indagar se D’Souza está mesmo lendo as Conversações Íntimas em primeira mão.

Além disso, D’Souza não revela a frase completa, que na verdade encontra-se nos Pronunciamentos de Hitler, um livro historicamente desacreditado da autoria de Hermann Rauschning: “Mas é através do campesinato que realmente seremos capazes de destruir o Cristianismo porque existe entre eles uma verdadeira religião enraizada no sangue e na natureza.” Assim, em sua versão integral, o alegado objetivo de Hitler é uma religião melhor (“verdadeira religião”), não religião nenhuma.

Houvesse D’Souza lido as diversas versões das Conversações Íntimas cuidadosamente, ele também teria encontrado muita coisa que contradiz sua afirmação de que Hitler foi antirreligioso. Por exemplo, numa conversa referida a 14 de Outubro de 1941 (edição de Trevor Roper) Hitler comenta:

Um homem educado preserva o sentido para os mistérios da natureza e ajoelha-se diante do desconhecido. Um homem inculto, por outro lado, corre o risco de sucumbir ao ateísmo (que é um retorno à animalidade)… [58]

Hitler acrescenta:

Pode-se perguntar se o desaparecimento do Cristianismo acarretaria o desaparecimento da crença em Deus. Isso não seria desejável. A idéia de uma divindade confere à maioria dos homens a oportunidade de concretizar o sentimento que eles possuem da existência de realidades sobrenaturais. Por que deveríamos destruir este maravilhoso poder  que eles possuem de encarnar o sentimento para o divino que há em seu interior?[59]

Assim, mesmo aqui Hitler distingue entre não acreditar no Cristianismo e não acreditar em Deus. Na verdade, no original alemão das Conversações Íntimas, Hitler manifesta sua esperança de vida eterna no paraíso e seu real desprezo por aqueles que escarnecem da providência divina, declarando em vez disso que ele pensa ser possível que Deus o tenha escolhido, e que é nossa crença num Criador que nos distingue dos animais.[60]

E é nas Conversações Íntimas que Hitler distingue claramente os ensinamentos originais de Cristo da forma corrupta que se tornou conhecida como “Cristianismo”. Ele diz (em 21 de Outubro de 1941) que:

Originalmente, o Cristianismo era meramente uma encarnação do Bolchevismo, o destruidor. Não obstante, o Galileu, que mais tarde foi chamado o Cristo, pretendeu algo bastante diferente. Ele deve ser considerado como um líder popular que assumiu Sua posição contra a judiaria.[61]

Em qualquer caso, as ações de Hitler contra quaisquer igrejas não são necessariamente mais anticristãs ou antirreligiosas do que a destruição pelos protestantes de igrejas católicas, ou a destruição pelos católicos dos templos protestantes. Por exemplo, o Rei Henrique VIII (1491-1547), que deu ínicio à Reforma Inglesa, não via a si próprio como anticristão ou antirreligioso quando demoliu os monastérios católicos. Reis cristãos muitas vezes mataram clérigos e perseguiram igrejas que discordavam deles[62]. O que estamos vendo no nazismo é uma guerra sectária ou uma guerra intrarreligiosa, que não deveria ser confundida com antirreligiosidade[63].

O Quão Darwinista foi o Nazismo?

Apesar das esmagadoras evidências apontando que o nazismo é uma continuação do antijudaísmo cristão, D’Souza nos assegura que por trás do nazismo o que realmente está é o darwinismo. Para suas evidências, D’Souza nos remete ao trabalho de Richard Weikart, como a seguir:

Se o nazismo representou a culminância de qualquer coisa, foi da ideologia do final do século 19 e início do século 20 do darwinismo social. Como o historiador Richard Weikart documenta, ambos Hitler e Himmler eram admiradores de Darwin e em várias ocasiões falaram de seu papel como o de descobridor de uma “lei da natureza” que garantiria “a eliminação dos incapazes”. Weikart… conclui que embora o darwinismo não seja uma explicação intelectual “suficiente” para o nazismo, é uma explicação necessária. Sem o darwinismo o nazismo não poderia ter existido.[64]

Como nos casos anteriores, D’Souza aparenta não possuir o treinamento requerido para avaliar e julgar as alegações de Weikart. Já ofereci uma série de longas críticas a Weikart, mas aqui eu resumirei alguns dos problemas com a utilização do livro de Weikart[65].

Primeiro, a própria noção de que o darwinismo foi necessário para o nazismo é desmentida pelo plano de Lutero para os judeus de 1543. Por volta de 1543 era possível levar a cabo com êxito um programa que até os especialistas na obra de Lutero reconhecem ser semelhante ao nazismo, e não havia Darwin algum então. Weikart se esquece completamente de Lutero, e raramente menciona a longa história de antijudaísmo cristão que certamente seria mais importante do que o darwinismo. A maioria dos alemães não era tão familiarizada com as obras de Darwin como eram com a Bíblia ou com as tradições antijudaicas de personagens da história alemã como Lutero.

D’Souza nunca oferece qualquer citação direta para mostrar que Hitler foi um admirador de Darwin. Na verdade, D’Souza aparenta ignorar as exatas visões de Weikart sobre as referências de Hitler a Darwin. Weikart foi citado como dizendo:

É verdade que Hitler quase nunca mencionou o nome de Darwin (a única menção direta a Darwin que fui capaz de encontrar é um relato por um colega Wagener).[66]

No entanto, mesmo o “quase nunca” é enganoso porque Weikart reconhece que a única referência direta a Darwin por Hitler definitivamente não vem de Hitler. Hitler, contudo, menciona e aplaude Lutero no Mein Kampf. Isso por si só nos diz que Hitler atribuiu a Lutero importância suficiente para menciona-lo algumas vezes, ao passo que Darwin não recebeu nenhuma menção.

Além disso, D’Souza e Weikart também ignoram evidências de que o darwinismo foi especificamente banido na Alemanha Nazista, pelo menos em 1935. As evidências derivam desta diretriz numa lista de livros banidos na Alemanha Nazista compilados numa exposição da biblioteca da Universidade do Arizona: “Obras de natureza social e filosófica cujos conteúdos lidam com o Iluminismo científico do Monismo e do Darwinismo primitivo (Häckel)”.[67]

O Darwinismo de Weikart

Um problema decisivo com a tese de Weikart é que ele começa com esta definição demasiado restritiva de “Darwinismo”:

Ao utilizar o termo darwinismo neste estudo, refiro-me à teoria da evolução pela seleção natural como exposta por Darwin em A Origem das Espécies.[68]

É intrigante a razão pela qual Weikart restringe sua definição de darwinismo apenas ao que é encontrado em A origem das espécies (1859), sobretudo porque esse livro não diz absolutamente nada sobre evolução humana ou conflitos raciais. Consequentemente, Weikart precisa empreender uma redefinição contínua de “darwinismo” de forma a incluir outras obras de Darwin e quaisquer outras deturpações do darwinismo que ele for capaz de encontrar. Esta falha de Weikart é ainda mais importante porque ele já criticou outros historiadores reconhecidos por não aderirem às definições que propuseram inicialmente. Por exemplo, numa resenha de um livro escrito por Annette Wittkau-Horgby, Weikart comenta, “Wittkau-Horgby, portanto, não adere à definição de materialismo com que começa…”[69] Para evitar constantemente mover o objetivo definicional proposto para o darwinismo, Weikart poderia te-lo definido de modo mais amplo, e dito “… como exposto por Darwin em suas obras”. Uma vez que, para Weikart, interpretações errôneas das teorias de Darwin ainda contam como “darwinismo”, então ele realmente deveria dizer: “…conforme exposto por Darwin em seus livros e em diversas interpretações de sua obra, sejam esta interpretações corretas ou errôneas.”

A disposição de Weikart em subsumir distorções e deturpações do darwinismo sob o rótulo “darwinismo”, entretanto, não é consistentemente aplicada a outras obras que os nazistas desvirtuaram. Por exemplo, em sua resenha do livro de Richard Steigmann Gall “The Holy Reich“, Weikart comenta: “Vários alemães panteístas utilizaram terminologia religiosa – até mesmo cristã – mas eles muitas vezes a redefiniram.”[70] Assim, quando os escritores nazistas utilizam terminologia panteísta, então eles contam como panteístas, mas quando utilizam terminologia cristã, então eles não são realmente cristãos, mas panteístas. Ao se redefinir o vocabulário cristão, não mais se pode responder pelo Cristianismo, mas redefinir o darwinismo ainda estigmatiza alguém como darwinista. Esta inconsistência lógica é tendenciosa e serve para desviar a responsabilidade do Cristianismo.

Tudo isto é importante porque nenhuma das obras de Darwin, e sobretudo A Origem das Espécies, aborda o antijudaísmo. O antijudaísmo é um componente essencial do nazismo, compartilhado não com as obras de Darwin, mas com o Cristianismo primitivo (por exemplo, João 8:44, Apocalipse 2:9-10). Mais uma vez, mesmo se Darwin possuísse uma agenda antijudaica, a maioria dos alemães não estaria tão familiarizada com as obras de Darwin quanto estavam com a Bíblia.

Racialização dos Judeus

D’Souza afirma que os judeus medievais pelo menos poderiam ter se convertido ao Cristianismo ao passo que a eugenia darwinista dos nazistas racializou os judeus até um ponto em que estes não mais poderiam alterar sua identidade. Como já discuti, isto realmente não faz a menor diferença para a repreensibilidade moral do genocídio baseado na religião ou na etnicidade. Mas a idéia de que os judeus eram uma categoria racial, não somente uma categoria religiosa, já possuía uma longa história no Cristianismo muito antes do surgimento de Darwin.

Considere a idéia hitlerista da “pureza do sangue” (Reinhaltung des blutes). Esta noção não teve início com Darwin, nem sequer foi discutida como tal por Darwin em A origem das espécies. Em vez disso, a terminologia específica de Hitler corresponde muito de perto à terminologia católica espanhola (limpieza de sangre/”limpeza ou pureza do sangue”) aplicada contra os judeus na Espanha. Em particular, Juan Martinez Siliceo, o arcebispo de Toledo, propôs em 1547 uma legislação baseada muito especificamente sobre esta noção de limpieza de sangre.[72] Normas decretadas em Toledo em 1449 também se concentraram na pureza do sangue como um meio para discriminar os judeus que haviam se convertido mas não eram espanhóis  “de sangue”.

Como até mesmo os estudiosos judeus observaram, diversos personagens bíblicos podem ser interpretados como defensoras de práticas eugênicas séculos antes que o termo fosse inventado. O rabino Max Reichler, um dos autores de Eugenia judaica e outros ensaios, nos diz:

Certamente a eugenia como ciência dificilmente poderia ter existido entre os antigos judeus; mas diversas regras eugênicas de fato foram incorporadas na vasta coleção de leis bíblicas e rabínicas. Na verdade existem indícios inequívocos de um esforço consciente para utilizar todas as influências capazes de aumentar as qualidades inatas das raças judaicas e resguardar contra quaisquer práticas que poderiam conspurcar a pureza da raça ou “prejudicar as qualidades raciais das futuras gerações” seja física, mental ou moralmente… O próprio fundador da raça judaica, o patriarca Abraão, reconheceu a importância de certas qualidades hereditárias, e insistiu que a esposa de seu “único filho amado” não deveria vir “das filhas dos cananitas”, mas da semente de uma linhagem superior.[73]

D’Souza não fornece nada realmente comparável, além de uma referência secundária a Weikart, mostrando que o A origem das espécies de Darwin contenha quaisquer noções de pureza do sangue ou eugenia ainda mais próximas disto. Como as coisas estão, D’Souza aparenta estar confundindo seleção natural, o principal conceito por trás de A Origem das Espécies, com a seleção artifical que foi um componente essencial do nazismo.

Se olharmos para as justificativas racialistas do próprio Hitler, descobriremos que ele invoca a Bíblia, não o A Origem das Espécies, para respalda-lo. Um exemplo é esta passagem do Mein Kampf  a respeito da miscigenação:

… é uma daquelas a respeito do que é dito com tão grandiosa e terrível justiça que os pecados dos pais são vingados até a décima geração… O pecado contra o sangue e a profanação da raça são o pecado original neste mundo…[74].

Mas de onde Hitler tirou a idéia de que a profanação do sangue é um pecado que macula até a décima geração? Não a vemos em nenhuma das obras de Darwin. Mas no livro de Esdras, capítulo 9, versículos 1-2 e 12, lemos:

Acabadas, pois, estas coisas, chegaram-se a mim os príncipes, dizendo: O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, seguindo as abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios, e dos amorreus.  Porque tomaram das suas filhas para si e para seus filhos, e assim se misturou a linhagem santa com os povos dessas terras; e até os príncipes e magistrados foram os primeiros nesta transgressão. (…) Agora, pois, vossas filhas não dareis a seus filhos, e suas filhas não tomareis para vossos filhos, e nunca procurareis a sua paz e o seu bem; para que sejais fortes, e comais o bem da terra, e a deixeis por herança a vossos filhos para sempre. (Ênfase do autor)

Observe que o objetivo da endogamia é “para que sejais fortes”, o que exemplifica a concepção clássica de eugenia de aprimorar algumas características desejadas através da procriação adequada. Por conseguinte, o Mein Kampf sugere que é a Bíblia, não o A Origem das Espécies, que parece ser a influência mais direta sobre Hitler.

Conflitos raciais são uma parte do Cristianismo

Weikart rotula como particularmente darwiniana a noção da história como uma luta racial. Weikart tem utilizado repetidamente a seguinte citação de A Descendência do Homem para respaldar esta tese controversa:

Em algum período futuro, não tão distante que não possa ser medido por séculos, as raças civilizadas do homem irão certamente exterminar e substituir as raças selvagens pelo mundo afora.[76]

Mas esta passagem está descontextualizada. O contexto apropriado é um lamento por esta extinção – não um endosso dela. Este lamento é ainda mais evidente quando se lê o que vem em seguida, onde Darwin observa que, de fato, “”os selvagens não eram tão afetados pelas nações invasoras clássicas” até que as civilizações modernas (não as raças modernas) as usurpassem, uma vez que nas eras clássicas “não há esse tipo de queixa entre os escritores clássicos a respeito de uma possível destruição dos valores dos bárbaros”[77]. Consequentemente, Darwin acreditava que tecnologias e culturas superiores, não sangue inferior, eram os responsáveis pelo extermínio das “raças selvagens”.

E a concepção da história como uma luta entre raças é um componente muito importante da história cristã. Já em 1853, e alguns anos antes da publicação de A Origem das Espécies, George Fitzhugh, o advogado americano pró-escravidão, havia articulado a noção de conflito racial numa matriz de sobrevivência dos mais aptos quando disse:

Os membros do Congresso do Partido Jovem Americano, orgulhem-se do fato de que a raça anglo-saxã está manifestamente destinada a devorar as outras raças, assim como o capim-açu destrói e toma o lugar de outras plantas rasteiras.[78]

E ao contrário da afirmação de Weikart de que a orientação espiritual do judeocristianismo resistiu a tais idéias racialistas, Robert Knox, o famoso escritor racialista escocês, declarou:

Agora, esteja a Terra superpopulada ou não, uma coisa é certa, os fortes sempre irão se apoderar das terras e das propriedades dos fracos. Estou convicto de que esta conduta não é, em absoluto, incompatível com a mais elevada moral e mesmo com o sentimento cristão.[79]

Com efeito, John Campbell, um escritor cristão favorável à escravidão, viu a luta racial como um componente essencial da história da humanidade, e ele cita Knox em seu ensaio de 1851, “Negro-Mania“:

O antagonismo das raças opera por si próprio  em toda situação em que duas raças são colocadas em colisão, seja pela extinção rápida ou lenta da raça mais frágil e inferior (…) Knox nos mostrou que em todos os lugares o sangue branco atropela e extermina as raças mais escuras.” O Saxão (ele observa) não se associará com qualquer raça escura, tampouco lhe permitirá manter qualquer acre de terra no país que vier a ocupar … Não há nada que negue o fato de que o Saxão – chame-lhe pelo nome que desejar – possui o mais perfeito horror por seus irmãos mais escuros”.[80]

Em geral, Weikart parece beatificamente ignorante da abundância de literatura racialista cristã pré-nazista que mostraria que o nazismo aboslutamente não representa nenhuma ruptura da história cristã.

Conclusão

D’Souza fracassa de maneira espetacular em seus esforços para pintar o nazismo como uma “filosofia antirreligiosa” responsável por dez milhões de mortes. Primeiro, D’Souza não fornece quase nenhuma documentação para suas alegações, e o que ele de fato oferece vem em sua maior parte de fontes secundárias. Ele aparentemente é incapaz de ler fontes alemãs primárias na língua original. Ele também confunde quaisquer esforços contra o Cristianismo organizado com antirreligiosidade. Mas mesmo nas Conversações Íntimas, uma fonte questionável utilizada por D’Souza, Hitler deixa claro que ser contra o Cristianismo não é o mesmo que ser contra a crença em Deus.

A prestidigitação numérica de D’Souza simplesmente oculta o fato de que tanto a moralidade teísta quanto a não-teísta podem resultar em genocídios. Quaisquer diferenças no número de mortes é mais um acidente histórico do que uma diferença num princípio que pode justificar o assassinato de grupos baseado na etnicidade, na raça, na nacionalidade ou na religião. Pelos padrões das Nações Unidas, os genocídios cometidos pelos cristãos são tão reprováveis quanto os cometidos pelos maoístas ou pelos estalinistas porque todos eles dedicaram-se igualmente ao extermínio de 100% de seus respectivos grupos alvo.

Mas o mais significativo problema com o argumento de D’Souza é sua conveniente amnésia acerca da longa história do antijudaísmo cristão que precede em séculos o nascimento de Darwin ou Hitler. O clamor pelo extermínio dos hereges e judeus na França pelo Papa Inocente III na Idade Média não precisou do darwinismo. E o criminoso plano de sete pontos de Lutero, que é praticamente idêntico ao do nazismo, demonstra além de qualquer dúvida que o darwinismo certamente não foi “necessário” para se chegar à ideologia nazista (veja o quadro abaixo). O nazismo, na verdade, foi muitíssimo facilitado por  uma longa tradição de antijudaísmo cristão.

UMA COMPARAÇÃO DAS POLÍTICAS ANTIJUDAICAS DE HITLER E AS POLÍTICAS DEFENDIDAS EM NAS OBRAS DE MARTINHO LUTERO E CHARLES DARWIN

Notas.

1. Dinesh D’Souza, A Verdade sobre o Cristianismo, pág. 215. (Thomas Nelson Brasil – Rio de Janeiro – 2008).

2. D’Souza, A verdade, p. 215. D’Souza está respondendo especificamente aos argumentos de Sam Harris, A morte da fé: religião, terror e o futuro da razão (Companhia das Letras, 2009); Daniel Dennett, Quebrando o Encanto – A religião como um fenômeno natural (Ed. Globo, 2007); e Richard Dawkins, Deus, um delírio (companhia das Letras, 2007).

3. D’Souza, A verdade, p. 214.

4. Hector Avalos, Fighting Words: The Origins of Religious Violence (Amherst, NY: Prometheus Books, 2005), pp. 325-34.

5. Vejam sobretudo Tatiana A. Chuinachenko, Church and State in Soviet Russia. Russian Orthodoxy from World War II to the Krushchev Years, trans. Edward E. Roslof (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2002).

6. Richard Weikart, From Darwin to Hitler Evolutionary Ethics Eugenics, and Racism in Germany (New York: PalgraveMacmillan, 2004).

7. Um sumário das convenções da Nações Unidas sobre Direitos Humanos pode ser lido em: http://www.hrweb.org/legal/undocs.html#CAG.

8. Para discussões recentes sobre teorias da etnicidade, veja Richard H. Thompson, Theories of Ethnicity: A Critical Appraisal (New York: Greenwood Press, 1989). Para o antigo Israel, veja Kenton Sparks, Ethnicity and Identity in Ancient Israel – Prolegomena to the Study of Ethnic Sentiments and Their Expression in the Hebrew Bible (Winona Lake: IN: Eisenbrauns, 1998).

9. Veja também, Solomon Grayzel, The Church and the Jews in the XIIIth Century (New York: Hermon Press, 1966); Kenneth R. Stow, Catholic Thought and Papal Jewry Policy, 1555-1593 (New York: Jewish Theological Seminary of America, 1977).

10. Stow, Catholic Thought, p. 295; Latin (p. 291): quos propia culpa perpetua servituta submisit.

11. D’Souza, A verdade, p. 208.

12. Jose M. Sanchez, Pius XII and the Holocaust- Understanding the Controversy (Washington, DC: Catholic University of America Press, 2002), p. 70.

13. Martinho Lutero, “Dos judeus e suas mentiras,” trad. Martin H. Bertram in Luther’s Works: The Christian in Society IV, ed. Franklin Sherman (Philadelphia, PA: Fortress Press, 1971), pp. 268-72.

14. Martinho Lutero, “Dos judeus,” p. 268 n. 173. Veja também William Montgomery McGovern, From Luther to Hitler: The History of Fascist Nazi Political Philosophy (Cambridge, MA: Houghton Mifflin, 1941).

15. Adolf Hitler, Mein Kampf, trad. Ralph Manheirn (Boston: Houghton Mifflin, 1971), p. 213; German (p. 232): Neben Friedrich der Grossen stehen bier Martin Luther sowohl als wie Richard Wagner. Utilizamos a edição alemã Adolf Hitler, Mein Kampf (Munchen: Muller, 1938). Doravante, esta fonte será referida como “Alemã (nº da pág.).”

16. Sobre o Concílio de Elvira, veja Louis H. Feldman, Jew and Gentile in the Ancient World- Attitudes and Interactions from Alexander to Justinian (Princeton: Princeton University Press, 1993), pp. 373, 380, 398.

17. Para um ponto de vista de um erudito católico sobre este período, especialmente à luz do Vaticano II, veja Edward A. Synan, The Pope and the Jews in the Middle Ages (New York: Macmillan, 1965).

18. John Y. B. Hood, Aquinas and the Jews (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1995), p. 25.

19. Veja Robert Chazan, In the Year 1096 The First Crusade and the Jews (Philadelphia, PA: Jewish Publication Society, 1996), p. 129.

20. Shlomo Eidelberg, The Jews and the Crusaders: The Hebrew Chronicles of the First and Second Crusades (Madison: University of Wisconsin Press, 1977), p. 31.

21. D’Souza, A verdade, p. 218.

22. Grayzel, The Church and the Jews, p. 133; Texto latino na p. 132. Inocente (Grayzel, The Church and the Jews, pp. 92-93) paradoxalmente também endossa a idéia agostiniana de manter alguns judeus vivos como um símbolo da descrença, ele também acreditou que “não se deveria destruir os judeus completamente” (em latim: ne deleveris omnino Judeos). Sobre esta idéia posterior, veja Jeremy Cohen, Living Letters of the Law: Ideas of the Jew in Medieval Christianity (Berkeley: University of California Press, 1999).

23. Para este aspecto do nazismo, vejam Gotz Aly, Peter Chroust, e Christian Pross, Cleansing the Fatherland Nazi Medicine and Racial Hygiene, trans. Belinda Cooper (Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 1994).

24. Paul R. Sweet, ed., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos arquivos do Ministério do Exterior alemão (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series C, vol. 1, p. 347.

25. Guenter Lewy, The Catholic Church and Nazi Germany (New York: De Capo Press, 2000), p. 51.

26. Hitler, Mein Kampf, p. 65 / Alemã (p. 70): So glaube ich heute im Sinne des allmachtigen Schopfers zu handeln: Indem ich mich des ,juden erwehre, kampfe ich fur day Werk des herrn.

27. D’Souza, A verdade, p. 217.

28. Ibid.

29. Hitler, Mein Kampf, p. 562 / alemã (p. 630): Denn Gottes WillegabdenMen- sehen einst ihre Gestalt, ihr Wesen and ihre Fahigkeiten. Wer sein Wert zerstort sagt damit der Schopfung des hernn, dem gattlichen Wollen, den kampf an.

30. Sweet, Documents on German Foreign Policy, series C, vol. 1, p. 347.

31. D’Souza, A verdade, p. 217.

32. Richard Steigmann-Gall, The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity, 1919-1945 (Cambridge: Cambridge University Press, 2003), p. 221. Para um estudo da  receptividade ao antijudaísmo pelas populações alemãs, veja Daniel Goldhagen, Hitler’s Willing Executioners.- Ordinary Germans and the Holocaust (New York: Little, Brown, 1996).

33. Alfred Rosenberg, Das Parteiprogramm: Wesen, Grundsatze and Ziele der NSDAP (Munich: Zentralverlag der NSDAP, 1922 [25th edition, 1943]), p. 13: Die Partei als solche vertritt den Standpunkt eines positiven Christentums, ohne rich konfessionell an ein bestimmtes Bekenntnis zu binden. Sic bekampft den judisch-materialistischen Geist… .

34. Alfred Rosenberg, Der Mythus des 20, Jahrhunderts: Ewe Wertung der seeliseh- geistigen Gestaltentkampfe unserer Zeit, (‘Munchen: Hoheneichen Verlag, 1938). Steigmann-Gall (The Holy Reich, pp. 92-93) defende que o livro de Rosenberg não recebeu muita atenção dentro do Partido Nazista. Entretanto, Albert Speer (Inside the Third Reich, trad. Richard e Clara Winston [New York: Macmillan, 1970], p. 115), o arquiteto pessoal de Hitler, diz que  “o público considerava o livro como o texto de referência para a ideologia do partido”.

35. Rosenberg, Der Mythus, p. 74.

36. Ibid., p. 78: Das positive Christentum gegenuber dem negativum der auf der etrusco-asiatische Vorstellung zuruckgehende Priesterherrschaft and des Hexenwahns.

37. Alfred Rosenberg, Race and Race History and Other Essays, ed. Robert Pois e trad. Jonathon Cape (New York: Harper & Row, 1970), p. 180.

38. Veja Harry M. Orlinsky, “Nationalism-Universalism and Internationalism in Ancient Israel,” in Translating and Understanding the Old Testament Essays in Honor of Herbert Gordon May, eds. Harry Thomas Frank and William L. Reed (Nashville, TN: Abingdon, 1970), pp. 206-36, especially pp. 210-11.

39. Rosenberg, Der Mythus, p. 75. My translation of the German: Gegen these gesamte Verbastardierung, Verointalisierung and Verjudung des Christentums wehrte rich bereits day durchaus noch aristokratischen Geist atmende johannes evangelium. A edição de Robert Pois (Race and Race History and Other Essays, p. 70) traduziu johannes evangelium como “ensinamentos evangélicos de São João,” que obscurece as referências mais específicas ao livro que chamamos de Evangelho de João.

40. Para imagens de sinais de trânsito nazistas com este versículo, veja Robert P. Ericksen e Susannah Heschel, Betrayal – German Churches and the Holocaust (Minneapolis, MN: Fortress Press, 1999), fig. 6.

41. Para uma história do cânone e do marcionismo entre os anabatistas, veja meu artigo “The Letter Killeth: A Plea for Decanonizing Violent Biblical Texts,” Journal of Religion, Conflict, and Peace 1, no. 1 (Outono 2007): http://www.plowshares project.org/journal/php/article.php?issu_list_id=8&article_list_id=22.

42. D’Souza, A verdade, p. 217.

43. Frederic W. Farrar, The Life of Christ as Represented in Art (London: Adam and Charles Black, 1901), p. 84.

44. Veja também, Susannah Heschel, An Aryan Jesus. Christian Theologians and the Bible in Nazi Germany (Princeton: Princeton University Press, 2008).

45. Minha citação vem das minutas de uma reunião do governo nazista ocorrida em 14 de Julho de 1933. Minha fonte é Walther Hofer, ed., Der Nationalsozialismus.• Dokumente 1933-1945 (Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag, 1976), p. 130.

46. Mit Brennender Sorge, disponível em http://www.newadvent.org/library/docs_pi11mb.htm.

47. Telegrama de Diego von Bergen para Eugenio Pacelli conforme preservado em Raymond James Sontag et al., eds., Documents on German Foreign Policy, 1918-1945, dos Archives of the German Foreign Ministry (Washington, DC: United States Printing Office, 1949), series D, vol. 1, p. 991.

48. Veja Richard Phayer, The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965 (Bloomington: Indiana University Press, 2000), p. 45.

49. Veja Richard Carrier, “Hitler’s Table Talk: Troubling Finds,” German Studies Review 26, no. 3 (2003): 561-76.

50. Para uma história dos Diários de Hitler, veja Charles Hamilton, The Hitler Diaries: Fakes That Fooled the World (Louisville: University Press of Kentucky, 1991) e Robert Harris, Selling Hitler (New York: Pantheon Books, 1986).

51. Steigmann-Gall, The Holy Reich, pp. 243-60.

52. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 573.

53. Speer, Inside the Third Reich, p. 113.

54. Ibid., p. 114.

55. D’Souza, A verdade, p. 218.

56. Ibid., p. 327 n. 12.

57. Hermann Rauschning, ed., Hitler Speaks: A Series of Conversations with Adolf Hitler on His Real Aims (London: Thornton Butterworth, 1939; Reprint: Whitefish, MT: Kessinger, 2007), p. 63. Sobre a confiabilidade desta fonte, veja SteigmannGall, The Holy Reich, pp. 28-29.

58. H. R. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, 1941-1944: His Private Conversations (London: Phoenix Press, 2000), p. 59.

59. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 61.

60. Carrier, “Hitler’s Table Talk,” págs. 566-72 (todas as quatro declarações aparecem na entrada datada da tarde de 27 de Fevereiro de 1942, no original alemão).

61. Trevor-Roper, ed., Hitler’s Table Talk, p. 76. Hitler rotineiramente igualou “bolchevismo” e “judaísmo”. Ele também acreditava que Jesus foi um ariano cuja mensagem verdadeira foi corrompida pelo judeu Paulo (Carrier, “Hitler’s Table Talk,” p. 572).

62. Veja também, Peter A. Dykema and Heiko Oberman, eds., Anticlericalism in Late Medieval and Early Modern Europe (Leiden: Brill, 1993), que também discute vários conflitos entre protestantes e católicos.

63. Diego von Bergen, o embaixador alemão no Vaticano, relatou especificamente que o Papa temia que “uma ‘terceira’ fé está sendo organizada e encorajada” em adição ao catolicismo e às fés evangélicas (Documentos sobre a política externa alemã, série D, vol. 1, p. 988). Isto mostra que o Vaticano via a religião nazista como uma fé concorrente, e não como “ateísmo”, um termo que ocasionalmente também aplicado a fés concorrentes.

64. D’Souza, A verdade, p. 219; Richard Weikart, From Darwin to Hitler. Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany (New York: Palgrave, 2004).

65. Para minha críticas a Weikart, veja “Avalos contra Weikart: Part I: General Problems with Dr. Weikart’s Methods“; e “Avalos Contra Weikart: Part II: Weikart’s Seven Darwinian Aspects of Nazism“. See also Sander Gliboff, H. G. Bromm, Ernst Haeckel, and the Origins of German Darwinism: A Study in Translation and Transformation (Cambridge, MA: MIT Press, 2008).

66. Denise O’Leary, “Post-Details: Expelling the Outrage: Hitler and Darwinism“(accessado em 3 Julho de 2009).

67. “Guidelines from Die Bucherei,” 2:6, 1935, p. 279.

68. Weikart, From Darwin to Hitler, p. 9.

69. Richard Weikart, “Review of Annette Wittkau-Horgby, Materialismus: Enstehung and Wirkung in den Wissen.rchaften des 19. Jahrhunderts (Gottingen: Vande- hoek and Ruprecht, 1998),” German Studies Review 24, no. 3 (October 2001): 610.

70. Richard Weikart, “Review of Richard Steigmann-Gall’s The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity,” German Studies Review 27, no. 1 (February 2004): 175.

71. Veja Mein Kampf, p. 312: “manter seu sangue puro” / versão alemã (p. 342): Rein- haltung seines Blutes.

72. Veja também, Linda Martz, “Pure Blood Statutes in Sixteenth-Century Toledo: Implementation as Opposed to Adoption,” Sefarad 61, no. 1 (1994): 91-94; Albert Sicroff, Los estatutos de limpieza de sangre.: Controversial entre los siglos xvy xvii (Madrid: Taurus, 1985); Henry Kamen, The Spanish Inquisition.A Historical Revision (London: Weidenfeld and Nicolson, 1997), sobretudo págs. 242-54; Henry Kamen, Philip of Spain (New Haven, CT: Yale University Press, 1997), pp. 33-34.

73. Max Reichler, Jewish Eugenics and Other Essays (New York: Bloch, 1916), pp. 7-8.

74. Hitler, Mein Kampf, p. 249.

75. Ibid., p. 286.

76. Weikart, From Darwin to Hider, p. 186.

77. Charles Darwin, A origem do Homem e a Seleção Sexual, (Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2004 [1874]), p. 135 (contexto: págs. 125-143). Veja também Patrick Brantlinger, Dark Vanishings: Discourse on the Extinction of Primitive Races 1800-1930 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 2003).

78. George Fitzhugh, “Sociology for the South or the Failure of Free Society,” em Antebellum Writings of George Fitzhugh and Hinton Rowan Helper on Slavery, ed. Harvey Wish (New York: Capricorn Books, 1960 [reprint of 1854 edition]), p. 61.

79. Robert Knox, The Races of Men (Philadelphia, PA: Lea & Blanchard, 1850), pp. 38-39.

80. John Campbell, “Negro-Mania,” in E. N. Elliott, Cotton Is King and ProSlavery Arguments: Comprising the Writings of Hammond, Harper Christy, Stringfellow, Hodge, Bledsoe, and Cartwright, on This Important Subject (Augusta, GA: Pritchard, Abbott and Loomis, 1860), p. 520.

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