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Posts Tagged ‘Estudos Bíblicos’

por Hector Avalos

Os estudos bíblicos como os conhecemos deveriam terminar. Os profissionais deste campo são unânimes em afirmar que a Bíblia é o produto de outra época e outra cultura cujas normas, práticas e concepções do mundo eram radicalmente diferentes das nossas. E no entanto, estes mesmos especialistas paradoxalmente mantém o público leigo sob a ilusão de que a Bíblia importa ou deveria importar. Argumentamos que, seja esta sua intenção ou não, sua validação da Bíblia como um texto para o mundo contemporâneo serve sobretudo para justificar seus próprios empregos e a relevância de sua profissão no mundo atual.

Vimos como as traduções ocultam em vez de patentearem os conceitos mais degradantes e alienígenas dos autores bíblicos. Vimos como os críticos textuais, mesmo sabendo que o texto original é provavelmente irrecuperável, não anunciam para a maioria das comunidades cristãs que suas Bíblias são na melhor das hipóteses construtos que não podem ser remontados  além do segundo século da Era Comum para o Novo Testamento e do terceiro século AEC para a Bíblia Hebraica. Em nosso olhar sobre a história e a arqueologia bíblica, aprendemos que a “história bíblica” foi não tanto apagada como na verdade exposta como, antes de qualquer coisa, ausente. O alegado mérito artístico superior da Bíblia também foi desmascarado pelo que é – outro dispositivo apologético bibliolátrico.

Por que precisamos que um livro antigo que endossa tudo, do genocídio à escravidão, seja a autoridade suprema sobre nossa moralidade pública ou privada? Por que precisamos de qualquer texto antigo, afinal, independente de qual moralidade ele esposa? “A Bíblia” é sobretudo um construto dos últimos dois mil anos da história da humanidade. Seres humanos modernos existiram por dezenas de milhares de anos sem a Bíblia, e não parece que estavam em pior situação por isso. Existem sociedades secularizadas contemporâneas na Europa que parecem se dar muito bem sem a Bíblia.

De meu ponto de vista, existem apenas três alternativas genuínas para o que atualmente conhecemos como estudos bíblicos:

  1. Eliminar os estudos bíblicos completamente do mundo atual.
  2. Manter os estudos bíblicos como são, mas admitir que são um empreendimento religionista.
  3. Manter os estudos bíblicos, mas redefinir seu propósito de modo que sejam encarregados de eliminar completamente a influência da Bíblia no mundo atual.

Eu não defendo a primeira opção, pelo menos não por ora, porque acredito que a Bíblia deveria ser estudada, no mínimo como uma lição sobre por que os seres humanos não deveriam privilegiar tais livros novamente. Minha objeção é contra o propósito religionista e bibliólatra pelo qual é estudada. A segunda opção é na verdade o que é encontrado na maioria dos seminários, mas devemos dar ampla publicidade ao fato de que estudiosos em todo o mundo acadêmico estão fazendo a mesma coisa, embora não estejam sendo muito francos e honestos sobre isso.

Eu prefiro a terceira opção. O único objetivo dos estudos bíblicos, sob esta opção, seria ajudar as pessoas a se moverem rumo a uma sociedade pós-escritural. Pode soar paternalístico “ajudar as pessoas”, mas não mais do que quando os tradutores escondem a verdade ou quando os acadêmicos não divulgam agressivamente a verdade por medo de transtornar os fiéis. Tudo na educação é em alguma medida paternalista, já que uma elite docente está lá para fornecer informações que o público leigo não possui. A terceira opção também é a mais lógica, considerando-se a descoberta do caráter alienígena da Bíblia.

A minha opção também é a menos autointeressada porque não teria meu próprio emprego como objetivo último, e permitiria a milhares de outros textos aos quais ainda não foi concedido voz falarem também sobre a sabedoria possível, a beleza e as lições que eles possam conter. Com efeito, milhares de textos mesopotâmicos jazem intraduzidos. De modo que mesmo aqueles que acreditam na importância da literatura deveriam advogar para que mais luz seja jogada sobre os textos antigos ainda não lidos.

O que eu busco é a liberação da própria ideia de que qualquer texto sagrado deva ser uma autoridade para a existência humana atual. A abolição da dependência humana de textos sagrados é imperativa quando esses textos sagrados colocam em risco a existência da civilização humana em sua configuração atual. Portanto, a abolição total da autoridade bíblica torna-se uma obrigação moral e uma chave para a sobrevivência deste mundo. A letra pode matar. Esta é a razão pela qual a única missão dos estudos bíblicos deveria ser encerrar os estudos bíblicos como os conhecemos.

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por Hector Avalos

Crítica Literária

Em sua relação com os estudos bíblicos, a crítica literária é a disciplina dedicada a elucidar as realizações literárias dos autores bíblicos. Para nossos propósitos, usamos a crítica literária para descrever um conjunto de abordagens unificado pela ideia de que os textos bíblicos são construídos artisticamente e possuem méritos artísticos. Como David J. A. Clines e J. Cheryl Exum, dois de seus mais influentes profissionais em atuação, observam em seu próprio levantamento da crítica literária, “sua ocupação principal é o texto como um objeto, um produto, não como uma janela para a realidade histórica.”[61] Tal descrição reflete o que é chamado “Nova Crítica” nos estudos literários seculares mais abrangentes. A Nova Crítica debruça-se sobre uma obra de arte como um objeto autônomo cuja beleza não depende de seu contexto histórico. Uma pintura de Rembrandt conserva sua beleza não importa quais forças históricas a tenham acarretado.[62]

Não é necessário escavar muito fundo para descobrir os motivos para a análise literária da Bíblia entre virtuoses como Robert Alter, Meir Sternberg e Frank Kermode.[63] Na verdade, o objetivo apologético algumas vezes é nítido, como no caso do comentário de Robert alter sobre a abordagem da Bíblia pelos leitores antigos e modernos:

A tradição religiosa subsequente tem acima de qualquer coisa nos encorajado a considerar a Bíblia seriamente em vez de aprecia-la, mas a verdade paradoxal sobre o assunto pode muito bem ser que ao aprender a apreciar as narrativas bíblicas mais apropriadamente como ficção, também venhamos a divisar com mais clareza o que elas tencionam nos dizer sobre Deus, o homem e o domínio perigosamente significativo da história.[64]

A crítica literária da Bíblia atravessa uma crise que aflige cronicamente toda a literatura. Por um lado, as antigas justificações para estudar literatura não mais parecem auto-evidentes. Por exemplo, não é claro que a literatura incremente a “disciplina mental”, uma justificativa usada no célebre Yale Report, que buscava desesperadamente justificar a exigência do estudo dos clássicos numa universidade contemporânea.[65]

A questão do cânone tornou-se muito mais polarizada, com outras vozes clamando por serem incluídas no cânone.[66] De qualquer maneira, justificar os estudos literários da Bíblia levanta uma série especial de problemas. Primeiro, os especialistas bíblicos fracassaram em apresentar uma justificativa coerente para considerar a literatura bíblica superior à de várias outras culturas. Quando lhes perguntam o que distingue a Bíblia de Shakespeare, Phyllis Trible, uma apologista feminista da Bíblia e presidente da Sociedade de Literatura Bíblica em 1994, poderia responder apenas que “Eu me pergunto a mesma coisa, e se eu tivesse uma resposta clara eu te diria.[67]

Segundo, a Bíblia tem sido estudada há muito mais tempo do que qualquer outro texto. Então por que investir qualquer minuto a mais neste texto quando ainda há vários outros por serem estudados? Se a Bíblia é privilegiada devido a suas pretensas lições morais, então por que não permitir que os vários textos antigos ainda desconhecidos pelo mundo contemporâneo também possam conter lições valiosas? Do mesmo modo, o mérito estético pode ser encontrado em vários textos antigos, e portanto a Bíblia também não pode ser privilegiada por esta razão.

Terceiro, a questão da relevância é particularmente delicada no que tange a textos antigos como a Bíblia. De que modo saber qualquer coisa sobre personagens bíblicos ou estruturas poéticas bíblicas nos ajuda a nos tornarmos pessoas melhores ou a resolver quaisquer problemas práticos no mundo atual? Esta é a razão pela qual a noção de que a Bíblia deve ser estudada por seu “valor intrínseco” também fracassa como outra característica indefinível e desprovida de sentido cujo única finalidade é manter o privilégio desse texto.[68]

Mas digamos que a literatura seja um componente vantajoso de nossa experiência humana, que deveria ser celebrado junto com as humanidades.[69] O problema é que tal justificativa negligencia como a Bíblia também tem sido deletéria para os seres humanos. Para cada página de Hamlet que podemos apreciar inocentemente há uma passagem da Bíblia que prontifica alguém a matar outro ser humano. Não se pode dizer isso de Hamlet. A diferença no efeito deletério também é um argumento importante para por um fim ao status privilegiado desfrutado pela Bíblia em qualquer cânone moderno.

Por fim, basta dizer que a beleza literária é subjetiva; pode-se defender que vários textos bíblicos são realmente feios; a Bíblia fracassa em satisfazer os padrões estéticos estabelecidos pelos próprios acadêmicos; outros textos também poderiam igualar ou exceder a Bíblia quando o mesmo critério de beleza é aplicado; a ética pode ser invocada para julgar alguns textos bíblicos como esteticamente defeituosos. Resumindo, a ênfase corrente sobre a estética e a análise literária torna-se simplesmente outro dispositivo apologético para manter o valor da Bíblia na sociedade contemporânea.[70]

Teologia Bíblica

Como outras disciplinas dentro dos estudos bíblicos, a teologia bíblica possui uma história complexa e controvertida.[71] Krister Stendahl, o ex-reitor da Harvard Divinity School, num artigo bastante citado do The Interpreter’s Dictionary of the Bible, afirma que os estudiosos deveriam distinguir entre “o que significou e o que significa”.[72] O pano de fundo de tal afirmação foi a conclusão de Stendahl de que a Bíblia é tão estranha à nossa cultura que somente a reinterpretação poderia mante-la viva. Jon Levenson também defende a legitimidade da “recontextualização” e da “reapropriação”, que afirma que um texto pode e deveria significar seja lá o que for que uma comunidade religiosa precise que ele signifique para se manter viva. Para Levenson, a recontextualização é legítima mesmo quando contradiz o que um autor pretendeu dizer a princípio. E tanto Levenson como Stendahl defendem que como as comunidades religiosas aplicam outros sentidos à Bíblia, é-lhes legítimo adotar este procedimento. Esta justificação pode ser expressa mais esquemeticamente como “As pessoas fazem X = As pessoas devem ser autorizadas a fazer X”.

Mas sob uma inspeção mais rigorosa, o próprio programa de reapropriação de Levenson traz consigo as sementes da destruição dos estudos bíblicos. Quando consideramos o sentido de um texto bíblico para as comunidades religiosas, duas posturas podem ser identificadas entre aqueles que acreditam que existe tal coisa como a intenção autoral:

A: A intenção autoral é a única coisa que importa

B: A intenção autoral não é a única coisa que importa

Se alguém escolhe A, então os estudos bíblicos são um fracasso monumental. Muitas vezes não dispomos de informações suficientes para determinar o que um autor quis dizer, mesmo se acreditamos que a intenção autoral importa e deveria ser o principal objetivo da interpretação. Se alguém escolhe B, então o único resultado é o caos e o relativismo que torna os estudos bíblicos acadêmicos irrelevantes e supérfluos. As comunidades religiosas não precisam de especialistas acadêmicos para esclarecê-los sobre qualquer contexto original a fim de manter a Bíblia viva para eles próprios. Assim sendo, qual é a finalidade dos estudos bíblicos acadêmicos neste caso? A resposta é que não há nenhuma finalidade, exceto talvez conservar os empregos e o status dos especialistas bíblicos.

De qualquer maneira, geralmente não é o caso que uma comunidade religiosa contemporânea reconheça que o Texto A possui um sentido original B, mas que o sentido B será desconsiderado ou contradito de modo que o Texto A possa assumir o sentido contemporâneo C, mas não porque é recontextualizado. Para eles, B = C. Os especialistas podem chamar esse procedimento de “recontextualização” porque concluíram em bases empírico-racionalistas que o sentido atribuído ao texto pelas comunidades religiosas atuais não corresponde ao original, mesmo quando as comunidades religiosas podem estar afirmando não uma reinterpretação, mas em vez disso uma continuidade na interpretação.

Mas tão logo o sentido contemporâneo é igualado ao original, não se trata de especialistas permitindo “outro sentido” mas antes um caso em que o racionalismo empírico entra em cena. Como tal, um especialista bíblico secular está perfeitamente correto ao concluir que uma comunidade atual está afirmando falsamente que “sentido contemporâneo = sentido original pretendido pelo autor”. Os seguidores do método histórico-crítico não seriam  mais monopolistas ou fundamentalistas neste caso do que se estivessem corrigindo alguém que afirmasse que 1=3.

Mesmo sob a hipótese de que a intenção autoral é irrelevante ou indeterminada, a posição de Levenson também conduziria ao argumento de que os estudos bíblicos deveriam terminar.[73] As consequências da posição de Levenson não diferem em nada de expulsar completamente esse texto antigo da vida contemporânea. Se o Texto A pode significar tanto B como não-B, então como não-B seria diferente de considerar o sentido B irrelevante para a vida contemporânea? Ainda mais importante, por que estamos despendendo quaisquer energias na determinação da história ou do sentido original?

John J. Collins, o presidente da Sociedade de Literatura Bíblica em 2002, certa vez observou: “A Bíblia foi escrita há muito tempo atrás e em outra cultura, vastamente diferente de nossa própria cultura.[74] No fim, os apelos de Levenson pela legitimidade da recontextualização apenas expõem o fato de que a Bíblia é tão estranha à vida contemporânea que só pode sobreviver se as pessoas fingirem que ela é algo diferente do que realmente é. O fato de que as pessoas se reapropriam das escrituras não é um argumento para que lhes seja permitido dar continuidade a este procedimento. Levenson nunca responde por que, afinal, deveríamos nos preocupar em nos reapropriar de tais textos considerando-se que existem inúmeros outros textos cujas vozes permanecem silenciosas e silenciadas pelos acadêmicos que poderiam muito bem ressuscita-los.

Apesar das alegações de rigor acadêmico e autocrítica crescente, todas as teologias bíblicas possuem uma coisa em comum: a bibliolatria. Elas podem não concordar sobre qual é o conceito central da Bíblia ou quantos conceitos há, mas todos concordam que a Bíblia é suficientemente valiosa para que seus conceitos sejam exaustivamente analisados com o objetivo de auxiliar os leitores. Nunca vemos uma teologia bíblica ou veterotestamentária dedicada a desprivilegiar o texto bíblico e em ajudar os seres humanos a superar suas seções antiquadas e degradantes.  Em vez disso, os teólogos bíblicos não poupam esforços para resgatar a Bíblia dela própria, enquanto alimentam a ilusão de que a teologia bíblica teria qualquer importância. Se isto é o melhor que a teologia bíblica tem a oferecer, então ela merece chegar ao mais ignominioso fim.[75]

Notas.

61. J. Cheryl Exum e David J. A. Clines, eds., The New Literary Criticism and the Hebrew Bible (Valley Forge, PA: Trinity Press International, 1993), 11.

62. Veja Edgar V. McKnight e Elizabeth Struthers Malbon, eds., The New Literary Criticism and the New Testament (Valley Forge, PA: Trinity Press International, 1994). Veja também Frank Lentricchia, After the New Criticism (Chicago: University of Chicago Press, 1981).

63. Robert Alter e Frank Kermode, eds., The Literary Guide to the Bible (Cambridge: Harvard University Press, 1987); Robert Alter, The Art of Biblical Narrative (New York: Basic, 1981) e The Art of Biblical Poetry (New York: Basic, 1985); Meir Sternberg, The Poetics of Biblical Narrative: Ideological Literature and the Drama of Reading (Bloomington: Indiana University Press, 1987).

64. Alter, The Art of Biblical Narrative, 189.

65. Para o Yale Report, veja Richard Hofstadter e Wilson Smith, American Higher Education: A Documentary History, 2 vols. (Chicago: University of Chicago Press, 1961), 1:289.

66. Para uma defesa de nosso “canône ocidental”, veja Harold Bloom, The Western Canon: The Books and Schoolfor the Ages (New York: Harcourt Brace, 1994); e Christian Kopff, The Devil Knows Latin: Why America Needs the Classical Tradition (Wilmington, DE: ISI Books, 1999).

67. Vejam a entrevista de Hershel Shanks com Phyllis Trible, “Wrestling with Scripture,” Biblical Archaeology Review 32, no. 2 (March/April 2006): 49.

68. Para um exemplo impressivo, veja Avalos, “Yahweh Is a Moral Monster,” in The Christian Delusion, 209–36.

69. Veja Peter Lamarque e Stein Haugom Olsen, Truth, Fiction, and Literature: A Philosophical Perspective (Oxford: Clarendon, 2002).

70. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 219–48 (e veja 289–342 para uma demonstração da inércia institucional e dos sórdidos interesses comerciais que também sustentam os estudos bíblicos).

71. Para levantamentos históricos básicos, veja John H. Hayes e Frederick C. Prussner, Old Testament Theology: Its History and Development (Atlanta: John Knox, 1985). Igualmente útil é Robert B. Laurin, ed., Contemporary Old Testament Theologians (Valley Forge, PA: Judson, 1970).

72. Krister Stendahl, “Biblical Theology, Contemporary,” in The Interpreter’s Dictionary of the Bible, ed. George A. Buttrick, et al. (Nashville: Abingdon, 1962), 1:420. Compare o ponto de vista de Stendahl com o de E. D. Hirsch, Validity in Interpretation (New Haven, CT: Yale University Press, 1967), 8: “Significado é o que é representado por um texto; é o que o autor pretendeu dizer ao utilizar uma sequência particular de signos. Significância, por outro lado, designa uma relação entre o significado e uma pessoa….”

73. Para as questões históricas e filosóficas envolvendo o coneito de “autoria” e intencionalidade autoral, veja Jed Wyrick, The Ascension of Authorship: Attribution and Canon Formation in Jewish, Hellenistic, and Christian Traditions (Cambridge, MA: Harvard University Department of Comparative Literature, 2004); Jeff Mitscherling, Tanya DiTommaso, and Aref Nayed, The Author’s Intention (Lanham, MD: Lexington, 2004).

74. John J. Collins, Encounters with Biblical Theology (Minneapolis: Fortress, 2005), 7.

75. Para demonstrações e discussões adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 249–88.

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por Hector Avalos

Crítica Textual

A Crítica Textual é a disciplina acadêmica que busca reconstruir com a máxima verossimilhança possível a versão original de qualquer obra escrita específica.[28] Tal disciplina, portanto, não se restringe à Bíblia. A maioria das obras famosas da Antiguidade não foi preservada intacta. Ao contrário da maioria das obras da Antiguidade, contudo, a crítica textual da Bíblia acarreta consequências teológicas e morais cruciais para os que acreditam que devem possuir um registro acurado da palavra de Deus para guiar e conduzir suas vidas.[29]

No entanto, nas décadas recentes houve alguns destacados críticos textuais preocupados com a sobrevivência deste campo. Em 1977, Eldon J. Epp, um eminente crítico textual do Novo Testamento e o ocupante do cargo de presidente da Society of Biblical Literature em 2003, escreveu:

As razões para esta recente e acelerada erosão do campo da crítica textual [do Novo Testamento] são obscuras. O fenômeno tornou-se nítido em pouco mais de uma década. Se o desaparecimento de oportunidades para estudos universitários na área são uma causa ou um sintoma de tal erosão não é algo claro, embora não haja dúvidas de que sem estas oportunidades o futuro desta discplina nos EUA não pareça brilhante e haja pouca esperança de sobrevivência.[30]

Os resultados do trabalho dos críticos textuais destroem qualquer alegação de que a Bíblia tenha sido transmitida fielmente a partir de qualquer texto original.[31] Computadores poderosos tem facilitado muito a tarefa de organizar as variações, embora ainda existam grandes problemas com a determinação até mesmo de quantas leituras variantes existem. No entanto, são justamente estes progressos e as novas descobertas que tornam o objetivo geral da crítica textual – se por isto entendemos encontrar o texto original ou fornecer aos fiéis  algum registro intacto da palavra de Deus – completamente obsoleto. A crítica textual, na verdade, ajudou a destruir qualquer noção de que alguma vez existiu uma entidade estável chamada “a Bíblia”.

O fato mais importante a se considerar na tentativa de reconstruir um “original” é que não possuímos o autógrafo de qualquer um dos livros que compõem a Bíblia [isto é, o primeiro manuscrito saído das mãos do próprio autor(a)], e este fato decisivo é reconhecido mesmo pelos mais intransigentes apologistas religiosos. Isto significa que tudo o que temos são cópias dos originais, de modo que geralmente não podemos reconstruir um autógrafo antigo que não mais está disponível – tampouco reconheceríamos o autógrafo mesmo se o encontrássemos. O “texto original” não passa de uma miragem a menos que tenhamos acesso ao processo de transmissão completo, desde a primeira edição até a versão corrente. Tal acesso é algo que não temos, e provavelmente jamais teremos no caso da Bíblia.

Podemos ilustrar o problema de forma bem simples. Imagine que dispomos de seis manuscritos sobreviventes chamados de A, B, C, D, E e F, os quais são relacionados a um original hipotético X. X poderia ser o autógrafo, o texto original saído das mãos do próprio autor, e do qual todas as cópias subsequentes derivam. Talvez possamos concluir plausivelmente que A, B e C derivam da mesma fonte porque seu vocabulário é bastante similar. Por exemplo, apenas esses três compartilham a mesma expressão hipotética (“selo de Deus”), ao contrário de D, E e F, nos quais a expressão “cordeiro de Deus” ocorre nos trechos correspondentes do texto. Assim, podemos concluir razoavelmente que, A, B e C devem ter um antígrafo (isto é, a fonte escrita presumida por trás de qualquer cópia) com as palavras “selo de Deus”. Igualmente, podemos plausivelmente concluir que as cópias D, E e F devem remeter a um antígrafo diferente que possui a expressão “cordeiro de Deus”.

Entretanto, como ambos os antígrafos diferem em pelo menos uma leitura (“cordeiro de Deus” versus “selo de Deus”), seria difícil decidir qual deles seria “o original”. Na verdade, suas variantes nos dizem que eles devem ter sido copiados de um antígrafo ainda mais antigo a partir do qual as cópias subsequentes divergiram. Mesmo se alguém reconstruísse X como a fonte por trás de ambos os presumidos antígrafos, isso não mostra que o manuscrito X é o autógrafo. Por quê? Porque o próprio X poderia ser uma cópia de outro antígrafo que não deriva diretamente do “original”. Como poderíamos saber?

A crítica textual fez contribuições importantes para nossa compreensão da Bíblia. Entretanto, essas contribuições proclamaram o fim da crítica textual. Historicamente, o objetivo principal da crítica textual da Bíblia era reconstruir o texto original. A crítica textual mostrou que isto é impossível. Portanto, neste sentido, a crítica textual chegou ao fim. A crítica textual da Bíblia tornou-se mais do que nunca um passatempo elitista cujos praticantes terão dificuldades em convencer os contribuintes e os dizimistas a continuarem custeando um empreendimento cujos resultados trazem tanta satisfação quanto a resolução de sudokus, mas que em contrapartida beneficiam muito pouco qualquer outra pessoa (além do próprio crítico textual).

Arqueologia Bíblica

A arqueologia bíblica jaz em ruínas, seja literalmente, socialmente ou metaforicamente[32]. A arqueologia bíblica já foi uma área capital e até mesmo glamorosa dentro dos Estudos Bíblicos; no entanto, atualmente até mesmo alguns de seus mais destacados expoentes estão proclamando sua morte. Em 1995, William G. Dever, um decano da arqueologia do antigo Israel, declarou que “a arqueologia bíblica e a sírio-palestina são disciplinas moribundas; e arqueólogos como eu que dedicaram toda uma carreira a esta profissão sentem-se como os últimos exemplares de uma espécie em extinção.[33] Em 2006, Ronald Hendel, um professor de Bíblia Hebraica da University of California em Berkeley, observou que “a Arqueologia Bíblica não mais existe atualmente com o mesmo vigor outrora ostentado.[34]

Para ser justo, Dever e Hendel estão falando da arqueologia “bíblica” no sentido de uma arqueologia orientada para a corroboração da historicidade da Bíblia. O próprio Dever já defendeu a expressão mais abrangente “arqueologia sírio-palestina”, embora atualmente sua terminologia seja mais diversificada. De qualquer maneira, parte do problema reside no fato de que o próprio estudo da história bíblica, que tem estado estreitamente vinculado à arqueologia bíblica, tem estado cada vez mais sob fogo cerrado. Nas palavras de Dever, “se a história real do mundo bíblico deixa de ter importância, então sua arqueologia é claramente irrelevante.[35]

Provavelmente existiu uma entidade chamada “Israel” pelos egípcios na época de Merneptah (cerca de 1210 AEC), mas não é claro se já nesta época “Israel” era uma autodesignação. Localizar geograficamente este grupo ou território nas estepes da Transjordânia é tão plausível quanto situa-lo nas montanhas a oeste do rio Jordão. Se “Israel” via-se como parte de Canaã ou como parte de algum grupo canaanita mais amplo não está claro a essa altura. “Israelita” é uma designação tão apropriada para o povo que habitou o país montanhoso durante a assim chamada Idade do Ferro I quanto “cananita” ou a designação de qualquer outro povo que segundo os textos bíblicos viveu naquelas terras altas.

Também não há provas independentes da existência de reino governado por Salomão, de modo que é assim que temos que deixar essa alegação – inconclusiva. Os portões em Gezer, Hazor e Megido não mencionam nenhum Salomão. Em termos da luz jogada sobre a religião dos “israelitas”, Dever expressou-se corretamente quando escreveu em 1983 que a “a contribuição da arqueologia tanto de apelo ‘bíblico’ como ‘secular’ foi, sob qualquer aspecto básico, escassa e precária para nossa compreensão do verdadeiro culto do antigo Israel.[36]

Dentro da História Deuteronômica, é razoável, baseando-se na corroboração independente fornecida por documentos assírios e babilônicos, acreditar na existência dos seguintes reis:[37]

Reino do Norte (Israel)                                               Reino do Sul (Judá)

Omri (ca. 885–874 BCE)                                                 Hezekiah (725–696 BCE)

Ahab (ca. 874–853 BCE)                                                Manasseh (696–642 BCE)

Jehu (ca. 841–790 BCE)                                                 Jehoiachin (605–562 BCE)

Joash (ca. 805–790 BCE)

Menahem (ca. 740 BCE)

Pekah (ca. 735 BCE)

Hoshea (ca. 730–722 BCE)

Em geral, esta é um resultado pífio para qualquer espécie de “história bíblica” quando comparada à de vários de seus vizinhos no Oriente Próximo.

A arqueologia bíblica ajudou a enterrar a Bíblia, e os arqueólogos sabem disso. Ronald Hendel estava perfeitamente correto quando disse que “a pesquisa arqueológica – contrariando as intenções de muitos de seus profissionais – assegurou a não-historicidade de muito da Bíblia anterior à Era dos Reis.[38] Podemos agora expandir a observação de Hendel e afirmar que não também há muita história para ser encontrada na Era dos Reis.

Assim, a arqueologia bíblica ainda tem alguma importância? Como a arqueologia fracassou em revelar a relevância histórica da Bíblia, a arqueologia bíblica não somente deixou de ser relevante, como na verdade deixou de existir como a conhecíamos. Em vez de revelar a história bíblica, a arqueologia forneceu um argumento fundamental para ir além da própria Bíblia. Se a arqueologia bíblica tem que subordinar-se à teologia para voltar a ser relevante (Nota do Tradutor: como propõe Alvin Plantinga), seus dias como uma área acadêmica secular estão contados. De qualquer maneira, a arqueologia bíblica terminou em ruínas – literalmente, socialmente e metaforicamente.

Notas.

28. Também há outras definições. Emanuel Tov (em Textual Criticism of the Hebrew Bible, 2nd ed. [Minneapolis: Fortress; Assen: Royal Van Gorcum, 2001], 1) diz: “A crítica textual lida com a origem e a natureza de todas as formas de um texto, em nosso caso o texto bíblico.

29. Para os objetivos e agendas da crítica textual de obras da Antiguidade não-bíblicas, veja James E. G. Zetzel, Latin Textual Criticism in Antiquity (New York: Arno Press, 1981); Rudolf Pfeiffer, History of Classical Scholarship from the Beginnings to the End of the Hellenistic Age (1968), e L. D. Reynolds e N. G. Wilson, Scribes&Scholars: A Guide to the Transmission of Greek&Latin Literature, 3ª ed. (1991). Sobre os objetivos e métodos da crítica textual contemporânea: Paul Maas, Textual Criticism (Oxford: Clarendon, 1958).

30. Eldon J. Epp, “New Testament Textual Criticism in America: Requiem for a Discipline,” Journal of Biblical Literature 98 (1979): 97. Este ensaio é uma versão impressa da uma palestra proferida em 1977 no Encontro Anual da Society of Biblical Literature.

31. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 65–108.

32. Para discussões e demonstrações adicionais deste ponto, veja Avalos, End of Biblical Studies, 109–84.

33. William G. Dever, “Death of a Discipline,” Biblical Archaeology Review 21, no. 5 (September/October 1995): 50–55, 70; a citação encontra-se na pág. 51. Para um tratamento mais abrangente do término da arqueologia bíblica, veja Thomas W. Davis, Shifting Sands: The Rise and Fall of Biblical Archaeology (New York: Oxford University Press, 2004).

34. Ronald S. Hendel, “Is There a Biblical Archaeology?” Biblical Archaeology Review 32, no. 4 (July/August 2006): 20.

35. Dever, “Death of a Discipline,” 53. Os itálicos são de Dever. Para uma visão mais otimista da arqueologia em áreas não vinculadas à Bíblia ou ao Antigo Israel, veja Brian Fagan, “The Next Fifty Years: Will It Be the Golden Age of Archaeology?” Archaeology 59, no. 5 (Setembro/Outubro 2006): 18–23. Tenha ou não agido intencionalmente, Fagan alude apenas marginalmente à territórios remotamente relacionados à Bíblia (por exemplo, Egito e Mesopotâmia), e não diz nenhuma palavra especificamente sobre a arqueologia bíblica.

36. William G. Dever, “Material Remains and the Cult in Ancient Israel: An Essay in Archaeological Systematics,” in The Word of the Lord Shall Go Forth: Essays in Honor of David Noel Freedman in Celebration of His Sixtieth Birthday, ed. Carol L. Meyers and M. O. Connor (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1983), 571.

37. A lista e as datas aproximadas foram adaptada a partir de Halpern, “Erasing History,” Bible Review 11, no. 6 (1995): 30.

38. Hendel, “Is There a Biblical Archaeology?” 20.

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Autor: Hector Avalos, PhD [1]

Fonte: The End Of Christianity, págs. 107-129 (John W. Loftus, ed., Prometheus Books, 2011)

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

Sumário:

1. Introdução

2. Traduções

3. Crítica Textual

4. Arqueologia Bíblica

5. O Jesus Não-Histórico

6. Crítica Literária

7. Teologia Bíblica

8. Conclusão

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1. Introdução

A única missão dos estudos bíblicos deveria ser colocar um ponto final nos estudos bíblicos como os conhecemos. Esta série explicará porque eu cheguei a tal conclusão. Para nossos propósitos, podemos sumarizar nossa defesa do fim dos estudos bíblicos como os conhecemos com duas premissas principais:

  1. O corpo de conhecimentos relativos à Bíblia acumulados até hoje demonstra que a Bíblia é o produto de culturas cujos valores e crenças sobre a origem, a natureza e o próposito de nosso mundo não mais são considerados relevantes, mesmo pela maioria dos cristãos e judeus.
  2. Paradoxalmente, apesar do reconhecimento de tal irrelevância, a profissão de especialista em estudos bíblicos ainda é centrada em manter, por meio de uma série de disciplinas eruditas cujos métodos e conclusões são muitas vezes filosoficamente inválidas (por exemplo, tradução, crítica textual, arqueologia, história e teologia bíblica), a ilusão de que tais crenças e valores ainda são relevantes.

A primeira premissa reconhece que de fato descobrimos muitas informações novas sobre a Bíblia. Os Manuscritos Do Mar Morto e a vasta quantidade de tesouros arqueológicos do Oriente Próximo antigo encontrados nos últimos 150 anos assentaram a Bíblia firmemente em seu contexto cultural original. Entretanto, são essas mesmas descobertas que mostram que a Bíblia é irrelevante na medida em que é parte de um mundo radicalmente diferente do nosso em sua concepção dos cosmos, do sobrenatural e do senso de moralidade humano.

“Irrelevante”, aqui, refere-se a um conceito ou prática bíblica que não mais é visto como dotado de valor, aplicável e/ou ético. Portanto, ao passo que a maioria dos americanos hoje considera o genocídio condenável, tal não era o caso em vários textos bíblicos. Na verdade, Michael Coogan, um respeitado estudioso da Bíblia, admite que algumas práticas bíblicas são tão objetáveis hoje que as igrejas tentam ocultar partes da Bíblia de seus membros. Nas palavras de Coogan:

Conspicuamente ausentes dos lecionários estão a maior parte ou mesmo a totalidade de livros como Josué, com seu relato do violento extermínio dos habitantes da terra de Canaã por ordem divina, ou Juízes, com suas horripilantes narrativas envolvendo patriarcalismo e agressões sexuais nos capítulos 11 e 19 – para não mencionar o Cântico de Salomão, com seu carregado erotismo, ou o livro de Jó, com seu desafio radical à visão bíblica dominante de um Deus justo e zeloso.[2]

De maneira similar, nossas instituições médicas contemporâneas eliminaram as explicações sobrenaturais para as doenças encontradas na Bíblia, tornando irrelevantes tais explicações. Eis mais alguns exemplos de “descobertas” científicas e eruditas que oferecem evidências adicionais da irrelevância da Bíblia:

  • Embora a ciência contemporânea tenha demonstrado o contrário, alguns autores bíblicos mantinham que o universo foi criado em apenas seis dias[3];
  • Apesar da importância atribuída pelos teólogos às palavras e feitos dos grandes personagens da Bíblia (Abraão, Moisés e Davi), as pesquisas sugerem que estas figuras não são tão “históricas” como se pensava.[4]
  • Não existem evidências independentes da vida ou dos ensinamentos de Jesus no primeiro século EC, o que significa que a maioria dos cristãos contemporâneos nem mesmo estão seguindo os ensinamentos de Jesus.[5]
  • Os autores bíblicos em geral acreditaram que as mulheres eram subordinadas aos homens.[6]

Mesmo quando várias pessoas no mundo atual ainda adotam ideias bíblicas (por exemplo, o criacionismo), isto ocorre em parte porque os estudiosos da Bíblia não são suficientemente eloquentes ao criticar crenças bíblicas obsoletas. Em vez disso, tais especialistas concentram-se na manutenção do valor do texto bíblico na sociedade atual.

Um caso em questão é o artigo de Daniel J. Estes publicado no Bibliotheca Sacra, um conceituado periódico cristão evangélico.[7] Estes também está preocupado com a questão da irrelevância; ele até mesmo desenvolveu uma “escala” para medir a relevância dos ensinamentos bíblicos. Algo próximo à extremidade zero seria considerado obsoleto, ao passo que algo próximo a dez seria considerado uma diretiva que os cristãos ainda devem seguir.

Ele então oferece o exemplo da lei das primícias em Deuteronômio 26:1-11, que ordena aos israelitas irem até um local escolhido por Javé para entregarem ao sacerdote os primeiros frutos de sua estação de colheitas. Estes coloca esta lei próxima do zero na escala (preceitos obsoletos) porque, entre outras coisas, em sua maioria os cristãos de hoje não são agricultores, tampouco reconhecem um lugar central escolhido por Javé.

Estes reconhece que “nenhum destes ítems específicos possui um correspondente exato na identidade e na experiência dos fiéis cristãos hoje… Várias das prescrições legais do Antigo Testamento pertencem a esta categoria, incluindo, por exemplo, a regulamentações dietéticas[8] Quando pressionado a encontrar exemplos de “total continuidade” entre o público bíblico original e o público cristão atual, Estes admite que “exemplos indiscutíveis de continuidade total entre os dois públicos são relativamente raros[9]

John Bright, considerado um dos mais destacados acadêmicos americanos do último século no campo dos estudos bíblicos, refletiu um sentimento parecido em relação aos anos sabáticos e do jubileu em Levítico 25, quando observou que “as regulamentações lá descritas são obviamente de tão pouca aplicação no contexto atual que um pastor pode ser perdoado se disser a si próprio que a passagem não contém absolutamente nenhuma mensagem relevante para seu rebanho.[10] Na verdade, se fôssemos percorrer versículo por versículo, suspeito que ninguém sentiria falta de 99 porcento da Bíblia, na medida em que ela reflete várias práticas, injunções e ideias não mais aplicáveis do que as contidas em Levítico 25.

Nossa segunda premissa principal é que, apesar de reconhecerem esta irrelevância, os acadêmicos especialistas em estudos bíblicos, de maneira paradoxal e corporativista, promovem a ilusão de que a Bíblia é relevante. Almeja-se, com a manutenção desta ilusão, fazer os fiéis pensarem que possuem “A Bíblia” quando tudo o que eles realmente tem é um livro construído por uma elite de estudiosos contemporâneos. De modo que mesmo se 99.9 porcento dos cristãos modernos disserem que a Bíblia é relevante para eles, tal relevância é baseada em sua hipótese ilusória de que as versões contemporâneas de fato refletem a “Bíblia” original em alguma medida.[11] Promover a ilusão da relevância serve para justificar a própria existência da profissão de especialista em estudos bíblicos, e pouco mais do que isso.

Nosso argumento é que não há realmente nada em todo o livro que os cristãos chamam de “Bíblia” que seja minimamente mais relevante do que qualquer outra coisa escrita no mundo antigo. A minha visão dos estudos bíblicos é explicitamente humanista secular. Os estudos bíblicos como os conhecemos deveriam terminar. Deveríamos agora tratar a Bíblia como o documento bárbaro que é, não mais importante do que outras obras literárias que ignoramos diariamente. Os estudos bíblicos deveriam ser utilizados para ajudar a humanidade a romper seu vínculo com a Bíblia e solapar completamente sua autoridade no mundo contemporâneo. Então, a atenção poderia ser dirigido aos milhares de outros textos antigos ainda não traduzidos e não lidos. Um dia, a Bíblia pode até mesmo ser vista como uma das curiosidades de uma trágica era bibliólatra, quando a dependência em relação a um texto acarretou misérias inauditas e representou um obstáculo ao progresso humano. Podemos então estudar a Bíblia como uma lição sobre porque os seres humanos não deveriam jamais privilegiar qualquer livro nesta extensão.

Eu sustento que as principais subdisciplinas dos estudos bíblicos tiveram êxito em demonstrar que a Bíblia é o produto de culturas cujos valores e crenças sobre a origem, a natureza e o propósito de nosso mundo não mais são consideradas relevantes, mesmo pela maioria dos cristãos e judeus. Estas subdisciplinas incluem a tradução, a crítica textual, a história e a arqueologia bíblicas, a crítica literária e a teologia bíblica.

Notas.

1. Esta série foi extraída pelo editor (John W. Loftus) do livro de Hector Avalos The End of Biblical Studies (Amherst, NY: Prometheus Books, 2007), com pequenas edições e o acréscimo de algumas notas de rodapé. Usado com permissão do autor.

2. Michael Coogan, “The Great Gulf between Scholars and the Pew,” in Biblical Studies Alternatively: An Introductory Reader, ed. Susanne Scholz (Upper Saddle River, NJ: Prentice Hall, 2003), 7. Vinte e quatro passagens bíblicas demonstrando este ponto podem ser conferidas em http://sites.google.com/site/thechristiandelusion/Home/the-will-of-god.

3. E que a Terra é plana e o céu é sólido e sustentado por pilares: veja Ed Babinski, “The Cosmology of the Bible,” em The Christian Delusion, ed. John Loftus (Amherst, NY: Prometheus Books, 2010): 109–47.

4. Veja por exemplo: Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts (New York: Basic, 2001); Thomas Thompson, The Historicity of the Patriarchal Narratives: The Quest for the Historical Abraham (Harrisburg, PA: Trinity Press International, 2002); e sumários e fonts em Paul Tobin, “The Bible and Modern Scholarship,” em Loftus, The Christian Delusion, 148–80.

5. Veja por exemplo: Bart Ehrman, Jesus Interrupted: Revealing the Hidden Contradictions in the Bible (and Why We Don’t Know about Them) (New York: HarperOne, 2009); Gerd Ludemann, Jesus After 2000 Years (Amherst, NY: Prometheus Books, 2001); Gerd Theissen e Annette Merz, The Historical Jesus: A Comprehensive Guide (Minneapolis: Fortress, 1996); Robert Funk and Roy Hoover, The Five Gospels: The Search for the Authentic Words of Jesus (New York: Maxwell Macmillan, 1993).

6. Por exemplo: Genesis 3:16; 1 Coríntios 14:33–35; 1 Timóteo 2:8–15.

7. Daniel J. Estes, “Audience Analysis and Validity in Application,” Bibliotheca Sacra 150 (April-June 1993): 219–29.

8. Ibid., 224.

9. Ibid.

10. John Bright, The Authority of the Old Testament (Nashville: Abingdon, 1967), 152. Para uma tentativa desesperada e completamente insatisfatória de defender que as leis do Antigo Testamento ainda são relevantes, veja Joe M. Sprinkle, Biblical Law and Its Relevance: A Christian Understanding and Ethical Application for Today of the Mosaic Regulations (Lanham, MD: University Press of America, 2006).

11. Abstemo-nos de dizer “100 porcento” porque há uma minoria de acadêmicos cristãos cientes de que as Bíblias contemporâneas são construções que guardam pouca semelhança com “o original”.

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por Jaco Gericke

As pessoas que escreveram o Antigo Testamento também cometeram o erro fatal de construir Javé com o que hoje em dia nos parece um perfil psicológico (cognitivo, conativo e afetivo) repugnante.[12]

Antes de mais nada, a mente do deus da Bíblia exibe um compêndio de conhecimentos demonstravelmente errôneos. Quando Javé fala na primeira pessoa nos textos do Antigo Testamento, a divindade é muitas vezes retratada fazendo pronunciamentos que incluem referências a fenômenos históricos, cosmográficos, geográficos, biológicos e de outros tipos que atualmente sabemos não serem factuais. O que denuncia a origem demasiado humana da mente divina é o simples fato de que as idéias que Javé contempla acerca da realidade dificilmente vão além das superstições e concepções errôneas dos sistemas de conhecimento autóctones das pessoas que o adoravam.[13]

De modo que o próprio Javé acredita que o universo foi criado literalmente ao longo de um período de seis dias (Exo. 31:17) e que há um oceano acima das estrelas, por trás do firmamento, de onde vem a chuva que cai sobre a terra (Gen. 1:6; Jó 38:34).[14] Ele também acredita que os continentes da terra flutuam sobre água (Deut. 5:8; Salmos 24:2) e que existe literalmente um lugar subterrâneo onde os mortos vivem como sombras agrupados por suas nacionalidades (Num. 16:23-33; Deut. 32:22; Jó 38:16-17; Isa. 7:11; Ez. 26:19:20; 32:18-32; Amós 9:2). Javé também acredita em criaturas míticas como o Leviatã, o Behemoth, o Rahab, monstros marinhos, dragões voadores, demônios rurais, espíritos noturnos malévolos, etc. (confira em Jó 40–41; Isa. 30:6; Lev. 17:7; Isa. 34:14; Amós 9:3; etc.). Ele assume até mesmo que os pensamentos brotam do coração e as emoções dos rins (Jer. 17:12; etc.)

Javé também acredita na historicidade de Adão, Noé, Abraão, Moisés e Davi, conforme retratados nas tradições bíblicas, no mínimo de acordo com os textos em que ele lhes fala diretamente e nas histórias subsequentes em que seu personagem alude retrospectivamente a eles como se fossem pessoas reais (veja, por exemplo, Ez. 14). Mas se estas pessoas conforme retratadas são ficções (como os estudiosos já estabeleceram), como poderia Javé – falando a personagens fictícios e aludindo a eles como se fossem parte da realidade – não ser ele próprio fictício? Certamente tais crenças factualmente errôneas mantidas por Javé demonstram que este deus não pode existir conforme é retratado.[15] Mesmo se insistirmos que o que encontramos nestes textos são simplesmente as crenças errôneas de humanos e não os próprios pensamentos de um deus, teremos perdido quaisquer fundamentos para acreditar que o personagem Javé possui alguma contraparte extratextual. Em todo caso, quem seria Javé sem Adão, Abraão ou Moisés conforme retratados nos textos?

Mas há mais acerca da mente divina que parece bastante absurdo. Não são somente as crenças de Javé acerca do mundo que as vezes parecem demasiado humanas. A divindade também exibe desejos e necessidades demasiado humanos a cuja satisfação ele se dedica obsessivamente. Assim, poucas pessoas param e questionam porque Deus, também conhecido como Javé, deve ter um povo para governar (Êxodo 19:6; Deut. 4:19; 32:8-9) e se empenha arduamente para manter uma reputação baseada em concepções dos valores da honra e da vergonha  cultivados no Oriente Próximo antigo (Deut. 32:26-27; Mal.1-3). Javé preocupa-se muito em manter seu nome em segredo (Gen. 32; Êxodo 6; Juízes 16; etc.) e, como um membro da nobreza aristocrática, prefere ter sua morada num local bem elevado e distante, acima da sociedade humana, de modo a não ser perturbado pelos mortais (Gen. 11,18; Exodo 24, etc.). Javé precisa limitar seu contato direto e pessoal com a população em geral e, na maior parte das vezes, prefere agir através de mediadores, agentes, mensageiros e exércitos. Ele aprecia e exige ser temido (Êxodo 20:19-20; Jó 38-41). Mais do que qualquer outra coisa, Javé anseia por ser adorado e ser constantemente lembrado do quão grande, poderoso e prodigioso ele é (Isa. 6:2-3; etc.).

Considere este último exemplo: o desejo de Javé de ser adorado. Várias pessoas presumem esta necessidade em Deus mas nunca se incomodam em perguntar por que Deus deseja – ou melhor, exige – ser adorado. Uma coisa é se as criaturas, reverentes a seu criador, irrompem espontaneamente em louvores, “não se eximindo de uma espécie de cômica gratidão pelo prodigioso fato de serem, não importa quão grande desventura as assole” . Outra coisa completamente diferente é se o criador deveria ser concebido como alguém que premeditou a formação de criaturas cujo único e exclusivo propósito é lembra-lo perpetuamente do quão excelente e poderoso e benevolente ele é (Isa. 6). Quero dizer, é realmente verossímil acreditar que a realidade última é uma pessoa tão narcisista e ególatra que precisa prescrever em minuciosos detalhes exatamente como deseja ser adorado? Por que admitimos tão ingenuamente a idéia de um deus tão absorto em si próprio a ponto de ameaçar destruir qualquer um que se desvie minimamente de suas instruções? Veja o grau de detalhamento nos capítulos 25 a 40 do livro do Êxodo em relação à mobília e à construção do tabernáculo e os pormenores dos rituais. Tamanha obsessão controladora pode ser explicada somente postulando por trás dela uma projeção do desejo humano por ordem e controle. Como Don Cupitt observa (aludindo a um comentário de Harold Bloom):

O deus da Bíblia Hebraica é como um meninão sinistro e poderoso , um peralta sublime, endiabrado e custoso. Ele se assemelha a Lear e o superego freudiano em ser um Pai demoníaco e perseguidor, inteiramente desprovido de auto-conhecimento e muito relutante até mesmo em aprender qualquer coisa. Como os personagens humanos com que interage, sua consciência se altera continuamente. Ele manifesta a pura força e energia do Devir. Ele é a Vontade de Poder nietzscheana, abrupta e incontrolável, e não submissa a nada nem a ninguém.[16]

O fato de as alegadas necessidades do próprio Javé assemelharem-se perturbadoramente às necessidades historica e culturalmente condicionadas dos “poderes estabelecidos” conhecidos por seus adoradores é melhor explicado concebendo a mente de Javé representada nos textos particulares como o produto de projeções humanas de autocratas inebriados pelo poder que lhes eram familiares sobre um monarca cósmico imaginário. Como governantes humanos paranóicos exibiam estas características, os antigos raciocinaram que, se o próprio cosmos é uma monarquia com um rei (super)humanóide no trono, ele pode ser tão fútil, despótico e carente de atenção quanto qualquer monarca secular (embora tão hábil quanto na manutenção de sua popularidade por atos ocasionais de caridade e boa vontade quanto suas contrapartes terrestres). Quem correria o risco? Melhor prevenir do que remediar.

De qualquer maneira, sabemos que _ se é que sabemos alguma coisa _ o universo não é um galinheiro cujo posto mais alto na hierarquia das bicadas é ocupado por um rei com o perfil psicológico de um imperador do Oriente Próximo antigo narcisista e bipolar dirigindo todo o espetáculo. Podemos ver claramente o absurdo de se imaginar a existência de um deus cujo perfil psicológico exibe desejos humanos culturalmente relativos e historicamente contingentes. Observe também que nenhuma destas características psicológicas divinas foram compreendidas em seus contextos bíblicos como sendo meras representações metafóricas ou o resultado de uma suposta “adaptação” divina.[17] Tampouco podem estas características serem racionalizadas e completamente explicadas como o produto da representação “antropopática” deliberada e intencional de alguma coisa que na realidade é presumivelmente inefável. Estas maneiras de considera-las surgem apenas quando precisamos reprimir o fato de não mais acreditarmos em Deus, também conhecido como o deus da Bíblia.

Um terceiro e último aspecto da representação da mente de Deus parece igualmente absurdo. Encontramos no perfil psicológico de Javé valores morais que o deus considera serem eterna e universalmente normativos mas que são obviamente tabus culturais locais. Análoga à desconcertante maneira em que o conhecimento de Javé acerca do mundo nunca ultrapassa o de seus redatores de discuros, assim, também, a ética divina parece perturbadoramente similar à moralidade projetada de um povo mergulhado em superstição.

Por exemplo, considere o desejo divino por sacrifícios. Quando você reflete sobre isso, tudo se resume à idéia de um criador que espera que algumas de suas criaturas (humanas) matem e queimem outras criaturas de um certo tipo (animais) a fim de prover o sustento divino (Javé aprecia o cheiro de churrasco, de acordo com Lev. 1:6) e para expiar a culpa (Lev. 1-7). Que tal o fato de que Javé acredita que dar à luz uma garota deixa a mãe impura por um período duas vezes maior do que quando ela dá à luz a um varão (Lev. 12:4-5)? E por que Javé considera moralmente errado a utilização de duas matérias-primas diferentes na confecção de roupas, ou que os campos sejam semeados com duas variedades diferentes de sementes (Lev. 19:19)? Por que Javé acha os processos fisiológicos humanos objetivamente ofensivos, quando ele os criou (Lev. 12)? Por que alguns animais são considerados abominações horrendas, mesmo por seu próprio criador (Lev. 11; Deut. 14)?

O código moral de Javé assemelha-se demais ao que os humanos das antigas culturas do Oriente Próximo já consideravam ser o caso – muito antes que a religião de Javé desse seus primeiros passos. O Javeísmo e seus tabus são retardatários na história das religiões, e muitas das crenças morais contidas em seu sistema de valores podem ser rastreadas em outras religiões pagãs que precedem seu aparecimento em Israel e Judá (a circuncisão e os tabus referentes ao porco já eram práticas estabelecidas no Egito, por exemplo).[18] Assim, “Deus” e os mandamentos divinos tem uma história que entrega o jogo. Vários religiosos fundamentalistas podem não estar muito perturbados por isso porque consideram as leis de culto obsoletas – mesmo que Javé nunca tenha contemplado sua revogação. Tais cristãos estão apenas reprimindo o fato de que eles próprios não mais acreditam em Javé, que entrementes foi atualizado para alguma coisa mais intelectualmente verossímil. Na verdade, toda a teologia cristã não passa de ateísmo javeísta.

(…continua…)

Notas.

12. Para uma discussão mais detalhada e evidências desta projeção polimórfica, veja Gericke, “Yahwism and Projection,” 418–22; veja também o capítulo 6 escrito por Valerie Tarico no livro The End of Christianity, “Why the Biblical God is Hopelessly Human.”

13. Este ponto foi concisamente discutido em Harwood, Mythology’s Last Gods.

14. Para mais exemplos desta ignorância cosmológica exibida no Antigo Testamento (correspondendo exatamente às mesmas crenças coincidentemente mantidas pelas sociedades pagãs ao redor, veja Ed Babinski, “The Cosmology of the Bible,” The Christian Delusion, ed. John Loftus (Amherst, NY: Prometheus Books, 2010): 109–47.

15. Sobre a inexistência destes personagens, veja o capítulo 4 de The End of Christianity, escrito por Hector Avalos, Por Que Os Estudos Bíblicos Devem Terminar, e a discussão e as conclusões dos estudos citados em Paul Tobin, “The Bible and Modern Scholarship,” em Loftus, The Christian Delusion, 148–80.

16. Don Cupitt, After God: The Future of Religion (London: SCM Press, 1997), 45.

17. Para uma introdução à teologia do “ser menos que perfeito” do Antigo Testamento, não obstante uma apresentação demasiado otimista completamente ignorante do lado negro de Javé, veja Terrence E. Fretheim, The Suffering of God: An Old Testament Perspective (OBT 14, Philadelphia: Fortress Press, 1984). Para 24 exemplos desse negligenciado lado negro, veja “The Will of God” no compêndio online The Christian Delusion: http://sites.google.com/site/thechristiandelusion/Home/the-will-of-god.

18. Sobre o quão suspeita é a semelhança entre os códigos legais de Javé no Antigo Testamento e os códigos feitos pelos habitantes humanos das culturas pagãs das vizinhanças quando o Antigo Testamento foi escrito, veja Hector Avalos, “Yahweh Is a Moral Monster,” em Loftus, The Christian Delusion, 209–36.

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